Guilty Pleasure

12 Capítulo 10 - I still need you


Notas iniciais
Bem, aqui estou eu (de novo) Eu ia postar o capítulo depois de responder todos os comentários, mas fui taxada de "má" então vou postar ele aqui e aos poucos respondo aos comentários lindos e ENORMES que vocês deixaram. Obrigada pelo carinho de sempre e a paciência. Boa leitura.

Loving and fighting

Accusing, uniting

I can't imagine a world with you gone

The joy and the chaos, the demons we're made of

I'd be so lost if you left me alone

You locked yourself in the bathroom

Lying on the floor when I break through

I pull you in to feel your heartbeat

Can you hear me screaming "please don't leave me"

Hold on, I still want you

Come back, I still need you

Let me take your hand, I'll make it right

I swear to love you all my life

Hold on, I still need you

(Hold On — Chord Overstreet)

♥

Felicity Smoak

Meu.

Eu menti para mim mesma enquanto fechava meus olhos e me deixava apenas sentir. Sentir seu corpo quente e macio atrás de mim envolvendo o meu, sentir o vento úmido e as ondas que balançavam o barco, sentir que nada mais importava exceto o aqui e o agora. O nós, que apenas nesse lugar realmente existia. Desejei que pudéssemos ter isso, que minhas palavras tivessem poder de transformar aquela pequena mentira em uma verdade, e aquele pequeno instante em eterno.

Só desejei.

— Eu acredito que precisamos conversar. – Oliver murmurou ao meu ouvido, sua voz cautelosa se mesclando com perfeição ao som das ondas e do seu coração batendo acelerado atrás de mim. Eu amava o som da voz dele, ainda mais quando ela era assim, suave e tão doce quanto mel. Mas nesse momento eu preferia o silêncio, eu preferiria não ser tentada pela sua voz.

Apertei minhas mãos em seus braços fortes que me abraçavam, soltei um longo suspiro e inclinei meu corpo para trás sentindo o calor do seu, tão contrário ao meu, que estava frio. Poderíamos ser mais opostos? A reposta de Oliver ao meu ato foi imediata, sua cabeça se abaixou e senti seus lábios em meus cabelos, beijando-os.

— Eu não quero conversar. – confessei. Não me sentindo pronta para deixa-lo ir, para deixa-lo não ser mais meu— Posso apenas ter seu abraço? – pedi, satisfeita por não ter que encarar seus olhos quando revelava tanto de uma fraqueza minha.

— Você pode ter meu abraço sempre que quiser, — sorri apenas em pensar nisso. Eu iria querê-lo sempre, mas eu o teria para mim? Nos momentos bons e ruins? Mesmo quando as mentiras começassem a ruir? — Mas nós precisamos conversar. – sua voz apesar de ainda manter o tom suave, foi incisiva, naquele jeito advogado que sabe o que é melhor para mim e que não aceita contestação.

— Sobre? – fui evasiva, tentando protelar o assunto, eu já o conhecia.

— Laurel. – eu nunca me acostumaria a ouvi-lo dizer o nome dela, não parecia certo, não depois de ouvir o meu próprio vindo de seus lábios.

— Você foi atrás dela. – me lembrei, tentando não demonstrar o quanto o fato ainda me magoava, mesmo que pela primeira vez, Oliver tenha vindo por mim também. Onde isso nos deixava?

— Eu fui atrás de Laurel. – Oh, Deus! Ele precisava mesmo repetir? — E quando eu voltei, você tinha ido. Por quê? – A pergunta não era simples como ele fazia parecer.

— Eu pensei que você estaria ocupado. — minimizei, escondendo o que odiosamente reconheci como o vergonhoso monstro do ciúme — E que não precisaria de mim, então eu... – mordi os lábios impedindo as palavras de continuarem, mesmo não olhando em seus olhos, mentir para Oliver sobre algo tão pequeno, parecia tão errado.

— Então você fugiu. – não neguei, o que foi uma confirmação para Oliver. Mas eu não me importei que ele soubesse dessa verdade. — Eu fui atrás dela por você, Felicity. – senti o sopro do suspiro impaciente em meus cabelos, bem como a urgência em sua voz — Pelo que ela poderia fazer com você. Eu sei que disse que Laurel seria racional, e eu realmente pensei que ela seria. Mas mesmo tendo passado tanto tempo da minha vida com ela, mesmo planejando um futuro ao seu lado, a verdade é que eu nunca a conheci, não sobre o que realmente importava. Talvez eu soubesse o que passava em sua mente, mas nunca em seu coração – explicou, as palavras saindo desesperadamente de sua boca — E eu estava assustado que toda essa merda do meu passado com Laurel te prejudicasse, que ela te considerasse culpada de algo que eu fiz...

— Tecnicamente eu sou culpada também.

— Não é. – refutou.

— Claro que sou! Você não transou sozinho naquela noite. – escutei um suspiro impaciente vindo de Oliver.

— Podemos conversar frente a frente? — pediu. E meu primeiro instinto foi dizer não. Isso significava olhar nos olhos dele, e também perder seu abraço. Ele não havia dito que eu o teria sempre que eu quisesse? – Estamos na nossa Suíça, Felicity. Podemos abaixar os muros aqui. – me lembrou.

Com muito custo soltei seus braços de mim e dei um passo a frente, apoiando-me contra a grade do barco, sentindo o frio do metal enquanto me acostumava com a ausência do seu calor. Gastei três segundos encarando o mar, me preparando antes de me virar e encarar Oliver. Seus olhos, do mesmo azul escuro e profundo do oceano que a pouco eu fitava, vieram para os meus imediatamente, e assim como as ondas que vinham fortes e balançavam o barco, seus olhos vinham com a mesma força irrefreável para os meus, e balançavam meu coração.

— Pronto. — Para a minha surpresa e completo deleite, Oliver deu um passo à frente, seus braços circundaram a minha cintura puxando o meu corpo para o seu. E ele me abraçou de novo. – Muito melhor desse jeito. Não acha? – escondi meu sorriso, mesmo que a Suíça não fosse o lugar de esconder nada. – Eu acho melhor esclarecer algumas coisas com você, sobre Laurel e eu.

— Oliver, você não me deve nenhuma explicação, não precisa... – a verdade era que eu não queria ouvir nada sobre os dois. Qual era o propósito? Era suposto que eu não me importasse e que mantivesse tudo separado. Não era toda essa a ideia?

— Mas eu quero contar. – seus olhos permaneciam fixos nos meus, mostrando-me o quanto Oliver necessitava daquilo. Ele não era como eu, que escondia coisas, Oliver não apenas gostava de tudo às claras, mas precisava. Então eu engoli meu orgulho, e mesmo que me machucasse toda as vezes em que falávamos do passado, eu deixei que Oliver tivesse isso, porque de alguma forma não contar o machucava também.

— Então eu irei escutar. – concedi.

— Obrigado. – ele pareceu aliviado.

Respire, Felicity. E lembre-se nada que ele te disser poderá machucar mais do que já machucou.

— De nada. – o encarei e apenas esperei enquanto Oliver parecia lutar para encontrar as palavras certas. Quase sorri, apesar do advogado ter o dom com as palavras, Oliver Queen nem sempre sabia por onde começar.

— Depois de dormimos juntos, eu me afastei. – Finalmente disse, eu assenti apenas concordando. Não que eu tenha o procurado depois disso, talvez eu tenha feito uma ou cinco ligações para o celular dele e todas foram diretas para caixa postal. Mas eu me lembrava bem de Thea dizendo que estava preocupada com o irmão. Oliver havia simplesmente desaparecido, não mais aparecia na casa dos pais ou mesmo atendia as ligações dela. — Não apenas de você, eu me fechei e afastei a todos num primeiro momento.

— Por quê? – minha boca foi mais rápida. Por mais que eu quisesse fingir que não mais me importava, a verdade era que eu me importava. Eu não deveria querer, eu sabia que não mudaria nada, mas ainda assim eu queria conhecer o lado dele da história.

— Porque eu nunca fui esse cara, eu nunca traí alguém, eu não mentia. Eu não sabia o que fazer, ou o que pensar depois que... – ele não completou — Se um relacionamento não estava bom, eu apenas era honesto com a outra pessoa e o terminava. Na minha visão da vida sempre houve uma linha clara entre o que era certo e errado, eu sabia o que fazer, o que pensar, o que deveria sentir, mas depois de você...

— Você atravessou a linha para o lado errado. – Completei, as palavras deixando um rastro amargo em minha boca.

— Não. – refutou enfaticamente — A linha já não era mais distinta e clara, ela se tornou um borrão ondulado até que desapareceu completamente, e eu já não tinha mais uma referência a seguir.

— Uau, eu realmente abalei todas as suas convicções. – brinquei sorrindo e desviando o olhar para baixo enquanto brincava com sua gravata.

— Você abalou bem mais do que isso, Felicity. – sua mão tocou suave em meu queixo o erguendo, fazendo-me encarar seus olhos, que pareciam tão sinceros e ao mesmo tempo atormentados — Eu dormi com você quando eu estava noivo de outra pessoa, quando você era a melhor amiga da minha irmã, você tinha dezoito anos e eu vinte e oito. E você ainda era virgem – Ora, ele realmente ia trazer a questão da virgindade?

— Oliver, isso não... – o cortei.

— Não me diga que não era importante. – seus lábios se fecharam numa linha dura, a expressão séria demais quase me fazendo rir.

— Não estamos no maldito século dezenove! – bati o pé. – A maioria das garotas perde a virgindade muito antes dos dezoito.

— Eu sei, mas é conjunto da coisa! Você não vê que tudo estava errado? – Novamente aquela maldita palavra! Será que haveria algo certo entre nós dois? — É isso o que me incomoda, porque por mais que minha consciência diga que era errado, eu sentia que era certo.

— Novamente, você não fez sozinho, Oliver. - Eu senti que era certo também — Eu sabia que você tinha uma noiva, eu sabia que você era o irmão da minha melhor amiga, e eu decidi que a minha primeira vez seria com você. Pode não ter sido a escolha mais inteligente considerando todo o resto... — parei ao ver seu olhar entristecer. — Mas eu senti que era certo, também. – abri meu coração naquele momento, cansada de segurar tanto, e não havia mais porque mentir sobre as pessoas que fomos, não quando não iríamos voltar a ser assim. Jamais. – Ao menos naquela época. – Oliver não perdeu minha restrição. – Eu era apenas uma jovem garota que não sabia de muita coisa. — dei de ombros – e que era vergonhosamente apaixonada pelo irmão da melhor amiga. Que clichê ruim! – forcei a pequena risada, tentando aliviar o clima um pouco pesado que o assunto trazia.

— Você era, e ainda é, uma mulher incrível, Felicity. – aqueles olhos, aqueles malditos olhos ainda tinham o mesmo efeito em mim, ainda faziam meu coração ir mais rápido, e os lábios se movimentarem num sorriso satisfeito, derrubava as minhas barreiras. Mas eu segurei o sorriso e virei o meu rosto quebrando o efeito do seu olhar em mim, não havia muito o que eu pudesse fazer com o efeito de suas palavras em meu coração tolo, mas se eu pudesse evitar demonstrar isso, eu iria.

— Nós íamos falar sobre Laurel – o lembrei, sabendo que o nome ergueria aquela barreira novamente.

— Certo. – me deu um sorriso derrotado, embora o aperto de suas mãos em minha cintura tenha se fortificado – Depois de você eu tomei um tempo para mim, para tentar colocar minha cabeça no lugar. – apenas concordei — Nesse meio tempo você foi embora para a faculdade, e eu percebi que eu precisava tomar uma decisão importante também. Num primeiro momento eu me iludi pensando que eu poderia apenas... – peguei um vislumbre de algo sonhador, mas não durou muito e Oliver balançou a cabeça, desistindo do que ia falar e começando de novo – Eu contei à Laurel, eu decidi ser honesto com ela.

— Ela deve ter ficado surpresa, aposto que ela não esperava isso de você. – comentei.

— Sim, num primeiro momento Laurel não acreditou, quando eu confirmei aí então ela ficou puta da vida, começou a gritar comigo e a chorar. Sua primeira pergunta foi como eu fui capaz de fazer isso com ela, e a segunda quem era você. Eu não contei, e eu fui honesto quando disse que não contei o seu nome para protegê-la, Felicity. Eu não queria as pessoas especulando ou envolvendo o seu nome em algo que não era da conta delas. Mas isso a deixou ainda mais possessa. E então começaram as acusações, o que seria do nosso casamento com esse erro pairando entre nós, o que as pessoas pensariam... – por mais que fosse estranho, eu me vi realmente interessada no que Oliver me dizia, eu sempre soube o meu lado da história, era bom saber o dele também. Mesmo que isso não mudasse nada. — Nesse ponto eu apenas fiquei sentado no sofá, sua voz aos poucos desaparecendo enquanto eu ainda pensava na primeira pergunta que ela me fez. Como eu fui capaz de fazer isso com ela? A pergunta me fez perceber algo. – ele parou. O suspense me fazendo procurar em seus olhos a resposta que seus lábios tanto adiavam. Senti suas mãos grandes apertarem minha cintura com mais força — Eu sequer pensei em Laurel, eu não me lembrei de que tinha uma noiva quando estava com você, eu só pensei em você e não... – Oliver domou a pequena perda de controle — Então onde isso colocava o meu relacionamento com ela? Ou a importância dela na minha vida? Ela era a mulher com quem eu pretendia me casar, e eu não me lembrei dela enquanto estava com você. A minha verdade veio ainda mais clara, eu não amava Laurel. Eu nunca a amei, eu amava a ideia de amá-la, mas o que tínhamos não era real e nunca seria, não como é... – Ele não completou a frase, mas nem precisou, uma das suas mãos deslizou de seu aperto, e procurou pela minha apertando-a significativamente na dele, seus olhos sorriram e meu coração se atreveu a sonhar e a completar a frase por si mesmo “não é como é com você” — Mas quando eu comecei a conversa sobre rompermos o noivado Laurel começou a chorar e dizer que não era assim que devíamos lidar.

— Ela disse o quê? – Eu não me segurei. Não esperava isso de Laurel, ela sempre parecera uma daquelas mulheres seguras de si e que não precisam de um homem. Na minha mente, eu sempre imaginei Oliver sendo aquele que tentaria consertar o relacionamento deles.

— Laurel disse que me amava, e por mais que eu tenha a machucado, ela estava disposta a tentar me perdoar e a esquecer a minha traição. – explicou calmamente.

— Então por que você não voltou com ela? – perguntei diretamente.

— Eu agi errado com Laurel, sim, e eu queria que ela me perdoasse porque embora faltasse algo entre nós, como eu descobri mais tarde, nós tínhamos um relacionamento baseado em confiança e eu a quebrei, eu errei com Laurel. – mordi os lábios, evitando falar o que pensava.

— Mas?

— Mas eu não errei com você, Felicity, e acima de tudo eu não conseguia esquecer, por mais que tenha tentado. – revelou.

Não conseguiu me esquecer?

— Não errou comigo? – ergui uma das sobrancelhas, me concentrando na frase que mais magoava, ao invés da que fazia meu estômago se agitar. Eu não queria ir pelo caminho dessa última.- Eu me lembro das suas palavras exatas naquela noite, Oliver. – eu disse — Eu sou um erro que você nunca iria cometer novamente. – cutuquei o seu peitoral – Opss... Acho que você não cumpriu com a palavra. – Oliver não riu da minha tentativa de fazer piada, ao contrário ele abaixou seu rosto fazendo-me sentir falta de seus olhos nos meus.

— Felicity, eu... — quando seus olhos voltaram eu soube que ouviria um pedido de desculpas cinco anos atrasado, e isso era ainda pior, apenas confirmava que existia um erro a ser desculpado.

— Não. – o parei com um sorriso forçado — Nós não vamos remoer isso.

— Sim, nós vamos. – suas palavras não me deram opção, tão pouco seus olhos o fizeram — Porque “isso” é o que está ficando entre nós todas às vezes. “Isso” é o que te faz retrair sempre que eu falo a palavra erro. É por causa desse “isso” que seus sorrisos para mim são quase sempre forçados. E você gostando ou não, é por causa desse “isso” que estamos aqui agora, “isso” te fez deixar o escritório e se esconder no barco.

— Oh, é mesmo? – deixei de tocá-lo e forcei suas mãos para longe de mim. Cruzei os meus braços nos forçando a uma distância física ao dar um pequeno passo para trás encostando-me ainda mais na grade do barco. Quando foi que eu permiti que Oliver visse tanto de mim?

— Sim. – o desgraçado sorriu ao cobrir a distância, sabendo que eu não teria escapatória — E sabe o que é mais contraditório?

— Esclareça-me. – mantive-me firme. Mas vacilei ao sentir as mãos de Oliver nas minhas, soltando-as aos poucos do aperto rígido.

— Você fugiu por causa do nosso passado e você correu em direção a algo que faz parte do nosso presente. O que isso lhe diz sobre nós, Felicity? – o encarei, desejando ter uma resposta mordaz e sarcástica. E eu até tinha uma, mas parecia errado dizê-la quando Oliver não estava me dando nada além de suas palavras sinceras. Senti suas mãos envolvendo as minhas, levando-as para baixo devidamente entrelaçadas nas suas. – Talvez você ainda não saiba a resposta, ou talvez esteja mentindo para si mesma.

— Talvez não exista uma resposta. – ousei dizer.

— Existe sim. — senti seus lábios pousando suavemente sobre os meus. Seu beijo singelo fazendo meu coração reagir de uma forma que não deveria, aplacando a fúria que havia dentro dele — Você não quer enxergá-la, mas tudo está bem. – sorriu. E por mais que eu achasse que nada nunca estaria bem entre nós, quando Oliver sorria para mim daquele jeito, eu me atrevia a acreditar que talvez tivéssemos uma chance. – Eu só preciso explicar mais uma coisa. Eu sempre pensei que Laurel era mulher certa para mim, que ao lado dela eu construiria um bom futuro, mas também bem no fundo eu sempre soube que faltava algo entre nós dois, que o que parecia certo poderia ser o maior erro da minha vida. – sequer pisquei. Oliver acabara de dizer que continuar com Laurel teria sido o seu maior erro? — E eu percebi o que estava faltando quando estava com você. Naquela época não era você o erro, era eu. — Ele não estava dizendo que eu era a mulher certa agora, mas ao menos não me condenara dizendo que eu era a errada. — Então me des...

— Não. – calei suas malditas desculpas, eu não as queria, elas não mudariam nada.

— Ok. Mas ainda precisamos nos acertar.

— Sim. – concordei. Eu sabia que eu era o problema. Era eu que estava mentindo e escondendo coisas, eu que não conseguia separar o passado do presente e permitia que ele tivesse poder sobre mim. — Mas como fazemos isso?

— Eu não quero que você vá embora todas as vezes que algo a aborrecer. — suspirei — Apenas converse comigo, apenas me diga qual o problema e tentaremos resolver.

— Eu só precisava respirar.

— Eu posso ficar perto de você enquanto você respira. — o encarei, vendo em seus olhos o quanto Oliver falava a sério. — Faz ideia do meu desespero quando Diggle me ligou dizendo que você tinha deixado o escritório?

— Ele te ligou? Eu pensei que você tivesse dito que voltou no escritório e eu não estava lá.

— Eu menti. – falou sem sequer piscar.

— Você, Oliver Certinho Queen, mentiu?

— Sim. – abriu um sorriso, suas mãos levando as minhas com as dele para as minhas costas enquanto aproximava nossos corpos — Você é uma péssima influência para mim. – sua boca esperta me distraiu.

— Como me encontrou?

— Somente quando eu parei de pensar, que eu percebi que sabia o tempo todo para onde você iria. – ele sussurrou a palavra dentro de um sorriso — Suíça.

Sorri de volta, embora não devesse.

Há pouco tempo eu havia voltado à vida de Oliver. E tudo o que eu trouxera foram mentiras e mais mentiras. E mesmo assim, apenas de esconder tanto dele, apesar de obriga-lo a mentir por mim e possivelmente arruinar sua carreira no processo, Oliver ainda estava aqui.

Ainda estava ao meu lado.

E mesmo quando eu o empurrava para longe, ele se aproximava.

Ainda tentava ao seu próprio modo me salvar, mesmo que não soubesse do quê. E como seria quando percebesse que não havia mais como me salvar?

— Eu acho que você deveria ligar para Thea. – Oliver comentou, fazendo-me deixar meus pensamentos tristes para trás, e me focar apenas em suas mãos nas minhas — Ela ficou um pouquinho desesperada quando eu disse que você havia desaparecido.

— Chamou a polícia também? – o cutuquei me divertindo com o Oliver preocupado.

— Considerando que você está praticamente em uma condicional e não pode deixar a cidade, achei melhor não.

— Sempre tão inteligente.

— Mas dei um toque em Lance, pedindo para ele ficar de olho e ligasse para mim primeiro caso soubesse de você. Tem ideia do quão preocupado fiquei, Felicity? Você ainda é notícia, os jornalistas ficarão te perseguindo por um tempo. O filho de Slade ainda está no hospital, e se Slade tentasse algo...? – estremeci apenas em lembrar de Slade.

— Me desculpe, eu não pensei, na próxima vez eu avisarei quando precisar respirar um pouco, melhor assim?

— Não. – rechaçou minha ideia com facilidade — Na próxima vez, eu venho respirar com você. – ergui minhas sobrancelhas. Por mais que eu gostasse dessa preocupação dele, as vezes o que eu precisava era de um tempo de Oliver. Estranhamente ele pareceu perceber isso, seu rosto se tornando menos inflexível, embora tivesse certa tristeza – Ao menos leve seu celular e avise onde está indo, isso não é negociável, Felicity. – acrescentou quando eu estava prestes a abrir a boca. – Sabe que estou sendo razoável, aqui.

— É, exercendo apenas 99% de controle na minha vida... Deve ser muito difícil para você ceder tanto. – ironizei, embora sorrisse para Oliver.

— Você está me provocando ao invés de estar brava. – pareceu surpreso ao constatar isso.

— Estou tentando encontrar um meio termo, não dissemos que iriamos tentar fazer dar certo? – havia uma luz em seus olhos quando eu pronunciei as palavras, sua mão apertou a minha como se dissesse que estávamos juntos nisso. Mesmo que eu ainda não soubesse o que esse “isso” significava, mas seja lá o que fosse, Oliver estava sendo sincero e disposto a tentar. E quando eu estava aqui com ele, eu acreditava que era possível talvez eu pudesse... Se eu pudesse planejar essa conversa, se eu fosse escolher o lugar certo seria bem aqui. — Oliver, eu estava pensando será que podemos conversar sobre...? – comecei, deixando me levar por um instante pelo momento, desejando dar a ele um pouco de sinceridade também. Não estávamos brigando, ao contrário, Oliver havia me contado sobre si e ele estava disposto a me ouvir.

Algo me dizia que estava até mesmo ansioso por isso.

Talvez porque soubesse que eu não mentiria para ele aqui.

— Um minuto. — ele me pediu sem desviar o olhar de mim, enquanto retirava do bolso o celular que tocava.

— Algo errado? – questionei, quando notei seu olhar desviar para o aparelho e o modo atento que ele fitava a tela do celular, franzindo o cenho.

— Diggle, me mandou uma mensagem pedindo para encontrá-lo no escritório. É urgente. – pareceu preocupado – Ele geralmente mantem as coisas sobre controle, se disse que é urgente então deve ser realmente grave.

— Então vamos. – adiantei, uma vez que Oliver ainda não havia se movido, como se esperasse para saber se eu realmente estava pronta para ir. Apenas o puxei pela mão seguindo para a saída, ele não discutiu, embora eu tenha visto a interrogação em seu rosto no momento em que a soltei, quando descemos a escada do barco e caminhávamos em direção ao carro dele, uma vez que eu tinha vindo de táxi.

— Espere, você ia me dizer algo. – Oliver me parou segurando a porta do carro impedindo-me de entrar, seus olhos vieram nos meus, tentando recuperar o momento de antes.

Mas me acovardei.

— Não era nada. – menti. Vi pelo modo como os cantos dos lábios de Oliver se contorceram que ele não acreditava em mim, seu olhar estava magoado. Havíamos deixado a Suíça para trás.

***

Oliver Queen

Olhei para Felicity pelo canto do olho, ela parecia bem, sentada no banco ao meu lado olhando distraidamente pela janela, quando sentiu meu olhar sobre si, ela virou-se e apenas sorriu. Era um sorriso bonito, seu sorriso dizia-me que ela estava bem, então sorri de volta concentrando-me no trânsito.

Mas eu sabia que ela não estava bem.

Eu sabia que seu sorriso mentia para mim.

Quando a vi, de pé e parada na borda no do barco, abraçando a si mesma, eu senti uma pontada em meu coração. Tão sozinha. Tão atormentada presa em seus próprios pensamentos. Pensamentos estes que ela jamais dividia comigo, mas que eu queria desesperadamente, não importava o peso que trouxesse. Toda dor é menor quando dividida, não é o que dizem?

Fiquei aliviado por ela pedir justamente o que eu mais estava desesperado para fazer. Abraçá-la. Mostrar que eu estava ali por ela, para o que ela precisasse de mim. Conversar com ela, embora eu tenha sido o único a se abrir, trouxe uma leveza para mim também. Eu gostei de esclarecer algumas coisas do passado, mesmo que isso não o mudasse, talvez pudesse mudar o presente, ou como ela me via.

Ela não conversou comigo de volta.

Ela não me contou como lidou com tudo o que aconteceu entre nós há cinco anos. Ela não me falou o porquê de não querer que as coisas entre nós se tornassem mais pessoais, o porquê de suas barreiras, de ter se afastado dos pais. Ou mesmo sobre o que realmente aconteceu na noite em que ela atirou no filho de Slade.

Felicity seguia se escondendo.

Mas ela pediu por meu abraço.

Isso ao menos me dizia que ela precisava de mim por perto. Então eu ficaria. Não que eu fosse muito capaz de me afastar, mesmo se ela pedisse. Desde que Felicity reapareceu na minha vida, eu fui incapaz de lê-la. Eu apenas notei as mudanças drásticas da jovem mulher que me teve em suas mãos no passado, e que agora parecia uma pessoa completamente diferente. Eu olhava para seus olhos e tudo o que via era um abismo vazio, e apesar das mentiras contadas e seu jeito arredio e defensivo. Apesar do meu lado advogado me dizer que essa mulher não era confiável e que eu não deveria me envolver, vez ou outra eu me perdia num nuance que me lembrava daquela garota do passado. Um gesto, um olhar, a reação dela quando eu a tocava... Felicity Megan Smoak ainda estava lá, escondida atrás de camadas e camadas de autopreservação.

Eu ainda não era capaz de lê-la.

De desvendar seus segredos e descobrir porque ela mentia.

Mas quanto mais eu me aproximava, quando ambos nos permitíamos ficar juntos, quando apenas cedíamos aos sentimentos. Eu conseguia ver pequenas partes dela, eu via sua dor, e o quanto ela se escondia atrás dela. Mas eu via também que quando estávamos juntos, essa dor ia embora. Como hoje quando a abracei, eu podia sentir pequenas partes quebradas dela se juntando novamente, o bem que meu abraço fazia para ela. Não era muito, mas era o suficiente para mim.

Mesmo assim eu sabia que havia uma parte dela que eu nunca conseguia alcançar, eu não deveria querer essa parte, a parte confusa e cheia de mentiras e segredos, a parte que não se entregava. Mas quanto mais tempo eu passava perto dela, mais para perto essa parte me chamava. Era como ter uma voz te guiando até a beira de um precipício, você sabe que vai cair, mas não consegue não segui-la.

Porque por mais que a voz te leve por um caminho sem volta, por mais que no fim desse caminho você encontre apenas destruição, você continua a seguir, continua a ir em direção ao precipício, porque sabe que ela vai estar lá.

E não havia problema se caíssemos juntos.

Olhei para Felicity novamente, eu quase podia ouvir seus pensamentos. Era nítida a mudança nela. Quando estávamos no barco, ela sempre se abria mais, mas no instante em que o deixávamos, eu a via novamente se controlar ao meu lado. Quando eu sugeri a ideia da Suíça, eu não pensei que ela seria tão literal.

— Hey, chegamos. – anunciei ao estacionar na garagem do prédio, eu precisei quebrar o silêncio uma vez que Felicity estava tão pensativa. Meus dedos chocaram-se com os dela quando ambos, ao mesmo tempo, tentamos tirar o seu cinto, sorri quando eu ganhei essa. — Só preciso ver no que de tão urgente Diggle precisa de mim, e então podemos ir para casa.

Felicity mordeu o lábio inferior tão forte, que me fez desejar ser capaz de ler seus pensamentos.

Ela pensava o mesmo que eu?

— Ok. – ela abriu a porta antes que eu pudesse fazer isso por ela.

Tão independente.

Ambos entramos no elevador e ela não protestou quando a palma da minha mão encontrou as suas costas, mas eu vi a hesitação, ela queria se aproximar mais, porém não o fazia. Era estranho aquela nova distância que não chegava a ser propriamente física, Felicity estava cautelosa demais, como se filtrasse cada ato ou palavra sua antes de fazê-lo.

Algo não estava certo.

Não pensei, apenas agi apertando o botão de pausar o elevador.

— Por que fez isso? – Me questionou, assim que o tranco da parada abrupta do elevador a trouxe para mais perto de mim.

— Nós estamos bem? – ela piscou, sem entender minha pergunta.

— É você a pessoa que está apertando botões de elevadores e fazendo-os parar sem a menor necessidade! Você está mentalmente bem? – eu não previ aquele ataque direto, seja lá o que estava passando por sua mente, a estava afetando e eu não gostava disso – Desculpe, estou um pouco preocupada.

— Por quê? – sondei.

— Seu amigo Diggle disse que era urgente. Pode ser algo sobre o meu caso. – peguei a mentira no ato, mas não a refutei, algo a estava preocupando. Felicity apenas não confiava em mim o suficiente para contar.

— Não se preocupe, não é sobre o caso. – a respondi, mesmo sabendo que não aliviaria a preocupação dela — Diggle sabe o quanto você é importante para mim, ele teria me ligado imediatamente e me contado se algo tivesse acontecido. — esfreguei minha mão em suas costas, desejando livra-la do que a afligia — Agora pare de fugir da minha pergunta. – Seus olhos se arregalaram brevemente ao perceber que não iria me distrair tão fácil. – Nós meio que tivemos uma conversa pesada, ainda estamos bem?

— Está perguntando sobre o nosso acordo de sexo? Se ele ainda está valendo? – Ela realmente acreditava que era com isso que eu me importava? O quão pouco Felicity pensava de mim?

— Não. – fui brusco retirando minha mão dela e me arrependendo em seguida querendo ter de volta aquele contato – Eu quero saber se eu e você estamos bem um com o outro. Em sintonia. Quando deixamos o barco tudo ficou... Diferente.

— Estamos bem. – sua resposta automática me dizia que não.

— Sobre Laurel está tudo esclarecido?

— Sim.

— Não parece. — recusei a aceitar suas respostas, algo estava errado com ela. Nós íamos do quente ao frio e eu nunca conseguia acompanhar o porquê da mudança brusca. Se eu entendesse, se eu descobrisse o que a tocava tão profundamente que a fazia de repente se fechar e me afastar, talvez eu começasse a entender em que ponto de sua jornada a jovem Felicity que conheci se perdera, e talvez que sabe, eu pudesse até mesmo trazê-la de volta? — Você não fala comigo, Felicity.

— Eu estou falando agora. – evitou meus olhos.

— Você não fala sobre o que realmente importa. – notei que ela apertou seus olhos e levou uma das mãos a têmpora direita, um aviso claro de que eu estava pressionando demais e que deveria recuar. Mas não o fiz. — Você está sempre pisando em ovos comigo. Quando estávamos no barco, antes da mensagem de Diggle, você queria me contar algo e parecia importante. – vi pânico passar por seus olhos, e um tremor leve em suas mãos e logo depois ela petrificou — O que era?

— Não era importante. – ela deu de ombros, apertando as mãos uma na outra e desviando o olhar para a porta do elevador.

— Parecia importante, você sabe que pode confiar em mim, Felicity. – ela respirou fundo e então virou-se devagar para mim, seus olhos num misto de raiva e vulnerabilidade dizendo-me que eu deveria deixar aquilo para lá.

— Quando nós começamos isto. – ela indicou com o dedo de si mesma para mim -Você disse que eu não precisaria contar nada, você me disse que minhas mentiras não seriam um problema para você. Que está Felicity, seria o suficiente para você. Mas aqui está você novamente querendo a verdade, querendo que eu abra meu coração. – Se eu fosse capaz de me chutar eu me chutaria. Felicity estava certa, eu fazia exatamente isso quando disse que nossa relação não seria assim, mas era difícil conciliar o que eu deveria fazer com relação a ela, e o que eu gostaria de fazer — Você está sempre tentando me convencer a ceder, e as vezes eu quase cedo... – falou a última parte apenas para si num tom de quem estava cansado de segurar tanto. – Você não vai querer complicar as coisas ainda mais, eu sei que você não confia em mim e que eu não dei motivos para confiar, mas ao menos tente acreditar quando eu digo que é melhor assim. – Por quê? Tive vontade de questionar — Então podemos apenas manter o maldito acordo e manter tudo do jeito simples?

Não.

Sim.

Um acordo com ela era melhor do que nada.

Inferno! O que ela fazia comigo?

Não a respondi e Felicity apenas deu a conversa por encerrada, apertou o botão fazendo o elevador voltar a subir. Observei os números passando numa contagem regressiva, e o parei novamente três andares antes do andar do meu escritório, ganhando o seu olhar carrancudo dessa vez. Eu nem sei por que o parei, apenas senti que ainda não havíamos terminado aquela conversa.

Felicity tornou a apertar o botão.

Estiquei minha mão para pará-lo outra vez.

— Aí – exclamei ao sentir o tapa em minha mão impedindo-me de alcançar o botão — Estamos realmente tentando decidir quem ganhou a discussão apertando o maldito botão do elevador? – deixei uma risada escapar e Felicity sorriu me deixando mais calmo ao ver que ela parecia mais leve — Elevamos as brigas de casal para outro nível. – Felicity franziu o cenho analisando algo que eu disse.

Eu demorei um pouco para perceber o que parecia incomodá-la.

Casal.

Eu disse que éramos um.

— Eu não quis dizer que... – Sim, eu quis, porque era difícil rotular o que tínhamos e uma vez que estávamos dispostos a ficar juntos, o que isso fazia de nós?

— O importante é que eu ganhei. – Ela falou assim que a porta do elevador se abriu, sorrindo abertamente, me deixando aliviado por ela não fazer um caso por eu ter dito que éramos um casal. – Felicity um, Oliver zero... – zombou, deixando o clima ainda mais leve. Eu sabia que era o jeito dela de tentar fazer com que nos acertássemos e deixássemos a discussão para trás.

— Eu vou querer uma revanche... – A segui para fora do elevador, passando pela recepção em direção a minha sala onde Diggle deveria estar me esperando para conversar. Eu sabia que era ridículo, mas o que não entendia era, por que diabos eu queria levá-la para o elevador e continuar com aquele jogo tolo?

— Graças a Deus você chegou! – A voz aflita de Dig me fez jogar meus planos com Felicity para mais tarde.

— Dig, hoje não é dia de trazer os filhos para o trabalho. – olhei surpreso para meu amigo que tinha seus filhos gêmeos contigo. John Junior estava agarrado a perna do pai fazendo bico e parecia irritado enquanto a pequena Sara berrava a plenos pulmões no colo do pai. Ele também estava uma completa bagunça. Roupas amassadas, uma bolsa de criança quase despencando de um dos ombros, um olhar perdido em seu rosto cansado.

— Devo lembrá-lo que você me deve isso? – Oh merda. Ele falava sério? Essa era a emergência? Me lembrei do acordo que fiz com ele, quando precisei que ele investigasse Felicity, e concordei em cuidar do gêmeos, mas eu nunca achei que realmente teria que fazê-lo.

— Você está falando sério? Dig eu não posso bancar o babá, eu sequer sou bom com crianças... – Não havia crianças em minha vida, eu não sabia bem como lidar com elas. E se eu fizesse algo errado? E se elas me odiassem?

— Oliver, é uma emergência. – Seu tom desesperado me convenceu e eu assenti, mesmo que eu ainda não soubesse como ia fazer isso. Olhei para as duas crianças e seus olhos grandes e brilhantes, ambas já sentindo a tensão do pai de que algo estava errado.

— Ei, pequena borboleta. — Felicity que apenas observara a cena encostada num canto próxima a porta, se aproximou nos interrompendo — Amei seu tutu rosa e as suas asas, elas fazem você voar de verdade? — ela questionou com uma voz suave e maternal, Sara piscou seus olhos, sua atenção se desviando do pai para a novidade que era Felicity.

— Não. – respondeu fungando, suas lágrimas parando de cair. – É de mentirinha.

— E você rapazinho?

— Eu sou o homem aranha. – John Júnior inflou o peito e a respondeu com convicção. – Eu sei subir nas coisas.

— Você é um super-herói. – afagou os cabelos do garotinho.

— Sim! – exclamou entusiasmado por alguém ter notado.

— Era dia de vista-se como quiser na escola. – Dig me esclareceu.

— Eu acho que eu poderia usar uma borboleta que não voa e um super-herói que sobe nas coisas para me ajudarem com um problema. Vocês querem me ajudar? –. John Jr sequer hesitou, soltou imediatamente a perna do pai e buscou ansiosamente a mão de Felicity sorrindo para ela. Garoto esperto. Sara por sua vez buscou por concordância nos olhos do pai e apenas depois que Dig disse que estava tudo bem ir, ela esticou os bracinhos reivindicando o colo de Felicity. Notei uma rápida troca de olhares entre Felicity e John, como se ele se desculpasse e ao mesmo tempo a agradecesse. Fiz uma nota mental para questioná-lo sobre isso num outro momento.

A observei levar as crianças para o outro lado da minha sala, sentando-as no sofá e conversando com elas. Os dois prestavam atenção e mal piscavam os olhos, até parecia que ela estava explicando algo muito importante. Sorri para cena, completamente surpreso por descobrir que Felicity se dava bem com crianças.

No que mais ela me surpreenderia?

— Lyla recebeu um tiro enquanto trabalhava, — retornei o olhar para o meu amigo ao perceber a seriedade do assunto.

— Ela está bem?

— Eu não tenho certeza. – sua voz tremeu, medo o abalando — Mas não quero as crianças num hospital, e muito menos descobrindo que a mãe foi baleada, eles são muito pequenos para lidar com esse parte pesada do mundo. – Vi seu olhar de pai protetor ir para os filhos que brincavam com Felicity, querendo tão desesperadamente manter aquela inocência por mais tempo.

— Você está certo.

— Eu vou apenas me certificar de que tudo está bem com Lyla, tentar arrumar uma babá o mais rápido que conseguir – se adiantou — Eu só preciso que distraiam as crianças por um tempo e eu...

— Nós cuidamos deles pelo tempo que precisar. – o interrompi num tom mais calmo, tentando acalmá-lo também. Coloquei uma das mãos sobre seu ombro, lembrando-o que poderia contar comigo sempre que pudesse. Isso não era sobre eu dever algo a John, mas sobre a amizade e respeito que tinha por ele — Não se preocupe, John, vá cuidar da sua esposa que cuidaremos dos seus filhos, apenas me mantenha informado sobre o estado dela. Eu estou aqui por você.

— Obrigado, Oliver.

Diggle respirou fundo e se forçou a colocar um sorriso calmo no rosto, embora seus olhos não fossem capazes de disfarçar a preocupação e o medo que ele tanto sentia. Eu só podia imaginar seu sofrimento. Ele se aproximou dos filhos, colocou a bolsa que trazia consigo ao chão, e se abaixou ajoelhando-se na frente deles.

— Crianças? – chamou num tom diferente, mais cuidadoso, e mesmo assustado a visão de seus filhos ainda lhe trazia alguma luz, lhe dava força. Eu conhecia Dig há anos e ele sempre foi um homem bom e centrado. Mesmo em seu tempo de agente do governo, porém sempre parecia buscar por algo mais da vida, ele simplesmente não parava em um só lugar, sempre viajando. Mas tudo se modificou quando conheceu Lyla, ele parou de viajar, se casou e teve os gêmeos, ele buscou por um trabalho mais tranquilo algo nele se modificou. Como se ele tivesse finalmente pudesse sossegar por que tinha encontrado o que sempre buscou. O observei sorrir para seus dois filhos, e senti uma pontada de inveja de Dig, por mais que eu tivesse uma vida sólida, eu sentia que havia mais nela e que estava perdendo, eu sabia que estava procurando por algo... ou alguém. — O papai vai precisar sair um pouquinho, e vai deixar vocês dois brincando com o Tio Ollie e a amiga dele, certo? – explicou, ainda sorrindo para acalmá-los.

— Eu gosto de brincar, mas queria ir passear com você, papai! – Sara, que eu já havia percebido ser a mais agarrada ao pai entre os gêmeos, reclamou.

— Acontece, minha pequena, que eu não vou passear, eu vou ir à um lugar onde crianças não podem entrar. – esclareceu com paciência — Nem borboletas ou super-heróis. – sorriu ao completar quando percebeu que a pequena estava pronta para argumentar.

— Deve ser um lugar muito chato então. – JJ cruzou os braços. Ele não estava sendo tão verbal quanto Sara que não escondia o quanto desejava ir com o pai, como a grande parte dos homens, ele se fazia de forte, mas o pequeno estava tão nervoso quanto a irmã.

— É sim, tão chato que eu e a mamãe vamos precisar ir para um lugar muito divertido depois para nos livrarmos de toda essa chatice. E acho que meus dois filhos deveriam decidir para onde iremos, o que acham?

— Circo! – Sara e John gritaram ao mesmo tempo.

— Vai ser circo, então. — ele riu parecendo aliviado por ver os filhos entusiasmados com algo – Agora me deem um abraço bem apertado. – as crianças assim o fizeram — Se comportem, obedeçam o tio Ollie, ok? – as crianças acenaram com a cabeça — Eu e a mamãe amamos você dois e logo todos nós iremos ao circo e vamos nos divertir muito. – afagou o cabelo dos dois, e os beijou sobre a testa.

Ele os soltou com muito custo.

Como se tivesse um sexto sentido, Felicity chamou a atenção das crianças novamente enquanto Dig, dessa vez falava comigo. Não falava exatamente, mas me dava seus avisos de pai preocupado.

— Tem roupas limpas e brinquedos na bolsa, coloquei o lanche deles na geladeira – começou com os avisos — Não deixe John subir nas coisas e Sara manipular vocês, ela pode parecer a coisa mais fofa vestida num tutu rosa com asas de borboleta, mas a garota é igualzinha a mãe, e sempre consegue o que quer.

— Nós cuidaremos disso. – o assegurei. Diggle deu uma segunda olhada para os filhos que estavam sentados ao chão com Felicity, parecendo não muito certo sobre deixa-los. – Lyla precisa mais de você agora. – O lembrei e isso o fez decidir.

— Certo. — assentiu — Obrigado de novo, fico te devendo.

— Não. – neguei — amigos são para isso.

Ele assentiu novamente, deixando a sala a passos apressados.

Respirei fundo três vezes.

Eu nunca tinha cuidado de crianças antes. Não havia nenhuma em minha vida e honestamente eu estava nervoso só de pensar em como lidar com duas crianças de três anos. Mas eu olhava para Felicity com Sara e John Júnior, e parte desse nervosismo desaparecia ao perceber que ficaríamos bem. Felicity gostava de crianças e elas gostavam dela de volta, era uma faceta dela que eu sequer imaginei que pudesse aparecer, não atrás de todas aquelas muralhas.

Mas era isso.

Quando ela estava com as crianças, não havia mais nenhuma muralha ali.

Apenas Felicity.

Exposta.

Fascinante.

— Você parece a minha boneca, só que mais bonita. – Sorri ao escutar o elogio da pequena Sara, que passava a mão cuidadosamente pelos cabelos de Felicity, assim como eu, parecendo fascinada por ela.

— Eu concordo com você, Sara. – Havia algo em Felicity que a fazia parecer realmente linda neste momento. Vê-la ali, sentada ao chão com duas crianças, parecendo tão despida da sua armadura usual a deixava ainda mais encantadora trazia um brilho que eu não via muito mais nela.

— Obrigada. – ela agradeceu — Aos dois.

— É essa aqui. – Sara a mostrou depois de revirar a bolsa que o pai deixara ao chão — Minha mamãe me deu essa boneca no meu aniversário e JJ ganhou um carrinho bobo. – contou animada, mas logo seu cenho franziu — Cadê a minha mamãe?

— Você vai ver sua mamãe em breve, vocês dois. – Felicity disse ao notar que o pequeno JJ parecia ansioso com a resposta da pergunta também — Como ela se chama? – tentou distrair a pequena.

— Mamãe. – Eu ri com a simplicidade da resposta, ganhando uma careta de Sara que logo percebi não gostava de ser o alvo do meu riso.

— E a sua boneca? – A pequena Sara piscou os olhinhos para Felicity.

— Qual o seu nome?

— Felicity.

— Então o nome dela é Felicity também. – menina esperta – Você e o tio Ollie são namorados? – Felicity abriu a boca e a fechou. Uma criança de três anos a encurralava melhor do que eu.

— John Junior você não pode subir aí. — Felicity ralhou ao ver que o menino começava a escalar a estante de livros — Oliver faça alguma coisa! Ele não pode subir lá, é perigoso. – Me ordenou.

— Se o tio Ollie faz o que você manda, então ele é seu namorado. – escutei Sara declarar. E eu não podia negar a lógica do seu raciocínio.

— Bem, seu tio Ollie e eu... — fui ajudar o pequeno John a descer da estante e perdi a resposta de Felicity com os resmungos do garoto que não queria minha ajuda.

— Mas tio Ollie, eu sou o homem aranha, eu escalo as coisas! – protestou quando eu o coloquei de volta ao chão. O olhei do alto, seu semblante sério e altivo, o olhar firme e tão cheio de certezas como o do pai, me fizeram pensar como um pai reagiria nessa situação. Ele não iria deixar o filho se arriscar na brincadeira, mas também não acabaria com ela completamente. Encontraria um meio termo, e foi o que fiz.

— Que tal escalar o tio Ollie? – ofereci — Eu posso ser o cara mau que você tem que pegar, ou o maior arranha céu da cidade de onde você pode ver tudo e todos que estão em perigo e precisam da ajuda de um super herói.

O garoto sorriu.

— Isso! – Exclamou socando o ar, ele ficou ainda mais feliz quando o coloquei sentando em meus ombros, onde o pequeno fez a festa. Inesperadamente eu estava feliz também e me divertindo. Meus olhos encontraram os de Felicity por um instante. Por que os delas pareceram tristes ao olhar para mim de volta?

***

— Eles não param nunca? – perguntei, desistindo da brincadeira com as crianças, que agora simplesmente corriam em círculos pelo meu escritório, retirei a gravata desabotoando um botão da camisa e dobrei mangas até os cotovelos, ansioso pelo para recostar meu corpo no encosto macio. Os músculos dos meus braços e ombros doíam de tanto carregar os dois na brincadeira favorita deles “escalar o tio Ollie”, eu poderia ter feito uma série de exercícios intensivos na academia que não estaria assim tão dolorido. Joguei-me no sofá completamente exausto e suado! Por Deus, um dia estressante de trabalho não drenava minhas energias como duas horas com aquelas crianças.

— Precisa encontrar o botão de desligar. – Felicity comentou, sentando-se no braço do sofá.

— Elas veem com esse botão? Eu preciso de um manual urgente. – brinquei, mas parte de mim pensando seriamente no assunto. Eu precisaria me preparar para quando eu tivesse filhos um dia.

— Você está indo bem. – peguei algo sutil no olhar de Felicity, mesmo que ela o tenha desviado para as crianças logo em seguida. Havia mais naquela simples sentença. Sentimentos escondidos por detrás de palavras tão banais. Eu queria conhecê-los e me entristeci por um momento, ao me lembrar de que não me era permitido.

— Tio Ollie, eu tô com fome. – a pequena Sara chamou-me puxando o tecido da minha calça com força – O que tem pra comer?

— Eu também tô com fome. – John soltou o dinossauro que tinha na mão e seguiu a irmã e ambos me olharam como se esperassem que eu fizesse a comida aparecer magicamente nos meus braços num passe de mágica.

— Diggle não disse que deixou o lanche deles na geladeira? – Felicity me lembrou, o que foi providencial, eu estava tentando me lembrar qual o número da pizzaria mais próxima e Dig provavelmente me mataria por dar pizza com refrigerante para seus filhos..

— Eu vou pegar os lanches.

— E eu vou ajeitar vocês dois para comer. – eu não entendi o que Felicity quis dizer com “ajeitá-los para comer” afinal, não era como se fossemos colocar a mesa e servir um jantar. Sorri ao voltar com os lanches em minha mão e ver as duas crianças comportadas e sentadas ao sofá com uma pequena toalha infantil sobre o colo para que não se sujassem.

— Quem vai querer o sanduiche de borboleta?

— Eu, eu, eu! – Sara ergueu a mão bem alto.

— Isso te deixa com o de dinossauro, campeão. – falei, entregando a cada um seu respectivo sanduíche, e também o copo daqueles com tampa com suco de uva.

— Precisamos nos alimentar também, talvez um jantar mais tarde? – Felicity me encarou, seu olhar me perguntando se aquilo seria mais. Sua mente criando vários motivos para me dizer não.

Por sorte, minha rejeição foi atrasada.

— Tio Ollie, meu suco não sai nada! Olha! – Sara virou o copo para baixo indignada, me mostrando porque não conseguia beber seu suco. – Toma! – Esticou-o para mim, esperando que eu fosse o seu salvador.

— Como eu faço essa mer... – recebi um olhar repreensivo de Felicity e consertei a tempo — ... Essa coisa abrir?

— Torça a tampa um pouco para o lado. – aconselhou.

— Isso tem uma trava anti-roubo? — questionei já emburrando.

— Está mais uma trava para crianças. – provocou-me.

— Está emperrado. – reclamei impaciente, odiando estar perdendo a briga para um maldito copo rosa.

— Não está, Oliver, basta você usar um pouco de força... – e assim eu fiz, finalmente destampando o copo — Ah Meu Deus! – Felicity exclamou, cobrindo a boca com ambas as mãos segurando o riso. Perdi preciosos segundos apreciando sua face corada, olhos brilhantes e a pequena risada ainda abafada por suas mãos e que aos poucos ganhava força fascinando-me, para só então perceber do que ela ria.

Ou melhor de quem.

Olhei para baixo em meu corpo, mais precisamente para a minha camisa branca. Ela não era mais branca. O roxo intenso tingia metade dela, o líquido frio e pegajoso fazendo a camisa grudar em meu corpo e escorrendo por parte da minha calça.

Como eu pudera ficar tão distraído por ela, que sequer notara o que fizera?

— Tio Ollie, tio Ollie... E meu suco? – Sara puxava impaciente a minha calça e me encarava com os lábios pressionados um no outro fazendo beicinho, seus olhos grandes e castanhos me perguntando como ela teria seu suco de volta uma vez que eu o havia derramado todo em mim.

Mas eu não consegui respondê-la. Como faria se Felicity estava rindo abertamente, e se isso tomava conta da minha mente e preenchia partes do meu coração que até então eu desconhecia?

Sabe a sensação melancólica ao ouvir o som choroso de um violino em um concerto de Bach? Ou aquela euforia crescente na trilha sonora de um filme quando sabemos que o melhor momento está para acontecer? Os melhores compositores do mundo são aqueles capazes de criarem uma melodia de sons que mexem com o emocional das pessoas e desperte sentimentos.

Eu me sentia emocionado agora.

Felicity era uma compositora

E sua risada era minha melodia favorita.

Eu ainda estava fascinado demais com essa novidade, fascinado com o que sua risada causava em mim, tão fascinado que não me importava se tinha suco de uva em toda a minha camisa branca e que isso estava começando a ficar pegajoso. Ou se a pequena Sara estava chateada por não ter mais o seu suco, seus lábios tremiam e ela ameaçava começar a chorar, enquanto John Junior parecia ter gostado da ideia e derramava o dele no chão e pisoteava por cima. Eu não me importava por que tudo o que eu era ciente era de Felicity.

O som da risada dela penetrava em partes de mim que estavam há tempos adormecidas, partes que eu nem sabia que existiam. Sua risada era preciosa, única, vibrante e pura, eu só havia notado isso agora. Eu só havia dado valor depois de anos sem ouvi-la.

E então comecei a rir também.

Minha risada misturou-se a dela, criando uma nova e harmônica sinfonia.

Pela primeira vez me permiti fazer parte de algo tão bobo quanto rir de si mesmo, juntei-me a ela em sua risada e fiz de sua alegria a minha. Não pude deixar de pensar naquele exato momento, que era algo que eu queria repetir. Uma parte de mim, a mais louca talvez se perguntou, por que não todos os dias?

Notas finais
E aí??? Gostaram??? Demos uma ligeira acalmada aqui, espero que não se importem! Então capítulo aprovado?