Guerreiros de Gáler

4 A preocupação de Madros


Notas iniciais
Nota quanto a pronuncia correta de alguns nomes. Lyharianos - Lirrarianos Naeyn - Naein

Eles entraram no grande castelo de Söllaghe, e deslumbraram sua magnífica estrutura, outrora nunca vista por eles, embora eles pudessem até mesmo a grande torre centro do castelo em Aniadu. Ali tudo era mais belo, maior e harmonioso.

Tudo estava preparado para chegada deles. No salão havia grandes fitas penduradas no teto e na imensa escadaria um tapete vermelho. Os guardas reais estavam á postos na parte superior da escadaria, com suas armaduras douradas e capa vermelha. Abaixo, mesas redondas com copos-de-leite no centro enfeitavam o lugar. Abaixo da escadaria outra mesa, esta mais ornamentada com diamantes: era a mesa do rei.

— Não acredito que enfim, vamos conhecê-lo. – disse Káros ansioso.

— Não vejo diferença, Madros não é tão diferente de meu pai. – retorquiu Táro.

— Pode até ser, mas receio que seu pai, Rhamos, não tenha a sabedoria do alto rei. – insinuou Jhuan rindo.

— Todos nós somos importantes meus caros. – disse Anydes vindo ao encontro dos Arknats – Mas Madros é o primeiro e logo, devemos sim honrá-lo.

Os três acabaram por se sentar noutra mesa, em frente a que Madros sentaria, e ficaram apenas esperando algo acontecer. Os regentes se sentaram ao lado deles, e todos aguardavam ansiosos para a chegada de alto rei. Rhamos desceu a escadaria com pressa, e se juntou a eles.

— Ele esta vindo! – disse ele afoito.

Foi então que uma corneta foi ouvida. Um som melodioso e impactante. Ele enfim surgira ali no topo da escada com sua imensa túnica branca, adornada de linhas de ouro e esmeraldas.

— Acreditava que nosso senhor fosse mais velho!

— Não filho, Madros é tão jovem quanto Gáler. – disse Rhamos a Táro.

Todos no grande hall levantaram em sinal de respeito. Baixaram suas cabeças e esperavam que Madros lhes dissesse alguma coisa. O alto rei, ainda descia, quando o sol, através de uma imensa janela no topo se fez brilhar mais, iluminando todo o grande salão.

— Meus filhos! – disse ele — Que bom que todos estejam aqui.

Neste momento todos se sentaram. Alguns guardas se aproximaram do rei, e outro o ajudou a se sentar. Houve silêncio.

— Muito me agrada que os citados dos regentes tenham aceitado esta jornada. No entanto, devo anunciar de antemão a dificuldade que ambos irão enfrentar. São terras inóspitas, onde a luz do Sol ainda não reinou em definitivo. Lugares assombrosos apenas nos sonhos poderão e se tornaram realidade. Netus ainda está criando sua legião de soldados, na mesma velocidade em que nós fazemos o mesmo. Mas tenham coragem e fé, por que vocês são guerreiros, e esta na alma de vocês carregarem tal fardo. Acredito que já sabem o motivo de estarem aqui.

“Três deuses foram criados pelo Divino, e ele deseja testar nossas habilidades antes da batalha contra Netus. A ordem foi dada para que cada Söllys regente anunciasse o seu melhor soldado, para que assim, ele possa se certificar que sua criação já esteja preparada. Justamente por isso, lhes darei presentes, cedidos justamente por nossa luz maior.”

Três belas damas se aproximaram segurando bandejas de pratas. Madros então tirou o pano branco que as envolvia e anunciou.

— Este é para Káros. – era um cajado branco, com uma pedra verde no topo, adornado com diamantes. O jovem se aproximou do alto rei, que entregou o cajado ao rapaz – Soube de suas artes com magia. Far-se-á necessário este cajado, para que possa potencializar seus poderes.

Logo depois ele chamou por Jhuan, e agindo da mesma maneira que anteriormente, entregou ao rapaz uma espada longa e um arco.

— Sua habilidade como guerreiro é notável. – disse ele.

E depois chamou por Táro.

— Meu caro Táro, você é jovem e destemido, no entanto suas ideias ainda precisam se tornar mais coerentes com suas ações. Este livro, fora escrito por mim, em tempos passados, e ele lhe mostrará o caminho a ser seguido, se assim desejado. Mas não será apenas esta arma a sua, também lhe dou esta espada, a mais poderosa dentre as armas, e ela o guiará pelos caminhos escuros. Mas está também não lhe será dada sem este pequeno cajado. Suas habilidades com magia e astucia e pericia em batalha ainda irão vingar. Saberá disso.

— Mas meu senhor eu não me vejo em batalha. – disse ele. Madros o olhou firmemente nos olhos.

— Eu bem sei o que falo meu rapaz.

Táro aceitou os presentes e como os outros, ele retornou a sua mesa sendo repreendido por seu pai.

— Tais armas foram banhadas pela luz do Sol que está no topo de nossa torre. No entanto, protegidas contra as forças negras do Poder Negro de Netus. De nada mais falarei, pois cabe á vocês, a partir deste momento, decidir seus caminhos. Certamente, que se fizer necessário, eu, Madros, estarei com vocês em tempos de escuridão. Sou o primeiro, logo, jamais os abandonarei. Que o Talitin comece.

Ao anunciar esta palavra, as comidas começaram a serem servidas, assim como as bebidas a todos que ali estavam. E não eram apenas pessoas da nobreza. Eram soldados, capitães, comandantes, suas esposas e filhos, parentes próximos e amigos. O salão estava abarrotado de Söllys que comiam e riam felizes, pois sabiam que o dia da batalha estava próximo.

— Não sei se é realmente isso o que eu quero para mim, meu pai.

— Táro, pare de resmungar. Se eu o citei para a exploração eu bem sei dos meus motivos, e confio em você meu filho. E se nosso alto rei aceitou seu nome, é porque ele também confia.

— Mas os Aniaduianos não confiam.

— Eu sou o regente. Você é meu filho. E quanto ao povo de Aniadu não de ouvidos, sabe tão bem como eu que umas das virtudes de qualquer Söllys de nossa terra é não acreditar. Somos trabalhadores, os melhores mineradores do além sul.

— O senhor ao menos comentou com Madros sobre a Montanha Árida? Sobre o que eu vi?

— Mas é claro.

— E ele disse que eu estava louco?

— Apenas disse que nada poderia dizer.

— E o que isso ajuda meu pai?

— A principio, em absolutamente nada. Mas devemos esperar, pois Madros sabe o que faz e o porquê faz. Esteja focado apenas na sua missão. Esta é uma grande oportunidade para você superar seus limites, enfrentar seus medos e amadurecer. Acredita que estarei com você por toda uma vida?

— Não meu pai, e há tempos venho dito que sinto dor nos corações dos Söllys.

— Isso se deve a nova ordem. Madros comentou com a gente sobre perdas, sobre o sofrimento da saudade de amigos e familiares que não vão voltar da guerra.

— Se ele disse, e eu nem ao menos o conhecia, quer dizer que não sou tão louco assim. – disse ele aliviado.

— Está vendo? Deveria acreditar mais em seus sentidos.

A comida parecia não ter mais fim. A cada momento chegava coelhos, porcos, peixes, sucos, batatas, e outras iguarias para alimentar a multidão. Madros estava sentado sozinho na sua mesa se deliciando de belos morangos, mas atento em tudo o que via e ouvia. Ele era o alto rei, logo todos os pensamentos dos Söllys daquele salão passavam por ele.

— Não posso resistir, eu preciso conversar com aquela moça. Viu como ela me olha? Minha senhora? Acho que encontrei meu par, mesmo sem tê-la tocado para saber. – comentou Káros a Anydes.

— Talvez seja meu rapaz. Vá e converse com ela. – disse Anydes, rindo para o garoto – Apenas não machuque o coração da moça, como tem feito com as outras.

Káros se levantou, desviando de um e outro, até chegar perto de uma porta onde a bela donzela estava, toda tímida, o olhando de esguelha.

— Minha bela moça, poderia me dizer como posso chamá-la? – disse ele a cortejando.

— Sou Naeyn, meu caro Arknat.

— Káros, por favor, me chame de Káros... e se possível gostaria de convidá-la a um passeio.

Ele pegou na mão da jovem moça e ambos sairão do salão.

— Essas crianças de hoje em dia. – disse Anydes a Juréd, rindo.

— Vai ficar empacado aqui Jhuan, vá se divertir como faz seu amigo Káros.

— Ele é um bom rapaz meu senhor, no entanto está longe de ser meu amigo. Sem ofensas minha senhora. – disse Jhuan a Anydes – Mas sou desconfiado até mesmo de minha própria sombra.

— Mas claro que é. Um guerreiro não pode confiar nem em si mesmo. – disse Anydes.

Aquela esplendorosa refeição já estava quase ao fim quando as belas Sulknares surgiram cantando e dançando, ditando palavras sem sentido que soavam uma bela melodia.

Não tardou até que Rhamos percebera algo de estranho com o seu senhor. Eles eram grandes amigos, e Rhamos sentia quando seu rei estava apreensivo. Ele se levantou e pediu que um soldado colocasse uma cadeira ao lado de Madros, que tomava suco de laranja.

— Meu senhor, ou melhor, meu amigo... sinto em seus olhos certa preocupação.

— Rhamos, lembra quando éramos mais jovens? Quando eu, mesmo rei, caminhava até Aniadu em sua visita e aquela bela terra, e em sua morada íamos às florestas tenras do sul e observávamos a escuridão?

— Claro! O senhor sempre se perdia em suas visões.

— Pois bem. Eu via o mal tomando conta de Gáler e temia por nosso fracasso, no entanto acredito em nosso senhor, tal como acredito em você, ou em todos aqui.

— Sim, meu senhor, mas ainda não entendo.

— Ser o alto rei traz muitos desafios, e um deles é a certeza do que esta por vir.

— Teme que os Arknats não consigam? Perguntou Rhamos incerto.

— A questão não é exatamente essa. Na verdade, eu temo pelo o que eles vão passar, antes de tudo estourar.

— O senhor poderia ser mais especifico? Somos amigos...

— Meu caro Rhamos, eu acredito nos Arknats, pois eu mesmo estarei com eles, mesmo que em pensamento. Mas acredito que nossa batalha vá além do que mandar Netus ao seu devido lugar. Ao Oncor, mais precisamente.

— Por mais que já falamos sobre isso não consigo imaginar como seja tal lugar. – disse o amigo do rei com o olhar perdido na mesa.

— Trevas. Onde a escuridão é mais angustiante do que a própria alma corrompida. Um lugar com desfiladeiros, montanhas, fogo e criaturas sombrias. Um lugar que causa arrepio ao se chegar a seus portões. Oncor é uma terra isolada noutro lugar tão distante como aquele que o Divino habita que é o seu total oposto. É de lá que Netus vem, é o lugar onde ele comanda, onde ele usufrui dos prazeres da carne e vive em completa ambição.

— Eu ainda não entendo meu senhor. Qual a sua preocupação? O senhor fala, mais ainda percebo que esta sendo vago.

Madros olhou para o amigo, e depois para os Arknats.

— Há dois dias tivemos uma conversa sobre seu filho. Eu perguntei se tinha certeza que seria ele que meu regente gostaria de mandar nessa aventura. Ainda tenho certeza de que seu filho nos trará o sucesso necessário para essa busca, tal como acredito nos outros. Mas receio que ao verem o poder de Netus, alguns deles possam se tornar mais fracos, e talvez sucumbir ao Poder Negro.

— Mas se o senhor vê a fraqueza de alguns deles, porque os envia?

— Por que se faz necessário. O bem não pode existir se o mal não estiver presente nos corações de qualquer ser vivo. Se eles foram citados por livre e espontânea vontade por vocês, é porque o caminho deles deve ser esse. Existe uma lei, que ainda será aplicada a todos, mas que eu já posso lhe dizer: não se pode mudar o destino de ninguém, a menos que o próprio destino abra dois caminhos para serem seguidos. E cada um dos Arknats tem esse destino, e cada um deles, em certo momento abrira um novo caminho. A minha preocupação não é na confiança que eu deposito nesses jovens, e sim que eles possam tomar pelo caminho contrário aquele que deve ser seguido. Eu não sei tudo. Sölly apenas menciona que é algo que vai além até do seu próprio conhecimento. Foi previsto que Lyha surgisse em sua vida, foi previsto a chegada de Netus e lhe foi dado o caminho a ser traçado. Ou ele afastava a sombra e destruía até mesmo sua amada, ou ele deixaria que Netus tomasse conta do mundo, e então ele nos criasse. Ele optou por nos criar e cá estamos nós passando pelas mesmas decisões difíceis que ele.

— Então acredito que o caminho que ele escolheu tenha sido o caminho correto.

— Só saberemos lá na frente. Assim como a minha decisão de enviar os Arknats nessa busca. Estes deuses estão presos em Gáler, o porquê eu ainda não sei, e eu só espero que eles, possam os encontrar antes que Netus se de conta disso. Esta criatura, não define o certo do errado, para ele ambos os caminhos são corretos, mas sua contradição sempre o leva a caminhos mais tortuosos e escuros, e quando ele se da conta, ele causa o medo, a dor, a revolta. Sentimentos não tão inerentes a nós. A única diferença é que ainda não a sentimos. Diferente de seu filho Táro.

— Quer dizer então que tais sentimentos nós não somos capazes de sentir, e meu Táro é o primeiro?

— A sua visita a Montanha Árida e preocupação em mencionar aos outros, quase que suplicando por suas vidas denota isso. Ele tem medo.

— Mas se somos guerreiros nós não poderíamos sentir tal coisa. Não estou certo?

— Somos seres vivos meu caro amigo. Estamos sujeitos a sentir tudo. E no mais do que seria a coragem se não o medo? É através do medo que seguimos em frente, e por sermos guerreiros tentamos combater isso. Mas acontece que ainda não participamos de uma batalha, logo não sabemos o que poderá nos aguardar. Os Söllys desejam essa guerra, mas não se pode ter tanta confiança. Guarde minhas palavras meu caro regente, Gáler ainda passara por muitas mudanças assim como muitos Söllys. Muitas coisas hão de acontecer. Não se esqueça que por enquanto, somos apenas nós. Os Lyharyanos ainda não chegaram.

Por mais que Rhamos tentasse entender tudo o que Madros havia lhe falado, ele não entendia. Eram palavras difusas, sem sentido e complexas. Ele começou a falar das florestas tenras, foi para o Oncor, comentou sobre Netus e a decisão de Sölly. Sobre destino ambíguo. Sobre seu filho, sobre Lyhas. Rhamos acabou por pedir licença a seu rei e amigo, e se retirou do salão. Ficou no Jardim do Sol contemplando a bela paisagem à frente tentando apenas entender.

Ao longe viu Káros, beijando a bela Naeyn.

Anydes se aproximou e olhou seu guerreiro, com lágrimas nos olhos.

– Ah o amor. Doce e gentil amor. – disse ela, se virando e voltando para o castelo.

Mas Rhamos continuou ali por mais algum tempo até que suas pernas se cansaram, e olhando o sol ao longe também resolvera entrar e descansar.

Em Gáler, não escurecia. Embora que, Madros já dissera em tempos não tão antigos, que a escuridão chegaria, mas um tipo diferente de escuridão. Mesmo tentando explica tal informação trouxe grandes revoltas entre muito Söllys.

– Acalmem-se, pois essa escuridão é diferente daquela onde Netus habita. É uma escuridão singela, delicada, nobre. Vocês olharam para o céu e verão muito mais do que o azul. Verão a amada de nosso senhor, brilhar fortemente, com sua luz branca e cintilante. Eu já a vi, e confesso ser uma das mais belas visões que já tive nessa minha não tão longa vida. Ela traz paz, cria paixões e sabedoria.