Guerreiros de Gáler
15 O Portão de Água
Notas iniciais
Ao longe podiam ver a vastidão do mar e ficavam se perguntando até onde ele iria, e o que teria além dele. Eram jovens, e eles não tinham muito conhecimento sobre o mundo o externo ao que era protegido por Madros, mas sabiam que além mar teria muitas outras terras, e logo a indagação tomou conta de suas mentes. Será que Netus, o difamador já havia conquistado tais terras?
— Vamos Táro, chega de ficar emburrado com o passado. O que aconteceu permanece lá.
— Acredito meu amigo, que não seja tão simples quanto suas palavras tentam torná-las. Estou pensando no Jhuan deve ter contado a Madros, você sabe o quão ele aumenta uma história, temo que não tenha contado tudo o que de fato aconteceu.
— Madros é astuto, sabe muito bem quem mente ou aumenta uma história, não deveria se preocupar com isso agora.
— É quase impossível. Dos três deuses, já encontramos dois, o último está quem sabe a nossa frente, logo teremos que retornar com eles às terras de nosso senhor e terei que prestar contas sobre o ocorrido.
— Você mesmo disse que sabia o que estava fazendo Táro, não deveria se punir tanto. Não mentir que me dá um pouco de medo saber que você pode dar meu coração a um filho das trevas, mas confio em você.
— Não tema, eu não tenho motivo para fazer isso com você, talvez com Jhuan... – Táro sorriu — É um jovem tolo, este Jhuan.
— Talvez ele seja, mas tem seus méritos, no mais, para qual motivo ganharia o nome de Arknat?
— Uma boa pergunta, de fato, Madros deve saber o que faz. – disse Táro descontente.
— Veja amigo, do que Thèro chamou essas terras?
— Acredito que tenha sido de Tráveu.
Eles ainda não sabiam o que Tráveu significava, porém como bons Söllys chegaram a cogitar diversas traduções para tal nome, mas eles não chegavam à conclusão alguma. Talvez seja tal como seus nomes, o qual seu significado seja único e sem tradução aparente. Cada Söllys era responsável em dar-se o próprio nome, pois eram guerreiros e seu nome ecoaria pela historia. No mais, só podiam aguardar o retorno do deus Thèro com alguma novidade sobre o terceiro, e talvez sobre o que de fato o que o motivou a seguir o unicórnio.
Eles não tinham certeza de como seria a guerra, e muito menos de como iriam convocar o exercito se fosse esta batesse a suas costas. Temiam não serem ouvidos ou não terem ajuda, e pior, medo do fracasso. Káros apresentava mais tranqüilidade do que Táro, que andava de um lado a outro impaciente pela demorar do deus, e por vezes dizia que iria até o bosque saber o que estava acontecendo. Mas era barrado por Káros que retorquia suas falas alegando que Thèro havia lhes dado uma ordem, e que não podiam desobedeça-la.
O dia em Tráveu era mais longo do que em qualquer lugar que se tinha conhecimento m Gáler, porém já podiam ver ao longe Sölly se recolhendo, como se fosse descansar no horizonte do oceano. Os jovens se levantaram e apreciaram a bela vista, e a noite que se aproximava que era tão linda quanto em suas terras. Eles se sentaram e apreciavam maravilhados com a vista, enquanto no céu centenas de pontos esfumaçados se criavam. Eram reino ou criados ou em sua formação, que traziam suas luzes para o seu mundo. No entanto, a fome começou a se instalar em seus pensamentos, e fazia muito tempo que não tinham um jantar decente, regado com carne de porco e ensopados, bolos de carne e vinho. Eram apreciadores desta bebida, e chegavam a tomar litros e mais litros em poucas horas.
— Estive pensando se não seria interessante darmos uma volta pela noite nestas terras e ver se achamos algo decente para comer, que não seja um coelho.
— Coelho? – perguntou Táro — O último, o seu deus nos coibiu em comer. É completamente irritante eles serem tão amantes da natureza, acabam esquecendo da nossa. Estou com tanta fome meu amigo, que comeria um javali cru e beberia de seu sangue sem se preocupar com o gosto, apenas para aproveitar o que este belo animal pode nos oferecer.
— Realmente. Um bom e suculento pedaço de carne grelhada, com ervas verdes das colinas do leste. Saudades da comida de minha amada mãe. – mencionou tristonho Káros.
— Acho que sua idéia faz jus ao nosso apetite, um coelho é melhor o que nada.
Permaneceram por ali durante algum tempo até que Káros se pôs de pé abruptamente, assustando Táro que o seguiu em seu rápido movimento. O jovem Sölly murmurou a palavra unicórnio, pois dezenas deles estavam correndo em sua direção. Logo atrás, uma figura alta, de rocha e desengonçada os seguia, com longas passadas enquanto os unicórnios se entrelaçavam em suas gigantes pernas.
— Ainda estão aqui? – disse Thèro com sua voz altiva — Esse nobre já foi mais eficiente. – disse ele olhando para o mar.
— Senhor Thèro, sinto informar, mas não somos deuses e precisamos nos alimentar. Sentimos fome, e não posso acreditar que o senhor não tenha força para nos dar essa ajuda.
— E espera que eu faça o que jovem Káros? – disse o deus espantado — Acredita que eu irei conjurar javalis para que seu amigo os coma cru e beba de seu sangue? – Thèro olhou para Táro em reprovação — Sou um deus, escuto até mesmo o pensamento mais mundano, jovem regente, e não. Eu não o farei vocês estão na presença de unicórnios, são seres de luz e não podem vê-los comendo de seus semelhantes. Mas é chegada à hora de vocês terem um bom descanso, talvez um pouco mais digno. A jornada de vocês não trouxe nada de confortável. Peço desculpa pela minha rápida ausência, um deles estava passando pela passagem.
— Passagem, meu senhor? – perguntou Káros.
— Ao completar mil anos, estes unicórnios perdem seu chifre, e ganham um presente tão belo quanto. Mas era preciso que eu fosse, pois embora tenha realmente acredito que este velho bobo, que denomina, Nièkor fosse um pouco mais receptivo, no entanto não, ele ousa a ser duro. Aqui esta meus jovens, segurem isso.
Thèro inclinou seu enorme corpo até Káros e entregou a ele um lindo chifre prateado. Os jovens admiraram por um curto período de tempo até que o deus se virasse e fosse até a praia, adentrando cada vez mais o mar até que mais da metade do seu corpo estivesse coberto. Ele esticou os braços e baixou a cabeça e falou em alto e bom tom.
— Nièkor apareça meu bom deus, que sua graça seja apreciada, eu trago um presente das terras que guarnecem o seu reino. – ele se virou para os jovens Söllys na praia descontente – Maldito seja este homem. – tornou a posição anterior — É uma ordem e não um pedido Nièkor, apareça! – e terminar ele jogou um de seus braços ao chão, sendo completamente submergido pela água. Mas algo aconteceu que fez com que os olhos dos Söllys brilhassem.
Logo o mar pareceu se recolher como um leve sono, e a areia molhada se formou defronte aos Söllys. Lentamente um imenso corredor foi se abrindo onde havia água, e o corpo de Thèro pode ser visto novamente de joelhos. Criou-se um imenso paredão de água no corredor e a frente do deus um imenso portão se formou. Respingos desta água encantada caiam na areia e grandes colunas se formavam e no topo do portão, Táro e Káros forçando sua aguçada visão, viram dezenas de homens tão iguais a eles surgiram, com arcos e flechas e lanças empunhadas. O portão pareceu se solidificar, bege como a areia da praia até que pareceu maciça como no castelo de Madros. Ouviu-se uma voz ecoando por detrás da porta, e poucos pelos que os Söllys tinham no corpo se arrepiaram.
— Thèro. – disse a voz.
— Sim, meu nobre amigo, aqui está um presente. Mais um se elevou, e para que não sofram com as atrocidades deste lado, lhe entrego de bom grado. – Thèro indicou com a mão que Káros se aproximasse — Eis aqui o chifre do senhor dos unicórnios, tão puro como esse, não há.
Káros foi à frente, e Táro logo atrás, como sempre muito desconfiado. O presente que Thèro havia dado ao seu Arknat foi elevado ao céu, para que os soldados e a voz misteriosa pudessem ver com mais facilidade. Logo estavam à frente do deus, que se levantou.
— Como podem ver é apenas um presente, meus nobres, e quanto a você, não desdenhe de minha pessoa, e abra esse portão aos meus amigos. Um deles é um pouco imoral, mas sua cidade está cheia deles, não é mesmo? – Táro se sentiu incomodado com o nome que recebeu, mas continuou a caminhar — Dêem abrigo a eles por um ou dois dias, comida e uma cama que possam descansar, voltarei em breve, pois como um ser da natureza, tenho coisas a fazer e lugares para criar e criaturas para cuidar.
Thèro se virou e caminhou até a praia, enquanto os Söllys ficaram a espera que o portão se abrisse, o que não tardou em acontecer. Um forte ranger deu sinal à entrada deles no reino, e eles seguiram, porém a grande porta de água não abriu toda, o que causou certo espanto á Táro, que se sentia constrangido pelo o que o deus de Káros havia dito. Era uma desonra um reino não abrir totalmente suas portas a visitantes, ao menos era isso que os grandes mestres Söllysianos diziam.
À frente eles virão um homem com vestes claras, em espécie de túnica, que parecia desconfortável aos olhos dos Söllys, por ser bem justa. Nelas havia listras ondulares que indicavam a nacionalidade do povo. O homem tinha o cabelo curto em tons avermelhados, e um leve cavanhaque, era esguio e pele muito branca, seus olhos negros como a escuridão que eles tomaram conhecimento há certo tempo, nas terras dos exilados de Netus.
O homem abriu os braços em sinal de boas vindas e sorriu levemente aos jovens e enquanto eles ultrapassavam as portas que já iam se fechando ouviram a bela voz do rapaz.
— Sejam vocês dois muito bem vindos, nobre seres de cima. Sou Ákalás e vocês deslumbram as terras do mar, Iláer! Com quem tenho a honra de falar?
— Sou Káros.
— E eu Táro, ambos somos das terras de Madros.
— Ouvimos boatos sobre estas terras, Maad, estão chamando.
— Maad? – indagou Táro.
— Uma terra sem nome não é uma terra. E até onde soubemos Madros é senhor das terras de Maad, a terra livre.
— Receio que tal nome tenha sido dado recentemente, pois até o inicio de nossa jornada não tínhamos conhecimento disso.
— Claro que sim. – disse Ákalás desdenhoso. — Pois bem, serei seu guia até o castelo do rei, então vamos nos apressar e seguir, pois o caminho é longo e temos muito que conversar.
Ákálas se virou e os jovens o seguiram, olhando entre olhos ora e outra desconfiados. Havia um curto caminho que descia até rochas gigantescas onde havia outra passagem, chamado pelo guia de Corredor da Morte.
— Nome um tão sugestivo, ainda mais para visitantes. – disse Táro.
— Nosso rei é cauteloso quanto à entrada de estranhos, não fechamos o portão para ninguém que tem um presente como o chifre do unicórnio a nos oferecer, mas estamos passando por tempos difíceis então precisamos ter o máximo de cuidado possível. Acima temos arqueiros e lanceiros que protegem a qualquer sinal de traição, nada passa despercebido por seus olhos, já que embora as palavras possam ser ditas, a alma nunca consegue de fato de esconder de sua real natureza. Mas continuem.
Enquanto passavam pelo corredor, puderam ver os soldados esticando suas flechas e apontando suas lanças em sua direção. Táro era o que mais se preocupava, devido a sua natureza um tanto quanto desrespeitosa para os Söllys. O que será que iria acontecer caso fosse atingido? Resolveu não pensar em tal possibilidade, e apenas caminhou até que logo viram o que Ilaér os oferecia. Um lindo reino.
Havia grandes casas de concreto polido, colunas e árvores espalhadas por todo o canto, suas ruelas eram largas e cheio de vida, onde crianças brincavam alegres e jovens bradavam espadas ensaiando golpes antes aprendidos. Ao longe avistaram um enorme mar e a areia da praia brilhava como diamantes. Mais ao canto direito de onde estavam avistaram um gigantesco castelo com uma enorme cúpula verde feito de esmeralda, obviamente o castelo só perdia pela magnitude do castelo de Madros. As ruelas subiam e desciam com o chão feito de cascalho branco, haviam bandeiras postas em todas as partes, com as linhas ondulares representando o povo.
— Pelo visto seu rei nunca mencionou a existência de Ilaér, não é mesmo? – disse Ákálas ainda com o tom desdenhoso — Inacreditável como o filho do seu Sol esconde coisas sobre o mundo externo de Maad de seu povo.
— Talvez se o senhor nos contasse sua historia, possamos ensiná-lo um dia sobre sua existência. – disse Táro. Os três jovens pararam de andar um momento e Ákálas o observou por um breve momento.
— Não foi minha intenção ofender o seu rei, jovem Táro. Apenas lamentamos que um rei com tanta força e dotado de tanto conhecimento nunca tenha nos mencionado. Sabemos que Madros segue ordens, vocês são um povo relativamente novo, comparado a nós Ilaérianos, talvez eu tenha apenas me expressado de forma mundana e respeitosa, peço humildemente, desculpas. E em troca de minha total falta de respeito a seres mágicos, não me chame mais de senhor, aqui temos apenas um e ele deve todo o respeito, não eu. Sou apenas Ákálas, o conselheiro real, e, diga-se de passagem, o único. – o rapaz sorriu ironicamente a Táro — Podemos? – disse ele indicando o caminho com a mão, dando passagem para que os jovens fossem a frente.
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