Guerreiros de Gáler

5 A saída dos Arknats


Notas iniciais
Vamos ver como foi a saida dos Arknats de Söllaghe e algumas rapidas passagens sobre o "reino" de Netus.

Cerca de cinco dias haviam se passado, desde que os Arknats tinham chegado de suas cidades e receberam de Madros a tarefa de buscar os deuses para a grande batalha.

Em Gáler, tudo continuava tão magnífico como sempre. As árvores estavam mais belas como nunca, as flores continuavam a mostrar sua graça. A Cachoeira Cantante ainda cantava sua doce música. Os campos verdes que iam até além dos olhos cintilavam com o brilho do sol. Os Söllys continuavam com suas vidas assim como ordenado por Madros. Nada iria parar até que a ordem da guerra fosse anunciada pelo badalo do sino, que a essa altura já havia sido terminada e estava sendo posta no alto da torre abaixo da luz do Sol.

As crianças Gálerianas brincavam aqui e acolá, e já eram ensinadas por seus mestres sobre histórias passadas.

— Mas senhor, nosso mundo ainda é novo. Logo, porque devemos aprender tanto? – perguntou uma delas ao seu mestre.

Havia um grupo de crianças junto com um Söllys adulto debaixo de uma mangueira próximo ao Lago Söllys.

— Meu caro por mais nova que Gáler possa ser a história passada disso, já se faz presente. Temos que lembrar nossa origem para que assim possamos lutar com mais força por aquilo que acreditados ser o correto.

— Mas e se o que acreditamos não for o correto?

O mestre olhou atônito para o menino, e respirou fundo.

— Então talvez, lá na frente devamos rever alguns conceitos. – disse ele — Eu acredito no que nos é passado, pois eu sinto a verdade nas palavras. Vocês ainda são jovens, logo, ainda irão amadurecer com o tempo.

Em algum lugar bem ao norte, além das fronteiras e mais longe do O Portal existia um reino que vivia na escuridão. Lá, a terra era tão viscosa e lamacenta quantos os pântanos encontrados além da Montanha Árida. A água que corria aquele vale era vermelha como o sangue, e fétida como carniça. Mas à frente existia uma imensa colina e atrás dela, um esplendoroso castelo negro, com suas torres espinhosas e portões de ferro. Ali estava Netus. Ali era o seu covil.

— Meu senhor, as criaturas estão quase prontas para a caça, aguardamos apenas o seu comando. – disse uma coisa humanoide, com escamas e chifres, vestida com uma armadura pesada e um elmo pontiagudo.

Netus estava sentado em seu trono num imenso salão escuro, iluminado por um fogo azul fúnebre. Netus admirava aquele local.

— Acredito que eu ainda tenha que arrumar este local. Ainda não esta de meu agrado. Gúmor ainda não esta pronta. – disse ele, com sua voz rouca e sem sentimento.

— Eu acredito que muito ainda tenha que ser feito meu senhor, e tenho confiança que logo este lugar será tal qual como senhor deseja.

O difamador vestia sua capa vermelha, ainda lhe faltava carne no corpo e usava em sua cabeça uma grande coroa. Ele se levantou e caminhou até aquele seu soldado lentamente. Ao estar face a face, Netus tocou no soldado e este começou a gritar de tanta dor. Caiu de joelhos perante o seu senhor e logo apenas sobrou seu esqueleto. Netus baixou o braço e pegou o crânio daquela criatura, ainda sem nome, e a observou com extrema atenção. Tinha dentes compridos, grandes buracos onde uma vez eram os olhos, e fedia tanto quanto antes. Ele então arremessou o crânio contra a parede e de seu corpo saiu uma fumaça negra que cobriu todo o salão. Aos poucos dezenas de crânios parecidos surgiram nas paredes, e Netus mostrou seu contentamento. Urrou, e um soldado semelhante aquele apareceu.

— Vocês têm a minha ordem. Procurem pelo alimento e me tragam seus ossos. – disse ele.

Madros estava sentado no seu trono tão igual à Netus observando o teto, atento. Ele acabara de ver Netus em seu covil armando alguma coisa. Com ele, estavam seus conselheiros, Neycok, Maedi e Cárin, e alguns guardas reais.

— Meu senhor, sente-se bem? – disse Cárin.

— Sim! – respondeu Madros.

— Deseja que chame algum dos regentes, meu senhor?

— Não se faz necessária a presença de nenhum deles, meu nobre Neycok. No entanto eu gostaria que fossem chamados os Arknats, imediatamente.

Um dos guardas reais saiu em busca dos Arknats tão rápido quanto seu senhor havia pedido. Não tardou até que todos fossem encontrados e estivessem no salão do trono do alto rei.

Madros pediu para que todos se retirassem. Após a porta se fechar, ele começou a conversar com os escolhidos.

— Trago péssimas notícias a vocês, pois Netus esta começando a tramar alguma coisa. Em mais de quinhentos anos desde a criação de Gáler, eu jamais o vi tão animado.

— Sobre o que se trata a visão de vossa majestade? – perguntou Táro.

— Uma caçada.

— O senhor poderia ser mais especifico?

— Jhuan, Netus sabe que eu posso ver suas ações, se eu assim desejar. Pois Sölly esta acima dele, e tudo vê. Ele tentou usar de uma artimanha muito utilizada para confundir as mentes. Ele ofereceu suas carnes a suas criaturas recém criadas.

— Devemos nos preocupar meu senhor? – perguntou Káros.

— Lógico que devem. Vocês são seres vivos e estão sujeitos as atrocidades do mal, e se não se empenharem, certamente que sucumbiram.

— Nesses dias que eu estive aqui, eu devo confessar, — começou Táro – tenho estado muito preocupado com esta jornada meu senhor. Eu temo pela minha vida e talvez seja um tanto egoísta em dizer, mas não acho que eu serei capaz de achar os deuses.

—Táro, você descende de uma família já marcada para o reinado, o seu sangue já é um sangue real. Dentre os três teria que ser você a não temer tanto.

— Senhor, eu bem sei das minhas obrigações, mas o senhor ao olhar para mim, sabe também que eu não as desejo.

— Você precisa ter um pouco de fé, Táro.

O jovem Söllys se mostrou um pouco impaciente neste momento. Havia angustia em seu coração, e Madros bem sabia disso. Ele se levantou de seu trono e foi até o rapaz dando-lhe um forte abraço, o que confortou o coração de Táro.

— Lembrem-se meus jovens. Vocês três terão a incrível missão de sair além das terras abençoadas, e de nada valerá as armas que lhe dei, se a força não vier daqui, — Madros colocou sua mão no coração de Káros — Vocês são guerreiros e já são vitoriosos, mesmo sem a conquista.

— Meu rei, e se fracassarmos?

— Jhuan, eu não serei cruel ao ponto de dizer que o fracasso não será tolerado, porque esta deveria ser uma missão dada ao rei, mas Sölly não desejou que fosse assim. Se os nomes de vocês foram proferidos pelos regentes, algum motivo há de ter.

— E quais seriam estes motivos? – perguntou Káros.

— Esta é uma resposta que eu também gostaria de ter. Mas eu acredito em vocês, tanto quanto acredito em cada Söllys que esta em Gáler. E se caso houver o fracasso, caso sintam medo e não queiram continuar, voltem para as terras abençoadas e ainda assim serão tratados como heróis. Pois vocês são jovens, e não podem ser punidos por temer o desconhecido. Mas tenham em mente que Netus já sabe de vocês, e ele estará sempre um passo a frente, pois ele é o deus do Oncor. Estejam preparados, e usem seus olhos e seus ouvidos e olhem para o céu, encontrem força em Sölly e no Divino e saberão exatamente como agir.

Madros passava a eles uma calma extremamente tranquilizante. Era como se eles estivessem indo para a Cachoeira Cantante, e sentissem paz. Obviamente que o alto rei, já sabia o que os aguardava, mas seria justo prepara-los para o pior? Era necessária a busca pelos três deuses, mas será que cada um deles saberia exatamente como agir, com cada um?

O alto rei anunciou que eles não poderiam tardar, e teriam que sair logo pela manhã. Os Arknats foram descansar, ainda sentindo aquela paz ao abraçarem Madros, e tiveram um sono tranquilo. Táro foi o primeiro acordar, com seu pai ao pé da sua cama, o observando.

— Me lembro de você ainda pequeno quando sua mãe lhe preparava o chá da manhã... a forma como ela lhe olhava e passava a mão nos seus cabelos. Ela era linda, como os raios de sol. – disse Rhamos.

— O senhor nunca se atreveu a contar como foi que aconteceu.

— Meu filho, dentre tantas belezas vindas de Sölly a partida de sua mãe foi bela. Era necessário como rainha de Aniadu, que ela partisse para O Portal, e dar seu corpo físico em troca de proteção. O amor de nossas belas mulheres, oh, como são encantadoras! Ela esta lá, protegendo em alma a entrada para o nosso mundo, uma maravilhosa guerreira, uma maravilhosa esposa e mãe.

— Não entendo. Madros comenta sobre a perda, sendo que já perdemos.

— A perda que Madros se refere não é comparada a essa. Sua mãe não faleceu, ela esta viva, apenas não em matéria. É uma guardiã do O Portal.

— E como fica caso queira ter outro filho?

— E porque me faz esta pergunta?

— Apenas penso eu que se caso venha a acontecer algo comigo, o senhor precise de outro filho.

Rhamos pensou um pouco.

— Uma vez guardiã, sempre guardiã e eu não posso mais ter sua mãe, como já tive um dia. Caso, eu venha por ventura desejar outro filho, eu terei uma segunda esposa, você bem sabe que Söllysyanas só podem ter um único filho, a menos que venham dois.

– Um irmão. Seria legal se eu tivesse um pequeno a quem eu pudesse confidenciar minhas memórias.

– Quem sabe meu filho! – disse Rhamos – Vamos eu irei ajudar você.

Rhamos ajudou Táro a se trocar. Uma túnica branca, uma longa capa com capuz preta por cima, e sua bainha com a espada dada pelo alto rei. Nas costas, sua aljava e arco, do lado uma bolsa com o livro. Ambos saíram do quarto e foram juntos até o hall, onde os outros regentes e seus citados estavam os esperando.

— Preparados? – disse Anydes.

— Acredito que sim. – disse Jhuan.

Eles andaram juntos até a imensa porta do castelo, e lá estava Madros, os aguardando, com três dos mais velozes e poderosos cavalos de Gáler.

— O que seria de exploradores sem cavalos dotados de beleza e astúcia. Escolham cada um o seu, pois eles para sempre serão fiéis.

Cada um dos Arknats escolheu seu cavalo, e montaram. À frente deles, uma imensa multidão de Söllys, abriram um corredor.

— Não se esqueçam que sempre há luz na escuridão. E olhem para o céu caso sintam a necessidade de acreditarem em vocês. Sigam seus corações e saberão onde cada deus estará. Entrego agora a vocês toda a força e nobreza. Sigam com fé. – disse Madros.

Todos fizeram uma leve reverência com a cabeça ao seu alto rei, e logo depois aos regentes. Táro foi o primeiro a se virar, logo depois os outros dois, e então seguiram pelo enorme corredor às pressas. Os cavalos eram realmente velozes, pois não demorou até que o Söllaghe parecesse distante.

— Para onde vamos? – perguntou Káros.

— Partiremos para O Portal, e de lá, seremos guiados por Sölly. – disse Táro não tão confiante como gostaria de ser.

E então os três seguiram caminho para O Portal, lugar até então desconhecido a eles. Mais da metade do caminho, o silêncio se fez presente, já que os jovens estavam buscando em suas mentes maneiras de acalantar seus corações, em busca da fé que o senhor Madros tanto ressaltava.

— Estou começando a me cansar. – disse Jhuan, desmontando de seu cavalo.

— Cansado? Mas temos mais um dia de viagem até O Portal, e se permanecermos nesse ritmo chegaremos rápido. – disse Káros.

— Vamos meu caro amigo Jhuan, monte em seu cavalo, pois é ele que está cansado, você mal usou as pernas. – disse Táro rindo. O cavalo de Jhuan pareceu aceitar a ideia.

— Mas estão fazendo um complô comigo, não posso acreditar... – disse Jhuan, acariciando seu animal, que mostrou afeto com uma grande lambida em seu rosto. Todos acabaram rindo.

Logo Jhuan montou em seu cavalo e todos seguiram, ainda em silêncio até seu destino.

Notas finais
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