Guerra Mutante: A Relíquia Roubada

20 20 - Explodo uma engenhoca ambulante


Acordei instantes depois, e Torrance estava se levantando ao mesmo tempo que eu. Sentia sangue escorrer de minha cabeça. Fiquei desnorteado com aquela descida brusca, atingindo os degraus. Todo o meu corpo doía, principalmente as costas. Mas as forças voltavam ao meu corpo aos poucos.

– Obrigado Nasura. – Murmurei a mim mesmo.

Torrance não estava mais com a Espada Dourada durante alguns segundos. Pensei que ele havia perdido-a, mas então seu anel dourado brilhou e ela reapareceu. Minha felicidade durou muito pouco.

– Você é bastante irritante, moleque. – Falou, agora com raiva. – Não é à toa que é irmão da Serpente Sombria e filho do Lagarto de Fogo.

– Lagarto de Fogo? – Repeti o nome, e pensei um pouco. – Meu pai.

– Sabe o que dizem, garoto? – Falou Torrance, girando a espada. Minhas mãos e meus pés se mimetizaram, e criei duas adagas vermelhas. – Os melhores Mutantes são aqueles que tem seus próprios codinomes. Você não é um ótimo Mutante, diferente de mim, o Motoqueiro do Caos.

– É aí que você se engana. – Eu falei, rindo. – Eu tenho sim um codinome.

– E qual é, pivete? – Ele perguntou, e eu sorri para ele com raiva.

– Sou o Lobo. – Falei, e nós dois corremos de encontro um ao outro. Nossas lâminas se chocaram, a minha adaga não se desfez. Trocamos de lado, e eu me virei. Ele riu, surpreso.

– Parece que você ficou mais forte. – Falou, me encarando. – Mas sua força atual não é o suficiente para te ajudar a me vencer, Franklyn.

E sua mão esquerda ficou em chamas. Duas asas apareceram atrás dele, iguais às de Royal. Ele tinha Mimetismo Nephilim também. Torrance alçou vôo, e me olhou com um sorriso maléfico. Desceu em um mergulho, e eu vi o que planejava fazer. Comecei a correr, mas fui lento, e quando ele socou o chão a onda de impacto me fez rolar pela grama da floresta. As chamas começaram a se espalhar, e eu abaixei-me a tempo de não ser atingido pelas chamas.

Em segundos, já não havia mais árvores naquela floresta. Haviam todas desaparecidas. Até mesmo as raízes haviam sido destruídas. No entanto, a grama continuava intacta. O que antes era uma floresta, agora era uma enorme clareira. Havia árvores muito longe dali, ainda.

Ergui-me, assustado com a força de Torrance. Ele riu, girando mais uma vez a Espada. Eu respirava ofegante. Analisava-o a todo momento, tentando achar uma forma de feri-lo.

– Agora, a verdadeira batalha começa. – Ele falou, e sua Espada voltou a ser um anel. Enquanto se transformava, percebi que sua gema azul estava vermelha.

Quando as mãos de Torrance estavam livres, ele espalmou-as. Um som percorreu todo o local, e a terra começou a tremer. Atrás dele, rachaduras se criaram na montanha e se abriram, lançando rochas na planície. Depois, uma outra rachadura, e uma outra maior. E, por fim, houve uma explosão de poeira. Um som metálico deu-me calafrios, e a terra tremeu uma vez. Vi a silhueta de algo grande. Mais uma vez tremeu, e a silhueta se aproximou para fora da montanha. No terceiro tremor, um rugido ensurdecedor me fez tampar meus ouvidos. Eu cambaleei para trás quando vi o robô metálico de quase sete metros de altura. Seus olhos eram enormes lanternas, seus braço direito era uma grande serra elétrica, e o esquerdo era um braço com uma mão de três dedos. Suas pernas eram feitas de peças de veículos e eletrodomésticos. Era um robô completamente improvisado.

– Contemple minha criação. – Falou Torrance, sorridente. – O Devastador.

O Devastador rugiu novamente, em um som que misturava ruídos metálicos com o som de vários animais: leões, lobos, ursos, tigres, baleias, falcões e muitos outros. Era por isso que Torrance estava naquela montanha. Estava criando um robô. Aquela carnificina de soldados talvez fosse para ele pegar parte de suas armaduras. E também era por isso que havia aquela interferência em minha manopla, que antes havia esquecido. Ele estava tentando não emitir sinais eletrônicos, por mínimos que fossem, causando interferência na região por meio de algo que não era importante naquele momento.

Mas o que mais me preocupava agora era o que Torrance planejava. Por que ele mesmo não vinha para cima de mim? Ele queria mostrar que não gastaria forças comigo? Independente do que fosse, eu sabia que tinha que destruir aquele robô primeiro. Mas como?

Torrance voou para o alto, saindo do campo de visão de O Devastador, e retirou de dentro de seu casaco um tipo de controle. Ele apertou alguns botões, e o robô começou a tremer, e focou seu olhar em mim.

Antes mesmo que pudesse pensar no quê fazer, me vi tentando fugir dos ataques do Devastador, que vinha para cima de mim sem hesitar. Ele acertava socos no chão, que deixavam enormes buracos. Um golpe daqueles me transformaria em um ensopado para aquele gigante de lata-velha.

Ele tentou me pisotear em um momento, e por pouco consegui escapar. Um pedregulho atingiu meu braço, e eu gemi. Seria uma boa hora para você me ajudar, Nasura, falei para ele dentro de minha mente, que não respondeu.

Tudo o que eu tinha que fazer ali era fugir. Torrance ria vendo minha situação. Ou eu enfrentava o robô e morria, ou eu continuava fugindo, me cansava e morria. Eram duas opções, e ambas terminariam da mesma forma. Precisava encontrar o ponto fraco daquela lataria, seja lá o que fosse. E tive um pensamento rápido. Lembrei-me do penhasco que eu havia visto junto de Hariel e Emma. Estava próximo dali, ao norte. Virei-me e comecei a correr.

O robô veio atrás de mim, e Torrance veio junto, gritando algo, chamando-me de coisas como “covarde” ou “fracote”. No horizonte, eu vi o desfiladeiro. Tudo o que eu precisava fazer era derrubar o robô ali dentro. A pergunta era como.

Lancei um olhar para Torrance, que me olhava com um olhar estreito, tentando descobrir o que eu faria. O controle, falou Nasura dentro de minha cabeça. Tente pegar o controle dele.

Como?, perguntei. Ele está voando!

E você também pode voar, ou se esqueceu disso?

Ah, tem razão.

Quando cheguei a uma distância muito próxima do desfiladeiro, eu parei e me virei para o robô. Sua serra elétrica gigante agora girava. Ele tentou me atingir um golpe com o braço direito, e eu desviei. Uma fenda começou a ser aberta no chão, e o robô demorou um pouco para tirar o braço de dentro da terra. Quando tirou, tentou me acertar um golpe que deveria acertar minhas pernas, e eu saltei a uma altura segura de quase 3 metros de altura, devido minha super-força.

Quando atingi o chão, ele novamente tentou me cortar ao meio, e acabou criando uma outra fenda no chão e prendendo o braço. Era tudo o que eu precisava.

Corri em direção do seu braço, e saltei, agarrando-me e subindo na parte segura do robô. Ele retirou o braço, e tive que me segurar em seu ombro. Olhei para Torrance, que estava a 30 metros do chão. Do ombro eu saltei para a cabeça da gigante, e da cabeça do gigante eu saltei para Torrance, fazendo meu corpo ficar coberto de Energia Mental.

Comecei a voar, e agarrei Torrance no ar. Ele me acertou um soco, e eu grunhi. Tentei acertá-lo com uma cotovelada, mas só consegui atingir o ar. Sem pensar, eu mordi o braço dele, que gritou de dor. Eu não parei, até ele largar o braço do controle. Com isso, eu o atingi um golpe com as duas pernas e caí, segurando o controle, e agarrando-me na cabeça do gigante. Eu subi, e tentei entender o os botões do controle.

Eram muito confusos, e eu resolvi apertar algum deles, e o robô deu um passo para a frente. Continuei a apertar, e ele foi dando vários passos, mas quando chegou no desfiladeiro ele parou. Apertava o botão, mas ele não queira continuar. Era como se tivesse consciência de que se caísse seria um CABUM para ele.

– Ah, que se dane. – Falei, e comecei a procurar algum compartimento secreto nele. Desci em seu ombro, e vi que na sua cabeça havia um tipo de porta. Eu a abri, e vi os vários fios lá dentro.

– Não! – Exclamou Torrance, mas era tarde demais. Puxei todos os fios com força, desconectando-os, e eu saltei para longe do robô e corri, afastando-me, me atirando no chão.

Depois disso, ele fez vários sons metálicos e explodiu. As partes de seus corpos voaram para todos os lados, e seu braço de serra elétrica caiu dentro do desfiladeiro. Eu me levantei, ofegante, e sorri com a cara de ódio que Torrance fazia.

– Tem certeza que minha força não vai me ajudar a vencer? – Falei, e ele me olhou com raiva.

– Sim, pivete. – Ele então abriu um sorriso. – Eu tenho. – Ele fechou seus olhos, e senti que havia conseguido irritá-lo. Mas não sabia que aquilo seria uma coisa boa, como Nasura havia dito.

Então foi tudo muito rápido. Em um segundo, Torrance estava a 50 metros de distância de mim. Em outro, ele estava logo á minha frente, acertando-me um chute muito potente. Atingi minhas costas e algo, e vi que era Torrance, que me acertou um murro. Ele apareceu novamente e me agarrou, lançando-me no ar, e enquanto eu era lançado fui atingido por um outro chute. Estava caído de costas no chão.

Me ergui, lentamente, e então vi o motivo de ele ter aparecido em tantos lugares tão rapidamente. Haviam quatro Torrance ali, contanto com o verdadeiro. Três deles eram clones.

– Franklyn. – Falaram os quatro, ao mesmo tempo. – Não há como me vencer. Eu sou a dor. Eu sou o caos. Eu sou o ódio. Eu sou a vingança, e de você irei me vingar pelo que fez com minha criação.

Senti, então, minha cabeça doer. A profecia começou a ser falada em minha mente repentinamente.

O artefato deverá ser recuperado

Antes que o prazo seja esgotado

A morte é iminente, em chamas tudo acabará

E com um sorriso impotente, o ódio se erguerá

Numa situação dolorosa, a lágrima descerá

E a honra do herói é o que tudo salvará

Mas a luz e as trevas terão que juntas lutar

Ou pagarão um preço pior do que não amar

Eu senti todo meu corpo ser percorrido por um calafrio quando os dois últimos versos foram falados. E eles diziam:

Em uma queda gigante, a vingança terminará

Para que o caminho escondido mostre onde acabará

Olhei para o desfiladeiro. Uma queda gigante, pensei. A vingança... Agora nós dois queríamos vingança um do outro. E o caminho escondido seria o quê? Eu não tinha como pensar naquilo durante aquele momento. Eram quatro contra um. Se um só Torrance já me dava dificuldade, quatro dele iria dificultar tudo ainda mais. Me arrependi de ter vindo sozinho.

Os quatro aproximaram-se de mim, um vindo de cada lado. Vinham todos em passos lentos. O verdadeiro Torrance empunhava a Espada Dourada, enquanto as cópias tinham espadas longas de lâmina dourada, mas diferentes da relíquia.

Liberte-me, falou Nasura. Na mesma hora, eu o deixei sair.

E foi um som de lâminas durante vários minutos. Nasura usa a velocidade ao invés da força em seu favor. Criou duas adagas, e aproveitou que éramos ambidestros para usar as duas adagas ao mesmo tempo quando atacava.

Os Torrance, no entanto, eram muito mais fortes, e usavam todas as suas forças em seus ataques, deixando-os mais lentos. Nasura era de fato muito bom em combate quando não queria sair quebrando tudo, e desviava-se facilmente dos vários golpes. As lâminas se chocavam em um show de faíscas e partículas vermelhas voando quando as armas se atingiam.

E, com um movimento só, Nasura abateu um dos clones, fincando uma adaga em seu queixo de baixo para cima, e a outra em seu peito. Ele se transformou em chamas e desapareceu. Faltavam só três agora.

Poucos segundos depois da primeira baixa, o segundo clone morreu. Nasura lançou uma de suas adagas, e quando ele se defendeu meu corpo investiu, atingindo um golpe em seu braço. O clone gritou, e Nasura mimetizou minhas mãos e espalmou a cabeça do clone, fazendo-a explodir em chamas.

Faltavam só dois agora. O Torrance verdadeiro recusava-se a atacar. Devia estar me temendo. E percebi que, de fato, era isso mesmo, pois a minha Aura do Temor me envolvia. O último clone avançou, mas foi facilmente morto com um único encontro de punho e lâmina. A lâmina longa e dourada do clone se quebrou em vários fragmentos de metal, e meu punho atingiu sua face, que desapareceu.

– Agora somos só você e eu. – Falei para Torrance, quando retomei o controle de meu corpo. Obrigado mais uma vez, Nasura, falei dentro de minha mente. Percebi que alguns de meus ferimentos estavam fechando. Ele não respondeu, e eu sabia que estava cansado demais para dizer qualquer coisa. A batalha havia também me desgastado.

– O que diabos é você? – Falou Torrance, muito surpreso. Ele também estava cansado. Talvez o cansaço de seus clones tivessem sido incorporado no verdadeiro.

– Eu sou o Lobo. – Falei, criando duas adagas. Dei um passo para a frente, confiante de que iria vencer. – Sou a morte, sou a vida... Sou aquele quem decidirá seu destino.

Nós avançamos um contra o outro, e começamos a trocar golpes através de nossas armas.

Foram-se alguns minutos de golpes sem sucesso, quando finalmente o atingi.

Estávamos ambos cansados, mas nenhum de nós queríamos desistir. Quando nossas armas se encontraram novamente, deixei que a lâmina de minha adaga se partisse. Ele abriu um sorriso por alguns instantes. Mas, no entanto, não viu que quando sua espada atravessou a minha adaga quebrada, a lâmina se regenerou e cortou sua bochecha direita. Ele soltou um gemido de dor, e me acertou um golpe na nuca com seu cotovelo. Eu caí no chão, e ele se ajoelhou, apoiando-se na Espada Dourada.

Me levantei, afastando-me dele, que começou a rir, cada vez mais alto. Ele se levantou, de costas para mim. Eu podia atacá-lo ali mesmo, mas não conseguia. Ele estava fazendo-me ficar paralisado com aquela risada. Seu som era tenebroso e assustador. Quando se virou para mim, vi que a gema azulada da Espada Dourada brilhava, e o corte em sua bochecha se cicatrizava.

– Aquela frase que você me falou anteriormente... – Ele murmurou, trocando a espada de mão em mão. – Eu repasso ela inteira para você.

Senti uma dor imensa em minha garganta quando ele me agarrou. Era a terceira vez que havia feito aquilo. Mas ao invés de me lançar para o ar, ele me levou junto com ele. Me vi então logo acima do desfiladeiro. Iria me largar ali. Minhas adagas sumiram, e minhas mãos voltaram à pele humana.

– Agora, lamente por ter falhado em sua vingança. – Ele riu, e me largou. Durante três segundos, me vi caindo. Fechei meus olhos. Não queria ver o chão se aproximando de mim. Minhas forças todas haviam sumido, e eu não conseguia me concentrar enquanto caía para começar a voar e escapar daquela queda.

E senti meu corpo ser agarrado, e toquei o chão novamente. Torrance gritou algo de raiva, e atrevi a abrir meus olhos. Eu estava sentado, e duas pessoas estavam paradas em minha frente. Uma delas estava segurando uma longa foice negra, com duas asas de anjo também escuras. A outra emanava uma aura negra em volta de você.

– Eu falei que te ajudaria a se vingar, não falei, Franklyn? – Disse Jake, confiante. Demetria ajudou-me a me levantar e, no entanto, sua aura não me afetou.

– Eu falei para você ficar junto do grupo... – Murmurei, olhando para os dois. – E não era para ter falado para ninguém sobre isso. Mas, se não fossem vocês, eu estaria morto agora. Então, vamos juntos mostrar para esse desgraçado que não somos simples pivetes.