Guilty Pleasure

4 Capítulo 3 - Ace of Hearts


Notas iniciais
Hello!!! Como estão leitores? Felizes com olicity começando a se acertar na série? Bem, eu estou :) Eu gostaria de agradecer à Ka Duarte que deixou a primeira recomendação em Guilty ♥ obrigada por ser essa leitora fofa! Eu amei cada palavra sua, ohhhh e obrigada por recomendar Sweet Liar também (pra quem não sabe é uma one que escrevi, deem uma lida depois) Enfim, por ser essa leitora maravilhosa é que você vai ganhar esse capítulo gigantesco de presente!!! Ahhh eu quase morri com todos esse comentários maravilindos que vocês deixaram, você são os melhores! Um agradecimento especial à Paula SC que é uma leitora nova que deixou um comentário tão fofo que me fez sorrir. Obrigada à todos, ainda não respondi :( sorry, mas respondo todo mundo amanhã! Espero que gostem!

Caught you at midnight

Not in my right mind

What you're afraid of

Is where I just came from

An ugly confession

I think that I'm broken

When I try to be open

I get the feeling that I'm giving up

On something I love, too much

The sweetest misery that's

Taking me, I'm lost in the rush

Because

Ever since you've been my ace of hearts

Hit me like a freight train in the dark

Come on baby take me far away

I wanna get so lost in the great escape

We shouldn't have to try

We shouldn't have to try so hard

(Ace of Hearts — Zella Day)

Oliver Queen

Eu disse a Felicity para tomar um tempo pessoal durante este dia. Mas a verdade é que era eu quem precisava de um tempo dela. Estar próximo a ela me confundia, eu me tornava menos racional, mais instintivo e por vezes ela fazia meu sangue ferver a tal ponto que tudo desaparecia da minha mente, exceto ela. E não me ter focado numa situação tão delicada quanto essa, não seria bom para nenhum de nós dois. Eu não poderia oferecer o meu melhor se eu estivesse com a minha mente em outro lugar, mesmo que esse lugar fosse Felicity.

Mas distância não foi uma solução tão boa quanto eu esperava. Não quando a minha cabeça não conseguia parar de pensar naquela pequena mentirosa. Felicity era como um maldito quebra cabeças com peças faltando. Eu conseguia ver partes da garota doce que costumava ser a melhor amiga da minha irmã e que me encantava, e até mesmo da menina mulher que por tanto tempo foi objeto do meu desejo, e em uma única noite me prendeu a ela sem sequer se esforçar. Mas as partes da mulher que eu via agora, misteriosa, cheia de segredos e que insistia em jogar para cima de mim uma mentira cujo peso parecia demais para carregar? Nenhuma dessas partes se encaixava nos espaços vazios.

Eu era acostumado a colocar todos os pingos nos “is”, eu gostava de ter todas as respostas antes mesmo que as perguntas fossem feitas, eu sempre precisava saber onde eu estava pisando quando entrava em um terreno novo. Eu gostava de organizar tudo em minha vida de um jeito metódico e que fizesse sentido, e de pensar várias vezes antes de tomar uma decisão, assim eu nunca seria surpreendido.

Mas Felicity não fazia sentido.

E cada maldito ato dela me surpreendia.

Eu não sabia o que ela iria fazer ou dizer, e quando ela finalmente respondia as minhas perguntas ao invés de se esquivar, era difícil saber se era a verdade o que ela me dava ou apenas novas mentiras. Com ela eu não sabia onde eu estava pisando, eu não tinha o menor controle sobre a bagunça que ela trazia para minha vida, para a bagunça que ela causava dentro de mim. E isso me frustrava, me irritava ao mesmo tempo em que me excitava de uma forma que eu não deveria permitir.

Então, logo depois que ela partiu eu tentei voltar a minha rotina aonde eu tinha tudo sob controle, aonde poderia simplesmente manter uma distância cautelosa dela e quem sabe, longe da sua influência, eu poderia voltar a ser racional. Eu me vi preso em meu escritório por horas, analisando o depoimento dela para a polícia, pensando nas estratégias que eu poderia adotar para sustentar aquela mentira, enquanto internamente eu esperava que houvesse algo além das suas palavras decoradas que pudessem ser uma pista para mim. Qualquer coisa que pudesse me indicar quem ela era e o que eu deveria fazer, mas tudo o que consegui foi um grande e vazio nada.

O dia logo virou noite e a frustração com minha incapacidade de compreender Felicity se tornou apenas maior. Eu escutei Thea batendo a minha porta perguntando se tudo estava bem e se eu iria descer para o jantar. Eu estava sendo um merda de irmão, eu sabia que ela tinha um carinho muito grande por Felicity e que esta confusão a estava afetando de alguma forma também. Thea já havia perdido os pais, muito da vida dela já tinha mudado desde aquela época, eu não queria que ela pensasse que poderia perder uma amiga de infância também, por isso me forcei a colocar um sorriso no rosto e conversar amenidades com ela durante a noite. E quando ela me questionou preocupada sobre o caso de Felicity, eu apenas dei-lhe um beijo na testa e sorri, garantindo-lhe que tudo ficaria bem e não havia motivos para ela se preocupar.

Eu acusava Felicity de mentir, mas eu às vezes contornava a mentira.

Thea não tinha que se preocupar, mas eu sim.

Eu levei uma garrafa de whisky para o meu quarto, tomei duas doses enquanto andava de um lado para o outro me sentindo agitado. Eu precisaria de algo forte se quisesse dormir aquela noite. Principalmente depois do dia de hoje, depois que ela aparecera novamente desequilibrando todo o meu mundo. Eu já tinha o hábito de beber sempre que eu pensava em Felicity, sempre que eu não conseguia afastar as lembranças daquela única noite e me martirizava pensando... E se eu tivesse feito diferente? E se eu tivesse nos permitido ter algo, ou se apenas não tivesse a mandado embora naquela noite... Será que o nosso futuro seria diferente?

E se? Será?

Suposições que nunca me dariam nada de concreto.

Virei o restante do meu copo sentindo a bebida arder na garganta de um jeito conhecido, e esperei que ela me entorpecesse e levasse meus pensamentos embora. Mas dessa vez, nem mesmo o álcool foi capaz de tirá-la da minha cabeça, não quando eu estive tão perto dela, quando um simples toque dela evocou tantas lembranças ou ainda quando senti seu perfume doce, que mesmo depois de anos continuava a ser o mesmo. Ela poderia parecer diferente, mais adulta com olhos mais astutos e uma boca ferina. Poderia ter partes da Felicity de agora que eu não conseguia compreender ou gostar, mas olhando para ela, eu ainda me sentia o mesmo homem cego que jogou um noivado de anos no lixo só porque dormira com a melhor amiga da irmã, e ela simplesmente virara o seu mundo de cabeça para baixo.

Aquilo era uma merda.

Eu não deveria deixá-la me afetar tanto, mas eu não tinha controle.

Eu coloquei a cabeça sobre o travesseiro, mas todos os meus sentidos ainda estavam em alerta. Meu coração pulsava rápido, meus olhos apenas se fechavam para recordar dela, era como se a presença dela ativasse algo dentro de mim, colocando sua imagem em minha mente, seu cheiro em minhas narinas, a lembrança de seu gosto em minha boca e tudo isso estava me impedindo de apenas relaxar. Eu dormi pouco nessa noite e tive sonhos atormentadores com ela, lembranças desconexas daquela noite anos atrás misturados com as mentiras que ela tanto insistia em me contar. Tais sonhos me acordaram antes mesmo do amanhecer e eu apenas optei por ficar acordado. Era isso ou voltar a dormir e arriscar a sonhar com ela. Pelo menos quando eu estava lúcido, eu poderia me controlar melhor, me censurar, diferente de quando eu a tinha nos meus braços, naqueles malditos sonhos.

Não havia controle ali, era apenas meu subconsciente movido por aquela vontade de me perder em Felicity outra vez.

Eu tomei um banho gelado tentando afugentar qualquer resquício de meus sonhos com ela, me arrumei com deliberada lentidão escolhendo um dos muitos ternos escuros, uma camisa branca e uma gravata azul marinho. Depois de muito pensar sobre o caso de Felicity, eu havia percebido que não iria conseguir chegar à lugar algum se eu não soubesse quem ela realmente era, e porque ela estava tão decidida em mentir. Felicity não parecia disposta a se abrir, então eu teria que descobrir um novo jeito de conseguir essa informação.

Por isso chequei as horas e fiz uma ligação para um dos meus sócios.

Me dirigi para o escritório muito mais cedo do que o normal. Eu queria trabalhar, manter minha mente focada em algum caso, nem que esse caso fosse o de Felicity. Eu apenas precisava colocar um pouco de ordem na minha vida e na dela, com sorte quando eu resolvesse tudo, a vida voltaria ao seu devido lugar.

Felicity voltaria ao seu devido lugar.

Que era longe de mim.

Tentei não deixar que esse pensamento criasse raízes mais profundas. Já estava sendo uma merda lidar com a desordem que Felicity causava em mim, era melhor me esforçar e manter as coisas mais profissionais possíveis.

Eu cheguei ao escritório um pouco antes da sete da manhã, e era o único ali naquele horário o que não era surpresa já que o expediente começava às oito, mas eu não devia esperar por ninguém antes das nove, aquela era uma tradição nas segundas feiras. E tinha sido essa a razão de eu ter marcado com Felicity às oito.

Me acomodei em minha poltrona e liguei o computador, sem saber exatamente por onde começar, observei a tela de pesquisa do google sem ter certeza do que fazer agora. Mas de todo modo, eu mal pude digitar uma palavra, minha atenção foi atraída para o meu celular que começou a tocar naquele instante. Visualizei o nome na tela e franzi o cenho levando o aparelho a orelha, me sentindo instantaneamente preocupado.

— Lance. — Dei um cumprimento rápido — Algo novo que eu deva saber? Algo na perícia de Felicity? — Fui direto. Apesar do meu noivado com Laurel não ter dado certo, Quentin Lance continuava a ser um bom amigo para mim, graças ao nosso trabalho ele era alguém com quem eu mantinha muito contato, ele sempre me ajudava e essa costumava ser uma via de mão dupla. — Ou o garoto...? — Não terminei a sentença, era uma sorte o filho de Slade ainda estar vivo, eu poderia lidar com lesão corporal ou até mesmo tentativa de assassinato, tendo uma legítima defesa como escudo, ainda que o rapaz contradissesse a versão dela. Mas se passássemos para o assassinato em primeiro grau, as coisas ficariam muito piores. Além disso, eu não gostava da ideia de que Felicity carregasse o peso da morte de alguém.

Eu já vi o que tirar uma vida faz com as pessoas, independentemente de quais são as circunstâncias, como advogado eu presenciei o quão fundo alguém pode ir quando algo tão trágico assim acontece.

Joe Wilson ainda está hospitalizado, inconsciente, mas estável. — respirei aliviado ao escutar a resposta. — A perícia ainda não está pronta, devemos ter tudo ao final da tarde, mas não é por isso que eu te liguei.

O que foi então? — seu tom pesaroso estava me deixava nervoso.

Eu recebi uma visita ontem. — Quentin pausou, coçando a garganta, e eu soube que o que viria a seguir não seria algo bom — o Juiz Slade Wilson esteve aqui na delegacia. — Abafei um palavrão enquanto batia o punho cerrado na mesa extravasando um pouco da minha raiva.

Ele pegou as informações do caso? Ele pegou o nome de Felicity? — era difícil dizer qual sentimento me dominava mais, a raiva ou o medo. — Merda, não me diga que ele viu o depoimento dela! — O depoimento de Felicity era uma clara confissão, em casos assim o processo tendia a ser muito mais rápido, e se Slade soubesse quem havia atirado em seu filho, ele iria até o inferno para garantir que o culpado, ou nesse caso culpada, pagasse por isso. Conhecendo-o como eu o conhecia, ele daria um jeito de colocar Felicity atrás das grades o mais rápido possível, derrubaria a defesa dela e a trataria como uma criminosa qualquer. Ele não se importaria com a verdade dos fatos, ele apenas faria de tudo para proteger a imagem do seu filho nenhum pouco perfeito.

Você sabe que não posso negar acesso ao inquérito policial, principalmente a um juiz. Mas eu posso ter retirado algumas páginas referentes à Felicity quando entreguei a ele. O homem ficou irritado com o curso da investigação, exigiu mais proatividade, e disse que supervisionaria tudo de perto. — respirei aliviado ao escutar aquilo, ainda que ter Slade em cima de cada parte daquela investigação fosse ser uma grande merda. — Oliver, eu te ajudei dessa vez, apenas para te dar um pouco mais de tempo, mas eu não farei isso uma segunda vez. Apenas seja cuidadoso a partir de agora, você o conhece e sabe do que ele é capaz de fazer, uma vez que ele saiba quem é Felicity, ele irá usar toda a influência que possui para lidar com isso do jeito dele, e sabemos bem que isso não é bom.

— Eu entendo que se arriscou fazendo isso, Quentin, e eu só posso dizer muito obrigado. — Mesmo sabendo que Slade seria um problema real nesse caso, era bom ter uma vantagem, me preparar com antecedência, para o que eu imaginava que fossem ser os seus passos assim que descobrisse sobre Felicity. A última vez que o enfrentei, eu havia levado a pior, eu não imaginei que ele pudesse jogar tão sujo, mas agora eu estava precavido e não deixaria isso acontecer novamente.

— Eu te enviarei um e-mail com o resultado da perícia assim que ele sair. — Lance me avisou. — Oh, eu preciso que converse com sua cliente sobre algo que pode ser um problema. — seu tom foi mais sério, e imediatamente fiquei mais tenso, era por isso que eu não trabalhava em cima de mentiras, um mínimo detalhe, um erro que fosse e de repente tudo vai por água abaixo.

— Sim?

— Sabe o amigo que ela mencionou, o tal de Roy Harper? Pegamos o depoimento dele ontem, a história confere, ele disse que estava com ela na festa, mas se desencontraram. — Meneei a cabeça ao escutar aquilo, eu poderia apostar que esse amigo da Felicity sabia exatamente o que havia acontecido, talvez eu devesse ter uma conversinha com ele, pressioná-lo até que a verdade saísse. — Mas eu estou preocupado com algo.

— Com o quê?

— Ele tem uma ficha criminal bem extensa, pequenos crimes, furtos em sua maioria, desacato a autoridade, vandalismo... Enfim, nada que o tenha feito cumprir pena além de algum trabalho voluntário. Mas ainda assim, ele não é a melhor testemunha e mostrar alguém que não cumpre as regras como amigo dela é algo que pode prejudicar a imagem dela se o caso chegar ao júri. — explicou.

Mais essa.

— Eu verei o que faço com isso. — falei consternado, sem saber ainda o que fazer com isso. — E novamente obrigado, Lance.

— Não há de quê. — disse como se não fosse nada demais. — Deixe-me saber se Slade fizer algum movimento, talvez ele cometa algum erro dessa vez... — havia um fio de esperança na voz dele, ao qual não me agarrei.

— Certo. — Assenti antes de desligar o celular.

Eu duvidava que o juiz Slade Wilson cometesse algum erro. Ele era bom em cobrir seus rastros, nunca foi encontrado qualquer indício de que ele era um juiz corrupto ou que abusava do poder. Até onde todas as investigações sobre ele levavam à apenas uma ficha moral e ética exemplar. Mas ele tinha muito poder em suas mãos, seu posto lhe garantia muita influência, e estranhamente ele sempre conseguia que tudo corresse exatamente conforme seus desejos.

Suspirei e estalei meus dedos, enquanto adiava o problema que era Slade Wilson para mais tarde. E voltei ao meu problema principal, encarei a tela do computador aberta em um site de pesquisa, e digitei “Felicity Megan Smoak”. É claro que nenhum dos resultados era relacionado a minha Felicity, passei por algumas páginas até que encontrei uma notícia antiga do MIT, sobre uma aluna que recebeu o segundo lugar numa competição nacional de tecnologia da informação, essa aluna, para a minha completa surpresa, era Felicity.

Resolvi ser mais específico e busquei por ela nas amizades de Thea em todas as redes sociais que eu sabia que minha irmã tinha, porém não havia nada. Aquilo me deixou intrigado. Que jovem de vinte e três anos não tem uma rede social?

Cliquei novamente na notícia e a coloquei para imprimir, guardando a folha em uma pasta preta onde escrevi o nome dela em letras garrafais na parte da frente. Encarei a foto de Felicity no meu computador, apesar de ter ganhado um prêmio e exibir uma medalha prateada, não havia orgulho em sua feição. Felicity não sorria, faltava brilho em seus olhos e até mesmo uma certa vivacidade, ela parecia quase triste.

Me senti tocado.

Eu queria saber o motivo da tristeza dela, o porquê de seus olhos não mais sorrirem como costumavam fazer. Eu queria saber onde estava a garota que eu conheci há cinco anos, porque ela não estava ali naquela foto. Tampouco eu via mulher decidida e cheia de segredos de hoje, era quase como se aquela Felicity fosse uma transição entre as duas.

— Você madrugou. — Movi minha cabeça da imagem de Felicity em meu computador e sorri ao ver um dos meus sócios entrar pela porta da minha sala, imediatamente fechei a página da internet, algo que não passou despercebido por ele. — Vendo pornografia a essa hora da manhã? — ele brincou.

— Tenho muito trabalho a fazer, Diggle. — Devolvi mais sério.

— Você sempre tem trabalho, e sempre lida com tudo perfeitamente bem. — respondeu em seu tom sempre consternador, ele puxou a cadeira a minha frente e se sentou, fitando-me com expectativa e um misto de aborrecimento — Mas por que me chamar, Oliver? E antes da sete da manhã? Você se lembra de que eu tenho duas crianças pequenas em casa? Eu gosto de manter uma rotina com a minha família, hoje John Junior e Sara estavam competindo para ver quem se sujava mais comendo geleia, — sorri a menção dos seus filhos gêmeos que tinham completado três anos de idade a pouco. Entre os três sócios, Dig era o único casado e com filhos. Às vezes eu invejava a vida dele, eu estive perto de ter isso uma vez, mas sempre que eu pensava em como teria sido minha vida com Laurel, eu tinha certeza de que não seria nenhum pouco tão feliz quanto a de Diggle. — E agora eu não estarei lá para saber quem é o vencedor.

— Me desculpe por isso, — Fui sincero, eu sabia o quanto a família era importante para Diggle e ele odiava perder qualquer tempo com eles. — Eu não teria te chamado se não precisasse da sua ajuda com algo, e se isso não fosse urgente. — Ele estreitou os olhos para mim, adotando uma postura curiosa, eu entendia o porquê, eu era acostumado a me virar com meus casos, e mesmo quando estava atolado de trabalho eu nunca pedia ajuda para nada.

— Eu normalmente não me envolvo nos seus casos criminais, devo lembrá-lo que minha atuação é em direito tributário? O seguro e tranquilo direito tributário, taxas, impostos... Eu não posso ajudá-lo a não ser que seu cliente esteja com problemas com a receita, o que eu duvido. — falou apoiando o corpo na poltrona e colocando ambas as mãos na nuca enquanto me fitava. — Então, quer me explicar o porquê de eu estar aqui ao invés de estar no meio de um divertido café da manhã?

— Eu preciso de um favor. — falei num tom sério, deixando claro o quanto aquilo era importante para mim.

— E porque tenho a impressão que eu não vou gostar desse favor? — John era sempre perceptivo, ele deve ter visto algo por trás dos meus olhos. O filho da mãe sempre via além do que mostrávamos, eu era bom em ler pessoas também, fazia parte do nosso trabalho, mas Felicity tinha se mostrado a minha exceção. Talvez eu devesse usar Dig com ela, seria bom ter o julgamento dele, saber o que ele via através daqueles olhos que pareciam conter uma barreira intransponível.

— Eu tenho um problema, Dig, dos grandes. — Ele deixou a postura relaxada de lado e se inclinou para frente, colocando os braços sobre a mesa e prestando atenção ao que eu dizia. — Na madrugada de sábado para domingo, eu peguei um caso de uma possível tentativa de assassinato.

— Você já teve vários, o que torna esse diferente? — inspecionou.

— Eu nunca tive um em que a cliente mentisse deliberadamente para mim. — expliquei incomodado, com o pequeno sorriso que se insinuou no rosto de Diggle.

— Oh, uma mulher! E você ainda não conseguiu tirar a verdade dela? — lancei um olhar enviesado para Dig, ele sempre dizia que eu era bom em fazer as pessoas falarem, mas que eu era excepcional em fazer as mulheres se abrirem para mim. — Explicou que precisamos da história completa para trabalharmos na melhor defesa possível? Disse que estamos presos na confidencialidade advogado cliente, e tudo o que ela lhe disser não sairá desse escritório? Mostrou a ela a cláusula de confidencialidade no contrato?

— Essa não é a questão. — refutei — Ela assumiu que está mentido, mas se recusa a dizer alguma coisa especificamente para mim. — confessei, eu sabia que eu era o grande problema ali.

— Ela não confia em você? Isso é novo. — franziu o cenho surpreso com isso — Já tentou jogar o seu charme e ser menos intimidante? Eu quero dizer que você não ajuda quando cruza os braços e lança esse olhar duro e cheio de julgamento nas pessoas, Oliver. Às vezes é preciso ser mais encantador...

— Charme não vai me fazer conseguir nada com ela. — falei soprando um suspiro de derrota. Charme era a última coisa que eu deveria usar com Felicity, ou as coisas ficariam muito piores.

— Por que eu sinto que há mais nessa história? — meneei a cabeça, era óbvio que Diggle perceberia que havia algo mais.

— Eu conheço a cliente, ou pelo menos eu pensei que conhecesse, — comecei a explicar de um jeito cauteloso, tentando manter as partes comprometedoras daquela história apenas para mim. — Nós não nos vimos há pelo menos cinco anos, eu a conheço desde sempre, ela era a melhor amiga da minha irmã e não saía da minha casa. Uma garota doce e meiga, incapaz de machucar alguém intencionalmente e agora voltou completamente diferente. — me perdi por um momento nas lembranças do passado, tentando reconhecer na Felicity de agora aquela garota tão inocente. — Ela atirou em alguém, diz que foi legítima defesa, mas eu sei que é uma mentira. — Dig ergueu uma das sobrancelhas para mim — Ela admitiu que é uma mentira, e se recusa a me contar o que realmente aconteceu. Ela é uma mulher teimosa e que não compreende o quanto levar isso a frente é arriscado. — completei, me sentindo irritado por Felicity estar sendo tão cabeça dura sobre algo tão sério.

Encarei Dig, que ficou sério por longos segundos enquanto absorvia o que eu havia lhe dito.

— Esse é seu jeito de me dizer que dormiu com a garota no passado? — eu soltei um palavrão baixinho, mas a essa altura eu já deveria ter me acostumado a Diggle e sua facilidade de ver além do que as pessoas falam.

— Na época em que eu estava noivo de Laurel para ser mais específico. — Não havia razão para não jogar a merda toda agora que ele já havia deduzido aquilo. Eu vi o semblante dele mudar, compreendendo tudo muito melhor, enquanto ele não conseguia conter um irritante sorriso em seu rosto.

— Ah, então essa é aquela garota! — Diggle usou um tom quase reverente me fazendo emburrar a cara. Eu lamentava amargamente o dia em saí para um bar com ele e Tommy depois do expediente, algumas bebidas eu acabei revelando o verdadeiro motivo de ter desmanchado meu noivado. Tommy e Diggle passaram muito tempo tentando arrancar de mim o nome da mulher que conseguira me abalar a tal ponto, que me fizera terminar com Laurel depois de tanto tempo e tão próximo do casamento, mas nem mesmo depois de muitas cervejas eles conseguiram tirar o nome de mim, por isso sempre se referiam a ela como aquela garota. Eu não poderia ter arranjado sócios mais irritantes. — Eu estou surpreso que ela ainda tenha te procurado. — ele comentou — Eu quero dizer, você sempre diz que com ela foi diferente, mas você apenas tirou a virgindade dela e depois chutou a garota da sua cama dizendo que tinha uma noiva. Eu não sei qual das duas atitudes é mais canalha. — ele recriminou.

— Estamos saindo do ponto. — reclamei, me sentindo acuado. — Eu o chamei aqui para discutir as atitudes de Felicity e não para uma condenação moral sobre as minhas.

— Há um ponto, Oliver? — Ele ergueu uma das sobrancelhas. Eu sabia o que Diggle estava fazendo, e se eu o permitisse continuar, isso acabaria numa sessão de terapia sobre minha relação com Felicity.

Eu não queria pensar nisso, precisava voltar para caso.

— Ela está mentindo quando vai ser acusada de tentativa de assassinato do filho de Slade Wilson. — Diggle abriu a boca surpreso — Vê como isso é ainda mais fodido?

— Eu vejo. — assentiu, coçando o queixo de um jeito pensativo.

— Eu não posso entrar nisso completamente às cegas, eu entendo que ela não confie em mim por causa do nosso passado, mas se arriscar num caso tão complicado? Eu não posso entrar nisso de mãos atadas, eu preciso saber de tudo, Dig. — expliquei — Cada detalhe da vida dela, o que ela fez nos últimos anos, quem eram seus amigos... Qualquer coisa que me ajude a ter uma ideia de quem ela se tornou e o porquê de estar mentindo. — Parte de mim apenas queria garantir que eu não era a razão daquela mudança tão grande em Felicity. — Eu só preciso da verdade.

— Está pedindo que eu a investigue? — Diggle perguntou diretamente e eu deslizei a pasta com o nome de Felicity para ele. — Felicity Megan Smoak. — Ele leu o nome abrindo a pasta e encontrando aquela única notícia com a foto dela que eu havia imprimido. — Ela é bonita, mas tem algo incomum nos olhos, eles parecem quase tristes. — Tentei não demonstrar o incomodo que suas palavras me causaram.

— Estou pedindo que use seus contatos para conseguir as informações que eu preciso de um jeito mais rápido, eu não tenho muito tempo. — Simplifiquei o que eu queria tentando ser mais objetivo.

— Deixe-me ver se entendi, eu terei que pedir a Lyla por essas informações mais rápidas? — sondou e eu assenti. Não era segredo que a esposa de Diggle tinha um cargo de chefia dentro de uma agência governamental importante, Dig trabalhou muito tempo para ela, mas quando se casaram acharam que seria melhor não compartilhar essa parte da vida também e foi assim que Dig veio para a sociedade. — Ok. Primeiro você interrompe o café da manhã da família, e agora quer que eu peça informações privilegiadas à minha esposa. Você claramente não tem apreço pelo meu casamento, Oliver.

— Diga a Lyla que irei assumir seus casos por uma semana, e vocês poderão ir naquela viagem para Bali. — Joguei minha cartada fazendo Diggle rir.

— Três semanas e ainda irá tomar conta dos gêmeos, duas noites por mês quando Lyla e eu sairmos para jantar. — Tentou negociar.

— Duas semanas e eu pago a babá dos gêmeos. — Ofereci a contraproposta.

— E se for uma emergência e eu não conseguir uma babá? — Dig estava sempre tentando cobrir todos os pontos.

— Eu cuidarei deles. — falei apenas para dar fim naquela discussão.

— Fechado. — Dig exibiu um sorriso amplo, se ergueu da cadeira e esticou a mão na minha direção, selando o acordo.

— Eu teria aceitado um mês de férias, menos tomar conta dos gêmeos. — Apertei a mão dele, me erguendo também enquanto acompanhava Diggle até a porta. Passamos pela antessala do meu escritório e aproveitei para deixar uma lista de coisas a fazer sobre a mesa da minha assistente, incluindo que ela deveria cancelar tudo o que havia na agenda e repassar o que fosse inadiável para os advogados contratados.

Aquele meu dia seria unicamente de Felicity.

— Eu teria concordado se você dissesse que tomaria conta dos gêmeos por uma noite apenas. — Dig piscou para mim. — Eu vou para casa descobrir quem ganhou a competição de se sujar com geleia.

— Eu aposto na pequena Sara, aquela garota sabe como fazer uma bagunça.

— Você tem razão. — concordou — Eu trabalharei em casa pela manhã, mas passarei aqui assim que tiver as informações que você solicitou.

— Agradeça a Lyla por mim. — Ele assentiu, indo em direção a saída.

— Eu mal posso esperar para conhecê-la. — Ele parou a porta e deu um sorriso de canto que me deixou estranhamente incomodado. — Na verdade, eu mal posso esperar para que Tommy a conheça. — Fiquei mais tenso, era melhor manter Felicity longe dos olhos de Tommy o máximo de tempo que eu conseguisse, ou eu não teria um minuto de paz. — Até mais, Oliver.

— Até. — disse e dei meia volta para voltar a minha sala, enquanto Diggle deixava o escritório, encarei o relógio no meu pulso que marcava oito e meia da manhã. Felicity estava atrasada. E, como se fosse uma resposta aos meus pensamentos, ela entrou pela porta como um furacão trombando com toda a força em Diggle que saía naquele momento.

Meu primeiro instinto foi ir até ela, que caíra ao chão com a trombada, mas parei ao ver que Dig já a ajudava a se levantar.

— Me desculpe! Me desculpe! — A escutei dizer repetidas vezes. — Eu não estava olhando por onde eu andava, esse prédio é enorme, eu me perdi e estou com pressa...

— Não foi nada. — Diggle a respondeu com um sorriso curioso nos lábios, eu tinha certeza que ele acabara de perceber quem ela era. — Você está bem? Precisa de ajuda? — ele falava num tom tranquilizador e amigável fazendo-a parar de tagarelar enquanto a ajudava a se erguer do chão.

— Eu estou procurando por...

— Oliver Queen? — Ele sorriu ainda mais olhando por sobre os ombros ao me indicar com a cabeça. Eu estava ali, completamente parado apenas observando a cena.

— Obrigada. — ela agradeceu a Dig com um sorriso doce enquanto ele saía rapidamente, deixando a nós dois a sós. Quando o olhar dela veio para mim ele foi contido, não havia mais sorrisos doces em seus lábios, apenas uma máscara controlada.

— Você está atrasada. — reclamei, eu estava emburrado, mas não era por causa do atraso.

— Não estou! — Diabos, por que tudo com ela era motivo para uma discussão? — Seu relógio deve estar errado, porque no meu são... — percebi que ela corou ao olhar para o relógio em seu pulso — ...oito horas em ponto!

Eu quase sorri ao vê-la contar a pequena mentira, mas uma maldita luz vermelha de alerta se acendeu, deixando-me mal-humorado. Quando ela pararia de mentir para mim?

— Eu disse, sem mais mentiras. — repreendi — Venha, nós precisamos conversar. — disse deixando minha mão se acomodar nas costas dela enquanto a guiava para dentro da minha sala e fechava a porta atrás de mim.

Eu não deveria tê-la tocado, minha mão sentiu o calor convidativo da pele dela ainda que por cima do tecido fino da blusa de seda, e eu desejei mais, eu desejei que pudesse ter muito mais. Retirei a mão dela e me movi para longe, retirei o paletó o colocando sobre o encosto da poltrona e novamente me sentei agradecido por ter uma mesa entre nós.

— Teve tempo de pensar no que conversamos ontem? — perguntei, dobrando os punhos da camisa até os cotovelos e logo depois afrouxando a gravata. Eu teria que checar o ar condicionado depois, a sala parecia muito mais quente do que o normal.

— Sim. — ela concordou, seus olhos estavam em mim, mas ela parecia distraída com algo.

— Vai insistir na sua versão? — Insisti e Felicity apenas assentiu com a cabeça — Tem certeza de que não vai me contar o que realmente aconteceu? Eu poderia te ajudar mais, não importa se você está com vergonha ou com medo da verdade, Felicity. Eu poderia te ajudar. — Tentei soar solidário, mas havia pesar no meu tom.

— Eu vou me manter no que eu disse. — Ela cruzou os braços, ergueu o queixo de um jeito orgulhoso e me encarou, seu olhar firme não vacilou nem mesmo por um segundo. E eu apenas meneei a cabeça, sabendo que tentar fazer Felicity falar era uma perda de tempo.

— Então teremos que trabalhar na sua mentira. — Deixei meu olhar crítico encontrar o muro denso que havia no olhar dela. Nós éramos como duas pessoas em lados opostos de um cabo de guerra, Felicity não iria me contar a verdade e eu não iria desistir enquanto não descobrisse seus segredos.

Ninguém estava disposto a ceder, mas eventualmente um de nós dois iria puxar a corda com mais força e o outro iria cair.

Desde criança eu tinha certa obsessão em vencer, eu gostava da sensação boa que era ser o melhor. Dessa vez não era diferente, eu queria estar no lado vencedor, mas algo dentro de mim me dizia que dessa vez ganhar não traria aquela sensação boa consigo.

***

Felicity Smoak

Eu estava atrasada.

Mas é claro que eu havia dormido mais do que deveria. O que não era de modo alguma culpa minha, mas de Oliver. Ele assombrou meus sonhos confusos, misturas da nossa única noite anos atrás com os momentos de agora. Ele queria a verdade, ele exigia isso de mim, mas eu recusava lhe dar, nós discutíamos e tudo acabava com a gente rolando nos lençóis da cama dele mais uma vez.

Foi difícil de acordar de um sonho como esse.

Foi ainda mais difícil me convencer de que era apenas um sonho, e de que eu deveria tirá-lo da minha cabeça o mais rápido possível porque iria encontrar com Oliver em pouco tempo, e mostrar o quanto ele ainda me atraía não seria algo bom.

Eu estava anormalmente nervosa naquele dia.

Talvez tenha sido a realidade do que eu estava fazendo com a minha vida que estivesse finalmente me atingindo, ou talvez fosse apenas uma reação a Oliver e o poder que ele ainda exercia sobre mim. Eu gostaria nunca ter voltado para Starling, eu gostaria de nunca ter que reviver aqueles antigos sentimentos que pensei ter trancado para sempre no meu coração, quando eu jurei a mim mesma que não seria mais aquela garota inocente.

Eu refiz minha vida longe de Starling, eu deixei minhas mágoas e meu coração quebrado para trás e me reconstruí, voltar para cá foi como apertar um botão de autodestruição e jogar no lixo todo o progresso que eu havia feito.

Mesmo sabendo que eu havia acordado tarde, eu não me neguei um banho gelado. A minha cabeça latejava e eu precisava acordar e me livrar não apenas da dor incomoda ou do que sonhar com Oliver provocava em meu corpo, mas também do que estar perto dele despertava em mim. Aquele turbilhão de emoções, desejos, sentimentos bons e ruins, mágoas que eu pensei ter superado e uma dor conhecida que eu sempre tentava enterrar, mas que agora parecia sempre na borda, tão perto de explodir.

Eu me atrasei ainda mais porque tive que ligar para o trabalho e pedir pelas minhas férias atrasadas, eu não sabia quanto tempo toda a coisa de ser acusada de um quase assassinato poderia durar, e conforme a coisa evoluísse talvez fosse melhor eu apenas me demitir. Mas não seria inteligente fazer nada disso agora, eu teria que ficar em Starling e não estava exatamente nadando em dinheiro.

Depois que deixei o hotel, eu fiquei presa no trânsito e ainda consegui me perder dentro do prédio onde estava localizado o escritório de Oliver e bater de frente com um homem gentil, mas que tinha forma de muralha.

Até que eu o vi.

Vê-lo sempre tinha o poder de fazer tudo ao meu redor desaparecer, e eu me odiava por ainda ser assim, ainda mais quando Oliver Queen me observava com seus lábios crispados e semblante aborrecido. Lembrei-me do dia anterior, quando por um momento eu o fiz rir, e de como o rosto dele se iluminou completamente. Oliver seguia me dizendo que eu havia mudado, mas será que ele não via o quanto ele mesmo estava muito mais fechado agora?

O segui para a sala dele depois de uma pequena discussão, tentei ignorar o calor do cordial contato de sua mão na base da minha cintura, e o que aquilo me fazia sentir. Agradeci mentalmente quando ele se afastou e se sentou, eu fiz o mesmo sentando-me a sua frente, mas a distância não ajudou muito. Tentei me concentrar analisando a sala ampla, a mesa de Oliver era grande, em madeira escura e dominava todo o centro do lugar com grandes janelas de vidros logo atrás e que pareciam ter uma visão linda da cidade, mas que estava escondida atrás de persianas brancas. Havia um jogo de sofá e poltronas de couro preto na área atrás de onde eu estava sentada, que parecia ser uma área para conversas mais informais, porém onde eu suspeitava que Oliver usasse para deitar e relaxar, se é que ele sabia como fazer isso. O outro lado da parede era coberto de livros e até mesmo eles pareciam organizados por alguém que sofria um caso severo de TOC.

Eu tentei me apegar aos detalhes mais pessoais, mas era tudo muito limpo e sem personalidade, a única coisa que me indicava que aquela era a sala de Oliver, e que trazia um pouco mais de calor ao lugar era um porta retrato sobre a mesa com a foto de Oliver e Thea, junto com os pais.

Eu tentei relaxar observando o lugar, mas quando Oliver começou a afrouxar a gravata e erguer as mangas da camisa revelando músculos que pareciam ainda mais tonificados do que eu me lembrava, eu segui seus movimentos, me distraindo momentaneamente do que eu fazia ali.

— Então teremos que trabalhar na sua mentira. — ele disse, finalmente me acordando, e me lembrando de que eu não deveria ser aquela Felicity que sempre se atraia por qualquer mínimo detalhe dele. Eu estava aqui porque precisa contar uma grande mentira e precisaria convencer a todos de que era uma verdade.

***

— Novamente, a que horas você chegou à festa? Você estava acompanhada? Quem mais você conhecia que estava lá? Você bebeu? Usou algum tipo de entorpecente ou alucinógeno?

— Eu cheguei a festa às onze da noite, eu estava com meu amigo Roy Harper, eu não conhecia ninguém na festa, com exceção dele. Eu não bebi mais do que um copo de cerveja quente, eu não fumei maconha, nem aceitei o ecstasy que uma garota estranha me ofereceu, não cheirei nada... — comecei a listar.

— Errado! — Ele me interrompeu, levantando-se da poltrona parecendo impaciente comigo. — Pessoas normais não sabem exatamente a hora que chegaram, ninguém checa as horas a todo momento, diga que era por volta das onze. E, por favor, tente não listar o nome de todas as drogas que tinham no lugar, apenas responda a pergunta de forma limpa e direta, sem dar margens para quaisquer insinuações. — Oliver espalmou ambas as mãos sobre a mesa, se inclinando ligeiramente enquanto fechava os olhos e parecia buscar por paciência. — E pare de revirar os olhos para mim. — abri a boca para protestar, como ele poderia saber disso se ainda tinha os olhos fechados? — Agora vamos de novo.

Minha cabeça que antes apenas doía, agora mais parecia que iria explodir a qualquer momento.

Eu já tinha ouvido de Thea de que Oliver era um carrasco nos tribunais, mas isso era literal demais e havia uma grande diferença entre ouvir algo e ser o alvo da vez. Eu fiquei meia hora o escutando falar sobre cada fase do processo, de cada resultado possível e de como aquilo não seria apenas exaustivo, mas sim destruidor para mim. Depois passamos para o meu depoimento o que parecia deixar Oliver ainda mais irritado sempre que eu repetia algo com as mesmas palavras que eu já havia usado da outra vez.

— Quantas vezes eu terei que repassar o meu depoimento com você? — reclamei, me erguendo da cadeira em que estava e ficando de pé andando de um lado para o outro. Eu precisava me movimentar, eu era uma pessoa ativa e não podia mais ficar sentada apenas o escutando me dizer o que eu deveria falar ou fazer.

— Tantas quantas forem necessárias para que não pareça apenas uma sequência de palavras decoradas. — Seu tom veio duro, assim como o seu olhar — Não teríamos esse problema se estivéssemos trabalhando com a verdade, mas como não é uma opção, estou tentando cobrir todos os pontos possíveis. — Ele nunca deixaria de jogar isso na minha cara? — Mas se está cansada podemos parar de rever o seu depoimento...

— Obrigada por ser misericordioso! — fui sarcástica.

— ...E conversarmos sobre o seu amigo, Roy Harper.

— Você não para? Não descansa um minuto? Eu estou com a minha cabeça prestes a explodir. — reclamei — eu preciso de um minuto para relaxar.

— Você poderá relaxar atrás das grades, vinte ou trinta anos, talvez, já que você é ré primária e tem bons antecedentes. Por sorte, nosso estado não aderiu à pena de morte... — Oliver disse, e eu estremeci apenas em pensar naquilo. — Mas eu estou vendo o que está tentando fazer fugindo do assunto. Então, comece a falar sobre o tal do Roy. — Oliver contornou a mesa e ali se encostou enquanto me observava esperando que eu falasse.

— O que tem Roy? — Me coloquei imediatamente na defensiva.

— Ele tem uma ficha criminal bem extensa, pequenos crimes, você sabia disso? — Eu não sabia, mas dei de ombros evidenciando o quão pouco eu me importava com aquilo — O quanto ele é apenas seu amigo? — perguntou, seu tom contendo certa acusação enquanto Oliver parecia verdadeiramente incomodado, e o incômodo dele me incomodou.

— Isso é sério? — Eu tive vontade de rir diante do absurdo da pergunta. — Eu não acho que saber se eu transo ou não com Roy seja importante para o caso.

— Eu julgo o que é importante para o caso. — Senti o peso daqueles malditos olhos tentando ler a verdade nos meus.

Não dessa vez, Queen!

— Já te disseram que você deveria ser juiz? — Revidei me sentido ainda mais irritada com ele. Principalmente porque entre todas as pessoas do mundo, Oliver era o único que não deveria apontar o dedo para mim e julgar com quem eu dormia ou deixava de dormir.

— Eu estou tentando ser sério aqui. Seja lá o que for que exista entre vocês dois, é melhor acabar, eu não irei arriscar que o júri a veja como a namorada de um trombadinha. — Ergui uma das sobrancelhas incrédula do que estava escutando — Imagem é importante. — Ele tentou amenizar, mas tudo o que eu compreendi era que Oliver Queen estava me dando ordens.

— Oh, Meu Deus! Você consegue ser um grande babaca cheio de si. — explodi — Eu não vou dizer se transei com ele ou não, e muito menos parar de transar com ele, se eu estiver transando, só porque você acha que isso seria melhor. — falei, escutando Oliver ranger os dentes e prender as mãos com força na madeira sobressalente da mesa, a respiração dele estava apressada e eu sabia que ele estava tentando se conter. — Eu não digo a você que deve parar de transar com Laurel, digo?

— Eu não estou transando com ela! — Oliver afirmou, se desencostando da mesa e vindo na minha direção parando a minha frente. Eu não estava certa, mas aquela declaração dele tinha soado como uma pequena explosão, um descontrole. Tanto que ele logo deu um passo para trás, se distanciando de mim, tentando aliviar aquela maldita tensão que estava sempre entre nós e parecia aumentar quando discutíamos. Seu tom pareceu bem diferente quando ele voltou a falar, mais controlado, embora eu ainda sentisse resquícios daquele pequeno descontrole. — Até porque isso não seria ético da minha parte. Laurel é promotora de justiça, possivelmente é ela quem irá decidir se vai te oferecer um acordo, ou oferecer uma denúncia e levar o caso a júri.

Pisquei absorvendo o peso das suas palavras.

E eu achando que a merda não poderia ficar pior!

— Puta merda, Oliver! E você só me diz isso agora? — Eu não era nenhum gênio no direito, mas eu assisti séries o suficiente para saber que havia um juiz, um advogado de defesa e o maldito promotor que tenta colocar o acusado na cadeia de todas as maneiras possíveis.

Seria cômico de ver a noiva traída e a amante no tribunal. Não que eu tenha chegado a ser a amante, já que dormir com Oliver foi algo de uma noite só, mas se Laurel soubesse disso, quem iria me garantir que ela não iria tentar me ferrar por ter dormido com o noivo dela?

— Eu disse possivelmente, — condicionou — há outros promotores, nessa fase preliminar não há muito decidido.

— A Laurel... — comecei sem saber como trazer o assunto, que obviamente Oliver e eu tentávamos evitar. Oh, foda-se, melhor dizer isso com todas as palavras. — Ela sabe que a gente transou? Isso não foi o motivo dela ter terminado o noivado com você, foi? — mordi o lábio ao fazer as perguntas e notei que as sobrancelhas de Oliver se uniram para mim, havia algo na minha frase que ele não gostara de ouvir. Eu esperei pela resposta dele, mas Oliver apenas desviou o olhar de mim.

— Não se preocupe com Laurel, deixe que eu lido com ela se for necessário. — ele disse num jeito frio, de quem diz isso não é da sua conta. Um tapa doeria menos. Mas Oliver não falara nada que não fosse verdade. O relacionamento deles nunca foi problema meu, nem mesmo quando ele dormiu comigo estando noivo dela, imagine agora que não havia mais nada entre a gente.

— Você não respondeu a minha pergunta. — notei.

— Vamos deixar algo claro, Felicity, eu sou seu advogado, isso entre nós tem que ser mantido apenas em um nível profissional, eu não dou aos meus clientes quaisquer informações sobre a minha vida pessoal. — eu queria estapeá-lo nessa hora, por sorte suas palavras seguintes contiveram um pouco da minha fúria. — Mas eu entendo a sua preocupação e é só por isso que eu vou te responder. — prendi a respiração enquanto esperava pela resposta dele. — Laurel sabe que há cinco anos eu a traí, e sim, essa foi a razão para o nosso rompimento. — Seus olhos se desviaram para longe nesse momento — Mas eu nunca disse o seu nome, ela não sabe que foi com você, então não há razão para se preocupar. Fim da história.

Fim da história?

Não para mim.

Então tinha sido isso? Um Oliver arrependido contara a Laurel sobre a traição e ela decidira terminar tudo entre eles. Mas ele ainda a amava? Ele ainda tentava voltar com ela? Era por isso que não me queria intrometendo no que quer havia entre os dois?

— E eu espero que... — ele pausou por um momento fechando os olhos e tomando uma respiração funda, seus olhos quando se abriram vieram para mim, parecendo doces e até mesmo arrependidos. Arrependidos daquela noite cinco anos atrás? — Eu espero que possamos deixar o passado no passado, Felicity. — Suspirei, foi isso o que eu fiz. Eu havia enterrado o passado, mas ele tinha o estranho hábito de voltar a me assombrar. — E nos concentrarmos no presente, resolvermos o problema principal, e talvez, quando tudo isso não estiver mais entre nós, talvez nós possamos sentar e conversar honestamente sobre aquela noite cinco anos atrás. — a voz dele era suave, mais suave do que eu me lembrava de já ter sido comigo. Eu me perguntava de onde vinha isso.

A primeira reação do meu coração foi dar um pulo, pensando erroneamente que Oliver queria algo mais. Mas eu logo o acalmei, apesar de ele ter ferido meu coração, Oliver era alguém bom e que gostava de acertar as coisas, ele certamente gostaria de se desculpar sobre como as coisas acabaram entre nós.

Dar uma conclusão àquela história.

E perceber isso machucava.

— Não se preocupe com isso, Oliver. — falei, forçando um sorriso que Oliver não comprou.

Meu Deus! Como saímos de uma discussão sobre o meu caso e acabamos aqui conversando sobre o passado? Eu não poderia permitir que todas as nossas reuniões sempre acabassem assim.

— Eu acho que desviamos um pouco do assunto. — comentei, voltando a me sentar sentindo o olhar atento de Oliver em mim.

— Tem razão. — Concordou, ele mesmo voltando a se sentar em sua poltrona. O clima entre nós havia mudado, sempre houvera uma tensão. Mas agora era estranho, nós não havíamos conversado sobre nada, mas trazer o passado trouxe consigo um peso muito maior. Eu sabia que minha mente estava lá, naquela noite cinco anos atrás, assim como eu suspeitava que a de Oliver estivesse lá também.

— Eu tenho uma pergunta. — ele soltou cauteloso.

— Pergunte. — respondi ainda mais cautelosa.

— Por que é tão difícil para você cooperar comigo? Eu não estou falando isso apenas pelo fato de você mentir, mas por você estar sempre disposta a me contrariar ou me irritar. Eu sei, Felicity, que o que fiz com você no passado foi errado, eu nunca deveria, eu não tinha o direito de... — ele não completou, mas não precisava. — Você... Você me odeia tanto que sequer consegue pensar que precisamos um do outro para que você tenha uma chance de sair livre? — Seus olhos pareciam culpados, mas também havia ali uma segunda emoção que eu não me permiti analisar.

— Oliver, eu nunca disse que te odeio. — Eu tentei por muito tempo odiá-lo, eu certamente tinha fortes sentimentos por ele, bons e ruins, raiva, mágoa e aquele maldito amor adolescente que eu não conseguia tirar do meu coração. Mas no final todos eles acabaram sendo sufocados, porque pensar em Oliver trazia apenas muita dor.

Foi mais fácil fingir que ele não existia.

— Então? — perguntou ansioso.

Então o quê? Eu não te odeio, parabéns por isso. O que mais ele queria de mim?

— Então eu acho que é hora de voltarmos ao caso, certo? — eu disse por fim, querendo colocar uma pedra sobre aquele maldito assunto. Eu estava começando a sentir falta do Oliver que era um carrasco, que só queria levar isso da forma mais profissional possível. Porque esse Oliver de agora, que me olhava de forma suave e que parecia tão mais compreensível, esse Oliver que me dava pequenos sorrisos, talvez esse Oliver me fizesse querer contar todos os meus segredos.

— Oliver? — para a minha sorte um rosto conhecido entrava na sala de Oliver, interrompendo o que quer que estivesse acontecendo entre nós. — Eu trouxe aquilo que você me pediu. — Oliver imediatamente se ergueu da poltrona, indo até o homem negro que lhe entregava uma pasta preta, senti o olhar de ambos em mim. E me ergui ao ver o homem caminhar na minha direção com um sorriso sincero nos lábios e um olhar de compaixão que eu não compreendi a razão de estar ali.

— Eu acho que deveríamos nos apresentar propriamente, sou John Diggle, advogado tributário e sócio do Oliver. — disse esticando a mão para mim.

— Eu sou Felicity...

— Smoak. — completou com um sorriso amigável. Como ele sabia meu sobrenome? — É um prazer conhecê-la.

— Igualmente.

— Não deixe Oliver arrasar você, ele pode ser um carrasco às vezes, mas bem no fundo, após camadas e mais camadas de mau humor, você irá descobrir, que há mais desse homem mal-humorado. — Eu ri enquanto Oliver ergueu os olhos da pasta por um momento fitando a nós dois, parecendo, hum... Muito mal-humorado. — Eu estou indo, tente não sair por aí trombando em pessoas, Smoak.

— E você tente não ser um muro onde as pessoas possam trombar, Diggle. — Ele riu antes de deixar a sala. Eu mal havia conhecido Diggle, mas estranhamente ele era uma daquelas pessoas raras com o dom de fazer todos ao seu redor se sentirem relaxados e confortáveis.

Mas então encarei Oliver, o relaxamento aos poucos indo embora e sendo substituído por aquela agitação que sempre tomava conta de mim quando eu estava perto dele, quando eu tinha seus olhos em mim. Eu não sabia quanto mais dessa tortura eu conseguiria aguentar.

— Há algo errado? — perguntei e minha voz o fez fechar a pasta que Diggle lhe entregara abruptamente.

— Não. — Seu olhar veio para mim de um jeito estranho quase culpado, como se fosse uma criança que tivesse aprontado algo e tivesse medo de ser pega. — Na verdade, há sim. — Ele colocou a pasta sobre a mesa, suspirou como se tomasse coragem para dizer algo e deu a volta, ficando novamente a minha frente.

Seu corpo grande e forte impondo sua presença e dominando tudo a nossa volta. Não havia uma fodida maneira de ignorar Oliver, de ignorar o que estar próxima a ele causava em mim.

E o desgraçado estava perto.

Tão perto que se eu esticasse a mão eu poderia tocá-lo, novamente sentir seu corpo firme sobre a pele quente e suave.

Ele estava tão perto que a colônia cara que ele usava, um cheiro amadeirado com notas de sândalo e um toque sensual do que eu deduzia ser a fragrância da própria pele de Oliver, entrava por minhas narinas e me fazia esquecer de como pensar.

Ele nunca esteve tão próximo a mim, não de livre espontânea vontade. Oliver se aproximava geralmente quando estávamos discutindo, e isso sempre era seguido de ele se afastando aborrecido comigo. Ter Oliver a minha frente, seus olhos nos meus, com apenas centímetros de distância nós, e ele não estava brigando comigo era uma novidade.

Era bom.

Era malditamente bom.

Mas se ele estava perto, e ele não estava brigando comigo... Por que ele estava tão perto?

— O que é? — perguntei tentando encontrar foco, eu estava refém, da sua proximidade, do seu cheiro, do calor dos seus olhos que horas atrás me olhavam de um jeito acusador e frio, mas que agora não eram nada menos do que suaves. Percebi tardiamente que mesmo enterrando o passado, mesmo fingindo que eu não sentia mais nada por ele, aqui estava eu, como uma adolescente boba pronta para cair novamente nos encantos de Oliver Queen.

Ele colocou sua por sobre o meu ombro, em algum lugar do meu cérebro eu sabia que seu toque representava um pedido de confiança. Mas meu cérebro não funcionava bem quando Oliver me tocava, quando seu toque evocava lembranças tão quentes.

— Felicity... — Meu nome começou a escorregar da sua boca como se fosse haver uma pergunta depois dele, mas Oliver não continuou, seus olhos azuis se prenderam nos meus, eu senti novamente aquela estranha conexão com ele. Aquela vontade de me inclinar, de ter meu corpo pressionado ao dele, de sentir seus braços ao redor de mim, como estiveram há cinco anos atrás. Eu queria beber do hálito mentolado que saía da boca dele, onde meu nome estivera segundos atrás.

Oh, inferno.

Eu simplesmente queria tudo o que Oliver pudesse me dar, mesmo que isso durasse uma noite, mesmo que no dia seguinte eu fosse chutada da sua cama, mas eu o queria, desesperadamente que ele me tocasse como antes.

Mas para a minha completa sorte Oliver parou de repente, sua atenção sendo atraída para a porta que se abria novamente, seu olhar fugindo do meu e eu pude usar aquilo como uma fuga momentânea dos meus malditos desejos.

— Essa sala está movimentada hoje. — Oliver comentou com um sorriso gentil para a pessoa que entrava ali, dando um passo para trás e quebrando completamente o toque e a estranha conexão entre nós.

— Ollie, eu vim buscar Felicity para almoçar.... — escutei a voz de Thea, e virei o rosto na sua direção. Ela estava parada a porta suas sobrancelhas unidas nos observando parecendo curiosa, como se soubesse que havia algo acontecendo ali. Eu dei um passo para mais longe de Oliver, agradecendo por aquela interrupção que me impediu de fazer papel de tola. — Não quero que você assuste muito a minha melhor amiga, mas eu posso voltar em outra hora se vocês estiverem muito ocupados.

A insinuação foi sutil, mas era um alerta para mim.

Eu precisava parar de confundir as coisas.

— Por que todo mundo acha que eu sou uma espécie de carrasco ou algo assim? — Oliver devolveu à Thea, num tom forçadamente leve, enquanto eu o sentia olhar para mim de soslaio.

— Por que você é!? — Thea disse com um sorriso — Mas eu o amo ainda assim! E o amo ainda mais porque vai liberar Felicity para mim. — piscou os olhos de um jeito charmoso e infantil, que eu tinha certeza a fazia conseguir tudo com Oliver.

— Tudo bem. Mas eu preciso dela de volta depois do almoço. — ele concedeu, pensei ter sentido seu olhar em mim, uma leve hesitação como se ele não quisesse que eu fosse ou como se quisesse que terminássemos o que havíamos começado. Mas novamente, eu estava sendo aquela garota tola que costumava ver coisas onde não havia nada, apenas para alimentar a minha ilusão de que o irmão da minha melhor amiga sentia algo por mim.

Mas eu não era mais aquela garota.

Eu não podia ser mais aquela garota.

— Então é melhor irmos. — falei de uma vez, me sentindo ansiosa para sair de perto de Oliver e poder respirar um ar que não tivesse o seu cheiro. Para colocar ordem em minha mente confusa.

— Espere! — Oliver se adiantou — Thea, pode nos dar um minuto? — ele pediu, me fitando de um jeito estranho, quase nervoso. Ela assentiu, deixando a sala e fechando a porta atrás de si. Oliver dessa vez não ficou próximo a mim, ele se sentou em sua poltrona tendo a mesa entre nós. Eu tinha certeza de que aquela tinha sido a intenção.

Ele adotou novamente a postura mais séria e controlada.

— Eu não sei o que há entre você e Roy, mas isso precisa acabar, ele é uma má influência. — disse pausadamente num tom frio, eu estranhei como o seu aviso havia vindo simplesmente do nada.

Eu olhei para Oliver.

Realmente olhei para ele. Sim, eu via uma verdadeira preocupação em seu semblante, ele falava como meu advogado, um conselheiro, alguém que achava que sabia o que seria melhor para mim.

Mas ele não sabia.

Ele não podia tomar decisões por mim, e vê-lo tentar, ainda que sua preocupação fosse genuína e válida, me deixava irritada porque me fazia voltar num tempo onde outras pessoas tomaram decisões por mim.

Eu odiava isso.

— Você me fará me afastar de Thea também? — Eu devolvi e senti Oliver imediatamente ficar tenso ao escutar meu tom igualmente frio, porém muito mais amargo.

— O quê? Eu nunca disse nada sobre sua amizade com Thea... — ele imediatamente se defendeu parecendo confuso com meu tom.

— Eu quase matei alguém, eu vou ser acusada desse crime e há uma chance de eu ser presa. Eu sou uma criminosa, não vê isso como má influência para ela? —perguntei fazendo-o ver a ironia da coisa.

— Isso é diferente. — ele tentou amenizar.

— Você sabe que não é. — Finalizei o assunto dando-lhe as costas, parte de mim se sentindo satisfeita por de alguma forma tornar a levantar aquela barreira entre nós. Passar um tempo com Oliver não me fazia bem, com ele eu estava sempre na borda, andando por sobre uma ponte que passava naquele rio de mágoas, dor, sofrimento e amor adolescente.

E eu não queria sentir nada disso novamente.

Eu não queria sentir nada.

Por isso que cair não era uma opção.

***

— Está tudo bem entre você e Ollie? — Thea perguntou tão logo eu deixei a sala. — Eu senti uma certa tensão no ar. — investigou, mordendo o lábio em expectativa.

— Está tudo bem. — Menti para ela que apenas ergueu uma das sobrancelhas para mim. Thea, assim como Oliver parecia ter o dom de perceber que algo não estava certo. — Como você disse, Ollie, pode ser carrasco controlador às vezes, e eu sou uma vadia teimosa. — dei de ombros fingindo não me importar — Não é uma combinação boa, mas estamos indo bem.

Você está bem tendo que lidar com Oliver? — quase sorri ao perceber que Thea havia chamado o irmão de Oliver, ela sabia que eu sempre revirava os olhos ao escutar o apelido que por tantas vezes ouvi Laurel usar. — Considerando todos os sentimentos que você tem por ele.

Eu parei, forçando uma expressão apática no meu rosto.

— Isso é passado, Thea. — Eu menti melhor na segunda vez, talvez fosse porque eu quisesse desesperadamente deixar aquilo no passado. Por mais difícil que fosse.

***

Eu não voltei para o escritório depois do almoço com Thea. Eu tomei um tempo para mim, eu precisava daquele tempo, para colocar as coisas no lugar antes de outra sessão com Oliver, eu não sabia o que me esperava, mas eu não estava a fim de dar mais uma volta naquela montanha russa emocional com ele novamente.

Meu celular tocou várias vezes enquanto eu dirigia de volta para o hotel, eu sabia que era Oliver e eu recusei cada uma das ligações, o jogando para a caixa de mensagens.

Eu precisava de um pouco mais de tempo.

Um minuto para respirar fundo e varrer Oliver da minha mente, um minuto para voltar a ser aquela que coloca um sorriso no rosto e fingi que tudo está bem. Eu estacionei o carro em frente ao hotel, e saí encostando o corpo contra a porta por um momento, fechando os meus os meus olhos e fingindo que não havia nada ao meu redor enquanto massageava as têmporas tentando afastar aquela incomoda dor de cabeça.

— Tentando limpar a consciência, Senhorita Smoak? — abri os olhos encarando o homem moreno que estava a minha frente e falava comigo.

Eu nunca o tinha visto antes.

— Eu o conheço?

— Não. — ele negou, seus olhos escuros exercendo uma força intimidadora sobre mim — Mas conhece meu filho. — franzi o cenho sentindo instintivamente que aquilo não era bom — Você colocou uma bala no coração dele duas noites atrás, e acredito que eu mereço algumas respostas. Não acha?

Notas finais
Ahh eu sei o capítulo ficou grande demais, e eu ainda tive que cortar coisas :( mas espero que estejam gostando da fic e que o capítulo grande compense a demora! Fico no aguardo do feedback de vocês! Beijos e até a próxima!