Guerra Mutante: A Relíquia Roubada

21 21 - Uma surpresa salva o dia


O rosto de Torrance estava vermelho de raiva, e agora ele não se atrevia a rir ou a sorrir. Demetria e Jake ficaram cada um ao meu lado.

– É preciso de três para me vencer, Franklyn? – Ele perguntou, e eu não respondi.

– Mas e quanto aos outros? – Perguntei a Jake, um pouco ansioso.

– Estão vindo... – Respondeu, ofegante. Suas asas sumiram, restando apenas sua foice. – Alguns já estão vindo, e os outros virão mais tarde pois estão cuidado da retaguarda. Eu trouxe somente a Demetria, pois achei que ela seria essencial para lutar usando a aura. E fique tranqüilo que ninguém quer arrancar sua cabeça.

– Mas eu...

– Nos abandonou? – Completou Demetria, e eu abaixei a cabeça. – Nós não vimos dessa forma. A vingança é sua, como você propriamente disse, e não quer que interfiramos na sua batalha contra Torrance, seja lá o que ele tenha feito. Mas isso não quer dizer que vamos te obedecer, não é? Iremos te ajudar.

Eu assenti, e nós olhamos para Torrance, que segurava a Espada Dourada firmemente, sem fazer marabalismos aleatórios com ela. Minha Energia começou a voltar, e senti que Nasura estava me revigorando. Com certeza, já devia estar farto de agradecimentos, então Jake olhou para mim e Demetria, e começou a correr na frente.

Demetria foi logo atrás, e eu fui por último. Mas não mimetizei minhas mãos dessa vez. Decidi concentrar toda a minha Energia em uma criação de uma única arma. Desacelerei meu passo, deixando os dois irem na frente. Jake saltou, desferindo um golpe com sua lança, e Torrance se defendeu com sua espada. Jake aproveitou que sua lâmina prendeu-se à Espada Dourada e balançou seu corpo para a frente, tentando acertar um chute no motoqueiro, que saltou para trás, destruindo a foice de sombras que se regenerou quase que no mesmo instante.

Olhei para minha mão, vendo que eu segurava um cabo, e a guarda se criava. Continuei a me concentrar, enquanto corria na direção de Torrance, que estava somente se defendendo. Jake atacava muito rapidamente, obrigando o motoqueiro a somente se esquivar ou se defender usando a Espada Dourada. Demetria havia chegado, fazendo sua Aura Bruxuleante parecer aumentar, e Torrance hesitou por um leve instante, que Jake usou para desferir um golpe de raspão no motoqueiro, cortando somente uma parte de sua roupa, sem acertar sua pele. Ele grunhiu de raiva, saltando para trás. Estava se sentindo humilhado, com certeza.

Quando me dei conta, minha arma ficou pronta, resultando em um pouco de cansaço adicional. Uma espada vermelha estava em minha mão. A primeira espada que eu havia criado, e que de alguma forma eu sabia que conseguiria criar naquele momento.

Acelerei meu passo, e me juntei à batalha. Por algum motivo, a Aura de Demetria parecia afetar somente a Torrance. Talvez ela tivesse conseguido fazer com que seus aliados não se afetassem como antes. Jake foi pelo flanco de Torrance, tentando lhe dar um golpe de finta, mas tudo o que Torrance fez foi cortar aparar o golpe usando a Espada Dourada. Demetria aproveitou para sacar de dentro de sua blusa de frio negra uma adaga e saltou, tentando fincá-la no ombro de Torrance, que se desviou facilmente, deixando-a cair no chão. Era minha vez agora. Ele estava distraído com os dois. Investi, erguendo minha espada à frente, e quando ia atingi-lo um tipo de explosão aconteceu, lançando nós três para longe de Torrance.

Em suas costas, estavam suas asas de Nephilim. Elas estavam abertas, esbanjando suas belezas. E em volta de Torrance haviam aberturas na terra que pareciam rachaduras, e ele se encontrava fincando a Espada no chão. Foi a Espada que causou aquilo tudo?

Jake havia atingido um destroço da perna do Desolador. Demetria rolou e se levantou quase que no mesmo instante que parou de rolar, e eu fui deslizando minhas costas para trás. Minha espada havia sumido. Me levantei e me concentrei para criar outra, demorando um pouco menos. Mas quando mais eu me concentrava e usava a Energia, mais fraco ficava.

Eu e os outros nos olhamos, enquanto Torrance tirava a Espada do chão. Fiz um sinal com a cabeça para prosseguirmos, e todos começamos a correr na mesma hora. Jake com sua foice de sombras; Demetria com sua adaga de lâmina de aço e cabo revestido de couro; e eu com uma espada vermelha e um pouco transparentes. Fui o primeiro ao tentar uma estocada, mas Torrance foi para trás, defendendo-se do golpe. Demetria foi logo em seguida, tentando acertar um golpe de baixo para cima, e ele começou a voar. Jake apareceu logo acima dele, com suas asas negras, e tentou acertar um golpe de área enquanto impedia Torrance de continuar subindo, e pude ouvir o som de um gemido de Jake, e outro de Torrance, então os dois caíram. Jake flutuou antes de atingir o chão, assim amortecendo um pouco a queda, e Torrance conseguiu voar a tempo de pousar no chão desajeitadamente.

Demetria e eu corremos para ajudar Jake. Ele estava inconsciente, e tinha um corte feio que começava atrás de sua orelha e terminava no início de sua nuca. Saía sangue dele, e os olhos de Jake pareciam cansados.

– Cuide dele. – Falei para Demetria, que me olhou com preocupação e assentiu.

– Tenha cuidado. – Ela falou, com a voz falhando.

– Eu terei. – Falei, confiante, e me levantei. Comecei a andar em direção de Torrance.

Quando ele se virou para me ver, vi que havia um corte causado pela foice de Jake em sua testa. Sangue escorria pelo seu rosto, cobrindo seu nariz de vermelho. Ele cerrou os dentes, muito irritado. Ainda empunhava a Espada Dourada, e correu em minha direção gritando, tentando em atacar.

Mas eu não ligava para aquilo.

Ele tinha uma espada extremamente poderosa que o tornava quase que um deus, e eu tinha somente uma espada criada a partir de partículas que eu mesmo fazia aparecer. Ele podia destruir florestas, e eu não conseguia nem quebrar um galho. Ele podia voar perfeitamente, e eu não conseguia permanecer muito tempo no ar. Ele tinha anos de experiência na batalha, e eu havia começado a menos de um mês. Mas não ligava para aquilo.

Eu ligava somente em matá-lo.

Quando ele tentou me acertar, senti meu corpo mover-se sozinho. Mas não era Nasura ou eu quem estava controlando-o, era me impulso de batalha. Defendi o golpe de sua Espada, que ele pressionou contra a lâmina avermelhada da minha, mas nada aconteceu. Ele olhou indignado para aquilo tudo, e eu lhe acertei um chute na barriga. Ele cambaleou para trás, sem acreditar.

– Você deixou minha mãe em coma... – Falei, desferindo um golpe com a minha espada em Torrance, que simplesmente não conseguiu se defender. Acertei de raspão seu tórax. – Matou meu pai... – Continuei, e desferi um outro golpe com a espada, acertando em cheio sua asa de demônio, que explodiu em chamas. – Quase matou Jake e os outros... – Acertei um outro golpe na sua outra asa, que explodiu em luz. – E matou Willian! – Exclamei, e comecei a desferir vários golpes sem hesitar contra Torrance, que tentava se defender, mas não conseguia. Ele estava muito fraco. Acertava todos os golpes de raspão em várias partes: nas pernas, nos braços, em seu peito e em sua barriga. — EU VOU TE MATAR, SEU DESGRAÇADO! – Gritei, e finquei a minha espada no ombro direito de Torrance, na mesma forma que ele havia feito comigo há dois anos atrás ao lançar uma pena em mim, que atravessou meu ombro.

Ele gritou de dor, e eu retirei a espada e acertei um outro chute em sua barriga, lançando-o para trás. Ele finalmente largou a Espada Dourada, e eu a agarrei no chão. Senti minhas forças aumentarem, eu ficar mais leve, mais poderoso. Agora Torrance estava a centímetros do penhasco. Eu o agarrei pela gola. Vi que agora estávamos na borda do desfiladeiro.

Torrance me olhava com uma expressão que parecia ser medo, raiva e ódio ao mesmo tempo.

– Como você conseguiu me vencer...? – Ele perguntou, sua voz estava rouca. – Eu tinha a espada mais forte do mundo... Fui um dos homens mais procurados antes desta guerra começar... E sou muito mais experiente e forte que você... Então, como?

– É simples. – Eu falei, destemido. – Mesmo você tendo a arma mais forte, anos de experiência e treino e sendo um homem muito temido, eu tenho algo que você não tem.

– O quê? – Ele murmurou, e eu olhei para Demetria e Jake. Depois voltei a encarar Torrance.

– Amigos. – Falei, confiante de mim mesmo.

– Que coisa insignificante. – Ele falou, e eu o olhei com raiva. – Amigos servem somente para nos atrapalhar, nos tirar de nosso foco principal. Quer saber algo que é realmente muito motivador? A sede de vingança. Olhe para você. Um Mutante de nível 1, que chegou até aqui em empecilhos. Tudo porque quer se vingar de mim. Amizade é algo insignificante.

– Está errado. – Eu falei, e sentia o ódio crescer cada vez mais. – Sem amigos, não chegamos a lugar nenhum. Assim como você não chegou. – Então finquei a Espada Dourada em sua barriga. No entanto, ao invés de ele gemer ou até mesmo morrer, ele riu. – Do que está rindo?

– Você não pode me matar. – Ele falou, e eu retirei a Espada Dourada de sua barriga. Não saia sangue no ferimento que eu havia feito. Na verdade, não havia ferimento. Era como se simplesmente tivesse atingido o nada. – A Espada Dourada tem vida, pivete. Tem consciência. E sabe que eu sou seu mestre, e sabe que eu a usarei para mudar o rumo dessa guerra e tomar o mundo para mim.

Eu olhei para a Espada Dourada, e a sua gema azulada oscilava em um brilho fraco. Olhei com raiva para Torrance, e então assobiei, chamando Snow.

– O que planeja fazer? – Ele caçoou, soltando um riso abafado. Eu o deixei cair no chão, sentado. – Chamar seu lobinho para me matar?

– Não. – Falei, e pensando melhor naquilo. Eu coloquei meu pé sobre seu peito, e o mimetizei. – Isso.

Então, eu o empurrei com um chute. Torrance caiu no desfiladeiro, gritando. Ele podia ter feito suas asas aparecerem ou se teletransportar, mas não o fez. Não tinha mais forças para aquilo, pois a Espada Dourada agora estava sob minha posse. Ele começou a cair em direção do braço de serra elétrica de sua criação, que ainda girava, e eu desviei o olhar quando ouvi o som de seu corpo atingir a serra girando, e o ruído de ele ser cortado.

Eu caí de joelhos no chão, ofegante. Finalmente eu havia completado minha vingança. Torrance estava morto. O tempo pareceu desacelerar, e então Demetria gritou meu nome. Quando me virei para olhá-la, lá estava Torrance agarrando Jake, com a adaga de Demetria no pescoço de Jake. Ele sorriu para mim em meio ao rosto coberto de sangue.

– Nunca baixe a guarda, garoto... – Falou para mim. Eu senti a raiva aumentar dentro de mim. – Lance a espada para mim, e eu pouparei a vida de seu amigo.

Não sabia o que fazer. Se eu lançasse a espada para Torrance, ele podia matar Jake, Demetria e depois a mim, pois suas forças voltariam. Se eu não lançasse, ele poderia matar Jake e depois Demetria. Eu conseguiria matá-lo, mas os dois morreriam, e aquilo era algo que eu não queria. Estava em uma situação complicada.

Olhei para o desfiladeiro, vendo a serra elétrica do braço do robô que ainda girava, mas não tinha sangue. O corpo de Torrance estava lá, cortado ao meio, mas ele começou a desaparecer em chamas. Um clone, pensei. Mas quando ele o fez?

Lembrei-me então de quando ele atingiu o chão, no momento em que feriu Jake no ar. Ele pode ter criado o clone quando estávamos distraídos. Cerrei meu punho, e vi que Torrance havia bolado tudo aquilo. Ele não estava cansado coisa nenhuma. Tinha o tempo todo fingido estar fraco para que eu o acertasse, e então quando pensasse que ele estava finalmente morto, me colocaria naquela situação.

Tinha vontade de voar até ele e acabar com tudo aquilo naquele momento, mas não podia. Precisava de ajuda. Não sabia quando os outros chegariam, isso é, se chegariam. Talvez eles não soubessem o caminho. Ethan podia vir voando, mas talvez estivesse ajudando os outros a irem mais rapidamente.

O que eu faria, então? Entregaria a Espada Dourada ao Torrance e deixaria ele matar meus amigos e a mim? Também tinha a possibilidade de ele fugir para se tornar mais forte. E fui surpreendido então por algo.

Um vulto branco correu pela planície e saltou sobre Torrance, fazendo-o largar Jake e a adaga. Demetria pegou o garoto, e eu corri em direção de Torrance, que estava sendo segurado por Snow, que rosnava. Torrance agora de fato parecia ter medo. Olhei para a Espada Dourada, e preparei-me para tentar feri-lo novamente. Snow recuou quando toquei a lâmina no pescoço do motoqueiro caído.

– Pensa que fui eu o culpado de tudo isso? – Ele riu, e eu hesitei. – Não sabe o quanto está enganado.

– O que quer dizer? – Perguntei, tenso.

– Mate-o, Franklyn! – Exclamou Jake atrás de mim. Dei uma rápida olhada, e ele estava levantado, caminhando em nossa direção lentamente. Demetria o ajudava. – Acabe com tudo isso!

– É, me mate, pivete. – Falou o motoqueiro, caçoando de mim. – Me mate, e as respostas morrem comigo.

– Respostas do quê?! – Exclamei, pressionando a espada contra sua garganta. – Fale, ou morra!

– Deixe me levantar, ao menos. – Ele falou, e olhei para Jake, que estava muito tenso. Eu tirei a lâmina do pescoço de Torrance e o deixei levantar. Queria matá-lo, mas algo me dizia para deixá-lo viver. No entanto, continuei apontando a espada pare ele.

– Franklyn! – Exclamou Jake, e foi tarde demais. Torrance agarrou a lâmina da Espada Dourada, cortando a própria palma. Snow avançou, mas o motoqueiro lhe acertou um forte chute que o lançou contra Demetria e Jake. Eu gritei, e puxei a Espada com toda a força que ainda me sobrava. Saiu sangue da mão de Torrance, e a lâmina ficou manchada pelo vermelho.

Torrance riu, e suas mãos ficaram brilhando em chamas. Jake se levantou, retirando Snow de cima dele com cuidado. Sua mão esquerda estava coberta de chamas negras. Eu o olhei com preocupação, mas compreendi aos poucos o que faríamos. Fui ao seu lado, colocando a Espada Dourada em minha mão esquerda, e olhei para minha mão direita. Concentrei toda a minha energia mental nela, e minha aura vermelha apareceu em volta de minhas mãos, tremeluzindo como chamas.

Nós nos olhamos, e começamos a correr. Torrance veio contra nós, lançando uma rajada de chamas, e eu coloquei a espada à nossa frente. Ela parecia servir como um enorme escudo, pois as chamas refletiam e voltavam para trás em direções aleatórias. Aceleramos o passo, e vi que estávamos voando: Jake com suas asas negras, e eu com minha energia mental.

E, quando percebi, estava com a espada atravessando o ombro de Torrance. Eu a movi para cima, fazendo uma fenda em seu ombro, e desci a espada. O braço direito de Torrance caiu, e ele gritou de dor. Jake e eu acertamos então um soco ao mesmo tempo em seu peito. Ele com sua mão em chamas negras, e eu com as chamas vermelhas. O chão à nossa volta começou a se rachar, mas Torrance permanecia ali, agüentando tudo. Precisávamos de ajuda.

E o inesperado aconteceu.

Demetria apareceu logo acima de nós, em um salto. Estava com palavras flutuando acima de sua cabeça, e eu fiquei boquiaberto. Demetria também tinha dois poderes e dois subpoderes: seu poder novo era Manipulação Psíquica, e seu subpoder era Manipulação de Probabilidade, e eu estava surpreso, mas não tinha tempo para pensar naquilo naquele momento. Ela tocou o peito de Torrance com força, e ele foi um pouco para trás, deixando um rastro na terra de onde seus pés se arrastavam. Ela ficou entre mim e Jake, que continuamos com nossas mãos em sua barriga, enquanto ela o espalmava sem hesitar.

Torrance ia para trás cada vez mais. Não podia mais criar asas, e mesmo que pudesse ele não conseguiria voar. Estava sem seu braço direito, e eu havia pego a Espada Dourada. Iríamos vencer. Demetria deu mais uma espalmada, e Torrance foi para trás, e Jake e eu acertamos um outro soco, fazendo-o gritar e lançado para a borda do penhasco, e vi que agora somente eu corria. Troquei a espada a para minha mão direita, e eu a segurei como um taco de baseball.

– POR MEU PAI! – Exclamei, enquanto corria. – POR MINHA MÃE! POR AQUELES QUE MORRERAM E FICARAM FERIDOS! – E então arranquei-lhe a cabeça com um único golpe da Espada Dourada em seu pescoço, logo depois acertando um chute em seu peito, lançando seu corpo sem cabeça nem braço para o desfiladeiro adentro. – E por Willian. – Murmurei, caindo de joelhos no chão.

Agora ele finalmente estava morto.

E tudo o que pude ouvir depois foi o impacto de seu corpo e sua cabeça atingindo o chão de rocha. E aquilo mostrou que Torrance estava errado, pois eu consegui matá-lo.