Guiados pela lua

2 Perdidos na floresta


Notas iniciais
É um capítulo mais curtinho e mais light, espero que gostem

Acordei com uma gota de água caindo no meu olho, pisquei algumas vezes e voltei a dormir. Novamente uma outra gota de água caiu no mesmo olho, decidi deixar ela ali mesmo, não ia morrer por causa uma gotinha de água
– Danieeeel...- a voz de Bianca era como um sonho, estava com um tom alegre, divertido e melodioso- Daaaniii hora de acordar
Eu grunhi como um bicho fazendo um som de desconforto
– Bianca, agora não, mais uns 50 minutos
– temos que ir Daniel, temos um longo caminho ainda
– um longo caminho?- eu ainda estava de olhos fechados e deitado
–uhum- ela afirmou melodiosa sem falar nada
– pode esperar 50 minutos- conclui, me virei do outro lado, me aconchegue e voltei a tentar dormir
– péssima escolha Daniel- um balde de água fria caiu no meu rosto molhando todo o cobertor e minhas roupas
Eu rapidamente abri os olhos e me sentei, meus olhos se moviam desesperados até que encontraram os de Bianca, brilhantes, felizes, nem parece que estava quase morrendo ontem
– bom dia flor do campo- ela se virou e começou a andar em direção às mochilas
– sua macaca de bigode- foi disso que eu a chamei quando brigamos pela primeira vez, e meio que virou um apelido carinhoso
– viadinho campestre- e esse é o meu apelido, ela diz que combina muito comigo
Olhei para cima e a folhagem das árvores tampava a maior parte dos raios de sol. Me levantei, tirei minha blusa ensopada, a torci e comecei a chacoalha-lá para cima e para baixo tentando tirar aquele restante de água persistente
– ei ei, para com isso- Bianca estava tampando o rosto
–parar com o que? Com isso?- estava me divertindo, comecei a chacoalhar mais forte e a chegar mais perto de Bianca
–não vai me obedecer?- Ela agarrou minha camiseta, passou o pé por trás da minha perna e me empurrou, cai de bunda no chão e fiz uma careta de bravo que ela replicou mostrando a língua, assim nos dois rimos
Era tão divertido ficar com ela.

Estávamos no meio da floresta, caminhamos a noite inteira até não sabermos mais aonde ir. Segundo Bianca poderíamos ficar na casa de seus primos que fica em algum lugar perto do litoral, parece ser algum tipo de casa de floresta perto da praia, ela me disse que quase toda a família tinha descendência indígena então eu acho que eles gostam de sentir aquela vibe de natureza, tipo meio grunge, hipster, hippie, a sei lá, eles gostam de árvores.
Nós estávamos prontos, malas, cobertores, espingardas e lá fomos novamente a caminho de uma praia desconhecida, numa floresta desconhecida, com gente desconhecida, por um caminho desconhecido, porra Daniel, você sabe muito bem como se manter em segurança.
Caminhamos durante umas três horas, paramos, descansamos e voltamos a caminhar. Meu coração estava batendo muito forte, minha respiração ofegante e minhas pernas doloridas. Achei incrível como Bianca mantinha seu ritmo firme e constante enquanto o viciado em batata frita aqui estava quase caindo no chão e derretendo, suando que nem um porco selvagem numa sauna.
Acho que já era quase meio dia, o sol estava mais quente e no seu auge, a floresta começou a ficar abafada, sabe aquele momento que você meio que escuta o som da natureza? Tipo uns bichinhos zanzando, umas cigarras cigarreando ou aqueles malditos mosquitos que vem zunir no seu ouvido e você se arrepia?
Precisávamos parar e comer, eu precisava parar e comer porque se dependesse de Bianca andaríamos até chegar no nosso destino. Ela se virou para mim e eu estava tentando decifrar sua expressão
– ta tudo bem ai atrás?- ela zombou e parou de andar para que eu a alcançasse
Eu parei ao lado dela, coloquei as mãos nos joelhos e virei o rosto para cima de modo que pudesse ver seu rosto vitorioso
– vamos dar uma pausa?- eu sugeri ofegante
Ela virou os olhos de modo brincalhão
– podemos ficar perto do rio
Eu a olhei com aquela cara de do que é que você está falando menina. Ela andou uns 5 metros se desviando da trilha e eu a segui, paramos na frente de duas árvores entalhadas com um pequeno X e logo já comecei a escutar o som de água corrente; ela abriu caminho dentre uma grossa camada de arbustos e cipós
– primeiro os molengas- ela disse fazendo uma reverência indicando o caminho
Eu poderia ter retrucado mas estava com sede e com fome, precisava me sentar, relaxar, descansar, beber água e comer. Comida primeiro, vingança depois.
Segui um pequeno caminho incômodo de espinhos e mato, você deve estar pensando, Daniel você reclama de mais, se você estivesse no meio do mato sendo arranhado, picado por pernilongos, com fome e sede, suando e morrendo de cansaço, cofie em mim, você não ia querer.
Finalmente cheguei perto de um rio, minha primeira reação? Eu sentei, abri minha mochila e peguei uma pêra, a melhor pêra que eu já comi.
– gordo só sabe fazer gordice mesmo- Bianca chegou intacta e sentou-se do meu lado- me passa o presunto
– depois eu sou o gordo- levantei uma sobrancelha enquanto entregava o presunto. Ela me mostrou a língua.
Comemos em silêncio absoluto, só se escutava o barulho de pássaros, insetos distantes, graças a Deus; e do rio. Pelo jeito ela estava com tanta fome quanto eu; entreguei-a uma peça inteira de presunto e ela comeu tudo, ótimo, estávamos sem presunto.
Quando paramos de comer começamos a nos encarar, sem dizer nada. Ela apertou os olhos e eu fiz o mesmo aceitando seu desafio
–1...- ela contou e nós ficamos de pé
–2...- começamos a tirar os sapatos e a calça
–3...- nos apressamos e tiramos a blusa
– já!- eu gritei e nós dois corremos como dois loucos em direção ao rio, dessa vez Bianca foi mais rápida, ela sempre foi, mas hoje estava surpreendente veloz. Eu escutei seu corpo colidindo com a água e logo em seguida o meu, ela emergiu e respirou fundo
– ganhei, pra variar um pouco
– ganhou o cacete, você trapaceou- estávamos rindo e ela pulou com tudo em cima de mim
– larga de ser orgulhoso, eu ganhei! Você sabe, eu sei, e o mundo irá saber de como eu sou vitoriosa
Eu parei de me mexer e fiquei estático, ela também parou e olhou nos meus olhos, seus olhos eram tão negros que refletiam o azul claro da água misturados com os meus cinzas sem graça
– Dani, ta tudo bem?- ela me olhava preocupada
– o mundo nunca irá te conhecer se você não existir mais- eu a abracei e mergulhamos juntos na água, ela conseguiu se soltar e me deu um cascudo sub-aquático, eu me debati tanto que ela me soltou e voltamos para a superfície
– pediu penico- ela falava respirando rápido
– que nada, eu e minhas habilidades conseguimos te vencer — começamos a rir e depois de um tempo a risada parou e tudo ficou novamente em silêncio. Bianca começou a boiar de olhos fechados deitada na água, decidi me aproximar
– olha como esse lugar é gostoso- ela fala abrindo os olhos- poderia ficar aqui para sempre
Olhei em seus olhos, estavam quase sem expressão enquanto fitavam o céu e sua respiração estava lenta e calma
– vai ficar tudo bem- não sei com o que Bianca estava tão preocupada; ela é basicamente um espírito livre, vivia no clã de caçadores junto ao seu pai, depois que ele foi numa caçada e não voltou depois de 3 anos, o consideraram como morto e a partir daí Bianca foi criada parte da vida com os primos, nas férias da escola e feriados; e a outra parte com os caçadores, podia sair quando quiser, voltar quando quiser e fazer o que quiser; sinceramente nunca pareceu triste pelo desaparecimento do pai, ela ainda acredita que ele está vivo.
– é bom escutar você dizendo isso- ela se pôs de pé e nos encaramos, mas dessa vez os olhos dela se ancoraram no meu, ficamos num estado de transe- Tem mesmo certeza que vai ficar tudo bem ou só está dizendo por dizer?
Ela me pegou, nem eu sabia o que estava por vir. Não tive muita reação se não encostar minha testa na dela; estava úmida e gelada, entrelacei meus dedos nas raízes de seus cabelos e acariciei-a enquanto ela fazia o mesmo. Estava respirando calmamente, meus olhos se abriram e encontraram-se com os dela, tivemos a mesma reação, nos envolvemos num abraço apertado, cada vez mais apertado, transmitindo certeza de que tudo tinha de ficar bem

Notas finais
eu não tenho data certa para postar os capítulos então alguns podem demorar um pouco mais para serem publicados