Guilty Pleasure

14 Capítulo 12 - Mercy


Notas iniciais
Já faz um longo tempo, hein?! Espero que um capítulo gigantesco compense por isso! Ou se não compensar mil desculpas por ter me deixado levado e ter escrito esse testamento. Mas o que posso dizer? A fic tem vida própria e as vezes aparecem uns personagens que exigem um espacinho para contar suas histórias... Enfim, para quem não viu ainda eu finalmente finalizei o trailer da fic que curiosamente é com a mesma trilha sonora desse capítulo: https://youtu.be/UKx8DZrMJzE Comentários do capitulo anterior começarão a ser respondidos, vou ter trabalho graças a dona Laura que deixou uns comentário enormes e lindos em quase todos os capítulos! Essa Laura um dia me mata! Enfim, espero que gostem!

You've got a hold of me

Don't even know your power

I stand a hundred feet

But I fall when I'm around you

Show me an open door

Then you go and slam it on me

I can't take anymore

I'm saying baby

Please have mercy on me

Take it easy on my heart

Even though you don't mean to hurt me

You keep tearing me apart

Would you please have mercy, mercy on my heart

(Mercy — Shawn Mendes)

♥

Tommy Merlyn

(sim, você leu corretamente)

Apertei a campainha mais uma vez, ou talvez tenham sido três. Ok, foram seis, mas quem se importa se o som estridente agora reverberava impacientemente dentro da casa? Eu odiava ficar parado fazendo nada enquanto esperava, e se eu insistisse um pouco mais talvez a pessoa do outro lado da porta tivesse um pouco de compaixão e viesse mais rápido. Ou apenas viesse puxar minha orelha achando que eu era uma criança irritante que adorava tocar a campainha dos outros e sair correndo.

O que não estava muito longe da verdade.

Mas de todo modo, o importante era a pessoa viria, me libertando daquela tediosa espera.

A quem eu estava tentando enganar? Eu estive parado a sua porta quase todos os dias das últimas semanas, sempre querendo a mesma coisa. Era provável que ela soubesse muito bem que era eu, e apenas esperasse do outro lado da porta sorrindo satisfeita por me fazer esperar mais um pouco. Ela seria diabólica o suficiente para agir assim.

Passei a mão por meus cabelos nervosamente, e testei meu hálito assim que ouvi som de passos se aproximando. Coloquei o meu melhor sorriso no rosto enquanto escutava o som de da porta sendo destrancada. Não entendi porque meu coração se agitou freneticamente e comecei a mexer com minhas mãos passando de uma para outra o que eu segurava nelas. Ei, por que diabos minhas mãos suavam tanto?

Meu sorriso se desfez assim que a porta se abriu.

Oh, o coração também voltou ao ritmo normal, parecendo... decepcionado.

Eu esperava por uma loira pequena de curvas graciosas e uma boca mordaz, capaz de me tirar do sério com apenas um meio sorriso e um revirar de olhos. Eu esperava por aquela mulher que não saía dos meus pensamentos há meses, e por mais que eu tenha tentado tirá-la de lá de todos os jeitos possíveis, ela jamais ia embora, permanecia ali, seu sorriso me atormentando, sua voz sempre me provocando. Até mesmo em meus pensamentos ela era teimosa e se recusava a fazer o que eu mandava.

Ao invés da minha pequena diabinha, eu tinha na minha frente um senhor careca, braços cruzados e que me olhava com cara de poucos amigos.

— Senhor, Lance! – forcei a animação, sem deixar o meu sorriso sumir por causa de sua carranca. Afinal eu não tinha ganhando o prêmio de sorriso mais lindo no colegial atoa. Eu iria usar meus dons. – Há quanto tempo! O senhor perdeu um pouco da barriguinha, hein?! – tentei ser simpático, uma vez que historicamente, pais não gostam de mim. Eu não queria testar minha sorte com o pai policial da Sara.

— É capitão Lance para você. — informou, ambas as mãos se colocando na cintura fazendo estrategicamente a arma escondida sob o casaco aparecer, enquanto seu olhar me avaliava de cima abaixo. Ele estava tentando me intimidar? Porque definitivamente ele estava conseguindo. — Eu vejo que trouxe flores para mim? Adorável.

Ironia.

Yeah. Vejo bem de quem Sara herdou.

— Na verdade, são para Sara. – consegui responder cordialmente – Mas eu tenho certeza que sua esposa iria adorá-las. – Ofereci, era sempre uma boa tática agradar ao pai, tentando agradar a esposa.

— Quer dizer a minha ex-esposa? Aquela que você ajudou a se divorciar de mim? Ela está morando em Central City com o novo namorado, eu sugiro que viaje até ela para entregar as flores.

Bola fora, Merlyn.

Como diabos eu fui me esquecer que eu tinha feito aquele divórcio?

Resolvi lidar com aquele assunto delicado da melhor e mais madura forma possível: ignorando e fingindo que nada tinha acontecido!

— Sara está? – tentei novamente. Não vou mentir, meu sorriso vacilava um pouco diante do olhar obscuro que eu recebia. Lance deu um passo à frente, fechando um pouco a porta atrás de si e bloqueando a visão de dentro de casa.

— Eu não vou fingir que não sei o que você quer com minha filha. Mas eu conheço bem o seu tipo, Merlyn. – começou num tom ameaçador, a voz não escondendo certo desprezo – Playboyzinho acostumado a ter tudo e a não levar nada na vida realmente a sério. Por que levaria? Você tem dinheiro e quantas mulheres quiser, nenhuma preocupação para um futuro já que casamento é algo tão banal para você e pode ser desfeito com um pedaço de papel e uma ida rápida ao tribunal. – aquele homem estava me fazendo suar — Até que vê algo diferente e que chacoalha um pouco esse seu mundinho tão patético, some isso a excitação da ideia de sair com aquela estagiária bonita e que te dá nos nervos. Seria uma boa mudança de ares, certo? Um pouco clichê, mas quem se importa? Sua vida finalmente vai sair da rotina maçante e você pode se divertir com algo diferente – Eu tive vontade de revidar, mas algo na seriedade daquele homem, na forma que seus olhos exigiam respeito me impediram e me limitei a escutar o sermão calado. — Mas Sara não é uma dessas meninas tolas que perdem a cabeça porque o chefe lhe trouxe flores e a leva para passear no seu conversível novo e brilhante – olhou de relance com desgosto para o meu carro parado junto ao meio fio — Eu criei minha filha para ser bem mais do que isso, ela é uma mulher inteligente, forte e – quase o interrompi, apenas para dizer que concordava com ele. Que eu via tudo isso nela e por isso ela me fascinava tanto — ela pode ser pequena e ter um sorriso doce e ideais românticos demais, mas ela também sabe chutar o traseiro de um idiota como ninguém – sorriu com orgulho — Um conselho? Proteja suas bolas. Ou não. – deu de ombros — Eu ia adorar te ver caído no chão com a mão entre as pernas e agonizando de dor. – a imagem trouxe um sorriso ao Lance, o que me deixou um pouco amedrontado. Onde eu estava me enfiando? Ou melhor onde eu estava arriscando minhas bolas? — Ainda assim quer tentar sua sorte? – Engoli em seco, meu bom senso mandava que eu saísse dali imediatamente. Encontrasse um bar qualquer e esquecer que Sara me deixava louco, mas eu sabia que não adiantaria.

Eu já havia tentando tirá-la do meu sistema.

Era por isso que eu estava aqui. Porque Sara Lance, em falta de palavra melhor, era inesquecível.

— Sim, senhor. – respondi a convicção falhando um pouco. Não por eu estivesse voltando atrás, ou porque estava com medo de Sara me chutar no meio das bolas. Mas eu estava com medo. De Sara. De tudo o que ela já estava mudando para mim — Eu gostaria de tentar a sorte.

— Vai ser seu funeral então. – ele apenas deu de ombros, voltando a abrir a porta atrás de si — Sara, querida? – chamou. E não deixei de notar a mudança abruta de tom de voz do homem, indo do desagrado e desconfiança dirigidos a mim para a mais genuína adoração quando falava com a filha. — Aquele advogadozinho babaca para o qual você trabalha está aqui. – novamente voltou ao tom de voz usado exclusivamente para mim — De novo. – acrescentou.

— Mas que caralho! — Sorri satisfeito ao escutar o palavrão na voz impaciente dela. O que eu não daria para ver a expressão no rosto dela! O que não ia acontecer em breve já que logo em seguida Lance bateu com a porta na minha cara.

Encostei de lado no batente da porta, cruzei meus pés e esperei.

Eu devo ter esperado por uns bons dez minutos até a porta se abrir novamente. Eu sabia que Sara estava tentando me vencer pelo cansaço, mas eu era um bastardo teimoso quando queria alguma coisa.

— Eu tinha esperanças que tivesse ido embora.

— Eu gosto de esperar. – sorri de canto para ela.

— O que quer, Thomas? – sua pergunta veio num suspiro. Fiquei sem voz por um momento apenas observando-a tão casual. Eu tinha me acostumado com Sara em suas calças ou saias sociais e camisa de seda, o que era até certo ponto sexy. Mas shorts jeans e camiseta justa que deixavam pouco para a imaginação de um homem já atormentado como eu, era uma loucura. E ela ainda se atrevia a perguntar o que eu queria?

Não.

Ela não estava pronta para aquela resposta. Nem mesmo eu estava.

— O mesmo que nas outras noites. – respondi sorrindo ao vê-la revirar os olhos, e cruzar os braços, inconsciente de que esse movimento fazia seus seios saltarem sob o decote da camiseta. E que era difícil manter os olhos no seu rosto ao invés de agir como um homem menos honrado e olhar mais abaixo. Mesmo assim eu tentei. – Saia comigo, Sara. – pedi, unindo minhas mãos com aquele ramalhete de rosas e fazendo minha melhor cara de filhote de cachorro que se perdeu dos pais. Adorável e completamente sem rumo.

— Quantos “nãos” precisa ouvir para finalmente desistir?

— Eu sou conhecido por ser irritantemente persistente. – sorri novamente para ela. E nem era um sorriso planejado. Nem dos meus sorrisos eu tinha controle quando estava perto dela. Bastava olhar para Sara agora e ver seus lábios apertados num ligeiro biquinho, e como isso fazia aquele furinho eu seu queixo se sobressair. O que sempre me impelia a sorrir.

— Irritante é a palavra-chave aqui. – balbuciou sem paciência.

— É apenas um encontro, Sara! — insisti. Como ela pode resistir aos olhos de cachorrinho? — Eu não sabia que tinha tanto medo de ficar perto de mim. O que pode acontecer num simples passeio? – provoquei apertando os olhos em desafio para ela.

— Nem tente! – ela ergueu a mão — Psicologia reversa não funciona comigo. Você sabe que está fazendo isso porque quer, certo? — indagou — Eu não me decidi sobre o prêmio que quero por ter ganhado aquela estúpida aposta, e algumas flores baratas e um encontro medíocre não irão me fazer pegar leve com você.

— Na verdade elas custaram oitenta dólares! Quem poderia imaginar que flores são tão caras? Eu não sei onde as pessoas veem romantismo nisso, dois ou três dias estarão mortas e você as jogará numa lata de lixo. Na próxima vez comprarei chocolates. – peguei um quase sorriso em seus lábios, sem entender como o fiz para colocá-lo ali. — E já que tocou no assunto eu não as estou oferecendo como prêmio, nem tentando amansá-la assim, até porque eu acho que você está mesmo é tentada a aceitar aquelas fotos do meu corpinho nu. – pisquei.

— Tenha uma boa noite, Thomas. – foi tudo o que disse antes de começar a fechar a porta.

— Espere! – coloquei o pé na porta antes que ela pudesse fechá-la na minha cara. – Um encontro e eu prometo que não te mandar fotos nu! – ofereci – Também não irei mais pedir que compre café para mim.

— Eu nunca compro o seu café. – ela mordiscou o lábio inferior e abriu um pouco mais a porta.

— Eu sei, mas não me impede de te pedir isso todos os dias. – Sorrimos um para o outro. E eu nem tenho palavras para descrever o que este pequeno momento faz para mim — Ok. Sem fotos nus, sem mais pedidos de café... Também não te darei aqueles processos enormes para tirar xerox. – cocei a cabeça, tentando me lembrar de mais.

— Tudo bem, eu aceito.

— Poderá sair mais cedo às sextas e chegar mais tardes às segundas e...

— Tommy — o toque quente de sua mão em meu braço me fez parar e encarar seus olhos — Eu disse que concordo.

— Você concorda? – repeti piscando meus olhos várias vezes — Eu não estava preparado para isso. Parece que eu tenho mais charme do que previ. – eu só senti o momento em que a pressão morna de sua mão em meu braço foi substituída por um ligeiro momento de dor — Aí. Você me beliscou! – Acusei, encarando incrédulo a marca vermelha no meu braço.

— Estou apenas provando que não estava sonhando. – seu rosto transparecia inocência. Sara seria minha ruína, eu via um caminho direto para o inferno apenas pelas coisas que passavam pela minha mente agora. — Um encontro. — Sara falou resoluta, erguendo o dedo indicador — É tudo o que você terá e então vai parar. Um encontro e nunca mais quero te ver na porta da minha casa com essas malditas flores. Um encontro e sem mais mensagens de textos durante a madrugada me oferecendo coisas que não quero.

— Uau, isso soou um pouco sujo. – Sara respirou fundo.

— Um maldito encontro e sem mais você fazendo insinuações para mim, sem mais frases de duplo sentido, sem provocações.

— Ok. – concordei apressadamente. – Podemos ir? – completei, antes que Sara mudasse de ideia sobre isso ou colocasse mais condições.

— Eu preciso me arrumar. – deixei um sorriso melindroso escapar e Sara pareceu não gostar dele. — Não está achando que eu vou colocar um vestido e saltos para você, está? – preferi ficar calado. Na verdade eu estava pensando apenas nela tirando a roupa para vestir outra. Eu estava muito fodido. — Eu vou apenas pegar minha jaqueta. – explicou — Quer entrar e esperar? – ela abriu a porta, e olhei de esguelha para o seu pai sentado no sofá.

Eu tinha apreço a minha vida.

— Eu acho melhor esperar aqui fora, seu pai não gosta muito de mim. – sussurrei a última parte e Sara riu — Eu não quero morrer pela força do olhar de desprezo dele na minha direção.

— Você está errado. – pisquei – Meu pai não gosta nenhum pouco de você.

Não fiquei surpreso quando Sara não demorou a retornar. Isso era algo que eu apreciava nela. Ela não era como as outras mulheres que diziam uma coisa e faziam outra, ela realmente apenas pegou uma jaqueta. Não colocou maquiagem ou passou perfume extra, o que estava perfeitamente bom para mim porque eu adorava o cheiro dela.

Diferente do resto, Sara não estava tentando me impressionar.

E eu detestava admitir que Lance estava certo em algo. Um dos motivos para eu estar tão interessado em Sara, era porque ela era diferente. Uma brisa suave e calma num mundo onde só via tornados. Ou talvez fosse exatamente o contrário, pelo jeito que ela bagunçava a minha vida ela definitivamente era um tornado. Quando eu estava com ela eu não me sentia como com as outras mulheres, pressionado a impressionar. Eu não precisava daqueles joguinhos de flerte, pagar drinks com nomes esquisitos, tecer elogios nenhum pouco sinceros, fingir interesse apenas para levá-las ao meu apartamento no final da noite.

Não que houvesse uma remota chance de Sara acabar na minha cama hoje.

Mas eu podia ser eu mesmo.

Por mais idiota que eu fosse.

E eu sabia que Sara estava sendo ela mesma, seja discutindo ou revirando os olhos para mim. E eu nunca tinha apreciado tanto isso em uma mulher. Era refrescante. Libertador.

— Suas flores, madame. – as entreguei, fazendo Sara rir alto do gesto. Mas senti uma satisfação sem tamanho quando a observei abaixar o rosto e inspirar o perfume das flores. — Vamos? – ofereci meu braço a ela.

— Tommy? – me chamou — Meu pai estava certo sobre algo. – franzi o cenho – Eu não me impressiono com carros novos.

— Você ouviu a conversa dele comigo?

— Cada palavra. – havia algo de indescritível em seu sorriso.

— Certo — me senti um pouco envergonhado – Me deixe pensar então no que fazemos, podemos ir a um restaurante... – relancei meus olhos para Sara, com seus shorts jeans, camiseta e jaqueta de couro preta. Teria que ser algo informal -... eu vou chamar um táxi.

— Vamos apenas caminhar e conversar, Tommy.

— Eu sinto que estou sendo ludibriado. – olhei de soslaio para ela — Isso era suposto de ser um encontro. – Enfiei minhas mãos em meus bolsos, sentindo-me estranhamente derrotado e mal-humorado.

— Um encontro é onde duas pessoas estão juntas e conversam sobre si mesmas, certo? – assenti, ainda um pouco atordoado que Sara tivesse enroscado seu braço no meu, e começou a caminhar liderando o caminho. O mal humor desaparecendo quase que instantaneamente. — Não importa se é em um restaurante chique, um cinema, uma caminhada por uma rua qualquer até a pracinha mais próxima...

Eu estava feliz.

E também estava fodido.

Oh, tão completamente fodido. Eu devia ter desconfiado disso no instante em que Sara enroscou seu braço junto ao meu, e o modo como aquilo pareceu certo. Ou como eu simplesmente parecia fascinado por cada palavra que saia da sua boca, pelos sorrisos... Eu estava tão atordoado por aquela boca que não conseguia não olhar para ela a cada segundo. Patético.

Eu também estava fascinado com sua história.

Eu nunca estive interessado na história de uma mulher antes. Mas também nunca tinha prestado atenção no que as mulheres falavam, mas Sara... Era difícil não prestar atenção na boca dela, nas palavras, em seu rosto cheio de tantas expressões diferentes. Eu gostei de saber mais, sobre como ela estava indo na faculdade e como se preparava para os exames que prestaria no final do ano. Sobre a relação dela com a família, sobre o que gostava de fazer quando tinha tempo livre, seus livros e comida favorita. Eu me vi fazendo mentalmente uma lista de cada uma das coisas que formavam Sara. E outra sobre as quais eu ainda queria perguntar, mas infelizmente chegava ao final da noite.

Eu caminhei a passos lentos com ela de volta para a sua casa, mas quando chegamos à porta, eu não queria deixá-la ir. Não queria que seu braço se soltasse do meu, não queria perdê-la.

— Então é verdade que você pode chutar forte as bolas de um cara que foi idiota com você? – falei a primeira coisa que veio a minha mente, e deve ter sido a correta pois ganhei um novo sorriso — Eu não fui muito idiota essa noite, fui?

— Você é sempre um idiota. Mas obrigada pelas flores – não sorri para o seu agradecimento. Sara havia soltado o meu braço e se afastava. Fiquei parado observando-a partir — Até amanhã, Thomas. – Ela deu uma meia volta tão rapidamente, que quase perdi o momento em que suas mãos se colocaram sobre meus ombros, seu rosto se inclinou para o meu, deixando um longo e estalado beijo.

Na. Bochecha.

Como no final da noite, tudo o que ganho é um beijo no rosto? E o pior. Como eu fiquei tão ridiculamente feliz com apenas isso?

***

— Aqui está a documentação dos Shepperds, Derek e a futura ex-esposa estarão aqui amanhã para assinar o acordo. – eu sequer desviei meu olhar dela para a pilha de documentos que ela acabara de colocar sobre a mesa — Addison voltará a usar o sobrenome de solteira Montgomery, não esqueça disso, sr. Merlyn. – finalizou com a voz mais profissional do mundo antes de sair pela porta do escritório.

Eu não entendia o que eu tinha feito de errado.

Nós saímos no domingo à noite e o encontro tinha sido perfeito. Nós conversamos, rimos, eu até mesmo ganhei um beijo no rosto! Como no inferno Sara aparecia no trabalho na segunda-feira me chamando de sr. Merlyn e agindo como se sequer tivéssemos passado um tempo juntos ontem?

Pensei em ligar para Ollie ou até mesmo procurar por Diggle em busca de uma explicação. Mas Oliver tinha problemas muito mais fodidos do que os meus com a sua garota. Eu notava o quão mais feliz ele parecia nessas últimas semanas, de alguma forma ele e Felicity pareciam ter encontrado uma certa sintonia, eu não queria atrapalhar o casal, porque eu sabia que complicações não demorariam a vir. E havia Dig. Se eu atravessasse o corredor até a sua sala para perguntar o que leva uma garota a beijar seu rosto no final de um encontro e no outro dia agir como se nada tivesse acontecido, eu poderia causar um ataque cardíaco no homem de tanto que ele iria rir de mim.

Oh, merda.

Merda.

Merda.

Finalmente entendi.

Sara estava fazendo comigo o que eu fazia com as mulheres depois de dormir com elas? Me ignorando? Tudo bem que um beijo na bochecha não era a mesma coisa que sexo, certo?! Mas porque eu sentia que era mais? Inferno... Eu não conseguia nem mais me entender, só tinha certeza de uma coisa: Eu não iria ser ignorado! E como eu não tinha meus dois melhores amigos para me ajudar, eu resolvi simplesmente tomar as rédeas da situação e agir como Tommy Merlyn mesmo e esperar a consequência.

Peguei meu celular e fiz o que devia ter feito.

Sara não demorou nem quinze segundos.

A porta se abriu de uma só vez, batendo com força na parede. Ollie ia me matar, a maçaneta da porta havia deixado uma marca perfeita na parede. Mas nesse momento eu me preocupava mais com o olhar feroz da loira a minha frente, que me dizia que provavelmente Ollie teria que entrar na fila para me matar.

— Que merda é essa? – ela quase enfiou o celular na minha cara.

— Um celular. – respondi com toda calma do mundo, ignorando o bufo de Sara e o jeito nervosinho que seus saltos batiam freneticamente no chão — Hum... – peguei o celular na minha mão, recostei mais confortavelmente na minha poltrona e o observei por alguns minutos me fingindo de pensativo — Eu diria que é uma foto do corpo de um cara, Sara. Por que está tão perturbada com isso? – sorri inocentemente.

— Você me mandou uma foto sua nu, cretino! – ela gritou a plenos pulmões e se não tivesse uma mesa entre nós, eu levaria um belo e merecido tapa na cara.

— Woou! Essa é uma acusação muito séria a se fazer, Sara Lance! Tem provas irrefutáveis para sustentar essa acusação? — Me ergui da poltrona fechando um dos botões do paletó. Aproveitei para caminhar até a porta e fechá-la, Sara não estava sendo exatamente discreta, não que eu me importasse com seus gritos, eu os merecia, mas não queria que fossemos interrompidos antes de esclarecermos tudo.

— Você está falando sério? – deboche, descrença e raiva tudo isso estava junto em sua voz — Veio do seu número de celular, idiota! – perdeu a paciência deixando os braços caírem ao redor do corpo num claro sinal de frustração.

— Sim. – respondi sorrindo enquanto me aproximava dela, parando a sua frente. — Mas meu número pode ter sido clonado, ou alguém pegou o meu celular quando eu não estava olhando. – Sara ergueu uma das sobrancelhas para mim.

— Não basta me enviar uma foto sua nu, precisa insultar minha inteligência com as piores mentiras? – Seu olhar poderia me queimar vivo. Oh, Deus! Como eu adorava aquele olhar.

— De todo modo não mostra o rosto do homem, embora eu tenho que dizer que ele está em excelente forma física – lhe dei uma piscadinha, a deixando mais nervosa — e ainda tem um emoji de coração tampando o essencial bem aqui. Não é uma daquelas que a gente clica e ele revela a surpresa, é?! – Sara bufou.

— Você está sendo idiota.

— Vai chutar minhas bolas agora? – desafiei, mas dei um passo para trás recuando quando a vi erguer a perna um pouco. Para a sorte da minha masculinidade, Sara desistiu.

— Thomas, você precisa parar! – pediu num suspiro exasperado – Aliás, você disse que ia parar! Parar de ir até a minha casa com flores me convidando para encontros, parar com as provocações, e definitivamente. Sem. Fotos. Nu. – eu quase ri da forma que ela bateu a mão fechada em punho na mesa.

— Isso é semi-nu na verdade. – indiquei, fazendo-a fechar os olhos e tomar uma longa e profunda respiração. Paciência. Eu escutei dizer baixinho num mantra — Então você precisa parar também. – eu disse.

— O quê? – Ela olhou para mim. – Parar com o quê?

— Parar de me deixar confuso, ora! — Sara piscou sem entender – Você não precisava aceitar ir a um encontro comigo.

— Você teimosamente não aceitava um não. – refutou.

— Então não precisava ter feito desse maldito encontro tão perfeito como foi! – extravasei, deixando-a surpresa — Não precisava enroscar seu braço no meu e me fazer sentir tão bem por apenas caminhar ao lado de uma mulher. Não precisava sorrir, e me fazer achar que seus sorrisos eram todos para mim. Não precisava falar de cada detalhe da sua vida e me deixar tão fascinado por ela e desejando saber mais e mais sobre você. Não precisava me escutar falar. Não precisava me beijar.

Um longo silêncio se seguiu.

— Thomas, foi só um beijo no rosto.

— Woou. – eu senti algo apertando forte o meu coração. Mágoa.— Você saber ser má quando quer ser.

— Me desculpe. – jogou as palavras, sem sequer me encarar — Se eu soubesse que ganhar aquela maldita aposta faria você agir desse jeito eu jamais teria concordado! – ela estava mudando de assunto. Ok, dois podem jogar esse jogo, Sara.

— Não, você teria. – falei, ganhando novamente seu olhar em mim — Você não perderia a chance de provar que eu estava errado.

— Eu não teria! – ela negou — Pare de agir como se soubesse o que se passa na minha mente.

— Você mesma me disse isso, Sara. — ela mordeu os lábios — E não, eu não sei o que se passa na sua mente e é isso o que me deixa tão frustrado com você. Eu fico tentando descobrir, tentando encontrar uma forma de estar perto de você, de descobrir porque eu me sinto dessa forma com você – despejei, já perdendo a compostura — Porque um maldito e tão simples beijo na bochecha não deixa um homem tão alterado se não for algo mais. – me lembrei de respirar. Sara não disse nada, então me atrevi a buscar por sua mão, usando as minhas duas para segurá-la, esperando que ela também sentisse o que eu sentia — E eu acho que pode ser algo mais para você também, e talvez devêssemos tentar descobrir o que é...

— Eu não quero.

— Sim, você quer, mulher teimosa! – insisti, já me preparando para tê-la negando outra vez.

— Eu não posso. – meu coração finalmente se libertou daquele aperto. Havia uma grande diferença entre não querer e não poder. Mas um novo aperto surgiu – Existe outra pessoa? – perguntei minha voz saindo mais estridente e falhando, cada músculo meu corpo se contraiu e reconheci o sentimento ao me lembrar da noite em que a vi no bar com Nyssa.

Não respirei enquanto Sara não me deu uma resposta.

— Não existe.

Alívio.

— Então...

— Tommy... – Meu apelido em seus lábios aqueceu algo dentro de mim e me fez sorrir — Você sabe que não podemos. – nem mesmo seu tom sério fez meu sorriso sumir, mas me fez colocar o cérebro pra funcionar um pouco.

— Isso não é sobre você não me querer, estou certo disso. – ela arqueou uma sobrancelha — Eu vejo sua hesitação, Sara. Toda maldita vez que faço um movimento, toda maldita vez que tento me aproximar você hesita e então me corta fazendo alguma coisa que me enlouquece apenas para me afastar. Você até mesmo foi má hoje.

— Obviamente não está dando certo, quanto mais eu me afasto, mais você arrasta a sua bunda para perto de mim. – Ri. Essa era exatamente a nossa dinâmica.

— Um pouquinho convencida, não? – a vi vacilar — Mas eu acho que tem direito de ser, eu realmente gosto de você. – falei com todas as palavras. Fazia algum sentido negar o óbvio? – E acho que você gosta um pouquinho de mim também. – deixei minhas mãos brincarem com a dela. Eu não estava tentando provar nada, apenas gostava de tocá-la.

— Quem está sendo convencido agora? – vacilei ao escutar seu tom. Eu sabia desde o início que não seria fácil lidar com Sara.

— Não estou sendo convencido. – apertei a mão dela mais forte, ela poderia até fugir das minhas palavras, distorcê-las ou negá-las, mas não o meu toque — Eu te observo, Sara. O tempo todo, desde o dia que você entrou aqui o meu olhar te segue. É um maldito vício que não consigo me livrar, me vi procurando desculpas para que você sempre trabalhasse comigo, apenas para eu poder te olhar mais de perto e tentar desvendar porque eu preciso estar sempre ao seu redor. E de tanto te observar, eu acho que te conheço o suficiente para saber que se você realmente não gostasse nenhum pouquinho de mim, você simplesmente faria algo sobre isto. – expliquei.

— Eu te disse várias vezes que não gosto de você!

— Não. — neguei — Você me chama de idiota, me faz de idiota. Muitas vezes. Mas você não me diz que não gosta de mim. Se você não gostasse de mim não aceitaria minhas apostas estúpidas. Se você não gostasse de mim me ignoraria porque eu sei que sabe ser fria como uma pedra de gelo quando quer. Se não gostasse de mim, simplesmente não me aturaria te enchendo o saco. Não revidaria. Você simplesmente diria com todas as palavras que não gosta de mim, chutaria minhas bolas e ponto final. – respirei fundo — Sejamos sinceros, estamos nesse jogo há um tempo. Nós discordamos, implicamos um com o outro por que é muito mais fácil assim, é mais fácil usar de artifícios para ignorar o que existe por baixo e que está tão perto da superfície. E que nos assusta. – falei — Eu sei que não sou o ideal de pessoa que você sempre sonhou. – havia algo em seu olhar que me neguei a tentar ler — Eu estou consciente de que sou um bastardo mulherengo e insensível que não acredita em relacionamentos baseados no amor. Estou consciente de que você pode me chutar no meio das pernas se eu te magoar, e de que seu pai possui uma arma e não hesitaria em apontá-la na minha direção. Eu sei que somos muito diferentes e que de tantas maneiras parece que vai dar errado. — abaixei meus olhos para as nossas mãos unidas e suspirei, a segurando ainda mais firme — Mas eu gostaria de tentar, Sara. – Olhei para ela. Realmente olhei para seus olhos claros e que faziam coisas estranhas para o meu coração. — Eu gostaria de tentar fazer dar certo.

Houve um minuto de silêncio, mas que mais pareceu uma hora.

— Não podemos. – deixei meus ombros caírem, e soltei sua mão derrotado. Esperando que ela fosse embora agora que eu havia a soltado. — Você é meu chefe, Tommy.

— Então é apenas isso o que nos impede? – exclamei a encarando — Inacreditável. Eu pensando que deveria ter algo de muito errado comigo para você sequer considerar tentar, mas isso tudo é porque eu sou seu chefe?!

— Eu não vou arruinar minha carreira porque eu estou atraída pelo idiota do meu chefe. – um sorriso preguiçoso escapou dos meus lábios quando ela disse isso.

— Então está atraída por mim? Eu tenho certeza que aquela foto minha quase nu ajudou, hein?! – me aproximei um passo, ganhando um soco no ombro — Ai. – Esfreguei o lugar dolorido. Sara era pequena, mas fazia estrago. – Sara você não vai tentar apenas porque eu sou seu chefe? Vê o absurdo da coisa?

— Eu não vou tentar porque é estupidamente clichê! E eu não sou uma garota clichê! – Que diabos! Onde foi que eu amarrei meu coração? – Isso é tão errado em tantos níveis diferentes! Pode prejudicar a nós dois, Tommy, mas...

— Mas...? – pisquei, tudo sumindo da minha mente no momento em que Sara se aproximou.

— Não significa que eu não possa ter isso.

Eu não estava preparado para o que veio.

Na verdade, eu acho que nunca estaria preparado para Sara Lance. Para a avalanche de emoções e sentimento que ela despertou em mim desde o instante em que coloquei meus olhos nela. Para o modo que seus lábios macios se pressionaram contra os meus, e a forma desesperada que meu corpo respondeu a isso, abraçando-a pela cintura, puxando-a para mim e a pressionando contra a minha mesa. Movendo minhas mãos ansiosamente por suas costas quando minha boca tentava se saciar a fome que tinha da dela.

Foi um daqueles beijos de fazer o coração parar.

O mundo parar de girar.

Eu nunca tive um desses.

Mas tão inesperado como começou, aquele beijo teve seu fim quando as mãos de Sara apoiadas em meu peitoral me forçaram a me afastar. Aproveitei apenas para olhá-la.

Roupas amassadas.

Cabelos bagunçados.

Boca vermelha e ligeiramente inchada de tanto que eu a havia beijado.

Eu nunca me livraria dessa visão.

E o pior essa visão estava dando o fora da minha sala.

— Inferno, mulher?! – praguejei — Eu me esforçaria para fingir que não te quero, eu me afastaria se você dissesse para eu fazer isso. Eu pararia com as fotos. Com toda a provocação, eu me esforçaria para ser profissional se você realmente quisesse que fosse assim. E dissesse com todas as letras que apenas não me quer. Seria uma merda, mas pelo menos eu não teria esse beijo para me lembrar e me deixar de pau duro toda vez que eu olhar para você. – não pensei — Eu odeio ter que fazer isso, Sara, mas se trabalharmos juntos é um problema, então você está demitida.

— O quê? – ela praticamente gritou. – Por quê?

— Porque não há uma maldita maneira de trabalhar com você, sem querer você, eu penso em você o tempo todo. Eu quero mais. – me aproximei dela, suando e um pouco trêmulo. — Mais de nós dois. Mais do que você nos permite ter.

Eu mal terminei de falar e o senti.

O tapa veio preciso e direto, cortando o ar e queimado em minha bochecha quando a palma da mão de Sara a atingiu.

— Thomas Merlyn! Como você ousa me tratar assim!? – eu ainda esfregava o rosto. Puta merda! Eu estava perdido com essa mulher. — Eu não conheço alguém mais arrogante, idiota, insensível e egoísta! – Continuou a falar. E nem mesmo quando eu mandei a foto semi-nu, Sara havia despejado tanta raiva em mim. E algo mais: decepção. Essa última me deixando envergonhado. – O que está pensando que eu sou?

— Tem razão. – levei as mãos aos cabelos sem saber como consertar a merda, a bochecha ainda ardia, mas o sentimento de que tinha feito algo muito errado era ainda maior do que a dor — Eu não estou pensando! Você me beijou e todo o meu sangue fugiu do cérebro e foi para outro lugar não muito nobre! O que esperava depois de vir para cima de mim daquele jeito?

— Eu não te vi recuando. – ótimo, agora ela estava na defensiva.

— Você tem seu emprego de volta, Sara. – falei me forçando a ser mais racional, o que era muito difícil de ser com essa mulher a minha frente fazendo meu sangue ferver — Me desculpe por isso. E você tem razão. Eu não deveria insistir em um relacionamento com você quando eu sei bem dos problemas da relação de um chefe e subordinado. – Eu nem conseguia pensar num modo de me livrar disso. Ollie tinha basicamente redigido o estatuto de ética na empresa e com toda a certeza não havia um furo por onde pudéssemos escapar – Eu não posso comprometer sua carreira.

— E o que isso significa? Vamos nos afastar, certo? Você vai parar de tentar? — Havia hesitação em seu tom, o que era irônico considerando que era disso que Sara vinha tentando me convencer.

— Eu não vou prejudicar sua carreira, Sara. – balancei a cabeça disposto a fazer o que era certo.

— Tommy? – eu amava meu apelido em seus lábios. Não havia um modo de perder isso e me contentar com um fodido e respeitoso sr. Merlyn.

Sorri. Dando um passo para frente, minha mão se acomodando em seu rosto quando a simples solução apareceu.

— Eu vou me demitir. – anunciei.

— Tommy... – ela hesitou — Você não pode estar falando sério!

— Eu estou. – meu sorriso ficou ainda mais largo a medida que a decisão se solidificava. – Eu vou ter um trabalho enorme dissolvendo a sociedade, vou ter que conversar com Ollie e Dig e isso pode levar algum tempo, vou precisar procurar uma sala para o meu novo escritório, contratar uma secretária e um estagiário que me sirva café quando eu pedir... – brinquei, mas Sara me olhava com seus olhos grandes e preocupados.

— Tommy, eu não quero que... – a interrompi, antes que Sara conseguisse pensar em outro empecilho.

— Agora que o problema chefe e funcionária está resolvido, eu vou beijá-la da forma que venho fantasiando desde o dia que você entrou por essa porta batendo seus saltos e se atrevendo a me enfrentar.

— Ora, seu id... – Não deixei que ela terminasse. Teríamos tempo para conversar, para brigar, para fazermos novas apostas. Mas nunca teria tempo o suficiente para beijá-la.

Puxei seu rosto para o meu, me perdendo em seus lábios.

Eu havia perdido a aposta, mas ainda assim no final eu ganhei o prêmio que sempre quis.

***

Oliver Queen

Respirei fundo inalando o cheiro já conhecido de rosas frescas. Movi meu nariz, aprofundando-o nos fios dourados que exalavam aquela fragrância, inspirando novamente, desejando tomar mais dela para mim, desejando com certa melancolia guardar seu cheiro em alguma parte do meu cérebro porque eu sabia que não o teria para sempre. Deslizei a mão, apertando suavemente o que tinha seguro em meus braços, sentindo sob os meus dedos a maciez da pele aveludada que assemelhava-se a textura das pétalas daquela flor.

Sorri aconchegando-me mais no corpo quente junto ao meu, e deixando um beijo morno na junção do seu pescoço, meu coração exultando orgulhoso ao escutar o resmungo baixo seguido de um longo suspiro, que antecedeu o momento que sua mão encontrou a minha, segurando-a inconsciente e seu corpo se acomodava no meu. Eu havia me habituado tão facilmente com essas sensações. Desde o som da sua respiração à textura da sua pele. Seu cheiro. Seu calor. A tê-la em minha cama, em meus braços, durante todas as noites.

Eu já não sabia mais quantas noites tinham sido.

Eu não me importava com o quanto, mas com o fato de que tinham sido – e ainda seriam — todas minhas. E de tudo o que elas me proporcionaram. A paixão quase que cega que nos levava à um tipo de prazer único, a sensação de ter meu coração preenchido por algo, um novo sentimento, que eu não reconhecia, mas que era bom. De poder segurar sua mão e brincar com o seu cabelo entre meus dedos. E tantas outras intimidades que aos poucos construíamos. Eu era dono de todos os seus beijos. Todos os seus toques. De seus poucos, porém marcantes sorrisos.

Mas eu ainda queria mais.

Eu queria poder sentir tudo isso sem restrições. Queria ter não apenas as noites dela. Queria seus dias e suas tardes que fossem nublados ou ensolarados. Seus sorrisos de felicidade e até mesmo aqueles forçados atrás dos quais ela escondia seus sentimentos. Eu queria todos os seus segredos e suas lágrimas, não importava a dor que viesse com eles eu queria transformar em algo bom. Queria sua confusão, sua raiva e sua mágoa. Porque eu via muito disso em Felicity. Queria as partes quebradas de sua alma, queria consertá-las. E eu me atrevia a querer seu amor, se é que havia restado algum para mim depois de tudo. Mas eu sabia que não teria isso dela assim tão fácil.

Suspirei, dando uma olhada em direção à janela do meu quarto. Ainda estava escuro lá fora, e enquanto permanecesse assim Felicity ainda era a minha.

Beijei os cabelos e fechei meus olhos.

Um único pensamento ecoava em minha mente enquanto eu voltava a adormecer no calor do seu corpo. O falei em voz alta, para senti-lo mais forte.

— Minha.

***

O frio me despertou logo em seguida. Não o tipo de frio do qual tudo o que se precisa é de um cobertor mais quente para se enrolar. Eu o sentia dentro de mim, aquela ausência, a sensação de perda que eu vinha desfrutando todas as manhãs quando acordava e o calor havia desaparecido, deixando apenas o vazio frio da ausência. Era um frio que estava em meu coração, e para esse frio só existia um cobertor. Felicity. Minha mão deslizou sobre o lençol, procurando-a e se agarrando ao sentir o ponto de calor que vinha de sua mão, apoiada pesadamente sobre o colchão.

Olhei para a silhueta de Felicity que estava sentada na cama ao meu lado.

Indo embora.

Desta vez eu tinha acordado antes que ela fizesse seu usual movimento e escapasse do meu quarto. Ela olhou para mim por cima dos ombros, ergui minha cabeça apoiada sobre o braço que não usava para prendê-la a mim.

— Fique – pedi, num sussurro vulnerável que cortou o quarto enquanto apertava sua mão na minha com uma força que vinha da mais pura necessidade. A mera ideia de tê-la longe, de não poder tocá-la fazia o ar escapar de meus pulmões, ar esse que eu esperava Felicity pudesse soprar de volta em mim, fazendo-me vivo novamente. Seu aperto em minha mão em contrapartida era fraco e vacilante, seus dedos quase soltavam-se dos meus.

O sol ainda se preparava para nascer lá fora, banhando o quarto com aquele tímido e quente tom dourado encarei seus olhos através da pouca luz, esperando que meus olhos pudessem mostrar para os dela o significado por trás daquela palavra tão pequena. Felicity apertou os dentes nos lábios, vi o vislumbre do medo passar por seus olhos enquanto ela ponderava meu pedido que ia muito além de simplesmente pedir que ela ficasse na cama comigo. Eu pedia por suas manhãs, quando claramente havíamos combinado que eu teria apenas suas noites.

Ela não queria ir.

Mas ela precisava.

Escutei o farfalhar dos lençóis enquanto seu calor se afastava e o peso deixava a cama. Sua mão deixou a minha, soltando-se dos meus dedos lentamente.

Escondi minha decepção e a mágoa, esta última me pegando de surpresa. Rangendo os dentes e encarando o teto, meus pensamentos fizeram a pergunta que eu não me atrevi a falar em voz alta, porque algo dentro de mim sabia que eu não gostaria da resposta.

Por que você não pode ficar?

Senti a ardência em meus olhos e os fechei, estranhando a facilidade com a qual lágrimas se formavam neles. Eu nunca chorava. Nem mesmo na morte de meus pais, eu me mantive firme, eu controlei as emoções. Por Thea, por tudo o que ainda tínhamos que enfrentar.

Mas agora, eu não conseguia mais controlar.

Ela havia me pego.

Felicity me tinha em suas mãos, ela abrira a porta e os sentimentos simplesmente despejaram-se como água de uma represa cuja barreira tinha sido rompida, me inundando e me fazendo afogar neles. E eles eram de uma ferocidade tamanha que me mudavam. Ou talvez, apenas despertassem em mim a pessoa que eu sempre deveria ser.

Mas como era suposto que eu escutasse todos esses sentimentos, que eu os vivenciasse, se a responsável por eles estava sempre se afastando?

Abri os olhos segurando a respiração.

O calor havia retornado.

Felicity havia voltado para a cama se aconchegado em mim, seus braços rodearam minha cintura e sua cabeça repousou-se em meu peito, sobre meu coração.

— Você voltou.

— Você pediu para que eu ficasse. – soltou as palavras contra a minha pele, seus olhos escondidos dos meus.

— Mas está quase amanhecendo. – apontei, ainda descrente, ainda esperando que ela mudasse de ideia e partisse assim que os primeiros raios de sol entrassem pela janela. Embora partir agora fosse ser difícil, porque prendi minhas mãos como garras em torno de sua cintura.

Eu não a estava deixando ir para qualquer lugar longe de mim.

Eu estava reivindicando suas manhãs como minhas também ainda que não fizessem parte do trato, e isso colocou um sorriso presunçoso e ao mesmo tempo idiota no meu rosto. Um sorriso que não durou tanto, porque eu havia aprendido que com Felicity eu estava sempre andando na corda bamba.

— Por que deixou a cama então? Mesmo depois que eu pedi para ficar? Por que apenas não ficou aqui comigo? – perguntei me preocupando, enquanto calculava se Felicity apenas brincava comigo quando se levantou. Talvez ainda estivesse brincando, talvez fosse embora assim que o amanhecer chegasse, talvez estivesse esperando apenas que eu adormecesse outra vez. – Vai ficar realmente dessa vez? – Felicity suspirou longamente.

— Eu só fui pegar minha calcinha, Oliver. – respondeu com um ligeiro mau humor — Não quero que você roube mais essa. Embora eu possa fazer uma boa troca por isso. – Ela puxou o tecido da blusa que usava. Minha blusa. Sorri me permitindo relaxar um pouco, minha mão deixando sua cintura e subindo até encontrar a curva do seu maxilar subindo seu rosto apenas o necessário para seu olhar encontrar o meu.

— Para configurar roubo eu teria que estar coagindo você mediante violência ou grave ameaça a me entregá-la. Eu estou coagindo você, Felicity? – pisquei meus olhos inocentemente.

— Oh, Deus! Eu me esqueço que é perda de tempo discutir com um advogado como você. — Ela revirou os olhos fingindo estar irritada — Mas de todo modo, você sempre pega as minhas calcinhas, e eu não quero que continue a fazer isso! – alertou-me cutucando meu ombro com o dedo em riste.

— Oh, sim você quer. – peguei sua mão fazendo-a parar seu ataque e beijando a parte interna do pulso – E eu não as pego, você as “esquece” comigo, eu apenas as guardo em outro lugar. – sorri mais abertamente, sabendo que isso a tiraria do sério. Eu estava certo, Felicity bufou apertando os olhos para mim no que deveria ser uma expressão séria, mas que eu achava apenas divertida.

— Eu as quero de volta, Oliver. – exigiu, petulante. Seu olhar prendeu-se ao meu, mostrando que ela não voltaria atrás quanto a isso. Uma pequena ideia passou pela minha cabeça, enquanto eu calculava o quanto eu poderia tirar proveito da sua teimosia.

— O quanto você as quer de volta? – contrapus.

— Muito. – respondeu de pronto — Eu não quero ficar sem calcinha. – sua frase me fez abrir outro sorriso, bem menos pudico do que os outros. A imagem dela sem calcinha me agradava. Muito.

— Engraçado, é exatamente assim que quero você.

— Eu estou falando sério, Oliver. Devolva-as. – exigiu batendo a mão fechada em punho em meu peito.

— Eu também estou sendo sério. – respondi, embora houvesse um pouco de riso em minha voz. Mas isso não era minha culpa, Felicity aflorava um lado diferente de mim, um lado que constantemente ria e se sentia leve e relaxado quando estava assim com ela, numa discussão boba sobre suas calcinhas. — As quer de volta o suficiente para uma aposta?

— Que tipo de aposta? – seus olhos se estreitaram desconfiados.

— Está mais para um jogo... – amenizei, minha mão procurando a dela, entrelaçando-a na minha e a distraindo com nossos dedos que brincavam um com o outro. — Um jogo inocente, que caso você vença pode pegar suas calcinhas de volta. – deixei um suave beijo sob a ponta do seu nariz.

— E se eu perder? Qual é o prêmio que você vai querer, Oliver? – sorri feliz, pensando no meu prêmio.

— A calcinha que você está vestindo agora.

***

— Eu não acredito! Seu primeiro beijo foi com aquele mané?! – exclamei após Felicity responder a minha pergunta, a encarando sem esconder a minha revolta. – Cooper era um idiota. – resmunguei insultando um garoto que eu mal conheci. Ambos estávamos sentados lado a lado na cama, com costas encostadas na cabeceira da cama. Contraí meu corpo contra o encosto e coloquei minha mão sobre a de Felicity que repousava em cima do joelho flexionado dela. Eu nem sabia o porquê de estar me sentindo irritado com algo tão bobo quanto um primeiro beijo. E então a verdade me atingiu, eu virei meu rosto para o dela antes de soltar — Eu teria feito muito, mas muito melhor.

Felicity riu.

Um riso puro e gostoso que fez seu corpo balançar e ao meu também já que estava tão próximo ao dela. Um riso que me fez desejar por mais momentos puros e despreocupados como esse em nossas vidas.

— Eu sei que você teria feito infinitamente melhor, e acredite em mim, depois de você foi difícil chegar perto do padrão que colocou. – Piscou para mim. Eu não sabia se Felicity estava apenas tentando alimentar meu ego, mas eu não me importei eu gostava da ideia de que ela não encontrara em outra pessoa o que nós dois tínhamos. Eu gostava muito mais do que gostaria de admitir. Principalmente porque era o mesmo para mim. — Mas você jamais o teria feito. – minhas sobrancelhas se uniram, e virei meu rosto para o dela encontrando um sorriso compreensivo e um olhar doce — Eu quero dizer, eu tinha quinze anos naquela época e você vinte e cinco e já era um adulto, com seus ternos escuros e o mundo aos seus pés. E eu ainda era uma adolescente com espinhas que nem sabia beijar. – meu estômago se contraiu. Agora era tão fácil esquecer a diferença de idade entre nós. Eu olhava para Felicity e tudo o que eu via era uma linda mulher. Minha mulher.

— Dez anos não é uma diferença tão grande assim. – a encarei, temendo que ela ainda sentisse que esta diferença ainda fosse uma barreira entre nós.

— Não é, quando você tem trinta e três e eu vinte e três. – voltei a respirar — Mas para uma menina de quinze anos? Oliver... – ela apenas balançou a cabeça — Teria sido um excelente primeiro beijo para mim, teria sido como um sonho, mas eu duvido que fosse bom para você também. – ela disse, desviando o olhar, mas não antes de eu perceber a vulnerabilidade que havia nele.

— Eu não tenho dúvidas de que teria sido um ótimo beijo para mim também, mas você está certa, eu jamais roubaria isso de você, Felicity. – apertei sua mão que ainda estava debaixo da minha — Sua vez.

— Verdade ou desafio? – Pensei por um momento.

Quando eu propus o jogo, tudo o que eu tinha em mente era um meio divertido de ganhar sua calcinha. Mas logo eu percebi que poderia ganhar algo muito melhor. Eu poderia conhecer Felicity. Realmente conhecê-la. Eu não estava planejando ou esperando que ela me entregasse seus segredos num simples jogo de verdade ou desafio, eu precisaria de muito mais do que isso para que ela confiasse em mim. Mas agora eu estava fascinado pela ideia de saber mais sobre ela. Coisas pequenas e sem importâncias como o primeiro garoto que ela beijou e sua comida favorita.

— Verdade. – disse por fim, querendo que ela me conhecesse da mesma maneira.

— Como somos defensivos... – seu tom veio leve e divertido — Do que tem medo que eu peça para você fazer, Oliver? – provocou com um sorriso. Eu gostava disso, gostava de como esta manhã com Felicity estava sendo simples e fácil. Eu sabia que ambos estávamos ignorando o mundo exterior, eu sabia que não poderíamos ficar naquela bolha para sempre. Mas eu gostava de fingir que sim.

De fingir que só havia nós dois e mais nada nesse mundo.

Eu não sei se Felicity se permitia ver o que estava realmente acontecendo entre nós. Mas eu percebia tão perfeitamente agora. Eu sentia a conexão crescendo entre nós, a cada noite que passamos juntos, em cada sorriso compartilhado, e agora quando trocávamos pequenas confidências que pareciam tão sem importância numa brincadeira tão tola.

Mas não eram.

Nós estávamos construindo algo bonito juntos, apesar de toda a parte feia do nosso passado. Apesar dos problemas do presente.

Estávamos rescrevendo a nossa história.

E era por isso que eu não queria estourar aquela bolha.

Porque era a bolha do que poderíamos ser.

Do que seríamos, apenas se parássemos de lutar contra o que quer que crescia entre nós.

— Desculpe, o que disse? – perguntei ao notar que Felicity esperava minha resposta à alguma pergunta e eu estava distraído demais pensando em nós.

— Eu perguntei por que direito? Por que não administração? Seus pais deixaram uma empresa enorme para você e Thea. — assenti — Parecia natural você seguir o legado que eles deixam para você.

— Eu nunca quis ser a sombra do homem que meu pai foi, tampouco ser melhor do que ele. — expliquei – Ele foi um dos melhores homens que eu conheci, e eu não digo isso como um filho tentando endeusá-lo porque ele já está morto. – Olhei para Felicity que apertou minha mão na dela, estimulando-me a continuar — Ele foi um homem íntegro, negócios para ele nunca foram apenas sobre dinheiro, ele analisava cada aspecto e se houvesse algum meio de aquilo prejudicar injustamente alguém, ele simplesmente não fazia, não importava o quanto de dinheiro ele perdesse. Ele costumava me dizer que não havia dinheiro no mundo que pagasse a paz de espírito que era poder deitar a cabeça no travesseiro e adormecer, sem preocupações, sem arrependimentos ou culpas. Eu poderia facilmente ter seguido seus passos na empresa como você apontou, mas essa não era a minha paixão, eu queria fazer algo diferente, algo onde eu poderia colocar meu coração e ser um advogado é onde me encontrei. Trilhei meu próprio caminho respeitando tudo o que ele me ensinou, ser honesto, justo... Eu apenas quero honrá-lo sendo a melhor versão de mim mesmo. – encarei nossas mãos unidas. Falar sobre meus pais sempre aumentava aquela pressão no peito, eu podia sentir o nó se formando em minha garganta.

— Você é. – Felicity me assegurou, seus dedos brincando com os meus. Seu toque despretensioso me distraindo daquela pequena pontada de tristeza que sempre assolava meu coração quando eu falava dos meus pais — Sente muita falta dele?

— Todos os dias. – suspirei — Há tantas coisas para as quais eu gostaria dos conselhos dele, coisas que eu desejei ter conversado com ele antes que ele partisse para que ele me dissesse o que fazer – deixei minha mente divagar pelos últimos anos que tive com meus pais. Minhas escolhas talvez tivessem sido tão diferentes se eu tivesse me aberto com ele — Se ele estivesse aqui ou apenas se eu tivesse sido um filho mais presente, eu não teria errado tanto com Thea e com... – parei, antes de completar a frase com você.— Eu apenas sinto falta deles. Mas se há algo que aprendi é que o tempo não volta. Você não terá uma segunda chance com aqueles que você ama, então precisa fazer e dizer tudo o que precisa antes que esse tempo acabe, certo? — Ela não me respondeu e segurei a minha língua, antes que pudesse perguntar Felicity sobre como ela se sentia sobre seus pais. Ela já havia falado deles para mim. Sobre a prisão do pai, o afastamento da mãe, mas nunca realmente abria seu coração sobre isto, nunca falava como ou o porquê. Mas eu via que a dor ainda estava lá, seja lá o que fosse ainda não tinha se resolvido, e eu não queria cutucar a ferida. Por mais que eu desejasse poder ajudá-la a se curar.

— Verdade ou desafio? – perguntei a ela, fazendo-a piscar ao ver que eu estava continuando o jogo.

— Verdade. – disse ainda cautelosa. Seus olhos se tornando maiores quase me implorando para que eu não quisesse suas verdades.

Felicity era feita de segredos.

Perigosos. Feios. Destrutivos.

Eu os via agora sempre se esgueirando entre as respostas que ela me dava. Em sua relutância, quando seus olhos se desviavam e ela escondia a verdade em um sorriso pequeno. Era estranho pensar que quando a reencontrei depois de cinco anos foi tão fácil para ela mentir para mim.

Mas agora não.

Eu via a sua dor.

Eu via tudo dela. Eu podia não entendê-la. Podia não saber o que a machucava tanto, ela poderia enfeitar as mentiras, contorná-las com meias verdade, mas ela já não era capaz de esconder seus sentimentos de mim.

Eu percebi que quanto mais eu a pressionava a me dizer a verdade, menos eu conseguia dela, mais ela escapulia entre meus dedos. Eu odiava, assim como odiava as suas mentiras. E eu odiava ainda mais, não ter controle algum sobre como ela me fazia sentir sem importância para ela. Ela não confiava em mim. E mesmo que Felicity me fizesse odiar tantas coisas – seus segredos e mentiras, o jeito que ela parecia sempre escapulir entre meus dedos – em nenhum momento ela conseguiu me fazer odiá-la.

Eu percebi também que ela não escondia coisas de mim porque queria me machucar. Suas mentiras eram uma autodefesa dela, ela não queria se machucar ao ter seus segredos expostos. E por mais que eu quisesse ajuda-la, tudo o que eu poderia fazer era esperar e tentar mostrar através de meus atos e palavras, que eu estava ali para ela.

Que uma dor dividida é muito mais fácil de enfrentar.

E que eu estaria ali quando ela quisesse dividir.

— Oliver?

— Humm... – fingi pensar por um momento, e deixei a pergunta mais tola sair de meus lábios — Por que tem tantas calcinhas pretas? – perguntei seriamente, pensando nas cinco calcinhas dessa cor que tinha escondido nas minhas gavetas.

Felicity piscou enquanto me olhava incrédula. Seu rosto tenso se quebrando numa gargalhada alta. Apreciei com gosto vê-la jogar a cabeça para trás e pressionar uma das mãos sobre a barriga. Seu riso tão vivo fazia seu corpo balançar. Me permiti ter esse momento com ela e apenas rir de algo tão tolo.

— Sério, Oliver? – perguntou em meio a risada tão fascinante que fez meu coração pular uma batida — Com tantas perguntas para fazer, por que você me pergunta sobre minhas calcinhas?

Eu não me importava com a cor da sua calcinha — Eu a preferia sem elas para ser sincero. Mas eu queria vê-la rir despreocupadamente, queria tirar a tensão de seu rosto e mostrar que estava segura comigo. Eu não iria exigir nada que ela ainda não estivesse preparada para me dar.

Por mais que eu quisesse, a confiança quando conquistada tinha um sabor infinitamente melhor.

Ergui uma das mãos, meu dedo indicador capturando no canto de um dos seus olhos uma pequena lágrima. Me senti estranhamente realizado por fazê-la chorar de alegria, talvez se eu lhe desse muitas lágrimas assim pudessem anular todas as outras de tristeza que ela derramou por minha causa.

— Não pode culpar um homem por apenas pensar em todas as calcinhas que você tem... – O clima mudou um pouco. Eu sentia o ar mais quente ao redor de nós. Seus lábios entreabriram-se convidativamente para mim.

— Não existe outra razão? Talvez você prefira outra cor? — as pontas de seus dedos se apoiaram em meu torso desnudo, deslizando suavemente.

— Nós podemos discutir sobre isso outra hora... – inclinei meu corpo na direção do dela, poderíamos mudar a brincadeira nesse momento, eu não me importaria nenhum pouco de perder aquele jogo.

— Minha vez... – ela me parou, com ambas as mãos em meu peito me afastando apenas um pouco — Verdade ou desafio, Oliver?

— Desafio. – ela se surpreendeu seus olhos me encarando interrogativamente, mas logo sorriu, um sorriso diabólico em uma face de anjo. – Por que será que já estou arrependido disso? – Passei as mãos por meus cabelos e Felicity riu, prendendo o lábio entre seus dentes.

— Eu desafio você a dançar.

— Mas não tem música. – recuei.

Eu sequer me lembrava da última vez que dancei. Eu já havia dançado alguma vez? Rápidas lembranças passaram por minha mente, eu dançando com Thea em seu aniversário de dezesseis anos, e algumas poucas vezes com minha mãe quando eu era mais jovem e ela me obrigava a isso.

Estranhamente, eu nunca havia dançando com outras mulheres. Nem mesmo com Laurel, com quem estive por tanto tempo. Nosso relacionamento não era assim.

— Não é meu problema. – deu de ombros, se divertindo. – Você tem um desafio, Queen, se não quiser cumpri-lo é só me declarar como vencedora e me devolver minhas calcinhas.

— Sem chance. – declarei, eu não deixaria aquelas calcinhas saírem da minha gaveta jamais — O que quer que eu dance? – perguntei apenas para protelar. Eu estava fazendo meu cérebro buscar um modo de não ter que dançar. Eu pareceria ridículo.

— Sua escolha. – sorri largamente, eu havia encontrado uma brecha.

— Não deveria ter dito isso. — ergui-me ficando de pé sobre a cama, meus pés afundando sobre a maciez do colchão — Eu escolho uma dança a dois. – Estiquei minha mão para ela. Era estranho que eu me sentisse apreensivo enquanto aguardava que ela a aceitasse?

Para minha surpresa não houve hesitação quando sua mão repousou-se sobre a minha. Não havia seu olhar me analisando, não havia tensão alguma em Felicity. Ela apenas aceitara a minha mão, sem questionamentos.

Sem medos ou expectativas.

Meu coração inflou e eu a trouxe para mais perto de mim, moldando seu corpo ao meu. Coloquei suas mãos em meu pescoço e a abracei firme em meus braços, deixei minha cabeça cair ao lado da dela e fiquei apenas inspirando o cheiro de rosas do seu cabelo. Limpei a minha mente e me permiti apenas aproveitar a nossa dança.

Não estávamos dançando realmente.

Nem poderíamos. O colchão era muito macio para que fizéssemos algum movimento coordenado. Mas eu estava mais do que satisfeito em balançar com ela em meus braços e chamar isso de dança.

— Isso não é uma dança de verdade, Oliver. – os lábios quentes de Felicity moveram-se sobre a minha pele quando as palavras saíram de sua boca, fazendo os cabelos no alto da minha nuca se eriçarem — Acho que alguém irá perder nesse jogo.

Eu já perdi tanto de mim para você.

Mais um jogo não fará diferença.

— Você é uma mulher exigente. – Sussurrei em seu ouvido antes de fazer um movimento mais ousado. Tentei fazer como nos filmes, dando um passo para trás e girando-a por baixo do meu braço trazendo-a de volta para mim com um pequeno puxão para que no final seu corpo se encontrasse ao meu.

Mais do que nossas mãos unidas, vidas estavam se entrelaçando uma na outra.

Seu olhar no meu.

Nossos olhos, cada um em sua própria tentativa de ler o que estava escrito no do outro.

Eu não compreendia o que estava acontecendo entre nós, eu apenas queria mais desses momentos. Mais desse sentimento que me fazia vivo, me fazia respirar pela primeira vez. Como se por um longo tempo eu estivesse debaixo da água e a pressão me puxasse cada vez mais para baixo, alheio ao fato de que estava me afogando aos poucos, e finalmente alguém esticasse a mão para mim, trazendo-me de volta a superfície. Esse alguém era Felicity, ela soprara o ar para dentro de mim, trouxera a luz do sol, ela trouxera a vida.

Eu não podia estar mais agradecido a ela.

Felicity estava me salvando de mim mesmo, me salvando quando eu sequer tinha ideia de que precisava ser salvo. E naquele momento, com ela em meus braços eu só conseguia pensar no quão sortudo eu era por isso. Por piores que fossem as circunstâncias que a trouxeram de volta, por mais complicado que fosse o nosso passado e o nosso presente. Eu sequer sabia se teríamos algum futuro, ou se a história que estávamos vivendo iria desmoronar quando a realidade finalmente caísse sobre nós e cobrasse seu preço.

Eu ia aproveitar o agora.

Por quanto tempo ele durasse.

Apertei minhas mãos em sua cintura erguendo-a apenas alguns centímetros e a girei, várias vezes. Até que minha cabeça estivesse entorpecida já que seu rosto feliz era a única coisa que meus olhos viam, até que meus pulmões estivessem quase explodindo implorando pelo ar que eu lhes havia negado enquanto ria e girava com ela em meus braços. Sem prestar atenção nos meus movimentos, meus pés se embolaram nos lençóis e em um passo em falso, fiz nós dois cairmos na cama.

— Você está bem? – me apressei em perguntar, apoiando todo o meu peso em meus cotovelos observando o seu rosto.

— Sim. — seus dedos afastaram o cabelo do rosto, me permitindo ver o brilho de riso em seus olhos — E você, Oliver Queen, é um dançarino terrível. – acusou, ambas as mãos se colocando em meu peito me afastando. Rolei para o lado liberando-a do meu peso, e a observei com muita satisfação se levantar da minha cama ajeitando a minha blusa azul de malha que mal ia até o meio das pernas e decidi que gostava muito daquela imagem.

Mais do quer deveria.

— Retire o que disse. – me fingi de ofendido, sentando-me a cama.

— Ou o quê? – me olhou por cima dos ombros, seu pequeno sorriso me desafiando.

— Você não vai gostar disso... – meneei a cabeça saltando para fora da cama. Felicity deu um pequeno gritinho e correu de mim pelo quarto, dando a volta pela cama e depois subindo por ela, rindo alegremente enquanto eu a seguia em nossa própria versão de pega-pega. Eu poderia tê-la pego algumas dúzias de vezes, mas logo percebi que a diversão estava em perseguir Felicity, em derrubar coisas pelo caminho, em tê-la arremessando almofadas e travesseiros em mim tentando me atrasar.

Em escutar seu riso.

E o meu próprio junto ao dela.

Em apenas estarmos juntos.

Ela estava em cima da cama, e eu fiz menção de ir pelo o outro lado e no último momento mudei de direção.

— Peguei você! – exclamei vitorioso, quando meus braços abraçaram suas pernas e a impulsionaram, dobrando-a para cima do meu ombro.

— Oliver! Me coloca no chão. – Reclamou no meio de um riso enquanto suas mãos batiam em minhas costas.

— Não. – respondi arrogantemente. – Eu gosto de ter você assim.

— Como um maldito homem da caverna? – Eu ri.

— Não. – neguei — Presa nos meus braços sem ter como fugir de mim. – Expliquei, mas rapidamente notei o erro em minha sentença. Eu não queria ser um carrasco, eu não queria prendê-la a mim.

Eu queria que fosse sua escolha ficar presa a mim.

Havia uma grande diferença.

— Obrigada. – Felicity agradeceu assim que a coloquei de volta ao chão.

— Não me agradeça. – avisei — Há várias maneiras de mantê-la presa a mim, Felicity, mas eu prefiro aquelas em que é sua escolha ficar comigo. – Ela apenas sorriu dando um passo à frente. Seus braços se colocando ao redor do meu pescoço, dedos se enredando por meu cabelo a partir do alto da nuca numa singela carícia e então puxando meu rosto para mais perto do seu, deixando nossos olhos na mesma linha.

O sorriso mais lindo do mundo escorregou dos seus lábios quando ela disse as palavras que roubaram o pouco de sanidade que eu ainda tinha.

— Eu estou exatamente onde eu quero estar, Oliver.

Meu coração parou.

E voltou a bater mais rápido e forte.

Suas palavras tiveram um efeito imediato em mim, apertei seu corpo num abraço apertado, até que não houvesse um misero espaço entre nós. Abaixei a cabeça inspirando seu cheiro, e me concentrei na sensação gostosa que era tê-la em meus braços, sentir seu coração batendo tão furiosamente contra o meu. Eu nunca me senti do jeito que eu me sentia quando tinha Felicity comigo com outro alguém.

Tão completo.

Tão feliz.

— Verdade ou desafio, Felicity? – perguntei, entre uma batida de coração.

— Desafio. – ela soprou a palavra contra a minha boca, a pequena amostra do seu gosto fazendo-me esquecer de quem eu era por um instante, naquele momento eu apenas me lembrava do que eu queria.

E tudo o que eu queria era ela.

— Eu desafio você a me dar um beijo. – ela sorriu e ficou na ponta dos pés, seu rosto inclinando-se para o meu, seus lábios roçando sobre os meus suavemente, numa carícia cálida.

E então, como se não pudéssemos manter um beijo puramente terno, bocas se entreabriram o gosto quente da respiração misturando uma na outra, línguas se tocaram buscando pelo sabor da outra. Corações bateram mais rápidos, e eu pude até mesmo sentir algo dentro do meu sendo modificado.

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Nos separamos um pouco, a respiração ficando suspensa no ar enquanto nós dois apenas nos olhávamos, sorrindo um para o outro diante da rara felicidade que era poder compartilhar o que tínhamos.

E nós beijamos de novo.

E de novo.

E de novo.

Eu não conseguia ter o suficiente dela e parecia ser assim com Felicity também. Em cada beijo eu descobria um novo sentimento. Em cada beijo eu descobria um novo motivo para jamais deixar Felicity sair dos meus braços.

Acariciei seu rosto, sentindo a maciez e o calor da pele na palma de minha mão, gostando muito da maneira natural que Felicity simplesmente deixou o rosto tombar na direção de meus carinhos. Olhando em seus olhos novamente, observando o rosto do homem indubitavelmente feliz refletido em suas íris, a verdade finalmente me atingiu.

Eu estava me permitindo me apaixonar.

Por ela.

Por um momento enquanto eu a beijava, pensei que Felicity estivesse mudando algo dentro do meu coração, construindo um lugar para si mesma, um lugar onde nenhuma outra mulher jamais habitou. Eu estava enganado, ela não estava roubando um espaço dentro do meu coração, ela estava tomando-o para si. Fazendo-se dona dele. Mais do que isso, eu estava deixando meu coração em suas mãos. Eu estava lhe dando poder para amá-lo ou para destruí-lo, e honestamente, eu não fazia ideia de qual dos dois Felicity iria fazer. De tantas maneiras diferentes ela ainda era uma incógnita para mim, quando eu olhava para ela eu nunca sabia se iria encontrar a menina que um dia me amou com tanto fervor e inocência, ou a implacável mulher que teimava em se proteger atrás de uma muralha feita de ressentimentos, onde nenhum outro sentimento era permitido entrar. Talvez ela fosse uma mistura caótica das duas. Porém, eu já não me importava.

Ela tinha meu coração.

Eu estava me apaixonando por ela.

— O que colocou esse sorriso bobo no seu rosto? – seus dedos acariciavam o contorno do meu rosto agora, polegares delineando as linhas de expressão daquele sorriso. Seu olhar era curioso, seu pequeno sorriso tão lindo que me fazia querer beijá-la outra vez.

— Estou feliz porque ganhei o jogo. – Fiz algo que nunca pensei que fosse fazer. Eu menti para ela. Eu menti, porque era muito cedo para falar sobre meus sentimentos. Menti porque queria me preservar e porque eu mesmo não estava muito certo deles. Eu os queria guardar para mim, como um segredo, guardá-los com todo o cuidado do mundo e apenas mostrá-los quando tivesse certeza que ela não fugiria.

Quando tivesse certeza que ela confiava em mim o suficiente para revelar seus próprios sentimentos.

— Não, ganhou. – negou, sobrancelhas unidas emoldurando um olhar astuto que eu podia jurar, tentava-se lembrar como ela poderia ter perdido.

— Ganhei sim. — meu sorriso se tornou ainda maior — Seu desafio era me dar um único beijo e você me deu vários. E você também não respondeu minha pergunta sobre as suas calcinhas.

— Você me distraiu. – acusou, lábios apertados um contra o outro.

— Eu nunca disse que jogaria limpo. – pousei um beijo sobre o beicinho adorável em seus lábios.

— Humf, Advogados! ­– Felicity bufou e seus pés bateram firmes no chão, seu rosto fechando-se, olhos furiosos me fuzilavam. Eu já tinha visto diversas emoções cruzando o seu rosto. Tristeza, alegria, o jeito obstinado que seu nariz se empinava e olhar frio que cruzava seu rosto às vezes, eu ainda não tinha qualificado aquela emoção, apenas sabia que não iria querer cruzar o caminho dela quando ela estava assim. Mas eu nunca a tinha visto assim, como uma criança chateada por perder um jogo, era algo comum, tão humano e honesto que colocou um novo sorriso em meu rosto.

— Ei, aonde pensa que vai? — a segurei pela mão impedindo-a de para longe de mim, quando notei que tinha intenção de dar passos para longe — Eu ainda tenho que pegar o meu prêmio.

Puxei Felicity de volta para meus braços, e me permiti me perder em seus beijos e toques. Cai com ela de volta na cama, reivindicando o que me pertencia.

E não era a sua calcinha, embora eu tenha ficado contente em acrescentar mais essa a coleção.

Era Felicity.

Ela era minha.

***

Felicity Smoak

Eu sorri depois do suave beijo que Oliver deixou sobre meus lábios, e meus olhos seguiram cada parte de seu corpo quando ele deixou a cama e caminhou em direção ao banheiro. Me espalhei preguiçosamente na cama rolando para o lado que ele dormia, deixei meu rosto se afundar em seu travesseiro inalando o seu cheiro e apenas sorri com o quão tola eu parecia. Sorri novamente ao escutar o som do chuveiro sendo ligado, apenas fechei meus olhos e o imaginei, a água quente tocando e escorrendo por seu corpo, suas mãos o ensaboando, o box do chuveiro embaçado pelo vapor... Sim, eu já estava arrependida de ter negado seu pedido de tomar banho com ele, mas às vezes eu precisava de alguns momentos para respirar e não era fácil conseguir muitos desses quando tudo o que Oliver fazia me roubava o fôlego.

Às vezes uma garota precisa se afastar e colocar a cabeça no lugar para perceber em que encrenca estava se metendo.

Eu havia ficado em sua cama, aconchegada em seus braços até o amanhecer. Nós conversamos. Nós brincamos. E nós fizemos amor novamente. Mesmo depois de dizer a mim mesma que não o faria, que tudo o que Oliver teria de mim seriam àquelas noites quentes em que eu me permitiria me perder e ao mesmo tempo me encontrar em seus braços.

Eu lhe dei minhas manhãs também, apenas porque ele havia as pedido.

Senti um pouco de medo. Quanto mais de mim eu lhe daria, se ele me pedisse? Ou pior, quanto mais eu lhe daria apenas se Oliver sorrisse para mim?

Eu sorri novamente perdendo o controle quando a minha encrenca retornou ao quarto com seus cabelos molhados, corpo úmido e cheirando ao frescor de sabonete e loção pós barba. Seu corpo coberto apenas pela toalha ao redor da cintura fazendo minha mente seguir por caminhos perigosos. Meu coração deu um salto dentro do peito e senti minhas bochechas esquentarem quando Oliver lançou seu meio sorriso para mim.

Ainda bem que eu estava sentada na cama, pois seu sorriso ainda tinha o poder de me deixar de pernas bambas.

Sorri com mais malícia ao observá-lo retirar a toalha e vestir vagarosamente sua roupa, parecendo um pouco animado demais com meu olhar que seguia seu corpo em cada movimento.

Eu poderia me acostumar tão facilmente à uma vida assim. Onde em cada pequeno momento meu coração batia mais rápido, e era fácil encontrar uma razão para sorrir, uma razão tão simples como observá-lo vestir sua roupa. Uma vida com Oliver. Parei de sorrir tão tolamente e me obriguei a refrear meus pensamentos ao perceber aonde eles estavam indo.

Era tão fácil me deixar levar por ele.

Tão fácil corresponder aos seus toques e sorrisos. Tão fácil imaginar como a vida poderia ser. Mas não era. Forcei a última frase em meu pensamento, mas ela parecia ter perdido um pouco da força, como se minha cabeça já não estivesse mais no controle daquela situação. Muito pelo contrário, agora ela e meu coração pareciam brigar constantemente pelo poder, e pela quantidade de sorrisos que havia na minha vida eu sabia muito bem quem estava ganhando.

Isso não era bom.

Eu estava vivendo as últimas semanas em uma fantasia, ignorando o mundo e os problemas que esperavam por mim do lado de fora da porta daquele quarto, fingindo que existia mais para mim e Oliver.

Mas não existia.

Nunca iria existir.

Me levantei me enrolando no lençol e apressadamente comecei a buscar por minhas roupas pelo quarto de Oliver. Roupa. No singular. Porque basicamente tudo o que tinha se resumia à um vestido de verão jogado no chão, já que outra vez Oliver havia pegado minha calcinha.

Eu precisaria comprar novas.

Oh, merda! Já estou até mesmo fazendo planos!

— Você está bem? – parei abruptamente ao ver seu corpo a minha frente — Tem uma pequena ruga bem aqui, parece preocupada com algo. – A ponta de seu dedo indicador pressionou o ponto entre minhas sobrancelhas. Oliver não perguntou mais nada, apenas deixou a frase no ar, esperando que eu desse continuidade.

— Não é nada. – desmereci. Seu olhar veio cético em minha direção, mas Oliver não fez nenhum comentário – É só que ver você se arrumando para o trabalho, traz um pouco da realidade a tona. – respondi num tom sem emoção e evitando encará-lo enfiei o vestido por sobre a cabeça e antes que eu pudesse tentar fechá-lo, lá estava Oliver com seus dedos ágeis puxando o zíper para mim.

— Obrigada.

— Por nada.

— Como estão as coisas no escritório? – O questionei me afastando para o outro lado do quarto em busca das minhas sapatilhas, notei que Oliver travou por um momento diante da minha pergunta que parecia casual, mas que ambos sabíamos que não era.

Eu não poderia reclamar das últimas semanas. Na cama Oliver tinha sido um amante atencioso e fora dela um verdadeiro príncipe encantado digno de uma versão da Disney para maiores de dezoito. O tal advogado que tendia a ser um carrasco comigo havia desaparecido completamente, e eu culpava o sexo por isso. Por que eu sabia que propositadamente ele estava deixando uma parte importante do lado de fora. Ele já não me levava sempre consigo para o escritório, e quando eu o questionava como estava o meu caso ele apenas dizia: Temos que esperar e mudava de assunto, ou me distraía me beijando.

Eu recebi muitos beijos de distração.

— Bem. – suspirei com sua resposta. Ele estava sendo evasivo de novo e de propósito.

— Oliver... – caminhei até ele, ficando a sua frente e erguendo o queixo para encará-lo. Eu gostaria de ser tão alta como ele, assim poderia ter essa conversa de forma mais justa. — Pensei que você não gostasse de mentiras. – ele abriu a boca, mas assentiu antes de falar algo.

— Não é uma mentira. – seus olhos sequer piscaram.

— O que não está me contando? – peguei sua mão. Era errado eu desejar sua confiança quando eu mesma não lhe dava?

Ele soltou o ar e apertou minha mão. Fiquei feliz ao ver um pouco daquela pressão, a que ele sempre parecia carregar sobre seus ombros, ceder.

— Eu tenho tentado falar com Laurel, mas ela recusa minhas ligações. – Eu não sabia exatamente como me sentir sobre isso, então varri a sensação para um canto de mim. Eu tinha problemas maiores para lidar. — Está nas mãos dela, Felicity. Depende apenas dela se a promotoria vai ou não apresentar uma denúncia formal contra você. – Eu já sabia disso. E não estava nenhum pouco tranquila em saber que a ex-noiva dele iria decidir o rumo da minha vida. — Eu sei o quanto isso é uma merda, mas nós realmente temos que esperar que ela se decida.

— Certo. – forcei um sorriso encarando meus pés.

— Hey, eu não quero que se preocupe com isso – Senti sua mão delineando meu queixo, e o erguendo para encará-lo. Eu gostava disso, gostava de como Oliver sempre gostava de conversar olhando nos meus olhos, por mais intimidante que pudesse ser, em momentos como o de agora era apenas reconfortante. Porque me lembrava de que eu não estava sozinha. Eu o tinha. — Essa parte da espera é normal, eu prefiro que tente não pensar muito nisso ou vai ficar sempre nervosa. E se Laurel oferecer a denúncia, estaremos preparados para enfrentar o processo. Eu já lhe disse que você contratou o melhor advogado criminal da cidade? – eu ri, apenas porque amava o quanto Oliver era bom em tentar deixar as coisas mais leves.

— Você deve ter comentado uma ou trinta vezes! – ele riu também.

— Vamos descer. – pousou um rápido beijo sobre meus lábios, e sua mão desceu se enroscando na minha — Thea provavelmente está esperando por nós para tomar o café.

— Você quer dizer: Thea está nos esperando para nos embaraçar durando o café.

— Se eu dissesse com essas palavras você poderia recusar.

— Sim. — devolvi — Mas estou com fome demais, e como vou estar com a boca cheia você pode lidar com ela dessa vez para variar. – joguei para ele. Uma vez que sempre que Thea começava com suas insinuações nenhum pouco discretas ou Oliver inventava uma desculpa para se afastar, ou ele apenas ficava observando minhas respostas com um maldito sorriso no rosto.

— Vamos. – ele apenas sorriu daquele jeito para mim. Meu estômago se agitou um pouco quando caminhávamos para fora do seu quarto e notei que Oliver ainda não tinha soltado minha mão.

— Oh, espere! Preciso passar no meu quarto antes. – comentei, soltando a sua mão e mudando de rumo. Oliver pareceu emburrado.

— Por quê? – perguntou e eu apenas sorri.

— Eu preciso vestir uma calcinha, parece que alguém roubou a minha.

***

Eu sabia que esta manhã havia mudado um pouco as coisas.

Eu sentia isso.

No momento em que voltei para a cama e que decidi ficar nela com Oliver por toda a manhã. Me permitindo apenas ficar com ele, sem pensar. Poderia parecer nada demais, porém havia mudado tudo, e eu não era a única a notar isso.

O olhar de Thea caiu diretamente para nossas mãos unidas quando chegamos à cozinha. É claro que ela sabia que estávamos dormindo juntos, mas que era apenas isso. Bem, pelo menos foi o que eu disse à Thea.

Thea Queen era minha melhor amiga há anos. Mas isso não significava que ela pegava leve comigo, provavelmente o fato de sua melhor amiga e seu irmão estarem abertamente em uma espécie de “relacionamento físico por tempo indeterminado” como eu fiz questão de explicar para ela, fosse motivo o suficiente para que ela não tivesse papas na língua com nenhum de nós dois.

— Bom dia. – falei cautelosamente, sentando-me assim que Oliver puxou a cadeira para mim. Thea abriu um amplo sorriso por detrás da xícara de café e seguiu nos observando – Pode parar de ser gentil? – Sussurrei apenas para Oliver, que me encarou como se eu fosse louca por pedir isso, e se sentou em sua própria cadeira.

— Para algumas pessoas eu imagino que seja um excelente dia – ela piscou os olhos para mim inocentemente, e eu sabia que estaria ferrada — Não há nada melhor do que passar uma manhã preguiçosa na cama eu suponho. – Sua boca dizia uma coisa, mas o olhar astuto e o modo como seu sorriso se erguia em um dos cantos, dizia outra. – Principalmente quando se tem companhia...

— Humhum – me limitei a resmungar enfiando uma torrada na boca, mastigando ruidosamente.

Oliver despejou seu café em uma xícara, e abriu o jornal do dia em uma página de esportes, dobrando-o e colocando sobre a mesa, para que pudesse tomar seu café e ler ao mesmo tempo. Ele parecia concentrado demais em um artigo sobre um jogador de beisebol que havia machucado o braço e não estaria nas finais do campeonato, tão concentrado que poderia me enganar se eu não soubesse que ele não gostava nenhum pouco de beisebol.

Por um tempo o único som entre nós era do ruído da torrada que eu enfiava na boca para ter uma desculpa para não falar nada. Mas Thea Queen não era conhecida por gostar de silêncio.

— Então... O que você e meu irmão tanto fizeram naquele quarto esta manhã que eu ouvi tantas barulhos e risadas? Testaram algumas novas posições ou... – Oliver ficou tão vermelho quanto a geleia de morango que tinha nas mãos e eu não consegui decidir se engolia a torrada ou se a cuspia, então fiz os dois e comecei a tossir desesperadamente enquanto engasgava. – Uau! Foi tão bom assim? – Thea ria amando a minha reação.

— Felicity, beba um pouco disso. — Oliver me passou um copo de suco o que me ajudou bastante, porém agora eu não tinha a desculpa para não responder a Thea – Se sente melhor? – Perguntou, num sorriso que mal escondia o riso dele.

— Idiota. – revirei meus olhos para ele.

— Você estava engraçada.

— Eu quase morri! – dramatizei.

— Hey, vocês dois vão ficar agindo como um casalzinho e me ignorando ao invés de me responder? – Thea reclamou claramente ofendida por ser deixada de fora. – Eu quero saber a razão dos barulhos por trás daquela porta.

— Thea Queen! Eu espero que você não tenha o hábito de escutar atrás da porta! – Oliver a recriminou.

— Eu não preciso, vocês dois não estavam sendo exatamente silenciosos. – se defendeu — Eu poderia jurar que tinha alguém dançando sobre a cama. — Oliver sorriu, fazendo o rosto de Thea se iluminar como o natal.

— Eu não danço, mas Felicity conhece alguns movimentos. – eu pude sentir meu rosto arder, não por causa do comentário que apenas colocaria mais lenha na fogueira, mas por causa do olhar de Oliver para mim.

— É mesmo? — Oh, inferno! Thea pousou os cotovelos na mesa, o rosto se apoiando nas mãos e ela olhava para mim esperando por mais.

— Era suposto que você não a incentivasse! – olhei para ele com raiva. — Como se atreve a alimentar o monstro?

— Espere, eu sou o monstro? – Thea gargalhou, claramente se divertindo.

— Preciso atender essa. – Oliver anunciou, depois de olhar para o celular – Terminem a conversa sem mim.

— Covarde. – acusei quando ele se aproximou apenas para deixar um beijo suave em meus cabelos. O observei se afastar com um suspiro, e mesmo depois que ele partiu continuei encarando a porta por onde ele tinha saído.

— E então? – a voz de Thea me chamava de volta.

— Então? – repeti, me fazendo de tola.

— Não banque a desentendida comigo, Felicity! — reclamou. E logo em seguida arrastou sua cadeira para ficar do lado da minha. Sua mão em meu braço dizendo que eu não tinha como escapar daquela conversa. – Eu quero saber o que está realmente acontecendo entre você e meu irmão? – exigiu. Não havia mais aquele tom de insinuação cujo o intuito era apenas se divertir a minhas custas. Thea falava a sério.

— Thea você já sabe... – comecei.

— Eu não estou dizendo a parte do sexo, isso é bem óbvio e vocês sequer escondem. – se apressou em me interromper — Estou falando dos toques, dos olhares longos, dos sorrisos compartilhados como se apenas vocês dois soubessem o motivo. Do suspiro saudoso e do olhar em seu rosto assim que ele partiu, apenas para atender uma mera ligação na sala e você agiu como se ele estivesse indo para o Japão. Dessa cumplicidade. E sim, estou falando das risadas que escutei essa manhã. Eu não sei o que as provocou, mas o som era bom e sincero e seja lá o que vocês estavam fazendo pareciam muito divertido. – Eu não tinha uma resposta, na verdade eu vinha tentando não rotular o que estava acontecendo entre nós. – Vocês estão namorando?

— Oh, não. – neguei rápido demais, ganhando uma carranca de Thea — Eu honestamente não sei o que está acontecendo, Thea. – resolvi ser o mais sincera que poderia – Eu não acho que estamos namorando, namorar incluí certas expectativas e compromissos que não podemos assumir no momento, eu não sei o que isto é para Oliver... Nós estamos nos dando bem e isso é o que importa, certo? – busquei por confirmação nos olhos dela, enquanto meus dedos brincavam inquietamente um com o outro. Eu estava nervosa com aquele assunto, com o que ele poderia revelar. – Da minha parte, eu... Eu apenas não estou pensando mais. – percebi tardiamente que meu coração havia ganhado aquela guerra pelo poder e estava no comando de todas as minhas reações. – Acho que estou me deixando apenas ir, aonde quer que isto nos leve. Eu não quero mais ficar negando o que quero, ou me escondendo. É exaustivo e não traz nada de bom para nenhum de nós. Por outro lado estar com Oliver... – eu senti todos os músculos do meu rosto se contraírem em um sorriso inevitável, um suspiro deixou meus lábios — Estar com ele alivia um pouco da dor aqui dentro, deixa tudo mais leve e é bom. Meu Deus é muito bom! – só quando eu falei em voz alto, eu percebia o quanto eu me sentia feliz com Oliver, um sentimento que por tanto tempo esteve ausente, e agora ele trazia de volta para a minha vida.

— Eu gosto de te ver assim. – Thea sorriu, mas havia algo em seus olhos que não combinava com o seu sorriso — Você fica menos carregada.

— Eu acho que eu também gosto. – confessei num tom mais baixo. Ainda incerta de até que ponto isso seria bom. Porque estar com Oliver, permitir que ele tivesse tanto de mim, era perigoso, mas eu não conseguia mais controlar. Eu não podia mais fingir que ele não mexia comigo, que não aflorava sentimento bons e ruins. Eu não queria mais lutar contra. E eu já não era mais capaz de me fechar uma vez que abri a porta para ele entrar. Eu só temia sua reação quando descobrisse o que mais havia dentro, escondido atrás daquela porta.

— Ei, estou indo para o escritório. – Oliver retornou a cozinha anunciando — Diggle me ligou, parece que Tommy aprontou alguma coisa e teremos um dia cheio de problemas para solucionar.

— Problemas?

— Nada com o que você deva se preocupar. – se adiantou em esclarecer. – São apenas coisas da nossa sociedade.

— Tem certeza que não precisa de mim? – perguntei esperançosa. Oliver se aproximou com um sorriso contido, dobrando-se ao meu lado sobre um dos joelhos e ficando da minha altura. Sua mão pousou-se em minha coxa e ele me olhou, tanto o toque quando o olhar me fazia quente. Eu não sabia se Oliver era ciente de que Thea estava ali, nos encarando, mas quando senti seu olhar em mim, nem mesmo eu me lembrava de que havia mais alguém nessa cozinha que não fosse nós dois.

— Eu sempre preciso de você, Felicity. – Engoli em seco. Uau! Isso foi intenso demais, Queen. Não faça isso com o meu coração, ele pode acreditar.

Ele já está acreditando.

— Awn... – Thea suspirou sonhadoramente, me lembrando de voltar para a terra — Essa é coisa mais fofa que já ouvi meu irmão dizer desde que nasci.

— Vai me deixar aqui sozinha com ela?— Perguntei Oliver que apenas riu.

— Me desculpe por minha irmã. Eu adoraria te livrar das garras dela e te ter para mim o dia inteiro, mas hoje simplesmente não dá. – fiquei um pouquinho satisfeita, apenas de ver que Oliver também não queria ficar longe — Você ia se entediar, vou ficar o dia inteiro em reunião. – cobri sua mão com a minha.

— Tudo bem, eu te vejo a noite. – algo passou pelos olhos de Oliver.

— Eu estava pensando, quando eu voltar nós podíamos fazer algo diferente, talvez um jantar juntos? — Por que ele parecia nervoso com isso?

— Nos sempre jantamos juntos. – franzi o cenho sem entender.

— Eu quis dizer apenas nós dois.— Eu ri quando seus olhos moveram-se de mim para a irmã, que permanecia ali nos observando.

— Vou fingir que não estou ofendida. – Thea balbuciou.

— Eu estou tentando fingir que não estou ofendido com você escutando atrás das portas. – Oliver revidou. – Não pode me culpar por querer um pouco de privacidade, irmãzinha.

— Ok. – ela se levantou sentando-se na outra ponta da mesa. – Esse é o máximo de privacidade que vão ter de mim. Eu sempre gostei de sentar na primeira fila e apreciar o show. — Oliver revirou os olhos para a irmã e voltou-se para mim.

— Sair um pouco seria bom — começou – Quando você não está aqui, está comigo em meu escritório. Eu sei que é minha culpa, que eu te peço para evitar sair, mas acho que os jornalistas finalmente estão esquecendo sua história e focando em uma coisa tola como o próximo bebê Kardashian...

— Kim está gravida de novo? – Thea quase gritou de animação.

— Viu? – ele riu da irmã, que já pesquisava a informação em seu celular – E então o que acha? Podemos sair para jantar hoje? – Oliver apertou nossas mãos.

— Parece uma boa ideia. – Consegui responder apesar das voltas que meu estômago dava, apenas de tê-lo olhando para mim daquela forma.

— Então é um encontro. – Espere. O quê? Eu tenho um encontro com Oliver? — Te vejo mais tarde. – Oliver disse pousando um beijo leve em meus lábios e me deixando ali, o vendo se afastar e apenas pensando: como diabos eu ia ter um encontro com Oliver?

A adolescente em mim estaria surtando com isso. Já a mulher... Bem, eu tinha um coração palpitando e um sorriso no rosto só de pensar. As duas não eram tão diferentes afinal.

— Oh, Deus! Oh meu Deus! – Thea veio para o meu lado correndo — Você está com aquele sorriso! – acusou.

— Que sorriso? – imediatamente fechei a cara.

— Sabe como eu descobri que você era apaixonada pelo meu irmão? – neguei com a cabeça – Eu quero dizer você deu várias bandeiras, e de certa forma eu estava acostumada as meninas suspirando pelo meu irmão sempre que ele aparecia na escola ou em uma festa para me buscar. Eu não sei porque, mas aparentemente Ollie é atraente. — Thea balançou a cabeça — Então eu reconhecia o olhar de luxúria, o suspiro sonhador das garotas, muitas delas tentaram ser minhas amigas apenas para se aproximar de Ollie.

— Thea, eu não...

— Eu sei, Felicity. – Thea me assegurou — Você é uma das poucas amizades sinceras que tive, eu conheço a diferença. – Minha mão apertou a dela. — Mas ainda assim, você se apaixonou por ele. E diferente daquelas garotas, eu não te via se jogando para cima do meu irmão. Eu notava que você tendia a tagarelar mais perto dele, fazia algumas piadas terríveis, mas eu notava também que Oliver gostava da sua companhia. Ele te achava inteligente ou sequer falaria com você. E então teve o meu jantar de aniversário de dezesseis anos. Você chegou com Oliver, um pouco molhada e vestindo o casaco dele e Oliver explicou rapidamente que havia te dado uma carona quando te encontrou no caminho para a mansão. Você retirou o casaco dele e o entregou, agradecendo. Não houve nada demais, uma interação comum, exceto que Oliver olhou para você por uns cinco longos segundos... — eu me lembrava daquele momento, na verdade eu me lembrava de tudo o que aconteceu naquele dia — ...E depois disso você sorriu. Não, você não sorriu para ele, você sorriu para si mesma. Um único sorriso e seu rosto se iluminou, seus olhos ficaram mais azuis e perdidos num mundo completamente seu... exatamente como agora, quando tudo o que Oliver fez foi olhar para você.

Meu estômago deu uma volta completa e fiquei contente por não ter comido muito. Eu entendi o que Thea me disse, eu estava muito perto de me deixar levar por aquele sonho outra vez.

— Eu amo ver esse sorriso em você, mas eu temo por quanto tempo ele ficará aí. – eu entendia o seu temor. Eu mesma o sentia, sempre a espreita, aguardando pelo momento em que a doce fantasia iria desaparecer diante do peso e da escuridão que trazia a realidade.

— A história não vai se repetir dessa vez, Thea. – expliquei mais duramente — Thea, eu não vou deixá-lo quebrar meu coração dessa vez. – assegurei. Eu estava mais envolvida do que deveria? Sem dúvidas. Oliver ainda poderia quebrar meu coração como daquela primeira vez? Nem tanto.

Não se pode quebrar um coração, quando não restou muito dele para ser quebrado.

— Eu sei. – havia uma tristeza em seu olhar e um sorriso condescendente em seu rosto. Não gostei da combinação. — Você está se protegendo. Você é uma mulher endurecida pela vida agora, e seria preciso muito para sequer derrubar essa muralha que você construiu ao redor do seu coração – ela apertou minha mão e respirou fundo, olhando em meus olhos — Mas Ollie não está se protegendo, Felicity. Ele está se jogando nisso como eu nunca o vi jogar em um relacionamento antes. Eu conheço o meu irmão e eu nunca o vi assim antes, sorrindo a todo o momento, olhando para você como se você fosse algo precioso demais para ele. Você não vê, Felicity? Meu irmão está entregando o coração à você – Pisquei balançando a cabeça, negando. — E você vai quebrar o coração dele. – engoli em seco, sem saber o que falar – Eu não quero ter que escolher um lado, eu não posso.

Thea estava certa.

Eu quebraria seu coração continuasse com isso. Mas como parar agora? Eu poderia ir até Oliver e dizer que simplesmente acabou? Não. Arriscar ser sincera com ele? Eu não estava pronta. Talvez eu estivesse sendo egoísta, mas eu precisava de Oliver para fazer aquela pequena parte do que restou do meu coração bater. Mas eu poderia fazer isso ao custo de seu coração inteiro e saudável?

— Thea...

— Você tem um encontro com o meu irmão. – ela anunciou de repente alegre e sorrindo novamente — E precisa de um lindo vestido. Particularmente eu acho que você fica linda de vermelho, mas azul destaca seus olhos e preto te deixa sexy como o pecado...

— Como é? – pisquei. Como saímos de um assunto como quebrar o coração de Oliver, para vestidos?

— Vem vamos para o meu quarto, nós vamos fazer o que duas melhores amigas fazem de melhor além de falar mal dos ex namorados. – Thea me puxou pela mão, forçando-me a me levantar da cadeira — Experimentar roupas enquanto falamos mal dos namorados atuais. – ela piscou para mim.

Eu entendi.

Thea estava me dando a saída fácil, a saída na qual eu não precisaria pensar em nada agora. Não pensar nas consequências dos meus atos. Covardemente eu a aceitei, ciente de que Thea era tão boa quanto eu em ignorar a verdade.

***

Oliver Queen

Assinei a última página do documento e o deslizei pela superfície da ampla mesa da sala de reunião, passando-o para Diggle, que agora lia todo o conteúdo página por página, vagarosamente e fazendo algumas anotações nas bordas. Testando a minha paciência com toda a sua meticulosidade.

Eu tenho um encontro, ande logo Dig.

— Com pressa, Ollie? – Tommy olhava diretamente para a caneta que eu batia freneticamente sobre a mesa.

— Você vai me pagar caro por ocupar todo o meu dia, Merlyn. – o ameacei levianamente. Tommy sorria abertamente, e eu honestamente não me recordava de ver um sorriso assim no rosto dele antes. Um sorriso sem motivos escusos, era simplesmente de felicidade.

— Tinha planos melhores? – Pensei em Felicity em minha cama naquela manhã e pude sentir meus músculos faciais se erguerem querendo formar um sorriso.

— Melhores do que convencer meu melhor amigo de que dissolver uma sociedade de anos apenas para que ele pudesse namorar a estagiária sem contrariar o código de ética da empresa? — Thomas Merlyn estava namorando. Até mesmo na minha cabeça isso soava ridículo e impossível, mas eu torcia que isso desse certo para ele. – Qualquer coisa é melhor do que isso.

— Eu não vi outro jeito. – ele deu de ombros, como se não fosse nada demais. Será que meu amigo não via o enorme passo que ele tinha dado?

— Você gosta mesmo dela. – comentei — Estou feliz por você. Mas foi muito idiota da sua parte querer largar seu emprego para ficar com Sara.

— Eu gosto e essa parecia a única solução para poder ficar com ela. — Eu tinha que respeitar Tommy por isso, era uma parte mais amadurecida dele que eu não estava acostumado a ver com frequência. E me fez pensar, até que ponto estamos dispostos a fazer sacrifícios para ficarmos com as pessoas que são importantes em nossas vidas?

— Para sua sorte Diggle e eu somos muito mais inteligentes do que você e encontramos uma saída. – pisquei para ele. Por mais que eu achasse honrado da parte dele querer abrir mão da sua carreira em benefício de Sara, eu não iria abrir mão do meu melhor amigo. Nós construímos isso juntos, eu o respeitava e confiava nele tanto como profissional quanto amigo. E era mais fácil mudar as regras da empresa do que apenas deixá-lo ir.

— Está tudo certo, só falta autenticar – Diggle anunciou batendo as folhas na mesa apenas para acertá-las e logo em seguida passando a papelada para Tommy. – Você é um homem livre Thomas Merlyn. Bem ou quase, agora que tem uma namorada eu não acho que liberdade vai ser algo muito comum na sua vida. – Diggle brincou.

— Agora eu posso beijar, Sara! – Ele ergueu os papeis em sua mão como se fossem um troféu.

— Claro que não pode! – Dig respondeu, olhando sério para ele.

— Claro que posso! – Tommy revidou, e eu apenas me encostei mais confortavelmente na cadeira sabendo que aquilo seria divertido de ver.

— Você não leu as linhas pequenas, Merlyn? – Diggle ergueu uma das sobrancelhas, daquele jeito capaz de deixar qualquer um nervoso.

— O quê? O que tem nas linhas pequenas? – Tommy espalhou as folhas sobre a mesa correndo os olhos rapidamente tentando encontrar algo.

— Primeiro, você precisa se reportar ao RH e preencher uma papelada, informando a natureza do relacionamento de vocês dois. — Tommy parecia prestes a ter uma síncope e tive que disfarçar meu riso com uma tosse enquanto fingia solidariedade pela sua situação. — Sara será remanejada para outro setor, vocês dois não poderão trabalhar mais juntos e você terá um novo estagiário.

— Isso é absurdo! – reclamou como uma criança que não quer ir para cama em seu horário de dormir.

— Também tem aquela palestra sobre assédio no trabalho que ele vai ter que assistir todas as terças e quintas-feiras na parte da manhã por pelo menos um mês e meio. – acrescentei, apenas para ver o desespero dele maior.

— O quê? – Tommy arregalou os olhos para mim.

— E estava me esquecendo: nada de amassos dentro do escritório. – Dig sentenciou.

— Ora! Isso não é justo! – exclamou apontando o dedo acusadoramente para mim -Você transou com Felicity no seu escritório! E eu não posso dar uns beijinhos na minha namorada?

— Eu não sei do que está falando, Tommy. – menti. Eu nunca esqueceria aquele dia com Felicity.

— Vocês estão curtindo com a minha cara, certo? – Ele nos observou por um tempo, a voz cheia de esperança. Desejando que fosse apenas uma pegadinha.

— Não. – Dig e eu respondemos em uníssono.

— Oh, merda.

— Veja pelo lado bom, Tommy. – Eu sabia como era a sensação de querer estar com alguém e não poder, eu simpatizava com meu amigo. — faltam trinta minutos para o expediente acabar, e o que acontece da porta para fora desse escritório depois do horário, não é da nossa conta. – Ele assentiu, um sorriso pequeno se espalhando pelos seus lábios.

— Ótimo! — anunciou, seus olhos brilhando em ansiedade quando ele retirou o celular do bolso – Agora só faltam vinte e nove minutos.

Sorri para Tommy. Ele não era o único contando os minutos para estar com a pessoa que desejava.

***

Parei o carro em frente a mansão. Perdi um momento observando sua grandiosidade e como agora ela me parecia mais viva e convidativa, como jamais esteve desde a morte dos meus pais. Meu olhar se fixou na luz que vinha de uma das janelas que eu supunha ser a do quarto de Felicity a sombra da silhueta de um corpo feminino balançava por trás das cortinas fazendo-me perder mais tempo apenas a admirando.

Ela parecia dançar.

Eu poderia ficar ali apenas olhando-a para sempre.

Mas “para sempres” sempre são interrompidos.

Meu celular começou a tocar, me obrigando a desviar a atenção da mulher dançando para ele. Franzi o cenho ao olhar a identificação no visor, me sentindo imediatamente nervoso. Eu esperava por essa ligação há dias e agora que eu a estava recebendo eu gostaria de apenas desligar meu celular e fingir que ela não existia, porque eu sabia que no instante que eu a atendesse essa ligação mudaria tudo. Para o bem ou para mal, nada seria o mesmo depois dessa ligação.

Eu iria perdê-la.

E eu me recusava a aceitar isso.

Recusei a ligação desligando o celular, não permitiria que isto arruinasse a noite que eu havia planejado para nós dois.

Eu lidaria com esse problema amanhã.

Porque agora eu só precisava de Felicity, só precisava que nós dois tivéssemos mais uma noite onde eu sentia que nada nem ninguém pudesse ficar entre nós. Mais uma noite onde ela era minha e eu dela.

Mais uma noite para amar, mesmo que nós dois não admitíssemos que era isso o que estávamos fazendo.

Entrei em casa e subi as escadas, ansioso para chegar ao quarto dela.

Pela cena que eu tinha visto lá de baixo imaginei que a encontraria dançando pelo quarto e eu estava louco para observar isso mais de perto. Quem sabe até mesmo me juntar a ela outra vez? Abri a porta estranhando que as luzes estivessem apagadas, as acendi e caminhei a passos mais leves ao notar o amontoado enrolado debaixo das cobertas. Instantaneamente me preocupei que ela tivesse adoecido ou algo assim, estava uma noite quente para ficar debaixo das cobertas.

— Felicity? – a chamei, me aproximando da cama e sentando-me ao seu lado — Está tudo bem com você? – falei mais doce, colocando a mão por sobre as camadas de cobertores para que ela soubesse que eu estava ali.

Escutei apenas um resmungo, e aquilo me deixou incomodado.

Eu conhecia seus resmungos, seus gemidos, até mesmo sua respiração. Puxei o cobertor e todo o sangue do meu corpo começou a ferver quando olhei para quem estava ali.

Não era Felicity.

— Que caralho você está fazendo aí? – Gritei, fazendo o homem acordar, sim havia um maldito homem na cama de Felicity, me olhando atordoado.

— Será que dá para apagar a luz? – ele resmungou voltando-se a cobrir com o cobertor — E parar de gritar também ajudaria.

— O inferno que vou parar de gritar! Você vai se levantar daí e é agora, ou eu te arranco no braço! — puxei os cobertores para fora. Eu estava pronto para puxar o filho da mãe pelas pernas e o arrastar para fora do quarto (possivelmente para fora da cidade também tamanha era a minha fúria) quando a porta se abriu e dois pares de olhos me encararam assustados.

— O que está acontecendo aqui? – soltei as pernas dele assim que Thea fez a pergunta.

— Ele está na cama dela! – apontei para o óbvio, bufando como um touro bravo.

— Oh, merda! — Thea xingou — Ollie, não precisa perder a cabeça por causa disso. – Por que diabos minha irmã estava dando de ombros para aquela cena?

— Eu chego em casa e tem um moleque deitado na cama da minha namorada e eu não deveria perder a cabeça por causa disso? – eu sabia que estava gritando, mas eu não controlava mais nada em mim. Eu era feito puramente de ciúmes. Me lembrei dele brincando com Felicity na piscina e agora minha cabeça não parava de pensar em como ele teria brincado com ela dentro de seu quarto. É verdade que o ciúme torna as pessoas poucos racionais, e ele nunca vinha sozinho, raiva era uma boa parte dele. — Como diabos eu deveria lidar então? – ninguém me respondeu e isso me deixou ainda mais irritado — Isso está acontecendo há quanto tempo? – Olhei diretamente para Felicity, que até então tinha permanecido parada a porta apenas observando a cena com certo afastamento.

— Acontecendo o quê? – Ela pareceu confusa.

— Você e o tal Roy ali. – indiquei o moleque agora sentado na cama dela parecendo um pouco atordoado olhando para todas as pessoas a sua volta.

— Essa é uma pergunta séria? — Felicity devolveu incrédula, havia um riso amargo e sem humor algum em seu tom de voz. Seus passos vieram firmes na minha direção e por um momento eu prendi a respiração. Botas que iam até os joelhos, um quase indecente vestido preto colado ao corpo que mais parecia uma segunda pele. E ela havia feito algo com seus cabelos enrolando-os e os jogando sobre um lado do ombro, que me fazia desesperadamente querer tocá-los e bagunçá-los, tê-los espalhados por sobre meus travesseiros, beijar a parte nua do seu pescoço. Deus! Felicity não estava apenas linda, ela estava... perturbadoramente sexy.

Ela parou a minha frente, sua visão tirando todo o meu foco até que encarei seus olhos tão magoados. Me incomodei, eu era o único com o direito de estar magoado ali.

Havia um cara.

Na cama dela.

— Claro que é uma pergunta séria! – parei de olhá-la, não fazia bem olhá-la quando eu estava tão puto da vida e ela tão tentadora — Na verdade, eu não quero saber a resposta. — eu disse, tentando me acalmar enquanto varria as imagens que meu cérebro cismava em formar — Eu o quero fora daqui, e o quero agora e então depois você pode me dar suas explicações.

— Explicações? – o tom de Felicity subiu alguns oitavos claramente ultrajado — Eu não te devo explicações!

Ótimo, ela iria agir como inocente.

— Felicity... – virei novamente a encarando, novamente tentando controlar a confusão de sentimentos dentro de mim, raiva, ciúmes e algo doce que nem mesmo eu sabia o que era — Eu te perguntei se havia alguma coisa entre vocês dois logo no começo de toda essa confusão e você disse que não. – a lembrei duramente — Essa foi mais uma das suas mentiras para mim?

— Sim, Oliver. – ela me olhou friamente, braços cruzados — Eu estou dormindo com você e com Roy. – sua voz não tinha emoção alguma, e apenas isso já deveria ter me alertado — Sempre que você sai para o trabalho e às vezes eu dou uma escapadinha no meio da noite.

— Felicity! – Thea pareceu alarmada.

— O quê? – deu às costas para mim — Eu só disse o que Oliver quer ouvir.

Oh, merda.

Merda.

Eu demorei para perceber que estava sendo um idiota. De novo.

— Deixe de ser um idiota ciumento, Ollie. – Thea se intrometeu entre nós. – Roy está aqui porque ele não estava se sentindo bem, eu disse Felicity que se arrumasse no meu quarto para o encontro com você enquanto Roy descansava no dela. – Olhei para Roy, deitado na cama o rosto ainda pálido parecendo mesmo doente.

— Oliver não precisa de explicações, Thea. – Meu olhar caiu direto em Felicity encostada a parede do quarto, a frieza do tom dela machucando-me – Ele já assumiu que eu estava mentindo.

— Felicity, eu...

— Sinto muito por acusá-la de ser uma mentirosa traidora? – completou num tom debochado. Ela tentava esconder, mas como muitas coisas em Felicity ela já não era capaz de se esconder de mim. Eu via o quanto eu havia a magoado. Como diabos eu ia consertar isso?

— Oliver está certo num ponto, Felicity está mentindo para você. – encarei minha irmã.

— Thea. – Felicity a advertiu balançando a cabeça.

— É claro que isso não tira a culpa de você ter sido um idiota com ela agora. – eu não entendia mais nada do que estava acontecendo. Me sentei a cama cotovelos nos joelhos rosto escondido nas mãos, na esperança de que as coisas fizessem mais sentido se eu respirasse um pouco e as olhasse a partir de uma nova perspectiva — Você precisa parar de pensar com o coração e racionalizar um pouco, você e Felicity tem um encontro hoje, porque ela traria outro homem para cá? – meu coração afundou, era tudo tão óbvio.

— Eu sei. – Olhei para Felicity honestamente arrependido, desejando que ela pudesse ler em meu olhar o quanto eu lamentava. – Eu lamento. Muito. Eu não estava pensando. – percebi que eu fazia muito isso desde que Felicity e eu ficamos juntos, passei a sentir mais e pensar cada vez menos.

Felicity não me respondeu.

— Sem contar que Felicity jamais faria isso comigo. – pisquei sem compreender o que Thea falava — Roy e eu estamos juntos há meses, meses Oliver! Nos conhecemos no meu trabalho – ela começou a me explicar — Eu apenas não quis formalizar as coisas com você, porque eu não o queria todo cheio de preconceito porque Roy tem ficha na polícia. Além disso, Felicity mal conhece Roy! Como ela poderia ter qualquer caso com ele?

— Thea, já é o suficiente. – Felicity a interrompeu.

— Não, chega de mentiras, Felicity! – minha irmã tomou a frente, sentando-se ao meu lado na cama — Eu já deixei isso ir longe demais, eu sequer devia ter concordado com toda essa loucura para começo de conversa.

— Thea, do que que estão falando?

— Eu apresentei Roy à Felicity naquela festa. – ela contou — Eu estava naquela festa com Roy e como eu sabia que Felicity iria estar na cidade, eu a convidei para ir conosco.

— O que disse? – pisquei, tentando assimilar as palavras. Juntando-as no quadro completo do que eu achava que sabia que havia acontecido naquela noite. Minha irmã também tinha saído para uma festa...

— Você sabe o que isso significa, Ollie, você não é burro. – Thea pegou minha mão e me olhou com um sorriso quebrado e olhos tão cheios de tristeza que me entristeceram também.

— Você estava na festa. – minha cabeça girava, eu olhava do rosto da minha irmã para o de Felicity, que se mantinha afastada e sem olhar para mim — Você tinha um motivo e você o conhecia. – juntei mais uma peça — Foi você, você que atirou no filho do Slade.

Notas finais
Parabéns aos vitoriosos que leram até o fim, não vou mentir estou com medo de perder leitores porque exagerei um pouquinho, ou então bater aquela preguicinha de ler e ninguém ler. Mas e então? O que acharam?