Guilty Pleasure
7 Capítulo 6 - Burning Bridges
Notas iniciais
I've been lonely, missing your body
You've been out of touch, you're so far away
Wishing you would tell me you're sorry
And you know you made a big mistake
Close my eyes and try to forget you
Every time I do, I just see your face
After all this shit that we've been through
Why are you so willing to walk away?
I don't know why I stick around to watch you burn our bridges down
I can't help it that I need you
I can't help it that I need you
Now I'm drowning underneath the water that was under me
I'm still screaming that I need you
(Burning Bridges – Bea Miller)
♥
Felicity Smoak
Era estranho estar aqui novamente.
Eu observava a magnitude daquela mansão pelo lado de fora, ainda presa dentro da segurança do meu carro, com ambas as mãos segurando firme no volante, tentando não me sentir intimidada. Era impossível. A construção era enorme, com suas colunas e vitrais, fachada de pedra, arquitetura clássica e mesmo depois de cinco anos, pouca coisa havia mudado ali. A mansão Queen, como todos chamavam, tinha sido quase como um segundo lar para mim durante boa parte da minha infância e toda a adolescência, talvez por isso, naquela época, ela não me intimidasse tanto quanto agora. Naquela primeira noite, quando voltei a essa casa depois de cinco anos, estava escuro demais para prestar atenção aos detalhes e eu tinha coisas maiores para me preocupar, como contar minha história a Oliver e fazê-lo acreditar em mim e me ajudar, então foi fácil me distanciar das lembranças. Mas agora, quando cada parede dessa casa contava uma história, quando apenas em pensar em me ver num certo corredor novamente fazia meu estômago revirar em nervosismo, eu me via tentada a dar meia volta e voltar para a segurança das paredes impessoais do meu hotel.
Mas eu sabia que não poderia fazer isso.
Eu escolhi um caminho e não havia um desvio o qual pegar, e simplesmente fazer um retorno. Eu, mais do que qualquer outra pessoa sabia que a vida era feita de escolhas, certas, erradas, que lhe levam a caminhos tortuosos às vezes, não importa. São escolhas que traçam nosso destino e as quais simplesmente não podemos desfazer.
Parei meu carro ao lado do de Oliver e o contraste não poderia ser maior. Meu carro não chegava a ser velho, era um modelo bem comum e um bom carro, mas ao lado daquela BMW preta que reluzia e até mesmo o ronco do motor gritava dinheiro, meu pobre carro mais parecia um carrinho de brinquedos, compacto e com a pintura vermelha sem brilho e lascada em algumas partes. Parei de encarar virando o rosto bruscamente, já que o motorista descia dele nesse exato momento, e eu evitava olhar para Oliver sempre que possível. Porque uma vez que eu começava era difícil me controlar, por isso olhei para frente da casa onde Thea sorria entusiasmada e acenava para mim. Respirei fundo forçando um sorriso e criando coragem para sair, mas antes que pudesse abrir a porta, Oliver o fez.
Seu ato me fez suspirar, trazendo uma lembrança que eu queria esquecer.
— Sempre um perfeito cavalheiro. — resmunguei mais amarga do que deveria enquanto descia, ignorando a mão dele pronta para me ajudar. Senti um sorriso aparecer em seu rosto o iluminando e deixando seus olhos ainda mais azuis. Mas seu sorriso aos poucos diminuiu, até desaparecer e se transformar numa linha reta contida.
Eu queria inspecionar o porquê daquela mudança. O que eu já tinha feito de tão errado para fazer seu brilhante sorriso desaparecer e se transformar naquela expressão controlada? Mas eu não pude fazer nada porque naquele momento eu era esmagada por um abraço apertado.
— Eu estou tão feliz por você vir morar com a gente! — Thea poderia até ser magrinha, mas seus braços eram fortes, o que fazia de seus abraços incrivelmente apertados. — Vai ser como nos velhos tempos, quando você dormia aqui e nós fazíamos festas do pijama! — Eu ri, mesmo que minha amizade com Thea continuasse tão forte como antes apesar de toda a distância e tudo o que passamos, nada mais era como nos velhos tempos.
— Isso é temporário, Thea. — Oliver respondeu por mim aparecendo ao nosso lado carregando minhas malas em suas mãos, não pude deixar de notar o quanto a sua expressão era ambígua. Eu não conseguia decidir se ele estava contente por ser temporário ou aborrecido por eu estar aqui, ainda que por pouco tempo.
— E você é um chato, Ollie! E não importa por quanto tempo e nem mesmo as circunstâncias, eu gosto de ter Felicity de volta em nossas vidas. — Sorri. Pelo menos alguém era claro sobre como se sentia sobre isso.
O que era estranho, considerando que foi Oliver quem sugeriu que eu me mudasse para a Mansão Queen depois que meu caso simplesmente explodiu em todas as mídias, com Slade dando entrevistas atrás de entrevistas. Eu neguei prontamente, já bastava passar a maior parte do tempo presa com Oliver dentro da sala dele, eu não precisava me sujeitar ao tormento que seria ficar sob o mesmo teto que ele também. Se havia algo que era bom manter entre mim e Oliver, era distância.
Eu também não achei que toda essa história da mídia fosse ser grande coisa e que poderia administrar. Mas depois de passar duas noites no meu hotel e ser tratada como um animal raro de zoológico, sendo perseguida e abordada nos corredores e houve até mesmo um incidente com um repórter que se hospedou no quarto ao lado do meu, pulou para a sacada do meu quarto e tentara me fotografar. Depois disso e de ver meu rosto estampado em cada jornal da cidade, meu caso em cada noticiário, eu percebi que um boné e uns óculos escuros não resolveriam o problema, e tive que dar o braço a torcer.
Não que eu tivesse muita escolha, depois que liguei para Oliver essa manhã dizendo que não conseguia sair do quarto sem ser massacrada e perseguida. Ele dessa vez não sugeriu minha mudança, ela apenas a ordenou e apareceu no meu hotel com um par de seguranças.
E agora aqui estava eu, parada em frente a intimidadora mansão Queen.
— Você está parada e olhando para a minha casa como se observasse a sua sentença de morte. — Eu ri, era meio mórbido, mas de certa forma era verdade. Por mais que eu guardasse boas lembranças, aqui também marcava o começo do meu fim.
— Pelo menos essa vai ser uma prisão confortável, tem piscina... — tentei brincar.
— Sem piadas sobre prisão. — Thea me advertiu, sua expressão ficava tão parecida com a do irmão quando ela ficava séria, que achei melhor dar um jeito de tirá-la de lá.
— Ok, mas foi você quem começou. — assenti com um sorriso, empurrando levemente o meu ombro para o dela, daquela forma cúmplice que apenas melhores amigas fazem — Eu apenas estou observando porque faz muito tempo que não venho aqui, Thea, são muitas lembranças... — optei por uma meia verdade, mas foi impossível disfarçar a minha voz morrendo no final, e me forcei a varrer para o fundo da memória algumas dessas lembranças.
Foi inútil é claro.
Alguns acontecimentos são tão marcantes que a memória não é apenas mental, é sensorial. Deixam uma marca permanente em nós, como uma cicatriz e por mais que nos forçamos a fazer a mente esquecer, as sensações, as emoções e sentimentos vividos jamais deixam o nosso coração. A cicatriz está sempre lá, as vezes as feridas até voltam a se abrir.
— Vai se sentir melhor quando notar que pouca coisa mudou lá dentro, vai ser como voltar para o conforto de casa depois de uma longa viagem. — Olhei de esgueira para Oliver que entrara na nossa frente levando minhas malas, como se estivesse ansioso para se ver distante de mim. Sorri fracamente olhando para as suas costas e vendo-o desaparecer após passar pela porta se afastando.
Realmente nada tinha mudado.
Dei um passo à frente, tendo Thea enroscada em braço como apoio e respirei fundo, tentando não pensar como eu viveria os próximos dias debaixo do mesmo teto que Oliver Queen.
Ir para uma prisão de repente não parecia assim tão ruim.
***
Nada havia mudado na parte de dentro.
Mesmo depois da morte de Moira e Robert há um par de anos atrás a casa ainda continuava a mesma, com poucas mudanças. Thea seguia ao meu lado tagarelando enquanto andávamos por cada cômodo da casa, perguntando ocasionalmente se eu queria algo para comer ou beber ou ainda, conversando sobre como estava calor e seria bom fazer uma pequena reuniãozinha da piscina com alguns amigos como nos velhos tempos, eu apenas sorria e assentia com a cabeça fingindo que nada disso era estranho. Por fim acabei me desligando da conversa quando percebi que ela estava fazendo planos para cada um dos meus dias ali, e apenas deixei que ela me levasse consigo.
—... Ou então podemos viajar para a lua! O que acha, Felicity?
— Parece uma boa ideia. — respondi distraidamente, recebendo um empurrão mais forte dela contra o meu ombro.
— Eu sabia que não estava prestando atenção em mim! — me acusou — Onde está a sua cabeça?
— ...Na lua? — ri, vendo-a bufar emburrada.
— Thea, dê um pouco de espaço a ela. — Apenas a voz de Oliver me tirou daquele pequeno transe. Virei-me apenas para vê-lo ali, de pé no último degrau da escada parado logo atrás de nós. Involuntariamente meu coração se contraiu ao vê-lo e eu senti aquela onda tão conhecida de inquietação percorrer meu corpo ao fitá-lo perfeitamente impecável com seu terno escuro, cabelos úmidos e um sorriso mínimo no rosto. Quanto tempo eu demorei nesse tour com Thea? Porque ele estava de banho tomado e pronto para ir ao trabalho. — Eu já levei as suas malas lá para cima, Felicity. — me disse, com certa formalidade.
— Obrigada. — agradeci, usando o mesmo tom.
— Não há de quê.
Thea olhou de Oliver para mim, notando aquela estranha tensão. Eu pude ver pelo modo como ela arqueou uma das sobrancelhas que ela sabia que algo não estava certo entre nós. Mas não seria eu a contar que eu havia beijado o irmão dela três noites atrás, quando se tratava dessa relação entre mim e Oliver, Thea já sabia de muito mais do que eu gostaria, e eu não precisava dela fantasiando uma relação que não existia.
Pior do que isso, eu não precisava de Thea achando que poderia tentar consertar o que quer que havia se quebrado no passado.
— Colocou as coisas de Felicity no quarto ao lado do meu? — Thea quebrou o silêncio incomodo e Oliver simplesmente assentiu em um movimento de cabeça. Eu sorri, ignorando o frio na boca do meu estômago que me lembrava de que aquele quarto ficava muito perto do quarto de Oliver também. — Então é isso, o que acha de ficarmos de bobeira assistindo um pouco de tv? Posso fazer pipoca. — sugeriu sorridente, se jogando sobre o sofá da sala e pegando o controle. — Tenho certeza que consigo encontrar um daqueles filmes melosos que você adora.
Thea parecia animada e eu não queria ser aquela a dizer que eu havia banido os filmes de romances da minha vida. Então eu apenas sorri com sua boa vontade, mas meu sorriso desapareceu assim que a televisão foi ligada e novamente eu vi a cara de Slade Wilson nela. Ele parecia estar em todos os lugares, sempre observando os meus passos e me perseguindo, instantaneamente um arrepio frio percorreu a minha espinha e senti cada pelo do meu corpo se arrepiar. O que eu sabia sobre aquele homem não ia muito além do que Oliver já tinha me dito, juiz, pai de Joe Wilson o garoto o qual eu estava sendo acusada de colocar em coma. Eu poderia entender o ódio de um pai num caso como esse, mas se minha conversa de cinco minutos com ele tinha me revelado algo, era que ia muito além de uma raiva paternal. Slade Wilson era um caçador implacável e ele estava numa caçada pessoal contra mim.
E ele não iria parar até conseguir a minha cabeça.
Mas, além disso, eu não conseguia me livrar daquela sensação estranha de estar sendo usada. Como se ele estivesse usando todo esse caso para uma espécie de promoção pessoal, afinal ele estava em cada maldito jornal, em cada noticiário, usando a empatia das pessoas em benefício próprio.
—... É uma questão de horas até Felicity Smoak estar presa, seu advogado pode ter conseguido uma audiência para revogar o mandado de prisão, mas a justiça vai prevalecer... — Eu não terminei de escutar porque nesse momento a televisão foi desligada por um Oliver mal-humorado, senti o peso de uma das suas mãos em meu ombro, o calor transpassando o tecido fino da minha blusa e não contive o suspiro enquanto ainda encarava a tela preta.
Havia tanta coisa errada na minha vida, um mar de problemas que ameaçava me puxar cada vez mais para o fundo, e me afogar em todas as minhas mentiras. Mas por que será bastava apenas um toque dele para eu sentir que seria fácil nadar contra as ondas pesadas, e no fim, apenas fechar meus olhos e flutuar naquele mar cristalino?
— Ele está errado. — me assegurou.
Me virei ficando de frente e forcei um sorriso para Oliver, mas a verdade era que Slade estava certo. Se eu havia cometido um crime eu deveria estar presa, e era isso o que cada pessoa que ligava a televisão ou lia os jornais pensava.
— Não parece que está.
— A vida não se resume em certo ou errado, culpado ou inocente, Felicity. — Isso era algo que nunca esperei ouvir de Oliver, não quando na vida dele não havia espaços para erros. — A justiça muitas vezes pode ser algo subjetivo, como no seu caso onde existem atenuantes, e, além disso, nós dois sabemos que a história que Slade está vendendo não é verdadeira. — Mas você também não sabe o que realmente aconteceu.
Oliver me encarou com um olhar fixo como se tentasse ler meus pensamentos e eu mordi os lábios, segurando-os e mantendo-os apenas para mim.
— Você tem razão, ele está mentindo também. — Também. Oliver ficou tenso ao escutar essa única palavra. — Mas isso não muda o fato de que com toda a influência dele, Slade conseguiu fazer com que expedissem um mandado de prisão, e ainda que você me livre dessa ele não vai parar.
— Não há razão para se preocupar no momento, eu vou dar um jeito. — As palavras de Oliver exalavam confiança, e eu sabia que mesmo que ele não gostasse das minhas mentiras, ele estava comprometido e empenhado em me ajudar.
Eu não sei como, mas quando o mandado de prisão foi expedido, ainda hoje pela manhã, Oliver conseguiu agir rápido e agendou uma audiência para hoje no final do dia. Ele precisaria convencer o juiz de que eu poderia responder ao processo em liberdade ou então... Olá, macacões alaranjados.
— E se você não der um jeito? — Thea foi aquela a verbalizar o que nós três estávamos pensando.
— Oliver provavelmente tem razão, ele é muito bom no que faz. — se Oliver ficou surpreso com o meu elogio ele escondeu muito bem. Na verdade, ele pareceu muito mais desconfiado do que surpreso. — Não há razão para nos preocuparmos agora. — garanti — Ah, Thea, eu acho que vou aceitar aquele suco que você me ofereceu mais cedo. Se importa de pegar para mim? — eu disse com um sorriso, tentando me livrar daqueles pensamentos sobre acabar o final desse dia dentro de uma prisão, e tentar parecer otimista para Thea.
— Eu vou pegar para você. — ela disse, olhando de esgueira para mim e Oliver enquanto deixava a sala, eu não acho que tinha sido sutil ao demonstrar que o que eu queria era apenas um momento a sós com Oliver.
— Sabe que fingir que não está preocupada, não vai diminuir a preocupação de Thea, certo? — ele soltou. — Ou a sua. — acrescentou erguendo uma das sobrancelhas. Suspirei me apoiando um pouco no encosto do sofá, sabendo que era idiotice continuar a esconder esses sentimentos de Oliver, principalmente quando ele parecia ter o dom de saber exatamente como eu me sentia.
— Eu sei. — admiti — O mesmo vale para você. — Ele abriu a boca pronto para negar, mas eu continuei antes que ele pudesse protestar — Você sabe que está preocupado, não importa o quanto a sua imagem é confiante, eu vejo além disso também. E eu sei que é hipócrita da minha parte pedir isso, mas você precisa ser honesto comigo, Oliver. — pedi tomando uma respiração profunda — Quais são as chances reais de você conseguir fazer o juiz mudar de decisão sobre a minha prisão?
Oliver ficou em silêncio.
— Essa é uma pergunta complicada.
— Descomplique. — exigi, tentando manter a minha postura firme, embora eu estivesse tremendo de medo da resposta — Responda como um advogado e não como... — parei sem saber como completar aquela frase. O que Oliver era meu? Não éramos amigos, eu não cheguei a ser namorada dele, já que tudo não durou mais do que uma noite e ele ainda tinha uma noiva. Eu não podia tampouco classificá-lo apenas como o cara que tirou a minha virgindade, porque isso parecia leviano demais. Oliver Queen. Eu disse seu nome apenas em minha mente, deixando que uma miríade de sentimentos e emoções contraditórias se espalhasse por mim. Eu percebi que não importava como ou porque, ou se eu ainda não conseguia lidar com o que Oliver significou na minha vida, ele a marcou de um jeito único e ele ainda estava nela, ele sempre estaria nela e era de sua própria forma mais importante do que eu gostaria de admitir — ...O irmão da minha melhor amiga. — Completei a frase fazendo Oliver arquear uma das sobrancelhas.
Ele me encarou por um tempo maior, seus olhos presos nos meus, daquele jeito que fazia cada pelo do meu corpo se arrepiar, que me fazia querer revelar cada pequena mentira, e a assumir de que não importava quanto tempo passasse, Oliver sempre seria mais do que o irmão da minha amiga. Usei toda a minha força de vontade para desviar da força olhar do dele, me negando a dar isso a Oliver, afinal que diferença faria?
— Sendo honesto? As chances não são boas, há muita coisa nesse caso contra nós, desde a influência de Slade a pressão da mídia. — assenti, ainda me fazendo de forte. — Você pode sim acabar sendo presa e continuar lá até o dia do seu julgamento, e dependendo do resultado dele...
— Eu posso ficar lá por muitos anos. — completei.
— Sim.
— Obrigada.
Os músculos do meu rosto se contraíram num sorriso enquanto eu me esforçava para segurar aquela maldita lágrima que queimava em meus olhos. Eu sabia que Oliver estava vendo além do meu sorriso, sabia que eu poderia mentir sobre muitas coisas, segurar lágrimas e fingir que tudo estava bem, mas para meu desespero ele era bom demais em me ler para se deixar ser enganado. Eu sabia, pela expressão consternada em seu rosto que ele iria novamente me oferecer seu apoio, e dizer que tudo ficaria bem, e por mais que eu tivesse vergonha de admitir era exatamente isso o que eu queria e precisava para me acalmar.
— Felicity, eu... — ele disse meu nome naquele tom malditamente doce que sempre fazia um sorriso pequeno escorregar de meus lábios, e meu coração palpitar em resposta, e deu um passo na minha direção. Eu não recuei, sabendo que precisava daquela aproximação, que até mesmo a queria. As coisas eram tão fodidas entre nós, que mesmo sendo Oliver aquele que me enfraquecia e me deixava vulnerável, também era dele que eu precisava para ser forte.
Me vi inclinando para ele, desejando sentir essa força que apenas ele me dava. Desejando poder receber seu abraço e me apoiar nele. Mas as coisas entre mim e Oliver, sempre ficavam apenas nos desejos. E meu celular tocou naquele exato momento me lembrando disso. Olhei para o celular e mordi o lábio inferior ao olhar de quem era a ligação. Eu esperava manter toda a confusão que me meti em Starling longe da vida que eu mantinha em Coast City. Mas se eu estava recebendo aquela ligação, significava que eu não poderia manter aquelas duas partes da minha vida, separadas por muito tempo.
— Eu preciso atender. — comuniquei me afastando com pressa indo para a cozinha, pouca atenta ao fato de que Oliver havia franzido o cenho, e rangido os dentes ao olhar para a tela do meu celular que ainda vibrava em minhas mãos.
— Alô? — atendi o celular assim que me vi longe dos ouvidos de Oliver. E era exatamente o que eu imaginava. A história de que eu havia atirado no filho de um juiz já havia se espalhado por todo o país. Me encostei a parede e acariciei as têmporas enquanto escutava a preocupação do outro lado da linha. — É apenas uma confusão, não precisa de tanto alarde e eu tenho um excelente advogado cuidando de tudo. — Tentei minimizar soando o mais otimista que consegui, mas não adiantou — Não. Eu não quero que venha até mim! Eu vou lidar com isso sozinha, não vou ser presa, vou ficar bem, não se preocupe comigo, apenas cuide de tudo para mim que eu volto assim que tudo se resolver, prometo. — prometi mesmo sabendo que não deveria, mas eu precisava tranquilizá-lo. — Nós dois sabemos que você não pode se casar sem mim, eu estarei aí. — Sorri ao telefone e recebi uma concordância ainda que relutante antes de desligar. Me apoiei ainda mais a parede fechando meus olhos e deixando aquela falsa sensação de confiança sumir do meu corpo. Tentei me agarrar nela, talvez se eu continuasse mentindo que não estava com medo de ser presa, talvez o medo fosse embora.
— Humm... Era o seu namorado? Ou talvez noivo? — eu dei um pulo ao ver Thea ali me encarando com um sorriso amplo no rosto.
— Meu Deus, Thea! O que está fazendo aqui?
— Ouvindo a sua conversa. — Sorriu como se dissesse que não havia feito nada demais — Ele deve estar preocupado com você depois de toda essa coisa estar em cada noticiário do país... — seu olhar tinha um certo pesar, que me esforcei para ignorar.
— De onde tirou essa história de noivo?
— Primeiro, eu sou sua amiga e posso sentir quando você está escondendo algo de mim. — acusou, aquela altura eu já nem me sentia ofendida, havia se tornado um hábito esconder coisas de cada pessoa na minha vida. — E, além disso, eu escutei a sua conversa toda, seja lá quem estivesse do outro lado você disse que não poderia se casar sem a sua presença, então obviamente você é a noiva. — eu não podia contestar que havia alguma coerência no que Thea dizia, mas... — E você é uma mulher bonita e inteligente, não quer que eu acredite que não há ninguém esperando por você em Coast City? Então, Felicity, desembucha! Quem é o noivo?
— Thea, você não está atrasada para o trabalho? — Oliver se manifestou antes que eu pudesse dizer algo. Pela postura dele parado com braços cruzados a entrada da cozinha e do seu rosto com uma expressão controlada que escondia seus verdadeiros pensamentos, eu diria que ele estava ali a tempo suficiente para ter escutado parte da minha conversa com Thea.
— Humpf! — ela bufou revirando os olhos para o irmão — Por que você precisa sempre me lembrar do meu trabalho?
— Porque é meu dever. — O rosto de Thea se contorceu numa careta de desgosto — E nós temos um acordo, Thea. — Foi mais incisivo dessa vez.
— Eu sei, eu sei. — repetiu impaciente — Eu queria tanto ficar e te receber direito, Felicity, mas eu preciso sair e catar o lixo na rua. — Sarcasmo combinava tão perfeitamente com Thea Queen — Acha que essa roupa está boa para catar lixo? — segurei um sorriso ao ver os jeans caros e a blusa de marca que Thea usava.
— Está ótima.
— Então até mais tarde. — senti seus braços me envolverem num abraço apertado, o qual devolvi na mesma intensidade. Eu não sabia por quanto tempo receberia abraços assim, era melhor eu acumular o máximo que pudesse. — E quando eu voltar, faremos algo só nós duas, e conversaremos sobre esse noivo!
— Isso vai depender se... — comecei a dizer, me lembrando de que talvez eu não voltasse hoje.
— Sem pessimismo! — me advertiu como se lesse a minha mente — Meu irmão é o melhor advogado que eu conheço, ele vai te livrar dessa.
— Quantos advogados você conhece? — tentei brincar, mas desistir ao receber seu olhar sério — Ok, eu te vejo mais tarde.
Assim que Thea saiu eu senti imediatamente o ambiente ao meu redor mudar, se tornar mais pesado como se houvesse tantas coisas entre nós, contra nós, nos impedindo de chegar mais perto um do outro. Por que era sempre assim quando Oliver e eu ficávamos sozinhos? Eu o encarei ainda se mantendo distante de mim, ainda sem conseguir transpor aquela barreira invisível.
Ela sempre estaria entre nós?
— Precisamos ir para o meu escritório, não tenho muito tempo e preciso começar a preparar sua defesa se quisermos ter uma chance. — ele disse formal demais desviando o olhar de mim encarando o relógio em seu pulso, e eu soube que ele estava em seu modo advogado, ignorando tudo entre nós e se concentrado no que era importante.
— Certo. — devolvi igualmente distante o seguindo para fora da casa, ignorando o retumbar do meu coração quando chegamos ao seu carro e Oliver abriu a porta do passageiro para mim. Por que ele não podia simplesmente agir como todo cara idiota e deixar que eu abrisse as minhas malditas portas sozinha?
— Espere, Felicity — Oliver disse, sua postura ainda parecia um pouco reticente e incerta e eu ainda sentia toda aquela barreira invisível entre nós, nos forçando a nos manter emocionalmente distantes um do outro.
Mas no instante em que sua mão segurou o meu pulso, quando a distância física foi quebrada, foi como se todas as barreiras invisíveis entre nós desabassem também, me tornando ciente do quão perto estávamos, e principalmente da resposta do meu coração a essa proximidade. Calor se alastrava pelo meu corpo onde nossas peles se tocavam. E havia nossas bocas que apenas respiravam o mesmo ar, e que se abriram instintivamente desejando provar o gosto do hálito uma da outra. E os olhos... Como olhos podiam se comunicar da forma que nossos olhos se comunicavam sem que de nossas bocas saísse uma única palavra? Oliver engoliu em seco antes de continuar, e naquele momento eu soube que não era a única sendo afetada por um único toque. Tanto que no instante seguinte ele soltou meu pulso e piscou seus olhos tentando quebrar aquela conexão. Ele limpou a garganta antes de falar comigo.
— Nós fomos interrompidos quando eu conversava com você sobre as suas chances. — assenti, me esforçando a ignorar o que tinha acabado de acontecer e me concentrar em suas palavras — Só porque eu disse que as suas chances não são boas, não significa que eu irei parar de lutar por você, Felicity, eu te fiz uma promessa.
Eu pensava que um toque dele era capaz de me destruir.
Eu havia me esquecido do poder das suas palavras. Bastou escutá-las, ver o olhar de determinação, a força de vontade quase palpável em seus olhos que eu me senti instantaneamente melhor e mais forte, senti que não estava sozinha, que eu poderia sobreviver a isso. Que Oliver estava comigo.
Ele realmente estava comigo?
Até quando? Ele me deixaria na manhã seguinte?
Deixei que os antigos medos e inseguranças entrassem, maculando aquela confiança recém adquirida.
— Eu sei. — eu sorri para ele, embora meu sorriso tenha vindo um pouco triste. Eu sorri, porque sabia que tinha sorte de poder contar com Oliver nesse momento. Thea estava certa e ele era o melhor, ele nunca desistia, não quando havia algo pelo qual lutar. Mas era impossível disfarçar aquela pequena tristeza em mim, eu apenas queria ter sido esse algo para ele no passado, queria que ele me quisesse tanto naquela época que tivesse lutado por mim.
Por nós.
Tudo poderia ter sido tão diferente se ele lutasse.
***
Última chance, Felicity. Tem certeza de que não quer me contar a verdade?
Eu fiquei tentada quando mais uma vez Oliver me questionou sobre a verdade. A forma como seus olhos me pediam por ela, como tudo em Oliver parecia confiável, e principalmente como eu queria desesperadamente me abrir com ele e contar tudo, me livrar daquele peso. Eu não gostava dessa sensação, não gostava de me sentir fraca ou dependente, por isso mais uma vez eu apenas neguei dizendo para seguir em frente com o que eu já havia dito.
Eu vi julgamento em seus olhos quando ele assentiu, mas ele não me recriminou e nem mesmo me perguntou uma segunda vez. E eu sabia que o acordo estava selado e não havia mais como voltar atrás, Oliver iria contar as minhas mentiras. Ele não estava contente com isso, eu sabia que ele estava se segurando para não me dizer o quão fodido aquilo era, mas como ele havia me prometido ele estava aqui por mim.
Eu ainda sentia o peso daquela promessa e o que ela significava.
Ele disse que cuidaria de mim, ficaria ao meu lado, seria meu escudo e não me deixaria cair. Ele lutaria por mim.
Oliver era a pessoa mais leal que eu conhecia.
Ele nunca abandonou a irmã, mesmo quando Thea se rebelou e surtou fazendo-o passar por maus bocados quando os pais deles morreram. Mesmo quando ele traiu Laurel dormindo comigo, ele contou a verdade para a noiva. Ele pode ter sido infiel, mas ele não foi desleal com ela. E agora eu o via empenhado a me dar esse mesmo tipo de lealdade, mesmo quando tudo o que eu dei a ele foram mentiras.
Eu poderia ter contado com a lealdade dele no passado.
Aquele pensamento veio antes que eu pudesse detê-lo. Trazendo consigo um “E se...?” que eu constantemente evitava pensar, apenas porque eu sabia que não havia como voltar ao passado e modificar as minhas escolhas e imaginar o futuro se elas fossem diferentes não era apenas ilusório, era perigoso.
Era perigoso imaginar como toda uma vida mudou por causa de uma única escolha. Se eu tivesse virado à esquerda e não a direita, se eu tivesse dito coisas ao invés de escondê-las, se eu não tivesse fugido de casa numa noite chuvosa... Como teria sido a minha vida se eu apenas... Deixar minha mente viajar nesse “e se...?” seria como me atrever a sonhar com coisas que eu nunca teria.
Era perigoso.
Mas era quase impossível de resistir.
Oliver teria ficado ao meu lado.
Ele teria segurado a minha mão.
E talvez nós...
Pare! Ordenei a mim mesma vendo o quão longe eu havia chegado ao sentir meus olhos arderem, tranquei todos aqueles “e se...?” dentro de mim, eu não poderia lidar com aquilo agora. Eu lidaria com as consequências de uma mentira uma de cada vez.
— Você está bem?
Escutei a voz preocupada de Oliver, seus olhos me observavam com atenção como se soubessem que algo estava errado. Respirei fundo e me forcei a me concentrar no presente, que não era muito melhor do que o passado.
Minha eminente prisão.
— Eu vou ficar se você me disser que está fazendo tudo direitinho. — sorri para Oliver que sorriu de volta para mim não parecendo muito convencido de que eu estava bem. Mas a essa altura ele já sabia que iria apenas desperdiçar seu tempo tentando me entender.
— Confie em mim, você não vai ser presa hoje. — ele disse naquele tom suave que tinha o estranho dom de me acalmar.
Mas nas horas seguintes Oliver não falou muito, e eu acabei voltando a ficar nervosa. Eu andava de um lado para o outro no escritório dele, estava começando a temer que meus saltos fizessem buracos naquele tapete caro. Já estávamos ali há horas, e eu sentia meu lábio inferior começar a sangrar tamanha era a força com a qual eu o mordia. Oliver não colaborava com seu jeito monossílabo e concentrado demais no computador, eu sabia que ele estava trabalhando, mas quanto mais perto do horário da audiência chegávamos mais nervosa eu ficava, e ele não parava de digitar, e se ele não terminasse minha defesa a tempo? Desisti de esperar por respostas e resolvi jogar mais pesado. Apoiei ambas as mãos no encosto da cadeira dele e encarei o computador tentando decifrar o que estava ali.
— Como está a minha defesa? — perguntei novamente tentando extrair algo dele que fosse além de um ok. Seu rosto sério estava me deixando nervosa, e quando eu ficava nervosa, eu tagarelava. — Você se lembrou de colocar a parte que eu disse que ele veio para cima de mim e me jogou no chão?
— Eu não vou discutir isso com você. — falou sem se alterar, eu sabia que ele ainda estava chateado comigo por não ser honesta, e por consequência forçá-lo a não ser honesto também. Só porque chegamos a um acordo não significava que ele estava contente com ele.
— Você é daqueles advogados charmosos que falam encarando cada um, encantando e fazendo com que suas palavras soem como mel? — O ignorei sentando em sua mesa e me inclinando para ele a medida que fazia as perguntas — Ou daqueles implacáveis e rígidos com olhar ameaçador que intimida e faz as pessoas desejarem jamais infligirem a lei?
— Felicity... — murmurou impaciente me olhando de esgueira.
— Porque eles são bons, mas acho que os encantadores têm mais chance com o júri, principalmente se tiver mulheres nele...
— Felicity...
— Nesse caso eu preciso de um advogado encantador, que domine tudo e encante as pessoas ao invés de deixá-las com medo...
— Você pode, por favor, calar a boca? — pediu, me encarando diretamente.
— Eu sinto muito, eu estou nervosa. — confessei. — Porque você não é muito encantador, e eu preciso de um advogado que seja, pois eu não quero ser presa e honestamente, laranja não combina com meu tom de pele ou até mesmo estado de espírito...
— Você não consegue se calar?
— Definitivamente do tipo que intimida. — conclui.
Vi o vislumbre de um sorriso em seu rosto enquanto ele revirava os olhos e balançava a cabeça, girando a sua cadeira ligeiramente enquanto me fitava sentada em sua mesa. As coisas ainda estavam tensas entre nós, com o lance de ser perseguida por repórteres, eu me mudando para a casa dele, e claro o beijo, sobre o qual nenhum de nós falara novamente e aparentemente havia ficado na suíça. Mas mesmo assim era bom perceber que de alguma forma, em meio a confusão que era o nosso relacionamento, eu ainda conseguia fazê-lo sorrir às vezes.
— Pode, por favor, apenas sentar naquele canto e ficar calada? — Oliver indicou, com o tom de voz baixo e suave, mas que não escondia um pouco de tensão — Eu preciso me concentrar, e ter você respirando no meu pescoço não ajuda ou sua perna roçando em mim... — eu me afastei dando um pulo da mesa, notando que estava próxima demais — Não irei falar para o júri agora, é apenas uma audiência simples com a juíza para tentar revogar o mandado de prisão.
— É uma juíza?! — questionei surpresa — Por favor, não seja o Oliver Queen intimidante com ela. — se dois segundos com esse Oliver já me tirava do sério, imagine se ele fosse assim com uma juíza?! — ou eu vou pegar prisão perpétua!
— Eu garanto a você que posso ser bem encantador e charmoso quando eu quero. — ele sorriu de canto, comprovando o que dizia.
— Ah sim, disso eu tenho certeza! Você pode encantar uma garota com apenas um sorriso. — Só quando notei o olhar de Oliver na minha direção e o sorriso contido é que percebi que eu havia dito aquilo em voz alta, senti o sangue se acumular em minhas bochechas. — Ok, eu vou me sentar aonde você pediu — falei baixinho pegando o resto do meu orgulho e me afastando de Oliver.
Eu me sentei no sofá no canto mais afastado possível, tirei meus sapatos e puxei minhas pernas para cima e encostando a cabeça sobre os joelhos. Durante um longo tempo tudo o que escutei foi o som dos dedos de Oliver digitando rapidamente sobre o teclado do computador, pequenas pausas eram feitas quando ele precisava verificar algo em um livro, ou quando eu via seu olhar vindo até mim, como se quisesse me dizer algo, mas então Oliver desistia e voltava a se concentrar.
Eu queria falar com ele também, mas eu sentia que nesse momento ele precisava de silêncio. Por mais que o silêncio estivesse me deixando ainda mais nervosa eu dei isso a ele.
Estar naquela sala tão cheia da presença de Oliver e saber que todo o meu futuro estava nas mãos dele me enlouquecia. Eu confiava em Oliver, eu conhecia bem do seu caráter para saber que mesmo mentindo por mim, ele iria até o fim, ele estava comprometido e ele prometeu que lutaria por mim. Mas por mais que eu sorrisse e fingisse que estava tudo bem, que eu conseguia lidar com tudo, eu não confiava em mim mesma para ser uma boa mentirosa.
Se eu fizesse alguma besteira eu arriscaria não só a mim, mas toda a carreira de Oliver também.
— Essa sala está com um clima tão mórbido. — Ergui o rosto ao observar a pessoa que entrava pela porta e que fizera Oliver imediatamente parar de digitar.
— O que faz aqui, Tommy? Eu estou ocupado.
— Eu passei o dia inteiro com meu casal que deveria se divorciar, mas que agora está reconsiderando. — ele reclamou caminhando de costas para mim e indo diretamente para o armário onde estavam as bebidas — Às vezes eu odeio a Sara, como ela conseguiu restaurar os sonhos e ilusões de uma vida a dois? Eu preciso de ideias para fazer com que eles se desentendam de novo ou vou perder a minha aposta. — ele derramou a bebida no copo e virou em um só gole — E há muito em jogo, eu não posso perder.
— Eu estou ocupado, Tommy.
— Eu escutei da primeira vez que você disse. — ele deu de ombros.
— Então você deveria ir beber na sua sala. — Oliver reclamou.
— Eu poderia, mas Sara vai estar lá e pronta para me atormentar.
— Então você vem aqui me atormentar.
— Touché! Não que eu precise te atormentar, eu soube que seu caso criminal está te dando dor de cabeça, Dig não me deu maiores informações, o que é estranho porque ele é bem falador quando quer. Tudo o que ele me disse foi que você estava muito nervosinho com tudo e que eu não deveria te irritar. — ele sorriu de um jeito que por si só já irritava — E você sabe, eu sempre estou a favor de qualquer coisa que tire desse controle inabalável. — Tommy apoiou uma das mãos sobre a mesa de Oliver, enquanto esse se limitou a erguer os olhos para ele e revirá-los demonstrando sua impaciência — Então, onde está o caso que te deixa nervosinho?
— Sentado nesse canto e ficando calada ao invés de baforar no pescoço dele. — chamei a atenção para mim, recebendo um olhar avaliativo completo de Tommy Merlyn assim que me levantei.
— Está querendo me dizer que esse anjo caído do céu cometeu um crime? — Perguntou incrédulo. Os lábios de Tommy se curvaram num meio sorriso encantador enquanto ele ainda olhava para mim, contrastando com a carranca de Oliver quando fitava o sócio — O que foi boneca? Andou furtando alguns corações por aí? Ou seu único crime foi ser bonita demais? — eu ri do xaveco ridículo, e também porque apesar dos anos Tommy continuava o mesmo, irredutivelmente paquerador, não que ele tenha sido assim comigo no passado, eu só conhecia os rumores. — Espere, eu te conheço! Você e Thea viviam grudadas como duas irmãs siamesas. É Felicity, certo?
— Sim. — sorri.
— Já faz o quê? Cinco anos? Acho que me lembro de Oliver dizendo algo sobre você se mudar para faculdade em outro estado.
— Eu fui estudar no M.I.T. — respondi percebendo que Oliver não parecia muito confortável com aquela conversa, principalmente porque Tommy havia se virado e ficado completamente de frente para mim.
— Uau. Inteligente e quente. — o sorriso de Tommy se tornou maior assumindo um ar paquerador — Quem diria que você ficaria tão gostosa. — era o som dos dentes de Oliver rangendo que eu estava ouvindo? — Eu quero dizer, você já era gostosa na época, mas Oliver ficava zanzando ao seu redor como um maldito protetor me dizendo para tirar os olhos e nem pensar em colocar minhas mãos na preciosa amiguinha da Thea. — aquilo era novidade, desviei meu olhar para Oliver e para a minha completa surpresa ele parecia um pouco corado. — Ele falava sério. Muito sério. Lembra aquela vez que me mandou embora porque as garotas estavam na piscina, Ollie? Eu nunca entendi porque nós não podíamos nos juntar... — o sorriso nada sutil de Tommy dizia tudo — Imagino que agora que você é maior de idade, Oliver não precisa mais bancar o protetor.
— Nem pense nisso, Tommy. — Oliver se ergueu da poltrona, suas mãos cerradas em punhos batendo com força na mesa, seu tom era ameaçador e eu demorei um segundo para entender o que estava acontecendo ali. Oliver estava me protegendo das cantadas de Tommy?
— Ou o quê? Não é como se eu estivesse dando em cima da sua irmã. — se defendeu — O que eu nunca fiz, a propósito. — frisou ao ver o olhar assassino que Oliver lhe lançou — Mas Felicity não é nada sua, a não ser sua cliente, nada a impede de sair comigo uma noite dessas...
— Eu disse para nem pensar nisso, ela não vai sair com você. — Oliver determinou.
— Ei, vocês dois ainda estão cientes de que eu estou aqui? E que eu sou capaz de tomar minhas decisões? — me intrometi sendo completamente ignorada. Qual era o problema de homens que as vezes agiam como animais defendendo seu território? Me encostei a parede e me contentei em observar aquela disputa tola de egos.
— Por que de repente você se importa com quem eu saio ou deixo de sair? — Tommy inqueriu Oliver que ficou sem palavras — Eu entendo que há cinco anos ela era carta fora do baralho, por ser muito nova e provavelmente... — vi algo passar pelo semblante de Tommy, seus olhos se tornaram mais aguçados e um palavrão saiu da boca dele — Você tá zoando com a minha cara! É ela! — Tommy riu, olhando de mim para Oliver, que pela primeira vez pareceu acuado contra a parede sem ter uma resposta — Eu sinto muito por você, Oliver.
— Tommy... — havia um tom repreensivo na voz de Oliver, mas para o qual Tommy sequer ligou. Ele apenas caminhou na minha direção, com um sorriso que não sumia do seu rosto.
— Foi bom revê-la, Felicity. — ele disse, me surpreendendo com um beijo demorado em minha bochecha — Espero te ver de novo, em breve. — Ele piscou para mim antes de sair, parecendo muito contente consigo mesmo por algum motivo que eu era completamente alheia.
— Nem pense em Tommy. — Oliver de repente estava a minha frente, parecendo conter toda a sua fúria.
— O quê? Mas eu não...
— Bom, ele não é para você. — ele me deu as costas, dessa vez indo até a porta, passando a chave para se assegurar de que não seríamos interrompidos novamente. Eu não queria pensar muito no que tinha acabado de acontecer, mas era impossível não pensar que a reação de Oliver era muito parecida com ciúmes.
***
Oliver não falou de Tommy.
Na verdade, ele pareceu muito mais mal-humorado desde quando o amigo saiu. Ele finalizou a minha defesa poucos minutos depois, e permitiu que eu me sentasse em sua confortável poltrona para lê-la. Eu pude entender o quanto ele ficou distraído por me ter perto enquanto trabalhava, Oliver estava atrás de mim, eu sentia a respiração quente dele batendo em meu pescoço, eu tive que reler alguns parágrafos várias vezes, mas apesar da minha completa distração e de todos os termos legais usados, eu consegui perceber que ele havia feito um ótimo trabalho na minha defesa.
— Parece muito bom. — conclui — E agora? — virei minha cabeça fitando Oliver que havia se movido e se encostado na mesa.
— Agora acho que estamos prontos. — ele disse apertando sua mão em meu ombro, tentando me passar confiança, eu acho — A audiência é daqui uma hora, seria bom não nos atrasarmos. — assenti observando Oliver se erguer ajeitando o paletó. Eu sabia que precisava me levantar, sabia que tinha que acompanhá-lo, mas eu sentia meu estômago revirar em nervosismo, percebi que o escritório de Oliver que sempre me pareceu um lugar intimidador, me parecia muito mais confortável do que a sala de um juiz. — Tem alguma dúvida ou pergunta antes de irmos? — ele ofereceu solicito e ciente do meu nervosismo.
Milhares de perguntas e preocupações passaram pela minha cabeça. Para qual prisão eu iria se desse tudo errado? Eles raspariam a minha cabeça? Eu teria tempo de me despedir?
— Por que não há uma foto nesse porta-retratos? — minha boca falou antes que eu processasse a pergunta e um longo silêncio se instaurou entre nós. Tantas perguntas mais importantes, e minha mente havia se fixado justo no porta-retratos vazio sobre a mesa de Oliver.
— Eu não sei. — ele respondeu depois de um tempo naquele silêncio constrangedor — Thea me deu esse porta-retratos há anos, me disse que era para colocar alguém especial. Mas eu nunca achei esse alguém especial para preencher esse vazio. — Seus dedos tocaram o metal prateado da moldura, seu olhar se perdeu por um momento e meu coração doeu com a tristeza daquela resposta, e doeu mais ainda quando eu me lembrei que tinha uma foto perfeita para colocar ali. — Nós temos que ir. — Ele disse parecendo ansioso para sairmos daquele assunto pessoal. Eu me ergui o acompanhando para fora da sala e dando uma última olhada para o porta retratos vazio prometendo a mim mesma que um dia eu daria aquela foto a Oliver.
Um dia.
— O que sabe sobre essa juíza? — perguntei quando estávamos já entrando no carro, tentando sair daquele silêncio que a minha pergunta anterior havia nos colocado.
— Não muito, ela não é juíza há muito tempo o que é bom porque provavelmente não pode ser influenciada por Slade, mas é ruim porque não sei muito sobre como ela é. — ele respondeu — Mas eu conheci o pai dela, ele foi meu professor quando eu estava na faculdade e ele era um verdadeiro demônio.
— E ela é como o pai? — perguntei num fio de voz.
— Eu acho que sim — Oliver me encarou antes de dar partida no carro — Por que outro motivo a juíza Nyssa Al Guh seria chamada de herdeira do demônio?
Ótimo.
Eu já estava no inferno mesmo, nada como ser punida pelo próprio demônio, ou filha dele, nesse caso.
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