Guilty Pleasure
21 Capítulo 19 - Fix what I’ve broken
Notas iniciais
There goes my heart beating
Cause you are the reason
I'm losing my sleep
Please come back now
There goes my mind racing
And you are the reason
That I'm still breathing
I'm hopeless now
I'd climb every mountain
And swim every ocean
Just to be with you
And fix what I've broken
Oh, cause I need you to see
That you are the reason
(You are the reason – Calum Scott)
♥
Felicity Smoak
Tirei minhas botas jogando-as com toda força por cima do ombro, sem me incomodar que elas tivessem batido num vaso de planta e destruído boa parte das folhagens. Eu estava frustrada e não iria me esforçar para disfarçar isso. Sentei-me ao chão colocando o jornal daquele dia ao meu lado, dobrei a barra da calça até a altura dos joelhos, e estiquei minhas pernas até que os dedos tocassem a superfície da água. Instintivamente comecei a puxar os meus pés ao sentir o calafrio subir pela espinha e todos meus pelos se arrepiarem. Meu corpo estremeceu, protestando contra o que eu lhe infligia, mas continuei. Molhar os pés na piscina quando a temperatura estava mais perto de zero e o sol se escondia por trás das nuvens, definitivamente não era uma boa ideia. Meu corpo sabia disso e meu cérebro também. Mas hoje eu não estava sendo muito inteligente.
Já disse que estava frustrada?
Afundei meus pés ainda mais na água, balançando-os. Meus olhos perdidos nas pequenas ondas e círculos que eu desenhava com os meus movimentos aleatórios, minha mente intencionalmente ignorando o tremor do meu corpo, que aos poucos foi diminuindo. A água fria tinha sido opressora num primeiro momento, mas por fim eu acabei me acostumado. Não é irônico a facilidade com que somos capazes de nos adaptar ao que é ruim?
Eu tive minha cota de coisas ruins na vida e assumo que é mais fácil viver em meio a comiseração, a dor, simplesmente porque já conhecemos o nosso ambiente, geralmente não tem como ser pior do que o fundo do poço.
Talvez fosse por isso que o meio termo em que me encontrava agora era tão frustrante. Eu odiava ficar naquela espera sem fim, sem saber o que seria da minha vida. Eu voltaria para a prisão? Ou teria uma segunda chance para finalmente viver minha vida da forma que ela merecia ser vivida? Quanto mais me restava de tempo?
Bufei batendo o pé com mais força sobre a água, fazendo-a espirrar e molhar meus joelhos e respingar nas páginas finas do jornal. Deslizei uma das mãos na primeira página, tentando minimizar o dano, mas tudo o que conseguir foi manchar ainda mais as letras.
Meus dedos pararam exatamente sobre a data de hoje.
O que tinha acontecido com os dias?
Voaram, exatamente como naqueles filmes em que as passagens de tempo são mostradas por folhas dos calendários caindo. Ou as estações mudando enquanto nós observamos inertes pela janela.
Desde que eu saíra da prisão há três semanas, meus dias se limitaram a ficar dentro de casa jogando conversa fora com Thea e Roy, provocando Ronnie e recuperando o tempo perdido com minha mãe (que continuava a dormir no quarto ao lado do meu e me fazendo questionar se era por isso que Oliver não tornara a colocar os pés no meu quarto). Falando em Oliver, ele estava quase sempre ocupado no trabalho. Eu nunca tinha o visto tão absorto em algo, mesmo quando ele estava em casa a mente dele parecia estar em outro lugar. Eu era ciente que faltava poucos dias para minha audiência, e ainda havia muitos procedimentos a serem feitos. Hoje, por exemplo, ele estava fora cuidando da seleção do júri.
Oliver disse que não precisava de mim no escritório, ele sempre me treinava e me preparava para a audiência em casa, e me deixava a par de tudo o que acontecia, mas eu sei que a verdade é que ele não queria me expor. Eu sei disso porque a primeira vez em que saímos da mansão, Oliver não chegou a três quarteirões da casa e deu meia volta assim que percebeu que estávamos sendo seguidos.
Repórteres.
E depois disso vieram as capas.
Sempre sensacionalistas e especulativas, nunca traziam a história real. Minha cabeça pendeu para o lado, meus olhos se fixando na manchete do jornal que eu tinha sob minha mão.
“Juiz Slade Wilson lamenta morte do filho em comovente homenagem”
Logo abaixo vinha uma grande imagem de Slade em seu terno escuro, de cabeça baixa parecendo triste e injustiçado ao sair de uma igreja. No canto direito superior, havia uma pequena e antiga foto minha, que parecia ter sido tirada na minha formatura do ensino médio, eu parecia tão feliz naquela época. Um contraste perfeito, moldado para fomentar o ódio e a incutir a sensação de injustiça em qualquer um que apenas olhasse.
Eu sou apenas um pai, como qualquer outro, e tudo o que desejo é justiça para o meu filho. Nenhum assassino ficará impune. — A declaração vinha em negrito e destacada no meio da reportagem, que em resumo focava na dor de um pai ao perder o filho.
A impressa era o verdadeiro palco de um circo onde Slade era o mestre de cerimônias controlando a opinião pública.
Essa não era a primeira vez que eu via uma dessas notícias. Ao longo das semanas eu fui alvo de muitos jornais, a pressão apenas aumentava a medida que o julgamento se aproximava.
Oliver achava que as escondia de mim.
Os televisores não eram mais ligados, os jornais que eram entregues diariamente todas as manhãs simplesmente desapareciam antes que eu pudesse chegar perto deles. Era fofo que ele sentisse necessidade de me proteger desse tipo de coisa, mas ao mesmo tempo, sem a menor necessidade. Palavras só tem poder sobre nós quando lhes permitimos isso.
Eu não me importava se estavam me chamando de assassina, eu sabia que não era uma. Nem mesmo Thea era. Mas eu me importava com todas as fotos em que eu via Slade criando um verdadeiro escarcéu sobre a morte do filho, dramatizando-a, e levando-a ao limite. Isso me enojava. Não apenas porque era irônico que o cara posasse de mártir e defensor da vida humana, quando ele mesmo tentou me matar. Mas porque eu conheci a dor da perda de um filho, sabia o quanto isso destruía alguém, o quanto o luto tira de nós e nos força a nos fechar, eu não compreendia como um pai era capaz de vender a sua própria dor com tanta facilidade.
Tudo o que eu conseguia pensar era em proteger meu filho, mesmo ele não estando mais aqui. Uma das razões pelas quais eu sempre me esgueirava pela cozinha de manhã, e retirava o jornal do dia que ficava escondido dentro da gaveta de facas, era essa, me certificar que não havia nada sobre Jonas nele. Eu aceitaria qualquer mentira sobre mim, com a cabeça erguida, mas jamais perdoaria se meu filho fosse explorado por aquele bando de abutres.
Nem mesmo que fosse uma pequena nota.
Por sorte, até o momento, não houve nenhuma menção.
Não posso dizer o mesmo sobre meu pai.
Eles tiraram o proveito ao descobrirem que Noah Smoak estava preso, e que sua filha parecia seguir os passos criminosos do pai. Mesmo que estelionato e homicídio fossem crimes completamente diferentes. Minha mãe ficou uma fera quando descobriu, mas de alguma forma foi bom, nós finalmente tivemos uma longa conversa sobre meu pai.
Não que tenha dado em alguma coisa, Donna se divorciou pouco tempo depois da prisão e ela parecia contente em estar distante dele, assim como eu. Me reconectar com minha mãe teve seu lado bom, mas ao mesmo tempo era difícil fingir com ela. Donna me criou, e mesmo estando afastada por tantos anos, ela me conhecia bem e estava sempre pronta para me abraçar ao menor sinal de tristeza em meu rosto. Mas eu não queria mais abraços, abraços sempre me lembravam de despedidas, e despedidas me faziam pensar que talvez eu estivesse indo embora em breve. Sendo privada de ter mais abraços.
Tudo o que queria era que o tempo desacelerasse, parasse até. Queria poder aproveitar o que eu tinha de bom agora, sem pressa, sem data de validade.
É por isso que eu estava na piscina em um dia frio.
Fugindo dos abraços que minha mãe me daria ao ver em meu rosto todas minhas reflexões e preocupações. Fugindo de Thea e Roy que tentariam alegrar meu dia com pipoca e um filme de comédia, ou uma competição de videogame. O que funcionaria por um tempo, até que eu me visse encarando com certa inveja aqueles pequenos momentos típicos de casal. Roy deixando Thea ganhar apenas porque gostava de ver a namorada feliz, Thea encostando a cabeça em seu ombro enquanto assistíamos um filme... Não gostava do feio sentimento de inveja que brotava em mim.
— O que está fazendo aqui? – não perdi o tom aborrecido na pergunta que interrompeu meus pensamentos, foi por causa dele que minha resposta veio sarcástica na mesma medida.
— Pensando que o dia está lindo para um mergulho, Ronnie. – Forcei um sorriso ao olhar por cima do ombro. Eu não queria perder a careta e o revirar de olhos em resposta a minha atitude debochada. Mas estranhamente eles não estavam lá.
— Eu sou seu segurança, caso tenha se esquecido. – Seus braços estavam cruzados naquela postura séria que assustaria a maioria das pessoas, mas eu já conhecia Ronnie bem o suficiente para saber que a cara de mau e o ar sério e fechado, não combinavam com a pessoa divertida que se escondia por trás da máscara. — Seria bom se me mantivesse avisado sobre seus passos. – Argh! Seu tom suave estava coberto de condescendência! Eu preferia um milhão de vezes tê-lo implicando comigo de volta. Ou discutindo. Ou agindo como o segurança implacável e durão que era suposto que fosse.
— Eu nem fui condenada ainda e você já quer colocar uma tornozeleira rastreadora em mim? – ele não riu da minha piada, não posso culpá-lo, era de extremo mal gosto. O que posso dizer? Eu tenho tendências a ser um pouco má e debochada, sem contar autodepreciativa quando estou frustrada. É minha fuga. — Eu estou dentro de uma casa forte, caso tenha se esquecido. – Olhei para os muros altos que cercavam a construção, se isso não bastasse para me sentir segura, Oliver havia atualizado todo o sistema de segurança com a ajuda de Ronnie depois de duas ocorrências de pessoas tentando pular o muro. Jornalistas querendo um furo. Eu disse para Oliver que não deveria ficar tão nervoso, afinal, o máximo que conseguiriam de mim seria uma foto de pijamas lendo um livro. Isso não dava notícia. Imagine a manchete “Acusada de assassinato lê Harry Potter nas horas vagas. Estaria ela tomando lições com o Lorde das Trevas?” — Não preciso de você para me proteger, relaxe um pouco, Ronnie.
Ele não relaxou, apenas arfou frustrado.
Bem, pelo menos agora eu não era a única.
Ronnie se abaixou ao meu lado, sentando sobre os tornozelos, uma das mãos se colocando sobre meu ombro e dando um leve aperto.
— Talvez não precise de mim agora para te proteger dos repórteres e outras coisas... – Slade. Era o nome que Ronnie se recusava a falar, era quase a versão de Voldemort nessa casa — ..., mas talvez precise de mim para te impedir de ficar gripada. – O pequeno sorriso zombeteiro em seus lábios trouxe algum alívio a tensão — Sua mãe nunca te disse para não entrar na piscina quando está frio?
— Eu não entrei na piscina, só estou molhando os pés. – Ronnie bufou em resposta, eu certamente estava testando sua quase inexistente paciência. – Apenas relaxe.
— Eu vou relaxar quando... – ele não terminou, os olhos seguindo em direção ao jornal ao meu lado seu rosto assumindo um tom mais avermelhado, de pura fúria ao puxar as folhas para suas mãos. — Você não deveria estar lendo essas merdas! Eu os escondo toda manhã.
— Então o senhor Queen passou para você o dever de esconder todos os jornais? – Questionei.
— Ele apenas não quer que você se chateie lendo isso. – Pelo tom de Ronnie, ele estava de acordo. — Você pode não perceber, mas ele se preocupa com você, Felicity. O tempo todo. – Meu coração deu uma batida mais forte, mas a ignorei.
— Eu não ligo para isso, Ronnie. – Peguei o jornal de suas mãos jogando no meio da piscina. As folhas se desprenderam e espalharam-se sobre a água, flutuando por um tempo.
— Hey! Eu queria ao menos ler o resultado dos jogos. – lamentou, e eu senti um prazer ainda maior em ver o jornal afundando na água.
— Você pode entrar e pegar. – desafiei.
— Bem que você gostaria de ver isso. – Tentei rir, mas não pareceu natural — Seus pés devem estar frios. – Eles estavam, mas eu estava fria também e já não me importava. – Você está bem? – A pergunta veio cálida e repleta de uma preocupação verdadeira. Não era Ronnie, meu segurança que me perguntava, e sim Ronnie, meu amigo.
— Me fale sobre Caitlin. – Desviei o olhar e ignorei suas perguntas — Conseguiu levar ela naquele restaurante caro sexta passada? – Ronnie suspirou e me lançou um olhar repreensivo, deixando-me saber que não gostava das minhas táticas furtivas para mudar de assunto, principalmente, quando Caitlin era a tática que sempre funcionava.
— Não. Mas conseguimos jantar, o que é um progresso. – Sorri ao ver o pequeno sorriso feliz no rosto de Ronnie. — Quero dizer se você contar a metade de um sanduiche ruim que comemos no restaurante do hospital durante o intervalo dela. E ela ainda foi bipada antes que eu pudesse pedir a sobremesa.
— Gelatina? – provoquei.
— Eu estava pensando em algo para comer em um daqueles muitos quartos vazios do hospital. – Não segurei o pequeno riso. Uma das coisas que aprendi a amar em Ronnie era a facilidade com que falava o que estava na sua mente. Sempre honesto e sincero, ele não enfeitava as palavras ou dissimulava emoções.
— Eu acho que você está assistindo muita série médica.
— Provavelmente, eu nunca deveria ter deixado sua mãe me convencer a assistir Grey’s Anatomy, acho que deu muitas ideias a minha mente suja... – Balancei a cabeça, eu tentava ficar longe dos dois quando a tv estava ligada.
— Como se você precisasse de mais incentivo.
— Falando em ideias... Eu acabei de ter uma. – Oh não. Pelo modo que olhava para mim, claramente não iria prestar.
— Surpreenda-me. – desafiei.
— O que acha de fingir que está doente? – O encarei indagando com o olhar — Me ajudaria a conseguir um tempo de qualidade com Caitlin, eu a levo para uma consulta... – explicou de um jeito tão doce que quase considerei a pequena mentira — Eu acho que não vai ser difícil você ficar com febre depois de todo esse tempo com os pés na água... Não se esqueça de tossir um pouco para parecer mais verídico. Talvez até possamos conseguir que você fique internada em um quarto particular por um dia ou dois. — Ronnie pareceu pensativo — E quando Caitlin estiver cuidado de você, eu cuido de Caitlin...
— Argh! Tenha um pouco de respeito pelo meu corpo supostamente doente!
— Você estaria dormindo o tempo todo. – Como se isso ajudasse em algo.
— Às vezes eu esqueço que você não passa de um cretino. – insultei, mesmo sabendo que Ronnie não falava a sério.
— Calma aí. – ele ergueu o tom, claramente ofendido. — Eu nunca estive tão investido em uma mulher antes. – Apressou-se em se defender – Um mês e eu sequer consegui passar da primeira base, não pode me culpar por tentar avançar as coisas num sentido mais físico.
— Informação de mais! – tarde demais tapei os ouvidos, não queria saber dos avanços da vida sexual de Ronnie, não quando eu não tinha uma.
— Ainda assim é verdade.
— E ainda assim você parece feliz. – O investiguei um pouco melhor. Como eu não havia percebido antes aquele brilho tão vivaz em seus olhos? Como não reconheci tão perfeitamente os sinais de alguém apaixonado, quando eu mesma vivia isso?
— E você parece triste. – Voltei meus olhos para a água. Era por isso que eu evitava as pessoas, eu não estava exatamente triste. Frustração é mais um sentimento continuo de incapacidade de mudar a situação atual, vinha sempre acompanhado de uma raiva amargurada e uma boa dose de angústia, mas era apenas a tristeza o que todos veriam e suposições seriam feitas a partir disso. — Talvez eu devesse chamar Donna, vocês duas podem...
— Você não se atreveria. – Era estranho que minha mãe e Ronnie tivessem se tornado tão bons amigos? Não. Donna o ensinou a roubar no poker. E contou histórias embaraçosas sobre mim, dando munição para o desgraçado me atormentar, e claro tinha o amor mútuo dos dois por Grey’s Anatomy. – Eu estou bem, Ronnie. – Imediatamente me arrependi da rudez em meu tom, ele estava apenas tentando ajudar e eu fui uma megera com ele. – De verdade. – Suavizei com um pequeno sorriso.
— Mas poderia estar melhor. – Suspirei. Eu só estava tendo um dia ruim. Às vezes temos um desses dias em que apenas acordamos e tudo parece errado. Apenas porque sabemos como aquele dia transcorrerá e porque tudo o que desejamos é uma mudança. Um brilhante sol nos aquecendo ao invés de nuvens pesadas, assim podemos brincar na piscina... Talvez por isso eu estivesse aqui, teimosamente recusando que algumas nuvens tirassem minha diversão.
Mas ainda faltava algo.
— Estaria melhor se houvesse algum sol. – Ergui o olhar para o céu, amaldiçoando as pertinentes nuvens que se recusavam a ir embora.
— Eu não acho que é desse sol que você precisa. – Desferi um olhar mal-humorado a Ronnie, mas como sempre ele não se importou. — Todo mundo percebe que você sorri mais quando ele está por perto, talvez ele seja o seu sol. – Meu coração concordou se lembrando do significado dos girassóis que sempre estavam em meu quarto, mas não permiti que aquela verdade transparecesse. Antigos hábitos eram difíceis de serem vencidos. — Não há nada errado em encontrar calor em outra pessoa, em querer que ela preencha nossos dias de luz e felicidade, isso não nos torna dependentes ou fracos, nos faz apenas humanos com um coração que quer dar e receber amor. – bufei ainda sem encará-lo.
— Tão sentimental... – estiquei as pernas agitando a água, apenas como desculpa para não escutar meus próprios pensamentos.
— Às vezes eu uso o meu bom coração para ajudar pessoas teimosas. – Escutei Ronnie se erguer do chão com certo alívio. Ele estava indo. — Como agora. Eu gosto de te ver sorrir, não se esqueça disso, loirinha! – senti um leve afago em meus cabelos e revirei os olhos, eu teria reclamado por ter sido afagada como um cachorrinho de madame, mas desisti ao ouvir o som de passos seus passos se afastando.
Finalmente eu estava sozinha.
Não me leve a mal, eu gostava de Ronnie. Eu sei que ele era para ser apenas meu segurança, e honestamente eu não sei qual a função dele agora que eu sequer saía da casa. Manter seus olhos sempre em mim, eu supunha. Mesmo que eu o visse mais como um bom amigo do que alguém pago para me proteger.
Por isso não me incomodou tanto quando eu descobri que ele sabia de tudo.
Sobre mim e Oliver.
Sobre nosso filho.
Eu pensei que fosse seu trabalho saber, eu o perguntei certa vez se Oliver havia contado sobre o que havia acontecido entre nós há cinco anos, e Ronnie apenas olhou para mim intensamente e segurou a respiração dizendo um enigmático “Eu só sei o que é necessário para fazer meu trabalho, Felicity. Nada mais. Qualquer coisa além disso, é você quem deve me falar.” Ainda assim eu vi o pesar em seu olhar e em suas palavras, e o senti ainda mais forte quando ele me abraçou dizendo “a vida às vezes nos dá mais peso do que conseguimos carregar, mas você é forte, eu sei que é.”
Foi a única vez que falamos disso.
E depois ele voltou a ser o irritante Ronnie de sempre.
Considerando que Ronnie estava sempre por perto, não era difícil de imaginar que ele tivesse sem querer escutado uma ou outra conversa sobre Jonas. Mas eu também já não me incomodava mais, eu havia feito minha paz com meus antigos demônios. E estava aprendendo a não manter a lembrança do meu filho apenas para mim.
Escutei o som pesado de passos se aproximando e não contive o suspiro exasperado. Ronnie estava voltando provavelmente para tentar me convencer a sair da piscina ou apenas checar minha temperatura para o caso de colocar seu plano de me usar para ter um tempo de qualidade com Caitlin, em prática.
Conhecendo o bastardo, eu apostava na segunda.
— Eu só quero ficar sozinha. – Joguei as palavras dentro de um arfar cansado, na esperança de Ronnie ficasse longe e me deixasse chafurdar na minha frustração sem plateia.
— Eu não acho que isso vai ser possível. – Parei de brincar com os pés imediatamente, meu coração reagindo brutalmente aquela voz, meu corpo tenso e apreensivo enquanto meus olhos o traiam e seguiam ansiosos para ver o dono dela. — Oi.
Toda a tensão do meu corpo se dissolveu, e me senti mais relaxada e calma, todos os sentimentos conflitantes, as preocupações que antes giravam num ciclone interminável finalmente se assentaram, e pude me permitir uma respiração mais leve, tranquila. Como um simples “oi” tinha o poder de me tocar tanto?
— Oi. – Consegui engasgar de volta, sorrindo logo em seguida, comprovando a teoria de Ronnie.
— Como você está? – Pisquei tentando assimilar sua presença aqui. Oliver em seu terno perfeito, seus cabelos perfeitamente alinhados, não parecia se encaixar ao meu lado, com meus jeans surrados e camiseta velha. – Felicity? – ele reforçou ao ver minha falta de resposta. Mas era difícil me concentrar quando eu assistia Oliver afrouxar a gravata azul marinho com pequenos desenhos de ancoras, desfazer calmamente os dois primeiros botões e retirar o paletó dobrando-o e o colocando sobre o chão, enquanto se sentava ao meu lado.
— Ronnie não me dedurou? – soei um pouco amarga e agitada demais tentando desviar o olhar do seu corpo, do que ele me fazia sentir.
— Não. – Ele reprimiu um sorriso ao estudar a minha reação com curiosidade — Foi sua mãe. – Abri a boca, surpresa com sua resposta.
— Eu mal a vi hoje. – forcei minha mente a refazer meus passos desde que acordei. Esbarrei em um Oliver apressado no corredor. E entre roubar o jornal da manhã e escapulir discretamente para a piscina, eu tinha dado um educado bom dia para minha mãe e dito que iria para o quarto ler um livro. Fiz tudo isso evitando os seus olhos, mas ela não pareceu notar.
— Mas sua mãe te vê. – senti meu corpo impulsionar para trás, recebendo a intensidade do que ele me dizia. — Todo mundo te vê, amor. – aquela pequena palavra ao final da frase teve o poder de me desestabilizar um pouco mais – Ela normalmente me manda mensagens, mas eu sabia que algo não estava certo quando ela me ligou. – meu cérebro sofreu um pequeno curto circuito tentando assimilar o fato que minha mãe tem trocado mensagens com Oliver.
— Você troca mensagens com a minha mãe!? Oh. Meu. Deus. Você fala com ela! – Ainda estava em choque quando Oliver continuou.
— Ela disse que você passou a manhã toda se esquivando do olhar das pessoas, e desapareceu dando uma desculpa qualquer. Ela te procurou pela casa, esperando te encontrar bem agasalhada ou debaixo das cobertas, enquanto encarava o nada e sentia pena de si mesma. – Ela não estava de todo errada. – Imagine a surpresa da sua mãe, ao olhar pela janela e te ver aqui fora nesse dia frio, e prestes a dar um mergulho na água praticamente congelada da piscina.
Tão exagerado.
— Eu não estou com frio. – refutei teimosamente dando de ombros, Oliver trancou os lábios em uma linha reta enquanto controlava o sermão que eu sei que gostaria de me dar.
— Enfim, eu acho que de todo modo foi um trabalho de equipe, sua mãe pediu que Ronnie te distraísse até que eu pudesse chegar aqui e colocar juízo na sua cabeça que deve estar cheia de bobagens. – ele ergueu ambas as mãos num gesto de gesto desarmado — Palavras dela, não minhas! – se apressou em justificar, peguei um pequeno sorrisinho ali antes dele continuar. — Acho que ela finalmente caiu nos meus encantos.
— É impossível não cair neles. – meu suspiro me traiu, mas de certa forma isso foi bom.
Oliver se aproximou um pouco, ele tinha sido reticente até então, quase como se esperasse uma autorização minha para se aproximar mais. Senti sua mão se colocar por cima da minha. Ele não a apertou exigindo minha atenção, não entrelaçou seus dedos nos meus querendo dizer algo mais. Oliver apenas deixou sua mão ali, me lembrando de como era seu toque, e que se eu quisesse, eu poderia tê-lo.
— O que está acontecendo? Sabe que pode falar comigo. – a voz era tão doce e calorosa, derretendo o gelo que havia se construído ao redor do meu coração. O olhar, puros sentimentos tremulavam em suas íris, intimidando-me com a intensidade ao mesmo tempo que me cativavam, porque eram os mesmos que os meus.
Confusos.
Mas ainda assim, fortes.
— Eu só queria um pouco de sol. – desviei o olhar de Oliver fingindo encarar as nuvens espessas, quando na verdade eu só não queria que ele lesse a verdade nos meus.
— Um dia ruim talvez? – Eu poderia responder que estava em uma década ruim. Mas havia algo bom, certo? Momentos bons equilibrando os momentos ruins. Como agora.
— Algo assim. – dei de ombros no que era para ser um gesto sem importância, mas meus dedos me traíram buscando pela mão de Oliver e brincando com ela.
— Vai ficar melhor. – Senti sua voz mais perto, mas não o encarei, por mais que quisesse saber o quão perto ele estava, a vergonha de admitir que sua presença já estava tornando o dia um pouco melhor me parou. Talvez Ronnie estivesse certo e Oliver fosse meu sol particular.
Fechei meus olhos e inclinei ligeiramente a cabeça assim que senti o toque inesperado de seus lábios em minha têmpora. Seus lábios eram quentes apesar do frio, ou talvez eu estivesse fria e por isso Oliver parecesse tão mais quente, não me importava. Eu amava o calor que eles traziam para mim, amava aquele sentimento que se desenrolava dentro do meu peito, fazendo-o o inflar, seu beijo me fazia sentir querida. Dei-me um tempo para memorizar a sensação e prolongando-a pelo máximo que pude.
Sempre que Oliver estava por perto ele me beijava.
Eu recebia seus beijos antes de ir para o trabalho. Quando ele retornava. E ao se despedir na porta do meu quarto e me desejar bons sonhos.
Mas seus lábios se limitavam a tocar apenas algumas partes.
Rosto. Testa. Meus cabelos. Minhas mãos. E a tradicional bochecha.
De alguma forma sua boca sempre estava perto de alguma parte minha, assim como suas mãos. Elas tocavam meu rosto e às vezes brincavam com meu cabelo, descansavam-se em minha coxa na hora do jantar, entrelaçavam-se nas minhas quando caminhávamos juntos até meu quarto onde ele me daria mais um de seus inúmeros beijos castos.
Mas Oliver jamais realmente me beijou ou suas mãos me tocaram de um modo mais íntimo.
No começo eu não me preocupei, eu tinha seu carinho incondicional e honestamente, eu precisava me sentir querida e cuidada mais do que precisava de sexo.
Passamos por tanta coisa nas últimas semanas. Tivemos tanto a digerir. Eu tive um tempo ruim na prisão e Oliver... O que eu podia dizer? Eu menti para ele sobre nosso filho. E mesmo que Oliver tivesse me perdoado, mesmo que ele tenha dito que me ama, de uma forma torta e nada direta. Eu compreendia que talvez ele precisasse de tempo e espaço para entender sozinho o que seríamos um para o outro de agora em diante. Como poderíamos fazer isso funcionar, quando talvez nós não pudéssemos nem ter um futuro?
Oliver tinha minha vida e meu futuro em suas mãos.
Eu sei o quanto isso pesava para ele.
Eu via em seus olhos cansados, em seus ombros um pouco mais caídos, no sorriso que ele forçava a me dar todos os dias quando voltava do escritório, o quanto ele estava tentando encontrar uma solução. Um modo em que pudéssemos apenas ter tudo.
Mas não era fácil conciliar ser meu advogado, e meu algo mais.
No momento, eu precisava mais do advogado.
Embora fosse o homem que mantivesse minha sanidade, me abraçava forte e impedia todos os pedaços de mim de desabar. E eu gostava de pensar que fazia o mesmo por ele.
Nosso relacionamento mudou tão drasticamente. Antes éramos duas pessoas que fingiam que aquilo poderia ser apenas sexo e sufocavam seus sentimentos, agora, sem mentiras e máscaras atrás das quais nos esconder, pairava sobre nós o peso do que éramos realmente. Havia amor entre nós. Eu não o negava, mesmo que o verbalizar fosse tão difícil. Eu queria escondê-lo, guarda-lo para mim antes que pudesse de alguma forma estragar algo tão bonito.
E também éramos pais.
Pais de um filho que não tivemos a chance de criar. Dividíamos o mesmo amor e a mesma dor.
Talvez não soubéssemos como recomeçar depois disso.
Talvez, apenas não pudéssemos.
Mas então eu me permitia um minuto a mais no seu abraço. Eu deixava meus olhos o seguirem, apenas pelo prazer que era olhar para Oliver. Eu corava como uma adolescente quando ele sorria para mim. E o mais importante: eu via em seus olhos o mesmo amor que havia nos meus.
E amor era tudo o que precisávamos.
Então, por que não estávamos juntos?
Simples.
Porque Oliver nunca se permitia ficar perto o suficiente. Nunca dava um passo naquela direção. Passei noites me questionando se era apenas medo ou se seus sentimentos haviam mudado. Me consumi, até perceber que era tudo estupidez. Oliver sempre estava comigo.
E isso era o suficiente.
Não era?
— Você não deveria estar aqui. – falei de repente recolhendo minha mão e forçando-a a ficar longe da dele. — Não está cheio de trabalho no escritório? – Oliver não me respondeu, mas eu me lembrava dele se despedindo de mim no começo da manhã, dizendo algo sobre análise do júri.
— Não está com frio? – respondi sua pergunta com um dar de ombros, o que não lhe agradou. Era a segunda vez que ele a fazia.
— Eu gosto. – Sacudi os pés na água ao ver que Oliver ainda esperava uma resposta que eu não queria lhe dar. Qual o ponto de jogar toda a frustração nele? Oliver tinha a sua própria, além disso, nem eu mesma conseguia me entender.
— Posso entender o porquê. — Olhei em seu rosto e vi que ele realmente o fazia. Quando chegamos a esse ponto em que palavras já não se faziam necessárias e éramos capazes de ler o sentimento no rosto do outro? – Mas mesmo assim, não gosto que fique com frio.
— Eu não estou. – Escutei Oliver murmurar algo como “sempre tão teimosa, eu queria que...” Perdi suas palavras, distraída demais com seus movimentos abruptos para prestar atenção em seus resmungos — O que você está fazendo? – perguntei ao notar que seus sapatos tinham ido embora, e agora ele retirava as meias colocando-as dobradas sobre os sapatos.
— Me juntando a você. – ele respondeu esticando os pés para a piscina, mas parando para dobrar a barra da calça até metade das panturrilhas — Estamos juntos nisso, Felicity. – seu olhar intenso em mim quase fazendo meu coração sofrer uma arritmia, e então seus pés tocaram a água e toda sua expressão intensa se modificou para algo sofrido. — Mas que inferno, Felicity! Isso está congelando! – ele reclamou tão alto, e seu rosto estava tão horrorizado que não pude evitar rir por vê-lo perder um pouco do controle.
— Desculpe-me por isso. – mordi os lábios segurando o riso, ao ver o semblante sério de Oliver.
— Se isso acabar com você doente, eu já aviso que não a perdoarei. – Ele balançava a cabeça e olhava para mim parecendo irritado e afável ao mesmo tempo. Oliver esticou a mão pegando algo atrás de si, e segundos depois senti o pesado tecido do seu paletó cair sobre meus ombros. Não resisti a uma longa inspirada, e me senti tolamente feliz por pensar que seu cheiro agora se misturaria ao meu, como fizera tantas outras vezes... Em circunstâncias bem menos vestidas. — Assim está melhor, não é o ideal e não vai te aquecer por completo, mas é o que tenho até te convencer que isto é uma péssima ideia. – pisquei, concordando rapidamente com o que Oliver dizia, meu corpo se sentia quente, mas não por causa do paletó, e sim das lembranças que seu cheiro evocara.
— Concorda comigo que é uma péssima ideia? – estudou meu rosto, parecendo confuso.
— O quê?
— Seus pés. – indicou. – É uma péssima ideia ficar com eles na água.
— Hum... Não. – discordei os encarando, sentindo-os quase insensíveis. — Me distrai das coisas. – Oliver ainda me olhava, esperando por maiores explicações. — É bom.
Um minuto de silêncio se seguiu, enquanto Oliver apenas me fitava. Seu olhar desnudando-me a alma, fazendo-a lhe entregar cada uma das minhas tímidas verdades.
— Eu tenho estado ausente. – seu tom foi pesaroso, eu podia ouvir a culpa permeando cada uma das suas palavras. — Não deveria deixar você tanto tempo sem mim. – Ele não seria meu Oliver se não tomasse a culpa para si.
— Você não é minha babá. – resmunguei brincando com os pés na superfície da água, teria sido fácil ignorar Oliver se seus pés não tivessem decidido fazer o mesmo com os meus. Perseguindo-os. Encurralando-os. E traiçoeiramente os prendendo entre os seus.
— Isso não é justo. – Acusei. Mas não vou negar que eu gostava de seus pés junto aos meus, tiravam aquela insensibilidade e substituíam por algo vivo.
— A vida não é. – Oliver respondeu, engolindo em seco e vertendo seus olhos para mim, deixando-me ver no fundo daquelas íris azuis que eu não era a única que me sentia assim. — Eu sinto muito que ela não esteja sendo justa conosco, tirando o nosso tempo, nos impedindo de viver agora o que nós...
— Você está trabalhando, está tentando me ajudar. – o interrompi. Minha mão buscando a dele, e a apertando fortemente. Queria lhe dar a certeza de que eu o entendia, que minhas frustrações em nada tinham a ver com algo que ele fez ou deixou de fazer. — Eu sei que tem dado mais do que o seu melhor para que eu tenha uma chance. Sei que isso é pessoal para você, sei que quer tanto quanto eu que tenhamos uma chance... – Não resisti aos seus olhos cansados e afetuosos, e me lembrei de que eu não era a única que estava sofrendo com a situação. Movi minha mão para o alto de seu cabelo, dedos bagunçando ligeiramente seu penteado perfeito e depois contornado seu rosto onde deixei minha mão repousar — Não posso ficar chateada com você por isso, não quando tem lutado tanto.
— Eu planejei tudo. – Oliver soltou dentro de um suspiro pesaroso. É claro que ele tinha um plano.— Eu iria resolver todas as pendências do seu caso o mais rápido que conseguisse, e então teríamos um tempo para nós antes que tudo ficasse tenso. – Sorri ao sentir sua mão cobrir a minha que ainda estava em seu rosto. — Eu não pensei que iria custar tanto, não pensei que teria que deixa-la sozinha...
— Eu não estou sozinha. – Deixei seus dedos entrelaçarem aos meus sentindo aquela familiaridade que eu tanto amava. — Eu tenho Thea e Roy, seu cunhado que praticamente se mudou para cá. E claro, minha mãe e dedo duro do Ronnie. Embora Donna mereça esse posto agora. – Tentei fazer graça, mas Oliver me deu apenas um sorriso triste, fazendo meu coração se apertar.
— Não é o mesmo. – Nem de perto era. Eu amava minha família. Era assim que eu os via, até mesmo Ronnie que me irritava tanto ao ponto de me fazer vê-lo como o irritante irmão mais velho que nunca tive. Porém, o que eu tinha com Oliver era diferente, ele era parte de mim. – Eu quero que me prometa algo. – Me pediu, seus olhos sem deixarem os meus nem mesmo por um segundo.
— Qualquer coisa. – respondi, surpresa com minha própria urgência e entrega.
Senti seu corpo se aproximar mais do meu, nossas mãos unidas desceram para as coxas firmes de Oliver, seu braço sobrepondo-se sobre meus ombros e sua mão deslizando sobre meu braço num movimento fluido e acalentador. Sua boca tão próxima de mim, que eu sentia seu gosto fluindo das palavras doces que ele me dizia.
— A qualquer hora do dia, caso se sinta sozinha ou triste. Ou apenas se quiser alguém para conversar sobre seu dia, me contar algo bobo ou algo importante, fale comigo. – a pressão de sua mão se tornou maior, dizendo-me o quanto isso era importante para Oliver. — Me ligue. Mande mensagens. E-mails. Cartas. Sinais de fumaça. Eu sempre virei por você.
Ele sempre viria.
Oliver não precisava dizer as palavras para que eu tivesse certeza disso.
— Você está aqui agora, é só o que me importa, Oliver. E eu nem precisei chamá-lo. — Com seu braço pesado sobre meus ombros puxando-me ainda mais para si, eu percebi o quanto eu sentia falta do conforto do seu corpo.
Emocionalmente, nós estávamos bem. Suas palavras doces e gentis sempre acalmavam meu coração e supriam qualquer dúvida ou medo. Eu tive tempo o suficiente para reconhecer e aceitar meus sentimentos por Oliver. Eu já não brigava com eles, ao contrário, eu via o quanto eles nutriam-me com a força que eu precisava para enfrentar o que ainda estava por vir. E da parte de Oliver... Bem, ele não expressou diretamente seus sentimentos para mim, mas pelo modo que cuidava de mim, ele os fazia muito claro.
Fisicamente era outra história.
Estávamos diferentes agora. Conscientes de quem éramos, do que desejávamos, do que sentíamos um pelo outro. Não havia desentendimentos ou mentiras nublando a verdade.
Era claro.
Se eu me inclinasse agora e o beijasse, Oliver me retribuiria o beijo com o mesmo ardor e paixão.
Se cruzássemos aquela linha, não poderíamos voltar atrás.
Não percebi um suspiro alto e frustrado deixou meus lábios quando meu pensamento fluiu para todos os beijos castos que ele me dava... Como nunca avançava.
Obviamente, Oliver interpretou tudo erroneamente, porque logo recebi suas doces palavras novamente.
— Amanhã vai ser um dia melhor, um dia ensolarado e perfeito. Nenhuma nuvem cobrirá o sol. Um dia tão malditamente feliz, que vai te fazer esquecer quaisquer pensamentos ruins que estejam habitando sua cabeça hoje. – Aconcheguei-me mais em seu abraço, fechando meus olhos fingindo estar cansada, quando na verdade tudo o que eu queria era uma desculpa para me aproximar mais dele, inspirar seu cheiro e partilhar do seu calor. Se houvesse um modo eu gostaria de morar para sempre em seu abraço. – Confie em mim, Felicity. – Novamente senti seus lábios tocarem meus cabelos.
Eu não via um meio de varrer aquelas pesadas nuvens que ameaçavam lançar um temporal sobre nós a qualquer momento, mas se existia alguém capaz de fazê-lo, era Oliver.
Que ele quisesse fazê-lo, por mim, ainda me surpreendia.
— Eu acredito em você. – respondi, com o maior sorriso que dei em semanas.
— Obrigado. – Oliver tinha os olhos vidrados em mim, um sorriso nos olhos enquanto ele acariciava o contorno do meu sorriso com os polegares.
— Pelo o quê? – Ele não me disse.
— Vamos entrar. – Isso significava sair do seu abraço, o que eu não queria, portanto agarrei-o um pouco mais forte, as mãos torcendo o tecido fino da camisa entre meus dedos, enquanto enterrei minha cabeça em seu peito. Senti seu corpo sacudir com o indício de um pequeno riso que parecia contente. A mão em meu ombro desceu para minhas costas, acalentando-me. E quando seus lábios pousaram em minha orelha, foi meu corpo que reagiu, estremecendo e sentindo o efeito feroz de cada uma das suas palavras. — Quero te aquecer e não posso fazer isso enquanto seus pés estiverem dentro da piscina. – Ele não sabia o quanto me aquecia com apenas um olhar? Ergui os olhos para seu rosto, apenas para comprovar minha teoria.
— Eu estou bem aonde eu estou. – Nos seus braços.
— Não me tente, amor. – Seus dedos tocavam meu queixo, mas seu olhar estava tentador em minha boca — Estou tentando fazer tudo direito dessa vez. – Não o compreendi.
— Eu sou a única sendo tentada aqui. – reclamei pressionando meus lábios num biquinho frustrado.
— Você não faz ideia... – Oliver balançou a cabeça, se negando a compartilhar o pensamento que havia ali e que parecia, em falta de palavra melhor, quente. Ele se ergueu de repente, levando todo o calor consigo, oferecendo-me sua mão. — Vem... Tenho uma surpresa para você lá dentro.
Sorri imensamente aceitando sua mão. Chocada que toda a confusão frustrante havia me deixado, e tudo se tornou certezas no instante em que Oliver apareceu. E ainda mais chocada com o quão animada eu estava pela surpresa que me aguardava.
Historicamente eu não gostava de surpresas, mas se Oliver era parte dela, não havia como ser ruim.
Com sorte ele realmente me aqueceria.
***
Oliver Queen
Eu balançava o copo com líquido incolor em minhas mãos. Observando com um interesse fingido o gelo que batia de um lado ao outro, eu ignorava a música de jazz clássico que tocava ao fundo, e que era suposto que me relaxasse, mas tinha o efeito contrário fazendo meus pés baterem ainda mais frenéticos debaixo da mesa. Ignorava a conversa banal entre Diggle e Tommy ao meu lado, me limitando a assentir e forçar um sorriso, sempre que parecia necessário. E tentava com mais força do que tudo, ignorar a estranha sensação de vazio dentro do meu estômago.
Virei o conteúdo do corpo em meus lábios de uma só vez.
Não senti a ardência descer por minha garganta.
Não me senti entorpecer, ou meus pensamentos confusos se tornarem um borrão até que todas as preocupações desaparecessem. Não senti o vazio da ansiedade que corroía meu estômago cessar, aliviado por poder voltar a ser insensível.
Não senti nada disso, porque no meu copo havia apenas água.
Eu não bebia mais.
Desde o dia em que apareci bêbado no quarto de hotel de Felicity, eu nunca mais tornei a colocar uma gota de álcool na minha boca. Eu sei que para muitas pessoas o álcool era um divisor de águas, tornavam-se as piores versões de si mesmas e destruíam tudo e todos ao seu redor. Eu poderia não estar lá ainda, mas não estava disposto a permitir que outros pagassem o preço caso um dia estivesse.
Eu não gostava do modo de como a bebida tinha sido por tanto tempo uma fuga para os meus problemas reais. Havia se tornado um hábito ruim que cultivei ao longo dos anos, beber sempre que eu tentava esquecer Felicity.
Eu percebi que não precisava fugir, mais do que isso, eu não queria fugir. Não do amor que eu sentia por Felicity e fazia de mim um homem melhor e mais completo. Nem mesmo da dor de ter perdido um filho que não tive a chance de conhecer, porque perder a dor, significava fugir da sua existência e viver num mundo onde meu filho jamais existiu – mesmo que pelo curto período em que o álcool estava no meu sistema — seria mil vezes uma dor maior.
Em meu coração Jonas sempre seria meu filho, mesmo que não estivesse entre nós, mesmo que tudo o que eu tivesse dele fosse um sonho da família que um dia poderíamos ter sido.
Por esse sonho valia a pena sentir qualquer dor.
Recebi uma forte cotovelada entre as minhas costelas que me fez fechar os olhos para o sonho e exprimir uma imprecaução ao me concentrar na realidade. Porque na realidade eu tinha um Thomas Merlyn muito irritado comigo.
— Finalmente me deu atenção! – ele reclamou, batendo na mesa com certa impaciência, sua expressão mostrando que não estava nenhum pouco satisfeito comigo o que não era típico de Tommy.
— Isso doeu. – esfreguei rapidamente o local, me perguntando se ficaria um hematoma e se eu teria que explicar à Felicity o que causou aquilo. A mera menção de seu nome em meus pensamentos trouxe um sorriso preguiçoso em meus lábios, a imagem dela erguendo a minha camisa, seus dedos delicadamente tocando a área machucada da minha pele, enquanto sua voz preocupada me perguntava o que aconteceu. Eu ganharia seus beijos no local, e magicamente a dor desapareceria e então... – Ouch. – resmunguei, dessa vez o bastardo havia me acertado um tapa na nuca. Olhei atravessado para meus dois melhores amigos, John apenas ria parecendo apreciar o show, enquanto Tommy parecia ainda mais mal-humorado.
— Isso é por não prestar atenção em mim, nem pense em viajar sua mente até Felicity novamente – Como ele poderia saber que era nela que eu pensava? – E sim eu sei que era nela que você pensava, por causa do olhar apaixonado e sorrisinho sacana. – respondeu a minha pergunta não feita. — Eu estou dizendo, da próxima vez eu vou jogar uma bebida fervente nas suas partes mais sensíveis.
— Não conseguiria achar nada fervente em um bar. – pontuei, mesmo sabendo que não deveria provocar um homem com sangue nos olhos que nem Tommy parecia estar.
— Que seja gelo então! – perdeu um pouco o controle erguendo a voz e fazendo as pessoas olharem para a nossa mesa como se fossemos loucos. O que talvez não estivesse longe da verdade. – Vai ser bom para diminuir toda a animação que você sente aí embaixo porque está pensando na sua namoradinha. – Ele se sentou e abaixou o tom a praticamente um resmungo.
Tomei o cuidado de puxar minha pasta e colocar sobre o meu colo. Apenas para o caso de Tommy cumprir suas ameaças.
— Por que tanta violência, Tommy? – perguntei, mesmo sabendo a resposta.
— Eu ainda tenho que me explicar? – Meu amigo inclinou o corpo ligeiramente para traz e abriu ambos os braços numa clássica postura de quem diz “inacreditável” — É você quem me deve explicações! Por que diabos a minha namorada está em uma divertida “noite de garotas”, enquanto eu estou aqui, bebendo com vocês? Sem nenhuma diversão. – Acrescentou a última parte num resmungo que não escondia o desgosto. — Sem contar que você está bebendo água! – apontou para o copo em minhas mãos, indignado — O que está acontecendo, Ollie?
Como começar a explicar?
Eu tinha pedido por isso, conversar com Tommy e Diggle era um passo importante, e agora que eu estava aqui, eu procrastinava.
— Por Deus, homem! Será que não consegue se acalmar e não pensar em sua namorada em nossa “noite dos homens”? – Dig tentou conciliar, e me ganhou algum tempo.
Eu também não estava exatamente satisfeito com o meu arranjo para aquela noite. Ficar longe de Felicity não estava exatamente nos meus planos iniciais para o dia. Por mim, depois de finalmente conversar com ela e entender um pouco como se sentia, tudo o que eu pensava era em dar um pouco do meu calor para ela. Nós precisávamos de um momento para descobrir como fazer isso dar certo, precisávamos descobrir como ser esse “nós” que queríamos tanto.
Porém depois de contar meu plano a minha irmã, estranhamente, Thea, a pessoa que mais torcia para Felicity e eu embarcarmos logo nessa coisa de casal, o rechaçou. Parcialmente. Me lembrando de que antes de formar um nós, comigo, Felicity precisava reencontrar Felicity Smoak.
Eu entendia a necessidade de um momento afastados, um momento para mostrar a Felicity que ela não estava sozinha, e que precisava de muito mais em sua vida do que apenas a mim.
Mesmo que eu desejasse ter um espaço maior nela.
Eu iria reivindicá-lo logo, ou assim eu esperava.
— Eu não gosto da noite dos homens. – Tommy reclamou – Antes, a noite dos homens significava bebidas e flertar com as garotas bonitas da mesa ao lado. – ele esticou o pescoço dando uma olhadela para a mesa atrás de nós, onde havia um grupo de universitárias animadas, o que seria o tipo exato de Tommy, mas seus olhos nem vacilaram em seus decotes, e suspirou voltando a encarar o seu copo sobre a mesa parecendo um cachorrinho triste por ter perdido seu brinquedo favorito. — Não que eu queira isso, eu prefiro a noite dos casais, que é quando eu posso ficar com a minha namorada. – Entendia perfeitamente o que ele queria dizer, eu me sentia do mesmo jeito. — E eu conheço, Ollie, tem alguma coisa muito errada. Porque se eu estou chateado por estar longe de Sara, você está botando um ovo por não estar ao redor de Felicity. – Soltei um leve riso sem humor.
— Eu estou. – confirmei, a ansiedade ainda fazendo meu estômago dar voltas.
Me servi de mais água.
— Onde elas estão, afinal? – olhei com suspeita para o rosto inocente de Tommy. A pergunta jogada de um jeito displicente e calmo, me fez perceber que o bastardo apenas tentava tirar o nome do lugar, para me largar aqui e ir correndo atrás da namorada.
Quem diria que um dia eu veria Tommy de quatro por uma mulher?
— Elas estão seguras. – Dei de ombros.
— Mas quem garante isso? – Sua pergunta cavou dentro de mim, não vou mentir, eu mesmo não estava 100% satisfeito com o arranjo de hoje...
— Deixe-me ver... Temos Ronnie, o segurança treinado. – comecei a elencar, mais para mim mesmo do que para Tommy. – Temos Roy, não que eu ache que ele seja muito útil... E claro, Lance estará lá com alguns policiais.
— Você disse que estava pegando Sara emprestada para uma “noite de garotas”, por que há homens nas noites das garotas e eu não posso ser um deles? – Acusou, me fazendo rir da sua postura, braços cruzados, lábios franzidos e olhar caído, praticamente uma criança que recebeu carvão do papai Noel.
— Se eu soubesse que você seria um namorado tão grudento, eu teria bancado o cupido para você e Sara antes. – Dig se intrometeu, deixando de ser apenas um expectador.
— Como se você tivesse alguma coisa a ver com meu relacionamento. – Tommy refutou.
— Você não sabe de nada, Tommy Merlyn. – Dig sorriu presunçoso elevando a bebida a boca, e mantendo aquele olhar firme de quem sabia muito mais do que revelava.
— Ok, vamos tirar o foco de mim. – Tommy desistiu de vencer a guerra de olhares com Dig, o que era inteligente considerando que ninguém jamais vencia John Diggle. — Ollie, você não me respondeu. Por que exigiu isso hoje?
— Não é obvio? – Dig respondeu por mim.
— Não. Não é. – observei meu amigo perder a paciência — Diacho! Só porque você percebe tudo com seu sétimo sentido...
— Sexto. – corrigiu.
—... não significa que nós meros mortais também temos esse superpoder. – reclamou.
— Oliver quer conversar conosco. – Suspirei, Dig deveria ganhar a vida lendo as pessoas. Ele não deixava nada passar? – E é importante.
— É verdade. – minha voz chiou ao passar pela garganta, ainda estava incerto de como começar aquele assunto que vinha evitando há semanas, eu não gostava de manter segredos assim de pessoas que eram importantes para mim. Encarei meus dois amigos sem esconder meu nervosismo, ele transparecia em minhas mãos inquietas sobre a mesa, no suor que eu sentia descer por minha testa e na respiração falha e oscilante.
— Oh. — Tommy estudou minha postura séria, percebendo que não estávamos mais brincando. – Ok, Ollie, desembucha.
— Por que será que nós homens somos melhores falando sobre mulheres e futebol do que assuntos do coração? – Era uma pergunta válida e também uma pergunta evasiva. Tentei entender o motivo do sorriso nos lábios de Tommy que se tornava cada vez maior enquanto ele olhava para mim.
— Vai se amarrar não vai? – ele me deu um tapinha sobre o ombro. – Eu estou tão feliz por você! Eu sei que a coisa está complicada com Felicity e o julgamento dela tão próximo, mas vocês vão superar isso! – eu ainda não estava entendendo aonde Tommy tentava chegar, até que suas palavras se fizeram mais claras — Eu não acredito que meu melhor amigo vai se casar! Eu não acredito que estou tão feliz por isso! – Tommy empurrou a cadeira para trás com um estrondo enquanto se erguia.
Espera... O quê?
Casar?
— Tommy eu não... – Não tive tempo para completar a frase, logo era esmagado por seus braços apertados. Se continuássemos assim, eu teria muitos hematomas para explicar Felicity.
— Dig e eu lhe daremos uma despedida de solteiro épica! – Tommy olhou para meu copo de água com desdém – Hey garçom! – esticou um dos braços chamando a atenção do funcionário — Traga o melhor champanhe da casa! Nós vamos comemorar! — Não pude deixar de comparar, há seis anos atrás quando comuniquei meu noivado com Laurel Tommy reagiu como se eu tivesse sido sentenciado à prisão perpétua... Mesmo em mim, eu notava a diferença gritante. A mera ideia de me comprometer com Felicity fazia meu coração bater mais rápido, e um sorriso sonhador surgir em meus lábios — O quão sério é esta história de não beber?
— Muito séria. – Respondi de pronto, observando os ombros de Tommy caírem um pouco.
— Você está grávido ou o quê? – Tommy tentou fazer piada, mas não o respondi. A diversão daquela deliciosa confusão desaparecendo completamente, senti o sangue fugir do meu rosto a menção da palavra “gravidez”, na boca um gosto amargo aliado à um bolor na garganta que me impedia de dizer qualquer coisa. – Você e Felicity... Vocês estão grávidos! Eu vou ser tio. – Seu sorriso era imenso e feliz, até mesmo um pouco orgulhoso. Quanto a mim, a brincadeira havia perdido a graça completamente, já não havia mais sorrisos, já não havia mais aquela sensação boa no meu coração. — Vocês não vão se casar apenas porque ela engravidou, certo?! Eu quero dizer... Eu sei que a ama, homem, mas quando a pediu deixou claro que não é pela criança? – eu me sentia enjoado — Vocês serão pais in...
— Thomas, apenas pare. – O comando veio claro e firme, Diggle olhava para mim como se pedisse desculpas por Tommy.
— Ollie, o que foi? Eu disse algo que não deveria? – Olhei para o seu copo a minha direita. Gin tônica não era o meu tipo de bebida, mas aquela conversa estava me deixando nervoso a ponto de querer esticar meu braço e tomar tudo num só gole, talvez mandasse a sensação ruim embora.
— Você não disse nada errado. – Fui cauteloso, voltando a me sentar a mesa. Tommy imitou meu movimento, os olhos indo de mim para Diggle, perguntando o que havia feito de errado. Como ele poderia saber? – Eu apenas queria que as coisas com Felicity pudessem ser tão simples quanto você disse. – Soltei, minha mão brincando com meu copo de água. – Casar. Ter filhos.
Mas nós tivemos Jonas e veja bem aonde isso nos trouxe.
— E por que não podem? – sua pergunta era legítima, e embora fosse Tommy quem a fizesse, o olhar que me escrutinava era de Diggle. — Vocês se amam e é isso o que importa. – emiti uma risada rouca e sem humor. Amor seria o bastante dessa vez? — Eu quero dizer, ela já te perdoou por toda aquela merda do passado, certo?
— Ela me perdoou. – Como Felicity o tinha feito, ainda era um mistério para mim.
— E você se perdoou? – fiquei surpreso pela pergunta profunda de Tommy, eu esperaria isto de Dig não dele. Talvez esse relacionamento dele com Sara estivesse mudando algumas coisas.
— Sim, eu apenas não sei como...- abaixei a cabeça esfregando as mãos em meu rosto.
— Consertar o que quebrou há cinco anos? – Dessa vez foi Dig quem interrompeu. Ergui o rosto das mãos e o encarei, havia certa raiva em mim, que eu não fazia ideia de onde tinha vindo.
— Há coisas que eu não sei se podem ser consertadas, Dig. – Eu sabia disso agora. Eu havia aceitado que jamais poderia voltar no tempo e impedir a mim mesmo de chutar Felicity da minha vida, ou sair do maldito carro e correr até ela no MIT implorando para que me perdoasse. Não poderia acompanhá-la durante a gravidez impedir a morte do nosso filho. Talvez pudéssemos estar casados hoje. Talvez Jonas estivesse conosco. Mas a estrada que levava a este caminho já não mais existia, talvez nem mesmo tenha existido. É por isso que eu tinha que trilhar uma nova, escolhendo onde virar em cada curva com cuidado e atenção. Eu poderia não ser capaz de consertar o que quebrei no passado, mas poderia cuidar com amor para que nunca mais se quebrasse. — Eu quero estar com ela. Desesperadamente. O tempo inteiro. Mas eu tenho medo de sufocá-la. Tenho medo de me distrair tão profundamente por ela, que perca meu foco e estrague todo o nosso futuro. – confidenciei. Eu estive trabalhando como um louco nas últimas semanas, meus amigos eram testemunhas disso, mas e se não fosse o suficiente para salvá-la? Para nos salvar? — Ele está contando comigo. Para que amanhã exista um nós, eu não posso ferrar com tudo hoje.
— Não seja tão duro consigo mesmo, Oliver. – Dig, sempre compreensivo. Sempre tentando fazer com que eu me sentisse melhor. Mas palavras às vezes são só palavras.
— Eu tenho que ser. – As coisas deram errado quando eu não havia sido — Eu preciso pensar em cada fodido passo que dou com ela, em cada consequência do que faço. Eu tenho que ir devagar dessa vez. Ela merece uma chance de uma vida normal. Nós merecemos uma chance de ir devagar e não pular passos como fizemos da primeira vez... Eu quero lhe dar flores e apreciar seu sorriso enquanto desfruta do cheiro delas, quero levá-la à encontros e andar de mãos dadas durante uma lua cheia. Quero jantar com sua mãe e quero que ela goste de mim e que me aprove como seu genro, eu quero... – Calei-me, porém em pensamento continuei a lista de tudo o que queria com Felicity... “fazer amor lento com ela e dizer o quanto a amo entre beijos, sentir seu coração bater mais forte e em sintonia com o meu quando ela mesma repetir essas três palavras, quero ser a escolha dela, ter a certeza de que um dia quando eu me colocar de joelhos a sua frente, ela não hesitara em me dizer sim.”
— Você está dizendo que quer cortejá-la? – Tommy perguntou parecendo confuso — Sabe que isto não é um maldito livro da Júlia Quinn?
— Quem é Júlia Quinn? – perguntei, contente por ter um momento de diversão ao ver o rosto de Tommy se tornar vermelho como um tomate. Fiz uma nota mental para pesquisar sobre esses livros, poderia ser uma ótima arma para quando eu quisesse atormentá-lo.
— Uma escritora de romances de época. — falou muito rapidamente e desviando o olhar, na clara intenção de que nós não entendêssemos.
— Eu sabia que você era um romântico, Tommy. – Dig debochou. – Debaixo de camadas e mais camadas de futilidade, Sara finalmente desenterrou seu coração.
— Sara tem muitos livros dela, ok? – quanto mais ele suava, mais eu sorria — E gosta de me falar das histórias. – meu amigo evitou fazer contato visual ao se explicar, o que por si só já dizia muito mais do que suas palavras.
— Dig, você acha que Sara está o obrigando a ler esses romances? – voltei para Diggle.
— Sim, provavelmente está tentando educá-lo melhor.
— Ei, meu namoro não é o ponto dessa reunião. – reclamou — Estamos aqui para nos meter na vida de Ollie, e não na minha. Podemos voltar ao motivo de estarmos reunidos aqui?
— Claro. – meu coração acelerou, eu não poderia fugir para sempre. – Minha vida não é um romance de época, mas aposto que é tão confuso quanto.
— Ollie... – senti sua mão sobre meu ombro, o tom amistoso dizendo-me que ele estava aqui por mim — Eu sei que existe bagagem com Felicity, mas não pode ser tão ruim. – não respondi de imediato. Meu silêncio criando uma tensão que falava por si só.
— Não pode ser tão ruim. – Repeti suas palavras – Você disse, mas é. – apertei ambas as mãos ao redor do meu copo, não sei como não o quebrei — Felicity teve meu bebê. – Tommy engasgou com a bebida, Dig permaneceu silencioso e pensativo.
— Há cinco anos ela foi embora grávida. – consegui dizer, mas não encarei nenhum dos meus amigos. Eu não poderia ver em seus olhos o julgamento e a decepção. – Ela não disse a ninguém que eu era o pai, mesmo assustada ela ainda tentou me proteger. Seus pais não a apoiaram, o pai não queria que ela tivesse o bebê e a mãe tentou lhe convencer da adoção. – Em uma das muitas conversas que tive com Donna ela me esclareceu as coisas, então eu não poderia julgá-la por isso. – Felicity era uma mulher de dezoito anos, grávida, sem o apoio dos pais ou do pai do bebê que ainda estava com Laurel e havia chutado da cama dele sem a menor cerimônia. – minha boca ficou seca, permeada pelo gosto amargo do arrependimento – Ela foi embora e teve meu bebê. – um longo silêncio se seguiu — E então meu bebê morreu, antes que pudesse ter alguma chance de viver.
— Oh, Oliver... Eu nem sei o que dizer, amigo. – a pressão de sua mão em meu ombro se tornou maior — Eu sinto muito, eu sei que não sou capaz de entender a sua dor, mas eu lamento que tenha que senti-la.
— Obrigado. – meus olhos faiscaram até Diggle acusadoramente. — Você ficou anormalmente quieto o tempo inteiro. Desde quando já sabia? – apontei para Dig, finalmente entendendo sua falta de surpresa e seu silêncio incomum.
— Quando pediu que eu puxasse a ficha dela. — meu corpo inteiro ficou tenso controlando a raiva daquela traição. Aquilo tinha sido há meses! — Eu li sobre o bebê que ela teve. Ela o chamou de Jonas Smoak Queen então eu tive um palpite muito forte de que era seu. – Tentei engolir em seco, mas o nó em minha garganta não me permitiu. Para ser honesto, naquele instante eu não era capaz de reagir as suas palavras, apenas as sentia penetrando em mim, cavando mais fundo. — Eu apenas arranquei aquelas páginas do arquivo e as rasguei antes de te entregar. – Não havia em seu tom triste, qualquer sinal de arrependimento.
— Você deveria ter me dito. – acusei depois de longos minutos processando a informação.
— Não. Não deveria. – foi taxativo — Essa não era a minha história, Oliver. – soltei o ar sabendo que Dig estava certo, mas ainda assim parte de mim lutava contra aquilo. — É de vocês dois. Se eu tivesse contado ou permitido que você lesse em seu arquivo, você teria ido até Felicity com pedras nas mãos. E então o quê? Seguiriam as acusações, as brigas e no fim o que isso mudaria? – Nada. Jonas jamais iria voltar. – Vocês iriam apenas se machucar ainda mais, uma nova barreira seria erguida e talvez vocês nunca tivessem tido a chance de se reconectar. – Abaixei a cabeça escondendo o rosto entre as mãos, escondendo o medo súbito que senti. E se tudo tivesse sido diferente? Eu teria a escutado ou apenas gritado com ela? Onde estaríamos hoje? Não gostei da provável resposta. — E além disso, Felicity merecia a chance de contar a você sobre seu filho, quando estivesse pronta. Ela era a única que tinha esse direito e também a única que reconheceria a dor pela qual você estaria passando, ela seria seu apoio. – ergui a cabeça — Me diga, Ollie, ainda com raiva dela por esconder que teve seu filho?
— Jamais tive raiva dela. – Admiti. Triste e chateado por ela ter achado que a melhor maneira de lidar era escondendo de mim algo tão importante, com raiva do que perdemos, com raiva dos desencontros, das coisas não ditas, do medo que nos impediu de estarmos juntos. Mas jamais tive ódio dela. Não havia em mim espaço para sentir menos do que amor. — Eu tomei meu tempo processando isso, e no início pareceu muito com raiva, mas não era dela. E mesmo que eu quisesse que tudo tivesse sido diferente, eu entendo porque ela fez o que fez, mesmo não concordando.
— Aquela semana que você morou no escritório e se tornou um bêbado mal-humorado e intratável com todos? – a voz de Tommy era baixa e até mesmo hesitante.
— Essa mesma.
— Poderia ter nos contado antes. Diggle e eu estamos sempre aqui para você, Ollie. – sorri um pouco, apenas porque tanto Dig quanto Tommy sorriam para mim. Eles não faziam ideia de como eu me sentia por perder um filho, e esperançosamente jamais saberiam, mas eles estavam ali por mim e sempre estariam.
— Eu sei. – o meu sorriso se tornou maior — Eu não sabia como falar de Jonas. – Senti algo estranho ao falar o nome dele. Havia tristeza é claro montes dela, mas havia também um tipo de amor que jamais iria embora de mim. – Eu ainda não acredito que Felicity lhe deu meu nome...
— Por que não?
E de repente foi simples.
Falar do meu filho, sobre o que Felicity havia me contado dele. Sobre as coisas que eu mesmo disse para ele ainda que naquele túmulo, meus desejos e sonhos perdidos. De alguma forma, reconhecer para os outros que meu filho existiu, me fazia o sentir mais perto de mim, mais real. E aquele pesar que eu carregava, aquela dor que sufocava meu peito sempre que eu pensava em Jonas aos poucos se tornava menor, como se pudesse ser jogada para fora através das palavras.
E talvez pudesse.
— Tem algo que não entendo. – Tommy pontuou depois de um longo tempo.
— Tem muita coisa que você não entende, Tommy. – Diggle não pode resistir a provocação recebendo um olhar enviesado em retorno. Sorri, satisfeito por ter meus bons amigos para conversar.
— Você e Felicity estão bem, mesmo depois de tudo o que aconteceu... – Assenti. Nós estávamos bem. Essa era uma das poucas certezas que eu tinha, então, por que meu coração batia desesperadamente antecipando a pergunta de Tommy? — Por que vocês não estão juntos?
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— É uma boa pergunta. – Dig anuiu, e então havia dois pares de olhos em mim. Minhas mãos suaram tanto que as esfreguei em meus jeans.
— Porque essa não é apenas a nossa história de amor, não é sobre o que Felicity e eu sentimos um pelo outro... Não totalmente. – tentei explicar — É sobre perdão e aceitação, é sobre... — suspirei — ... sobre realmente fazer a coisa certa dessa vez e garantir que teremos o nosso final feliz – encarei minhas mãos.
— Então faça a coisa certa agora, Oliver. – a voz firme de Diggle me fez encará-lo — Não espere demais, não racionalize demais, apenas viva o amor.
***
Felicity Smoak
Era final de tarde, não houve sol naquele dia, portanto eu só conseguia perceber a luminosidade aos poucos desaparecendo e dando lugar ao crepúsculo. Tingindo os lugares e pessoas com tons diferentes de cores, enquanto no ar havia aquela estranha aura de excitação.
Mas mesmo assim, isso não me atingia, eu não conseguia prestar atenção em nada.
Talvez fosse a música ritmada que atravessava meus ouvidos, me impedindo de escutar o que tão animadamente Thea falava comigo. Talvez fossem todas as pessoas ao meu redor que andavam de um lado para o outro com um grupo animado de amigos ou as que estavam dançando, e me deixavam tonta. Ou talvez fosse o calor no meio da multidão que me fizera prender os cabelos no alto da cabeça, bem como retirar a blusa de frio e amarrá-la em torno da minha cintura como uma adolescente.
A surpresa de Oliver não era exatamente o que eu esperava.
Ele beijou minha testa e disse que queria que eu me divertisse. Eu tinha outro tipo de diversão em mente quando ele retirou do bolso e me entregou o ingresso para um festival de música indie aquela noite. Eu o encarei confusa, esperando que ele dissesse que seria um encontro, mas não, e então eu ouvi um gritinho histérico de Thea que dizia que nossa noite de garotas seria um sucesso, e já começava o planejamento.
Naquele instante eu soube que Oliver não estaria incluso na “nossa noite de garotas”.
Eu mantinha meus pés plantados no chão, tentando entender o que diabos estava acontecendo. Procurei no olhar de Oliver respostas, mas ele apenas me deu um maldito sorriso ambíguo, aproximou-se quase colando os lábios em minha orelha.
— Divirta-se hoje com minha irmã, você merece um dia normal, Felicity. – sussurrou com doçura os lábios úmidos tocando apenas de lóbulo da minha orelha enquanto dedos exploravam suavemente a região do meu pescoço deslizando tão lentamente que mais pareciam acompanhar o meu ritmo cardíaco. — Mas amanhã você é minha. – Seus olhos procuraram os meus assim que a frase marcante foi dita.
Podiam palavras serem impressas em meu coração? Porque eu as sentia, como se tivessem sido tatuadas em mim a fogo. Meu corpo estava tão ansioso pela promessa daquele “amanhã” com Oliver, que o hoje passava por mim como um borrão cinzento. Como era suposto que eu me divertisse? Que eu tivesse qualquer pensamento que não convergisse até Oliver e sua promessa?
— Vai ficar com esse olhar saudoso o tempo inteiro no rosto? – Thea parou fazendo-me parar também, uma vez que ela se posicionou na minha frente bloqueando meu caminho e jogou a pergunta a queima roupa – Ollie quer que você se divirta um pouco com a sua melhor amiga! Lembra-se dela? – apontou os dois indicadores para si mesma — EU. Bem aqui. Thea Queen. A número um e a única. – Não pude deixar de sorrir, Thea dava um novo sentido a frase Drama Queen — Então faça o favor de tirar os pensamentos do seu amado Oliver por algumas horas e se concentrar nisso aqui. – ela abriu os braços indicando o lugar incrível em que estávamos, se desculpando por bater a mão em um casal que passava.
— Você está com ciúmes dos meus pensamentos. – constatei, segurando a ânsia de revirar os olhos. Nunca é bom provocar alguém com ciúmes. – Percebe o quão louco isso é, Thea?
— Pode apostar que estou! E sim, percebo, mas não me importo. – respondeu-me na ordem — Hoje é meu dia, me certifiquei que fosse apenas meu antes de... — Thea não terminou a sentença... Estreitei meus olhos em suspeita quando percebi que havia algo mais ali... Eu era uma expert em esconder coisas, ela não poderia esconder nada de mim.
— Você e Oliver estão dividindo a minha custódia como se eu fosse filha de pais separados. – Deduzi.
— O quê? Que tipo de pessoa faria algo assim? – Sua voz elevou-se alguns oitavos, a mão foi ao peito e no rosto havia uma expressão tão falsamente ofendida digna de novela mexicana. Yep. Eu era como a filha de pais divorciados. — Fique sabendo que quando vocês dois se casarem, eu irei estipular um dia da Thea Queen. – Eu comecei a rir, mas parei imediatamente ao receber um olhar afiado que me fez perceber que minha amiga falava sério. – Um sábado por mês, aonde você fará qualquer coisa que eu quiser. – Determinou. – Não importa o quê. – Um brilho maldoso brilhou em seus olhos.
— Você sabe que perante a constituição eu sou uma cidadã com direitos e liberdades, e que você não pode me obrigar a nada, a não ser que haja um contrato com testemunhas... – Comecei minha defesa, mas a parei ao perceber que ao invés de estar intimidada Thea sorria abertamente, podia ver uma pontinha de arrogância ali. — O quê?
— Você aprendeu muito com meu irmão. – Dei de ombros, eu fiquei entediada no escritório de Oliver algumas vezes e livros de direito eram tudo o que havia por ali. – E é engraçado você não questionar em nenhum momento a ideia de que daqui alguns anos você e Oliver estarão casados... – meu coração se aqueceu bem como meu rosto ao se dar conta do que eu havia feito.
Por que em minha visão do futuro eu estaria casada com Oliver?
— Você me distraiu. – acusei rapidamente, ansiosa para me livrar da visão de rosas e vestidos brancos rendados... Embora fosse mais provável que eu usasse girassóis em meu casamento com Oliver.
Ótimo. Agora eu era uma adolescente novamente planejando meu casamento com o irmão da minha melhor amiga. Daqui a pouco estarei escrevendo Felicity Smoak Queen em todos os lugares.
— Estava precisando. – Isso era o mais perto de um me desculpe que eu ganharia de Thea. — É tão difícil assim se soltar? Você passou as últimas semanas trancada em casa e se preocupando com esse maldito julgamento. – ambas as mãos de Thea se colocaram em meus ombros, seu tom era tranquilizador, bem como seu pequeno sorriso. — Não há nada errado em aproveitar um pouco, em se permitir sonhar com um futuro.
Não havia nada errado em sonhar com isso, exceto que o mero pensamento de casamento com Oliver me deixava a beira de um ataque de nervos... De um jeito estranhamente bom.
— Eu ainda não sei como conseguiu convencer Oliver disso. Um festival de música? – tentei sutilmente mudar de assunto, Thea entendeu a deixa e me deixou conduzir a conversa — Quero dizer, até ontem eu não podia nem sair de casa sem que ele surtasse. – No fim, eu mesma acabei desistindo de sair, qual era o ponto?
— Aí vem sua resposta. – apontou para a pessoa que tentava correr no meio da multidão e acenava para nós a poucos metros.
— Sara Lance? – eu disse o nome com tom descrente, fazendo a loira, que agora estava ao lado de Thea erguer uma das sobrancelhas. – Não é pessoal. Eu só não vejo como Oliver pode achar que Sara poderia impedir Slade de... – minha voz morreu, o restante da frase ficando engasgado na minha garganta.
— Hey! Eu posso ser baixinha, mas eu pratico três tipos diferentes de luta. – me lançou um olhar feroz que não deixava dúvidas — Não contem ao Tommy, não quero assustar o coitado, ainda estamos no começo e...
— Espere? Você e Tommy? – indaguei, e seu sorriso se tornou maior.
— Quem diria, não? – reconheci aquele olhar livre e apaixonado, o vi tantas vezes em mim mesma quando mais jovem. — Como água e vinho... Como você e Oliver... Não é engraçado como pessoas tão diferentes podem se encaixar? Mas acho que este é o ponto, quando estamos com a pessoa certa eles completam o que nos falta, nos ensinam a ver um mundo de uma forma diferente e nos tornamos as melhores versões de nós mesmos.
Um flash se acendeu em minha memória, lembrei-me de um Oliver bêbado, sentado debaixo do chuveiro comigo ao seu lado, dizendo-me que até mesmo sua versão bêbada era melhor quando estava comigo.
Nosso amor era assim? Capaz de inspirar algo bom, mesmo nos momentos ruins?
— É. – Por que eu continuava sendo puxada para conversas sobre meu futuro com Oliver? Ele me disse para me divertir hoje, não para me torturar. — Mas ainda assim, eu não vejo como Oliver pode ter concordado com isso. – gesticulei com as mãos para o nosso redor.
O parque onde o festival acontecia podia até ser um ambiente fechado, mas era movimentado demais.
— Meu pai está aqui, com alguns policiais à paisana. – Suspirei. Isso fazia muito mais sentido, mesmo que eu não gostasse da ideia de ser vigiada — Então é “seguro” e livre de impressa também. – Ela fez aspas com as mãos sobre a palavra. – E tem seu guarda-costas é claro, acredita que ele me fez mostrar minha identidade antes de me deixar me aproximar? – Revirei meus olhos, Ronnie podia ser muito mais paranoico do que Oliver.
— Mas você não pode culpa-lo, afinal você sabe três tipos diferentes de luta.
— Quatro. – corrigiu-me.
— Isso é vigilância demais para mim, mas em breve eu vou dar um jeito nisso. – Thea se intrometeu, ela tinha os olhos vidrados nas costas de Ronnie.
— Thea. – adverti, mas ela apenas piscou seus grandes olhos e sorriu para mim como um anjo. Merda. Eu conhecia bem aquela expressão. Encrenca em breve. – Não faça nada muito drástico. – Me limitei a dizer, não havia muito a fazer quando a Queen mais nova decidia por algo, na realidade... Oliver Queen não era muito diferente da irmã, obstinado e cabeça-dura, sempre querendo fazer as coisas do seu jeito.
— Não se preocupe, eu apenas enviei um ingresso para uma médica e garanti que ela estaria aqui. – piscou sugestivamente para mim — Agora preciso achar meu namorado, ele está demorando uma vida com nossas bebidas. – se afastou soprando beijinhos.
— Então... – Sara começou.
— Então? – Ergui uma das sobrancelhas esperando, ao mesmo tempo torcendo para que Sara não começasse a falar sobre Oliver e eu. Eu não sabia o quanto Sara conhecia da nossa história, mas considerando que ela namorava Tommy e que como amigo de Oliver ele sabia que nós dois nos envolvemos na época em que ele ainda estava noivo de Laurel. E Sara era sua irmã... Eu apenas não queria ouvir nenhum julgamento.
— Sua mãe parece estar se divertindo. – tentei não demonstrar a surpresa por seu tom amistoso, e olhei na mesma direção que Sara observando minha mãe em frente ao palco se comportando com uma verdadeira tiete de uma banda que ela sequer conhecia.
— Esse é o tipo de lugar que ela adora. – expliquei. – E caras bonitos usando jeans apertados — Minha mãe agora dançava sozinha ao som da música agitada, mandando beijos para o vocalista. — Ainda me pergunto como alguém tão vibrante como ela terminou como alguém tão chato quanto o meu pai.
— Ela é divorciada, certo? – Havia mais em sua pergunta, mas não sabia o quê.
— Sim. – respondi cautelosamente, ainda a estudando. — Por que o sorriso?
— Porque eu acho que é exatamente alguém como a sua mãe que meu pai precisa. – Sara passou a mão pelo meu braço me fazendo caminhar junto com ela para mais perto do palco — Ele também é divorciado. – ela piscou pra mim, e simples assim, eu sabia que passaria as próximas horas bancando a cupido da minha mãe.
***
Eu não percebi que já era tão tarde.
O festival aos poucos foi esvaziando, não sei se porque a noite negra e sem estrelas pesava sobre nós, ou porque o cantor que tocava agora era mais suave e romântico, com o tipo de música próprio para casais, e que qualquer solteiro passa longe. Tentei não olhar para minha mãe e Quentin Lance dançando agarradinhos a poucos metros de mim... Tudo bem que Sara e eu havíamos conseguido, mas isso não significava que eu queria ver minha mãe beijando Quentin.
O que eu acabei de ver.
Eca.
Virei o olhar apenas para me deparar com Ronnie e Caitlin, Thea e Roy. Obviamente, não perdi a oportunidade e tirei uma foto do primeiro casal. Qualquer munição contra Ronnie é sempre útil.
— Tomara que Sara não demore tanto. – murmurei para mim mesma. Era um saco estar em meio a tantos casais apaixonados e não poder ser um deles, como um lembrete constante daquilo que eu não deveria estar pensando.
Mas ainda assim tinha sido uma boa noite.
Eu era grata a Oliver por isso.
Por esse pequeno momento em que pude ser apenas uma garota normal que se divertiu com outras garotas. Que bancou a cupido e dançou desastrosamente uma música desconhecida. E que até mesmo agora podia se permitir um minuto para fechar seus olhos e balançar no ritmo da música lenta, apreciando e sentindo a emoção da que a melodia passava.
O que eu apenas fiz.
Meus lábios curvaram-se num tímido sorriso.
Meus sorrisos tinham sido tão poucos, e principalmente direcionados apenas às pessoas mais especiais, aquelas que de alguma forma conseguiram romper minhas defesas e chegar mais perto da verdadeira e tão danificada Felicity. Mas esta era a primeira vez, em um longo tempo que eu sorria para mim mesma.
Por mim mesma.
Então me permiti aproveitar um pouco disso.
Me perdi na voz do cantor que se encaixava ao rico arranjo musical com delicadeza, as palavras que complementavam a música soavam como uma confissão apaixonada. Deixei-me ser puxada pela emoção que eu conhecia tão bem, deixei a música fazer seu caminho até meu coração que bombeava conforme a batida, minha mente naturalmente vagou em pensamentos até Oliver, e dessa vez não os contive, permiti que a romântica letra da música se associasse a ele, a nossa história...
....There goes my heart beating
Cause you are the reason
I'm losing my sleep
Please come back now... ♪♫
Mantive meus olhos fechados, ainda focada em apenas sentir. E quando duas mãos quentes se colocaram em minha cintura, puxando-me para trás contra um tronco firme, eu apenas me deixei levar.
Em qualquer outra circunstância eu teria me afastado.
Mas reconheci o toque forte daquelas suas mãos mantendo meu corpo firmemente junto ao seu, o cheiro familiar da colônia pós-barba que ele usava, mesmo que não tivesse se barbeado naquele dia, e o poder que somente o seu abraço tinha de me fazer relaxar.
Pousei minhas mãos sobre as dele, aconcheguei-me um pouco mais em seu corpo, enquanto Oliver abaixou a cabeça próximo ao meu pescoço, e ficou ali, apenas respirando profundamente.
Não falamos, nenhum dos dois desejava interromper a magia daquele pequeno momento. E permiti que ficássemos assim, abraçados e balançando juntos ao som da música, quase como se estivéssemos dançando.
Minha história com Oliver era marcada por momentos.
Felizes e tristes, alguns divertidos outros inesquecíveis... Mas sempre havia algo entre nós, contra nós. Eu era muito jovem, Oliver tinha uma noiva. Nunca estávamos na mesma sintonia ou no momento correto para viver o que sentíamos, não realmente. Não até hoje, eu não fazia ideia do que isso mudava, mas nós estávamos prontos.
— O que faz aqui? – quebrei o silêncio apenas quando a música chegou ao fim, não havia acusação em meu tom, apenas curiosidade. Eu havia notado a distância das últimas semanas, e queria entender o porquê da mudança. — Você disse que hoje queria que eu tivesse um dia de garotas. – acusei, já não estava mais chateada com Oliver por isso. — Você não é uma garota. – o som grave de sua risada vibrou contra meu ouvido e trouxe deliciosos arrepios a pele. Inclinei minha cabeça um pouco mais para trás, certificando que teria mais disso quando Oliver falasse novamente.
— Definitivamente não sou uma garota.
— Não mesmo. – a barba raspou de leve por meu pescoço e Oliver apertou-me um pouco mais firme provando de que não era mesmo uma garota.
— Pensei que eu seria sua apenas amanhã. – o lembrei, reflexivamente mordi meus lábios, me impedindo de derramar minhas expectativas sobre sua promessa.
— Eu não consegui esperar por amanhã. – excitação percorreu-me das pontas dos dedos até o último fio de cabelo — Eu precisava fazer isso hoje. – Num movimento rápido suas mãos giraram meu corpo, eu mal tive tempo de me perder em seus olhos porque sua boca capturou a minha roubando-me de mim mesma.
Eu perdi a respiração, soltando-a em pequenas arfadas. Sentindo-a se misturar a de Oliver. Subi minhas mãos por seu tronco, registrando que Oliver usava uma camisa de malha, tão diferente dos ternos caros e camisas de botões que eu estava acostumada a sentir sob meus dedos. Gostei mais assim. Acomodei meus dedos em seu pescoço, aproveitando da posição para puxar sua boca ainda mais para minha e exigir muito mais. Um gemido baixo escapou de sua garganta quando nossas línguas se tocaram iniciando uma exploração lenta e provocante.
As mãos de Oliver desceram por minha cintura e se espalmaram em meus quadris, puxando-os para si. Dessa vez o gemido lânguido fluiu de meus lábios quando senti sua rigidez.
Todo meu corpo ficou inquieto e necessitado, mãos puxando seu cabelo quase agressivamente, bocas se devoravam tão famintas que eu posso ter mordido seus lábios uma ou várias vezes, e mesmo assim não era o suficiente para aplacar a fome que eu sentia de Oliver.
Eu não era a única nesse estado.
Uma das mãos que segurava minha bunda subiu num agarre firme até meus cabelos presos no rabo de cavalo, enquanto a outra permaneceu ali sobre as nádegas, quase que reivindicando-a como sua.
Gentilmente a mão de Oliver, torceu em meus cabelos forçando-me a inclinar a cabeça para o lado. Sob ecos de protestos ou talvez fossem apenas meus gemidos seus lábios deixaram os meus, trilhando beijos por meu rosto. Quando sua boca atacou meu pescoço eu perdi a compostura. Quero dizer, eu já estava fora do meu controle há muito tempo, mas bem, nessa hora a coisa ficou realmente séria.
Deslizei minhas mãos por dentro da camisa, subindo-a e tentando tirá-la enquanto tateava seus músculos firmes e bem definidos. Eu havia me esquecido de quanto era bom tocá-lo.
Eu precisava de mais pele, então eu fui atrás disso.
— Amor, pare. – Uma palavra ofegante sussurrada em meu ouvido e de repente eu era massinha de modelar nas habilidosas mãos de Oliver Queen. Por que diabos ele não queria brincar comigo? — Eu acho que aqui não é o melhor lugar para você me despir.
Pisquei, abrindo meus olhos e me dando conta de onde estávamos.
— Opss. – percebi meu erro, e abaixei sua camisa negando ao restante do mundo aquela visão, mas me resguardando o direito de manter minhas mãos por debaixo do tecido, deslizando por suas costas, uma vez que eu comecei eu não seria capaz de parar de tocá-lo. – Eu acho que me empolguei. — Ergui meus olhos para os dele que refletiam as mesmas chamas que haviam nos meus, deslizei a língua por sobre meus lábios buscando um resquício do seu sabor. – Me desculpe.
— Não desculpo. – Seus lábios voltaram a cobrir os meus, num beijo doce dessa vez.
Tão malditamente doce e lento, que o resto do mundo deixou de existir, e tudo o que eu me importava era estar com Oliver, amar Oliver.
Eu sorri contra seus lábios.
Porque enquanto Oliver me beijava, eu percebi, que não existiam mais pedacinhos soltos ou buracos em meu coração. Ainda que houvessem marcas de pequenas cicatrizes aonde um dia eles estiveram, cicatrizes que contavam nossa história. E ela podia ser triste em muitos momentos, mas haviam tantos outros que eram bonitos e felizes... Como o de hoje, e que se eu quisesse, essa poderia ser minha vida com Oliver.
Para sempre.
Oliver sorriu de volta.
E eu soube que nossos corações haviam chegado a um acordo.
Fale com o autor