Guilty Pleasure
18 Capítulo 16 - Tears in Heaven
Notas iniciais
Would you know my name
If I saw you in Heaven?
Would it be the same
If I saw you in Heaven?
I must be strong
And carry on
'Cause I know I don't belong
Here in Heaven
Would you hold my hand
If I saw you in Heaven?
Would you help me stand
If I saw you in Heaven?
I'll find my way
Through night and day
'Cause I know I just can't stay
Here in Heaven
(Tears in Heaven – Eric Clapton)
♥
Felicity Smoak
Eu seguia olhando para fora da casa pela janela do meu quarto. Eu havia puxado uma poltrona para aquele canto e passava a maior parte dos meus dias encolhida ali. Apenas olhando. Apenas esperando. Meu coração sempre pulando do peito quando eu via um carro escuro passando pelos portões, e logo depois todos os batimentos diminuíam o ritmo e uma pontada aguda o atravessava quando eu percebia que era apenas Ronnie retornando de alguma ronda. O que eu esperava?
Já era me iludir muito esperar que Oliver voltasse. Mas desejar que ele voltasse para mim, era uma ilusão ainda maior.
Eu jamais esqueceria o quanto ele parecera desnorteado.
A imagem do seu olhar perdido, das lágrimas que desceram por seu rosto as quais ele sequer tentou esconder. Da boca aberta, mas da qual não saiu nenhum som porque a dor que ele sentia não havia como de ser verbalizada. O jeito desesperado que seus passos se moveram para longe de mim, como se eu fosse a fonte daquela dor. Essa imagem jamais deixaria minha memória.
Mesmo que não existisse uma maneira de contar a Oliver amenizando a dor, eu nunca desejei que ele descobrisse a verdade desse jeito. Ouvindo uma conversa. Ele estava certo, eu nunca desejei que ele soubesse. Não queria lhe infligir a mesma dor que tive que conviver nos últimos anos.
Eu quis poupá-lo dela.
E que diferença fez?
Ela o atingiu com tudo de uma única vez.
Eu só poderia imaginar como ele estava se sentindo agora. Traído, por eu ter escondido algo tão importante dele. Por ter o impedido de conhecer nosso filho, mesmo que sua vida tenha sido tão efêmera. Eu lhe roubei o direito de ser pai. Eu tinha visto em seus olhos tantos sentimentos quando a verdade aos poucos era revelada, eu reconheci cada um deles. A surpresa, a ansiedade misturada ao medo do que ser pai mudaria em sua vida. E amor. Havia tanto amor em seus olhos. Transbordando de seu coração ansioso para amar.
Mas eu arranquei cada um desses bons sentimentos de seu coração.
Eu o quebrei.
Como disse que faria.
Eu era uma assassina no final das contas.
Eu matei o Oliver pelo qual aos poucos eu me permiti me apaixonar. Tirei dele seu sorriso e aquele amor que ele estava tão ansioso para dar. Arranquei seu coração, seus bons sentimentos e o deixei vazio, tendo apenas a dor daquele buraco oco em seu peito como companhia. Um buraco que jamais seria preenchido, eu sabia bem, porque mesma convivia com a ausência todos os dias. Já fazia tanto tempo que aquela dor passou a ser minha amiga. Mesmo que ela apenas se espalhasse por mim corrompendo qualquer tentativa de bons sentimentos. Com o tempo havia aprendido a domá-la, a ignorá-la, a fingir que ela não estava lá. Mas os bons sentimentos jamais retornavam. Esses eu havia perdido para sempre.
Não perdi.
Aquela pontada em meu peito me alertou, fazendo-me levar uma das mãos para lá. Sentindo as batidas tímidas. Eu ainda tinha um coração. Ele estava em mal estado e não era usado com muita frequência, mas ele estava lá agora. Com remendos e pedaços faltando. Mas ele ainda batia, ainda havia sentimentos bons tentando crescer ali.
Havia uma pequena centelha de esperança.
Em dias mais chuvosos como hoje, ela quase se apagava, se tornando meramente uma brasa fraca. Mas ela existia, Oliver havia colocado ela em mim. Me lembrando de como era bom sorrir, cuidando do meu coração com ternura e quem sabe até mesmo um pouquinho de amor. Eu queria poder tentar fazer o mesmo por ele. Mesmo que não soubesse como. Me permitir receber carinho e ternura de Oliver, me permitir amá-lo, me fez me lembrar de como era viver outra vez. Por um longo tempo eu vivi em um mar revoltoso, me afundando cada vez mais a cada nova onda, sem me importar se eu deveria tentar nadar contra a corrente ou não. Oliver era aquele que me mantinha flutuando, e se eu me permitisse um pouco mais, ele seria aquele que me arrastaria de volta para a praia.
Eu esperava que Oliver voltasse, por mais doloroso que fosse. Que me permitisse apenas contar a ele sobre o nosso bebê, que me permitisse tentar amenizar sua dor, lhe dando algumas poucas, porém lindas memórias dele.
Eu não esperava por seu perdão.
Eu mesmo não havia me perdoado.
Mas eu esperava a chance de, pelo menos, lhe mostrar a pequena parte bonita que existia em meio àquela feiura, a parte que fizemos juntos. E que talvez com o tempo Oliver pudesse encontrar alguém que aliviasse um pouco da dor em seu coração, lhe trouxesse de volta seu sorriso, assim como ele fizera para mim.
Mesmo que esse alguém não pudesse ser eu.
Me ergui da cadeira e encarei a mala aberta sobre a cama, decidida. Ela estava pronta há um par de dias, mas eu simplesmente não conseguia me obrigar a ir. Porque alguma pequena parte de mim ainda guardava esperanças. Não sei exatamente do quê. Não era como se Oliver e eu pudéssemos voltar a estar juntos.
Nada nunca poderia voltar.
Suspirei, ainda sentindo o quanto um único momento mudou toda a nossa história, tudo poderia ter sido tão diferente se, e apenas se... Mas lamentar o que deixou de ser dito ou feito, o passo em falso que demos, o caminho que não percorremos, nada disso fazia a menor diferença. Parte da vida é feita de reações. O caminho que escolhemos logo depois de nos perdemos, o modo como nos levantamos após uma queda. Pronto para lutar novamente ou apenas desistir de vez.
Foi com esse pensamento que puxei a mala da cama, peguei as chaves do meu carro e caminhei para fora do quarto.
Reagindo.
***
— Que diabos você está fazendo? Você não pode simplesmente ir embora assim! – Eu estava pronta para fechar o porta-malas quando ouvi o grito alto e claro, e me obriguei a olhar para trás e ver a expressão contrariada da minha amiga. É claro que eu sabia que Thea viria me impedir de ir embora. Eu apenas esperava ser mais rápida do que ela.
— Thea. – sorri para ela, mesmo que tenha sido necessária uma força quase descomunal para movimentar aqueles músculos já esquecidos. — Oliver teve cinco dias para voltar e conversar comigo. – falei com uma calma que surpreendeu a mim mesma. – E ele preferiu dormir naquele sofá duro do escritório. Esta é a casa dele, e o mínimo que posso fazer se ele não quer olhar na minha cara, é garantir um ambiente livre de mim. – soei mais amarga do que pretendia, mas não havia muito o que fazer sobre isso. Eu estava amarga. – E acho que talvez seja hora de procurar um advogado novo.
Eu ainda não havia pensado muito na última parte, tinha medo de romper a nossa última ligação. Mas eu não deveria ser egoísta, eu deveria deixar cada parte de Oliver ir. Era o correto.
— Ele só precisa de tempo para absorver tudo. – Thea tentou, sua mão segurando o meu pulso com firmeza fazendo-me virar para ela. – Ele não vai te abandonar, Felicity.
— Eu sei. – Mas tempo não resolveria nada. Tinham se passado cinco anos para mim e a dor ainda era a mesma. Havia momentos em que eu quase a esquecia, momentos em que minha mente e meu coração estavam ocupados pensando em outra pessoa, sentindo outras emoções. Sentimentos bons para variar. Sentimentos esses que eram tão fortes e que lutavam dentro de mim, e faziam a dor ser mais fácil de suportar. – Eu sei o quanto está sendo difícil para ele, eu o entendo como ninguém mais, Thea. Apenas estou tentando encontrar um meio de deixar tudo mais suportável. – forcei um pequeno sorriso – Um outro advogado parece uma ideia melhor, eu sei o quanto Oliver é honrado, mas eu também o quanto seria difícil para ele e não quero que ele sofra ainda mais. Eu já o machuquei demais.
— E como se machucar resolve alguma coisa?
— Eu já estou acostumada. – dei de ombros.
— Você não pode ir embora.
— Eu não estou indo embora de Starling, eu nem posso, não com esse julgamento para acontecer a qualquer momento. — a tranquilizei — A gente ainda vai se ver, só não vai ser aqui. – olhei rapidamente para a mansão, ignorando o quão fácil tinha sido pertencer à esse lugar.
Eu estava quase a convencendo, sua expressão ainda era reticente. Mas Thea não tinha mais argumentos para me fazer ficar. E de todo modo, eu precisava sair. Era doloroso demais que mesmo em pouco tempo, cada pedaço dessa casa estivesse cheio de lembranças nossas. Às vezes eu me pegava sentindo o cheiro dele, num travesseiro, nos lençóis, em uma toalha de banho. Em cada corredor havia uma lembrança antiga, que se misturava a uma nova.
Pedaços da nossa história.
Uma história que começou a ser destruída antes mesmo de ser construída.
Era por isso que eu não deveria me apegar demais. Eu precisava limpar minha cabeça de Oliver Queen, mesmo que para o meu coração já não tivesse conserto.
— O que está fazendo, Ronnie? – notei com minha visão periférica o momento em que uma mochila e uma mala pequena foram colocados no meu porta malas.
— O que parece que estou fazendo? – Perguntou com o sorriso tão infantil quanto o de uma criança de dois anos. Adorável, porém muito suspeito.
— Colocando malas desconhecidas no meu carro. – respondi, sem paciência alguma para lidar com Ronnie nesse momento. Provavelmente em nenhum outro. – Eu não gosto disso.
— São minhas. – seu sorriso se alargou ainda mais, suas mãos se colocaram ambas ao redor da cintura no melhor estilo “problema resolvido” — Pronto. Agora não são mais desconhecidas.
— Mas o carro é meu! – Atravessei a pequena distância, marchando em passos firmes o fuzilando com o olhar. Usei as duas mãos para tirar as coisas dele de lá – E não quero suas malas nele! – deixei-as cair no chão, em parte porque queria um efeito dramático, e em parte porque elas eram pesadas pra caramba. — Que diabos você colocou aqui? Um monte de pedra?
— Eu estou indo com você. – ele pegou as malas do chão com uma só mão, como se não pesassem mais do que um travesseiro de plumas. — E como não sei exatamente para onde você pretendia ir eu coloquei um pouquinho de tudo, eu nunca fiz companhia para uma mulher que não estou interessado, então não sei quais são as suas necessidades.
— Eu não quero sua companhia! – Ronnie riu ao me ver batendo o pé como uma garotinha teimosa e tirando de novo (e com muita dificuldade) suas malas do meu carro.
— Eu acho que Ronnie deveria ir. — Thea falou com cautela. Eu havia me esquecido que ela estava ali, observando a cena.
— Viu? Até mesmo a princesinha aqui concorda comigo. – Thea bufou perdendo a compostura.
— Eu não sou uma princesinha! – Ela revidou com um olhar mordaz, franzindo os lábios e erguendo o queixo numa atitude que, para o bem da minha amizade, eu jamais admitiria ser muito princesinha.
— Ok. – ele ergueu ambas as mãos, fingindo-se de inofensivo, seu corpo sacudindo com o riso baixo — Pequena Queen está melhor para você?
— Humpf.— ela bufou — Já estou arrependida de concordar com ele. Claramente é um idiota. Talvez eu devesse ir com você e Ronnie ficar para trás. Posso pensar em muitos programinhas de garotas para nós duas.
Ah, merda.
A coisa só piorava.
— Eu sou o seu guarda-costas, Felicity. – Ronnie argumentou olhando diretamente para mim. — Se a pequena Queen for, não me responsabilizo por ela. – deu de ombros – É mais provável que eu a chute para fora do carro no meio da viagem quando ela estiver tagarelando demais. – seu sorriso se tornou quase diabólico ao ir para Thea — Ou talvez possamos usá-la como escudo humano.
— Talvez eu apenas te chute no...
— Ninguém vai comigo. – Interrompi, antes que os dois continuassem aquela guerra sem sentido e acabassem por decidir que os dois estariam vindo comigo. Me virei para Thea primeiro — Oliver vai precisar de você aqui, Thea. Ele precisa de alguém para abraça-lo e confortá-lo. – eu sabia que Oliver iria querer ficar sozinho, mas eu também sabia que solidão não seria a melhor maneira de lidar com o luto.
— Mas...
— Não o abandone também. – apelei para o que sabia, traria um pouco de culpa a Queen mais nova.
— E quanto a você, Ronnie – ele ergueu ambas as sobrancelhas e segurou o sorriso. Quase como se estivesse ansioso para a sua vez. Ele era meu segurança, tinha o porte físico de um, mas na maioria das vezes se comportava como um irritante irmão mais novo e eu tinha vontade de puxá-lo pela orelha e colocar de castigo. Não seria fácil dobrá-lo. — Eu não me importo se você é meu guarda-costas, eu não pedi por isso. – ele abriu a boca ofendido, pronto para revidar, mas não permiti. Ainda não — Você trabalha para o Oliver e não para mim. Eu não o quero me seguindo a todo lugar que vou.
Eu estava orgulhosa de mim mesma, de como fui firme e deixei Ronnie sem palavras. Seu rosto ficou sem expressão, seu olhar fitando o nada e ele simplesmente passou por mim. A sensação de vitória durou poucos segundos até que ele abriu a porta do passageiro do meu carro, e fez sinal para que eu entrasse.
— Entre. – repetiu, ainda segurando a porta aberta. — Eu estou indo com você.
Oh, sim Ronnie era um maldito irmão mais novo o qual eu desejava chutar a canela. Mas agora? Ele estava no modo segurança particular, pronto para me enfiar dentro daquele carro e me amarrar com três tipos diferentes de cintos de segurança.
— Eu vou dirigir o meu carro e não o quero dentro dele. – empurrei a porta batendo-a com força. Me desculpei mentalmente com meu pobre carrinho, e dei a volta sentando-me atrás do volante, tomando o cuidado de travar todas as portas antes que um dos dois resolvesse se enfiar ali. – Vá embora e faça o favor de não me seguir! — Gritei para Ronnie que apenas me deu um pequeno sorriso, se abaixando e escorando ambos os braços na janela aberta do meu lado.
— Como você não é minha chefe e não manda em mim, como fez questão de esclarecer. Eu não vou te largar. – Grande merda! — Eu irei embora quando o senhor Queen me disser para ir. Meu trabalho é seguir você pra todos os lados e te manter segura, não me importo se gosta disso ou não. – Eu segurava o volante com as duas mãos. Irritada demais. Eu só queria um momento sozinha para lidar com o mundo que despedaçava-se ao meu redor, era pedir demais? — Eu serei aquele chiclete grudado na sola do seu sapato.
— Então eu vou jogar o maldito sapato fora!
— Não é assim que funciona. – ele riu.
— Ótimo. – abri um sorriso – Se quer me seguir por aí tudo bem, eu vou chamar a polícia e dizer que tem um stalker maluco me perseguindo e dar a placa do seu carro. Eu sou uma excelente atriz, pergunte à Thea.— Expliquei meu plano — Eu tenho certeza que uma boa noite na delegacia vai ser ótimo para o seu comportamento.
— Você é diabólica demais para alguém tão baixinha. – Ronnie se afastou um passo do carro, me olhando do alto com curiosidade.
— Acho que venci. – Sorri dando partida no carro.
Pelo retrovisor avistei a imponente mansão Queen ficar menor, Thea e Ronnie parados logo na entrada olhando preocupados em minha direção, e me forcei a ignorar aquela sensação ruim dentro de mim, dizendo que eu não havia vencido nada.
Eu havia apenas perdido mais.
***
— Irresolúvel. – falei em voz alta escrevendo cada uma das onze letras em um dos quadradinhos da vertical, satisfeita que todas elas tivessem se encaixado. – Adjetivo. Sem solução. – li novamente a dica das palavras cruzadas com tédio. – Fácil demais. Irresolúvel, assim como a minha vida. Vamos para a próxima.
Retirei os óculos os deixando na mesinha ao lado da cama e massageei minhas pálpebras doloridas de tanto forçar a visão. Dei uma rápida olhada para o relógio ao lado da cama marcando dez e quarenta e cinco da noite e suspirei pela minha ausência de sono, voltei a atenção para o caderno de palavras cruzadas na esperança de que ele me fizesse adormecer.
— Adjetivo. Aquele que está sem esperança, extremamente aflito... – eu ainda lia, mordendo distraidamente a base da caneta quando batidas fortes na porta do quarto me fizeram dar um pulo da cama.
— Felicity! Abra a porta. – Meu coração começou a bater mais forte ao reconhecer a voz. Olhei pelo quarto pequeno e escuro, desnorteada. Eu havia imaginado aquela voz? Ela parecia um pouco arrastada demais para ser de Oliver... — Me deixe entrar. Eu estou desesperado aqui. – Continuou ainda batendo a porta.
— Hum... desesperado! – procurei pelo caderno para verificar a resposta.
— Felicity! Eu vou arrombar a porta. – Sua voz rouca me fez parar no meio do quarto, e me concentrar — Isso seria crime, então eu só vou ficar aqui gritando o seu nome até que você abra e me deixe entrar. – Ele riu sem humor e voltou a esmurrar a porta e a gritar meu nome — Felicity! Felicity!
Mordi os lábios, ainda confusa e receosa com o que estava acontecendo. Mas caminhei até a porta, abrindo-a apenas um pouco para espiar. Pisquei, pensando estar louca ao não ver ninguém ali até que senti um aperto ao redor do tornozelo.
— Oliver? – olhei para baixo, para seu corpo dobrado ao chão. Pernas esticadas no corredor a frente, costas apoiadas no encosto da porta num ângulo estranho. Seu terno geralmente tão bem alinhado, estava amassado e sem a gravata. Ele parecia estar usando a mesma roupa há um par de dias, no mínimo. Se isso já não me indicasse o quão mal ele estava, quando Oliver ergueu o rosto para mim, eu tive certeza. Seus cabelos estavam bagunçados, a barba espessa cobrindo boa parte do rosto dizendo-me que já não era feita há uma semana. Seus olhos pareciam ainda mais azuis, por causa das olheiras escuras embaixo deles, mais brilhantes por causa das lágrimas não derramadas. Até completamente devastado, ele continuava a ser lindo.
— Pensei que não fosse abrir. Pensei que não queria me ver. – A desolação de seus olhos refletia-se em sua voz, e estilhaçava meu coração quebrado em mais partes. — Pode me ajudar a levantar? – seu pedido me surpreendeu, mas assenti.
— Você está bêbado. – notei assim que senti o cheiro ao me abaixar para passar seus braços fortes por meus ombros. Com certo custo nos ergui do chão. Oliver era pesado, mas apesar de tropeçar um pouco e trocar as pernas, ainda era capaz de sustentar seu peso, só precisava de um ponto de apoio.
— Completamente bêbado. Literalmente caindo de bêbado. – riu com amargura da própria piada — Acho que eu devia entrar e me sentar, se eu escorregar para o chão vou acabar levando você comigo e não quero machucá-la. – Segurei o pequeno sorriso que teimava em aparecer em meus lábios sempre que Oliver demonstrava ternura.
Caminhei com ele até a cama, onde ele deixou o corpo cair, deitando-se de costas e com as pernas para fora do colchão.
Ele parecia mal.
Se não fosse os sons de grunhidos que ele fazia, eu estaria pensando que Oliver havia desmaiado.
— Como você...?
— Ronnie. – antecipou a resposta antes que eu pudesse concluir a pergunta, ergueu o tronco sentando-se ainda meio cambaleante, mas me encarando com atenção. — Você não deveria tê-lo dispensado. – recriminou-me com uma força recém adquirida. – Não faça isso novamente! Queria me deixar louco imaginando o que poderia acontecer a você sozinha nessa cidade? Pois conseguiu.
— Ele me seguiu? – franzi o cenho. Eu fiquei atenta durante meu caminho, até mesmo fiz algumas voltas desnecessárias para despistar qualquer jornalista que pudesse ter me seguido. Mas não havia ninguém. – Eu não o vi.
— Ele não seria o melhor se não fosse capaz de te enganar. Então ele deu um jeito de te proteger, mesmo sem você saber ou querer.— Eu deveria estar com raiva, e eu estava, mas também não conseguia não achar fofo que ele tivesse se arriscado tanto assim por mim.
Apenas assenti andando de um lado para o outro, sentindo o ar ficar mais quente ao meu redor e o pequeno quarto parecer ainda menor, agora que Oliver estava aqui. Seus olhos em todas as partes de mim, checando se eu parecia bem, mas principalmente procurando os meus para ter uma daquelas conversas silenciosas que sempre fazia meu coração se derreter.
Eu fugia de seus olhos.
Porque eu não estava pronta para acreditar que Oliver estava aqui por mim. Eu não poderia me iludir, meu coração não aguentaria uma terceira vez. Por isso respirei fundo, trancando todos os meus sentimentos. Me sentei ao seu lado, pronta para escutá-lo, para ser o que ele precisasse que eu fosse para ele nesse momento tão difícil.
— Oliver, o que faz aqui? – perguntei num fio de voz, tentando esconder o medo que eu tinha da sua resposta.
— Eu te fiz uma promessa. – Ele demorou um tempo longo demais para responder. E mesmo sabendo que não deveria, olhei para Oliver. Para a sua desolação. Sua tristeza. Eu queria tomar seu sofrimento para mim, mas não poderia. Oliver não precisava dividir sua dor comigo, aquela era uma dor que precisava ser sentida. Tudo o que eu poderia fazer era segurá-lo firme e o impedi-lo de cair. — Eu prometi que iria te ouvir, mesmo que não gostasse do que tinha a me dizer. — tanta coisa havia acontecido desde então, que eu sequer me lembrava da promessa. Eu deveria ter imaginado que Oliver não a esqueceria, ele sempre cumpria suas promessas. — Eu precisei ir embora, me afastar porque eu não conseguia ficar e te ouvir. Eu deveria e queria te ouvir, mas meu coração não iria aguentar. Não naquela hora. Eu não sei se algum dia ele vai estar pronto para isso. – meus olhos arderam, compreendendo. — Mas então me atingiu. Bem aqui. — Ele me surpreendeu ao segurar minha mão, levando-a junto a sua para cima do seu coração. — Não se trata de estar pronto. Ninguém está pronto para a dor.
Seu coração batia forte, sua pele, apesar da camada de tecido, estava quente sob minha mão.
— Você está muito bêbado e não está dizendo coisa com coisa, Oliver. – ele balançou a cabeça me ignorando.
— Se trata de conhecer nosso filho. – Nosso filho. Parei de respirar. Quantas vezes eu imaginei Oliver dizendo isso? Minha mão ainda estava sobre seu coração e eu podia sentir que as palavras tinham o mesmo efeito nele, que tinham em mim. — Mesmo que ele não esteja mais aqui para que eu possa amá-lo. Eu quero lhe dar esse amor, mesmo que... Que eu tenha que amá-lo por suas lembranças. Eu não sei se existe algo melhor depois desse mundo, eu não sei se nosso bebê pode nos ouvir ou nos ver. Mas eu quero que ele saiba que meu amor por ele é real. Transcende a vida e a morte. – fitei a tristeza e o amor em seus olhos, nenhuma outra pessoa poderia entender como dois sentimentos tão conflitantes poderiam existir dentro de alguém.
Mas eu o entendia.
— Não acho que este é o melhor momento para conversarmos. – meu tom foi condescendente, e Oliver estava pronto para protestar, sua mão, para a minha tristeza, soltou a minha e seus olhos vieram para os meus obstinados. — Não quero te contar sobre ele assim. Quando eu contar, eu quero que você se lembre no dia seguinte. – Me expliquei antes que ele entendesse tudo errado.
— Eu não bebi tanto assim. – ele soluçou ao final da frase, fazendo-me sorrir para o semblante sério e teimoso de quem se negava a ceder.
— Você está fedendo à álcool, Oliver. — Eu não iria julgá-lo por isso, cada pessoa lidava com o luto da sua maneira, mas ainda assim não conseguia não me preocupar com ele. — Seja sincero comigo, acho que nós dois nos devemos isso depois de tudo. O quanto bebeu essa noite? – Ele suspirou, ombros caídos, numa postura vencida.
— Não sei, não faz mais diferença. – balançou a cabeça encarando os próprios pés — Tommy me disse que parecia que eu havia atropelado uma garrafa de whisky e feito respiração boca a boca para salvá-la. – ri bem baixinho — Ele também me disse para tomar um banho quando resolvesse te encontrar e para não chegar perto do fogo, porque 80% de mim era feito de material inflamável agora. – murmurou. – Mas eu estava muito preocupado com você, e mesmo com Ronnie dizendo que estava bem e segura, eu precisava vê-la tão urgentemente que não tive tempo de tomar banho.
— Tommy é um cara inteligente. – dei uma leve empurrada no ombro de Oliver, apenas para provocar-lhe uma reação.
— Humpf.— ele bufou, seu olhar aborrecido se erguendo para o meu apenas por um segundo, e em seguida voltando para as mãos unidas sobre seu colo brincando com algo que tilintava em suas mãos — Sem chances de eu contar isso para ele.
Sorri para mim mesma, contente por tê-lo feito reagir um pouco. Sentimentos, ainda que negativos ou pequenos, eram melhores do que sentimento nenhum. Escutei o tilintar mais uma vez e paralisei, sentindo meu corpo todo congelar quando entendi o que Oliver trazia em suas mãos.
— Você veio dirigindo? – ele apenas assentiu, ainda sem me olhar. Completamente alheio ao meu acesso de raiva. – Está louco? Poderia ter sofrido um acidente! — Eu me ergui, não conseguindo ficar apenas parada quando imagens de Oliver dirigindo bêbado por aí.
— Eu não me importo – ele deu de ombros — Ultimamente não tenho me importado com muita coisa.
— Você poderia ter machucado alguém. – Ele finalmente ergueu os olhos para mim, assustado demais com seus próprios atos. — Você se importa. – eu disse mais suavemente dessa vez, me abaixando a sua frente para que seus olhos estivessem na altura dos meus – O álcool pode te fazer esquecer isso momentaneamente, por isso é uma companhia tão ruim. – Ele concordou vagamente, demorando um pouco para assimilar — Mas você se importa. E se importa tanto que é por isso que está aqui. Agora me dê as chaves Oliver. – Ele sequer hesitou. Seu olhar estava ainda mais devastado, eu quase podia ouvir a confusão que estava em sua mente. Mesmo bêbado, Oliver estava tentando pesar seus atos.
— Aonde vai? – Ele me perguntou com a voz desesperada, se erguendo da cama e cambaleando até mim ao me ver me afastar.
— Não vou longe, apenas no corredor. – O acalmei, colocando a mão sobre seu ombro. Percebi que ele não queria ficar sozinho. — A porta vai ficar aberta, Ok? Você vai poder me ver daqui e qualquer coisa basta me chamar que voltarei num piscar de olhos. – Ele assentiu, sem parecer muito certo e senti seus olhos em minhas costas quando puxei a porta, deixando-a totalmente aberta para que ele ainda me visse de onde estava.
O hotel em que eu havia me hospedado era pequeno, me bastou três passos para chegar a porta de número 307 em frente ao meu quarto. Bati a porta e coloquei a orelha sobre a madeira apenas para confirmar o som de uma televisão ligada ali. Eu tinha que estar certa.
— Serviço de quarto. – Disfarcei um pouco a voz e bati uma segunda vez. A televisão foi desligada e passos se aproximaram da porta.
— Eu não.... Ah merda! – Ronnie xingou assim que me viu ali — Não acredito que caí nessa.
— Você me seguiu. – acusei, o dedo em riste cutucando o seu peitoral.
— Oh não! Você me pegou! – sua pobre atuação e o sorriso debochado em seu rosto dizia-me o quão pouco Ronnie se importava. Na verdade, o desgraçado estava era achando tudo muito divertido. – Vai chamar a polícia agora?
— Você não deveria ter me seguido, muito menos dito ao Oliver onde eu estava. – acrescentei.
— É meu trabalho, loirinha. Supere isso. – ele se apoiou no batente da porta e cruzou os braços, olhando-me mais sério. — Eu sei que está sendo complicado para vocês dois, que a história é pesada e que não é da minha conta. – o tom de deboche havia desaparecido completamente, sendo substituído por algo mais quente e amigável. — Mas sabe o que é da minha conta? Você se colocando em perigo desnecessariamente. Há uma semana você foi empurrada de um barco, e pelo que o senhor Queen me contou a pessoa parece determinada a tentar de novo. Eu não vou te deixar sozinha. Vou te proteger, você gostando disso ou não. Vou te proteger, independente de ter sido contratado para isso. – abri a boca, surpresa. – Eu acho que me apeguei demais ao meu sapato. – ele me lançou um meio sorriso bobo, e acabei sorrindo de volta meio sem jeito. Talvez eu gostasse daquele chiclete também... – Ou vai ver eu apenas acho que você é meu sapato da sorte porque depois de várias mensagens de texto, e alguns telefonemas nos horários mais estranhos a Dra. Caitlin Snow acabou de confirmar um encontro comigo.
— Eu sabia que você estava me usando. – me fiz de ofendida — O que me lembra, preciso usar você.
— Woooah. – ele ergueu ambas as mãos, e se afastou com a maior expressão pudica no rosto — Vá com calma porque eu sou homem de uma mulher só. – Revirei meus olhos.
— Eu preciso que leve Oliver de volta para casa, ele não está muito bem e não pode dirigir. – expliquei.
— Onde ele está?
— No meu quarto. — Ronnie deu um passo a frente olhando por cima do meu ombro para dentro do meu quarto.
— Não. – negou, voltando a sua posição inicial. — A menos que você venha conosco. – condicionou. — Eu sou o chiclete e você o sapato, lembra? — Eu não disse nada. Mas minha expressão rígida provavelmente denunciava que não estava nos meus planos voltar. — Parece que não concorda, então eu vou voltar para o meu quarto e mandar alguns nudes para a Dra. Caitlin. – ele piscou. – Talvez dessa vez ela me mande uns de volta.
Coloquei o pé na porta antes que Ronnie a fechasse.
— Então o deixe dormir aí. — pedi — Ele está bêbado, precisa descansar um pouco e amanhã estará pensando com clareza.
— Não mesmo. – negou veemente. — No meu quarto não entra outro macho. – cruzou os braços – principalmente um caindo de tão bêbado.
— Ele é seu chefe!
— Ele é seu namorado!
— Não é. – Ronnie riu do meu protesto patético.
— E ao que parece ele está bem a vontade no seu quarto... – voltei meus olhos para trás, para onde Ronnie olhava e meu queixo caiu no chão. Oliver havia tirado o paletó e a camisa que agora estavam jogados no chão. Ele havia abaixado as calças, nos dando uma visão perfeita e bem marcada do seu traseiro naquela cueca box branca. Seria uma visão sexy se ele não estivesse pulando e quase caindo no chão enquanto lutava para tirar as calças que haviam ficado presas nos pés, porque ele havia se esquecido de tirar os sapatos. — Eu vou lhes dar privacidade.
— Ronnie, por favor? — implorei.
— Ele é seu namorado e está ficando nu. – esticou o braço indicando a bunda de Oliver — De jeito nenhum eu vou levar meu chefe nu para o meu quarto. — balançou a cabeça como se a mera ideia o desse calafrios. — Isso só poderia terminar de dois jeitos...
Imediatamente imaginei Ronnie e Oliver dormindo na mesma cama.
— Eu não precisava dessa imagem! – meneei a cabeça tentando expulsá-la.
— Nem eu! – Ronnie exclamou revoltado — Eu quis dizer me demitindo ou sendo demitido. Existem regras masculinas a serem seguidas, Felicity. Nossa masculinidade nos impede de dividir um quarto. — explicou tão seriamente que eu não sabia se eu ria ou revirava os olhos. Homens.— Boa sorte com o seu namorado. – fechou a porta na minha cara antes que eu pudesse argumentar mais.
Suspirei, virando-me para enfrentar Oliver Queen de cueca. Para a minha surpresa (e tristeza) não o vi. Olhei para os dois lados do corredor, eu teria notado um Oliver só de cueca passeando por ali. Todo mundo teria notado.
Entrei no quarto, e o encontrei sentado na beirada da cama, com uma das pernas erguidas quase na altura da cabeça.
— Oliver, o que está fazendo? – nesse exato momento um dos sapatos voou quase acertando o teto, e tive que dar um passo para não ser atingida pelo sapato voador.
— Você disse que eu estava fedendo, então vou tomar um banho para você. – eu sorri com o jeito inocente com que ele havia dito. Até mesmo bêbado, Oliver era naturalmente charmoso. — Ele retirou as meias e terminou de tirar a calça e se ergueu levando ambas as mãos para o cós da cueca.
— Não! Não! Não! – gritei me apressando até ele. — Vamos manter a sua cueca! – parei suas mãos colocando as minhas por cima. Eu ainda era uma mulher, e Oliver era um homem que mexia com os meus hormônios de um jeito que chegava a ser injusto.
— Você não quer me ver nu. – seu rosto expressava toda a sua mágoa. Seria engraçado, se Oliver não parecesse sério.
— Acho que já tive o suficiente de Oliver Queen nu. – brinquei, mas pareceu ser a coisa errada a se fazer.
— Mas eu não tive o suficiente de Felicity Smoak nua. – ponderou. Suas sobrancelhas unidas demonstrando que ele estava pensando no assunto. — Acho que nunca vou ter. – Seus olhos caíram em mim, eu sempre fui boa em ler seus olhares e esse claramente comandava “tire a roupa”.
Ele está bêbado. Me lembrei, antes que fizesse alguma bobagem como tirar minhas roupas também.
— Banho com água fria para você. – Coloquei as mãos em suas costas fingindo não gostar de ter meus dedos sobre sua pele nua, e o direcionei para o pequeno banheiro do meu quarto. O banho frio não era uma má ideia, ajudaria a limpar um pouco sua mente da neblina do álcool e o ajudaria a relaxar o corpo e a dormir melhor também.
Passei a frente de Oliver no banheiro estreito demais e que fazia nossos corpos se esbarrarem mais do que deveria. Ainda mais considerando que Oliver usava nada mais do que aquela maldita cueca branca que deixava quase nada para a imaginação... Não que eu precisasse imaginar o que eu conhecia tão bem.
Talvez eu precisasse de um banho frio também.
Me afastei o máximo que pude de Oliver, buscando minimizar a reação do meu corpo ao dele. Abri a porta do box, liguei o chuveiro e estiquei a mão testando a temperatura da água. Me virei para avisar a Oliver que o banho estava pronto, e quando o fiz, meu corpo se viu de frente para o dele. Eu não fazia ideia de que ele estava tão próximo de mim. Instintivamente dei um passo para trás tentando me afastar, a água fria me atingiu de surpresa e acabei escorregando. Minhas mãos procuraram por algo sólido em que se segurar antes que eu caísse, mas as paredes eram lisas demais, então só me restou o corpo firme de Oliver.
Ele tentou me segurar, mas seus reflexos não estavam tão bons, e isso acabou com nós dois molhados e caídos no chão do box.
— Você está bem? – sua mão imediatamente se colocou ao redor do meu rosto enquanto ele me ajudava a sentar apoiando as costas na parede. Meu corpo estava ao lado do seu, a água fria caia em nós dois deixando minhas roupas ensopadas e grudadas. A cueca de Oliver agarrava-se ao seu corpo e havia se tornado transparente em todos os pontos errados. Mas nenhum de nós parecia se importar. A proximidade nos aquecia, os olhos dele tão preocupados nos meus, seu toque em meu rosto era o suficiente para fazer todo o meu corpo entrar em ebulição. – Você está bem, amor? – eu podia sentir meu coração sendo destruído e reconstruído apenas pelo poder daquela simples palavra.
Amor.
— Sim. – Não! Como eu poderia algum dia ficar bem? Se eu o amava da forma como amava? Se o que estava quebrado entre nós jamais voltaria a ser inteiro outra vez?
— Felicity... – Oliver meneou a cabeça frustrado com a minha pequena mentira. Sua mão puxando meu rosto para perto. Tão perto. Eu sentia o gosto da sua respiração na minha, eu só precisava de um pouco mais, um pouco mais e eu poderia prová-lo novamente. Entreabri meus lábios, ignorando a água que entrava na minha boca, minha mão se ergueu deslizando pelo peitoral molhado e por seus braços, sentindo a rigidez dos seus músculos tonificados. Meu corpo estremeceu quando nossos lábios se tocaram de leve e dividimos a respiração, o gosto quente dos lábios contrastando com o frio da água sobre nós. Eu queria mais do seu calor, eu queria me derreter em seus braços, eu queria simplesmente ser sua.
O que eu estava fazendo? Eu havia me dito que não deveria me iludir, mas aqui estava eu, disposta a jogar tudo para o alto apenas para ter mais um beijo dele. E depois? E quando Oliver estivesse sóbrio e se lembrasse do quanto me odiava?
— Nós não... – me afastei abruptamente, deixando Oliver confuso. – Me desculpe.
— Sou eu quem deve desculpas, eu não percebi que o chuveiro estava ligado, não deveria ter me aproximado tanto. – seus olhos arderam nos meus — Mas você estava perto e eu a queria mais perto. Ainda quero. Sempre quero. – Ele se aproximou novamente, tombando o corpo sobre o meu, as mãos se prendendo em minha cintura. Oliver não estaria me deixando escapar dessa vez.
Talvez eu pudesse ter só mais um beijo...
Sua boca aberta veio em minha direção, pronta para exigir minha rendição no que prometia ser um beijo apaixonante e de me fazer perder o juízo. Mas então sua cabeça se abaixou indo na direção errada e percebi que Oliver estava beijando com toda paixão o meu... ombro.
— Oliver? Por que está beijando o meu ombro desse jeito? – Ele ergueu os olhos confusos.
— Eu mirei sua boca. – respondeu, franzindo o cenho — Agora faz mais sentindo você não me corresponder.
— Meu Deus, Oliver! O quão bêbado você pode estar? – perguntei, segurando o riso.
— Acho que ultrapassei um limite. – murmurou contra meu ombro, sua cabeça se apoiando ali com naturalidade — Você sempre me faz ultrapassar limites. – suspirei para sua divagação.
— Eu sou péssima para você. – concluí.
— Não. – protestou com veemência, seus olhos – Você é perfeita para mim. Bagunça a minha vida, a minha mente que não consegue se concentrar em nada que não seja você. Me desafia, tira as viseiras que me impedem de ver além e amplia meus horizontes, traz cor para o meu mundo preto e branco. Eu não fazia ideia de quantas cores havia no mundo, e você me mostrou cada uma delas. Em cada nova cor uma nova emoção... – não resisti, e deixei meus dedos brincarem com seus cabelos molhados. Oliver já estava balbuciando. — Me desculpe, eu sou um bêbado muito filósofo.
— Eu acho que gosto do seu eu bêbado. – Era mais fácil lidar com ele assim, havia menos pressão.
— Não. – Oliver ergueu os olhos para mim, mas mantendo a cabeça apoiada em meu ombro — Eu sou um bêbado imprestável e mal-humorado, pergunte Tommy e Dig. Mas até minha versão bêbada é melhor quando está com você. Você me faz ser melhor em todas as versões. – me desmanchei em um sorriso, uma gota quente escorreu pelo meu rosto e eu sabia se tratar de uma lágrima e não da água fria que ainda caia sobre nós. — Gosto de quando sorri. – sua mão se ergueu. Dedos contornando com carinho as linhas do meu sorriso. — Não sei como ainda consegue. Não sei se um dia eu vou conseguir.
Meu sorriso esmaeceu. O clima entre nós mudando drasticamente. Puxei Oliver para mais perto de mim, abraçando-o, porque eu sabia que ele precisava disso. Contato humano. Algo verdadeiro que o lembrasse que ele não estava sozinho.
— Não é fácil. – comecei a dizer, prometendo a mim mesma de que não seria nada menos do que honesta com ele. — No começo, tudo o que você consegue fazer é chorar e gritar. É como estar em um pesadelo agonizante que você fica esperando chegar ao fim. Mas ele não chega, e finalmente você percebe que está é sua vida agora. Você se afasta de todos, porque ninguém te compreende. Culpa o mundo pela sua dor, culpa a Deus, e no fim culpa a você mesmo. E então você percebe que não há mais nada a fazer, gritar e chorar não muda, não vai trazer seu bebê de volta... Você aceita a vida como ela realmente é: feia. E chega à conclusão de que nunca mais vai conseguir ser inteiro outra vez, e tudo está bem porque não existe razão para ser. – Funguei, sem sequer perceber que havia mais lágrimas descendo por meu rosto. Oliver me olhava compenetrado, absorvendo cada palavra como se fossem ensinamentos. Eu não queria que fosse assim para ele também, não queria que o luto o consumisse da mesma maneira que me consumiu. Ele merecia mais. – E então você percebe que a vida continua sem você, ela não para apenas porque o seu coração parou. Você precisa se forçar a levantar todos os dias da cama, a continuar seguindo em frente mesmo que a vontade seja voltar para trás e seguir o mesmo caminho daquela parte de si mesmo que você perdeu. E um dia quando você estiver seguindo em frente, alguém do outro lado da rua irá sorrir para você... Um dia alguém vai segurar a sua mão e te abraçar durante a tempestade e te mostrar que a chuva não é tão assustadora assim. Alguém vai rir de algo idiota que você faz... – fechei meus olhos e ergui a cabeça para cima apenas sentindo os jatos frios tocando as pálpebras. Me permiti lembrar o momento em que aquilo havia acontecido para mim, o momento em que fiz Oliver rir pela primeira vez. -... E o som vai penetrar o seu coração, te lembrando de como era bom rir. Você começa a deixar outros sentimentos entrarem, começa a senti-los, mesmo que não saiba como. E pedacinhos de quem você é começam a voltar para você. – acariciei seu cabelo — Você se pega sorrindo. O vazio que sentimos aqui dentro, a vacância no coração jamais será preenchida, porque este lugar pertence ao nosso bebê. Mas você descobre que há outras partes do seu coração que podem pertencer à outras pessoas, partes que ainda podem viver, e sentir, e amar. – ele assentiu — Não desista, Oliver. Eu posso ter desistido, mas você merece mais da vida. Merece ser feliz.
— Você também. – suspirei, mas não o respondi. — Desculpe por aparecer bêbado.
— Tudo bem.
— Me desculpe por te molhar.
— Eu precisava tomar outro banho. – dei de ombros, minimizando.
— Podemos conversar agora? — Oliver pediu — Eu estou melhor, as coisas estão mais claras na minha cabeça. Eu quero conhecer nosso filho... Eu nem sei se é menino ou menina! Mas quero saber seu nome, quero que me fale com quem ele ou ela se parecia... Espero que tenha seus olhos, e sua boca, e seu sorriso... Seu sorriso é lindo. — senti meu rosto se aquecer, seu olhar havia descido para meus lábios. — Desculpe-me. Me distraí. – ergueu o olhar para meus olhos — Eu só quero conhecê-lo.
Eu entendi a sua necessidade.
Eu só estava me perguntando se estaríamos tendo essa conversa se Oliver estivesse completamente lúcido. Eu tinha certeza de que não estaríamos sentados no chão do banheiro com água fria caindo sobre nós.
— Posso te perguntar algo antes? – mordi o meu lábio inferior.
— Qualquer coisa. Tudo o que quiser.
— Você não tem dúvidas? — ele franziu o cenho, sem me compreender. – Eu te disse que fiquei grávida de você, e em nenhum momento, você me questionou sobre a paternidade. – Oliver piscou várias vezes, afastando o seu corpo do meu e me olhando sem entender — Nós usamos camisinha. – expliquei.
— Eu não duvidei de você nem por um momento, Felicity. – disse — Eu sei, bem aqui dentro que você teve meu filho. Eu sinto. – levou a mão ao próprio coração — Não me interessa saber como o preservativo falhou. Na verdade, eu acho que a culpa foi minha.
— Sua?
— Eu estava tão afoito aquela noite. Pode me culpar? Você me enlouquecia há tempos, eu sonhava em tocá-la, em beijá-la, e quando comecei eu não consegui mais parar. Eu queria tudo de você. – Engoli em seco. O jeito cru com que Oliver disse, não apenas me recordando as mesmas palavras ditas em um passado distante, mas no quanto elas ainda eram verdadeiras nos dias atuais. — Eu não pensei com clareza quando a tive nua na minha cama. Eu não tinha um preservativo comigo naquela hora. Eu fui estúpido e pensei ser tão sortudo quando eu encontrei o preservativo na gaveta do meu antigo quarto. O quarto que eu já não usava há pelo menos dez anos.
— Oh. – foi tudo o que consegui dizer.
— Eu deveria ter pensado isso na época. – Oliver balançou a cabeça. – Deveria ter pensado que o preservativo era antigo e na possibilidade da gravidez e... Eu sinto muito! Eu jamais deveria tê-la tratado daquela maneira.
— Eu sei que sente, eu sinto também. – sorri amarelo para ele. Porque sentir muito não mudava nada. Nós dois sabíamos bem.
— Posso fazer uma pergunta de volta? — Houve um tempo em que eu hesitaria, mas não dessa vez. Eu lhe daria tudo.
— Sim.
— Por que você me deixou? – a pergunta me pegou de surpresa, a mágoa nela ainda mais. — Ronnie me ligou hoje me atualizando sobre sua decisão de ir embora. Não pareça tão surpresa, ele fez relatórios diários desde que parti. Então eu liguei para Thea que me disse que, além de ir embora você iria procurar outro advogado também. – Ele esperou ansioso. Seus olhos sequer piscavam, nossas respirações suspensas.
— Você não me queria lá. – Oliver balançou a cabeça — Eu não queria forçar minha presença à você, eu sabia que a raiva que você sentia de mim. Achei que seria melhor.
— Eu não estava com raiva. – afirmou.
— Estava sim, não minta para me fazer sentir melhor. – revidei.
— Sim. Eu estava com raiva. Ainda estou. – meu coração afundou um pouco mais ao pensar no quanto Oliver possivelmente me odiava. Porém eu o compreendia. O que tornava tudo ainda pior. — Mas não com raiva de você. Não de verdade... – franzi o cenho, sem entender aonde ele queria chegar — É confuso e eu não consigo explicar. Eu apenas não conseguia ficar perto de você porque doía demais. Mas também a mera ideia de você me abandonar, de ir para longe de mim, de não te ver... Isso me fazia louco. Era quase insuportável. Faz algum sentido?
— Estranhamente faz. – me perdi em meus próprios sentimentos, na forma como eu mesma queria estar longe e perto dele — Oliver?
— Sim? – respondeu ao meu chamado.
— Ainda dói ficar perto de mim? – minha voz saiu num baixo e temeroso sussurro.
— Sim. – admitiu, fazendo meu coração falhar por uma batida — Mas dói ainda mais ficar longe de você.
Não me permiti me iludir com aquela resposta. Mas a guardei num cantinho especial do meu coração, no lugar que pertencia a Oliver. Que sempre pertenceria a ele.
— Está se sentindo melhor? – Ele assentiu e eu me ergui do chão. Era hora de colocar alguma distância entre nós. Havíamos andado sobre um terreno emocional demais por um tempo longo, precisávamos parar um pouco e descansar. Oliver me observou com olhos atentos, mas sem se levantar, enquanto eu mudava a temperatura do chuveiro para o morno.
— Aonde vai? – sua mão se fechou em minha panturrilha quando passei por cima de suas pernas, me impedindo de sair.
— Vestir roupas secas e procurar algo para você. – expliquei — Tome um banho de verdade por alguns minutos, vai te ajudar a relaxar. Eu volto logo. – ele assentiu, mas não se levantou ou fez qualquer outro movimento. – Oliver, eu preciso que me deixe ir. – reforcei uma vez que sua mão permanecia ao redor da minha panturrilha. O aperto de seus dedos se tornou mais possessivo antes dele finalmente olhar para mim, e me soltar.
— Nunca.
***
Eu não voltei logo.
Eu me sequei, penteei meus cabelos os trançando, e vesti um par de roupas confortáveis e quentes que era o que eu mais precisava depois daquele banho frio, com uma conversa que teve o poder de aquecer meu coração. Mas não tive coragem de ir até ele no banheiro. Por dois simples motivos:
1) Oliver provavelmente havia tirado a cueca.
2) Eu era uma covarde.
Eu não estava pronta para encarar um Oliver um pouco mais lúcido e coerente. Eu gostava muito mais do Oliver bêbado, que falava o que sentia sem filtros, mesmo que às vezes não fizesse muito sentido. Quanto ao outro Oliver, a última vez que eu o vi, ele havia olhado para mim com tanta dor em seus olhos e se afastado.
Eu estava apavorada de contar-lhe tudo.
De ver aquele olhar de decepção, tristeza e raiva dirigidos a mim outra vez. De tê-lo se afastando porque eu era a representação física da sua dor.
O som do chuveiro sendo desligado me fez parar de pensar e me deixou ainda mais tensa. Eu não olhei para trás quando escutei o rangido da porta do banheiro que se abria, não me virei quando o som de seus passos se aproximou. Nem mesmo quando ele chamou meu nome eu me atrevi a encará-lo.
— Felicity? – Chamou-me outra vez. A voz dele parecia cansada e um pouco rouca, porém mais firme e clara.
— Sim?
— Pode se virar para mim? Preciso vê-la. — Quando me virei, percebi que seu rosto tinha um aspecto melhor também, sem toda a confusão de antes, como se aquele tempo debaixo do chuveiro tivesse lhe dado um pouco de foco.
— Peguei roupas para você com Ronnie. – Comecei a falar evitando os seus olhos, estiquei a mão com as peças de roupas, forçando-me a não olhar para o seu corpo coberto apenas com uma mísera toalha.
— Eu não vou me deitar com você vestindo roupas de outro homem. – Ele cruzou os braços e se recusou a pegar as roupas.
— Eu nunca disse que você se deitaria comigo. – Dei um passo para trás. Não queria pensar em cama, com Oliver seminu na minha frente. Comecei a hiperventilar. Por que o quarto parecia tão quente?
— Você tomou minhas chaves. – Elucidou, dando um pequeno passo à frente, recusando a distância que impus. — E está cuidando de mim desde o instante em que apareci caindo de bêbado na sua porta. Você me fez tomar banho. Não vai me colocar para fora daqui, antes de ter certeza de que eu estou bem. – ele estava certo. — Está preocupada comigo. – o vislumbre de um sorriso quase feliz apareceu em seu rosto, mas não foi forte o suficiente para se manter ali.
— Eu o estou mandando vestir as roupas, Oliver. – pedi, mais autoritária tentando ignorar o que ele havia me dito. Algo divertido brilhou por trás dos seus olhos.
— Já que você está mandando. – Seu dar de ombros veio seguido de puxão na toalha que foi para o chão, assim como minha sanidade ao ter um Oliver completamente nu a minha frente. Não olhe. Não se atreva a olhar... Só uma espiadinha... — Você ficou vermelha, até parece que não me viu sem roupa outras vezes. Várias vezes. - ele pontuou, no exato momento em que meus olhos desceram para baixo. — Às vezes ainda consigo ver aquela menina tão inocente em você.
Ergui meu olhar, fingindo que seu comentário não me afetava. Mas por dentro eu podia sentir a agitação em meu estômago. Principalmente quando Oliver deu mais um passo, fazendo-me prender a respiração ao pegar lentamente as roupas de minhas mãos.
— Feliz agora? – Oliver perguntou após vestir a calça de moletom, com movimentos ainda mais lentos.
— Falta a blusa.
— Estou com calor. – Ele deu de ombros, jogando-se e espalhando-se na cama como se fosse dono dela. Suspirei sabendo que não deveria comprar essa briga. Já devia estar contente por ele ao menos ter vestido a calça e estar disposto a deitar. Talvez ele adormecesse rápido.
Oliver apoiou a cabeça em uma das mãos e me olhou com intensidade, seus olhos dizendo-me que dormir não estava em seus planos imediatos.
— Venha para cama comigo, Felicity. – Ele deu batidinhas com a mão indicando o espaço vazio ao seu lado. Deus estava me testando! Balancei a cabeça me negando, e finquei bem meus pés no chão. Me recusando a ceder a tentação.
— Você disse que estava com calor. — pontuei — Não vai ser bom duas pessoas na mesma cama... – Uau, que rapidez de raciocínio a minha.
— Mas eu preciso de você, Felicity. – Disse com uma voz arrastada, as palavras atraindo-me para ele. Isso nunca teria fim? Eu sempre teria meu coração disparando descontroladamente toda vez que Oliver me olhasse? Ele se aproveitou do meu momento de distração para atravessar a cama, suas duas mãos se agarrando em minha cintura e puxando meu corpo para cima do seu.
— O que está fazendo? – tolamente perguntei, um pouco ofegante por sentir cada parte do meu corpo se pressionando no dele.
— Te colocando em seu lugar. — Oliver rolou comigo, me deixando por baixo. — Melhor assim, não acha? – Muito melhor. Mas só porque era melhor, não significa que era o certo. Assim que Oliver adormecesse eu me ajeitaria na poltrona pequena próxima a janela.
Oliver não parecia concordar comigo.
Seu corpo avançava sobre o meu, suas mãos sem qualquer pudor se colocando por debaixo da blusa larga que eu usava, deslizando com toques suaves que faziam minha pele se arrepiar. Seu toque era preciso, a boca tão perto apenas insinuando-se sobre a minha, brincando de me beijar e se afastando logo em seguida. Lembrando-me do quanto eu amava seu gosto, do quanto eu queria ter Oliver para mim novamente. Mas eu temia que tudo o que ele procurasse em mim naquele momento fosse uma distração. Uma fuga rápida de seus próprios tormentos, assim como havia procurado na bebida.
Eu não queria ser sua fuga.
Eu não queria o seu arrependimento e confusão no dia seguinte.
— Você precisa descansar, Oliver. – me permiti tocar seu rosto com as pontas dos dedos, observando com culpa os círculos escuros debaixo dos olhos, ao impedir o avanço de seu beijo. – Os últimos dias foram difíceis, devastadores até. E você não está exatamente com a cabeça no lugar nesse momento. Não vai querer complicar as coisas ainda mais entre nós, vai? Amanhã, quando estiver sóbrio nós podemos conversar, podemos nos acertar, se essa for a sua vontade. – seus olhos se prenderam nos meus testando a resistência das minhas palavras e por fim ele cedeu, tirando o peso do seu corpo de cima do meu, mas sem se afastar realmente. Apenas se ajeitando ao meu redor, a cabeça repousando no espaço entre meus seios, mãos rodeando a minha cintura, uma das pernas dobradas sobre as minhas, garantindo que eu não iria para nenhum lugar longe. Eu gostava da posição, eu poderia senti-lo, e não precisava olhar para seus olhos que sempre me faziam perder uma parte de mim.
Ficamos assim por um tempo. Deixei meus dedos brincarem com seus cabelos molhados, o carinho curiosamente tinha a intenção de confortá-lo, mas surpreendentemente acabou fazendo o mesmo por mim.
— Palavras cruzadas? – Oliver indagou de repente, erguendo o caderno do qual só agora ele percebia ter se deitado em cima.
— Não conseguia dormir, pensei que cansar meu cérebro ajudaria. – respondi.
— Eu nunca consigo dormir. – fiquei tão triste ao escutar sua confissão — Por isso eu bebo, eu bebi todas as noites desde que soube do nosso filho, só assim eu pude parar de pensar. – parei de acariciar seus cabelos perdendo o ar por um instante. — Só assim a dor foi embora.
— Não é a melhor saída.
— Não é. — concordou — Mas eu não tinha você comigo. Hoje eu tenho. – havia um leve toque de esperança em seu tom — Vou conseguir dormir rapidinho. Quem sabe até mesmo ter um sonho bom? – a mão que seguia em minha barriga deu um ligeiro apertão na minha pele.
— Você ainda está bêbado. – falei o óbvio.
— Sim. – confirmou — Você gosta mais de mim assim.
— Eu gosto. – admiti.
— Por quê? Eu sou tão ruim quando sou eu mesmo? – A pergunta era sincera, bem como o medo da resposta.
— Não, Oliver. – me apressei a dizer, voltando a acariciar seus cabelos — Não há nada de ruim em você, eu am... – mordi os lábios antes que pudesse dizer algo que me arrependeria depois — ... adoro cada versão sua. Seja o advogado que me tira do sério, ou Oliver super protetor que me contratou um segurança irritante, ou ainda o amante que me fez feliz por tantas noites e... – tentei inutilmente segurar meu coração, que bateu ainda mais forte. E Oliver percebeu. Como não poderia, se seu ouvido estava perfeitamente sobre meu coração? — Apenas acho que não estaríamos assim e tendo essa conversa se você estivesse sóbrio.
— Tem razão. – ele suspirou. – Eu estaria com medo de conversar com você.
— Com medo? – eu não esperava por isso. Eu imaginei que ele estaria magoado demais para sequer suportar me olhar.
— Há tantas coisas que eu quero te dizer, perguntas que quero fazer, mas eu não sei como. – franzi o cenho sem compreender. — Eu temo errar com você novamente, Felicity. Se estamos onde estamos é porque eu nos trouxe até aqui, cometendo um erro atrás de outro. Você merece mais de mim. – Oliver ergueu a cabeça apenas o suficiente para seus olhos me fitarem.
Ele merecia mais de mim, não o contrário.
— Não pense nisso, apenas...
— Eu teria me casado com você, Felicity. – Me interrompeu de súbito. Havia algo de sonhador em sua voz, seu olhar perdido e o pequeno sorriso de menino em seus lábios que deixavam seu semblante mais leve o faziam parecer muito mais jovem.
— Eu sei. – respondi depois que a tensão de ter sido pega desprevenida, passou – Acho que por isso eu tive tanto medo de te contar.
— Não queria se casar comigo? – Seus olhos se tornaram confusos e um pouco feridos.
— Pode me culpar? – Perguntei, ainda acariciando seus cabelos e ignorando a expressão ofendida em seu rosto — Você tinha uma noiva, Oliver. – o lembrei do óbvio – E eu nunca pensei em me casar aos dezoito...
— E aos vinte e três? – me cortou. Olhos ansiosos reluzindo com a promessa de algo que me colocaria em uma bela encrenca, promessa essa que fazia meu coração quase soltar pela boca.
— Engraçadinho. — Mas Oliver não riu, permanecendo com o olhar firme no meu. E eu tive que me lembrar que Oliver estava ainda meio bêbado e provavelmente amanhã sequer se lembraria daquele pedido torto de casamento.
— Você realmente não teria se casado comigo? – balancei a cabeça, o coração dolorido.
— Você faria o que era certo para consertar um erro. – todo o meu corpo se enrijeceu ao se referir àquela noite como um erro. — Sei que teria feito isso pelo bebê, sei também que você teria sido um pai perfeito e um marido maravilhoso se eu tivesse lhe dado a chance. – Eu teria o amado ainda mais por isso. — Mas não seria certo nos casarmos pelo bebê.
— Eu fiz tudo errado. — percebi que Oliver havia fechado os olhos, e balançava a cabeça. Em seu rosto havia uma expressão aflita que me preocupava. — Eu tive tantas chances! Eu deveria ter saído do carro. Eu deveria ter atravessado a rua e ido até você naquele dia... – ele se repreendeu, perdido num pensamento só seu — Não havia um erro para ser consertado. Eu jamais teria achado o nosso bebê um erro. Ele teria sido, de fato foi, o nosso maior acerto. – suas palavras trouxeram calor aquela parte vazia do meu coração — Quanto poderia ter sido diferente apenas se eu tivesse saído daquele maldito carro? Ou se jamais tivesse a mandado embora em primeiro lugar?
— Você não está fazendo muito sentido. – comentei sem entender sua pergunta final, mas não me importei, voltei a acariciar seus cabelos na esperança de acalmá-lo e quem sabe fazê-lo adormecer. – Mas não tem importância agora.
— Tem sim! – se opôs – Eu estou falando do nosso casamento, se as coisas tivessem sido diferentes... Eu poderia, eu deveria... – ele estava angustiado demais, e as palavras simplesmente não se organizavam. Oliver tomou uma longa respiração e suas próximas palavras foram mais coerentes — Eu preciso que saiba que eu não teria proposto por causa do bebê. – Suspirei. Como voltamos a este tópico?
— Não tem mais importância, Oliver. – eu só queria deixar esse assunto para trás.
— Pergunte-me porque eu me casaria com você. – insistiu. – Me pergunte.
Ele não teria paz se eu não o fizesse.
— Por que você se casaria comigo, Oliver?
— Por nós. — Duas pequenas palavras. Seis letras. Algo tão pequeno, mas capaz de provocar um efeito devastador dentro de mim. – Porque eu sempre soube que havia algo único entre nós, já naquela época eu não conseguia ficar longe, me pegava olhando para você quando não notava, sendo atraído para o seu redor, me sentindo estranhamente ansioso sempre que Thea dizia que você estaria em casa. Procurando desculpas para estar perto e prolongar nossas conversas. Perdendo meu tempo sonhando acordado com você, sonhos românticos e outros sonhos que eu não deveria ter... – não sei porque, mas senti uma vontade de abraça-lo mais forte — Eu sei que eu fui o seu primeiro amor, Felicity. E sei que pode parecer estranho dizer isso, considerando que sou dez anos mais velho que você e tenho uma experiência de vida maior. Mas eu não tenho dúvidas de que você foi o meu primeiro amor também. – Eu senti suas palavras entrando em meu coração, fazendo ali seu lar. — Quando eu a beijei pela primeira vez, quando eu tive seu corpo, eu sabia que meu coração havia se acomodado, encontrado alguém para pertencer. – respirei fundo tentando me acalmar, tentando parar as lágrimas que se acumulavam no canto dos meus olhos e ameaçavam cair. – Foi um sentimento tão forte, arrebatou-me de surpresa. E eu tinha tantos medos quanto a nós naquela época. Medo da nossa diferença de idade. Medo de arriscar a seguir pelo desconhecido, por mais que eu quisesse. Eu não sabia que estava apaixonado, e tinha medo do quão grande era o sentimento. – nós dois apenas nos abraçamos mais forte — A sua gravidez teria sido uma surpresa, mas ela também seria o catalizador que eu precisava para escolher o que eu realmente queria, mas que era covarde demais para tomar.
— Eu compreendo. – funguei ao elevar uma das mãos ao rosto afastando uma das lágrimas que caía.
— Felicity? – seu rosto se ergueu, fazendo-me perceber que eu não era a única emocionada ali.
— Sim? – forcei um pequeno sorriso.
— Eu não tenho mais medo. – disse, e voltou a abaixar a cabeça acomodando-a sobre meu coração que ainda se comportava mal depois de tudo o que ouviu. Beijei o topo de sua cabeça e tornei a acariciar seus cabelos até que Oliver adormecesse em meus braços.
Eu também não tinha mais medo.
***
Oliver Queen
Quando a luz atingiu meu rosto, minha primeira reação foi rolar para o outro lado da cama e escondê-lo no travesseiro. Pressionei meu rosto ali, inspirando o perfume conhecido que vinha me atormentando nos últimos dias. O cheiro dela. Tateei o espaço vazio, decepcionado por não encontrar seu corpo ali pronto para receber o meu. Só havia seu cheiro e nada mais.
Amaldiçoei minha vida.
Amaldiçoei cada escolha errada que fiz e que me trouxe para esse momento. Todas as decisões que me fizeram perder a melhor coisa que nunca tive.
— Se você está resmungando alguns palavrões, estou deduzindo que é porque já acordou e a ressaca está te matando. – a voz dela me fez abrir os olhos e segui-la. Vê-la, ainda fazia meu coração se agitar ansioso, mas agora a sensação não era mais puramente feliz. Havia uma mancha em meu coração. O agito de felicidade vinha acompanhado de um aperto opressor, que me fazia novamente pensar em tudo o que perdi. No que jamais teria. Destruía-me. Destruía os outros bons sentimentos que ele despertava. — Bom dia. – Desejou num tom cordial, mas sem se aproximar. – Trouxe algo quente para te despertar, e um comprimido para a provável dor de cabeça que está sentindo.
Sentei-me a cama, olhando-a.
Meu coração reagindo a ela. Reagindo às lembranças do dia anterior. De tudo o que foi dito entre nós. Pela primeira vez minha bebedeira não viera acompanhada de uma confusão ou amnésia. Como se meu cérebro, ainda naquele estado entorpecido soubesse que não deveria esquecer nenhum momento com Felicity.
Seus olhos encaravam os meus fazendo tantas perguntas silenciosas, desnorteando meu coração que já não sabia mais o que fazer com ela. Eu queria responder suas perguntas, mas eu mesmo temia o que minhas respostas fariam com o nós que tão tortamente construímos.
Ergui a mão aceitando o comprimido e já o engolindo, usando qualquer desculpa para fugir de suas perguntas. Eu não estava pronto para o nosso fim.
— Obrigado. – respondi abaixando o meu rosto para a xícara de café, agradecendo pelo líquido quente que fazia maravilhas para me despertar. Permaneci olhando para o conteúdo da xícara, fingindo estar anormalmente interessado. Eu não sabia mais como olhá-la. Como lidar com todos os sentimentos em constante ebulição dentro de mim.
Eu a amava.
Eu lhe mostrei isso de tantas formas diferentes.
Mas eu já não sabia se o meu amor seria o bastante para nos salvar, eu precisaria do dela também. E talvez, nem isso fosse o suficiente.
Há cinco anos eu a machuquei tão profundamente, por medo, por não achar que seria certo. Eu tomei uma decisão por nós dois e nos arruinei. Destruí seu amor por mim e causei tudo o que veio depois... Eu não sabia o quanto da decisão de Felicity de esconder meu filho era minha culpa, provavelmente ela estava assustada e magoada comigo e não poderia condená-la por ir embora, uma vez que fui eu quem abriu a porta e disse vá...
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Mas amor era para ser assim? Sempre ferindo um ao outro?
Eu não fazia ideia do quanto poderia doer.
Nos últimos cinco dias eu tive uma prova disso. Me bastava fechar os olhos por alguns segundos para ver o seu rosto em minha mente, o sorriso que eu gostava tanto de arrancar dela. Eu estava sempre sonhando com seus olhos, com o gosto de seus lábios, a maciez da sua pele e a sensação de seu corpo unido ao meu. Mas cada um desses momentos agora estava manchado. Manchados por sua falta de confiança em mim, por suas mentiras e segredos, manchados por meus medos e escolhas moralistas do passado. Toda vez que eu estava com os olhos abertos, lúcido. Eu sentia a dor.
A dor de perder o que nosso amor criou.
O filho que, apesar das circunstâncias, foi feito de um momento único de amor.
Sempre que eu pensava em nosso filho, eu sentia um pedaço do meu coração se desprender, estilhaçando-se no chão. Eu fui magoado e ferido por Felicity, mas esse era um sentimento que, em algum momento, eu superaria. O amor que eu nutria por ela era mais forte do que qualquer coisa, entretanto... A dor da perda do meu filho era tão grande, e talvez até mesmo maior. Isso, eu jamais superaria.
Aquelas partes despedaçadas de mim, eu havia perdido para sempre. E agora eu entendia, Felicity. Entendia porque sempre me pareceu haver uma parte dela que jamais consegui alcançar, e isso me fazia me perguntar: nós dois estávamos quebrados além da reparação?
Era por isso que eu bebia.
Por que eu temia a resposta.
E para fingir que ainda tínhamos corações inteiros.
Mas eu nunca fui muito bom em fingir.
Eu não contei para Diggle ou Tommy o que realmente aconteceu. Não parecia certo falar com eles sobre meu filho. Não quando eu não sabia nada sobre ele.
Meus amigos estavam preocupados, é claro. Eu me mudei para o escritório, vivia bêbado e brigando com qualquer um que se aproximasse. Eles haviam presumido que eu tinha brigado com Felicity, porque não conseguia ouvir o nome dela sem ter uma crise. Eu havia até mesmo atirado um grampeador na direção de Diggle quando ele, com aquele seu jeito zen e conselheiro, tentou conversar comigo.
Minha versão bêbada com Felicity era muito melhor.
Era o amor que a fazia assim?
Talvez ele não servisse apenas para ferir, afinal.
— Me desculpe. – murmurei mais para a xícara de café da qual bebia, do que para Felicity propriamente — Eu estava bêbado noite passada, eu posso ter dito ou feito coisas que...
— Eu sei. – não havia emoção em sua voz, ou no sorriso mecânico que ela se forçou a dar — Não há nada pelo o que se desculpar, Oliver. – Nada? Meu coração acelerou. — Vamos apenas esquecer a noite passada, se é o que você deseja.
Não! Eu tive vontade de gritar para ela.
Noite passada eu a procurei porque estava bêbado. Porque estava desolado, não conseguia ser forte e carregar aquela dor sozinho, por que estava com medo de que a dor se tornasse ainda maior sem Felicity em minha vida. Eu precisava dela. Não apenas porque eu a amava e estar com ela fazia meu mundo ter sentido outra vez. Mas porque ela era a mãe do meu filho. Ela sentia a mesma dor que eu. Precisava do mesmo conforto que eu.
Eu estava bêbado o suficiente para ser corajoso. Para chorar em seus braços, abraça-la e dizer tudo o que eu sentia e pensava, para desnudar minha alma e assistir Felicity fazer o mesmo com a dela quando me contasse tudo sobre nosso bebê.
Eu vim até ela, na esperança de que talvez dois corações quebrados pudessem juntar seus pedaços ainda inteiros, e fazer um novo coração.
Por que eu simplesmente não conseguia dizer tudo o que disse a ela ontem à noite, agora que estava sóbrio? Onde estava a minha coragem? Largada no fundo de um copo de whisky?
— Eu estou sempre fazendo tudo errado. – lamentei comigo mesmo. Depositei a xícara de café na primeira superfície que encontrei. — Quando vou finalmente aprender a lidar com todos os malditos sentimentos? – Bati com o punho fechado naquela mesma superfície, descontando minha frustração, e assisti Felicity dar um passo para trás quando o meu ato fez a xícara cair e se espatifar no chão.
Ela me olhou com seus olhos arregalados, a respiração suspensa tentando esconder seus sentimentos de mim.
— Felicity... – Eu me ergui, ansioso para chegar até ela, mas mais uma vez fui interrompido por suas palavras sem emoção. Quase ensaiadas.
— Pedi para Thea trazer algumas roupas suas esta manhã. – indicou com um movimento de cabeça as mudas de roupas perfeitamente dobradas e colocadas sobre um poltrona — sei o quanto se incomodou por ter que usar as roupas de Ronnie, ontem. — Ela se mantinha longe de mim, percebi. Não era medo de mim, apesar da minha pequena explosão. Era quase como se ela estivesse se retraindo, achando que não tinha o direito de se aproximar. – Eu sei que tudo mudou. – Tudo mudou. Mas ainda permanecia o mesmo. O que isso significava? — E que as coisas estão ainda mais estranhas entre nós depois da noite passada, mas antes de esquecê-la, eu gostaria de te perguntar algo. Posso? – odiei a hesitação nela. Odiei que Felicity sentisse que não tinha mais o direito de me fazer perguntas, como se nossa relação fosse de dois estranhos, cada um de um lado de um penhasco rochoso entre os quais não existia nenhuma ponte.
Odiei ainda mais que eu não soubesse mais como agir ao redor dela. Que não soubesse como dizer as palavras que vieram tão facilmente a minha boca quando eu estava bêbado. Que os sentimentos que eu sentia fossem tantos e tão complexos, que eu me tornara incapaz de distingui-los.
— É claro. – minha resposta implorava por algo mais dela.
— Você me disse ontem que veio até mim para cumprir sua promessa. A de me ouvir, ainda que não gostasse do que eu tinha a dizer. – instantaneamente meu coração reagiu, batendo doloroso dentro do peito. Ela iria me contar agora? — A sua promessa ainda tem validade? Ainda quer que eu conte tudo?
— Eu sempre cumpro minhas promessas. – sequer hesitei e a notei assentir, como se esperasse por isso. — Felicity, eu quero... – comecei, dando um passo em sua direção.
— Eu também. – ela me interrompeu, com um sorriso dolorosamente triste. – Mas não podemos. – a voz tremeu — É melhor se arrumar, eu te espero lá fora. – me deu as costas e caminhou rapidamente para a porta, como se temesse o que continuar me olhando pudesse revelar.
Ah, foda-se.
A segui, segurando-a pelo pulso. Tocá-la me fez estremecer, e a segurei ainda mais forte desejando ser capaz de jamais deixa-la ir.
— Aonde vamos? – ela me olhou por cima do ombro, o olhar caindo onde minha mão segurava-a pelo pulso.
— Nós vamos visitar nosso filho. – a voz dela quebrou.
Assim como mais uma parte do meu coração.
***
A viagem levou a manhã inteira, e boa parte da tarde.
Dei o dia de folga a Ronnie já que eu estaria com Felicity, e poderia protegê-la, e também este era um momento apenas nosso, não queria expectadores. Desliguei o celular porque não queria que nada me distraísse.
Mantive meu olhar seguro na paisagem que passava veloz diante de meus olhos, tentando inutilmente organizar meus pensamentos e sentimentos, num retrospecto para que fizessem algum sentido. Felicity tão pouco conversou comigo, fingindo estar concentrada demais em dirigir, enquanto na verdade tentava me dar tempo e espaço para que eu me preparasse para o que ainda estava por vir. Mas vez ou outra eu sentia seu olhar preocupado vindo em minha direção, escutava seu suspiro triste ou a via levar disfarçadamente a mão aos olhos para remover uma lágrima antes que esta tivesse a chance de cair.
Eu reconheci o caminho que fazíamos, mesmo que eu só tivesse o feito uma vez há cinco anos e durante a noite, quando eu me vi tão consumido por Felicity que não pude esperar nenhum segundo sequer para vê-la. Se eu apenas não tivesse sido covarde demais...
— Você o trouxe para Boston. – comentei, apenas para romper o silêncio sufocante. Felicity hesitou um pouco, escolhendo as palavras antes de me responder.
— Eu morava por aqui naquela época e não queria nem conseguia ficar longe dele. – revelou — Eu gostava de vir e apenas conversar com ele. Eu gosto de pensar que ele me ouvia, gosto de pensar que ele sentia que apesar de não estar aqui comigo, ele sempre seria lembrado e amado. Ele se foi, e levou uma parte de mim com ele. – engoli em seco, sentindo lágrimas se acumularem em meus olhos. As de Felicity já caiam livremente. — Eu cogitei levá-lo para perto de mim quando consegui o emprego na Palmer Tech e me mudei para Coast City. — contou — Mas percebi que não faria diferença, ele está sempre comigo. – ela ergueu uma das mãos, levando ao coração.
Fiquei calado.
Nosso bebê, mesmo sem eu tê-lo conhecido, estaria sempre em meu coração? Eu seria capaz? Eu ainda tinha um coração para isso?
Às vezes você quebra as coisas em pedaços tão pequenos, que se pergunta se vale a pena tentar consertar. Se vale a pena se ajoelhar em meio aos estilhaços e juntar as partes, mesmo que cada vez que você tente colá-los, um novo corte é feito.
Era final da tarde, o sol estava quase se pondo no horizonte quando alcançamos um cemitério no alto da colina. Felicity estacionou o carro e desceu, e eu silenciosamente a segui passando pelo ornado portão de metal preto e retorcido que formava desenhos de flores intricadas. O lugar era bonito, percebi ao caminhar sentindo meus pés afundarem sob a grama um pouco alta demais. Mas o jeito que o sol batia nas árvores, tingindo-as de um amarelo quente e calmo, o vento suave que fazia seus galhos balançarem e as delicadas flores caírem, deixando o chão salpicado de cores, meio que me trazia uma sensação de paz.
— É por aqui. – Felicity indicou o caminho, e eu apenas a segui, sempre um passo atrás, tenso demais, despreparado para este momento.
Eu estava um pouco distraído, meus olhos vagando pelos túmulos de outras pessoas, enquanto minha mente pensava sobre a efemeridade da vida. O qual pouco tempo nós temos, e que nem sempre fazemos o melhor uso dele. Nem sempre passamos com as pessoas que amamos, e então, quando elas se vão, quando o tempo é cortado para sempre. Nós apenas lamentamos e percebemos o que perdemos tarde demais.
— É este. – Eu parei assim que escutei a voz baixa de Felicity. Não consegui ir mais adiante.
Eu fitei o túmulo simples, os dizeres na lápide me fazendo cair de joelhos ali mesmo.
JONAS SMOAK QUEEN
Amado filho.
Um anjo que ganhou suas asas cedo demais, e voou para longe.
Você pode estar em outro lugar agora, mas em nossos corações sempre terá o seu lar.
— Jonas Smoak Queen – me forcei a ler em voz alta. Ergui meus olhos para Felicity, sem conseguir enxergá-la, porque meus olhos estavam cegos com as lágrimas. — Você lhe deu meu nome. — minha voz estava embargada de uma emoção que eu jamais senti antes, uma mistura de orgulho e felicidade. Eu não sei porque, mas me sentia ainda mais pai.
Felicity se ajoelhou diante de mim, ambas as mãos se prendendo ao redor do meu rosto. Era a primeira vez que ela rompia aquela distância imposta entre nós.
— Você é o pai dele, Oliver. – Sua certeza era sólida, eu lia nas entrelinhas o que havia além. Eu era o pai de Jonas, e eu sempre seria. Nada no mundo jamais mudaria isso. Nem mesmo sua morte precoce. — Eu sei que durante a gravidez eu não te procurei, eu não te contei sobre o bebê. Eu tinha brigado com os meus pais que insistiam para que eu contasse quem tinha sido o homem que me engravidara, mas eu me recusava a dizer. Meu pai sugeriu um aborto e minha mãe uma adoção. Eu fiquei assustada e fui embora. E eu estava magoada e era orgulhosa demais para entrar em contato com você, mas no instante em que olhei para ele, para seu rostinho tão perfeito e inocente, em que a mão frágil tocou a minha, eu soube que não poderia tirar de você a chance de ser pai dele, não era justo nem com você nem com nosso filho. Ele era perfeito, Oliver. Mas então... ele se foi, e não achei justo jogar em você o peso de um momento tão ruim, quando eu te excluí de todos os bons momentos com ele. – ela se explicou, havia tanta dor em suas palavras, que eu a sentia também. Senti seu medo, sua felicidade ainda que tão efêmera.
Eu entendi seus erros. Eu os aceitei. E surpreendentemente, eu os perdoei.
Eu apenas não sabia como lhe dizer.
Acho que no fim, não existiam palavras que pudessem expressar o que eu sentia. Peguei sua mão na minha e a apertei forte. Então quando o toque não foi o suficiente, quando a emoção foi tão grande que precisou ser externada, eu a puxei para mim e a abracei. Mantendo-a firme, disposto a segurá-la para sempre.
Juntei meu corpo ao dela, tentando juntar os pedaços do meu coração. Talvez houvesse luz depois da escuridão, mas esse era um longo caminho a se percorrer.
Para nós dois.
Felicity vagarosamente se desvencilhou do meu abraço, erguendo-se do chão e limpando seus joelhos sujos de terra.
— Converse com ele, Oliver. – ela disse com um sorriso encorajador — Eu sei que quer fazer isso. – Eu queria. Mas não sabia como. — Vou lhe dar um tempo para descobrir como. – novamente ela leu meus pensamentos, e então caminhou para longe postando-se debaixo da sombra de um enorme salgueiro.
Ajeitei-me sobre um joelho só e aproximei-me da lápide, apoiando uma das mãos sobre ela. Eu não sabia como falar com meu filho. Parte de mim acreditava que ele seria capaz de me ouvir, aonde quer que estivesse. A parte mais cética, dizia que era apenas uma bobagem dita para acalmar os corações dos tolos. Não me importei, li os dizeres do seu túmulo mais uma vez, e algo dentro de mim se aqueceu. Talvez existisse um céu, ou talvez não, eu não saberia dizer. O que eu sabia era que meu coração era seu lar, e meu filho moraria ali para sempre.
— Olá Jonas. – comecei, estranhamente nervoso — Sabia que seu nome era o nome do meu avô favorito? O pai do meu pai. E é meu nome do meio. – sorri, pensando que compartilhamos isso — Eu não tive muito tempo com meu avô, assim como não tive com você. – A vida era injusta. — Eu sinto muito por isso. Eu gostaria que pudesse ter sido diferente entre nós, que tivéssemos a chance de ser uma família. De ter você como meu filho e de ser seu pai. Eu daria qualquer coisa. Tudo o que tenho e sou. Apenas para que tivéssemos a chance disso. Um futuro juntos. – ergui a cabeça para o céu, lágrimas queimando meus olhos enquanto eu implorava para que existisse um modo de simplesmente voltar o tempo, de que Deus, pudesse fazer isso por nós. Mas meu milagre não veio – Eu estava falando do meu avô, Jonas Queen. — voltei ao tópico — Como eu disse, eu não tive muito tempo com ele, mas umas das minhas poucas lembranças é de estar com ele e meu pai no seu barco, ele me ensinava a pescar no meio do mar, mesmo que ele mesmo nunca tivesse pegado um mísero peixe. – ri da lembrança tão antiga, mas pela qual eu tinha tanto carinho. — Então ficávamos os três ali, com varas de pescar na mão, sem pescar nada, mas nos divertindo apenas porque estávamos juntos. — Felicidade sempre foi tão simples assim? — Meu pai, Robert, depois da morte do meu avô comprou o Queen’s Gambit, o nomeou assim porque o velho adorava fazer aposta, e sempre as ganhava. – trapaceiro, foi a palavra que eu não disse porque não queria manchar a ideia que meu filho pudesse fazer do seu bisavô. — Ele me passou a levar sempre no barco com ele e me colocava para guiar o leme, ele dizia que era coisa de pai e filho, que o pai dele também o havia ensinado a navegar, e que um dia eu também faria isso com o meu filho. Era meu legado. – senti uma dor aguda em meu peito, ao me lembrar de ter dito algo similar a Felicity. Agora eu compreendia sua expressão triste naquela época — Eu sinto muito que não tenhamos tido a chance. Mas isso não mudou nada para mim, eu sempre irei amá-lo. Como sua mãe me disse, você possui uma parte do meu coração, aqui é seu lar. E sempre vai ser. – me ergui do chão— Eu te amo.
Conversar com ele teve um poder quase cicatrizante em mim, não curara ou diminuíra a dor, mas eu me senti um pouco mais leve. A raiva de ter tido meu filho tirado de mim em tão tenra idade, ainda estava lá, mas eu sentia algo diferente agora, eu me sentia mais forte, como se me permitir amar aquele pequeno ser me desse forças. Olhei para trás, eu não precisei chamá-la. Não precisei dizer uma só palavra. Bastou um olhar, e Felicity caminhou de volta para mim, ficando a minha frente.
— Conte-me sobre o nosso filho. – eu fiquei surpreso com a estabilidade da minha voz, talvez fosse a ansiedade aliada a determinação de não perder nem mais um segundo — Eu perdi cinco anos, mas estou aqui agora, eu quero saber tudo. – Ela assentiu.
— Jonas nasceu em...
— Não. – a interrompi — Eu quero a história toda, desde que você ficou sabendo que estava grávida. – eu pude dizer pela forma como seus lábios se entreabriram em um perfeito “oh” que ela não esperava por isso — Como se sentiu? Quem ficou ao seu lado? Como nosso filho... – não consegui completar a frase, mas também não precisei.
— Podemos caminhar um pouco? – ela pediu.
— Sim. – a surpreendi, ao pegar seu braço e colocá-lo dentro do meu. Deixei que ela nos conduzisse pelo cemitério, bem como ditasse a velocidade dos nossos passos.
— Depois que você me disse que éramos um erro, parece que toda a vida que eu conhecia começou a desabar. — Contou. Fechei meus olhos me odiando novamente por impor aquela palavra entre nós. Desejei frisar mais uma vez que não éramos um erro, mas esta era a história de Felicity. Não importava as minhas motivações, apenas os sentimentos dela. — Eu disse a mim mesma que o esqueceria, eu iria para a faculdade e conheceria alguém, me apaixonaria novamente e você seria apenas uma lembrança agridoce de um primeiro amor. – Não gostei de suas palavras, mas novamente me calei, porque eu a entendia. — Este era o plano, mas como você sabe bem, planos por mais bem feitos que sejam nem sempre dão certo. – me lançou um pequeno sorriso de canto. Eu era prova de que não adianta planejar todo o seu futuro, às vezes a vida tem planos melhores dos quais você não vai querer escapar. — Meus pais começaram a brigar feio alguns dias depois, e eu descobri que meu pai estava desviando dinheiro do banco em que trabalhava, e que ele seria indiciado. Nesse meio tempo eu comecei a me sentir estranha e percebi que meu ciclo estava atrasado, eu descobri que estava grávida por um teste de farmácia. Eu chorei tanto naquela noite que assustei minha mãe, ela queria me levar ao hospital e já meu pai disse que devia ser bobagens de garota. Depois de muita insistência eu acabei contando, houve alguns insultos trocados e muita insistência quanto ao pai, mas eu mantive meus lábios selados. E então os dois começaram a decidir a minha vida, bem na minha frente. Meu pai dizendo que eu deveria abortar, que a vida já estaria complicada demais com ele sendo acusado de desvio de dinheiro e não precisávamos de um bebê sem pai no meio do caminho. Minha mãe foi menos radical e sugeriu a adoção. – a cena desenrolava-se na minha mente enquanto Felicity a contava — Eu estava confusa e me sentindo sozinha, eu precisava desabafar e de um ombro amigo, então eu procurei Thea. – compreensão me atingiu.
— Ela te ajudou. – conclui. Seria por isso que Felicity estava tentando retornar o favor? Assumindo seu crime?
— Eu me abri com ela, contei meus medos, contei o que meus pais queriam fazer e... Thea foi a única que me perguntou o que eu queria. Eu estava assustada sim, eu estava preocupada e não fazia ideia de como ser mãe. Mas eu queria o nosso bebê, era minha única certeza. Eu disse isso a Thea e ela apenas disse, com toda a imponência e determinação que nem parecia uma garota de dezesseis anos, então você o terá. – Isso soava exatamente como minha irmã.
— Ela perguntou quem era o pai do bebê?
— Sim. — Felicity parou, olhando para mim um pouco insegura — Eu tive vergonha de contar. – franzi o cenho – Eu não queria admitir que havia me apaixonado pelo irmão dela, dormido com ele e levado um fora no mesmo dia. E também havia o medo do seu julgamento e o que isso mudaria entre nós... Eu deveria saber que Thea era uma amiga melhor. – seu braço se apertou um pouco mais no meu quando voltamos a caminhar — Sabia que ela cuidou de tudo?
— Como assim?
— Ela me emprestou dinheiro, mesmo eu recusando. – aquilo era novo — Ela simplesmente me ignorou e me deu uma quantia exorbitante, dizendo que eu precisava dar uma boa vida ao meu filho, e isso me convenceu. Fui para a faculdade e usei o dinheiro de Thea para me virar nos primeiros meses, assim que consegui um emprego eu o devolvi. Acredita que ela vivia me ligando perguntando se eu estava me alimentado direito e querendo saber como estava seu sobrinho? Ela nem fazia ideia...
— ... De que seria tia dele de verdade. – completei.
— Não houve um dia desde a gravidez que não pensei em contar, tanto para ela quanto para você. Eu me martirizava por isso, por mentir para uma pessoa que eu amava. – não reagi. Eu ainda preferia que ela tivesse me procurado — Eu peguei o telefone tantas vezes para te ligar, mas sempre acabava me acovardando. Eu soube por Thea que você havia terminado com Laurel, e eu tolamente esperei, sabe? Esperei que você talvez viesse, eu fantasiei... – eu estaquei, não acreditando no que ouvia.
— Você me esperou? – a perguntei.
— Oliver? O que há de errado? – ela pareceu alarmada.
— Eu vim. Eu vim por você. – Quase gritei. Irritado demais com mais aquele desencontro.
— Do que está falando? – seus olhos estavam confusos, não sei se porque minhas palavras não faziam sentido ou se porque eu mesmo parecia ansioso demais.
— Eu viajei a noite inteira logo depois de finalmente terminar com Laurel, fiquei parado em frente ao M.I.T. te esperando, mas não desci do carro. Eu te vi. Você estava conversando com um rapaz, pensando melhor talvez fosse seu amigo Curtis. – levei uma das mãos aos meus cabelos puxando-os completamente frustrado. – Eu pensei que você estava feliz. Disse a mim mesmo que não importava como eu me sentia sobre você, eu não deveria interferir na sua vida, você tinha o direito de vivê-la sem que eu a exigisse para mim. – Felicity arfou.
— Eu queria que tivesse exigido. – disse com o olhar perdido.
— Eu também. – concordei, com meu olhar nela observando seu semblante.
Caminhamos por mais um tempo, percebi que o sol estava quase sumia no horizonte atrás das montanhas, eu não poderia adiar mais.
— Como...? – As palavras ficaram presas na garganta.
— Como ele morreu? – as de Felicity não soaram muito melhores que as minhas. — Foi minha culpa. – meu coração parou de bombear sangue nesse momento. Felicity soltou-se do meu braço, me dando as costas abraçando a si mesma. Parecia estar em outro lugar, um lugar escuro feito de dor.
— Felicity? – chamei seu nome, mas seus olhos recusavam-se a virar e a me encarar. – Você não tomou a saída fácil e abortou. Você seria incapaz de machucar Jonas. Eu sei, disso, eu te conheço e você amava nosso bebê. – parei as suas costas, deliberando se deveria tocá-la. Ela parecia tão perdida, o corpo trêmulo do choro.
— Eu tinha uma prova naquele dia, eu estava atrasada e esse professor era um carrasco e não deixava nenhum aluno entrar, por menor que fosse o atraso. Eu não queria arruinar minha média perfeita. – notei o escárnio direcionado a si mesma — Eu me lembro de trancar a porta, e olhar as horas em meu relógio de pulso, calculando mentalmente a velocidade que teria que andar para chegar a tempo. Desci as escadas correndo, com a cabeça ainda na prova. Bastou um degrau em falso, uma falta de atenção e então eu me vi rolando escada abaixo.
Fechei meus olhos, sentindo lagrimas quentes descerem por meu rosto. Então tinha sido assim? Um acidente? Um acidente que, se eu estivesse por perto, talvez tivesse sido capaz de evitar?
— Eu não me recordo bem as coisas foram nebulosas depois da queda – ela continuou contando. Forçando-se a ser forte, mesmo que estivesse morrendo por dentro ao reviver aquele dia — Me lembro vagamente da ambulância, e de estar assustada e sozinha, o parto foi uma confusão. – Como eu queria ter estado lá para ela! Segurado sua mão e lhe dado a força que precisava. — Mas eu me lembro perfeitamente do momento em que eles colocaram Jonas em meus braços – senti o sorriso em sua voz, o jeito que se tornou instantaneamente mais suave. — Oliver, ele era pequeno e também a coisa mais preciosa para mim. – eu só poderia imaginar — Eu decidi te ligar naquele momento, não poderia te impedir de ser pai dele ou ele de ter você como pai... Mas então... – a voz dela se perdeu.
— Mas então? – insisti, meu coração vindo a boca já sabendo que não seria algo bom.
— Eles o pegaram para alguns exames de rotina e quando voltaram começaram a falar coisas, dizer que nosso filho não estava bem, que algo estava errado com o seu coraçãozinho. – Felicity chorava. E eu também.
— Está tudo bem, não precisa falar mais. – eu disse sabendo que era doloroso demais para ela, não poderia forçá-la a isso. Mas Felicity balançou a cabeça negando, disposta a me dar tudo, mesmo que isso tomasse tudo dela no processo.
— Ele viveu por dezoito horas e sete minutos. – disse entre um soluço e o choro compulsivo — Durante o tempo em que ele viveu, eu dei voltas, me perguntando se deveria dizer a você. – Felicity beirava a histeria — Mas eu não queria fazê-lo sofrer, eu não podia, Oliver. E então nosso menino se foi. – ela finalizou — E nada fez sentido na minha vida.
Nada fazia sentido na minha desde que eu descobri, exceto.
— Ele está com a gente. – a abracei por trás, deixando sua tristeza e a minha se juntarem, e de alguma forma se transformar em algo novo. — Vivo em nossos corações, onde é seu lar. – sussurrei contra seu ouvido.
— Eu sinto muito. – ela girou entre meus braços, escondendo as lágrimas em meu peito e me abraçando com igual força.
— Não é sua culpa, amor. — acariciei suas costas, seu tremor se tornando cada vez menor — Não é culpa de ninguém. – eu entendia isso agora. Precisava que Felicity entendesse também. Coloquei ambas as minhas mãos ao redor de seu rosto e a forcei a olhar para mim. Seus olhos estavam vermelhos e lágrimas ainda caiam dele, eu sabia que eu mesmo devia mostrar o mesmo desastre emocional. — Eu acho que está na hora para você deixar as lágrimas, se concentrar na benção que foi segurá-lo por menor que tenha sido. No amor que você deu a ele, e que ele nos deu. – usei meus polegares para secar as trilhas de lágrimas — Nosso menino está em um lugar melhor, em paz. Ele sabe que seu pai e sua mãe o amaram e que amarão até que nos encontremos outra vez.
— Você acredita nisso? – Ela perguntou com esperança nos olhos. Como eu poderia negar aquele sentimento à ela?
— Felicity Smoak? – uma voz masculina interrompeu nosso momento.
— O que diabos está acontecendo? – Questionei, instintivamente passando Felicity para trás do meu corpo, ao olhar a equipe policial que estava a minha frente.
— Ela tinha uma ordem judicial para não deixar a cidade de Starling City. – O policial me respondeu sacudindo uma folha de papel na minha frente. Meu coração se afundou dentro do meu peito quando comecei a entender que aquilo era um mandado de prisão.
— Não faça isso. – Pedi. – Nós vamos acompanhá-lo e explicar tudo. Posso falar com o capitão Lance? — O policial apenas me olhou, e vi um ligeiro sorriso em seus lábios que me deixou gelado. Ele simplesmente me ignorou entregando-me a folha e passando por mim até Felicity que me olhava atônita.
— Você está presa por violar a condicional. – ele puxou seus pulsos prendendo grossas algemas – Tem o direito de permanecer calada... – começou a recitar seus direitos.
— Oliver? – Seus olhos me imploravam por ajuda.
Eu não pude fazer nada.
Eu disse que jamais a deixaria ir.
Mas fiquei parado vendo-a ser tomada de mim.
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