Guilty Pleasure
20 Capítulo 18 - Scars
Notas iniciais
You're setting off
It's time to go the engine's running
My mind is lost
We always knew this day was coming
And now it's more fright'ning than it's ever gonna be
We grown apart, I watch you on a red horizon
Your lion's heart, will protect you under stormy skies
And I will always be listening for your laughter and your tears
And as soon as I can hold you once again
I won't let go of you, I swear
We live through scars this time
But I've made up my mind
We can't leave us behind
Anymore
(Scars – James Bay)
♥
Felicity Smoak
Eu estava mais desperta agora.
Como se ver Oliver fosse o catalizador que eu precisava para me tornar ciente do que estava acontecendo com a minha vida, e principalmente para retomar o controle dela. Não somos responsáveis por cada empecilho colocado em nosso caminho, não podemos mudar a estrada apenas porque esta se mostra esburacada e tortuosa, mas nós somos os únicos capazes de decidir se vamos vencer os obstáculos, e qual caminho seguir na encruzilhada.
Nós decidimos qual a nossa estrada, motivados pelo que há esperando no final dela.
Por um longo tempo eu segui pela estrada segura, onde o caminho era reto e sem obstáculos, onde não havia nada esperando por mim além da própria estrada.
Eu mudei meu destino.
Eu tinha um novo objetivo.
Eu trilharia o caminho que me tiraria daqui, o caminho que eu esperava que me levasse para um lugar melhor. Onde haveria um alguém esperando por mim. O tipo de alguém pelo qual valia a pena atravessar a estrada tortuosa e esburacada, tentar vencer os obstáculos, pelo qual valia a pena até mesmo, cair uma ou duas vezes.
Tentei me lembrar de suas palavras de consolo. Me lembrar de que além dessas paredes, ele estava lutando para me tirar daqui, e infelizmente não havia muito o que fazer a não ser esperar. E até mesmo esperar já não parecia mais tão difícil, não depois da conversa de peito aberto que tivemos. Oliver me fez enfrentar medos e culpas que por tanto tempo eu escondi de mim mesma, me fez enxergar que em algum momento eu precisaria me perdoar e parar de viver uma meia vida.
Eu merecia ser feliz.
Eu sabia que era forte o suficiente para sobreviver.
Eu estive fazendo isso por cinco anos.
Mas eu seria forte para viver?
Observei com atenção a área comum para onde eu tinha sido trazida, tentando não me intimidar com as dezenas de outras mulheres ali. Mas mesmo assim, imaginado qual a história de cada uma delas. Imaginei que estivessem fazendo o mesmo comigo, por sempre havia alguém olhando para mim meio de soslaio e depois cochichando algo com outra pessoa. Fingi não notar a atenção. Ainda não era certo se ou quando eu sairia, então era mais inteligente manter um perfil baixo e não atrair ainda mais olhares.
— Como foi a conversinha com o advogado bonitão? – a voz feminina flutuou até meus pensamentos, fazendo-me virar para trás e encarar a mulher com quem eu dividia a cela. Agora, com as fortes luzes florescentes era muito mais fácil discernir sua imagem. Eu estava certa em minhas primeiras impressões, a mulher era bonita e parecia elegante demais para um lugar como este, mas algo em seu sorriso para mim parecia errado.
Como se sorrir não fosse algo que ela fazia com muita frequência.
— Como sabe... — Que Oliver é bonito?— ... que eu estava com o meu advogado?
— É o único motivo para você ser tirada da cela. – piscou os olhos vezes o suficiente para me irritar — Advogados e visitas íntimas, e você não parece com alguém que acabou de ter um orgasmo, querida... Ou vai ver ele não é assim tão bom.
— Ele é muito bom! – Defendi, me engasgando ao observar a expressão indulgente e ao mesmo tempo maliciosa dela — Eu quis dizer como meu advogado. Ele é um excelente advogado. O melhor. Eu não quis dizer sobre sexo. – embora ele fosse o melhor nisso também.
— Pelo seu rosto vermelho, eu diria que seu advogado é muito bom no sexo também. – ela concluiu — Não se preocupe, querida, você não é a primeira e nem será a última a pagar os honorários com sexo...
— Eu não...
— Não? – ergueu uma das sobrancelhas deixando sua expressão mais cínica.
— Não. — refutei prontamente, não estava gostando de ter uma estranha se intrometendo na minha vida e na de Oliver desse jeito. Nós não éramos da conta de ninguém. — Eu acho que não nos apresentamos direito. – estreitei os olhos para a mulher, me lembrando de algo que só agora, com minha cabeça no lugar e minhas emoções sob controle, eu percebia o que estava errado. — Felicity Smoak. – me apresentei observando cuidadosamente sua reação.
— Isabel Rochev. – Ela apertou minha mão com um leve sorriso no rosto — Agora que as devidas apresentações foram feitas, deixe-me mostrar um pouco do lugar, não que seja muito útil. – Sua mão deslizou por dentro da curva do meu cotovelo e Isabel começou a me direcionar por aquela espécie de área comum — Algo me diz que não ficará muito tempo entre nós. – Ela piscou e sorriu, como se soubesse de algo que eu não sabia.
Isabel era uma pessoa útil, em falta de palavra melhor.
Ela conhecia cada canto do presídio e cada pessoa pelo nome e crime cometido, e parecia ser um pouco importante lá dentro também. Como se as pessoas a respeitassem. Ou tivessem medo.
E ela estava sendo gentil comigo.
Agindo como uma espécie de comitê de boas-vindas, me explicando a rotina do presídio. Como agora, que estávamos no horário para interação social, onde era esperado que as prisioneiras exercitassem o hábito de conviver em comunidade. Depois teríamos o almoço, banho e então voltávamos para a nossa cela.
Eu não comi quando Isabel me entregou um prato, mesmo que estivesse morrendo de fome. Me limitei a apenas brincar com a comida com o garfo.
Eu estava preocupada demais enquanto observava as partes daquele tour que Isabel deixava de fora.
Como as inteirações feitas por debaixo dos panos, coisas que eram entregues e escondidas dentro das roupas quando nenhum guarda estava olhando. Ou ainda pior, coisas entregues pelos próprios guardas. Cigarros e outros tipos de drogas em sua maioria. Então eu me limitei a sorrir e a fingir que era apenas uma loira amedrontada e burra, que não estava vendo nada demais.
Logo percebi que ignorância não era uma benção, mas se fingir de ingênuo poderia ser a diferença entre sobreviver mais um dia e se colocar em sérios problemas.
Além disso, era bom ser subestimada.
Quanto mais perto do fim o dia chegava, mais certeza eu tinha de que Oliver não conseguiria me tirar daqui ainda hoje, por mais que eu desejasse não passar mais uma noite trancada em uma cela, eu precisava encarar o que isso significava para mim.
E bem, isso significava que eu estava prestes a me ferrar.
***
Umedeci as pontas dos dedos e virei mais uma página do livro que tinha nas mãos. O Conde de MonteCristo parecia uma leitura obrigatória para quem estava preso, o que era ridículo considerando que todo o enredo girava em torno de “pobre coitado é preso sob uma falsa acusação, consegue fugir e se vinga de todos os que armaram para o colocarem lá”. Tendencioso, não?
Eu teria preferido algo mais atual como “Se houver amanhã” do Sidney Sheldon onde a temática era mais ou menos a mesma, mas pelo menos a protagonista era uma mulher incrivelmente inteligente e forte, mas não tinham esse exemplar disponível na “biblioteca”.
Uma pena.
Virei mais uma página fingindo não notar a agitação incomum de Isabel. Desde o momento em que fomos confinadas, ela estava calada e lançando-me sorrisos ocasionais. Eu aproveitei da desculpa de me concentrar na leitura de um livro para que ela não percebesse que apesar dos olhos focados nas páginas, eu não estava lendo realmente e sim, prestando atenção em seus movimentos. Ela procurava por algo discretamente, ela fingiu arrumar a cama duas vezes antes de perceber que não havia nada ali.
Demorou um pouco para ela notar.
Eu senti seus olhos em mim, incrédulos num primeiro momento e surpresos no instante em que ela se deu conta.
Falsa ingenuidade é uma benção, mas não dura para sempre.
Abaixei o livro o colocando calmamente sobre a cama, sentindo uma estranha onda de medo e adrenalina percorrer por minhas veias ao me levantar e encará-la de volta naqueles olhos escuros que me estudavam. Não havia mais sorriso gentil em seus lábios, agora não passavam de uma carranca de aborrecimento.
— Procurando alguma coisa? — ergui o pequeno canivete em minhas mãos, o coração pulsando mais rápido pelo meu atrevimento. Eu estava mudando o jogo. Ela não poderia seguir usando a pele de cordeiro, quando eu via seus dentes de lobo. – Algo pequeno e afiado por acaso? Eu peguei de você na hora do banho... Oito mulheres tomando banho ao mesmo tempo tem suas vantagens. – Forcei um sorriso, girando o metal entre os dedos — Não deveria deixar suas roupas jogadas por aí, Isabel. – Seu olhar veio afiado em mim. Ela estava com raiva por ter sido pega. – Achou que eu não notaria o guarda de entregando isso?
— Você não é tão burra quanto eu pensei que fosse. – Com passos lentos ela se aproximava, como de um animal traiçoeiro prestes a atacar. — Foi um erro meu julgá-la pelos cabelos loiros e rostinho de boneca. – Sorri.
— Você não é tão esperta quanto pensa. – elevei minha voz, contente por ela não ter tremulado. Demonstrar medo não seria inteligente. — Você me chamou pelo meu nome antes, sendo que eu não havia dito-o a você. – ela fez uma careta quando elucidei sua primeira falha. — Achei melhor ficar de olho. Sabe o que dizem, mantenha os amigos por perto e as pessoas que escondem canivetes mais perto ainda.
— Me perdoe pelo lapso, normalmente eu sou muito melhor na dissimulação. Digamos que dessa vez eu estava ansiosa. – Ela deu de ombros, a voz fina subindo alguns oitavos.
— O que você quer? – perguntei diretamente, apertando o canivete mais forte em minha mão. Tinha que existir uma razão. Ninguém sai matando por aí aleatoriamente.
— Não é óbvio? — ela riu, debochando da minha pergunta — Tem um preço sobre sua cabeça, querida. – Instintivamente dei um passo para trás — Slade Wilson além de um juiz importante é uma pessoa influente, e ele prometeu que vai tirar desse purgatório aquela que conseguir eliminar você primeiro.
— Então todo mundo sabe? – um arrepio de medo desceu por minha coluna. Ainda que eu lidasse com Isabel, haveria outras vindo por mim.
— Sim, mas eu reivindiquei você primeiro, e ninguém que tem amor a própria vida ousaria me desafiar. – agora eu entendia o olhar curioso de todos os outros em mim. Eu era o próprio bilhete dourado do Willy Wonka. — Foi uma pena que não tenha comido o almoço, teria sido muito mais rápido e limpo. – lamentou.
— Mamãe me ensinou a não aceitar comida de estranhos. – respondi, me lembrando de ter notado Isabel colocando algo na comida antes de me entregar. Nesse momento minhas suspeitas se elevaram e comecei a ficar mais atenta, quando a vi recebendo o canivete eu tive certeza. — Não se aproxime. – Reagi, assim que a vi dando um passo à frente.
— Ou o quê? – sarcasmo permeava sua voz e suas palavras, eu podia até mesmo ver um pouco daquela diversão fria e sádica brilhando através de seus olhos escuros. — Vai gritar? – ela fez beicinho — Não há guardas por perto, eles também sabem que você precisa morrer e receberam adiantado para se manterem distantes fingindo que nada está acontecendo.
Suguei o ar pela boca, mas a tensão que permeava meu corpo não se dissipou.
Eu não deveria me surpreender com o fato da influência do Juiz Slade ser tão grande. E de fato eu não me surpreendia. Mas que ele estivesse disposto a bolar todo um esquema desde me colocar nessa prisão a prometer liberdade àquele que me matasse, apenas para vingar a morte do filho? Isso era insano.
— Está esquecendo de que eu sou a única com uma arma aqui? – reforcei erguendo o canivete mais alto, porém minha postura ameaçadora apenas fez Isabel rir.
— Mas tem coragem de usar? Raiva o suficiente para perfurar alguém com ela vezes o suficiente para que a pessoa não revide? De rasgar uma garganta e ver o sangue jorrar enquanto a vida da pessoa se esvai pelas suas mãos? – As imagens se formavam a minha mente e embrulhavam meu estômago, eu apenas não vomitei ali mesmo porque eu estava com o estômago vazio. Não, eu jamais tamanho sangue frio para agir assim. E Isabel deu um sorriso ainda mais amplo ao ler em meu rosto a resposta.
Observei seu sorriso.
Amplo e cínico.
Eu estava errada.
Sorrisos combinavam com ela, afinal, mas apenas sorrisos largos e perversos.
— Essa é a nossa diferença, Felicity. – ela deu mais um passo, e eu recuei abaixando a arma alguns centímetros, sabendo que era uma ameaça vã. — Eu sou uma assassina fria e cruel, disposta a tudo, apenas para sobreviver. – Seus olhos relancearam rapidamente para o canivete, e eu apenas o escondi às minhas costas, percebendo sua intenção. Eu tinha uma arma e não pretendia usá-la. Mas nada impediria Isabel de tentar tomá-la de mim, eu via isso em seus olhos determinados. — E você é só uma garota tola, que fez algo ainda mais tolo. Eu quase sinto pena de você. Morrer assim tão jovem...
Eu não queria morrer.
Eu tinha tanto pelo qual viver.
O som de metal batendo contra cerâmica reverberou entre nós.
Os olhos sagazes de Isabel seguiram o som para fora da cela, observando o objeto deslizar e parar no meio do corredor. Eu havia jogado minha única arma através das grades, apenas para que ela não a usasse contra mim.
— Como pretende me matar agora? – desdenhei, mas ela apenas riu.
— Eu posso fazer o trabalho com minhas próprias mãos, querida. – E então ela veio com tudo para cima de mim.
***
A luz do sol estava forte apesar de ser final da tarde, e não havia nuvens no céu bloqueando os raios. Fechei os meus olhos por um momento e ergui o rosto para cima, em parte porque sentia falta do calor do sol, e em parte porque havia me acostumado a luminosidade artificial de luzes florescentes, e a luz natural irritava meus olhos.
E claro, em parte porque essa era uma cena clichê de todos os filmes quando alguém saía da prisão.
Tomei uma longa e profunda respiração e só abri os olhos quando senti algo bloqueando a luz. Um metro e oitenta e cinco de bloqueio para ser exata. Bebi da sua presença imponente, de seu rosto bonito o qual eu simplesmente senti saudades de ver, mesmo que eu o tenha visto naquela manhã. Porque naquela manhã não havia um sorriso preguiçoso e aliviado ali, não havia seus olhos mais calmos e calorosos, cheios de luz.
E eu senti falta disso.
De ver Oliver apenas feliz.
Eu queria abraça-lo.
Queria envolver minhas mãos ao redor de seu corpo, e inspirar seu cheiro de roupa limpa e creme de barbear. Sentir as batidas erráticas de seu coração contra o meu próprio, e senti-las se acalmarem alcançando um ritmo nosso. Eu ainda não tinha estado assim com Oliver, frente à frente, não depois de todas as barreiras físicas e emocionais entre nós terem ruído. Não havia mais mentiras.
Só havia nós dois.
E muitos sentimentos a serem explorados.
E isso assustava.
— Obrigada. – Me lembrei de agradecê-lo, mas Oliver simplesmente meneou a cabeça, como se o meu agradecimento fosse sem lugar. Mas não era, ele apareceu na hora exata. Como todo herói.
— Estou feliz por estar bem. – soprou as palavras nervosamente e dentro de um suspiro um pouco agoniado. Seu olhar estava inquieto em mim, como se houvesse muito mais do que ele gostaria de dizer, mas estava se segurando. — Ou quase bem. — Sua mão, que antes apenas brincava de roçar acidentalmente na minha, a segurou cuidadosamente, elevando-a. O polegar tocando gentilmente a fileira de machucados avermelhados que agora adornavam o dorso da minha mão direita. Escutei seu longo suspiro frustrado.
— Uma garota precisa saber se defender. – dei de ombros, minimizando a coisa toda, seu olhar faiscou com uma emoção viva em minha direção.
— Eu meio que sinto orgulho e raiva por causa disso. — Oliver ergueu nossas mãos unidas para cima e num movimento inesperado soprou leves beijos sobre cada um dos nós feridos de meus dedos. Eu ainda sentia o agitar conhecido na boca do estômago quando ele cessou com os beijos e voltou seus olhos azuis para mim. Dizendo muito mais do que suas palavras expressavam.— Você se machucou tentando se defender, e eu nunca, nunca vou conseguir ficar bem com isso. Mas ao mesmo tempo, é bom saber que você está lutando. – Segurei um sorriso. Eu pensei pelo que lutava quando minha mão acertou um soco perfeito no rosto de Isabel – Precisamos colocar gelo e um curativo nisso quando chegarmos em casa.
Dessa vez o sorriso saiu fácil, gostando do som disso.
Casa.
Eu poderia simplesmente apagar aquele último dia da minha memória e voltar para o lugar aonde havia pessoas que queriam meu bem. Pessoas importantes para mim. Poderia fingir que Isabel tinha sido apenas um percalço no meio do meu caminho de volta.
De volta para casa.
Sorri novamente, percebendo que Oliver sorria também, como se soubesse o que se passava na minha mente e gostasse muito. Acredito que havíamos chegado em um ponto decisivo em nossas estradas. Uma encruzilhada. Cedo ou tarde nós teríamos que escolher um caminho.
Mas por hora, estávamos apenas os dois parados.
Meu estômago se agitou, ansioso ao pensar no que seria desse “nós” agora? Haveria um futuro?
Oliver abaixou nossas mãos, mas não as soltou, segurando-a ainda mais firme, como se dissesse a mim que ali era seu lugar. Ele tomou uma longa respiração, o nervosismo e a insegurança transparecendo em seu rosto, seus olhos um pouco apreensivos. Era estranho vê-lo assim, eu havia me acostumado com o Oliver confiante e seguro.
— Felicity, eu preciso...
— Mas que diabos...? – o interrompi, quando me dei conta da agitação que se aproximava ao longo da rua em que estávamos. Primeiro foi o som de uma derrapagem e então furgões, carros, motos com um emblema conhecido vinham em nossa direção em toda a velocidade. — O que são todos aqueles carros? – apontei tentando enxergar melhor, fazendo o olhar de Oliver se desviar do meu rosto e olhar para o final da rua também.
— Merda! — ele xingou. Todo o seu bom humor desaparecendo completamente, bem como a calidez de seus olhos que se tornaram frios e astutos — Eu não quero outra maldita capa!
— Capa? – olhei para ele interrogativamente, mas Oliver parecia alheio a minha pergunta. Olhando freneticamente para todos os lados da rua, e concentrado como se estivesse fazendo um cálculo mental.
— O meu carro não está longe, mas vamos precisar correr, ok? – Por que diabos ele parecia tão nervoso? E por que correr? – Não pare. Não interessa quantas vezes escute seu nome ser chamado ou gritado, não olhe para trás nenhuma vez. Não importa o que digam, apenas continue correndo. – assenti, seu nervosismo me deixando nervosa.
Oliver segurou firme na minha mão.
E então corremos.
E eles correram atrás de nós.
Os carros aceleraram, e como Oliver previu, eu escutei meu nome ser gritado várias e várias vezes, junto a perguntas que não consegui escutar direito, mas a palavra assassina foi dita vezes o suficiente para que eu estremecesse e esquecesse de respirar. Por sorte conseguimos chegar ao carro de Oliver antes que bloqueassem nosso caminho.
Os jornalistas foram um incomodo por um tempo, Oliver teve que jogar o carro bruscamente para o canto da pista em certo momento e quase batemos quando uma moto passou, praticamente grudada a nós e começou a tirar fotos. Felizmente, Oliver era um bom motorista e soube despistá-los adentrando por partes da cidade que eu não conhecia, tomando desvios e sinceramente, desrespeitando muitas leis de trânsito. Eu não queria nem pensar no valor exorbitante de todas as multas que ele receberia. E ele continuou a mudar o caminho mesmo quando parecia não ter ninguém suspeito por perto, mas eu não podia culpa-lo por ser extra cauteloso. Depois de um tempo eu apenas desisti de entender em que parte de Starling estávamos, apenas recostei a cabeça contra o couro macio da poltrona do carro, e perdi meus olhos pela janela, me desligando de tudo e focando nas perguntas que rondavam a minha mente e que a adrenalina da perseguição ajudou a suprimir. Mas agora, quando passávamos por uma longa estrada com árvores por todos os lados, quando íamos numa velocidade constante eu permiti meus pensamentos, a vagarem. Eu não compreendia como isso ainda podia ser notícia. Por que a impressa estava tão interessada em mim? Tinha o dedo de Slade fomentando a história? E até onde eles iriam?
Eles cavariam o meu passado? Me senti enjoada e suando frio apenas em pensar sobre esse tipo de gente descobrindo sobre Jonas. Em como poderiam explorar isso de alguma maneira suja, apenas para incrementar suas notícias.
— Nós chegamos? – estupidamente perguntei assim que senti o carro parar. Ergui os olhos encarando a meia luz do entardecer o lugar desconhecido, não havia casas por ali, apenas árvores dos dois lados da rua. — Por que parou? – dessa vez encarei diretamente Oliver, que tinha seus olhos ansiosos em mim e mãos tensas ainda segurando o volante. Eu conseguia ver as veias estufadas em seu braço, a forma como ele mal conseguia respirar.
— Porque não consigo dirigir sabendo que sua mente está em algum lugar em que não posso alcança-la. – Seu rosto parecia atormentado, querendo algo de mim, mas ao mesmo tempo não querendo me pedir, temendo que fosse muito. – Porque preciso que fale comigo. Que me diga o que está errado para que eu possa consertar.
Suspirei.
Oliver Queen estava sempre pronto para me ajudar e o que eu fazia por ele?
— Está preocupado comigo. – Odiava deixa-lo assim. Num ato mais instintivo do que racional movi minha mão para o alto da coxa dele. Precisava tocá-lo, sentir que de alguma forma ele estava ali comigo. Sua resposta foi imediata, e logo sua mão estava sobre a minha, seus longos dedos se encaixando sobre a abertura dos meus. Fechei meus olhos por apenas um segundo, sentindo seu calor quase abrasador e desejando que meu toque tivesse em Oliver, o mesmo poder de confortar um coração atormentado que o seu tinha em mim. – Me desculpe por te preocupar, eu só não queria te incomodar enquanto dirigia.
— Você nunca, nunca é um incomodo para mim. – ele reforçou suas palavras intensificando o toque — Ao contrário. Não escutar sua voz, não saber o que se passa em sua mente, se está bem ou não, se está longe ou perto, se está pensando em nós ou remoendo algum erro do passado... Isso sim é um incomodo. – gostei da sinceridade em suas palavras, da forma como elas apenas saíram de sua boca sem nenhuma contenção. — E por favor, apenas pare de se desculpar por coisas que não são sua culpa. – Quase sorri. Bem, essa era a nossa especialidade. — Eu só quero ter certeza de que você sabe que eu estou aqui, que pode contar comigo. Conversar comigo, se precisar. – seus olhos praticamente imploravam para que eu conversasse com ele, mas Oliver não me pressionava. Ele queria ser a minha escolha, assim como eu era a dele.
Era curioso.
Não havia mais segredos entre nós, não existia uma necessidade de se abrir e se mostrar um para o outro. Éramos um livro aberto, com notas de rodapé e comentários feitos a mão nas extremidades. Nós nos conhecíamos. Conhecíamos o melhor e o pior de cada um, o que estava no coração do outro.
Mas precisávamos conversar.
Não porque havia algo a ser contado. Mas sim porque é o que fazemos com aquela pessoa especial. É ela que te escuta quando se tem um dia ruim, é com quem desabafa sobre o que a aborreceu. É com quem divide seu fardo. Quem transforma suas lágrimas em riso, sua tristeza em amor.
É a pessoa que deixa seu coração mais leve, apenas por escutá-la.
Com quem se partilha tudo. Seja bom ou ruim, sem medo de ser julgada por isso.
Com quem se constrói mais do que um relacionamento fundado em atração, mas uma parceria de vida.
— Eu sei, Oliver. – acariciei sua mão e me permiti lhe dar um pequeno sorriso. Um sorriso feliz por perceber o laço que sem sequer notar, havíamos construídos e parecia se fortalecer cada dia um pouco mais. – Não existe mais ninguém nesse mundo com quem eu queira conversar.
— Bom. – Concordou, sem me olhar nos olhos. Ainda havia alguma coisa o restringindo, escutei o clique quando o seu cinto de segurança foi solto, Oliver virou o corpo na direção do meu, sua mão segurou a minha ainda mais firme. E seus olhos... Deus! Havia pequenos indícios de lágrimas controladas ali. — Eu sei que deve ter sido difícil para você lá dentro, com Isabel tentando matá-la. – engoli em seco, ansiosa para deixar essa lembrança para trás. — E sinto muito por não ter sido mais rápido...
— Shiuuuuuu. – Adverti ao elevar o dedo indicador cobrindo sua boca e o impedindo de falar mais alguma bobagem. — Como um perfeito herói, você chegou na hora certa, Oliver. – um sorriso ainda um pouco incerto se formou debaixo do meu dedo e um suave beijo foi plantado ali, antes que eu o recolhesse.
— Seu belo gancho de direita chegou na hora certa. – eu joguei minha cabeça para trás e gargalhei, gostando ainda mais do som quando a risada de Oliver se juntou a minha. Toda a tensão finalmente estava indo embora, sendo destruída por algo bom.
— Isso também. — aceitei o crédito — Talvez a notícia se espalhe e Slade fique com medo de mim. – Oliver havia me atualizado sobre a ameaça de Slade, e também descobrimos que Isabel Rochev foi uma cliente antiga com a qual Oliver recusou a trabalhar. Então, era tudo mais pessoal do que parecia.
— Eu acho que precisamos mais do que apenas seu soco para nos livrarmos dele. – soltei um suspiro cansado, desejando tomar de volta o nome de Slade. Até mesmo seu nome tinha o dom de arruinar um momento perfeito. Mas Oliver estava certo. Ele havia me empurrado de um barco, me mandado para uma prisão federal e colocado um preço sobre a minha cabeça. Limites não era uma palavra conhecida no seu vocabulário. Ele não pararia por nada.
Não até que eu...
Varri o pensamento, tão logo ele apareceu.
— Vai ficar tudo bem, Oliver. — ele assentiu vagarosamente, sem olhar para mim, imerso demais em seus pensamentos para eu acreditar que ele realmente estivesse me ouvindo. Sabia que sua mente estava em algum lugar frustrado, tentando encontrar uma forma de nos livrar da ameaça constante que era Slade. Ergui nossas mãos ainda juntas e repeti o mesmo ato dele mais cedo. A trouxe até meus lábios beijando cada um dos nós de seus dedos, não havia machucados em sua mão como na minha, mas todo mundo sabe que beijos são a cura para qualquer sofrimento da alma. Imediatamente seu rosto veio para o meu, os olhos questionando tantas coisas, a pergunta principal sendo “Vamos ficar bem?”. A respondi da melhor forma que pude. – Hey, estamos juntos, podemos ir para casa agora.
— Eu preciso de algo antes. – Escutei o clique do meu cinto dessa vez e meu coração bateu mais forte em expectativa. Seu corpo veio em direção ao meu, braços fortes contornando meu torso e puxando-me para o mais perto possível, seu rosto colado ao meu, a boca macia e quente descansando contra meu pescoço, sua respiração tão próxima a minha orelha que mesmo sem ter a intenção, provocava-me pequenos e tentadores arrepios. Eu não tenho palavras para começar a descrever o quão incrível era estar novamente nos braços de Oliver.
Havia uma sensação única em sentir o coração da pessoa amada batendo junto ao seu, depois de um tempo difícil. Te faz lembrar que não está só neste mundo, que existe alguém que se importa com você, e que estará sempre ao seu lado. Eu tinha medo de nomear esse sentimento, mas isso não mudava o fato de que ele estava lá, e de que se projetava e me dava força.
Segurei em Oliver ainda mais forte, me permitindo pela primeira vez realmente respirar. Sentindo seu cheiro conhecido, sentindo seu calor me acalmar, e me livrar de um peso que eu sequer havia notado em meu coração.
Eu esperava por seu beijo, quando o senti se aproximar.
Mas seu abraço me deu muito mais do que um beijo, bem como as palavras sussurradas em meu ouvido.
— Eu já estou em casa, Felicity.
Eu também estava.
***
— Obrigada. – agradeci entregando-lhe a garrafa de água, Oliver a pegou sem sequer desviar os olhos da estrada por onde dirigia e tomou um generoso gole também. Meus olhos seguiram com interesse a pequena gota d’água que escapou pelo canto da boca e Oliver apenas deslizou a língua pelos lábios, pegando-a.
Eu estava no inferno.
Eu nunca quis tanto ser uma gota de água.
Foco, Felicity! – me repreendi mentalmente, usando todas as minhas forças para desviar o olhar de sua boca e parecer normal.
— Eu já disse que não precisa me agradecer. – Revirei meus olhos retomando o controle que a maldita gota de água havia tirado.
Estava sendo difícil assim lidar com Oliver.
Sempre que eu tentava lhe agradecer por algo, por menor que fosse, Oliver não aceitava. Eu o havia feito várias e várias vezes e obtive o mesmo frustrante resultado.
Eu devia muito a Oliver. Ele estava me defendendo de um crime que não cometi, eu estava vivendo em sua casa, ele havia contratado um segurança particular para me proteger... Sem mencionar que todas as vezes em que eu tentava falar sobre o pagamento de seus honorários, ele simplesmente fugia do assunto mais rápido do que o papa-léguas fugia do coyote. Eu estava a ponto de apenas transferir o maldito dinheiro para a conta dele e pronto, mas algo me dizia que isso o deixaria furioso e em algum nível, magoado também. Por que diabos ele simplesmente não me deixava apenas agradecê-lo?
— Oliver, por que não pode simplesmente dizer “de nada” como toda pessoa normal? – o enfrentei, ganhando um sorriso travesso de canto.
— Por que eu não sou uma pessoa normal? – ele respondeu em tom de brincadeira.
Por mais que eu gostasse de como essa pequena implicância o deixasse mais bem-humorado, às vezes era apenas frustrante. Eu só queria que ele soubesse o quanto eu estava agradecida por tudo o que fazia por mim.
— Se é tão importante para você dizer obrigada, pode me agradecer quando chegarmos em casa. – o encarei inquisitivamente, procurando a pegadinha. E pelo sorriso de canto que ele me deu, eu sabia que havia uma. – Me agradecer pela sua festa surpresa. – explicou, ainda com o sorriso travesso brincando em sua boca.
— Minha... O QUÊ? – eu gritei.
— Tudo ideia de Thea. – apressou-se em se defender. – Ela me mandou mensagens o dia todo me informando do planejamento, ela contratou uma equipe de buffet e DJ também, mas me prometeu manter tudo simples e pequeno... Aliás, ela me perguntou qual o seu sabor de bolo favorito...
— Aham, sei... – desmereci, decidida a não cair no seu truque.
— Pode checar meu celular, se não acredita. – deu de ombros, como quem não tem nada a esconder. — Mas vai precisar da senha de desbloqueio, eu posso te contar e então ficaremos quites. — ignorei a provocação, embora estivesse um pouco tentada a invadir sua privacidade e saber sua senha seria um bônus. – A propósito, eu disse a ela que é chocolate, eu me lembro de você devorando dois pedaços enormes no aniversário dela de dezesseis anos.
— Eu não fiz isso! – me defendi, mesmo sabendo que Oliver estava provavelmente certo.
— Fez sim! – discordou, seu belo rosto tomando uma expressão saudosa, olhos com um brilho malicioso que eu reconhecia bem. — Me lembro de ficar absorto por um longo tempo apenas te observando discretamente. O jeito como você fechava os olhos e praticamente gemia após levar uma garfada à boca... Corria a língua pelo talher pegando cada resquício de chocolate, totalmente inconsciente de como o simples gesto me enlouquecia... Eu passei o maldito jantar evitando te olhar para não te cobiçar naquele vestidinho branco na frente de todos, e então chega a sobremesa e eu tive que presenciar quase que um pornô. – Oliver balançou a cabeça, como se mesmo agora precisasse afastar o pensamento. — Não foi justo o que fez comigo.
— Se você queria tanto do bolo, Oliver, bastava ter pedido. – Provoquei sem esconder minha diversão — Eu teria dado um pedaço a você.
— Um pedaço não bastaria para mim. – Seus olhos deixaram a estrada e se demoraram mais do que deviam nos meus, fazendo todo meu corpo responder ao calor que havia neles. – Eu não teria ficado satisfeito com menos do que tudo.
Me calei. Apenas processando suas palavras, e o porquê do meu corpo reagir tão fortemente a elas.
— Ainda estamos falando do bolo? – questionei, um pouco incerta.
— Sim, Felicity. – confirmou com sua voz baixa e rouca, e de quebra um sorriso de canto abrasador. — Estamos falando do bolo.
Oliver soltou uma pequena risada ao final da frase. E foi como o clique que eu precisava para entender tudo.
Eu era o bolo.
— Thea realmente não está fazendo isso, está? – mordisquei nervosamente minha bochecha, em minha ânsia de mudar para um assunto que não fizesse minhas bochechas arderem e minha mente parar de pensar em coisas impróprias.
— Você é a melhor amiga dela, o que acha? – estremeci, minha mente já formando imagens de balões coloridos, confetes e uma enorme faixa com os dizeres “Bem-vinda de volta, Felicity”, uma música eletrônica no fundo enquanto garçons equilibravam bandejas de canapés e bebidas, e claro. uma torre de champanhe e um bolo de três andares. Porque Thea Queen desconhecia o significado de pequeno e simples.
— Que merda. – me encolhi no banco, sentindo pena de mim mesma. Eu não estava exatamente pronta para ficar perto de pessoas, para sorrir ou mesmo comemorar minha saída da prisão.
— Você está realmente assustada. – senti seus olhos em mim com empatia, mesmo eu me esforçando para manter os meus longes dele. — Minha irmã e uma festa surpresa amedrontam mais Felicity Smoak do que uma assassina condenada como Isabel. — ele riu ao balançar a cabeça diante do absurdo.
— Eu apenas não gosto de surpresas. – meu estômago já protestava. Me permiti me encolher ainda mais contra o assento, puxando meus pés para cima e abraçando as pernas, apoiando o queixo sobre os joelhos. – E você ainda espera que eu o agradeça por isso? – retomei ao ponto em que começamos. – Está louco.
— Não se preocupe, Felicity. – Havia algo em sua voz. Eu não sabia explicar o que era, mas que possuía o dom de fazer meu corpo inteiro confiar em qualquer coisa que Oliver me dissesse. Meu corpo. Não minha mente agitada e nervosa. Essa me fez apenas bufar, como uma criança descrente. — Acha que eu permitiria que Thea fizesse qualquer coisa que te incomodasse? — levantei meus olhos para Oliver, prestando atenção em sua voz suave, e em cada uma das palavras encantadoras que deixavam seus lábios. — Tudo o que eu quero para você é que seja feliz. – suas palavras eram tão doces que quase me tornaram diabéticas — Então você pode me agradecer mais tarde por eu ter dito a minha irmã: nada de festas surpresas. – Oliver me deu um olhar rápido, mas o sorriso em seus lábios permaneceu ali. Eu sabia que em meu próprio rosto havia um sorriso tão permanente quanto o seu. Já fazia um tempo desde que alguém mostrara tanta consideração por mim. — Eu te conheço, e sei que tudo o que não precisa agora é de uma festa.
Suspirei voltando a relaxa e a esticar minhas pernas, desejando que Oliver não estivesse dirigindo nesse momento. Então eu poderia apenas jogar meus braços ao redor de seu corpo, puxar sua boca para mim, apenas para constatar que ela tinha o mesmo gosto doce de suas palavras.
— Nós dois sabemos que quando Thea coloca uma ideia na cabeça, nem mesmo o diabo consegue impedir... – me lembrei — Tem certeza que a fez mudar de ideia?
— Eu posso não ser o diabo, mas eu sei lidar com a minha irmã. – Oliver era o melhor irmão que alguém poderia ter, mas às vezes eu o sentia tentando ser mais pai de Thea do que irmão realmente. — Embora ela tenha me dito que era muito tarde para cancelar o bolo. – piscou para mim.
— Eu gosto de bolos.
— E eu gosto do quanto você gosta de bolos. – malícia brilhou através de seus olhos, tornando-os ainda mais escuros e fazendo desejo pulsar sob minha pele. — Chegamos. – anunciou pegando-me desprevenida. Eu estava tão absorta em Oliver, que não havia notado o caminho.
Olhei através dos vidros escuros para a intimidante mansão Queen.
Demos tantas voltas que quando finalmente chegamos, já havia anoitecido. A construção imponente parecia um pouco triste e solitária na meia luz de uma noite sem lua e com poucas estrelas no céu. Nenhum pouco convidativa.
— Posso perguntar uma coisa? – Oliver removeu a mão da porta e olhou para mim, assentindo, oscilando entre curioso e preocupado comigo. Ele estava pronto para sair, e eu sequer tirara o cinto.
Eu ainda não queria entrar na mansão. Eu sabia que era egoísmo, Thea estava lá dentro esperando por mim, e possivelmente Ronnie também, ambos preocupados. Mas eu queria apenas aproveitar um pouco mais do tempo que tinha a sós com Oliver. Mesmo que fosse dentro do carro, conversando sobre nada em especial.
Virei-me no assento, colocando-me meio de lado, porém de frente para Oliver.
— Por que você ainda vive aqui? – perguntei, observando o mesmo tomar a mesma posição que eu.
— Você não gosta? – segurei o sorriso ao ver a ligeira insegurança em Oliver ao pensar que eu não gostava da casa dele. Havia uma certa ansiedade em seus olhos também, como se quisesse ter minha aprovação.
— Não me entenda mal, a casa é perfeita. – Um pouco ostentosa demais para apenas duas pessoas viverem nela. Tomei o cuidado de não dizer isso em voz alta. — Mas mesmo quando eu era uma adolescente, você já tinha seu apartamento. – Com Laurel por um tempo. Intencionalmente omiti a segunda parte, ela não pertencia a essa conversa. – Visitava seus pais ocasionalmente, mas parecia gostar muito da independência.
— Eu amava ter um lugar só meu. — explicou — Acho que todo jovem homem ama ficar longe do olhar regulador dos pais.
— Falando assim, até parece que era um filho rebelde.
— Eu podia não ser, mas eu queria provar que apesar de meus pais serem ricos, eu poderia construir minha vida sem depender deles. – Honroso.— E tinha um bônus. – acrescentou com uma expressão de menino travesso que não me recordava de ter visto muitas vezes em Oliver.
— Todas as garotas que você podia levar para lá? – chutei, observando Oliver balançar a cabeça lentamente.
— Tente algo como ficar longe da tentação que era a melhor amiga da sua irmãzinha. — seus olhos cravaram em mim e apesar de meu corpo aquecer em resposta, não deixei que me pegassem com seu charme.
— Pode parar, Dom Juan. — avisei, socando-o de leve no ombro. Oliver aproveitou do meu movimento para pegar minha mão com a sua e me distrair brincando com ela. — Então, por que voltou? – continuei as perguntas.
— Depois que nossos pais faleceram eu fiquei por um tempo por causa de Thea. – isso fazia sentido — A mansão era o único lar que ela sempre conheceu, era familiar e aconchegante, não queria tirar mais nada dela. Pensei que Thea se sentiria mais completa, se ao menos, a memória dos meus pais estivesse sempre por perto – Deu de ombros, revelando que para ele não era exatamente assim. – Uma vez eu a perguntei sobre nos mudarmos para um lugar menor, com a nossa cara, mas ela ama essa casa. É o lar dela. Então eu fiquei, mesmo que eu não me sinta da mesma maneira. – Abnegado. — Eu quero dizer, eu tenho ótimas lembranças nessa casa, eu cresci aqui. E como você mesma disse, é perfeita. Mas tudo sobre essas paredes e janelas, me remetem ao passado. E eu acho que já é hora de seguir em frente com o que realmente quero para mim. – Oliver me olhou, como se eu fosse a resposta de alguma pergunta.
— Faz sentido. – E realmente fazia. Do mesmo modo de que em um momento, eu tive que seguir em frente e deixar Jonas para trás. Consciente de que eu não precisava visitar seu túmulo todas as tardes, meu filho sempre estaria comigo aonde quer que eu fosse.
— E acredito que um lar é muito mais do que uma coleção de paredes e móveis. – Oliver intencionalmente não me olhava nos olhos, seguia nossos dedos que teimavam em brincar de perseguir um ao outro — Embora algumas coisas tenham mudado recentemente. – seus olhos finalmente encontraram os meus com uma confiança que me tirou o ar. — Lar é onde o seu coração escolhe morar. – ele pausou, olhando-me intimamente e apertando minha mão – O meu já escolheu o dele. – Não contive meu suspiro. Como Oliver conseguia sempre encontrar as palavras mais belas para expressar seus sentimentos? Como era suposto que eu não me apaixonasse cada vez mais e mais por ele? — O que foi?
— O que foi o quê? – pisquei várias vezes, disfarçando a umidade que apareceu em meus olhos.
— Você suspirou. – Seus olhos se estreitaram, tentando me ler — Já te disseram que suspira muito?
— Não. – Mas já notei que eu só suspiro quando estou com você, porque você sempre diz todas as coisas que fazem meu coração querer gritar.
— E então?
— Então o quê? – Ele riu.
— Você faz isso de propósito. – acusou. — Me enrola apenas para não responder à pergunta.
— Hum... Talvez. – mordisquei os lábios. Seus olhos seguiram na minha boca, até que algo atrás de mim chamou sua atenção.
— Thea está nos observando. – informou.
— Como? – Assim que a pergunta saiu de meus lábios, senti o corpo de Oliver se aproximar praticamente se colocando em cima do meu, e prendi a respiração. O que logo percebi ser idiotice, porque eu amava o cheiro de Oliver, então, como todo viciado, eu decidi me fartar dele e tomei uma longa e profunda inspiração.
— Terceira janela. – Ele apontou, e me virei um pouco no espaço apertado. Tirei o cinto e me movi, tentando não me distrair com todas as partes certas do meu corpo esbarrando no de Oliver, para só então olhar a sombra da pessoa na janela. — Eu disse a ela para que não esperasse por nós.
— E é claro que ela esperou.
— É claro. – balançou a cabeça, sorrindo ao virar o rosto para o meu. Meros centímetros de distância.
— E você ainda acredita que ela desistiu da festa apenas porque você disse? – ergui uma das sobrancelhas, me forçando a me concentrar na conversa, mesmo que minha vontade fosse inclinar meu corpo e oferecer meus lábios para ele.
— Ela se assustou de verdade. – Oliver se ajeitou um pouco melhor uma das mãos se apoiando na minha cintura e brincando com a barra da blusa, seus dedos quentes intencionalmente esbarrando em minha pele nua. Escondi meu sorriso satisfeito ao perceber que ele não tinha nenhuma intenção de se afastar. — Ela sabe que tudo o que está acontecendo com você, na verdade deveria ser com ela. Thea quer te compensar, mas não sabe como. Acho que não importa quanto tempo passe, ela sempre vai se culpar por fazer você passar por tudo isso. – Ele lamentou — Queria poder fazer algo por ela também.
— Sempre achei tão bonito o jeito como você cuida de Thea. – toquei seu braço deslizando os dedos pela pele, subindo até aonde a manga três quartos me permitia ir e então fazendo o caminho inverso. Só agora, eu notava o quanto eu sentia falta dos nossos toques, e que isso me acalmava.
— Eu sempre cuido de quem eu amo. – respondeu com uma simplicidade tocante.
Suspirei novamente, ganhando seu olhar atento.
— Viu o que eu disse? Sempre suspirando... – sua outra mão se ergueu, as pontas dos dedos tocando meus cabelos e então descansando ao redor do meu rosto, emoldurando-o — Para sua sorte eu não vou te questionar dessa vez.
— Sorte minha. – sorri ansiosa e nervosa ao perceber que lentamente Oliver me puxava em sua direção, ao mesmo tempo em que a outra mão subia por dentro da minha barriga lisa, fazendo a blusa subir alguns bons centímetros. Minha pulsação acelerou. Dedos se aventuraram na borda do sutiã, me fazendo querer muito mais. Deslizei a mão por suas costas puxando sua camisa para fora ansiosa por tocar sua pele também, e logo movendo-a para frente em busca do cinto para soltá-lo.
— Ou sorte minha. – Um pouco mais perto. Puxei-o mais para mim, o corpo de Oliver praticamente estava em cima do meu. Fazendo-me arfar. — Gosto dos seus suspiros. – minha respiração se tornou espaçada e ofegante, a boca levemente entreaberta e ansiosa para sentir novamente a pressão de seus lábios sobre os meus. — Gosto principalmente de imaginar as causas dele.
Você. Sempre você.
— Temos que entrar. – falei, apenas por falar.
— Sim. – Concordou, mas não se afastou. Oliver perdeu o pequeno suspiro que dei quando a ponta de seu nariz dançou pelo meu pescoço, subindo pelo meu rosto, a respiração quente acariciando a pele pelo caminho, fazendo-me mover a cabeça procurando faminta por sua boca. — Thea já deve ter pegado um binóculo para enxergar o que estamos fazendo dentro do carro até agora. – seu riso foi pequeno, mas o suficiente para fazer meu corpo balançar junto com o seu. Para me fazer querer mais desse balanço contínuo.
— E o que estamos fazendo, Oliver? – instiguei.
— Nada. – meu coração afundou ao ver que ele havia parado, o corpo já não mais pressionado ao meu. Recebi apenas um leve beijo na bochecha para depois ver Oliver se afastar voltando para o seu lugar ajeitando o cinto que eu havia soltado — Pelo menos não aqui aonde qualquer um possa ver e não agora.
— Certo. – ajeitei minha roupa freneticamente. Eu estava a porta de casa, dentro de um carro, com alguém nos olhando pela janela e mesmo assim ansiosa para ter sexo? Definitivamente era algum tipo de reação exagerada. Empurrei a porta, abrindo-a e deixando uma lufada de ar frio trazer de volta a minha lucidez e apagar um pouco do fogo que Oliver colocava em mim.
— Espere. – Oliver disse, segurando meu braço antes que eu pudesse sair — Esqueci de entregar sua bolsa e seu celular. – Ele fez questão de dizer o último com um maldito sorriso no rosto. Um sorriso que eu sabia bem o porquê estava lá.
Segurei minha bolsa contra o corpo o encarando.
— Podemos fingir que você contratou um superhacker que decodificou minha senha? – gemi, um pouco envergonhada.
— Não. – seu sorriso cresceu ainda mais — Eu gosto de ter acertado de primeira.
— De primeira? – arregalei meus olhos, surpresa. Como?
— Eu não estava realmente esperando que desse certo. – explicou lendo a pergunta em meus olhos — Para ser sincero eu não estava sequer tentando, apenas digitei a primeira coisa que veio a minha mente quando pensei em você.
Dessa vez, eu sorri também.
— Suíça. – repeti a senha, observando seus olhos ganharem uma tonalidade diferente de azul, que estranhamente me lembravam as águas de onde a nossa “Suíça” estava atracada.
— É importante para mim também, Felicity. – suspirei mais uma vez. Deus! Eu precisava encontrar um modo de controlar isso. — Espero que possamos voltar lá em breve... – instintivamente me retraí. Minha última lembrança de lá ainda era um pouco borrada, mas definitivamente ruim. — Não, espera, amor. – seu toque terno ao redor do meu rosto, os olhos doces no meu, afastaram a sensação ruim — Eu quero fazer novas e belas memórias, algo forte o suficiente para apagar o que tentaram fazer com você lá. Não podemos deixa-lo tirar nosso lugar de nós.
Oliver estava certo.
Slade já havia tirado demais.
— Se você vai estar lá, então todas as memórias serão belas. – sorrimos um para o outro, nos aproximando vagarosamente. Seu olhar abaixou até meus lábios, e meus olhos começaram a se fechar.
A luz da entrada se acendeu iluminando toda a mansão fazendo com que nos afastássemos abruptamente, alguém esperava por nós.
— Melhor entrarmos. – Oliver concordou, saindo e me encontrando do outro lado do carro. Sua mão se colocando em minhas costas enquanto subíamos os pequenos degraus.
— Como está se sentindo? – perguntou, com um tom cordial que mascarava um recente nervosismo.
Com vontade de voltar para o carro e continuar o que paramos.
— Bem. – Dei de ombros, dando a resposta padrão.
— Bem o suficiente para ter em mente que tudo o que faço é apenas para o seu bem? – estreitei meus olhos desconfiada de sua expressão cautelosa. – Eu só quero que seja feliz, mais nada.
— Oliver? – parei, meus pés não mais querendo dar os passos que faltavam até a porta — O que você fez? Tem realmente uma festa surpresa me esperando?
— Uma festa não, mas surpresa é um jeito de ver as coisas. – respondeu evasivamente.
— Eu não gosto de surpresas.
— Eu sei. – sua mão acariciou minhas costas entre as omoplatas, tentando me acalmar, supus. – E eu espero muito que não me odeie por essa. – Antes que Oliver pudesse se explicar, a porta a nossa frente se abriu e a “surpresa” de Oliver me encarou com seus olhos nervosos e idênticos aos meus.
— Olá, filha.
***
Cinco anos.
Eu não havia visto ou falado com minha mãe, por longos cinco anos. Foi uma barreira que eu mesma impus. Depois da forma como eu sai de casa, eu deixei toda aquela raiva dos meus pais crescer como uma erva daninha e fincar suas raízes bem fundo no meu coração. Eles sempre diziam que eu era a menina de seus olhos, o orgulho deles, mas a verdade é que só me queriam sem a inconveniência de ser uma mãe solteira.
Eu prometi que seria uma mãe melhor para o meu bebê, naquela época. Tolices. Donna Smoak foi, em grande parte da minha vida, uma mulher incomparável, linda e vivaz, e uma mãe sempre presente, com péssimos conselhos sobre garotos e moda, mas com os melhores abraços, capazes de colocar todo o mundo caótico de uma adolescente em ordem. Deixa-la me fez perceber o quanto eu amava e precisava dela em minha vida, o quanto o laço de mãe e filha é precioso.
Mas orgulho é um sentimento tão destrutivo.
Ele nos força a fazer o contrário do que queremos, apenas para provar um ponto. Eu fiz isso, e adivinha só? Apenas causei mais dor.
Eu nunca retornei suas ligações, nunca fui visita-la. As cartas começaram a chegar pouco tempo depois de eu perder Jonas, foram todas lidas e guardadas dentro de uma caixa de papelão e escondidas no canto mais escuro de um armário. Nunca foram respondidas. Às vezes, quando eu me sentia sozinha e a falta dela amargava, eu relia uma das suas cartas. Não havia nada demais nelas. Não houve pedido de desculpas, já havia se passado muito tempo para isso. Também não havia sugestão de nos encontrarmos, essa deveria ser minha decisão. Suas cartas de modo geral não falavam nada importante, mas de certa forma eram tudo o que eu precisava. Donna apenas escrevia algo aleatório e bobo sobre seu dia, como a briga com a cabeleireira que havia cortado seu cabelo mais do que deveria, ou do carro que quebrou quando ela estava indo para praia. Eram coisas estúpidas e sem valor, mas ela sempre terminava a carta escrevendo “com amor, mamãe”. Muitas noites eu me via abraçando um pedaço papel, tentando sentir seu amor ali.
Eu sempre me perguntei como seria vê-la novamente. Eu iria notar as rugas mais aprofundadas em seu rosto sempre tão bonito? Haveria fios brancos em seu cabelo loiro ou será que ela os pintaria? Quando ela falasse comigo, eu sentiria meu peito se rasgar ao meio ao me lembrar de sua doce e melodiosa voz, dizendo que tudo ficaria bem, que encontraríamos um jeito, juntas? Ainda sentiria a frieza daquela traição, quando escutava ela e meu pai discutirem a melhor forma de me livrar do meu filho?
Mas eu nunca imaginei, ou esperei que agiria da forma que agi.
Eu corri para seus braços.
A apertei fortemente num abraço necessitado e inspirei fundo, engasgando porque sentir que ela ainda tinha o mesmo cheiro de loção de coco e bolo de baunilha, me fazia rir e chorar ao mesmo tempo. E então eu chorei ainda mais, porque ela me abraçava de volta. Porque ela também me cheirava. E também ria e chorava.
Ela era minha mãe afinal, eu podia não entender suas razões, mas ela ainda era e sempre seria minha mãe. Eu entendia isso tão bem agora que era uma mãe também. Como não foi para ela quando eu desapareci? Quando recusei sua presença em minha vida? Eu conhecia a dor de perder um filho, e me odiei por causar essa dor à mulher que eu mais amava no mundo. Meu filho foi tirado de mim, e o de Donna Smoak escolheu deixa-la.
Eu finalmente senti uma parte de mim voltar e se estabelecer em meu coração, uma parte errante que eu mesmo havia mandado embora. Meu coração se acalmou, e de alguma forma eu acreditei que tudo ficaria bem.
Seu abraço, mais uma vez, colocou tudo em seu devido lugar.
Como se cinco anos não tivessem passado.
Como se eu ainda fosse aquela garotinha que procurava o colo da mãe quando ralava o joelho.
— Você cresceu tanto. – ela ria e chorava ao mesmo tempo, borrando sua maquiagem, suas mãos ao redor do meu rosto alisando o cabelo. Olhos percorrendo minha face minuciosamente e catalogando todas as mudanças. — É uma mulher. – seu tom era nostálgico — Minha menina é uma linda e incrível mulher. – sua voz quebrou ao final e minha mãe voltou a me puxar para si em um novo abraço apertado.
— Você está diferente também. – notei tocando os cabelos mais curtos, cortados a altura do ombro num corte despontado. Donna Smoak sempre foi uma mulher deslumbrante para a sua idade. O tempo parecia não ter efeito sobre ela. – Gostei assim.
— Me perdoe, filha. – Eu estaria mentindo se não dissesse que esperava isso dela. Mas não assim, tão direto.
— Eu... – Mas o que eu poderia dizer? Que a perdoava por sugerir que eu desse meu filho à adoção? Apenas engasguei, um bolor se formando e fechando minha garganta, me impedindo de dizer qualquer coisa mais.
— Desculpe. – falou um pouco sem jeito — Eu estou atrapalhada, me adiantando. Eu estou tão nervosa, olhe só. – esticou as mãos, com suas belas unhas pintadas em um azul elétrico, elas tremiam. — Eu retiro o que disse sobre o perdão. – franzi o cenho. – Não “retiro, retiro.” – tentou se explicar, e meio que sorri, descobri de quem eu tinha puxado o meu desajuste social. — Eu estou fazendo tudo errado! Eu só quero saber se pode me ouvir primeiro, e então decidir se é capaz de perdoar essa mãe, que tomou todas as decisões erradas, mas que nunca deixou de amá-la e que em todos esses anos sofreu com saudades da filha. – Eu senti sua falta também, mãe. Durante todos os dias. Cada hora. Cada minuto. Eu senti sua ausência.— Você sabe que é verdade, é uma mãe, entende como esse laço é.
Eu entendia.
Por isso doía tanto.
— Podemos conversar. – concedi, secando meu rosto e limpando meus olhos das lágrimas. Encarei o hall de entrada, disposta a pedir um pouco de privacidade e só então notando de que já estávamos sozinhas. Oliver havia convenientemente desaparecido.
Sequei minhas lágrimas e caminhei com minha mãe até a sala de estar da mansão. Respirei fundo vária vezes buscando me controlar antes de me sentar e encará-la. Eu não estava pronta para ter essa conversa com ela. A verdade é que eu jamais estaria. Por isso eu passei todos esses anos negando sua aproximação, mas eu havia aprendido que reprimir sentimentos e esconder a mágoa dentro de um canto esquecido do coração, vai nos destruindo pouco a pouco.
Eu não queria mais ser assim.
Eu estava tão perto de recuperar meu coração, e quando o fizesse, não queria que estivesse manchado por algo ruim.
Era hora de enfrentar.
— Eu acho melhor começar arrancando logo o band-aid do ferimento. – Donna me olhou com um semblante nervoso. Ela se sentou no sofá junto a mim, e notei que embora sua vontade fosse de estar mais perto, ela colocou uma distância entre nós. Dependeria apenas de mim rompê-la. — A última vez que a vi você chorava. – começou, a voz expressando toda a tristeza de suas palavras – Hoje ao me ver você chorou novamente, e mesmo sabendo que são lágrimas por motivos diferentes, essas também me machucam. Porque sei que são lágrimas que ficaram reprimidas por tanto tempo, por minha culpa. — Balancei a cabeça, negando. Minha teimosia tinha muita culpa nessa história também.
— É complicado, mãe.
— “Mãe” – repetiu com um sorriso e mais lágrimas vieram, rolando grossas e seu controle pelo seu rosto. – Você não tem ideia do quanto eu senti tanta falta de ouvir sua voz dizendo essa palavra.
— Senti falta de dizer também. – confessei, percebendo o tamanho do vazio que havia em mim, desde que parei de dizê-la.
— Será que podemos voltar naquela noite? – assenti, sabendo bem a qual noite ela se referia — Você chorava tanto naquela noite. Tem ideia do quanto doía em mim as suas lágrimas? Eu queria tanto te ajudar, fazer as lágrimas desaparecerem e te dar conforto e carinho. É para isso que uma mãe serve, primordialmente. Mas você não me deixava alcança-la, quando finalmente me contou que estava grávida, eu senti seu medo, vi em seus olhos o quanto estava confusa e triste. Mais do que isso. Estava machucada e em pânico. E não havia nada que eu pudesse fazer para tirar a sua dor. – eu me lembrava da confusão que eu era naquele dia, desde o momento em que olhei o resultado do teste de farmácia em minhas mãos, toda a vida que eu conhecia, todas as certezas que tinha, desapareceram. — E então eu a pressionei sobre o pai do bebê e tudo desabou. As lágrimas se tornaram mais grossas e acompanhadas de soluços, você não falava, apenas chorava compulsivamente. Parecia um animal ferido e acuado. Eu temi pela minha filha, pelo o que a havia ferido tão profundamente que ela se recusava a partilhar comigo. Eu era sua mãe, queria que se abrisse comigo, eu não entendia o porquê não fazia. Eu nunca me senti impotente, sentia que eu havia falhado como mãe. – eu olhava para minha mãe, absorta em sua história. Não era curioso como, apesar dessa ser a minha história, ela parecia completamente diferente vista por seus olhos? — E então minha mente começou a viajar nas várias opções... Primeiro eu pensei que você estivesse com vergonha de me dizer quem era o pai, mas eu logo descartei, pelo modo como você parecia machucada e então eu apenas deduzi que algo muito pior e mais grave havia acontecido, que talvez tivesse ido em alguma festa e bebido demais ou que tivessem colocado algo na sua bebida e... – ela não terminou, mas não precisava.
Toda história tem vários lados, e quando estamos cegos demais, perdidos em nós mesmos, na nossa dor, perdemos o todo. Donna viu sua filha grávida, assustada e ferida, e apenas assumiu o pior, uma vez que eu jamais me abri com ela.
— Você pensou que eu tinha sido abusada. – constatei.
— Passou pela minha cabeça. — Eu nunca parei para pensar o que minha mãe sentia, eu só via meu lado da história. O meu desespero. A minha dor. — E quando seu pai falou em aborto eu vi o quão assustada você ficou. E queria te dar outra opção, uma menos radical. Por isso falei em adoção, apenas para amenizar um pouco as coisas, eu sabia que nada seria decidido naquela noite. – Mas foi. Completei com as palavras implícitas — Eu pretendia conversar com você no dia seguinte, depois que estivesse descansado e se acalmado, eu levaria uma caneca fumegante de chocolate quente e ofereceria meu ombro para você chorar, meus ouvidos para desabafar, mas no dia seguinte...
— Eu já tinha ido embora. – completei.
— Sinto muito por ter esperado para falar com você, eu deveria ter dito imediatamente que eu nunca, nunca iria força-la a fazer qualquer coisa que não quisesse. – ambas as mãos de minha mãe apertaram a minha, a urgência para que eu a entendesse era quase desesperadora.
— Eu sinto também. – consegui dizer — Eu estava assustada e magoada, eu era uma menina imatura, e eu sinto muito por não ter confiado em você. – apertei sua mão de volta — Eu deveria ter contado tudo, mas quando vocês começaram a discutir o que fazer com o meu filho e eu me senti como uma marionete, que se eu não arrebentasse os fios, estaria condenando um bebê inocente à um futuro incerto. Eu estava uma bagunça, mas eu já amava o meu filho. – ela assentiu, me entendendo como apenas outra mãe podia.
— Eu era a sua mãe, eu deveria ter ido até você no instante em que fugiu, mas com a eminente prisão do seu pai eu tinha apenas muito para lidar, resolvi te dar seu tempo e espaço, de alguma forma eu sabia que você tomaria a decisão certa. – eu já não tinha a mesma certeza que ela. Tomei tantas decisões precipitadas e erradas... — Eu procurei por Thea no dia seguinte da sua fuga, ela me contou para onde você tinha ido, e eu a fiz prometer que me manteria informada sobre você e meu neto. – Tive que limpar uma lágrima que escapou. Ver minha mãe chamando Donna de seu neto, era mais do que eu esperava. — Pedi para que ela sempre me informasse caso precisasse de alguma coisa. E então, eu deixei você ir, com um peso no coração, mas sabendo que era sua vida, e suas escolhas. Além disso, você sempre foi uma garotinha muito responsável. – sua voz se tornou mais baixa e grave, avisando que o tom da conversa mudaria um pouco. — Eu sinto muito não ter estado lá quando você o perdeu, eu estava envergonhada do que tinha dito a você. — confessou — Esses anos todos eu esperei, esperei pelo momento certo para me aproximar, para me explicar a você. E de repente o momento passou e parecia apenas errado te procurar e cutucar a ferida. Por isso me limitei a mandar aquelas tolas cartas.
— Não eram tolas, muito obrigada por elas. – agradeci. – Eu não sei como explicar, mas de alguma forma elas me ajudaram a não me sentir tão sozinha.
— Queria ter feito mais. – Eu queria que ela tivesse feito também, queria que eu tivesse tomado decisões diferentes. Mas assim é a vida e ela não vem com um manual e todas as decisões certas. Cometer erros é parte de quem somos e muitas vezes determina quem seremos.
Voltei meus olhos na direção da porta quando um leve fungar chamou minha atenção. Oliver estava ali, o corpo encostado de forma displicente no batente. Ele consertou a postura ao perceber que sua presença tinha sido notada.
— Eu só queria checar se está tudo bem. – Se explicou. Oliver me olhava ainda com receio, e um pouco sem jeito por estar ali nos observando.
— Estamos bem. – assegurei. — Obrigada. — apenas movi os lábios formando a palavra. E mais uma vez Oliver meneou a cabeça, passou as mãos pelo cabelo parecendo um pouco encabulado antes de murmurar um “com licença” e nos deixar novamente a sós.
Continuei a olhar para o lugar vazio em que antes ele estava, o coração reagindo tão descontrolado como sempre que o via. Imaginando como ele poderia ser tão bom em me dar exatamente tudo o que eu precisava, mesmo que não fosse o que eu queria.
— É Oliver, não é? – minha mãe questionou, seu rosto com um daqueles olhares que me desafiavam a mentir.
— O que disse? – ela apenas sorriu, como se eu tivesse confirmado suas suspeitas.
— Você sempre responde minhas perguntas com outra pergunta, quando sabe que estou certa e quer ganhar tempo. – um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— Eu faço isso? – perguntei com falsa inocência.
— Viu? Fez de novo. – apontou contente por provar seu ponto, e eu acabei rindo. Mesmo depois de anos, minha mãe ainda me conhecia bem. Não era tarde demais para recuperarmos o tempo perdido. — Eu confesso que estou surpresa. – seu rosto assumiu um tom mais sério, pensativo, olhos meticulosos analisando minha reação. — Eu sempre soube da sua paixonite por Oliver quando adolescente, eu apenas não esperava que pudesse evoluir... – senti minha garganta se fechar, nós não tínhamos exatamente evoluído. — ...Eu sinto muito, meu bebê. – me confortou.
— É passado. – Dei de ombros.
Era o passado mais presente que existia.
— Um primeiro amor nunca fica no passado. – discordou — Ele nos marca, e em você a marca foi ainda maior, gerou um vínculo que jamais será desfeito. – suspirei, ciente de que tudo o que ela falava era verdade. — Ele era noivo, não? – assenti, percebendo o quanto eu gostaria de ter falado com minha mãe sobre isso antes. De ter aberto meu coração para o quanto Oliver me machucou naquela época. Eu não recebi julgamento dela, apenas alguém que tentava me entender e estar ali por mim. – Ele recusou assumir o bebê porque estava noivo? É por isso que não quis nos contar quem era o pai? – sondou, uma ligeira carranca aparecendo em seu rosto bonito. Eu podia dizer, apenas pelo seu olhar intenso, que Donna Smoak estava pronta para matar Oliver Queen, sem nenhuma piedade.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Ele não sabia, mãe. – apressei-me em dizer, não queria que ela o culpasse. – Nós ficamos juntos uma única vez, a minha primeira. – expliquei. Contente por eu já consegui pensar naquela noite sem sentir meu peito apertar. – E embora tenha sido um momento sentimental para nós dois, Oliver se arrependeu imediatamente, movido por todos os motivos pelos quais não poderíamos ficar juntos, pelos quais jamais daríamos certo. Pelos quais éramos um erro.
— E foi assim que ele quebrou seu coração. – apenas assenti.
— Eu não queria que ele visse o bebê como um erro para ele também. – expliquei baixinho. – Eu pretendia contar em algum momento, eu quase o fiz algumas vezes, mas sempre deixava para depois.
— Isso faz mais sentido. – senti seu toque em meus cabelos, suave e acolhedor. — Talvez seja por isso que Oliver esteja tão afoito em fazer as coisas certas entre vocês dessa vez, mostrar que pode confiar nele. – ergui meus olhos, encarando-a, tentando entender aonde ela pretendia chegar. – Esse amor já sofreu muitos desencontros.
— Nós não... – Não terminei. O que eu diria? Nós não no amávamos?
— Você não percebe? Oliver cuida de você como se fosse o mundo dele. – Estudei cuidadosamente as palavras da minha mãe sobre Oliver e seus sentimentos por mim. Ela não disse que eu era alguém importante. Nem mesmo alguém que ele amava. Mas sim o mundo dele. — Este homem não vai aceitar perdê-la novamente, ele está disposto a curar cada pequena cicatriz que seu coração carrega, apenas pela felicidade de te ver inteira e feliz. Espero que perceba isso, espero que retorne esses sentimentos com a mesma intensidade que ele.
— Eu não...
— Não? – ela desafiou, então me calei. Não seria certo falar sobre como me sentia sobre Oliver, antes de falar com ele. — Continua sendo uma péssima mentirosa. – Você não faz ideia de como melhorei. — É tarde, você deve estar cansada e pelo que entendi acabou de passar por algo difícil, não quero incomodar conversando a noite inteira. – abri minha boca para contestá-la, mas não o fiz. Eu desejava que este longo dia acabasse logo, ansiava por um amanhã melhor. — Oliver foi muito generoso me convidando para ficar, então conversamos melhor amanhã. – pisquei. É claro que ele havia a convidado! Quando ele conseguiu tempo para resolver tudo isso e ainda me tirar da prisão? — Ou depois. Não temos pressa. Dessa vez estou aqui por você, para qualquer coisa. – assegurou-me, se levantado.
— Obrigada. – me ergui também.
— Não. – negou, balançando a cabeça, sua mão gentilmente acariciando o meu rosto com ternura. — Eu que agradeço, por me permitir ser sua mãe outra vez.
A abracei.
Porque percebi que tinha cinco anos de abraços atrasados para recuperar. E eu queria todos eles.
Logo abri meus olhos, como se pressentisse sua presença. E ali estava Oliver, novamente escorado a entrada, dessa vez com um preguiçoso sorriso satisfeito iluminando o seu rosto enquanto nos observava.
— Eu não queria interromper, mas eu acredito que Felicity precisa comer alguma coisa e descansar. – Minha mãe e eu nos separamos e como se concordasse com as palavras de Oliver meu estômago roncou alto, me lembrando de que eu não havia comido nada naquele dia. – Foi um longo dia.
— Vê o quanto ele cuida de você? – minha mãe sussurrou apenas para mim lançando-me uma piscadela e caminhou até Oliver, medindo-o dos pés à cabeça.— Eu ainda não decidi se o aprovo como namorado da minha filha.
— Mãe! Eu tenho vinte e três, acho que sou grandinha o suficiente para escolher meus namorados. – interrompi, antes que ela me fizesse passar por uma vergonha ainda maior.
— E eu continuo tendo o direito de avalia-los. – Ergueu o queixo de um jeito petulante — Boa noite. – nos desejou, mas antes de deixar o recinto olhou por cima dos ombros diretamente para Oliver — Oliver, eu tenho o sono leve, e pelo que Thea me disse eu estou no quarto ao lado do de Felicity. – informou com o olhar afiado — Nada de escapadas no meio da noite.
— Sim, senhora. – Oliver assentiu todo respeitoso, me fazendo engasgar com um quase riso. — Tenha uma boa noite.
— Sim, senhora? — debochei do seu jeito certinho. — Você não vale nada. – Dois passos e ele estava de frente a mim, com um daqueles sorrisos que cataloguei como apenas meus.
— Quer dizer que agora eu sou seu namorado? – Seu tom era levemente divertido. E Deus! Como era bom ver um sorriso bem-humorado em seu rosto outra vez depois de tudo o que passamos... Mas seus olhos não escondiam uma preocupação real e ansiosa por uma resposta.
Namorado.
Estranhamente meu coração já não mais protestava com medo da palavra e todas as implicações dela. Ao contrário disso, ele batia ávido pela aceitação, querendo mais do que tudo poder ser ela.
Observei o sorriso de Oliver se tornar ainda maior e a preocupação ser substituída por algo mais cálido e esperançoso, quando sorri de volta e entrelacei minha mão na dele.
— Eu não me lembro de ter sido feito um pedido. – Oliver riu do meu atrevimento, a promessa de algo mais brilhando através de suas íris.
— Vem. – me chamou indicando o caminho das escadas — Vamos dar um jeito na sua mão.
Subimos as escadas e contrariando todos os avisos da minha mãe, Oliver entrou em meu quarto comigo. Me dei um minuto para observar o lugar que não me pertencia, mas que eu vinha chamando de meu. A última vez em que tinha estado aqui, eu havia feito minhas malas para ir embora. Oliver havia desaparecido por quase uma semana depois de descobrir sobre o nosso bebê, e eu apenas senti que era errado continuar aqui. E agora, com minha mão ainda unida a de Oliver, aquele período em que ficamos separados parecia distante e opaco. A mera ideia de ir embora e deixar Oliver uma outra vez, impensável.
Dei um passo a frente, minha mão soltando-se da de Oliver apenas para tocar as paredes, sentindo a textura lisa do papel com desenhos vitorianos. Era estranho sentir saudades, não exatamente de um lugar, mas das lembranças nele vividas?
Eu havia lhe contado sobre Jonas aqui.
Ele se foi depois disso, mas ainda assim, havia sido neste lugar que eu contei a Oliver que ele era pai.
E apesar de essa ser uma lembrança triste, essas paredes viram e ouviram tantas outras lembranças. Bonitas e felizes. Eu sequer fazia de quantas vezes nós fizemos amor nesta cama, quantas vezes rimos, quantas vezes Oliver se doou para mim de corpo, alma e coração, mesmo que eu estivesse quebrada demais para fazer o mesmo.
Essas paredes me viram ruir, mas também me viram reaprender a amar.
Reaprender a ter um coração.
— Novos girassóis. – Sorri tolamente tocando as pétalas suaves das enormes flores colocadas no vaso sobre o criado mudo ao lado da cama.
— Eu queria que tudo estivesse perfeito quando voltasse para cá. — Eu estou aonde você está, Oliver, não tem como ser mais perfeito do que isso.
— Um novo suspiro. – eu sequer havia notado que o havia feito — Vai me dizer dessa vez? – num único passo largo, ele se colocou a minha frente, seus olhos chamando os meus, e me vi incapaz de olhar para qualquer outra direção.
— Uma escritora a qual não me lembro o nome disse certa vez que “um suspiro é uma censura ao presente e um sorriso ao passado.” – citei a frase famosa recebendo de Oliver uma ligeira torção nos lábios. Não era o que ele esperava.
— E o que é para você? – insistiu, e dessa vez um pequeno passo foi dado. Distância não era uma palavra conhecida por nós.
— Apenas meu coração dizendo o que ele quer, mas acha que não pode ter. – disse a verdade, não havia razão para esconder algo de Oliver. Não quando eu queria que ele tivesse tudo de mim. Cada pensamento. Cada batida do meu coração. Cada maldito suspiro.
— Diga ao seu coração, que ele pode ter o que quiser, amor. – dedos deslizaram suavemente pelo o meu rosto, seu tom era otimista.
— Meu coração é meio idiota às vezes. – abaixei o olhar, mas sua mão capturou meu queixo, o polegar o acariciando ao fazer-me encará-lo novamente.
— Não são todos os corações apaixonados assim? – meu coração bateu mais forte concordando. – Sente-se. – indicou a borda da cama com um mero movimento de cabeça e o vi se afastar e retirar uma caixa da gaveta. – Precisamos cuidar da sua mão. – pousou a caixa sobre a cama. — Sente-se.
— Não é realmente necessário, foi apenas um arranhão. – a puxei para mim segurando-a contra o peito e ignorando seu pedido. Estava um pouco dolorida, mas não era nada importante.
— Você quebrou o nariz da mulher, amor. – ele falou com calma — Foi preciso muita força para isso.
— Eu tinha muita raiva acumulada. – Ele entendia, sabia que o fazia. Oliver tinha sua própria raiva guardada, acumulando e esperando o momento certo para sair.
— Sente-se, por favor. – Pediu novamente e dessa vez me sentei, mas com suspiros de protestos.
Oliver sentou-se ao meu lado, e delicadamente pegou minha mão colocando-a sobre sua coxa. Logo me arrependi de ter protestado tanto contra seus cuidados, não apenas porque gostava de ter minha mão ali, mas porque era bonito de ver a forma cuidadosa e meticulosa com que Oliver cuidava dos meus ferimentos, explicando-me pacientemente passo a passo do que estava fazendo. Se ele não fosse um advogado, teria se dado muito bem na carreira médica, embora eu acredite que o índice de pacientes mulheres que desmaiariam em seus braços após verem seu sorriso fosse ser alto.
Não me surpreenderia se lhe dessem algum apelido, algo como... Dr. Delícia.
— Pronto. – anunciou, após terminar de enfaixar minha mão, fazendo meus pensamentos sobre um Oliver médico se dispersarem.
— Obrigada, Dr. Queen. – não resisti. Ele apenas sorriu arrumando tudo e guardando as coisas de volta na gaveta, parecendo um pouco sem jeito, e novamente negando o meu agradecimento.
— Tome um banho demorado e descase bastante. Eu vou pedir para alguém na cozinha subir com o seu jantar. – Eu observei, ainda sentada na cama, Oliver se afastar. Me dando espaço, talvez? Eu não queria espaço entre nós. Eu queria estar tão perto quanto era possível.
Intimamente perto.
— Oliver? – Me ergui apressada, segurando em seu braço, não queria que ele fosse embora — Por que está fazendo tudo isso por mim? – o questionei, ganhando seu cenho franzido e olhar confuso no meu.
— Cuidando do seu ferimento?
— Não apenas desse. – minha mão era o menor dos meus machucados. — Você não precisava trazer Donna Smoak para a história, mas a trouxe porque sabia que era uma ponta solta na minha vida, um machucado que precisava ser cuidado. E que eu era teimosa demais para admitir que queria minha mãe de volta. – Oliver sempre via tudo de mim, assim tão facilmente? — Você cuida de tudo e nem me deixa agradecê-lo.
— Você sabe o porquê. – meu coração reverberava alto dentro do peito, como um aluno dedicado que sabe a resposta e erguia a mão para dizê-la. — Eu estou apenas cuidando de você. – seu sorriso me dizia que havia mais — É o que eu faço, amor. – se despediu com um pequeno beijo sobre minha testa. E enquanto eu olhava para sua silhueta desaparecer além da porta, as palavras que ele me dissera naquele mesmo dia mais cedo vieram a minha mente.
Eu sempre cuido de quem eu amo.
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