Guardians II - Ethereal Spirits
12 XII - The Magical Hand
Notas iniciais
O apagar das luzes em minha mente fez com que um terceiro sonho viesse à tona em menos de três dias. No entanto, o que acabei por ver desta vez foi diferente de qualquer coisa que já tenha presenciado.
O mundo inteiro estava em caos, com cidades em chamas e aos destroços, os mortos estavam sendo empilhados até atingirem uma altura bastante assustadora, paisagens que antes deveriam ser extremamente belas agora não passavam de uma vastidão desértica de desespero e destruição. O céu também havia mudado, não tendo mais sua coloração azul estonteante, mas sim um aspecto sombrio e avermelhado, que demonstrava o pânico dos poucos sobreviventes.
Mais ao alto, além das nuvens negras e o céu cor de sangue, havia sete vultos imóveis, que irradiavam uma aura sombria e tenebrosa, que fazia todo o caos ao meu lado não parecer nada.
Por um instante eu pensei que aquele meu sonho só servia para mostrar as imagens, mas eu estava enganado, pois logo que implorei para acordar, um dos vultos desapareceu do alto, pousando furiosamente a minha frente.
Não demorou muito para que a fumaça criada logo se apagasse, dando-me um vislumbre perfeito de sua feição demoníaca. Diferentemente dos dois homens que antes havia visto, este não possuía uma aparência simples e sombria, mas sim realmente assustadora pelo seu tamanho.
O demônio era inteiramente vermelho e não usava nada além de uma calça negra que cobria totalmente sua perna. Além de seus mais de dois metros de altura, o grotesco ser possuía também músculos tão avantajados que podiam facilmente destruir uma barra de metal com sua força.
— Morra! — Gritou ele, com seu olhar mortífero e negro e seus dentes brutalmente afiados.
Assim que o vi correndo em minha direção não pensei duas vezes em fugir, mas eu estava completamente imóvel em meu sonho, deixando o desespero tomar conta de mim, até o demônio se aproximar e ficar a centímetros de minha cara.
♦
Felizmente pude acordar a tempo de ser devorado pela criatura infernal e tudo graças ao toque da mesma garota que havia visto antes de perder a consciência.
Ainda estava deitado no chão e muito fraco, mas mesmo assim tentei levantar para poder ajudar meus amigos. Porém, ao fazer isso fui tomado pela fadiga e a dor logo me atingiu por completo, impossibilitando-me de mover um músculo se quer.
— Não faça isso. — Disse ela calmamente e com uma voz suave que por um momento me lembrou Kenychi. — Você não tem forças.
— Eu preciso...
Até mesmo ao tentar falar a vertigem surgiu, causando-me náuseas e por pouco não vomitando ali mesmo.
— Você foi envenenado, não vai conseguir fazer muita coisa. — Explicou a garota, olhando para a cena ao seu redor e me ajudando a sentar, mesmo que eu não estivesse disposto a isso.
Pude ter um vislumbre da batalha e vi que quase todos os anões haviam sido mortos pelos Drows e Guerreiros Jaguares. Porém todos os meus amigos permaneciam em pé, lutando pela sobrevivência, e mesmo que em grande desvantagem numérica ainda tinham forças para isso.
Pela segunda vez tentei levantar para poder ajuda-los, mas minha cabeça simplesmente não respondeu aos estímulos e eu quase cai de cara no chão.
Podia sentir o sangue correndo em minhas veias, mas era diferente de qualquer coisa, pois parecia pesado e lento, me asfixiando por dentro e deixando-me cada vez pior.
— Veneno de Mayahuel? — De repente ouvi a voz de uma outra garota que se aproximara de nós sem que eu notasse.
Tentei ao menos abrir os olhos evitando a forte vertigem que me afligia, mas aquilo demorou um bom tempo e só quando deitei com a ajuda das duas garotas que pude fazer isso.
— Onde está o ferimento?
— Braço... — Responder à ela foi algo muito errado, pois precisou de muito mais energia do que pensei, fazendo-me vomitar um ácido que passou pela minha garganta, queimando até a alma.
— Não fale. Não se mexa. Não respire. — Instruiu impacientemente a garota loira que estava ao lado da outra. — Entendido?
Automaticamente balancei a cabeça na tentativa de assentir, o que causou mais uma onda de náuseas e vômitos.
— Já não falei que não é pra você se mexer? — Brigou comigo, puxando meu pescoço para cima e impedindo que eu vomitasse mais. — Segure o braço dele.
Naquele momento eu já não enxergava mais nada e estava começando a perder a sensibilidade em qualquer parte do corpo, mas o simples toque da garota fez com que toda a dor acumulada surgisse de uma só vez. Já havia enfrentado muita coisa e me ferido muitas vezes, mas nunca antes tinha sentido uma dor tão angustiante que me fazia ter vontade de morrer de uma vez por todas. Qualquer um pode tentar imaginar como seria essa dor, mas não, isso não chegaria nem perto do que é na verdade.
— Beba isso e pare de gritar! — Ralhou comigo a garota sem que eu percebesse os berros que eu estava dando.
No mesmo instante algo desceu pela minha boca, fazendo todas as regiões da minha língua que sentiam diferentes sabores virar um verdadeiro caos. Felizmente, ou não, a única coisa que podia fazer-me esquecer daquele gosto terrível era a dor em meu braço, mesmo que ninguém mais estivesse encostando um dedo nele.
Por mais que meu peito estivesse queimando internamente e meus músculos já não me obedecem mais eu ainda tentava lutar contra tudo aquilo, mas buscar forças estava se tornando cada vez mais difícil. Isso até o líquido ingerido começar a surtir o efeito.
— Agora deixa eu voltar a batalha, vê se cuida do bebê aí Katie.
Não sei se a garota riu, mas tudo me levava a crer que sim, o que me deixou um pouco irritado.
— Está melhorando? — Perguntou ela logo em seguida, pondo a mão fria em minha testa.
Até aquele momento eu já conseguia respirar normalmente, sem sentir o ar entrando em minhas narinas e queimando meus pulmões. Toda a vertigem e náusea haviam desaparecido quase que por completo e eu já podia ao menos me manter sentado sozinho.
— Um pouco... — Felizmente o pouco foi o bastante para poder raciocinar sem focar na imensa dor que ainda sentia em meu braço, que por sinal eu nem tinha visto e nem queria ver. — O que aconteceu?
— Com você?
— Também. — Respondi, na intenção de saber o que havia acontecido desde eu perdi a consciência.
Notei que Katie estava prestes a esclarecer minhas dúvidas, mas foi interrompida antes mesmo de pensar em falar quando algo surgiu voando sobre nós, acertando uma das poucas casas dos anões que ainda estavam inteiras.
— Acho que não temos muito tempo para explicações. — Disse ela assustada. — Você consegue ficar em pé?
Ainda estava olhando para Icu, que havia sido arremessado por três Guerreiros Jaguares, mas assim que ela fez a pergunta senti a minha incerteza e a dor voltar.
— Sim. — Menti, sabendo que ainda não havia recuperado nem metade de minha energia.
Com dificuldade me pus em pé, sustentando-me pela lâmina de Kólasi ao meu lado.
Assim que me mantive naquela posição de batalha procurei pelos meus amigos e vi que a situação deles era só um pouco melhor que a minha, mesmo que muitos estivessem encurralados, brutalmente feridos e mal conseguindo se manter em pé também.
— Precisamos fugir. — Murmurou ao perceber que estávamos começando a perder.
— Acho que não vamos conseguir nem fazer isso.
Até então só havia restado nós e meia dúzia de anões contra dezenas de Drows e meia dúzia de Guerreiros Jaguares.
— Temos um trailer, se alcançarmos ele quem sabe...
Olhei para Katie e vi nela uma luz no fim do túnel da esperança. Mesmo que muitos de nós mal conseguíssemos andar, a probabilidade de sair vivo dali era algo no qual poderia ser cogitado.
Porém a esperança logo diminuiu quando nos vimos cercado por alguns Drows armados com facas semelhantes a de Dehing, embora menos chamativa.
Sabia que ainda era incapaz de batalhar de verdade com eles e duvidava muito se Katie poderia dar conta de pelo menos um deles. Portanto a única coisa que me restou foi apelar para outra coisa.
Com a mente concentrada nas sombras criadas pelas árvores e pelos próprios seres a nossa frente, pude sentir a vida própria que cada uma liberava. A sensação poderia ser estranha, mas naquela altura do campeonato eu já não tinha a mesma reação, que por sinal deixava-me mais forte do que o normal. Porém nem mesmo com a força nova que consegui fazendo aquele movimento pude suportar a dor.
Apenas ao estender o braço em direção aos Drows já fui levado ao chão, gritando de desespero enquanto meu braço queimava de dor. Mais da metade da pele já havia sido tomada pela podridão, mostrando uma camada grande de hematomas negros e sem vida.
Aquele momento foi perfeito para que os Drows avançassem contra nós, e em menos de alguns segundos eles já haviam derrubado Katie e me espancavam sem nenhuma hesitação.
Poderia estar sentindo a dor dos golpes precisos de cada um deles, mas meu braço já se encarregava de acumular toda aquela sensação.
Por mais que o desespero ainda tomasse conta de mim, eu ainda podia sentir uma raiva e fúria brotando em minha mente, que queria lutar contra a dor, contra os Drows e contra qualquer coisa. E a cada golpe que recebia, a cada segundo que se passava, aquela sensação aumentava cada vez mais até chegar no limite.
— Não! — Meu grito ecoou pela floresta, fazendo os Drows diminuir o ritmo e me dando a oportunidade de revidar.
Logo meu punho estava na garganta de um deles, segurando-o com força enquanto ela emitia um brilho fraco ao redor do pescoço do Elfo. Todos os que estavam ao lado pararam e observavam a minha fúria desencadear uma série de eventos estranhos, inclusive para mim.
— Não toque em mim. — Ralhei, enquanto ele tentava se desvencilhar a qualquer custo de minha mão.
No exato momento em que falei aquilo, seus olhos ficaram imóveis e vidrados, como se ele não pudesse controlar a si mesmo, retirando as mãos que prendiam ao redor de meu braço.
Por um instante me distrai, pensando no que havia feito, mas de tantos movimentos errados eu aprendi que não poderia baixar a guarda, pegando minha espada, com dificuldades já que a força em meu braço deteriorado, e fincando na barriga do homem.
Após aquele golpe, deixei o corpo do Drow cair enquanto me levantava e olhava para as minhas mãos que ainda brilhavam, fazendo-me sorrir por um instante ao lembrar do que Silver me ensinara na noite anterior.
“Então é isso o que a minha Mão Mágica faz?”
Logo em seguida olhei para os Drows, que me encaravam.
— Você o matou... — Sussurrou um deles, demonstrando fúria e confusão. — Ninguém mata nossos irmãos!
Os Elfos Negros então gritaram enquanto corriam em nossa direção, mas naquele momento eu sabia que não poderia enfrentar mais ninguém, pois minha energia realmente havia se esgotado e a dor em meu braço estava piorando cada vez mais.
Porém, antes mesmo de me alcançarem, uma lança surgiu e penetrou o peito de um dos Drows, caindo no chão, sem vida. Aquela arma era familiar, com seu brilho dourado e as joias encrustadas ao seu cabo, o que me fez entrar em desespero, pois era a mesma lança que Zargron usara na batalha contra nós há algumas semanas.
A única coisa que fiz foi procurar pelo Anjo Negro, mesmo que eu tivesse certeza que ele havia morrido pelas mãos de...
— Patrick. — Sussurrei o nome do garoto com um sorriso no rosto, principalmente por ter visto o mesmo montado em um cavalo grandioso e belo, ao lado de dois lobos brancos como a neve que caia sobre a floresta e dois corvos negros como a noite que estava prestes a chegar.
Além dos dois animais, Cleo estava na garupa, lançando rajadas de energia na direção de nossos inimigos, fazendo com que a balança da batalha mudasse.
— Por favor, diga que são seus amigos? — Katie praticamente implorou por aquilo e só se sentiu aliviada quando balancei a cabeça.
A lança de Odin havia voltado imediatamente às mãos de Patrick, que não hesitou para lança-la novamente em direção a um Guerreiro Jaguar que estava atacando Kendall.
— Acho que ele vai ficar se achando por um bom tempo depois disso... — A voz de Logan surgiu de repente ao meu lado, enquanto observávamos Patrick dizimando o exército inimigo. — O que diabos aconteceu com seu braço?
Até então não havia percebido a dor que ainda estava presente, mas assim que Logan me lembrou logo me veio a vontade de arrancar aquela parte para que tudo acabasse.
— Longa história. — Respondi rapidamente. — Agora precisamos fugir o mais rápido possível. Não vale a pena gastar nossas energias aqui.
— Mas para onde iremos?
— Onde está o trailer? — Virei-me e observei Katie, que estava assustada com tanta morte.
Ela só foi voltar a si quando repeti a pergunta, chamando sua atenção.
— Ah, um pouco depois da floresta. — Respondeu, apontando para uma direção ao norte de onde estávamos. — Se formos rápidos chegamos em cinco minutos.
— Ótimo.
Assim que me virei vi Logan me olhando desconfiado e indeciso.
“Podemos confiar nela?”
“Ela salvou minha vida. Eu confio.”
Meu amigo não disse nada, o que me levou a crer que ele não tinha escolha a não ser aceitar minha decisão.
— Vou pedir para que Luna e Patrick distraiam os Drows enquanto temos tempo para fugir, já que eles são mais rápidos. — Avisou Logan, procurando por sua irmã. — Vão na frente que alcanço vocês depois.
Felizmente a vontade de sobreviver era maior que minha dor, o que me deu forças para correr, mesmo incapaz de me mover com facilidade.
Katie nos guiou até um ponto seguro, onde a outra garota nos seguiu.
— Como está o braço? — Perguntou, mesmo parecendo não estar muito interessada.
— Bugado, mas acho que não vai cair. — Falei, agradecendo-a pela ajuda.
— Eles vão conosco? — Disse Katie de repente. — Não tem problema?
— Contando que não tentem dirigir o meu trailer, não vejo motivo para não virem. — Ela disse aquilo como se já deixasse um aviso de morte estampado. — Meu nome é Brenda.
— Kevin. — Cumprimentei-a, estendendo a mão.
Não demorou muito para que Logan surgisse ao lado de nossos demais amigos, mas o que acabou sendo mais rápido foi Brenda, que saltou em direção a Carl, derrubando-o no chão como se quisesse mata-lo.
Na mesma hora Logan pulou entre os dois na intenção de separar a briga, o que pode ter sido meio errado já que Brenda e Carl eram bem mais fortes, mas mesmo assim foi o bastante para que cada um fosse para um lado.
— O que você está fazendo? — Perguntou o garoto. — Ficou louca.
— Você é um Drow! — Ralhou, como se fosse a pior coisa do mundo. — Todos os Drows devem morrer!
— Eu sou um Meio-Drow para a sua informação.
— Não importa. — Esbravejou irritada e se virando para mim. — Quem é ele?
Olhei para Carl, que limpava a sua sujeira e chamava por Icu que andava de maneira desajeitada por ter perdido metade de sua perna.
— Ele está com a gente, não se preocupe. — Garanti, temendo que ela pedisse que o deixássemos para trás.
— Eu juro que...
Felizmente Katie interrompeu sua amiga a tempo de falar o que fosse.
— Depois você o ameaça, agora precisamos sair daqui o mais rápido possível.
O momento de tensão entre nós desapareceu rapidamente quando concordamos em partir daquele lugar.
Com a ajuda de Kendall acabei por acompanha-los, embora ainda continuássemos atrás de todos.
A dor já estava começando a diminuir, mas mesmo assim era algo insuportável e eu desejava que aquilo sumisse de uma vez por todas já que estava começando a ficar desesperado.
Após alguns minutos já era possível ver o trailer a nossa frente, assim como Patrick e Luna em seu formato Licantropo se aproximando de nós.
— Isso sim que é um trailer. — Elogiou Logan ao ver uma grande veículo que poderia caber todos ali tranquilamente.
A cor predominante era preto com detalhes vermelhos e deveria ter pelo menos uns 3 metros de altura por uns 8 de comprimento. Na frente havia uma caminhonete que estava presa ao trailer e que parecia bem potente.
— É... — Concordou Brenda, orgulhosa. — Mas lembre-se que é meu trailer.
Assim que entrei no veículo pude ter uma ideia do que é luxo, pois o lugar era praticamente o paraíso ambulante, com geladeira, televisão, diversas camas e tudo que pudesse imaginar. Mas naquela hora eu não estava preocupado com aquilo e sim com o restante do exército de Drow que nos seguiu até ali.
— Vai! — Gritou Luna quando entrou no trailer por último, logo após Patrick, que por sinal já não estava mais com seus animais.
E então fugimos pela milésima vez em mais de um mês, na tentativa de salvar nossas vidas, mas desta vez com mais pessoas no nosso estranho grupo.
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