Guilty Pleasure
15 Capítulo 13 - Oceans between you and me
Notas iniciais
I want you
Yeah I want you
And nothing comes close
To the way that I need you
I wish I could feel your skin
And I want you
From somewhere within
It feels like there's oceans
Between me and you once again
We hide our emotions
Under the surface and tryin' to pretend
But it feels like there's oceans
Between you and me
I want you
And I always will
I wish I was worth
But I know you deserve
You know I'd rather drown
Than to go on without you
But you're pulling me down
(Oceans — Seafret)
♥
Oliver Queen
Quando você pensa que tem tudo sobre o seu controle, que está tão perto de finalmente ter todas as respostas, vem a vida e muda, não apenas as perguntas, mas todas as suas concepções, tudo o que você tomava como certo e imutável. E joga isso na sua cara, zombando da sua ingenuidade.
Eu olhei para minha irmã, realmente olhei para ela. Para a menina que tentei tanto proteger depois da morte de nossos pais. Eu era apenas seu irmão mais velho, e sempre soube que jamais conseguiria preencher o espaço deixado por eles, eu não sabia como ser um pai de uma adolescente, mas pensei que por sermos a única família um do outro, essa perda nos uniria mais. E eu tentei, cuidei dela, lhe dei espaço quando isso pareceu ser o que ela queria, não a julguei quando procurou o alívio pela perda nas festas e acabou se metendo com coisas mais pesadas. Eu tive toda aquela conversa sobre drogas, sobre como nossos pais estariam desapontados depois de descobrir o que ela estava tomando, eu tentei colocar limites. Eu lidei com seus problemas quando o filho de Slade armou para ela. Eu quase vendi minha alma para o diabo, apenas para conseguir um acordo de serviço comunitário e evitar que minha irmã fosse presa.
Eu pensei que estivesse fazendo tudo certo. Mas eu estava começando a perceber que “certo e errado” era algo relativo. Só porque algo parecia o correto na teoria, não significava que era o melhor a ser feito. Eu posso ter tomado todas as decisões certas em relação a Thea, mas talvez não fossem essas as que ela precisava. Em que momento eu a perdi? Quando ela decidiu que mentir para mim era a melhor opção? Não era suposto que família se apoiasse? Que confiasse um no outro?
Encarei Felicity, ainda encostada contra a parede, com seus braços cruzados e postura rígida, olhos que evitavam os meus a todo custo. Tentei entender onde ela se encaixava nisso. Por que alguém assumiria o crime de outra pessoa? Algumas possibilidades passavam pela minha cabeça, mas todas elas me deixavam ainda mais assustado do que já estava. E conhecendo Felicity eu jamais saberia o porquê, ela iria escondê-lo de mim. Como sempre, eu nunca tinha resposta quando o assunto era Felicity Smoak. Ela apenas vinha, colocava meu mundo de cabeça para baixo, e depois partia, deixando a bagunça para trás, sequer consciente de como havia mudado tudo.
Ela estava mudando outra vez.
Mudando as regras para mim.
Eu, um advogado que sempre se orgulhou de ser honesto, estava mentindo por ela, para tentar salvá-la. E agora descobria que Felicity estava mentindo por minha irmã. O que eu deveria fazer? Salvar uma e condenar a outra?
Eu precisava juntar tudo dentro de mim e assumir o controle de todas as emoções. Eu tinha um grande problema a resolver. Duas pessoas que eu me importava, duas pessoas que eu – amava? - e agora se colocavam a minha frente, jogando uma granada nas minhas mãos. Eu não poderia simplesmente escolher qual das duas iria condenar. Poderia?
— Você está muito calado. – Para a minha sorte Thea interrompeu meus pensamentos, me poupando daquela decisão que eu não queria tomar. Meu rosto se elevando para o dela, e vendo a menina que por toda a vida eu tentei proteger. — Pensei que estaria perdendo a cabeça nesse momento, e nos dizendo o quão tola fui por mentir para você. e me colocando de castigo pelo resto da vida. – Ela disse com uma risada nervosa ao final.
— Eu estou. – respondi, com uma calma que não refletia como eu realmente me sentia por dentro. — E eu irei. – Eu disse. Apenas porque era assim que era esperado que eu agisse, que eu assumisse o controle de tudo, encontrasse as soluções e repreendesse-as por esconder algo tão sério de mim. Mas o controle havia fugido de minhas mãos. Eu não conseguia encontrar uma solução, e repreende-las pela mentira seria cruel e apenas machucaria mais.
— Nós vamos dizer toda a verdade, Ollie. E Roy pode confirmar qualquer coisa... – Thea me garantiu. Há tanto tempo que a verdade era o que eu queria de Felicity, mas agora que eu tinha essa oferta a minha mão, eu não mais a queria.
A verdade era cruel.
Ela não libertava, como eu pensei que faria.
A verdade me aprisionava.
— Eu terei uma conversa com o senhor Harper assim que ele parar de roncar. – lancei um olhar para a bola encolhida debaixo dos cobertores. – Ou pelo menos parar de fingir que está dormindo para se livrar das consequências. – o ronco dele oscilou, confirmando o que eu já sabia.
Como a minha noite foi de planejar um encontro perfeito com Felicity para isto? Descobrir que as mulheres da minha vida não apenas mentiram para mim, mas que isso colocava as duas em mais problemas do que eu seria capaz de resolver. Minha mente normalmente ágil não conseguia encontrar uma solução em que as duas saíam ilesas.
Eu precisava de mais informações, colocar meu cérebro para trabalhar.
Me levantei, sentindo aquela mentira pesar nos meus ombros também quando o fiz, e me perguntei como Felicity e Thea conseguiram mentir para mim, carregando aquele peso por tanto tempo.
— Thea, eu gostaria de falar com Felicity a sós por alguns minutos. – desviei meu olhar cauteloso para Felicity, quieta em seu canto. Eu ainda não havia decidido como lidar com a situação, mas minha mente continuava a chamar por seu nome, meu coração apertado por encontrar aquela nova barreira entre nós, e tentar derrubá-la parecia um bom começo. — Você e eu teremos uma conversa muito séria depois disso. – Voltei a atenção para minha irmã, já que não consegui nada de Felicity.
— Eu não estou nenhum pouco ansiosa por isso, mas acho que de certa forma é bom finalmente me livrar disso. – Thea me deu um pequeno sorriso de alívio, mesmo que seus olhos brilhassem com lágrimas não derramadas. Me senti culpado, talvez eu tivesse percebido algo, talvez Thea tivesse falado comigo antes e toda essa confusão com Felicity poderia ter sido evitada, se eu fosse um irmão melhor. Mas então, Felicity não estaria ao redor da minha vida e... – Eu sinto muito por mentir, Ollie.
Eu assenti distraído demais com o perigoso caminho que meus pensamentos seguiram.
Se Felicity não tivesse assumido o crime por minha irmã, eu nunca a teria batendo a minha porta em uma noite chuvosa pedindo por minha ajuda. Seus olhos assustados não estariam nos meus, despertando meu coração que por tanto tempo ficou inativo e me fazendo querer correr de volta para ela.
Eu não a teria quase todos os dias em meu escritório. Eu perderia os pequenos momentos, como a forma melancólica em que ela olhava para aquele porta retrato sem fotos, ou o jeito curioso que seus olhos inspecionavam cada um dos meus livros, ou ainda, como se jogava no sofá e resmungava consigo mesma quando meu jeito sério demais a irritava.
Ela preencheu cada aspecto da minha vida.
Minha cama, que agora era testemunha das melhores noites que tive, e de uma manhã surpreendente.
No trabalho, eu a via em cada canto, eu imaginava suas reações à algo que Tommy ou Diggle dissessem, eu a queria ali, sentada a minha frente me distraindo com sua beleza, ou apenas me observando com seu olhar cheio de perguntas. E em casa. Eu nunca tinha sido capaz de ver aquela antiga mansão como casa novamente, eu a deixei ainda muito jovem quando fui para faculdade aos dezoito, e só voltei a morar lá depois que meu pais morreram. O lugar nunca pareceu um lar para mim, sempre pareceu faltar algo, mas agora com Felicity ali... eu me via facilmente ansioso para voltar para casa, voltar para ela.
E se essa mentira nunca tivesse começado?
Eu nunca teria um lar.
E Felicity e eu.. Nós nunca teríamos a chance de ter um “nós”.
Era errado me sentir grato à essa mentira feia, mas que trouxe algo lindo para a minha vida?
Sim, era.
Mas a vida é o que é. Ela nem sempre vai seguir os caminhos mais certos e convencionais, nem sempre vai ser justa ou fácil. E é perda de tempo contestar cada curva errada que fazemos, ou cada pedra bloqueando o nosso caminho, talvez fosse a hora de apenas aproveitar e cuidar do que encontramos de bom em meio ao caminho tumultuado.
Infelizmente, meu algo lindo agora sequer olhava para mim.
Eu precisava mudar isso.
Alcançá-la de alguma forma.
Fiz sinal para que Felicity me seguisse para fora do quarto. Durante o percurso até meu escritório em casa, ela se manteve a uma distância segura de cinco passos atrás. Eu odiei aquela nova barreira entre nós, eu sabia que ela havia a erguido por minha causa, e isso fazia com que eu me sentisse ainda pior. Ela não disse uma palavra sequer, seu rosto continuava inexpressivo deixando-me ainda mais louco para entender, não apenas o que se passava dentro da cabeça dela, mas o que acontecia dentro do seu coração.
Eu estava nervoso, sem saber o que pensar, diferentes sentimentos fervilhavam dentro de mim. E ainda assim, todos aqueles sentimentos pareciam gritar o nome dela. Como se ela fosse uma espécie de resposta as perguntas que eu sequer conhecia.
Abri a porta e fiquei parado ali com o corpo encostado no batente. Trapaceei, porque ao menos assim Felicity teria que passar por mim ao entrar. Eu teria um vislumbre dela, talvez olhar em seus olhos que estavam me evitando há tanto tempo, e tentar ver se minha menina ainda estava ali, escondida atrás daquela máscara sem emoção. Se eu tinha alguma chance de consertar aquela bagunça.
Felicity encolheu seu corpo pequeno ao tentar passar o mais longe possível de mim, evitando qualquer contato. Isso machucou, porque tudo o que eu queria dela, era um contato. Sentir que ainda não a tinha perdido, no meio da tormenta de um mar revoltoso eu percebi que ela era a minha âncora, me mantinha firme no lugar me impedindo de naufragar. Era irônico que fosse ela quem causasse a tempestade de emoções dentro de mim, e mesmo assim a única capaz de controlá-la? Fazer os sentimentos se assentarem e se acalmarem?
Eu precisava disso.
Da clareza que tê-la trazia para mim, que acalmava meu coração e colocava todas as emoções em seu devido lugar.
Elevei minha mão tentando alcançar a dela, buscando aquela conexão, tentando trazê-la de volta para minha vida, para que tudo voltasse a fazer sentido.
Meu coração deu um salto quando meus dedos tocaram seus dedos frios.
O mundo parou de girar e todos os sons se calaram no curto espaço de tempo em que o toque sutil durou. Enquanto tudo o que se ouvia eram corações tentando conversar. Desespero foi o que traduzi naquelas batidas erráticas. E medo quase sufocante foi o que senti quando ela se afastou do toque, se encostou no canto mais afastado da sala. E calou seu coração.
Não era apenas a distância física que estava entre nós. Essa eu poderia ultrapassar, e num par de segundos eu estaria lá, embalando seu corpo no meu. Beijando o topo de sua cabeça e pedindo desculpas, lhe dizendo que tudo ficaria bem, que eu estaria com ela não importava o quê. Mostrando-a que éramos melhores quando estávamos juntos.
Mas esse novo tipo de distância que ela nos forçava? Não era uma barreira que eu conseguiria transpor facilmente, não quando ela estava tão focada a me manter do lado de fora.
Como se houvesse um oceano escuro e revoltoso entre nós.
Porém, de nada adiantaria atravessar o oceano a nado, se Felicity nadava contra a corrente apenas para se manter ainda mais afastada de mim.
— Vai ficar me olhando por quanto tempo antes de começar o sermão? – Notei seu esforço para que a voz saísse monótona e fria, com um toque amargo, mas eu já conhecia bem demais os nuances de sua voz para que ela me enganasse. E isso de certa forma me deu esperanças. Ela também me conhecia bem, porque parte de mim estava louca para lhe dar um sermão. Deus! Eu queria tanto gritar com ela, dizer o quanto tinha sido estupidamente altruísta por assumir um crime que não cometeu. Tentar colocar razão naquela cabeça linda e teimosa, mostrar o quanto ela estava se arriscando, mostrar o que ela perderia, o que nós perderíamos se... Se eu não fosse capaz de tirá-la daquele problema em que ela voluntariamente se colocou. Algo doeu dentro de mim, percebendo que talvez Felicity achasse que não tinha nada a perder... Mas ela tinha. Ela me tinha. Isso não era o suficiente? Queria obrigá-la a sair daquela apatia e reagir, mostrar seus sentimentos para mim, bons e ruins, ao invés de escondê-los.
Mas eu também queria que ela gritasse comigo.
Por ter sido um idiota ciumento.
Eu aceitaria qualquer coisa, desde que ela olhasse para mim novamente e expressasse alguma emoção.
— Não podemos continuar assim, Felicity. – empurrei a porta atrás de mim, sem me importar que tenha sido mais forte do que deveria, e que agora o som da minha frustração reverberava entre nós enquanto as paredes tremiam. Caminhei até minha mesa no centro da sala, enquanto de esguelha, Felicity acompanhava meus movimentos, pronta para se afastar se eu me aproximasse demais, seus olhos nunca olhando nos meus. — Nós precisamos conversar.
Encostei o corpo à escrivaninha me agarrando a superfície com as duas mãos firmemente. Eu precisava me segurar à algo, ou eu estaria ao lado dela brigando com ela, abraçando-a e ao mesmo tempo dizendo todos os sentimentos que gritavam dentro de mim.
— Pergunte e eu te respondo. – A resposta veio quase ensaiada, e não acreditei nela nem por um momento. Não que Felicity fosse insistir na mentira agora que Thea já a tinha revelado, mas eu não acreditava que ela não fugiria das perguntas para as quais eu realmente queria as respostas.
— Não. Isso não vai ser a porcaria de um interrogatório. – meneei a cabeça, me recusando a ser apenas o advogado. Eu era mais. — Nós precisamos sentar e conversar sobre o que está sempre chegando na superfície, mas você reprime e força a voltar para dentro de si mesma. Precisamos conversar sobre o que sentimos um pelo outro, sobre como isso está mudando algo dentro de nós. Precisamos falar sobre o porquê de você fazer isso por Thea. – refreei ao notar a tensão em seu corpo, a forma como ela apertou seus braços se abraçando. Aquilo era medo? — Precisamos ser honestos ou todo o resto não vai funcionar. É o fim das mentiras.
— Quando começamos isso, você me disse que minhas mentiras não seriam um problema. – o canto dos lábios se ergueu num sorriso cruel que não combinava com ela. — Estava mentindo?
Felicity quando se sentia acuada, atacava.
— Quando começamos, nós não fazíamos ideia de o quão longe isto entre nós iria chegar. – expliquei forçando-me a ser plácido. Eu fui ingênuo, eu pensei que podia controlar o que estava acontecendo. Apenas nesta manhã, quando pela primeira vez na vida eu me senti realmente completo, quando sua risada me atingiu tão profundamente, eu realmente compreendi que não podemos controlar ou sufocar sentimentos. Eles deve apenas serem vividos, e os meus precisavam ser vividos com ela. – Eu aceitei mentir por você no tribunal, mesmo indo contra tudo o que eu acredito, porque este pareceu ser o único jeito de salvá-la. E você não faz ideia do quanto eu estou desesperado para salvá-la! Do que eu não faria apenas para garantir que você tivesse uma chance de liberdade, uma chance para viver... – Comigo. Parei e respirei reassumindo o controle que aquele pequeno pensamento roubou de mim. — Sim, eu disse que as mentiras não seriam um problema para o relacionamento que iríamos ter, mas até então eu não sabia como era ter meus dias cheios de você. Não sabia como podia ser bom, de que eu iria querer mais disso, mais de você. – elevei meu olhar para ela.
— Eu não tenho mais a oferecer, Oliver. – As linhas do seu rosto se tornaram mais duras como se ela se forçasse a não mostrar qualquer emoção, suas mãos caíram ao redor de seu corpo, num gesto de desistência, embora seus punhos cerrados com tanta força me contassem outra história. — Se é tão importante para você, procure em outra pessoa. – não sei se Felicity notou a forma como seu lábio inferior tremeu ao dizer aquelas palavras.
Ela estava mentindo.
Então eu lhe daria um pouco de honestidade.
— Eu não posso, Felicity.
— Por quê? – seus olhos se tornaram maiores, aguçados.
— Por que eu... – calei as palavras, eu não as iria dizer dessa forma. – Eu acho que nós dois sabemos o porquê. – ela piscou, surpresa passou por seus olhos e algo mais suave que eu gostaria de ter investigado, antes dela começar a balançar a cabeça – E eu não vou me desculpar por sentir o que sinto por você.
Felicity segurou um suspiro, seus olhos ficaram frios e impenetráveis assim como o seu coração.
— Bom. Porque eu não vou me desculpar por não ser capaz de sentir o mesmo. – outra mentira saiu de seus lábios, eu sabia disso, mas mesmo assim não impediu que machucasse. Apenas porque essa era uma mentira a qual Felicity se agarrava e tentava desesperadamente acreditar.
— É como faremos isso a partir de agora? – ela ergueu uma das sobrancelhas para mim, era para ter sido um movimento meramente interrogativo, mas havia certo desafio nele, e isso me deu coragem para pressionar – Você vai apenas me jogar para fora? Fingir que não sente nada? Mesmo depois de todas as noites juntos? Depois do que compartilhamos na cama e principalmente do que partilhamos fora dela? Vai fingir que não foi importante? – Eu estava frustrado, me vi jogando palavras e sentimentos, deixando-os jorrar de mim.
Poderíamos ser mais opostos? Eu libertando sentimentos e ela os prendendo.
— Eu pensei que não tinha importância, já que aparentemente eu divido a cama com qualquer um. – O tapa verbal veio forte e certeiro. Mas ele também veio repleto de raiva e mágoa.
Bom.
Eu o aceitava com prazer, porque eu o merecia e também porque isso era melhor do que a frieza de antes. Era algum sentimento. Mesmo que não fosse o que eu gostaria, ao menos era uma porta para seu coração, que estava acostumado demais a trancafiar as emoções quando elas ficavam difíceis demais para lidar.
Eu precisava mostrar um pouco de mim, para que ela se sentisse segura para mostrar um pouco dela. Era como as coisas funcionavam entre nós, eu sempre precisava dar o primeiro passo, eu sempre precisava puxar algum sentimento dela com o meu. Como se Felicity temesse tanto seus próprios sentimentos que os mantivesse a rédea curta, soltando-os apenas quando eu conseguia ficar sob sua pele tempo o suficiente para derrubar seu controle.
Eu teria que trabalhar nossos problemas um por um.
Eles eram muitos.
Mas eu o faria, independente do tempo que levasse. Do que eu abriria mão por isso. Simplesmente porque Felicity Smoak valia a pena.
— Eu não estou orgulhoso de como agi com Roy, de por um momento ter pensando que vocês dois... Eu sei que você não faria isso. – Comecei minhas pobres desculpas — As coisas ficaram borradas e confusas na minha mente, e eu estraguei tudo. Eu sinto muito. – ela me olhou, testando a sinceridade das minhas palavras. Odiei que Felicity não mais confiasse em mim — Quando percebi que havia um homem na sua cama, aquilo apenas despertou algo em mim, um instinto primitivo de tirá-lo de lá imediatamente, porque a única pessoa que deveria estar na sua cama sou eu.
— Arrogante. – ela praticamente cantarolou a ofensa.
— Tem razão. – assumi. Eu o tinha sido. — Eu fui arrogante, eu não deveria assumir que você é minha só porque passamos as últimas semanas nos conhecendo intimamente, e eu não estou falando apenas do sexo. Nós rimos e brincamos, compartilhamos confidências e conversamos sobre bobagens, começamos a conhecer o que esta no coração um do outro. – e eu queria conhecer ainda mais do coração dela, sempre tão relutante — Eu sei que mesmo se você fosse minha, eu não teria o direito de agir da forma que agi. – encarei meus pés, sentindo a vergonha pelos meus atos — Eu poderia ficar aqui a noite inteira tentando me justificar, explicando que apenas vê-lo na sua cama me enlouqueceu e eu não pensei direito. Em como eu não sei lidar com a inconstância do nosso relacionamento, que isso me faz inseguro. Porque eu sei o que quero, o que espero de nós. E eu não faço ideia do que você quer de mim... – me atrevi a encarar seus olhos, procurando a resposta daquela pergunta. Quase a encontrei — Mas é o que é Felicity, eu não posso e nem quero controlar o que você me faz sentir. Isso as vezes me assusta pra caralho, porque eu mesmo fiquei surpreso por minha reação com Roy, eu não sei o que fazer com o que sinto por você. Porque é mais forte do que eu, é mais do que eu consigo controlar. E eu sinto muito, muito mesmo que eu a tenha magoado. – Felicity não me respondeu, mas eu não esperava um “você está perdoado, Oliver” seguido de um beijo.
Minha irmã acabara de confessar um crime e muitas implicações viriam dessa confissão, ela alteraria a vida de todos nós. E tudo o que eu conseguia pensar era que Felicity ainda estava, não magoada apenas, mas ofendida. Por mim. Eu deveria ter pensado antes de agir, eu deveria ter me lembrado da mulher maravilhosa que a cada dia mostrava uma parte de si apenas para mim.
Partes lindas.
Partes sensíveis.
E às vezes, quando ela achava que eu não percebia, ela me mostrava uma pequena parte feia. E eu as achava lindas também. Porque eram partes de Felicity.
E agora, ela não me mostrava mais nada.
— Você disse algo lá no quarto que não deveria ter dito. — Felicity finalmente rompeu o silêncio.
— Eu disse muitas coisas, eu estava nervoso, eu vi um homem em sua cama e o sangue apenas fugiu da minha cabeça. Eu não conseguia pensar, fui estúpido. – meneei a cabeça desejando ser capaz de me estapear pela idiotice — E eu sei que você tem todo o direito de não me perdoar por isso, eu disse coisas horríveis no calor do momento... – meu coração acelerou, temendo o que eu faria se Felicity mantivesse aquela barreira entre nós? — Mas eu espero que você saiba que eu sou melhor do que isso, e se não sabe, eu irei mostrá-la o quanto eu estou...
— Eu não estava falando de você me acusando de te trair ou de mentir. – Ela me interrompeu, erguendo uma das mãos pedindo para que eu parasse, como se soubesse as palavras que eu estava tão pronto para dizer, e não quisesse escutá-las.
— Então... O que eu disse de errado?
— Você disse que eu era sua namorada! — Ela soltou exasperada. Franzi o cenho. Na última meia hora tanta coisa tinha acontecido, tinha sido dita ou feita. Era difícil apenas colocar minha mente em ordem e lembrar das minhas palavras exatas. Mas Felicity se lembrava – Você disse “Eu chego em casa e tem um moleque deitado na cama da minha namorada” – pisquei, apenas absorvendo o quanto Felicity lutava contra aquela palavra — Eu não sou ela. – determinou. Queixo ligeiramente mais erguido, palavras firmes, mas um olhar que não escondia o temor de ser ela.
Inferno!
Ela não iria tirar isso de mim.
Felicity Megan Smoak era minha namorada.
Não interessa se agora estávamos discutindo por eu ter sido um idiota e que provavelmente eu estava muito perto de perdê-la! Mas ela era minha namorada! Não estaríamos agindo assim se ela não fosse.
— Você quer discutir a nossa relação agora? – perguntei, sem deixar que ela respondesse – Porque a verdade Felicity é que eu estou tão fodidamente envolvido por você, que eu estou disposto a ignorar toda a parte de você ter assumido a culpa de um crime que não cometeu, por minha irmã, para que apenas possamos conversar aberta e honestamente sobre o que realmente está acontecendo entre nós. – seus olhos piscaram várias vezes, a ameaça de ter uma conversa honesta a assustava. Felicity não estava pronta para assumir seus sentimentos. — Eu estou até mesmo ansioso por isso.
Desencostei da mesa, meu corpo sendo atraído como gravidade para o dela. Como se eu fosse apenas um planeta qualquer, enquanto ela era o meu sol e eu precisasse orbitar ao seu redor.
— Eu não sou sua namorada! — Declarou teimosamente.
O canto esquerdo da minha boca começou a se erguer ao escutar sua declaração tão efusiva. Ela era minha namorada e ela não tinha argumento contra isso.
— Ok. – consenti, minha aparente calma deixando-a surpresa — Eu posso dizer que você não é minha namorada se isso te faz feliz, posso dizer que não é importante para mim e que desde o momento em que você voltou para minha vida, você não a preencheu com uma parte do meu coração que eu sequer sabia que estava faltando. Eu posso fingir que as últimas semanas não significaram nada além de bom sexo. Posso dizer que hoje meus planos não eram de levar a minha namorada para um primeiro encontro, e que eu não estava desesperadamente ansioso com isso. Eu posso mentir se isso te deixa menos pressionada, mas não dizer uma palavra não vai mudar o que está acontecendo entre nós. – Felicity prendeu a respiração quando me aproximei ainda mais, um passo era tudo o que havia entre nós, mas seus olhos ainda insistiam em encarar qualquer lugar, menos os meus. — É só uma palavra. – Falei baixinho e dei mais um passo. Eu estava em frente a ela quando o disse, ela não poderia fugir para nenhum lugar. Talvez por isso ela tenha fechado os olhos e fugido para dentro de si mesma. Felicity era tão frustrante, se meu coração não precisasse tanto do dela, e se eu mesmo não percebesse que seu próprio parecia sentir a mesma desesperada necessidade, eu já teria desistido. A quem eu estava querendo enganar? Eu jamais seria capaz de desistir dela uma outra vez. Não depois de sentir o que eu sentia. — Isto aqui – elevei minha mão permitindo-a que descansasse em seu rosto, e um pequeno suspirou soprou por seus lábios entreabertos quando a acariciei — Isto o que sentimos quando nos tocamos é mais, você sabe, eu sei, podemos ficar em negação o tempo que você desejar. – Por quanto tempo ela permaneceria de olhos fechados? Apenas para me negar ver a verdade em seus olhos? — Mas sentimentos não mudam ou deixam de existir apenas porque você é covarde demais para nomeá-los.
Ela abriu os olhos.
Por um segundo eles estiveram nos meus.
E o poder deles sobre mim me chocou.
— Tem razão. – sua voz saiu desestabilizada, sua mão se colocando sobre a minha, ainda em seu rosto. Meu coração deu uma cambalhota, esperançoso por um momento. — Devíamos estar discutindo o fato de eu ter mentido para você sobre Thea, não o que acontece entre nós. – Sua mão afastou a minha de seu rosto.
E eu me afastei, dando passos para trás.
Ela estava me empurrando outra vez.
Às vezes estar com Felicity era como uma partida de ping-pong onde eu era a bola. E quando eu estava perto demais dela, ela apenas me acertava com a raquete e me atirava para o mais longe possível.
Mas ainda assim eu continuava voltando para ela.
— Nós teremos que conversar em algum momento. – Eu disse para que ela soubesse que eu não estava desistindo. – Sobre nós. Eu não vou exigir essa conversa agora quando sei que você não está pronta para tê-la. Eu estou apenas determinando o “o quê” iremos conversar, você decide o quando. – Felicity pareceu relaxar um pouco ao perceber que eu não estava a colocando contra a parede nesse momento. — Eu reconheço que a sua... hesitação em me aceitar como alguém importante na sua vida, tem a ver com o nosso passado, com aquela noite. Eu não sou aquele homem que te expulsou do meu quarto depois de ter sexo com você, mesmo naquela época eu não o queria ter feito. Eu sou o homem que a quer comigo, que quer dormir e acordar com você na minha cama, em meus braços, que quer te chamar de namorada e te levar em um encontro e apreciar o quão linda e sexy você está neste vestido – por um momento eu perdi a fala, apenas olhando para ela. Para a mulher que eu já não conseguia imaginar a minha vida sem — Não quero lutar contra você para viver essas coisas. Eu quero lutar com você, e quero que queira o mesmo que eu para nós. Não vê a diferença? – Felicity não me respondeu — Apenas para esclarecermos algo, eu não acho que você é uma traidora mentirosa. – as palavras tiveram um gosto ruim na minha boca — Eu sei que mentiu para mim algumas vezes, sei que tem coisas sobre você mesma que não quer que eu saiba. Mas eu respeito isso em você. – a olhei, apenas para ter certeza de que ela ouvia minhas palavras — E eu estarei aqui se um dia quiser falar disso. Eu sempre estarei aqui para você.
— Vai estar mesmo? – no momento em que a pergunta saiu de seus lábios, num pequeno sussurro, tão baixo que quase não o escutei, eu percebi que Felicity gostaria de tê-las segurado. Havia vulnerabilidade crua nela, algo que Felicity desejava desesperadamente esconder de mim.
— Sim. – afirmei. Os olhos dela inspecionaram a veracidade dos meus, dessa vez não me incomodei por ela não acreditar em mim tão facilmente. Eu estava muito mais feliz por pelo menos poder olhar em seus olhos, eu senti tanta falta deles.
— Vamos falar de Thea. – Felicity disse, quebrando aquela conexão que sempre acontecia quando nossos olhos se encontravam. Me encostei novamente em minha mesa, e Felicity permaneceu do outro lado da sala na mesma posição. Sim, ainda havia um oceano entre nós, mas agora suas águas estavam mais calmas e cristalinas, mas nem por isso seria seguro atravessá-lo.
Eu decidi apenas deixá-la liderar.
Ela queria falar sobre minha irmã? Falaríamos sobre isso. Eu não queria pressioná-la com outros assuntos e correr o risco de perdê-la. Eu iria devagar para não estragar as coisas ainda mais, e se tivesse que recomeçar do zero, eu o faria.
— Eu nem sei como dizer o quanto você agiu errado, Felicity. – Comecei. Não havia reprimenda em meu tom, eu não queria provocar outra discussão entre nós. Os ânimos poderiam estar mais calmos, mas eu sabia que Felicity e eu não havíamos resolvido nada, e qualquer faísca tendia a se tornar um descontrolado incêndio. — Minha irmã se envolveu com algo perigoso, não deveria acobertá-la. Thea tem idade o suficiente para saber o que faz, e ela não está sozinha, eu teria lidado com as consequências disso, assim como Thea.
— Eu não vejo como.
— Por que está fazendo isso? Arriscando sua liberdade por Thea desse jeito? — perguntei — Você sabe que entraremos no tribunal contando uma mentira, uma frágil mentira muito fácil de derrubar e uma vez que isso aconteça, eu não vou poder fazer mais nada a não ser ver uma pessoa inocente pagando por um crime que não cometeu. – Há um tempo que eu era atormentado por essa visão de Felicity atrás das grades. O que eu faria se essa visão se tornasse realidade? E percebi que a pergunta correta seria: O que eu não faria para tirá-la de lá?
— Eu pensei que você fosse o melhor advogado que eu poderia ter. – era a primeira vez que ela se atrevia a brincar, mas não aliviava o clima ruim, não apagava aquela temível visão da minha mente.
— Eu não sou. – me senti pequeno ao admitir — Não quando eu tenho que mentir, não quando eu estou pessoalmente envolvido no caso, quando eu estou assustado de que possa fazer alguma estupidez, cometer um erro e ver você pagar por isso. – a postura de Felicity relaxou um pouco, e a vi desgrudar da parede.
— Quem diria que o todo poderoso Oliver Queen, como todo ser humano, tem inseguranças e fraquezas...
— Eu só consigo pensar em uma – Meu olhar foi direto para ela, eu não podia ser mais direto, mas era Felicity e ela se incomodava quando eu jogava meus sentimentos assim. – E mesmo assim, há limites na lei de até onde eu posso ir. – expliquei tentando ser mais impessoal — Eu posso contornar a lei se preciso, encontrar brechas, mas eu não posso dobrá-la a minha vontade. E o risco é alto demais principalmente se entrarmos num tribunal contando uma mentira. Há centenas de maneiras diferentes de isso dar errado.
— O que está dizendo? — Felicity piscou várias vezes, se atrevendo a dar um passo a frente, mas nenhum mais. — Que acha que devemos contar a verdade e simplesmente jogar Thea aos lobos?
— Eu... não. – levei as mãos aos meus cabelos, frustrado. Contar a verdade não era uma solução, mas eu tampouco conseguia pensar em uma que fosse boa para Thea e Felicity. — No momento eu quero entender como chegamos à esse ponto, eu preciso saber da história completa, dos “comos” “onde” e “porquês”, só assim eu vou ser capaz de pensar em alguma solução.
Felicity assentiu para mim, e se arrastou até o pequeno sofá que estava próximo à ela, parecendo estar cansada. Pensei em me sentar ao seu lado, oferecer meu ombro caso quisesse descansar a cabeça. Mas tinha sido ela quem estipulou a distância, e por mais que eu a odiasse, eu não iria rompê-la se ela não o quisesse. Por isso permaneci de pé encostado à mesa, por mais desconfortável que fosse.
— Eu não pisava em Starling City há cinco anos, eu prometi a mim mesma que jamais voltaria a pisar. – sua voz pausou. Felicity não precisou dizer nada além, eu senti a mágoa em suas palavras caminhar até meu peito, dizendo que eu era a razão dessa promessa. – Mas apesar disso, apesar de ter deixado a cidade e todas as pessoas para trás quando... – Quando eu parti seu coração. Novamente eu completei a lacuna – Quando eu fui para a faculdade, mesmo assim eu mantive o contato com Thea. Você sabe que eu havia rompido com minha família, e Thea foi a única pessoa que mantive ao meu lado durante esses cincos anos, mesmo longe eu e ela passamos por muita coisa juntas. Ela esteve presente em cada momento da minha vida, bom ou ruim, e eu tentei estar para ela... Mas nem sempre eu consegui. Eu não estive presente na morte dos pais, eu não desconfiei que ela estava usando drogas e quando ela destruiu o carro e quase foi presa. Eu também não estive presente. – havia certa culpa em seu tom – Ela foi uma amiga melhor do que eu fui. – a voz de Felicity se perdeu por um instante
— Então foi por isso? – Não percebi que havia desencostado da mesa, dado um passo a frente. — Você achou que precisava provar ser uma amiga melhor para Thea? E por isso assumiu o crime? – o rosto de Felicity se transformou, deixando qualquer sentimento de fora.
— Vai deixar que eu conte? Ou vai me interromper toda hora? – notei que ela havia ficado na defensiva. Mas a verdade era que, por mais que como um advogado eu precisasse saber da história toda para formar uma linha de defesa forte, como um homem se apaixonando por ela, eu estava mais incomodado com o que havia levado Felicity a se arriscar pela minha irmã.
— Desculpe. – balancei minha cabeça, voltando a me encostar a mesa. – Por favor, continue, Felicity.
— Naquela noite eu estava voltando de uma viagem a trabalho, e Starling City estava no meio do caminho, me vi pensando... Por que não? – ela deu de ombros — Por que não passar e ver Thea? Dar um abraço? Por mais que nossa amizade tenha sobrevivido com telefonemas e e-mails, e suas poucas visitas à mim, eu sentia falta dela, e eu estava perto, seria estupidez não vê-la — Eu não interrompi Felicity, mas algo que ela disse ficou em minha cabeça. Eu não me lembrava de Thea tê-la visitado alguma vez. Se minha irmã o fez, jamais comentou comigo. Eu pensei que nesses cinco anos, elas jamais tinham se encontrado... – Então eu liguei para Thea e disse que estaria na cidade, ela ficou animada e feliz, começou a tagarelar que eu precisava conhecer o seu namorado, que nós iriamos em uma festa para comemorar o reencontro... – me lembrei daquele dia olhando tudo com outros olhos, percebendo como Thea parecia animada e do jeito que insistiu comigo dizendo que sairia para uma festa inocente, que ficaria bem. – A partir daí você já pode imaginar como foi... – Ergui uma das sobrancelhas.
— Eu quero que conte.
— Oliver, eu posso ter ensaiado a história que contei para você, que repeti na delegacia e que estou pronta para dizer num tribunal. – Felicity disse — Mas eu só consegui fazer isso tão bem, porque a história é real. E ela pertence à Thea. – engoli em seco, meu coração se apertando ao perceber a realidade, tudo o que eu pensei que tinha acontecido com Felicity, aconteceu com minha irmã. — Eu não posso conta-la por ela, não agora que você sabe a verdade.
— Então me conte a sua história, eu não preciso saber o que aconteceu, mas como foi para você, o que você sentiu. – pedi deixando meu corpo me apoiar mais na mesa. Estava começando a lamentar não ter me sentado. Meu corpo reclamava, cansado, a cabeça começando um latejar insistente, sinais de que a exaustão desse dia estava finalmente caindo sobre mim.
— A festa era na casa de algum amigo de um amigo dela, mas estava cheia demais, com pessoas bêbadas e altas. Roy também achava isso, e mesmo que Thea tivesse essa ideia fixa na cabeça de nós nos divertindo, até ela sabia que não estava rolando e que seria melhor irmos embora. Mas você conhece sua irmã, ela não aceita a derrota fácil. – Felicity me observou atentamente quando eu saí da minha posição, e caminhei até a pequena mesinha com garrafas de bebida que eu sempre deixava ali, e me servi generosamente. Pensei ter visto preocupação em seus olhos quando virei o primeiro gole. — Ela estava bem num momento, tentando nos forçar a nos divertir, e no outro momento ela parecia ter visto um fantasma. Thea disse para irmos embora, ela parecia nervosa e honestamente um pouco puta com algo, eu disse para ela respirar fundo e se acalmar, subimos para o segundo andar que estava bem mais vazio que o restante da casa, encontramos um quarto vazio e eu disse para que ela ficasse ali, por um momento, enquanto eu iria atrás de Roy para que pudéssemos partir. Não foi mais do que minutos, cinco, talvez dez minutos e quando eu estava voltando com Roy escutamos o som do tiro, alto e claro e corremos em direção a ele... A música estava alta demais ou as pessoas estavam bêbadas ou drogadas demais para não terem escutado. – seu olhar se perdeu um pouco, e virei o restante da bebida preenchendo o copo outra vez logo em seguida. Eu não deveria beber, sabendo que o álcool tiraria um pouco da minha lucidez, mas era muito para absorver — Quando a encontrei naquele quarto... Eu não deveria tê-la deixado sozinha... – Felicity fechou os olhos e balançou a cabeça como se desejasse apagar a imagem mental – Ela estava em choque, Oliver. Recolhida no canto do quarto com uma arma na mão. Tremendo e chorando. Havia sangue nas roupas dela, empoçado no corpo ao chão, Roy correu para abraça-la retirando a arma da mão dela e jogando-a para longe. Thea começou a balbuciar o que havia acontecido, palavras sem nexo. Eu me aproximei do corpo senti o pulso fraco e mesmo sabendo que o cara era um filho da puta, eu fiz todos os primeiros socorros, liguei para a emergência e mandei Roy tirar Thea dali. Depois que eles saíram, eu limpei as digitais da arma e coloquei apenas as minhas. Quando escutei o som da ambulância se aproximando eu sai de lá o mais rápido que pude e vim até você.
— Então foi tudo ideia sua? – a pergunta saiu como uma acusação.
— Eu tomei a decisão de assumir o crime. — Felicity se ergueu do sofá, seu corpo empertigando-se, o queixo se erguendo daquela forma orgulhosa e que me dizia que eu não conseguiria provar que ela estava errada — Eu posso não ter um diploma em direito por Harvard, mas eu sabia que Thea estava cumprindo serviço comunitário, ela teve uma condenação e algumas passagens pela polícia por coisas menores, não seria ré primária, enfrentar isso seria muito mais difícil para ela do que para mim. – sua voz veio forte, decidida até.
— Não devia ter feito isso. – Eu balancei minha cabeça. Como ela podia não enxergar o erro que cometeu? Ajudar alguém é uma coisa, mas colocar sua vida e liberdade por essa pessoa era quase um suicídio.
— Ela é minha melhor amiga. – Felicity insistiu — Eu faria tudo por Thea.
Havia algo de errado ali.
— Você está mentindo. – Isso a pegou de surpresa e principalmente me pegou de surpresa. Mas depois de tanto tempo estudando o seu rosto, aprendendo a ler cada emoção e sentimento nele, escutando as diferentes entonações sua voz, eu aprendi a distinguir quando havia algo mais.
— O quê? Está dizendo que Thea não é importante para mim? – Ela se colocou na defensiva.
— Eu conheço você Felicity, eu sei o quanto você e Thea são amigas, mas não foi apenas por amizade. – seu rosto ficou lívido — Com você é sempre algo mais. Camadas e mais camadas de algo mais. E quando eu penso que desnudei uma, que finalmente serei capaz de ver além, eu descubro uma nova camada. Um novo segredo. – seus olhos ficaram maiores, quase como os olhos de uma corça ao ser encurralada por um caçador.
— Não há mais segredos. – Ela apressou-se em dizer. E sua pressa me revelou muito mais do que as próprias palavras.
— Você irá me contar quando estiver pronta. – Felicity balançou a cabeça minimamente negando, pensei ter visto o brilho de lágrimas em seus olhos. Não, ela não se negava a me contar. Ela se negava a estar pronta.
— Posso ir? – ela balbuciou o pedido, sem sequer me olhar. A mão sobre a maçaneta da porta.
— Felicity? – Dei um passo a frente querendo tocá-la, senti-la de alguma forma. As coisas não estavam resolvidas entre nós, eu ainda conseguia sentir aquele oceano nos separando. Eu só precisava de um indício, uma palavra, um olhar, um gesto. Qualquer coisa que me dissesse que eu deveria tentar atravessá-lo. E eu me jogaria nele sem pensar duas vezes.
Ela olhou para mim.
Mas não havia nada ali.
— Peça Thea para entrar... – Suspirei, desistindo por hora. Talvez uma noite de sono fosse o que todos nós precisávamos. Não que eu fosse conseguir dormir sem Felicity ao meu lado, mas amanhã era um novo dia. Com novas possibilidades. — Felicity? – chamei novamente, e seus dedos se apertaram ao redor da maçaneta. Ela não me olhou dessa vez, mas eu não poderia sair sem antes dizer o que eu estava pensando — Eu sei que arruinei as coisas, mas você está perturbadoramente linda esta noite, eu gostaria de poder voltar no tempo e te levar ao nosso encontro, mesmo que isso significasse nunca descobrir sobre o seu segredo e o de Thea.
Ela não me respondeu.
Apenas abriu a porta e saiu.
Felicity se foi, mas o oceano entre nós permaneceu.
***
— Eu sei o que está pensando. – Thea entrou no escritório como um furação, já falando e andando de um lado para o outro, gesticulando com as mãos. — Você está se torturando, tentando entender onde errou comigo, porque eu continuo fazendo tudo errado. De novo e de novo. — franzi o cenho ao escutar suas palavras. Era assim que ela me via? Alguém que achava que ela era um erro? — Pensando que se fosse um irmão melhor nada disso teria acontecido, e que eu estaria levando uma vida segura sob a sua tutela. – eu vergonhosamente pensei nisso por um momento — Não é sua culpa, Ollie. É minha, minha culpa. – exclamou, e eu notei os sinais quando ela continuou a repetir aquilo — Minha culpa apenas! Eu fui a idiota, eu que não pensei, eu que...
Dei dois passos largos e envolvi minha irmã em um abraço de urso.
Ela pareceu surpresa, mas logo a senti desmoronar, seus braços me abraçando de volta. Suas lágrimas molhando minha camisa, enquanto minha irmã finalmente se livrava daquele peso que a assombrara por tanto tempo. Percebi, com certa tristeza que última vez que eu abracei Thea assim tão forte tinha sido quando eu lhe contei sobre a morte dos nossos pais. Desde quando abraços tinham sido destinados à momentos de dor e perda? Por que eu não a abraçara todos os dias da minha vida, mesmo que não houvesse uma razão para isso? Eu poderia tê-la perdido naquela noite. E se Thea não tivesse se defendido? Eu nunca mais iria ver ou abraçar minha irmã.
Ela era a única família que eu ainda tinha.
E eu poderia perdê-la a qualquer momento, e nem teria um abraço com ela para me recordar que seus cabelos tinham o mesmo cheiro que o cabelo de nossa mãe. A apertei mais apertado me recusando a perder mais um momento que fosse, uma lágrima escapuliu dos meus olhos enquanto eu erguia seu rosto a beijava sobre a testa.
— Eu sinto muito, Thea. – disse, com a voz embargada — Sinto tanto.
— Eu sinto mais, Ollie – ela devolveu e imediatamente comecei a balançar a cabeça em discordância — Me desculpe por...
— Não. – a cortei — Você não deve se desculpar pelo o que aconteceu, não foi sua culpa de nenhum modo. Eu lamento que tenha passado por isso, lamento que não tenha estado lá por você. Lamento que mentir tenha parecido a melhor alternativa para você, do que vir até mim e ser sincera. Lamento que de alguma forma, desde a morte dos nossos pais nosso relacionamento pareça estar quebrado. – Thea sorriu quando eu terminei.
— Você é sempre tão dramático, Ollie. – ela disse revirando os olhos no final — Não tem nada quebrado entre nós, talvez apenas um pouco fora do lugar.
— Mesmo assim, eu sinto muito que eu tenha tentado preencher o lugar dos nossos pais e falhado com você. – expliquei melhor, e seus olhos azuis cinzentos me analisaram por um momento. Sua expressão ficando mais séria exatamente como a de nossa mãe.
— Eu não precisava que tentasse preencher o lugar deles, eu só precisava que ocupasse o seu, Ollie. – um pequeno sorriso brotou – Apenas meu irritante irmão mais velho. – Assenti, esse era um lugar que eu gostaria de ocupar – Agora eu acho que é hora de contar a minha história. – Ela deu um longo suspiro me encarando, e percebi algo em seus olhos que nunca tinha visto em minha irmã antes: força.
Thea me contou tudo.
E era a mesma história recontada tantas e tantas vezes por Felicity que até mesmo eu já a conhecia de cor, mas agora com uma protagonista diferente. Com alguns novos detalhes. E mais triste e emocionante, talvez porque a pessoa contando-a fosse aquela que realmente viveu aquilo.
E ela era a minha irmã.
— Eu gostaria que você tivesse me contado antes. — Eu disse ao final do seu relato. — Para que eu pudesse te abraçar e estar lá por você.
— Eu gostaria disso também. – Minha irmã secou uma lágrima — Mas eu estava assustada e quando eu percebi, eu já estava saindo da festa com Roy que cuidou de mim e deixamos Felicity para trás – explicou — Depois ela apenas me disse que já tinha resolvido tudo. – Thea suspirou — Eu não imaginei que o resolver tudo seria ela assumindo a culpa por mim. Aquela noite, quando eu voltei para casa e ela estava aqui com você, eu queria contar a verdade. Ela me convenceu a não fazê-lo, disse que tudo daria certo, eu não deveria tê-la deixado me proteger...
Ela não deveria. Mas eu não iria julgar minha irmã por isso, ela vivenciou algo traumático e a ideia de Felicity deve ter vindo como um balsamo para ela num momento como aquele.
— Thea? Sabe por que Felicity fez isso? – perguntei por fim, essa era parte da história que não se encaixava para mim.
— Ela é minha melhor amiga. – respondeu, me dando a mesma resposta que Felicity. Mas em Thea não havia algo mais, ela realmente acreditava que era apenas isso. Por que eu não conseguia acreditar também? – É o que melhores amigos fazem.
Não, não é.
— Ollie, como faremos agora? – Thea fez a pergunta de um milhão de dólares — Joe Wilson é um cretino, mas seu sangue está nas minhas mãos. – ela ergueu ambas as mãos, as encarando com tanta atenção que temi que Thea realmente tivesse vendo manchas de sangue ali. Fiz uma nota mental para checar com ela se talvez não fosse uma boa ideia ela conversar com um terapeuta ou algo assim. — Agora que você sabe a verdade, acha que podemos resolver tudo se eu me entregar? – tensão percorreu meu corpo, o sangue correndo mais frio e os batimentos do meu coração mais altos — Felicity ficará livre e vocês dois poderão dar um passo a frente nesse relacionamento. – seu ombro empurrou o meu daquele jeito cúmplice, um sorriso de canto pendia em seus lábios e uma das sobrancelhas estava erguida.
— As coisas não são assim tão simples, Thea. – Bem que eu gostaria que fossem.
— Eu aposto que são. – ela discordou — Hoje de manhã vocês dois estavam tão bonitinhos e doces um com o outro que fiquei com diabetes só de olhar. E você precisava ver a animação dela com o encontro de hoje. – aquilo era novidade para mim. Será que ela havia ficado como eu? — Eu quero dizer, é Felicity, ela estava nervosa, mas fingiu que não estava. Ela vestiu uns dez vestidos diferentes e vivia enrolando o cabelo com os dedos. Ela estava até dançando... – sorri, me lembrando da imagem que vi da silhueta dela pela janela. – Ela estava feliz, pelo menos até você bancar o idiota ciumento com Roy. – Thea socou meu ombro, e apesar do gesto descontraído havia reprimenda em seu olhar.
— Isso me lembra... Precisamos conversar sobre seu namorado?
— Oh, não! Não vai dar uma de irmão ciumento para cima de mim. – eu não queria, mas eu não conhecia o cara. — Eu o amo e ele é louco por mim. Eu cuido dele como agora quando esta resfriado, e ele cuida do meu coração. – seus olhos brilharam e seu sorriso se tornou maior, dizendo-me que o quanto ela estava apaixonada — Isso não basta? — Havia um ligeiro temor em Thea. Ela provavelmente não precisava da minha aprovação, mas ela gostaria de tê-la.
— Basta. – Respondi, porque percebi que Thea merecia amor.
Todos nós merecíamos amor.
— Sim, Ollie. Todos nós merecemos amor, principalmente você meu irmão. – Não tinha percebido que havia falado em voz alta e sorri um pouco sem graça por ter sido pego – E você vai ter sua chance com Felicity, depois que eu contar a verdade e tudo vai se acalmar, não mais terão o peso desse processo sobre os ombros de vocês. Tudo poderá a ser simples e fácil para vocês dois, como devia ter sido desde o começo...
Por um instante, um muito breve, eu me deixei acreditar em Thea. Acreditar que tudo poderia ser simples e fácil, mas a verdade é que não poderia.
Minha mente também havia começado a trabalhar depois da história de Thea, milhares de cenários e possibilidades se formaram, e nenhum deles era animador. Eu não poderia deixar Thea viver na ilusão.
— Se fossemos à delegacia agora e você dissesse que atirou em Joe Wilson. – me virei para minha irmã que me olhava atentamente, notando a mudança em minha postura — Vocês não cometeram perjúrio, uma vez que não mentiram no tribunal. Mas ainda assim, uma mentira é uma mentira. Haveria consequências. Vocês duas perderiam qualquer credibilidade perante à um júri, e Felicity estava certa quando disse que o fato de você já ter passagem pela polícia iria piorar as coisas para você. – eu havia pensado muitas vezes nisso, em um modo de contornar, mas eu não havia encontrado — Thea, eu não acho que conseguiria te livrar dessa.
— Está dizendo que devo deixar Felicity ser acusada? – ela devolveu.
— Não. – levei ambas as mãos ao rosto pressionando os dedos contra meus olhos, soltando o ar dentro delas. Eu estava frustrado. – Eu estou mostrando a realidade, eu não posso e nem vou tomar essa decisão por você. Eu sinto muito por não ser capaz de fazer mais. – olhei para o rosto de Thea, pensativo demais.
— Não sinta. E se serve de consolo, eu sei que você iria ao inferno para me livrar disso, do mesmo modo que está fazendo por Felicity. — eu iria sem pensar duas vezes — Porque você é assim, você luta até o fim por aqueles que ama.
Aqueles que ama.
Thea havia incluído Felicity nessa categoria.
Eu olhei para a minha irmã, seus olhos maiores e cheios de expectativas, esperando que eu fizesse um comentário sobre isso, revelasse algo. Mas me calei, deixando apenas meu coração bater mais rápido como resposta.
— Eu acho que devemos descansar. – Me ergui do sofá sentindo todos os meus músculos protestarem e exigirem minha cama. Tentei ignorar que dessa vez minha cama estaria sem Felicity. – Diga à Roy que conversaremos amanhã. – Thea assentiu, se erguendo também e abrindo a porta, parecendo ansiosa para dar um fim à esse dia exaustivo. – Oh, e nada de dormir no mesmo quarto que ele! – reagi, eu tinha esse direito, afinal ela ainda era minha irmã mais nova.
Um sorriso travesso apareceu em seus lábios, me deixando preocupado.
— Então ele pode ficar no quarto de Felicity? Com Felicity? – Seus olhos piscaram com falsa inocência.
— Não me provoque, speedy.— Ela riu abertamente, apreciando o apelido que eu lhe dei quando criança e que raramente usava. Saímos do escritório e me vi no corredor ao lado de Thea.
— Não se preocupe, Felicity provavelmente está no meu quarto. – ela disse — Vamos conversar um pouco, amanhã ela vai ver tudo com outros olhos e tudo vai se acertar, Ollie. – minha irmã deixou um pequeno beijo sobre o meu rosto e virou no corredor em direção ao próprio quarto.
Permaneci com os pés grudados no chão.
Eu me sentia cansado, mas ao mesmo tempo meu quarto não parecia atrativo, não sem seu corpo quente para eu envolver. Sem seu cheiro para embalar meu sono ou os resmungos inteligíveis que ela fazia...
— Oi, Ollie. – a voz atrás de mim interrompeu meus pensamentos, me virei vagarosamente encarando surpreso a pessoa ali, encostada à parede.
— Como você entrou, Laurel? – fui mais ríspido do que deveria — Os empregados já estão dormindo e não escutei a campainha tocar.
— Essa é sua primeira pergunta? – ela pareceu chateada — Diabos, Oliver! Estou tentando falar com você a noite inteira. Você não vai ligar o maldito telefone? Eu precisei dirigir até aqui e ficar esperando até que deixasse seu escritório. – Só então me lembrei da ligação que eu estive evitando. Laurel. A complicação que resolvi deixar para o próximo dia porque queria aproveitar a noite com Felicity, só agora eu percebia o que iria tornar tudo muito pior.
— A promotoria vai levar o caso adiante. – Não foi uma pergunta.
— Sim. – Laurel confirmou — Apresentamos a acusação hoje, Felicity será oficialmente intimada amanhã e então... Você conhece todos os procedimentos. Eu queria te avisar antes, assim poderia se preparar. – sorriu para mim. Percebi que aquela pequena concessão era seu jeito de me dizer que talvez pudéssemos deixar o passado no passado.
— Obrigada. – agradeci verdadeiramente.
— Ollie? Ollie? – Thea veio correndo pelos corredores — Wooah. Hey Laurel. – Ela parou de repente, olhando com suspeita da minha ex-noiva e então para mim, questionando-me apenas com o olhar.
— Thea, algo aconteceu? – seu olhar cauteloso estava em Laurel quando me respondeu.
— Felicity e Roy sumiram. – soltou.
— Como assim sumiram?
— Não estão em nenhum dos quartos, Roy não atende ao celular e Felicity esqueceu o dela aqui. – ela ergueu o aparelho em suas mãos — Eles foram embora? – me perguntou alarmada. Mas eu ainda estava estático. Depois da longa conversa, depois das acusações, das declarações... Teria Felicity achado que era muito para lidar e simplesmente me deixado?
— Eu não sei de nenhum Roy, mas Felicity abriu a porta para mim. – pisquei para Laurel – Me disse onde encontraria você.
— Ela disse para onde estava indo? – Meu peito apertou quando Laurel balançou a cabeça, negando.
— Ela disse apenas que precisava de ar.
***
Felicity Smoak
Ar.
Eu precisava de ar.
Desci as escadas com mais rapidez do que seria prudente, principalmente quando ainda usava os saltos altos e finos que Thea havia escolhido para o encontro com Oliver. Bufei, irritada comigo mesma por ainda pensar nele. Por que precisava ser assim? Por que Oliver conseguia, com apenas um olhar, abalar tudo em mim? Me fazer desejar que tudo entre nós pudesse ser diferente? Desejar ter uma chance para sermos um nós?
Abri a porta da entrada de uma só vez, ansiosa para respirar o ar fresco da noite, para limpar meus pensamentos e deixá-los serem preenchidos por nada. Mas o que vi, quem eu vi a minha frente me fez dar uma risada amarga. Eu não sabia se havia alguém puxando as linhas do meu destino, mas se houvesse, esse alguém tinha um senso de humo horrível.
— Laurel.
— Felicity. – Que coisa estranha cumprimentarmos uma a outra dizendo apenas os nomes. Mais parecia um reconhecimento de que a pessoa existia ao invés de um cumprimento realmente. – Eu preciso falar com Ollie. Ele está? – controlei a vontade de revirar os olhos para o seu “Ollie”. Alguém mais percebia que ele era um homem de trinta e três anos, e não um adolescente de dezesseis e que o apelido já não era apropriado?
— No escritório. Assumo que saiba onde é. – Me esforcei para dar a informação com uma educação polida e escondendo o mau humor. – Aconselho a esperar um pouco porque é uma reunião importante. – Acrescentei, não seria nada bom se Laurel, sem querer ficasse sabendo do envolvimento de Thea.
Ela assentiu, passando por mim e entrando enquanto saía.
— Você está saindo? – sua pergunta me fez parar ainda no primeiro degrau, olhando-a por cima do ombro.
— Eu não sei como isso pode ser da sua conta. – Ela ergueu uma sobrancelha para a minha afronta gratuita. Parabéns, Felicity! Você acabou de insultar a pessoa que provavelmente vai tentar te colocar na cadeia. Não que ela precise de mais motivos, afinal você dormiu com o noivo dela.
— Eu não acho que seria inteligente você sair agora. – ela alertou, um olhar suspeito em mim — Oliver vai querer conversar com você depois que eu acabar com ele. – Mais um motivo para eu sair dessa casa imediatamente.
— Eu só preciso de um momento para respirar. – Expliquei, sendo surpreendentemente sincera. Ela assentiu. E pensei que a nossa conversa havia acabado ali, mas Laurel me surpreendeu de volta.
— Eu sei que Oliver é um encanto, mas às vezes é preciso dar um tempo dele. Aquele jeito todo certinho, que sabe o que é melhor para você tira qualquer um do sério, não é mesmo? – Laurel me lançou um pequeno sorriso compreensivo.
E estranhamente me vi assentindo para ela com um sorriso igual. E foi isso, cada uma retomou seu caminho a partir de então. Laurel para dentro da Mansão Queen, e eu para lugar aonde eu pudesse apenas respirar.
Me senti um pouco culpada. Laurel não havia feito nada ofensivo para mim. Sim, ela havia ficado puta da vida ao descobrir que eu havia sido aquela com quem o noivo a traiu, mas que mulher não ficaria?
Minha hostilidade basicamente vinha de anos atrás, de quando eu era apenas uma jovem garota apaixonada e a odiei, mesmo sem conhecê-la, apenas porque ela tinha o coração de Oliver.
E eu lhe dei o meu.
Não era culpa dela se Oliver não me dera seu coração de volta, e ainda destruíra o meu no processo.
Varri os pensamentos assim que cheguei ao meu carro, todo o ponto de sair daqui era respirar um pouco e livrar meus pensamentos de Oliver. Mas minha mente simplesmente não conseguia esquecê-lo.
Seria mesmo minha mente que não conseguia esquecê-lo?
Meu coração começou a bater mais alto, como se anunciasse que estava ali e que tinha a resposta para aquela pergunta. Mas eu não queria escutá-lo.
Dei partida no carro, mas antes que eu pudesse sequer me mover escutei o som da porta traseira batendo. Um vulto escuro e encapuzado esgueirando por ela.
— Jesus! – levei uma das mãos ao coração, enquanto com a outra eu procurava qualquer coisa que pudesse atingir meu visitante inesperado.
— Não é Jesus, sou eu. – Roy retirou o capuz da cabeça e abriu um amplo sorriso.
— Puta merda, Roy o que diabos pensa que está fazendo se esgueirando para o meu carro assim? Tentando me causar um enfarto antes dos vinte e cinco? Eu iria te atacar! – ergui minha mão ameaçadoramente com o único objeto que achei ali, fazendo-o rir.
— Ia me atacar com seus óculos de sol? – ele parou de rir quando o acertei na testa. — Aí.
— O que está fazendo aqui? – perguntei novamente, notando que ele agora acariciava com as costas das mãos o local em que o acertei.
— Eu escutei você no quarto procurando suas chaves, e resmungando alguma coisa sobre precisar sair. Então deduzi que se você estava achando melhor sair de fininho, eu também deveria.
— Oliver não vai gostar nada disso. – eu já podia pressentir a confusão.
— E você obviamente só faz o que ele gosta. – começou a provocação, mas ela acabou num acesso de tosse.
— Eu adoro justiça divina. – agradeci, enquanto ele continuava a tossir — Me dê uma razão para não chutá-lo para fora do carro.
— Eu estou doente. – Ele fungou o nariz e fez uma cara de cachorrinho que se perdeu na mudança. Como Thea podia comprar isso? Bem, o amor claramente é cego e não muito inteligente, veja bem onde eu...
— E eu não quero ficar doente também, mais uma razão para não dividir o mesmo espaço que você. – declarei.
— Eu sou o namorado da sua melhor amiga, e você gosta de mim. – ele insistiu — Sabe que sou importante para Thea e faria tudo para protegê-la. – Ergui uma das sobrancelhas para ele.
— É o seu melhor, Harper?
— Ok, tente ver a coisa pelo meu lado Oliver surtou porque achou que eu estava dormindo com você. – ele apontou, me fazendo segurar com as duas mãos no volante — Imagine a reação dele agora que sabe que eu estou dormindo com a irmã. Sem contar todo o lance de ex-trombadinha aqui. – apontou ambos os polegares para si mesmo — Provavelmente vai achar que a corrompi...
— Pobre Roy Harper.
— Você entende, Felicity. – ele começou – Eu amo Thea, mas ela é praticamente uma princesa, até mesmo o sobrenome dela é real. Eu fico apenas esperando o momento que ela vai me chutar pra fora e agora que seu irmão não me aprova...
— Oliver não é assim. – o defendi com fervor. Oliver poderia ser muitas coisas, mas ele nunca foi esnobe — Nem Thea, ela realmente ama você.
— Talvez. – deu de ombros, mas não escondeu o sorriso contente ao me escutar dizer que a Queen mais nova o amava. Tão fofo. — Mas eu realmente estou cansado e preferia dormir até meu resfriado passar ao invés de ser torturado pelo irmão carrasco da minha namorada, que provavelmente vai me arrancar o coro por tê-la levado aquela festa onde ela, bem onde nós dois sabemos que ela se meteu em algo pesado.
Isso eu poderia entender.
— Isso não é uma carona. – adverti, pisando no acelerador e seguindo o meu destino — Eu não vou te deixar em casa, nem nada disso... Eu só vou dar uma volta de carro, respirar um pouco.
— Eu posso fazer isso. – Roy concordou com pressa — Afinal respirar não é muito difícil, certo? Só basta inspirar e expirar... – revirei meus olhos ao ver pelo retrovisor que Roy fazia movimentos exagerados ao inspirar e expirar bem audivelmente.
— Eu só quero silêncio e ficar sozinha, Roy.
— Você é tão depressiva até parece uma música da Birdy. – Ele reclamou.
— Birdy? – repeti — Seu gosto musical é meio afeminado. – cutuquei.
— Eu só conheço algumas dela, tudo culpa da Thea, é claro. – se defendeu.
— Oh, é claro. – Ironizei.
— Eu não vou incomodar, juro! – cruzou os dedos comprovando a promessa — Só quero ficar deitado e tirar um cochilo. Você pode ir aonde quiser ir, que eu ficarei aqui dormindo no banco de trás. – explicou, voltou a fungar – E ainda protegerei seu carro.
— Como vai protegê-lo se vai estar dormindo?
— Como quer silêncio se continua falando?
— É justo.
Roy pegou no sono quando cheguei a rodovia e estava mais perto do meu destino. Abri um pouco as janelas apenas para que a brisa do mar entrasse por elas e o cheiro da maresia começasse a ter seu efeito calmante em mim.
Estacionei perto dos barcos e desci do carro deixando Roy descansando no banco de trás, e segui caminhando pelo cais observando cada um dos luxuosos barcos e iates ancorados. Acho que a própria maneira Roy também precisava de um tempo para si mesmo.
Cruzei os braços sobre o colo e os esfreguei com as mãos quando senti a primeira lufada de ar arrepiar cada pelo do meu corpo. Não estava apenas frio, estava gelado e com um pouco de neblina. Eu devia ter pensado melhor e pegado um casaco, mas eu não estava sendo exatamente racional depois daquela conversa com Oliver.
Foi fácil encontrar o que estava procurando.
Queen’s Gambit.
O barco da família de Oliver se destacava com uma opulência que não se via em nenhum outro. Parei em frente à ele, quando eu tive a ideia de vir até aqui eu não pretendia subir nem nada, eu só precisava ficar em algum lugar sozinha e eu gostava da sensação de observar as ondas quebrando, do cheiro fresco da brisa. Me ajudava a respirar melhor e acalmar meu coração que vinha se comportando tão mal.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Mas então eu vi a pequena rampa de acesso do cais para o barco e pensei: Por que não?
Tirei meus saltos, segurando-os em minhas mãos e subi.
Segurei com ambas as mãos a grade de proteção do barco. Ondas o faziam balançar levemente, o movimento deixando minha cabeça mais leve e eu agradeci por não ter jantado ainda. Ergui minha cabeça para o céu, percebendo com certo desaponto que as estrelas daquela noite haviam se escondido por detrás das nuvens e não havia sequer um sinal da lua. Não, não era uma noite bonita, não era uma noite feita para ficar num barco observando o mar e as estrelas.
Mas nem tudo precisa ser bonito, para ser o que precisamos.
E aquela era uma noite perfeita para apenas respirar.
Fechei os olhos apenas sentindo a brisa em mim. Era irônico que eu tenha vindo ao barco de Oliver para parar de pensar nele, e mais irônico ainda que aquela brisa tenha me feito relembrar de uma conversa com ele, nesse mesmo lugar...
“... na próxima vez eu avisarei quando precisar respirar um pouco, melhor assim?
— Não. – rechaçou minha ideia com facilidade — Na próxima vez, eu venho respirar com você.”
Respirar comigo. Ele tinha dito.
Mas eu precisava fazer isso sem ele. Esse era todo o ponto da ideia de respirar. Me dar um tempo longe, um tempo para juntar toda a merda dentro de mim, escondê-la ainda mais profundamente antes que fosse tarde demais. Antes que Oliver com suas palavras bonitas, com seus olhos sempre tão cheios de vida, tão dispostos e prontos para me ajudar... Antes que esses olhos me fizessem perecer.
Deus! Oliver não fazia ideia do poder que seus olhos tinham sobre mim.
O poder que ele próprio possuía.
Ele não fazia ideia de que sempre fazia as perguntas certas, e eu temia que em algum momento eu despejasse as resposta, simplesmente porque estava cansada demais de guarda-las dentro de mim. Mas verbalizá-las me assustava, era mais fácil fingir que não era real enquanto a verdade permanecesse escondida.
Porque palavras tem poder.
Essa sempre me pareceu uma daquelas frases feitas de um daqueles livros de autoajuda que minha mãe estava sempre lendo. Repita algo com fé e você atrairá isso para a sua vida, e outras baboseiras a mais. Eu nunca fui como ela, ou talvez eu tenha sido e a vida acabou por fazer de mim alguém mais pragmática.
Negar uma palavra não a fazia deixar de ser verdade. Mas uma vez que eu dissesse as palavras que estavam cuidadosamente escondidas dentro de mim em voz alta... eu não poderia toma-las de volta.
Do mesmo modo que dizer uma mentira repetidamente não tornava uma mentira verdadeira. Mas pelo menos ajudar a fazer dela uma ilusão melhor.
Por que eu fiz isso por Thea? Por que me dispus a arruinar minha própria vida por minha amiga?
Não foi sobre a amizade, não apenas.
Oliver enxergava a verdade que eu me negava a confrontar, a verdade que pouco a pouco arrancava um pedaço do meu coração que já não era inteiro. Quanto mais ele enxergava de mim? Ele via através do sorriso que às vezes eu forçava? Ele podia ver nas mentiras que saiam pela minha boca?
Ele via.
E ainda assim, como ele poderia me querer?
— Roy? É você? – perguntei ao escutar o som de passos próximos a mim — Quem...? – A pergunta morreu em meus lábios. Eu me virei apenas a tempo de ver a sombra corpulenta se aproximando.
Então veio o golpe.
Um empurrão e eu nem tive como reagir. Não havia luz o suficiente para reconhecer o rosto do meu agressor, mas o arrepio de medo que percorreu meu corpo me avisou de que não era alguém conhecido. Meu corpo se dobrou pela grade e começou a cair. Eu gritei, mas meu grito se perdeu na escuridão.
A primeira coisa que senti foi o frio me envolvendo como uma manta. Não importava o quanto eu tentava fugir dele, cada músculo parecia senti-lo. A segunda coisa foi o ar que desapareceu e quanto mais eu buscava por ele, mais tudo dentro de mim parecia queimar. Meus olhos ardiam por causa da água salgada, e não importava o quanto eu me debatia, o quanto mais eu me forçava e tentava voltar a superfície, mais a pressão me puxava para baixo.
Até que eu não consegui mais.
Então parei de tentar.
Porque percebi que fazia tempo que eu tentava não afundar, e quanto mais tentava, mais opressiva era a água, mais para baixo eu era puxada. Há anos que eu apenas lutava para não afogar.
E qual era o ponto?
Havia certa paz em continuar apenas afundando.
Então eu afundei.
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