Guilty Pleasure
19 Capítulo 17 - Let me just give up
Notas iniciais
I know you've got the best intentions
Just trying to find the right words to say
Promise I've already learned my lesson
But right now, I wanna be not okay
I'm so tired, sitting here waiting
If I hear one more: Just be patient
It's always gonna stay the same
So let me just give up
So let me just let go
If this isn't good for me
Well, I don't wanna know
(You Don't Know — Katelyn Tarver)
♥
Oliver Queen
Inspirar.
Expirar.
Encarar firmemente a pessoa a minha frente e tentar não matá-la por digitar tão vagarosamente enquanto espero por minhas respostas. Controlar o tamborilar impaciente dos meus dedos sobre a mesa, porque sei, por experiência própria, o quão irritante isso é quando estamos tentando trabalhar.
Checar rapidamente meu celular para dar um novo uso às minhas mãos ansiosas, e segurar o palavrão ao ver que ainda não tenho nenhum retorno de Quentin sobre as onze mensagens que deixei no correio de voz, e tantas outras de textos que enviei. Me lembrar de sorrir educadamente, mesmo que o sorriso seja nervoso e a vontade seja de xingar e perguntar mais uma vez a mulher a minha frente se já conseguiu localizá-la seja ainda maior.
Tentar não matá-la novamente após receber sua resposta negativa em forma de um sutil menear de cabeça, olhar afiado e expressão que não esconde a irritação por eu estar fazendo-a trabalhar durante a madrugada.
Repetir todo o processo, por mais doloroso que seja.
Acima de tudo eu precisava me lembrar de manter a aparência de ter tudo sob controle, mesmo quando eu já o perdi, mesmo quando paciência se tornou uma amiga ausente e da qual já não tenho sequer o telefone. Precisava me lembrar de ser incisivo e diligente, e ao mesmo tempo educado. Porque a mulher a minha frente, por mais irritantemente lenta que seja ao digitar usando apenas os dedos indicadores, pode ser a única capaz de me dar as respostas que tão urgentemente preciso.
Encarei a mulher com seus quarenta e tantos anos, e imediatamente começo a lê-la. A aparência dela era um pouco estressada e desmazelada, com círculos escuros por baixos dos olhos que sugerem que não está habituada a trabalhar no turno da noite, provavelmente um extra para complementar a renda. As fotos em seus porta-retratos mostravam três crianças em diferentes idades, mas nenhum homem, a leve sombra de uma aliança em seu dedo anelar revelava que era recentemente divorciada.
Eu deveria tentar ser charmoso?
Os cantos dos meus lábios começaram a se erguer ameaçando um pequeno sorriso com a sugestão. Me lembrei da última vez em que Felicity me disse para ser charmoso com uma mulher, e como quase me encrenquei com a juíza Nyssa por causa disso. Eu sentia tanta falta dela... Imediatamente forcei o sorriso a se retrair. A lembrança que deveria ser divertida, agora vinha acompanhada da conhecida dor de uma punhalada no peito.
Felicity não estava aqui.
E esse sorriso que chegou tão facilmente até meus lábios, apenas por uma lembrança tola, veio por causa dela. Era um sorriso que pertencia a ela, e eu não deveria desperdiçá-lo com outras pessoas.
Vou guardá-lo para quando encontrá-la.
— A senhorita Felicity Megan Smoak não deu entrada no meu sistema. – a mulher disse numa voz monótona interrompendo meus pensamentos. Pisquei, ainda sem assimilar suas palavras. Observei-a atônito, enquanto ela sequer se dava ao trabalho de erguer os olhos da tela do computador para mim. Talvez um pouquinho de charme tivesse sido útil afinal.
Tarde demais.
— Me desculpe. — Seja paciente e calmo, Oliver. Me obriguei a afastar as garras daquela sensação de desespero que estava pronta para se envolver ao redor do meu coração, e esmaga-lo. Eu não seria muito útil se deixasse isso acontecer. – Isso é impossível, cheque novamente. – recebi um olhar atravessado por cima dos óculos por causa do tom da minha exigência – Por favor, eu preciso saber para qual delegacia ela foi levada então – o pedido, que deveria ter sido educado, saiu entre os dentes numa voz dura.
Levantei-me, me esquecendo do ritual e começando a andar de um lado para o outro. Olhar para baixo fitando meus próprios pés, enquanto repassava meus últimos minutos com ela. A parte racional em mim esmiuçava cada palavra trocada com os policiais, recitava de cor o que estava escrito em seu mandado de prisão, em busca de algum detalhe que pudesse me dizer aonde ela estava. A outra parte de mim, era feita de emoções, puras, instáveis e desesperadas emoções que ameaçavam tomar o controle. Seria o caos se acontecesse. Eu torturava-me por não ter sido capaz de segurá-la mais tempo junto a mim. Por tê-la deixado partir, quando prometi que sempre estaria com ela, cuidando e lutando por ela. Eu faria tudo, qualquer coisa, para saber onde ela estava agora.
Para segurá-la em meus braços.
Mas tudo o que eu podia fazer era esperar. Refazer meus passos e remoer arrependimentos.
Me torturar mais um pouco.
Eu segui a viatura de perto assim que a levaram. Os malditos policiais recusaram a minha oferta de levá-la até a delegacia, para que ela mesma pudesse se entregar e resolvermos a situação de uma forma pacífica. Eu deveria ter percebido que algo não estava certo nesse momento, mas estava tão ansioso para resolver esse problema que aceitei. Não que eu pudesse recusar. Eles estavam apenas cumprindo ordens. Eles tinham as algemas e as armas.
Em nada adiantaria se eu tivesse sido preso junto com ela por desacato a autoridade. Bem, talvez ao menos agora eu saberia para onde haviam a levado e eu estaria com ela.
Eu também deveria ter suspeitado de algo quando logo na entrada da cidade, a viatura ultrapassou um sinal vermelho entrando em seguida numa ruela sem dar a seta, deixando-me para trás. Eu apenas assumi que a haviam trazido para cá.
Seria o lógico.
— Ela realmente não está no sistema, senhor Queen. Tem certeza que a senhorita Smoak foi presa? – a dúvida da pobre mulher era real, e isso me deixou ainda mais puto porque eu não conseguiria respostas dela.
Mas eu não pensei nisso.
Eu apenas me aproximei da mesa com passos pesados, ambas minhas mãos se agarrando a borda da mesa porque eu mesmo precisava de sustentação para meu corpo que tremia. E a encarei, bufando e jorrando minha raiva para a mulher a minha frente.
— Você está me dizendo que uma viatura da polícia nos seguiu até outro estado, esfregou o mandado de prisão na minha cara, a algemaram e colocaram dentro da viatura e não a trouxeram para cá? – ela se encolheu na cadeira, e me obriguei a me afastar percebendo que meu desespero assustava a pobre coitada. Não era culpa dela. Mas era culpa de alguém. — Para onde diabos a levaram então? – divaguei gritando para todos que estavam ali, alguém teria que me dar respostas. — Eles a prenderam na minha frente, os policiais eram dessa unidade! E você simplesmente não tem respostas a me dar? Que inferno de delegacia é essa? Você tem a porra do mandado com você!
— Ollie! – uma mão pequena se enlaçou ao redor do meu braço, fazendo-me parar e só então perceber a comoção a minha volta. Todos na delegacia olhavam para mim, e não era aquele olhar inofensivo de interesse ou curiosidade por eu estar dando um showzinho. Era preocupação de que eu fosse um maluco, e surtasse com todos. Alguns poucos policiais estavam com suas armas em punho, prontos para me neutralizar.
— Que diabos estou fazendo? – briguei comigo mesmo, levando ambas as mãos ao meu rosto esfregando fortemente meus olhos cansados, esperando que isso não passasse de um pesadelo.
Mas não era.
— Perdendo a cabeça. – o tom da voz feminina era benevolente e suave, o toque continuava em meu braço, mas por sua vez era o oposto: determinado e firme. Me permiti um minuto para apreciar o toque fraternal e o fato de ter alguém comigo, para me acalmar. Mas bastou abrir meus olhos uma vez, para ver o pequeno problema a minha frente.
— O que diabos faz aqui, Thea? – não me incomodei se meu tom foi duro, assim como eu, Thea tem a casca dura. Ela pode lidar comigo nesse estado.
— Aparentemente chegando bem a tempo de te impedir de perder a cabeça. – Ela ergueu o queixo apontando para o lado esquerdo onde um policial ainda nos observava, a mão discretamente repousando sobre a arma. – Está querendo ser preso?
Suspirei tentando adotar uma postura menos agressiva. Era difícil quando eu já não estava no controle de mim mesmo.
— Eu te disse para não se preocupar conosco. – Fui ríspido, afastando-me do seu toque, mas a seguindo até a área de espera onde ela me fez sentar em uma das desconfortáveis cadeiras para fugir de todos os olhares.
Eu não gostava da minha irmã em delegacias, por isso no caminho de volta eu havia ligado para Thea apenas para informá-la que Felicity e eu não voltaríamos para casa aquela noite. Eu sabia o quanto ela estava esperançosa com a nossa reconciliação, e talvez tenha me aproveitado disso.
— Não, você me disse apenas que iria passar a noite com Felicity para que eu não esperasse por vocês. – A frieza e o ressentimento em suas palavras me atingiram com um tapa certeiro. Eu não era dado a usar de subterfúgios para enganar pessoas que eram importantes para mim, mas acalmei minha consciência dizendo que não era uma mentira propriamente. Eu não era responsável pela forma que minha irmã decidia interpretar minhas palavras. Além disso, eu a estava protegendo. — Você mentiu para mim. – Acusou, naquele tom repreensivo que me fazia lembrar tanto nossa mãe quando eu aprontava algo.
— Não foi propriamente uma mentira, eu... – tentei amenizar, mas seu olhar enviesado me aconselhou que o mais inteligente seria ficar calado.
— Você deliberadamente tentou me induzir a acreditar que vocês estavam aproveitando a noite transando e que eu não deveria incomodar! – Thea jogou os braços para o alto parecendo frustrada — Foi cruel, Ollie. Elevar as esperanças de alguém desse jeito, apenas para que ela não desconfiasse do que realmente estava acontecendo.
Pensei em dizer que com quem eu transava ou deixava de transar, não era da conta da minha irmã. Mas isso era maior, era sobre confiança e respeito.
E sobre Felicity.
Thea a amava também e merecia saber o que estava acontecendo.
— Eu não tinha visto por esse ângulo, eu lamento, Thea. — ela suspirou, balançando a cabeça e deixando-se cair na cadeira ao meu lado, suas mãos envolvendo o meu torso ao se acomodarem num abraço que até agora eu não havia percebido que precisava receber. – Eu só não queria que se preocupasse. – expliquei passando um dos braços sobre seu ombro. Deixei minha cabeça tombar para o lado, e soprei um beijo em seus cabelos. Era bom ter alguém conosco em um momento ruim. — Eu esperava ter tudo resolvido até o amanhecer.
Meu estômago se contraiu formando um nó, e ergui o olhar para o relógio no alto da parede a minha frente que já marcava três da manhã. Como eu conseguiria resolver alguma merda, se eu sequer consegui descobrir aonde Felicity estava?
— Eu não preciso ser protegida, Ollie. – Thea ergueu a cabeça, suas sobrancelhas escuras unidas davam uma intensidade ainda maior para os olhos que encaravam-me com obstinação — Um dia você vai ter que entender isso. Meu coração é feito do mesmo material que o seu, maninho. É duro aqui. Provavelmente para proteger todas as pessoas que amamos e que guardamos dentro. – sua mão bateu sobre o meu peito, exemplificando. — Eu não acredito que realmente achou que poderia me esconder que Felicity foi presa. – Raiva. Decepção. Tristeza. Antigamente Thea costumava olhar para mim com admiração, como se eu fosse uma espécie de super-herói. Alguém que nunca cometia erros, que estava sempre presente para salvar o dia. Agora, ela me via como eu realmente era, um ser humano, sujeito a falhas.
Eu meio que preferia assim.
— Eu estou resolvendo tudo. – disse, sem saber se tentava convencer mais a minha irmã ou a mim mesmo disso.
— Estou vendo como está se saindo bem. – a condescendência em seu tom me deixou alerta e ela se afastou do abraço adotando uma postura ereta e um semblante julgador. Ela iria me dar um sermão? Era uma inversão e tanto da nossa usual dinâmica. – Baforando sobre a moça das informações e quase jogando sua merda nela, fazendo cada policial aqui dentro te observar de esgueira achando que é um louco que vai surtar a qualquer momento?
— Eu perdi um pouco do controle. – abaixei minha cabeça encarando mais do que meus próprios pés, mas minha incapacidade de controlar minhas emoções quando o assunto era Felicity.
— Um pouco?
— Estou na merda de um beco sem saída, não sei para onde a levaram, Thea. – me ergui, sentindo aquela urgência novamente. Eu não poderia simplesmente ficar parado e esperar que tudo se resolvesse. — Eles a tiraram de mim. Literalmente dos meus braços e eu não faço ideia para onde a levaram. – Dizer isso em voz alta era como reviver tudo novamente. Sentir pela última vez a sensação de meus dedos sobre sua pele, afastando as lágrimas quentes que escorriam por seu rosto. Meu coração acelerado de medo quando me coloquei a frente do seu corpo, o instinto de protegê-la falando mais alto assim que fomos abordados. E então eles a tomaram de mim. E me tornei o vazio em meu peito, as mãos trêmulas e insensíveis pela incapacidade de tocá-la. Minha visão agora era desfocada e em preto e branco, porque Felicity era quem trazia a cor, o mundo se tornara um lugar pálido... Se era assim para mim, como não seria para ela? Ela estaria sentindo o mesmo vazio? A mesma falta? — Eu não sei se ela está bem. Se está sozinha. Precisando de um abraço e se sentindo abandonada por mim. – Deus! Permita que ela saiba que eu jamais a abandonaria...— Como é suposto que eu não surte uma vez que eu não tenho qualquer informação? Ela está precisando de mim e eu estou com minhas mãos atadas! – o sangue em minhas veias parecia ferver. Eu queria gritar minha dor, queria que todos parassem suas vidas patéticas e a escutassem, queria que o ambiente ao meu redor refletisse a destruição que havia em mim — Como é suposto que eu a salve, se eu não tenho qualquer poder? – chutei a cadeira a minha frente que ecoou um estrondo alto ao rolar pelo chão. Não me importava se ganhei novos olhares, eu estava extravasando um pouco daquela raiva que vinha da minha impotência e grunhi, como um animal acuado sendo cutucado e ameaçado.
Eu odiava ceder a emoções como essas, mas eu estive no limite, retendo-as por tanto tempo. Eu precisava deixá-las sair, precisava que fossem sentidas em sua forma, mesmo que feia, antes que me consumissem por inteiro.
Para a minha completa surpresa Thea não se deixou ser atingida pela minha perda de temperamento, e um pequeno sorriso que classifiquei como orgulhoso escorregou nos lábios da minha irmã. Ela se colocou de pé, suas mãos pequenas imediatamente tomando a minha para si, apertando-a, lembrando-me de que eu não estava sozinho.
— Você não precisa ser o herói dela todas às vezes, Ollie. – absorvi suas palavras faladas com tanta calma e gentileza, elas tinham o intuito de me tranquilizar e colocar a minha cabeça no lugar. Mas elas também me fizeram pensar.
Eu não precisava ser o herói dela.
Mas eu queria ser.
— Mas eu posso tentar ser. – Meneei a cabeça. Isso não era certo.— Eu preciso tentar. — Não vê a urgência com a qual eu preciso ao menos tentar, Thea?
Tentar.
Não necessariamente conseguir.
Eu não consegui ser o herói de Felicity, nem mesmo uma vez.
Cai novamente na cadeira, sentindo a nova emoção que me atravessava. E diferente da fúria de antes, crua e explosiva, essa emoção era fria e sorrateira. Disfarçava-se de minha consciência sussurrando em minha mente, lembrando-me de todos os meus fracassos com Felicity.
Onde eu estava durante todas as vezes que Felicity precisou de mim? Quando estava grávida e tão ferida por mim, que sequer me procurou. Quando nosso filho morreu. Quando ela teve que lidar com a dor sozinha por tantos anos. Até mesmo quando Slade a empurrou do meu próprio barco. Aonde eu estava?
— Eu nunca fui o herói dela. – constatei, a verdade naquelas palavras deixou um gosto amargo de bile na boca — Eu nunca estive presente quando ela realmente precisou de mim. Talvez, em sua história eu pudesse até mesmo ser visto como uma espécie de vilão.
— Não diga tolices! – Thea apressou-se em refutar.
— Como chamamos o cara que dorme com uma garota pela primeira vez e a enxota na manhã seguinte? Que quebra seu coração de tal maneira que ela sequer confia nele para contar que está grávida? – deixei minha cabeça desabar em meus braços apoiados sobre o joelho. Por longo cinco anos, enquanto Felicity precisava de mim, eu estava vivendo minha vida tranquilamente, ignorando a existência dela.
— Ollie, não somos definidos pelas nossas escolhas do passado. – minha irmã falou com delicadeza, sua mão massageando minhas costas em movimentos contínuos de subida e descida. – Sim, elas deixam um peso em nós, arrependimentos que jamais poderão ser defeitos. E sim, você foi um canalha com Felicity, mas até mesmo naquela época você pensou estar fazendo o que era certo para ela. Você tinha vinte e oito anos, era um homem formado com uma noiva, ela era apenas uma menina sonhadora começando a viver. – um vislumbre das pessoas que éramos naquela época passou por minha mente. Éramos tão diferentes, o mundo real iria se dobrar sobre nós e nos esmagar. — Vocês tiveram a falta de sorte de se apaixonarem na época errada, e você sabia disso, sabia que aquele não era o momento certo para vocês. Sabia o quanto seria exaustivo, e o que isso tiraria de vocês se tentassem. – Tinha sido isso? — Então como um bom cavalheiro, você a deixou ir e esperou que ela voltasse quando a hora fosse certa.
— Eu não esperei, Thea, eu segui com minha vida sem ela. – interrompi, minha irmã estava deliberadamente fantasiando demais a história. Senti sua mão fazendo um carinho sobre minhas costas curvadas novamente.
— É mesmo? Porque o Oliver que eu vi depois de Felicity, foi um homem que simplesmente desistiu de todos os planos que tinha para o futuro. Terminou com a noiva de longa data com quem planejava se casar, nunca mais arrumou uma namorada ou falou sobre ter uma família. Porque sabia que ela era o único futuro que queria ter. Você estava esperando por ela, podia não admitir isso para si mesmo, podia não correr atrás dela, talvez porque não quisesse criar esperanças, mas eu via isso, Ollie. Todas as vezes em que seu olhar se perdia por um ou dois segundos em alguma lembrança só sua, toda vez que um pequeno e raro sorriso aparecia em seus lábios e seus olhos brilhavam com uma emoção única, eu sabia que estava se lembrando dela. Às vezes você trazia o nome dela numa conversa despretensiosa comigo, fingia que não era nada demais, mas eu via a ansiedade em você, o quanto você queria que eu falasse dela. E então logo depois, você se fechava e voltava a ficar sério e taciturno. – ergui minha cabeça para Thea, até então eu tinha a escutado cabisbaixo e concentrado em suas palavras, mas não pude evitar olhá-la.
— Não vê meu erro? – meu estômago se contorceu — Eu passei anos esperando por ela quando o que eu deveria fazer era ir até ela, Thea.
— Sabe qual é a beleza da vida? – franzi os lábios para o sorriso triunfante dela, odiando esse lado conselheira da minha irmã. Por que ela apenas não me deixava chafurdar nos meus erros? Lamenta-los como qualquer pessoa normal? — Você pode cometer erros e tentar consertá-los. Você pode perder o amor, mas tentar recuperá-lo. E foi o que eu o vi fazer. Talvez, no passado de Felicity o príncipe encantado tenha se mostrado um canalha nenhum pouco heroico. Mas no presente? Você salvou Felicity de maneiras que ela nem mesmo sabia que precisava ser salva. – sua mão se arrastou se colocando sobre minha mão fechada em punho. Eu não havia percebido o quão forte eu apertava meus punhos, até que a mão de Thea estava ali, desfazendo o aperto de meus dedos. — Apenas pare e pense na pessoa fechada, triste e rancorosa que ela era ao chegar aqui. Ela se recusava a sentir qualquer coisa. Ela tinha muros e mais muros de proteção e mal permitia que eu, que conheço a verdade, os atravessasse. Hoje eu vejo sorrisos nos lábios dela, os muros se foram e eu a vejo feliz como eu pensei que jamais veria novamente. Seus olhos têm brilho e vida. Quem você acha que fez isso? Quem acha que ensinou Felicity a amar novamente? – Eu fiz isso? Meu coração deu um pulo concordando e acrescentando algo mais. Nós havíamos ensinado um ao outro a amar. — A cada dia que a ama, você salva uma parte o coração dela.
Pesei cuidadosamente suas palavras, permitindo que eu tivesse essa pequena vitória ao perceber que meu amor, talvez tenha sido o bote salva vidas que Felicity precisava para resgatá-la do mar feito de escuridão emocional em que ela se afogava. Eu sabia que o amor era capaz disso, porque tinha sido assim para mim.
Ela me salvou também.
— Obrigado. – apertei a mão da minha irmã, sentindo-me grato por seu discurso que de alguma forma acalmou a tempestade de sentimentos dentro de mim, colocando cada um em seu devido lugar. E embora o vazio permanecesse, eu tinha planos de preenchê-lo logo.
— De nada.... e Ollie? – seu tom veio hesitante, deixando-me um pouco preocupado quando sua mão se soltou da minha voltando para seu próprio colo. — Eu sei que é o pior momento para falar sobre isso, mas... Eu sinto muito sobre Jonas. – todos os meus músculos tencionaram e minha garganta se fechou, eu era incapaz de falar. E eu precisava falar, precisava interromper Thea porque eu não poderia lidar com isso agora. Precisava enfrentar uma dor de cada vez. – Eu sinto muito por não ter contado sobre ele durante todos esses anos, mas não era meu segredo para contar e eu sabia que só traria dor. – nos olhos de Thea, tão parecidos com os meus eu reconheci a dor – Pode me perdoar?
Não sei.
Essa era a resposta correta.
Eu não sabia de nada quando o assunto era meu filho. A perda ainda era uma dor recente, eu podia sentir uma parte do meu coração se partir apenas em escutar seu nome, porque isso me fazia pensar nele. Em tudo o que perdi. No que jamais teria a chance de ter de volta.
Mas a pergunta de Thea não era sobre a minha dor, meu luto. Era sobre o dela. Ela sofreu também, ela o amou também e ela guardou isso para si.
Ela apenas precisava ouvir de mim, para perdoar a si mesma.
— É claro, speedy. — forcei as palavras a saírem.
— Eu preciso que saiba que sempre que quiser falar sobre ele, pode falar comigo. – assenti mecanicamente e encarei a luz florescente do teto, sem me importar com o quanto ela machucava meus olhos. Quando essa conversa terminaria? — Eu estive no enterro dele e... – encarei-a sem conseguir disfarçar a minha dor — Oh, Deus! Me desculpe por fazer isso agora!
— Tudo bem. – Mentira.
— Não, nada está bem. – minha irmã se afastou de mim, afastando a umidade acumulada em seus olhos, não me preocupei em fazer o mesmo – Mas vai ficar assim que pararmos de chorar e focar no problema atual. — ela tomou uma longa respiração e então focou-se em mim – Encontrar Felicity, leva-la de volta para casa. – concordei rapidamente, me perguntando se quando eu a encontrasse seria errado fazer dela minha prisioneira, apenas para garantir que ela nunca mais seria tirada de mim novamente. — Recapitulando: a mulher do balcão de informações não sabe sobre Felicity, ela não está no sistema da polícia, mas se ela foi presa ela tem que estar em alguma delegacia, certo?
— Exato.
— Quantas delegacias podem existir em Starling? — perguntou exasperada.
— Trinta e oito. – minha irmã me encarou boquiaberta — Mas ela deveria ter sido trazida para essa unidade, os policiais eram dessa unidade. – expliquei.
— Já falou com Lance? Ele é meio que o chefe aqui, certo? Ele tem que saber o que está acontecendo. – Eu não queria ser desrespeitoso com minha irmã que queria tanto ajudar, mas eu já havia remoído cada possibilidade que ela pudesse pensar.
— Ele não está disponível. – peguei meu celular novamente encarando com raiva a tela sem nenhuma notificação — Celular desligado, pelas poucas informações que consegui parece que está em alguma grande operação no Glades ou algo assim. Caso grande de tráfico e... – levei as mãos aos cabelos, puxando-os um pouco como se pudesse forçar as ideias a saírem. — E você deveria estar em casa, eu lido com tudo por aqui.
— Não. – ela se ergueu, batendo o pé.
— Thea, não é a hora nem o lugar para ser teimosa. – me ergui também, elevando minha altura sobre a dela.
— Acha que pode ganhar no jogo eu sou maior que você? – ergui minha sobrancelha, como quem diz sim – Primeiro: eu não estou sendo teimosa como uma criança mimada. – seu dedo em riste cutucou meu peitoral, quase sorri. Essa é exatamente a reação de uma criança mimada. — Estou sendo o oposto disso. – Ah é? — Estou aqui para te ajudar a tomar as decisões certas, quando você está pessoalmente envolvido demais para fazê-lo. Não percebe? — Olhei para a minha irmã com novos olhos, ela estava correta quanto ao fato de meu envolvimento pessoal nublar boa parte do meu julgamento, – Eu já decidi o que vamos fazer.
— Ah, é? – ela deve ter notado meu tom sarcástico, eu já havia pensado no que fazer, era meu trabalho pensar, mas meu cérebro no momento estava tão deserto quanto uma escola durante as férias de verão.
— E eu vou descobrir aonde o senhor Lance está, e ir até ele, acho que no momento ele é nossa melhor chance ao invés de sentar e esperar ele aparecer. – Ela cruzou os braços e adotou uma postura petulante me desafiando a discordar dela.
— E eu?
— Você fica aqui. – Eu abri a boca para protestar – E liga para os hospitais, até onde sabemos a viatura em que ela estava pode ter se envolvido em algum acidente. – meu corpo ficou frio, a possibilidade sequer tinha passado pela minha cabeça e eu não gostava que agora minha mente estivesse inundada com imagens de Felicity machucada – É só uma precaução, Ollie, até onde sabemos, eles ainda podem trazê-la para cá. – Mas o estrago já tinha sido feito — E eu não sei bem como essas coisas de advogado funciona, mas eu acredito que você vai ter que elaborar alguma coisa para soltá-la quando a encontrarmos.
— Eu preciso elaborar um habeas corpus. — E de um juiz disposto a soltá-la o quanto antes. Omiti a parte mais difícil.
— Você é o único que pode fazê-lo. – Assenti vagarosamente — Hey Ronnie, pode me dar a pasta? – pisquei, só então percebendo que Ronnie estava ali na delegacia, encostado contra uma das paredes.
— Então foi você que me entregou. – olhei para ele com os olhos semicerrados. Ronnie tinha sido a única pessoa para qual eu contei a verdade sobre a prisão de Felicity, disse-lhe para ficar alerta porque eu iria precisar dele assim que a encontrasse.
— Sua irmã sabe ser uma dor no traseiro quando quer. – reclamou – Ela praticamente encostou uma faca em meu pescoço e me obrigou a contar tudo. – olhei para ele incrédulo — Figurativamente falando, mas a sensação é a mesma.
— Não se incomode, meu irmão sabe que sou um anjo. – Thea sorriu e piscou os olhos inocentemente fazendo Ronnie revirar os dele. – Isso é seu, Ollie. – ela me entregou a pasta que Ronnie trazia, pelo peso deduzi que meu notebook estava ali dentro. – Ahh, eu vou pegar Ronnie emprestado pelo resto da madrugada.
— Eu não sou seu motorista particular. – ele reclamou num suspiro.
— Que pena, eu estava pensando se deveria comprar um quepe e luvas. – Thea torceu os lábios perigosamente ao olhar para Ronnie — Eu não gosto desse visual desleixado que você adota.
— Eu não gosto da sua língua atrevida, e nem por isso a cortei fora. — resmungou — Mas está nos meus planos.
— Como vai descobrir aonde Lance está?
— Eu só preciso de três coisas. – ele elevou o dedo indicador — Primeiro: o seu motorista; Segundo: o meu namorado. – franzi o cenho sem compreender sua lógica — Se está acontecendo uma operação no Glades, Roy vai saber direitinho onde é.
— E a terceira?
— Que meu irmão não surte. – apertei os lábios, não gostando do caminho que seguíamos — Eu posso ter que fazer alguma coisa ilegal para encontrá-lo...
— Você me disse há pouco que estava tentando ser responsável.
— Mudanças não acontecem da noite para o dia. – ela jogou os cabelos por cima do ombro, e agarrou o braço de Ronnie o arrastando consigo para fora da delegacia — Vamos Ronnie, o carro não vai se dirigir sozinho.
— Com todo o respeito, eu odeio sua irmã.
Às vezes eu também.
— Cuide dela.
***
Uma cadeira desconfortável no meio de uma delegacia agitada durante a madrugada, não era o melhor lugar para elaborar meu pedido de habeas corpus. Mas eu literalmente não tinha outra opção. Thea havia trazido meu notebook, então eu poderia trabalhar enquanto mantinha o olho em tudo. Eu liguei para os hospitais como ela sugeriu, e para meu alívio e completa agonia, Felicity não estava em nenhum deles.
Aceitei que eu precisava estar aqui, observando caso algo acontecesse.
Mas eu olhava por cima dos meus ombros e via a claridade tímida do lado de fora, atravessando as janelas de vidro fosco da delegacia. Sons que indicavam o começo de um novo dia, chegavam até mim deixando-me ainda mais frustrado.
Aproveitei o tempo para pensar mais friamente. Foi difícil num primeiro momento, encontrar um equilíbrio quando tudo dentro mim fervilhava exigindo por respostas. Mas eu aceitei com desgosto a minha incapacidade de fazer mais, naquele estado. E Thea estava certa, eu não poderia ser o herói de Felicity fazendo tudo sozinho. Então resolvi jogar com as cartas que tinha, e confiar uma parte disso nela.
— Quem é sua irmã favorita?
— Thea. – seu nome saiu num reflexo a sua chegada intempestiva ao abraçar-me por trás rodeando os braços em meu pescoço, não uma resposta a sua pergunta, mas ela não pareceu notar.
— Isso mesmo. – ela apertou meus ombros — E trouxe um presente... – Me ergui da cadeira ignorando a pontada de dor nas costas por ter ficado naquela posição incomoda por tanto tempo. Quentin Lance estava há poucos metros de nós, dirigindo ordens a alguns oficiais, e assim que percebeu meu olhar ele assentiu para mim.
— Obrigado, speedy! – agradeci minha irmã com um abraço.
— Aposto que duvidou de mim. – ela riu contra meu corpo.
— Nenhum minuto. – encarei minha irmã num misto de orgulho e alívio. Graças a ela eu estava um passo mais perto de Felicity. — Eu sei que quando Thea Dearden Queen quer algo, ela consegue.
— Foi fácil. – ela jogou os cabelos por cima dos ombros, mas logo sua confiança decaiu um pouco e notei um olhar hesitante – Exceto que Roy pode ter que ficar escondido uns dias em nossa casa.
— Ok.
— Você aceitou e não está fazendo perguntas. – seus olhos se estreitaram em minha direção.
— Eu não quero saber, sei que você provavelmente fez algo que eu não gostaria, e em retorno vou pedir para fazer algo que você não vai gostar. – Ela cruzou os braços — Vá para a casa, Thea.
— O inferno que vou!
— Não estou te dispensando. – apoiei minhas mãos em seus ombros, e a olhei nos olhos tentando lhe passar segurança — Eu sou grato speedy, por tudo o que fez. Mas daqui em diante eu sou o único que pode fazer alguma coisa. – ela abriu a boca para protestar — Espere por mim e Felicity em casa, eu prometo que vou mantê-la atualizada. – ela estava quase cedendo — Além disso eu acredito que o sr. Harper possivelmente está precisando de alguma atenção médica também. – Desviei um olhar para Roy que estava escorado na parede próxima tentando manter-se a parte de tudo, com o capuz do seu moletom vermelho sobre a cabeça. Ronnie havia acabado de lhe entregar uma lata de refrigerante, e ele a pressionava sobre o lábio inchado. Eu realmente não queria saber em que encrenca esses três se colocaram.
Thea suspirou, e seus olhos se tornaram maiores e preocupados.
— Promete me manter informada? – Assenti – Então nós vamos. – Minha irmã se colocou nas pontas dos pés e me deu um beijo estalado. – É melhor trazer minha cunhada para casa, logo.
Me permiti sorrir por um momento.
Gostando mais do que deveria da forma como Thea colocava Felicity em nossa família. Eu tinha ciência que nosso relacionamento era no mínimo indefinido, e provavelmente continuaria assim por um tempo.
Nós só precisávamos disso.
Tempo para tentar nos resolver.
Infelizmente, era tudo o que não tínhamos.
— Senhor Queen... — A voz séria de Lance me trouxe de volta para o presente — Venha comigo. – segui seus passos duros até sua sala.
— Que merda está acontecendo, Lance? – esperei apenas o tempo de ele fechar as portas.
— Não faço ideia, Oliver. – ele puxou as persianas da sala, garantindo que não seríamos espionados. – Eu não sabia do mandado de prisão, eu não estava aqui quando foi emitido. — explicou — E alguém viu nisso uma oportunidade e tanto. – Concordei ainda parado no meio da sala, enquanto Lance caminhava para a extremidade da mesma até a máquina de café expresso. — Sente-se, homem, eu já solicitei a rota detalhada do gps da viatura que a prendeu, logo vamos saber para onde a levaram. – Não conseguia sentar, eu havia ficado sentado por tanto tempo — Café? – ofereceu, e tomou seu lugar sentando-se atrás da mesa.
— Não, obrigado.
— Do que mais precisa, Oliver?
— De um foguete para enviar Slade Wilson com uma passagem só de ida para marte. – E de preferência que explodisse antes mesmo de deixar a terra.
— Desculpe, nossos foguetes acabaram. – ele hesitou e levou o copo de café a boca, escondendo os lábios enquanto fazia sua próxima pergunta — Tem certeza que é obra dele?
— De quem mais? – deixei minhas costas se apoiarem em uma das paredes. Eu estava fisicamente exausto, uma noite sem dormir não era novidade para mim, mas esse nível de preocupação e cansaço mental, sim.
— Felicity tinha uma ordem de não deixar a cidade, sabe que está errado nesse ponto. – ignorei a pontada de dor que senti ao escutar seu nome, e tentei me focar na conversa com Lance.
— Eu não estava pensando e tivemos um... contratempo familiar. – engoli em seco. Como eu poderia explicar que fomos encontrar nosso filho? — Mas como alguém saberia aonde estávamos? Slade é o único que provavelmente tinha alguém a seguindo, mas ainda assim, precisou contatar algum juiz e alguns policiais daqui para prendê-la. – Rosnei.
— Eu vou descobrir aonde ela está. – lançou-me um sorriso confiante, mas palavras de conforto já não me serviam. Eu queria respostas. Eu precisava de Felicity segura comigo para me sentir melhor. — Quem sabe encontrar algumas maçãs podres na delegacia, não gosto da ideia de meus oficias receberem ordens dele. – o telefone começou a tocar e nos entreolhamos — Um minuto. – solicitou.
A ligação de Lance realmente demorou apenas um minuto.
Porém, para mim mais pareceram horas que estenderam meu tormento pessoal. Eu escutei suas respostas curtas e vagas de sim e não, fiquei mais atento aos seus questionamentos “Tem certeza?” “Isso não é possível.”, e nervoso com a profusão de palavrões que seguiram às respostas da pessoa do outro lado da linha. Analisei com receio seu pé inquieto e quase tive um ataque do coração quando Lance afrouxou a gravata e notei que sua careca até mesmo suava.
Isso não era bom.
Uma das desvantagens em ser um bom leitor de pessoas é essa, você antecipa toda a merda que vão jogar em você, antes deles jogarem.
— Você descobriu onde ela está? – no instante em que o telefone bateu no gancho eu estava em cima de Lance, questionando-o.
— Sente-se Oliver. – Lance pediu, naquele tom de quem tem más notícias.
— O inferno que vou me sentar! – reclamei elevando a voz — Onde ela está?
— Por algum erro administrativo, parece que Felicity foi levada direto para uma prisão federal. – Deixei o choque passar por mim, torturando-me um pouco mais enquanto eu assimilava o que havia acontecido.
— Eu não acredito em erros, Lance. – fui pragmático — Você erra uma questão de uma prova quando não se preparou para ela, mas não erra e envia uma pessoa que está sendo acusada de um crime para uma prisão federal como se ela já fosse uma condenada. Se esquece de fichá-la na delegacia local, e tem todos os dados magicamente fora do sistema. — ele concordava comigo, eu via sua mente buscando por uma resposta lógica, mas eu já a tinha. — Isso é obra do Slade.
— Mas, por que ele faria isso? – Por quê?
— Ele está puto. – eu andava de um lado para o outro enquanto organizava meus pensamentos — Está tentando provar seu poder e nos assustar. – concluí — Ele a atacou quando estava no barco, esse foi um ataque direto e raivoso, ele havia acabado de perder o filho. Prendendo-a, ele está mostrando seu controle.
— Não sei, Oliver.
— Nós dois sabemos que ele tem os meios para fazê-lo, possui algumas pessoas importantes lhe devendo favores, ou não conseguiria orquestrar isso. – cocei meu queixo, ainda havia algo que não se encaixava na minha teoria.
— A prisão é ilegal de todo modo. – Lance me lembrou — Ela não deveria estar numa prisão federal com pessoas condenadas. O procedimento foi feito incorretamente, você vai conseguir derrubar isso em dois ou três dias, talvez menos se tiver um juiz ao seu lado.
Dois ou três dias.
Eu não gostava da ideia de Felicity em uma prisão, nem mesmo por dois segundos. Como sobreviver a quarenta e oito horas?
A resposta era simples: não sobreviveria.
— O que está pensando? – Lance me questionou, talvez notando que fiquei disperso por alguns instantes.
— Se conheço algumas pessoas para pedir favores também.
***
Felicity Smoak
Vida é uma coleção de momentos.
Bons e ruins, não importa.
Todo mundo tem sua cota deles.
Mas sempre tem aqueles que se sobressaem, que tocam nossos corações e almas de forma inimaginável, esses momentos são também chamados de marcos da vida. Todos nós passaremos por um, vez ou outra. Seja na morte de um ente querido, no rompimento de uma ligação familiar ou amorosa, quando você se casa, quando uma nova vida surge... São momentos que nos afetam de tal maneira que nos transformam fundamentalmente. Seja um passageiro gosto de felicidade que nos impulsiona a querer perseguir mais desse gosto, seja numa queda continua por um buraco escuro e sem fim, que nos faz oscilar entre ser capaz de finalmente chegar ao fundo do poço escuro, ou abrir as asas para simplesmente voar para fora dele.
Dizem que é nos momentos de adversidade e plena felicidade que provamos nossa força e encontramos nosso verdadeiro eu. Como nos livros e filmes quando o herói é derrotado e já não tem sequer forças para erguer a espada e matar o perigoso vilão. Ele tem um vislumbre da felicidade que um dia teve, da que deseja tanto ter mais. E tudo parece possível, ele se ergue do chão e luta ainda mais bravamente pela sua felicidade. Esse é um dos momentos decisivos e transformadores.
Marcos da vida.
A minha vida era cheia deles.
Quando Oliver e eu dormimos juntos pela primeira vez, e eu descobri que o amor tem várias facetas além do simples amor platônico. Eu tive um vislumbre de um tipo de felicidade desconhecido até então. Descobri o que era ser amada como uma mulher merece. Um marco definitivamente feliz, mesmo pelo curto tempo que durou, já que logo foi substituído por um marco triste.
Eu havia encontrado o amor, mas ele não poderia ser meu.
Foi a primeira rachadura em meu coração.
E logo após me descobri sozinha e grávida. E eu fui de uma menina ingênua e magoada, para alguém que precisou amadurecer rápido demais. Foi um marco feliz e triste ao mesmo tempo, mas acima de tudo transformador.
E então eu perdi meu filho.
Eu não sabia que existia esse tipo de dor, até senti-la. Oliver havia partido meu coração ao me mandar embora aquela noite anos atrás, mas perder nosso filho o estilhaçou de tal maneira que por um longo tempo eu me questionei se ainda havia um coração dentro de mim.
Foi o pior momento da minha vida.
E diferente dos contos de fadas onde o herói se levanta e luta para salvar aqueles que ama, eu já sabia que não existia ninguém para que eu salvar. Eu apenas caí na escuridão sem fim, e me permiti atingir ao fundo porque eu queria sentir aquela dor. Eu merecia senti-la.
Não encontrei a força necessária para superar. Não me ergui e derrotei meu inimigo com uma espada brilhante ou usei minhas asas para voar para longe do poço escuro em que fui jogada. Porque diferente de tantas histórias contadas, eu não tinha aquele vislumbre de felicidade pelo qual lutar.
Como um mecanismo de defesa, eu me forcei a me adaptar aos momentos ruins, quando o que eu deveria fazer era enfrentá-los e superá-los. E por tanto tempo, tudo o que tive foi uma meia vida.
Até ele voltar.
De certa forma ele sempre esteve entrelaçado nos meus marcos tristes também. Dividindo-os comigo. E depois, criando uma nova coleção de marcos felizes. Dando-me aquele vislumbre de felicidade pelo qual eu deveria lutar.
Oliver.
Apenas pensar no nome dele fez meu coração bater num ritmo diferente. Abaixei minha cabeça sobre os joelhos ao qual estava abraçada apertando minhas unhas com tanta força sobre meus braços que elas transpassavam o material grosseiro do uniforme laranja que eu usava. Fechei meus olhos, pressionando-os com mais força como se pudesse apagar a visão de onde eu estava. Não que fizesse alguma diferença, a única luz que havia estava longe demais, e apenas jogava um tímido sombreado das grades que desenhava seus padrões dentro daquela cela pequena e lúgubre.
Onde ele estava?
Por que ele ainda não apareceu?
As minhas perguntas sem respostas trouxeram um tremor involuntário pelo meu corpo, meu coração deu uma longa e cansada batida e me abracei ainda mais forte. Lágrimas quentes rolaram pelo rosto e me permiti chorar ruidosamente, com sons inteligíveis que cortavam a garganta mais pareciam protestos gritados pelo meu coração. Não me importei em me calar ou secar as lágrimas do meu rosto, não era como se eu tivesse de quem escondê-las. Eu estava cansada e com frio, mais solitária do que jamais me senti um dia, mas me recusava a me enrolar no cobertor e adormecer. Não que eu fosse conseguir dormir com minha mente fervilhado do jeito que estava.
É engraçado como um tempo sozinha dentro de uma cela coloca toda a sua vida em perspectiva. Eu me vi pensando e questionando cada momento que me trouxe para cá.
Funguei ao repassar minha longa lista de arrependimentos.
— A pobre garotinha vai chorar a noite inteira? – Não exatamente sozinha. Ergui minha cabeça em direção a voz da mulher do outro lado da cela, mesmo sabendo que não conseguiria enxergá-la, eu encarei a única alma viva que estava aqui dividindo o mesmo espaço comigo. Eu estava curiosa, desde o momento em que fui jogada nessa cela e a mulher estava quieta em seu canto, encoberta por cobertores.
— Desculpe-me, não queria acordá-la. – apressei em me desculpar.
— Desculpe-me? – a minha companheira repetiu a palavra com uma nota de diversão. Escutei o farfalhar das cobertas caindo ao chão, e mesmo sem ser capaz de enxergá-la, eu sentia olhos intensos cravados em mim – O que você é?
— O que disse? – pisquei, sem compreender o que ela perguntava.
— Claramente essa é a primeira vez que vem para uma prisão. – pela forma impaciente com que me respondeu, eu sabia que estava revirando os olhos e me julgando pela minha falta de ficha criminal. É um mundo estranho esse, atrás das grades. — Estou perguntando que crime você cometeu. — Não respondi, mordendo meus lábios e segurando a mentira. Eu não sabia qual era o protocolo dentro de uma prisão, e enquanto estava no mundo lá fora Oliver tinha expressamente me dito para ter cuidado com o que falava sobre a noite em que Joe Wilson morreu – Porque você não me parece o tipo de garota que vem para um lugar como esse. Você parece a típica garota perfeita, que nunca fez nada de errado. Aposto até mesmo que recicla.
Eu reciclava.
— Como sabe que tipo de garota eu sou? Não pode nem me ver. – retruquei. Como mulher eu estava acostumada a ser julgada pela minha aparência, mas ser julgada por alguém que sequer me via, tornava o julgamento ainda pior.
— Querida, você está chorando como uma mulherzinha. – Mas eu sou uma mulherzinha! E para constar, homens são mais chorões do que as mulheres... — Pode fazer uma pose altiva agora, mas eles a verão como é: uma pobre garotinha assustada. Eles vão comê-la viva lá fora.
Do que ela estava falando?
— Eles? — houve um longo silêncio e então senti a minha cama ceder com a adição do novo peso. Como ela havia atravessado o quarto sem que eu sequer escutasse seus passos?
— Você já foi a garota nova na escola durante o ensino médio? – assenti, alheia ao fato de que a mulher ao meu lado não conseguia me ver.
— Sim. – forcei a resposta, mas não consegui disfarçar a tensão.
— Todos os grupinhos já estão formados e você não tem seu lugar. Os atletas, as líderes de torcidas, os nerds, o pessoal do clube de teatro... — exemplificou — Precisamos encontrar um lugar para você. Não vai querer ser a garota que almoça sozinha no banheiro. – preferi não interromper, eu já tinha sido essa garota — Porque aqui a força está nos números e almoçar sozinha significa pintar um alvo nas suas costas...
— Está dizendo que eu preciso de um grupo?
— Você pode ser loira, mas até que não é burra. – como ela sabia que eu era loira? – Seu grupo é escolhido pelo tipo de crime que cometeu. Você não vai querer estar no grupo daquelas que são apenas cúmplices de um namorado. Pobres coitadas. Nem daquelas que ainda alegam legítima defesa, ninguém as teme. – Diga-me, qual é o seu?
Hesitei.
Algo na mulher ao meu lado dizia-me que ela seria capaz de ver a mentira em mim.
— Eu matei alguém. – respondi bem baixinho, sentindo meu coração oscilar entre bater rapidamente ou parar de fazê-lo.
— Bom. Homicídio qualificado? Com arma branca ou de fogo? Ganha pontos se foi premeditado, e mais ainda se tiver sido com um ex cretino. – não respondi — Não me diga que foi legítima defesa? – puxei o ar para dentro dos meus pulmões, e forcei as lembranças daquele dia. Eu não queria correr o risco de mentir e ser pega, então me forcei a dar uma verdade.
— Foi um acidente. – respondi, com a voz baixa — Eu não...
—... Você não queria matá-lo? – ela ironizou, a voz se tornando melosa. — A maioria das pessoas nunca quer. Mas mesmo assim ainda o fazem. Curioso não? – Soltei o ar, não valia a pena tentar explicar e tão pouco eu gostava de falar disso.
— E você? – olhei para ela enquanto aguardava por sua resposta.
O lugar estava mais claro, eu via além de apenas sua silhueta, eu conseguia ver melhor os contornos do seu rosto. As maçãs altas, pele clara e cabelos longos e escuros, ela era uma mulher bonita, mas parecia tão dura.
— Eu matei algumas pessoas também. – Algumas. Tentei disfarçar a reviravolta que meu estômago deu – Mas nenhuma delas foi um acidente. – Ela sorriu e um sorriso em seus lábios pareceu errado. — Não se preocupe comigo, querida. Eu só matei pessoa que me deram uma boa razão fazê-lo.
— Prisioneira 73 1941. — dei um pulo de susto quando um dos guardas bateu na grade, fazendo o som de metais se chocando, reverberar pelo cômodo.
— Estão te chamando, Felicity, nós conversaremos mais depois. – sorriu novamente, me dando um pequeno empurrão para fora da cama.
O guarda não falou, apenas colocou algemas em mim e me direcionou.
Eu não tinha sido muito observadora quando me trouxeram para cá. Mesmo agora, se eu forçasse minha mente a se lembrar do que aconteceu, eu conseguia apenas flashes de momentos. Dentro do carro da polícia enquanto Oliver era deixado para trás, me lembrava de olhar e me sentir aliviada quando vi seu carro nos seguindo, mas então ele desapareceu. Uma mulher prensando minhas digitais em um papel assim que cheguei ao prédio. Ela me deu as roupas que eu vestia agora, e tomou todas as outras, assim como meu celular e bolsa. Eu não percebi o caminho que fiz. Num momento a mulher tinha minhas coisas em seu braço e no outro eu era jogada na cela escura. Era como se eu estivesse dormente durante todo o processo.
Eu ainda estava assustada.
Ninguém falava comigo ou explicava nada enquanto eu era arrastada por uma coleção intrincada de corredores. Mas dessa vez eu forcei minha mente confusa a prestar atenção em cada detalhe. Olhei pelas grades das outras celas vendo mulheres de todas as idades, todas ela com a mesma expressão dura no rosto. Seria esse o meu futuro? Varri o pensamento e me concentrei em decorar meu caminho entre as paredes cinzentas, eu não sabia para onde estava sendo levada, mas seria bom saber o caminho de volta.
E então uma porta se abriu.
E em meio a desordem dos meus pensamentos, em meio ao medo do desconhecido que fazia meu coração bater acelerado e a respiração sair espaçada, eu encontrei o único capaz de me trazer algum conforto.
Seu rosto me lembrava de casa.
Minha primeira reação ao vê-lo, foi correr para abraçá-lo.
Eu necessitava de contato humano, algo quente para me tirar daquela claustrofóbica sensação que era ter somente a mim. Seu corpo recebeu o meu com entusiasmo e proteção, senti suas mãos grandes rodearem minha cintura e subirem por minha coluna espremendo meu corpo contra o seu. Suspirei sob seu conhecido calor, e inspirei profundamente inalando o frescor do seu cheiro, desejando que pudesse guardá-lo para mais tarde quando sentisse sua falta. E quase chorei quando ergui meus braços e não consegui abraça-lo de volta.
Minhas mãos algemadas não me permitiam abraça-lo.
Eu não tinha ideia do quanto eu precisava abraçar Oliver de volta, até que fui impossibilitada de fazê-lo.
— Solte-a. – meu cérebro apenas assimilou seu tom firme e exigente, e poucos segundos depois o guarda retirou as algemas. Fui meramente consciente do som de uma porta se fechando, toda a minha concentração estava focada nos dedos de Oliver tocando a pele dos meus pulsos com cuidado, seus olhos entristecidos se demorando sob as marcas vermelhas.
— Logo vai desaparecer. – Minimizei dando de ombros. Seus olhos, antes tão atentos às minhas mãos, vieram para os meus. Choquei-me com a quantidade de sofrimento e culpa que havia ali.
— Elas sequer deviam estar aí. – não havia controle em sua voz que cuspia raiva.
— Oliver. – apenas dizer seu nome trouxe uma estranha calmaria para seus olhos revoltos, embora eles ainda estivessem nos meus e eu ainda pudesse ver o desespero neles. Então elevei uma das mãos colando-a em seu rosto, dedos brincando com os fios grossos e ásperos da barba. Oliver cedeu sob meu toque, o olhar se tornando um pouco mais terno e um pequeno sorriso começando a desenhar em seus lábios.
Ambas as suas mãos se ergueram, fazendo morada em meu rosto. Segurando-o com delicadeza e possessividade, era incrível que dois sentimentos tão opostos pudessem coexistir em harmonia. Mas era assim com Oliver.
— Eu sinto muito por demorar tanto. — ele finalmente quebrou o silêncio. Mas não eram as palavras que gostaria de ouvir. Eu não queria a sua dor, e muito menos queria ser aquela que colocava tanto peso sob seus ombros. — Eu não sabia para aonde haviam a trazido, passamos a noite em claro tentando encontra-la, você não deveria estar aqui. Eu sinto muito, você não faz ideia do quanto eu sinto...
— Não é culpa sua, Oliver. – Interrompi. Ele respirou profundamente e escutei seus dentes rangendo enquanto Oliver se esforçava para não negar minhas palavras. Quando se tratava de Oliver e eu, parecia uma competição para ver quem tomava a culpa para si primeiro.
— Está aguentando bem? – perguntou. Olhos finalmente deixando os meus e fazendo uma triagem completa por mim, verificando se eu estava inteira. — Precisa de alguma coisa?
— Estou bem. – Oliver fez uma careta, sabendo que aquela era meramente uma resposta cortês. — Exceto que... – ele me olhou atentamente num misto de ansiedade em me ajudar e medo do que iria ouvir — Eu disse que laranja não era a minha cor. – Oliver meneou vagarosamente a cabeça e rangeu os dentes segurando um palavrão, irritado e ao mesmo tempo descrente de que eu havia tentado fazer uma piada.
— Você sempre tenta ser engraçada para mim. – Ele não parecia satisfeito — Eu não preciso que faça isso, que tente proteger meus sentimentos ou tornar tudo mais leve. Eu posso lidar com uma situação ruim. – Eu sabia que ele podia lidar com qualquer merda, mas eu apenas não queria. Já havia trazido tanta coisa ruim para a vida de Oliver que as vezes apenas imaginava o quão menos peso ele carregaria em seus ombros se eu não existisse. — E nós dois sabemos que é pior para você.
— O quão pior? – aproveitei sua deixa para tirar logo o curativo do machucado.
— A situação é ruim. – percebi que ele tomava cuidado ao escolher as palavras — Eu me esqueci completamente de que não poderia deixar a cidade e eu lamento muito por isso...
— Não foi sua culpa. – retruquei e dei um passo para trás, não querendo seguir por aquele caminho novamente. Nós deixamos de nos tocar e imediatamente me arrependi de ter me afastado.
Eu precisava do seu toque, do mesmo modo que precisava de oxigênio.
— Agora você está sendo condescendente. – Respirei fundo. Lá íamos nós novamente naquela guerra de culpas.
— Eu me esqueci também, Oliver. – retomei a proximidade de antes, embora agora já não nos tocássemos — Os últimos dias não foram fáceis. Não para mim e muito menos para você. – observei o pomo de adão dele subir e descer, seu corpo se tornando rígido como pedra. Se protegendo das palavras que sabia que logo eu diria.— Você se descobriu pai e perdeu seu filho logo em seguida. Seu coração está cheio de tantos novos sentimentos e novas dores procurando um lugar para se acomodar e um modo de se curar. – coloquei minha mão espalmada sobre seu coração sentindo suas batidas fortes e ritmadas. — É perdoável que tenhamos nos esquecido quando nossa cabeça estava preocupada com tantas outras coisas. Nós somos apenas humanos afinal.
— Mas...
— Apenas uma vez na vida, aceite que é normal errar e que não precisa se martirizar por isso. – nem percebi que havia fechado minha mão em punho, e bati em seu peitoral. Oliver era extremamente frustrante às vezes.
— Vou aceitar apenas dessa vez. – Brincou, mas eu sabia que ele não iria. Esse era Oliver Queen, sempre ansioso para assumir a culpa sobre tudo o que dá errado, mesmo quando não pudesse fazer nada para evitar.
Aceitei, porque mesmo não gostando, essa era uma característica do homem que eu havia me apaixonado.
— Nós temos quanto tempo? – mudei de assunto, e pela primeira vez vi Oliver desviar o olhar de mim indo até a porta. Dava para ver a figura de um guarda parado além do vidro.
— Não muito. – ele admitiu — Você é minha cliente, para todos os efeitos esta é uma reunião de trabalho.
Mordi os lábios, tentando entender. Oliver tinha vindo porque precisávamos discutir minha defesa agora que eu estava presa? Por que se sentia culpado por se esquecer que não deveríamos deixar a cidade? Ou... por mim? Tentei varrer esse último pensamento, lembrando-me de que não tínhamos mais esse tipo relacionamento.
— Pode parar de andar de um lado para o outro e dividir seus pensamentos? – Ele pediu, e imediatamente parei, só então notando o quanto estávamos afastados.
— Por que você não divide os seus primeiro? – Eu precisava que ele desenhasse os limites, assim eu não faria nada estúpido.
— Por que não me falou sobre Ray Palmer? – Parei de repente, o que aquilo tinha a ver com a minha prisão?
— O que tem ele?
— Ele tem ligado no seu celular e deixando muitas mensagens também. – estreitei os olhos.
— Como você...?
— Eu sou seu advogado, tive acesso a suas coisas. – ele se adiantou, explicando antes que eu pudesse terminar minhas perguntas. – Me desculpe, eu achei que poderia ter alguma informação útil, não quis ser invasivo...
Não me importei.
Já não havia mais segredos entre mim e Oliver.
— Você falou com ele?
— Não. — negou — Mas olhei algumas mensagens... – Admitiu num tom de culpa, erguendo os olhos parecendo um pouco envergonhado pela invasão de privacidade, embora o quase sorrisinho em seus lábios revelasse uma terceira emoção. Eu sabia que emoção era aquela, meu rosto rapidamente se aqueceu, para acessar minhas mensagens Oliver teria que passar pela minha senha... E bem, eu sabia o que ela representava para nós. — Na maioria das mensagens ele diz que precisa de você e quer que volte logo. – Oliver havia dado um hesitante passo à frente, estranhei a forma como suas mãos estava escondidas dentro dos bolsos — Outras ele pergunta se você vai realmente abandoná-lo desse jeito. – revirei meus olhos e contive o riso, Ray sabia ser uma rainha do drama quando queria. – E então ele fala sobre um casamento, e que precisa de você presente... – o rosto de Oliver estava vermelho e comecei a entender do que ele falava, ou do que ele achava que falava.
Não sei porque ri.
Talvez tenha sido por causa da abordagem dele “comendo pelas beiradas” sem realmente perguntar o que queria saber.
Talvez porque a mera ideia de Ray e eu juntos fosse engraçada.
Ou talvez, fosse porque Oliver Queen estava com ciúmes.
— Do que está rindo?
— Você olhou minhas mensagens e agora está me inquerindo sobre elas como um namorado ciumento. – mordi os lábios, assim que a palavra saiu. Merda. Não somos namorados! Forcei a me lembrar. — Oliver, Ray Palmer é meu chefe. – Expliquei, e ele continuava a me olhar como se minhas palavras não respondessem suas perguntas – Eu não contei para ele pelo o que estou passando, ele foi meu mentor na faculdade e tinha muitas expectativas em mim, no meu trabalho. Eu apenas não queria decepcioná-lo. – dei de ombros — Eu pedi a Curtis que o informasse das minhas férias, e desde então estou evitando as ligações de Ray porque eu já ultrapassei e muito o limite de tempo que poderia ficar longe do trabalho. – dei a Oliver um meio sorriso — Não quero atendê-lo e ouvi-lo dizer que vou ser demitida.
— Então você não tem um relacionamento com ele. – Oliver deixou escapar mais para si mesmo do que para mim.
— Eu tenho. – refutei — Ele é um bom amigo, e nós dois seremos padrinhos do casamento de Curtis com seu noivo Paul.
— Desculpe-me. – Oliver passou a mão pelos cabelos e me olhou meio sem jeito enquanto se aproximava um pouco mais — Não sei porque perguntei sobre isso. – Sim, você sabe! — Mas já que perguntei, eu acho que você deveria falar com ele, mesmo que a demita. – Ele estava ainda mais perto — Ele é seu amigo, merece saber pelo o que está passando, e você merece ter boas pessoas por perto para apoiá-la.
— Pelo o que exatamente estou passando? – testei.
— Você não vai ficar aqui. – Ele praticamente rosnou.
— Vai me tirar agora? – sua certeza vacilou, talvez sentindo a vulnerabilidade na minha voz.
— Infelizmente ainda não. – Esperei pela decepção me atingir, mas estranhamente ela não veio.
— Tudo bem. – dei de ombros — Não é como se eu tivesse muito esperando por mim do lado de fora.
— Tudo bem, o caralho! A prisão é ilegal, Felicity, apenas prisioneiros condenados são trazidos para uma penitenciária como está, e você sequer foi a julgamento. – Oliver se aproximou ainda mais, estávamos à um palmo de distância suas mãos se colocaram ao redor dos meus ombros segurando firmemente — Eles deveriam tê-la levado para a delegacia, processado corretamente no sistema e então... – ele parou — Esqueça as tecnicalidades. O que precisa saber é que estou trabalhando para reverter isso, ainda essa tarde. Não vou permitir que passe mais uma noite num lugar como esse. – Era fofa a sua preocupação – Não faz ideia do quanto eu odeio que esteja aqui.
— Eu também odeio estar... – Elevei uma das mãos, tocando a dele e então era eu quem o estava consolando. Eu amava ver a ferocidade com que Oliver estava pronto para lutar comigo, mas isso me fez pensar em quão grande seria seu desespero se tudo desse errado... Eu precisava prepará-lo. — Mas, Oliver, se por algum motivo você não conseguir. Se no final de tudo esse lugar for o meu lugar, eu quero que saiba que está tudo bem. – o olhar de Oliver se tornou profundo e meticuloso. Eu sabia que pela expressão dura em seu rosto, ele estava analisando cada uma das minhas palavras e odiando todas elas. — Que não é sua culpa. Foi minha escolha.
Minha escolha.
Isso acendeu algo nos olhos de Oliver. Uma chama de compreensão.
— Felicity... Por que fez isso, então? Por que escolheu ser acusada no lugar de Thea? Conhecendo as consequências, sabendo que poderia acabar assim? – dei um passo para atrás, tentando fugir da sua pergunta tão direta, mas suas mãos em meus ombros me impediram de ir muito mais longe.
— Ela é minha amiga, ela fez tanto por mim, eu devia isso a ela...
— Pare de mentir. Seja honesta, nós dois merecemos isso. – eu já tinha visto Oliver chateado e nervoso, mas não daquele jeito quase feroz e tão incisivo. Era como se toda a vida dele dependesse das minhas verdades.
— Eu estou sendo! – gritei tirando suas mãos de mim e me afastando. Eu não compreendia que outra verdade ele poderia querer. Eu não tinha mais mentiras para revelar, uma a uma, cada uma delas caiu, cada uma foi dada a ele até que não sobrasse mais nada de mim. — Foi Thea quem sempre me apoiou, eu não poderia deixa-la enfrentar isso sozinha... – continuei, me justificando.
— Ela teria a mim. – seu tom veio suave e cheio de certezas, eu nunca teria dúvidas que Oliver daria a própria vida em troca da de Thea se fosse preciso. — Ela é minha irmã, eu a amo e teria feito por ela o mesmo que fiz por você. – eu me calei, sem saber como confrontar a verdade implícita nas suas palavras.
— Eu já disse que não estou mentindo! – cruzei meus braços adotando uma postura defensiva, sem mais saber como me livrar daqueles olhos que tentavam me desvendar.
— Está sim, amor, você está mentindo para si mesma. – pisquei diante de suas palavras, seu tom carinhoso e até mesmo um pouco triste. Seus olhos estavam nos meus, os prendendo junto aos seus. Eu literalmente não podia ir além das paredes daquela sala, eu estava confinada nessa prisão, mas de alguma forma os olhos de Oliver pareciam me prender ainda mais do que algemas. — Ou talvez nem tenha se dado conta do que está fazendo com sua vida. – ele balançou a cabeça suspirando e levando uma das mãos aos cabelos os livrando daquele penteado certinho demais. Oliver parecia conversar consigo mesmo, ao invés de mim. — Eu respeito e admiro seu amor por Thea, mas nós dois sabemos que assumir um crime desse nível por ela foi muito além da amizade. – eu não o respondi, apenas me encostei a parede e fiquei ali, me sentindo cansada demais para me sustentar sozinha. Cansada de erguer paredes, não só para Oliver, mas para mim mesma. Talvez fosse hora de deixa-las finalmente ruírem. — Nós dois sabemos o porquê você fez isso. – eu fechei meus olhos com força e balancei minha cabeça energicamente negando, não apenas negando suas palavras, mas me negando a ouvir aquela verdade. Mas então senti um calor conhecido tocar o meu rosto, aquele toque suave que sempre tivera o dom de me acalmar me fizera abrir meus olhos e finalmente encarar os dele. O que eu via ali me assustava, porque Oliver me via, completa e inteira e eu temia que ele quisesse fugir – Eu não tinha percebido. Não até você me falar que estava tudo bem se eu não conseguisse te tirar da prisão, que estava tudo bem perder tudo lá fora e se isolar aqui. Isso te entregou. Você não está fazendo isso por Thea, Felicity. – prendi o ar, sentindo os meus olhos arderem — Está fazendo por você, porque parte de você se sente culpada pela morte do nosso filho, acha que merece estar aqui.
Meus olhos o fuzilaram.
— Eu não... – a voz sumiu, eu não conseguia me obrigar a falar.
— E eu estou aqui para dizer que não foi sua culpa. – senti o nós dos dedos de Oliver afastando delicadamente uma das lágrimas. Quando elas começaram a cair? — foi um infortúnio o que tirou nosso bebê de nós, — doeu ouvi-lo dizer nosso bebê — e eu apenas sou grato por não ter perdido você também.
— Deveria ter sido eu. – abaixei os olhos encarando a cruel verdade que esteve por tanto tempo escondida. Por que meu bebê morreu, e eu tive a sorte de poder continuar e viver? Não era justo.
— Não, amor! — seus dedos avançaram-se sobre meu rosto erguendo-o para o dele, os polegares pegando cada uma das lágrimas que caíam tão velozes quanto as gotas de chuva em uma tempestade de verão.
— Ele teria tido você e Thea. – comecei a explicar, deixando minha cabeça vagar — Você teria sido um pai maravilhoso, eu sei disso. Eu sempre soube disso, apenas estava magoada demais para enxergar a verdade naquela época. Se eu tivesse partido e ele ficasse, ele teria sido feliz. – a mera imagem de Oliver segurando nosso bebê no colo me fez fraquejar — Tão feliz com você.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Eu teria dado tudo de mim ao Jonas, mas uma parte que eu jamais recuperaria, teria partido com você. – sua voz era grossa, e embargada com o que eu supunha ser suas próprias lágrimas — Por favor será que podemos parar de falar sobre você morrendo? Você não faz ideia do que isso faz comigo. De como eu me senti quando se afogou, como eu me sinto diariamente, assustado e preocupado com você, quando cheguei naquele hospital, ou ainda essa noite inteira sem saber como ou onde você estava? – havia uma urgência em sua voz que beirava ao desespero — Não menospreze meus sentimentos, Felicity.
— Desculpe-me. – fugi de seu olhar intenso.
— Pelo o quê? Por ser importante para mim? Nunca se desculpe por isso. – foi resoluto.
— Mas são tantas coisas pelas quais eu deveria me desculpar... – suspirei, caminhando para longe dele e escutando-o amaldiçoar minha distância. Por que era sempre assim entre nós? Tudo tão intenso? Não poderíamos desacelerar? Viver sentimentos medianos para variar um pouco? — Sua vida seria muito mais simples sem mim. – Eu disse, sabendo que estava de costas para ele.
Houve um longo silêncio. E então o som de passos lentos.
Oliver estava atrás de mim.
Ele não me tocava, mas sequer precisava.
Eu sentia sua proximidade, sentia o calor emanando do corpo forte atrás de mim. Sentia seu cheiro, tão viciante. Sua respiração tão próxima a minha orelha enviando ondas de um conhecido desejo.
E então houve a sua voz.
Sussurrando todas as palavras certas, e derrubando-me com elas.
— Minha vida não teria sentido nenhum sem você, amor. – sua honestidade crua e tão cheia de sentimentos me pegou desprevenida. Bem como o doce apelido pelo qual ele havia me chamado “amor”, ele havia o dito outras vezes, mas conscientemente eu tentei ignorar. Abaixei o rosto e discretamente levei uma das mãos afastando uma lágrima que teimosamente tremulava na extremidade do olho, desejando tão desesperadamente cair.
Lágrima estranha essa.
Quase feliz pela declaração de Oliver. Quase. Não porque eu acreditava que ele estava mentido, mas exatamente pelo oposto. Como eu poderia ser feliz sabendo que minha presença em sua vida trouxe mais tristezas do que alegrias? Mais confusão do que calmaria?
Não era suposto que o amor trouxesse coisas boas?
Eu poderia lhe dar tantas respostas diferentes.
Eu poderia dizer-lhe que eu não mudaria nada em nossa história, mas eu estaria mentindo. Eu mudaria tudo, exceto por aquele momento, aquela única noite em que lhe dei meu coração, e que hoje, depois de tantos desencontros, tanto esforço para não sentir o que sentíamos, eu começava a aceitar que talvez Oliver tivesse me dado o seu também.
Eu poderia agradecer.
Poderia me desculpar também.
Ou apenas ser honesta e dar-lhe tudo. Tudo o que foi aprisionado dentro de mim por tanto tempo, todos os sentimentos que pensei ter sufocado até a morte quando pensei que não tinha um coração. Todos aqueles sentimentos que Oliver libertou e então cuidou deles, fazendo-os crescer e se apropriar de cada parte de mim.
Mas dentro da sala de uma penitenciária, com um guarda esperando para me levar de volta a minha cela, não era a hora certa para falar sobre nós.
Nunca era a nossa hora.
Talvez ela jamais chegasse.
— Estamos ficando sem tempo. – Senti a mudança imediata em sua postura enquanto ele dava a volta e em um piscar de olhos ele estava a minha frente. Ombros caídos, olhos tristes e ao mesmo tempo tão cheios de raiva contida ao encarar pelo vidro o guarda parado a porta, novamente fazendo um sinal indicando tempo. Esperando apenas por nossa despedida.
Ambas as mãos de Oliver se colocaram ao redor do meu rosto, as pontas dos dedos longos afundando entre os fios de cabelo embaraçados, provocando um arrepio bom que percorreu por cada parte do meu corpo.
— Hey, olhe para mim. – nem percebi que havia fechado meus olhos para concentrar todos os sentidos em seu toque quente, me deleitando no calor, guardando as sensações na memória como se pudesse usar as lembranças como um cobertor para o frio que viria logo em seguida, quando eu o perdesse. Porque eu sempre o perdia. Abri meus olhos, não para obedecê-lo, mas porque seria um sacrilégio perder a chance de me permitir mais uma vez me afogar no oceano azul que havia ali. Eu perderia seus olhos também. — Vai chegar o dia em que teremos todo o tempo do mundo, e quando esse dia chegar não vai haver mais mentiras, não vai haver prisão física ou criada por nós mesmos que me mantenha longe de você. Nós pertencemos um ao outro, e eu vou lutar por você até depois do fim, amor. – forcei um sorriso, eu não sabia se Oliver estava sendo um sonhador ou me jogava palavras à esmo apenas para me deixar esperançosa. Mas suas palavras fizeram efeito, mais do que isso, fizeram um caminho direto para o meu coração. Amor. Era isso o que éramos um para o outro? Seus lábios encostaram-se quentes e macios sobre a pele da minha testa e se demoraram ali por longos segundos.
Meu corpo inteiro sentiu seu beijo.
E mesmo quando seus lábios se afastaram da minha pele, eu o sentia cravado ali. Como se distância não fosse um problema insuperável, como se os muros da prisão não fossem intransponíveis. Por que Oliver estava comigo.
— Pense nesse um dia. Viva por esse um dia. Lute por esse um dia. – ele reforçou já a porta, os olhos nunca me deixando. Havia mais em seu olhar do que palavras poderiam expressar.
E então, quando ele partiu, quando meu tempo com ele foi encerrado, eu me agarrei as suas palavras e promessas de “um dia” e me permiti sonhar, depois de anos esperando pelos pesadelos que vinham todas as noites, me atrevi a querer um sonho bom. A querer mais tempo. Não apenas com Oliver, mas tempo para mim.
Para finalmente viver minha vida.
Viver por esse um dia.
Lutar por esse um dia.
Acho que este era um daqueles momentos decisivos em que o herói se encontra no fundo do poço e descobre que tem asas para sair dele.
***
Oliver Queen
Chutei uma pequena pedra contra o portão de metal. Um pequeno protesto em comparação a grande indignação que eu sentia.
Foi um sacrifício deixá-la.
Ainda mais quando Felicity era uma verdadeira confusão emocional. Eu vi o alívio em seus olhos assim que ela olhou para mim, mas vi também a incerteza e o medo. Já não estávamos bem antes. Foram muitas mentiras. Erros que não poderíamos simplesmente apagar das nossas vidas. Um tempo perdido para o qual não poderíamos mais retornar e fazer tudo diferente. Eu gostaria de ter estado lá para ela nos seus momentos mais tristes. Gostaria que pudéssemos ter a chance de refazer nossos passos em direção um ao outro ao invés de virar as costas e seguir por caminhos diferentes. Mas como Thea havia me dito, nosso passado não nos define, mas sim nossas escolhas.
Nós poderíamos fazer diferente dessa vez.
Ainda tínhamos uma longa caminhada pela frente, mas eu gostava de pensar que estávamos começando a enxergar o outro, e a entender onde falhamos. Não podemos mudar o passado, mas sempre podemos moldar nosso futuro. Juntos.
Ainda não.
Não quando a vida insistia em nos separar, colocando obstáculos tão sólidos como este.
Eu olhava para o prédio a minha frente odiando os muros de pedras, as janelas com grades de aço e as altas cercas elétricas que faziam do lugar um verdadeiro fort. Excelente para manter criminosos longe da sociedade, mas agora tudo o que eu enxergava era o conjunto de paredes que nos mantinham separados.
Não por muito tempo.
Retirei o celular do meu bolso encarando novamente a mensagem de Tommy. Eu a havia recebido há cinco minutos e ainda não tinha conseguido assimila-la direito. Chame-me de excessivamente cauteloso e supersticioso, mas eu não gostava da ideia de comemorar algo antes de ter certeza. Atraia a má sorte, e eu precisava de toda a sorte do mundo para conseguir Felicity de volta.
E além disso, eu não suportaria me encher com esperanças para logo depois perdê-la.
Eu precisava sair agora.
Mas meus pés se recusavam a partir, como se soubessem que uma parte vital de mim havia ficado lá dentro com Felicity.
Meu habeas corpus seria julgado em menos de um par de horas do outro lado da cidade. Eu deveria me preparar, descansar um pouco porque os efeitos de uma noite em claro começavam a cair sobre mim. Mas eu me tornei incapaz de fazer qualquer coisa. Eu precisava vê-la. Falar com ela. Tocá-la. E agora que o fiz, eu não conseguia ir embora.
Como andar pelas ruas sabendo que meu coração estava preso?
— Oliver Jonas Queen. – Meus pensamentos foram invadidos com o chamado. Eu não precisei desviar meu olhar em direção à voz para descobrir a quem ela pertencia. Eu reconheci facilmente o tom profundo e leve ar debochado que acompanhava o meu nome. — Já está fazendo visitas íntimas? – Um riso rouco seguiu logo após a pergunta. Contei mentalmente até dez, me preparando para o embate.
Virei-me encarando o responsável por colocar Felicity aqui.
Suas costas estavam apoiadas contra o muro, braços rentes ao corpo com mãos escondidas nos bolsos e uma das pernas dobradas, dando-lhe um ar despreocupado. No meio do sorriso pendia um cigarro já pela metade. Eu o odiava com uma fúria, que até então era desconhecida para mim. Apenas em vê-lo meu cérebro era preenchido por um sentimento primitivo que gritava: ataque! E todo o meu corpo preparava-se para aquilo. Precisei evocar todo o meu autocontrole e me lembrar de que agredir um juiz era um crime, e que isso complicaria ainda mais a vida de Felicity. Se não fosse por ela, eu não me incomodaria de passar a noite na cadeia.
As consequências valeriam a pena, ao tirar aquele sorrisinho presunçoso de seu rosto e tingi-lo com um pouco de sangue.
— Veio tripudiar? – forcei meu tom a sair controlado, me recusava a lhe dar a satisfação de saber que havia me atingido. — A prisão é ilegal, sabe que no final do dia Felicity estará fora desse lugar. – forcei-me a andar em sua direção, eu não seria intimidado. — Isso é temporário. – estiquei a mão em direção a penitenciária — Todos os seus esforços foram para nada.
— Todos os meus esforços têm um fim em mente. – Slade desencostou do muro, caminhando de maneira estoica até mim. Estávamos cabeça com cabeça agora. — Não é minha culpa se você não consegue ver meu objetivo final.
— Está blefando. – desmereci. – Conheço seus joguinhos e não me assusto com eles, excelência. — não resisti ao sarcasmo.
— Eu não preciso desses joguinhos. – Ele tragou o cigarro, jogando pacientemente a fumaça para o alto e a observando pensativo. — Garoto, eu sei que qualquer advogadozinho de porta de cadeia conseguiria tirá-la daqui em dois dias. – Sim, ele saberia. Slade pode ser um filho da puta, mas ele possuía o conhecimento necessário para organizar a prisão de Felicity, nestes termos, não iria levar a nada.
— Qual é o ponto então? – O que ele queria que eu não conseguia ver? — Provar que tem pessoas sob seu poder? Que pode contornar a lei ao seu favor? Eu já sei o tipo de pessoa que você é Slade, não preciso de provas.
Ele apenas gargalhou.
O som era cru, algo entre um grasnado rouco e a risada de um psicopata.
— Você me compreende mal, Queen. – a mão que não estava ocupada com o cigarro se apoiou sobre meus ombros, e sorriu largamente como se fôssemos velhos amigos — Eu não sou dado a exibicionismos, eu não preciso inflar meu ego provando-lhe nada. — Não, ele não precisava de nada disso. A constatação disso começou a me deixar ainda mais nervoso. — O que eu queria era tão simples? Não percebe? – atiçou-me.
Slade queria que eu perguntasse diretamente. Mas eu não precisava de perguntas. Não quando eu via em seus olhos que o que ele queria não era bom.
Não poderia ser, se ele estava contente, era algo sórdido.
— Você não se importa com quando ela vai sair, um dia ou dois, não faz diferença. – um medo frio percorreu minha espinha a medida que me dava conta de quais eram os seus objetivos. — Porque só precisava que ela entrasse.
Slade me congratulou com um leve assentir de cabeça.
— Eu sou um juiz influente e sua garota está na minha lista negra... – começou a explicar, não que ele precisasse, apenas gostava da ideia de me atormentar com as possibilidades. De todo modo, sua voz era como um sussurro longínquo tentando chegar até mim. Eu estava doente, sentia meu estômago revirar, o coração acelerar... Felicity estava lá dentro, cercada de pessoas perigosas que adorariam fazer um favor para um juiz em troca de uma redução de pena. — ...Qualquer um que queira, digamos, um favorzinho meu, vai tentar fazer algo para me agradar. — Slade deu uma última tragada no cigarro jogando-o ao chão e pisoteando-o com cuidado.
Senti um rápido alívio quando a pressão de sua mão deixou meu ombro e ele me deu as costas, caminhando para longe de mim. Eu precisava segui-lo, precisava saber exatamente o que ele planejava fazer. Precisava pará-lo. Precisava tirar Felicity daquele lugar, que nada mais era do que uma elaborada armadilha, antes que fosse tarde demais.
O que diabos eu faço primeiro?
Foque-se Oliver!
Mas eu estava atordoado demais para conseguir raciocinar com clareza. Minha mente era um filme de terror reprisando as piores cenas do que poderia acontecer com Felicity.
Por que ele fazia isso?
— O que você ganha com isso? – gritei a pergunta quando Slade já estava abrindo a porta do carro.
— Não é sobre o que eu ganho, Queen. – olhou-me por cima dos ombros, novamente o sorrisinho presunçoso estava lá. — É sobre o que você perde.
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