Guiados pela lua
1 Batidas à meia-noite
Notas iniciais
Já era quase uma da manhã quando escutei as três batidas na porta, meus tios estavam dormindo, não queria acorda-los então eu mesmo atendi. Desci as escadas, o frio estava horrível, e eu descalço com um samba-canção e uma blusa esfarrapada por cima; abri a porta e fiquei chocado quando vi Bianca cambaleando na minha frente, suas roupas estavam um pouco rasgadas e ensanguentadas, seu pescoço estava estraçalhado, a cada pulsar uma jorrada de sangue escorria pelo seu corpo, seu rosto estava virado para baixo, quando o ergueu e me viu não sei quem estava mais espantado.
–Daniel me deixa entrar- eu não conseguia me mover, estava paralisado, o máximo que consegui fazer foi soltar um gruindo meio animal e estúpido, que ela entendeu como um sim
– Bi.....an...bi- em minha cabeça tinha um turbilhão de perguntas, mas as palavras não saiam, até que rapidamente criei fôlego para berrar uma única palavra
– QUÊ??
– eu...- Bianca parecia estar confusa, olhava para os lados a procura de algo, sua respiração estava aflita e não parava. A cada movimento seu pescoço e os cortes em seu braço sangravam, tinha que fazer-la parar de se mexer, agarrei-a pelos cantos do rosto e a forcei para ficar cara a cara comigo
– calma Bianca- seu rosto estava virado para mim, mas seus olhos procuravam ao redor, se reviravam em movimentos quase impossíveis- Bianca olhe pra mim- minhas palavras estavam saindo surpreendente calmas, isso é um bom sinal?
– Daniel- Bianca virou seus olhos loucos para mim, reuniu fôlego com muito esforço e suspirou ofegante- Lobo- seus olhos começaram a se desviar dos meus, estavam olhando para o nada, porém ainda estava viva.
Eu estava em desespero, o suor frio corria sobre minha pele e um arrepio subiu pela minha espinha, o sangue de Bianca estava em minhas mãos, roupas, cabelo, chão, quase tudo, a minha reação foi a mesma de uma criança desesperada perdida num parquinho.
– TIO, TIA!!!- comecei a soluçar.
Os dois desceram mais rápido do que se possa imaginar, olharam pra mim assustados e eu apontei Bianca; minha tia segurou um berro e estava começando a gritar em silêncio enquanto meu tio olhou pra mim com cara de "que porra é essa Daniel"
– tio, ela.... Ela apareceu aqui assim e ...
– suba para o seu quarto Daniel- meu tio estava sério enquanto minha tia pegava na prateleira a caixa de curativos
– mas tio e a Bianca?
– VÁ AGORA!!- ele ficou irado, dava pra ver veias saltando de sua testa, subi as escadas como um submisso, cabisbaixo e apavorado, entrei no meu quarto e deitei na cama ainda cheio de sangue.
Meu tio sempre me tratou como um errado, sempre obedeça as ordens do seu tio, por mais que ele esteja errado, ele está certo, qual é Daniel, você já é bem crescidinho para poder saber o que você está fazendo..... Menos com relação a Bianca. Teria ela morrido ali mesmo em seus braços? Não! Não podia ser isso, ainda está viva, e amanhã quando eu acordar vou ve lá no balanço de pneu perto do rio como sempre. Não e verdade, não posso ficar me enganando, Bianca foi atacada por um..... Por um... lobo, como isso é possível? Bianca é a melhor caçadora da região, atacada por um lobo?
À noite não poderia passar mais de vagar, eu deitado na minha cama sem poder fazer absolutamente nada com relação a minha melhor amiga, com meus tios fazendo eu sei lá o que com ela, só consegui dormir com o cansaço das 5 da manhã.
Desci as escadas e ainda havia sangue em todo corrimão, nos degraus e nas paredes. Cheguei a sala; a mesma situação da noite passada, não sei porque ainda sentia o cheiro de sangue de Bianca, aquele cheiro de gosto metálico.
Ajoelhei-me perto do sofá marrom e sem graça, bem a cara da minha tia, e peguei o pequeno cordão de prata que estava arrebentado no chão, era o colar favorito de Bianca, ela usa dês de que eu a conheci pela primeira vez na pré escola, quando começamos a brigar pelo último pedaço de bolo de cenoura na cantina, no final ela me bateu e nós fomos para a diretoria, foi lá que viramos melhores amigos.
Escutei passos pesados na escada, passos que só uma pessoa poderia dar, passos que sempre me causaram enjôos
– Daniel o que você está fazendo aqui em baixo?- meu tio é sempre tão doce é adorável como um hipopótamo paralítico dançando balé- eu mandei você ficar no seu quarto!
– sabe tio, existe uma necessidade na vida chamada comer, e você deve saber muito bem disso- pronto me fudi, três coisas que você não pode fazer com meu tio, primeiro não desobedeça ele, segundo ele sempre está certo, terceiro nunca faça menção a seu peso ou fale da quantidade de costelas de porco que ele tem no prato
– Daniel seu imundo burro e ingrato, suba agora e se eu sentir o seu cheiro de merda em qualquer instante você vai levar uma surra- ele me ignorou e foi pra cozinha, mas hoje não, hoje não ia aguentar desaforos desse velho gordo moribundo
– tio, agora você vai me escutar!- meu sangue estava fervendo- aguentei tudo o que você falou pra mim até agora, durante toda minha vida, a única coisa que você me causa é nojo e repugnância, você é incapaz de ouvir, de entender o que os outros falam, o único burro que tem aqui é você!- podia ter parado, mais meus nervos estavam a mil, anos de opressão e agora uma única oportunidade- E não ouse dizer o que eu devo fazer, principalmente quando se trata da minha melhor amiga, não quero que você encoste mais um dedo nela- minha respiração estava ofegante, quente, cheia de raiva, senti meus olhos queimarem e meu tio me olhava com espanto..... Espanto não, decepção e nojo
– Daniel...- ele disse tão calmo que me arrepiei- SAIA DA MINHA VISTA AGORA SE NÃO EU VOU TE ARRANCAR A PELE COM A CINTA SEU BASTARDO INGRATO!!!
Ele gritou tão alto que meus ouvidos chiaram depois que tudo ficou em silêncio, minha tia desceu as escadas apavorada e ficou olhando para mim, novamente, olhar de nojo e decepção. Ótimo, ele queria que eu saísse da vista dele? Eu ia desaparecer.
Subi para meu quarto, devagar, encarei minha tia e pela primeira vez meu olhar foi mais frio que o dela, consegui ver o medo exalando, o suor na sua testa, seu coração batendo tão forte que até o meu tio deve ter escutado. Terminei meu trajeto, entrei no quarto, calmamente fechei a porta e a tranquei, agora o tempo tinha parado, eu estava no meu mundo, eu ia criar meu próprio mundo.
Abri o armário, tirei tudo que precisaria, malas pequenas, coisas úteis, uma pequena espingarda de caça, canivetes, lembranças boas da minha vida e coisas do tipo; e voltei a guardar as malas, agora cheias, no armário. Olhei me no espelho, era isso que eu ia fazer, mas e Bianca? Ela ainda estava em casa? Já tinha ido embora? Morreu? Não, improvável, impossível, nunca.
Esperaria a noite cair para fugir, o relógio parecia não andar, pensei em sair do quarto mas logo me veio aquela ânsia de que não era uma boa ideia, mas precisava ver Bianca, precisava ter certeza de que ela estava bem, de que os longos cachos castanho escuro ainda estariam com aquele brilho especial, que seu sorriso branco ainda estaria inteiro, seus olhos negros e profundos ainda seriam misteriosos e divertidos, como sempre foi, como sempre é, como sempre será.
O relógio apontava 5 horas, mas pareciam dias, porque quando você quer que o tempo passe mais rápido ele passa mais devagar? Essa lógica da vida adora brincar com a minha cabeça. Não aguentava esperar, virei com cuidado a maçaneta para que não fizesse barulho. Coloquei o olho para fora e espiei... Absolutamente nada, também não ouvi nada, eles saíram? Talvez, mais provável que estejam no celeiro fazendo coisas de tios malignos, tipo arrancar dentes de crianças inocentes por terem dado laxante para a vaca sem querer, a final, dar água ou laxante tanto faz, a vaca vai cagar do mesmo jeito e vai feder do mesmo jeito.
Sai tranquilo nos corredores, até ver as marcas de sangue no piso, comecei a segui-las. Óbvio, por que não pensei nisso antes, o quarto de hóspedes, abri a porta e a cama, pra variar, estava com sangue, tudo tinha sangue, mas Bianca não estava lá. Me decepcionei, a porta se fechou sozinha, tive um calafrio, olhei para trás, nada nem ninguém, sinceramente naquela hora, vou falar a verdade, meu cu fechou; estava com medo e suando frio.
Eu sabia o que eu precisava fazer, mas não queria. De vagar, minha cabeça foi se virando para cima, mais um pouco, mais um pouco, mais um pouco e uma rápida olhada para o teto. Do canto superior da porta eu vi um vulto no teto, ele se jogou pra cima de mim, eu tentava gritar mas uma mão tampava minha boca.
Minha visão estava embaçada, enquanto eu tentava saber o que tinha me apanhado meus olhos se encontraram com um olhar amarelo vibrante, um amarelo profundo e misterioso, um amarelo divertido e assustado. Parei de me debater e a mão me deixou respirar, me sentei no chão ofegante enquanto lá estava ela, com uma camisola branca estranha da minha tia, sentada nas próprias pernas olhando pra mim, ficamos nos encarando por um bom tempo, eu não sabia o que fazia primeiro, se a abraçava e agradecia por estar viva ou se perguntava o que tinha acontecido
– Daniel- a voz dela saia oscilante- Daniel me tira daqui
– o que aconteceu- eu estava chorando- Bianca você está viva, está bem- e sem nenhum arranhão, cadê o corte em seu pescoço por onde saía tanto sangue ontem à noite? Pensei, só pensei, não sei se as palavras sairiam se eu falasse, não sei se seria o memento certo pra perguntar isso
– Daniel, muitos lobos, eu tentei, eu juro que eu tentei mas...- ela começou a chorar, eu não sei o que fazer em momentos como esse, ela nunca chora, ela sempre me confortou, eu nunca confortei, só fui confortado; mas estava na hora, devia tanto a ela
– ei, não chore- nossa que resposta criativa Daniel, muuuito bom- eu sei que você tentou, vai ficar tudo bem- abracei-a e a apoiei em meu ombro, como geralmente ela fazia comigo, acariciei seus cachos e senti meu ombro ficando quente e úmido de lágrimas
– Daniel me tira daqui- ela falou ainda aconchegada no meu ombro
– eu vou fugir hoje a noite, você consegue esperar?- ela balançou a cabeça de um lado para o outro
– tem que ser agora, seu tio, sua tia...- começou a soluçar.
O que aqueles hipócritas sem coração fizeram com a minha Bianca, minha única família, minha única lembrança boa, eles mexeram com tudo, eles bagunçaram tudo, e eu juro que vou foder com a vida deles, eles não perdem por esperar.
Bianca estava andando bem de mais pra quem sangrou mais do que as reservas do próprio corpo. Andamos em passos leves até meu quarto, e eu o tranquei. Era a primeira vez que alguém entrava no meu quarto, era tudo meio.... Exótico.
Peguei um jeans que estava pequeno em mim, mas que ainda usava porque meu tio se recusa a comprar roupas pra mim; falei para Bianca colocá-lo junto a uma camiseta minha, uma de banda que também estava pequena. Me virei para começar a arrumar outra mala com mantimentos e coisas do tipo, voltei o olhar para Bianca e ela já estava pronta, parecia um menino bem magro e meio baixo, as roupas estavam largas nas pernas e na barriga, mas suas partes femininas é o que mais destacavam, eu já estava acostumado, a final, pra quem não tem sunga nem biquíni o jeito é nadar de cueca calcinha e sutiã mesmo, mas não dava pra não reparar nos seios enormes que surgiram como uma passe de mágica entre um verão e outro.
Sentei-me na cama, apoiei os cotovelos nas coxas e massageie as têmporas, estava com uma dor de cabeça horrível. Senti a cama afundar de leve, ergui a cabeça e olhei para o lado, Bianca estava me encarando com seus olhos agora negros
– Dani- ela sempre me chama assim quando vê que eu estou triste- vai ficar tudo bem, só precisamos sair daqui o mais rápido possível.
Ela se aproximou, encostou levemente sua testa na minha e fechamos os olhos por um curto tempo de silêncio, fazemos bastante isso, é calmante e nos ajuda a focar no que estamos fazendo ou no que vamos fazer
– Bia, nós vamos sair daqui agora- voltamos a nos encarar e ela fez um gesto de sim com a cabeça
A coisa mais fantástica da casa dos meus tios era que você pode sumir por dias e ninguém vai notar nada, era só você pular da sacada para a trepadeira da parede do lado de fora, depois de umas caídas e uns cortes você pega o jeito; e lá fomos nós, dois loucos grudados numa trepadeira com mochilas e cobertores.
Bianca desceu primeiro, fantasticamente bem e ágil, e eu.... Digamos que graças aos meus anos de treinamento em descida de trepadeiras não passei um mico muito grande. Finalmente consegui descer com a agilidade de um gato morto, e assim seguimos nosso caminho passando pelo celeiro e chegando perto da cerca que dividia a propriedade com uma florestinha, parei e olhei para trás, era um adeus, a melhor de todas as despedidas que eu já tive, estava no meu caminho de ser livre, vivendo meu destino, escrevendo minha própria história, e outras frases genéricas de inspiração e liberdade
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