Guardians II - Ethereal Spirits
11 XI - The Warriors Jaguars
Notas iniciais
Levamos um bom tempo para nos recuperarmos do que havia acontecido, principalmente Luna, que teve sua pedra roubada com tanta facilidade.
— Vocês estão bem? — Perguntei, numa tentativa tosca de acalmar.
— Sim. — Respondeu rapidamente Luna, que não parava de pôr a mão em seu punho, onde ficava sua pedra há alguns minutos. — O que foi aquilo?
Carl se aproximou de onde Dehing havia desaparecido e observou atentamente o céu nublado que liberava seus flocos de neve infinitamente.
— Loki. — Se pronunciou após um tempo. — Meu irmão está com a Pedra de Loki.
— Isso explica muita coisa. — Kendall decidiu se juntar ao garoto. — Mas acho que agora temos coisas mais importantes a resolver...
— Não! — Tentei intervir no mesmo instante. — Luna acabou de perder seu anel e poderíamos ser mortos facilmente por seu irmão. Não podemos simplesmente ignorar...
De repente Luna se aproximou de mim, interrompendo-me com um simples toque gélido de sua mão.
— Obrigado pela preocupação, mas ele tem razão Kevin. — Não há nada que possamos fazer, a não ser ajudar os Anões, que estão precisando de nós.
— Mas...
Ela balançou a cabeça, pedindo que eu parasse de falar, se virando em direção a Carl.
— Sabe onde fica a Aldeia de Rhokar?
O garoto assentiu com firmeza, se pondo a caminhar em direção a saída daquela pequena fazenda, onde não havia mais nada além de destruição.
E em menos de alguns segundos estávamos todos correndo em meio a paisagem inteiramente branca de neve, com o frio nos acompanhando a cada passo.
Carl era muito rápido, provavelmente pelo sangue de Drow que corria por suas veias, mas não ficávamos muito atrás, com exceção de Kendall. Logan e Luna corriam em ritmo síncrono, formando pegadas conjuntas lado a lado, seguidas a centímetros por mim.
Por um instante pensei que o trajeto até a vila seria fácil por inteiro, mas isso logo desapareceu quando Carl decidiu virar e pegar um atalho, praticamente escalando um morro íngreme, que me obrigava a utilizar minha espada como apoio.
Todo o caminho levou pelo menos dez minutos, até que consegui ouvir barulhos diferentes, além do forte vento que batia em meus ouvidos. Era uma mistura de metais se chocando, gritos e gemidos, além de intensos barulhos de explosões, embora não houvesse nenhum sinal de fogo pela região.
— Por ali! — Gritou Luna, que passou a frente de todos ao se transformar em um Licantropo com um único salto.
Por mais que já tenha visto várias vezes, nunca iria me acostumar com o que minha amiga fazia e muito menos com a facilidade e praticidade que havia adquirido.
Felizmente voltei a focar em nossa situação quando adentramos a floresta por inteiro, sendo obrigado a desviar de árvores a cada instante, cortando alguns galhos que surgiam no meio do caminho.
E só parei quando ouvi Kendall, há uma boa distância de nós, gritar. E, assim como Logan, me virei no mesmo instante para ver o que estava acontecendo.
— O que é aquilo? — Perguntei-me tentando enxergar melhor os vultos que rolavam e se digladiavam na neve fofa, chocando contra árvores.
Além de Kendall havia alguém com uma espécie de roupa amarela e traços pretos, semelhantes ao de um felino. A ferocidade em que o ser se movimentava e atacava chegava a ser assustadora, o que me obrigou a intervir.
— Kevin. — Chamou Logan quando me pus a correr.
— Vou ajudar Kendall. — Gritei em resposta. — Alcançamos vocês depois. Vão!
Logan aparentemente assentiu, mas eu não tinha tempo para saber se aquilo era uma permissão, pois logo acelerei meus passos, me aproximando cada vez mais dos dois.
Com a aproximação pude ver claramente o que era aquela criatura, que nada mais era que um homem, usando uma roupa de onça-pintada, com garras em sua mão e um escudo nas costas.
Não hesitei em saltar em direção ao homem, tirando-o de cima de Kendall, que logo se pôs em pé ao se recuperar.
Minha primeira tentativa de derruba-lo foi em vão, assim como todas as outras, pois o homem era infinitamente mais rápido do que Kendall e eu, por mais que estivéssemos trabalhando junto. E em meio as investidas consegui ser atingido pelas garras do homem em meu braço, que causou uma dor momentânea, mas nada demais.
— Quem é você? — Gritei, mas a única resposta que obtive foi um rugido idêntico ao de uma onça selvagem.
— Ele não sabe falar mais do que isso.
A brincadeira de Kendall deve ter irritado o homem, pois ele logo saltou em direção ao garoto, derrubando-o mais uma vez.
— Engano seu. — Respondeu a criatura com uma voz fina e felina. — Nós guerreiros sabemos falar qualquer idioma, desde os mais antigos até os recentemente criados.
— E o que você quer com a gente?
Com um único sorriso, o guerreiro mostrou suas presas afiadas e brilhantes, que poderiam rasgar nossa pele com muita facilidade. E ao ver aquilo, o meu instinto falou mais rápido, levando minha mão em direção a Kólasi.
— Como vocês estão atrapalhando nossos planos, preciso eliminar cada um de vocês.
E num único movimento ele já havia saltado em minha direção, obrigando-me a ser mais rápido, sacando minha espada.
— Não pode ser... — Murmurou com dificuldade o guerreiro ao ver seu peito sendo atravessado pela lâmina, enquanto era congelado pelo Fogo Negro.
Assim que ele foi imobilizado pelo gelo, retirei a espada, deixando-o em pedaços no chão.
— Por que todos querem nos matar? — A pergunta de Kendall era algo que eu fazia todas as manhãs quando acordava, ou todas as vezes que tentavam nos matar.
— Me pergunto isso há muito tempo.
Não tivemos muito tempo para pensar sobre o guerreiro morto abaixo de nós, pois logo ouvimos um rugido vindo da mesma direção em que o homem havia surgido.
— Fodeu... — Sussurrei ao ver uma dúzia de guerreiros idênticos ao que enfrentamos.
Começamos a correr desesperadamente sem pensar duas vezes, procurando pelos outros e esperando por ajuda.
— Eles estão chegando. — Gritou Kendall ao ver os tais guerreiros se aproximando de nós com uma velocidade muito superior. — Não vamos conseguir.
Naquele instante eu já estava segurando firme o cabo de minha espada, esperando pelo momento em que eles surgissem na nossa frente para nos atacar.
Hades, por favor.
Não tema meu jovem. Por um segundo eu quase tive um surto, com uma sensação de susto e felicidade.
Hades?
O que foi?
Nada... Só estou feliz que esteja vivo.
Mas eu não estou vivo, você sabe disso.
Esquece! Agora não tenho tempo pra explicar.
Eu sei, apenas pare de correr.
As palavras do deus não faziam o menor sentido naquela hora, fazendo-me perguntar se realmente era ele quem estava falando comigo.
— Kevin. — Ouvi Kendall chamar por meu nome, apontando para duas árvores grossas e não precisou de muito para que eu entendesse o que ele queria dizer.
Na mesma hora acelerei o máximo que pude, saltando para trás da árvore numa tentativa de me esconder dos homens felinos.
Em menos de alguns segundos os mesmos passaram por nós num piscar de olhos, mal dando tempo para distinguir seus rostos.
Por que eles não atacaram?
Eles não estão atrás de vocês. Respondeu o espírito em minha mente. Aqueles são Guerreiros Jaguares, soldados de elite do antigo Império Asteca.
Tá, e daí?
E daí que eles são bem específicos em suas missões e provavelmente estão atrás da Pedra Divina que está entre os anões.
E como você sabe disso?
Eu sinto sua energia, é bastante intensa.
O breve momento em que nos escondemos foi o suficiente para que Kendall e eu recuperássemos o fôlego, ainda que não tivéssemos totalmente a salvos.
E quanto ao outro lá atrás?
Era um Guerreiro Jaguar de isca, muitos deles se sacrificam para que os mais fortes possam ir atrás da verdadeira missão.
— Como se não bastassem os Drows, agora temos mais isso aí. — Resmungou Kendall, saindo de trás da árvore e indo de encontro a mim. — Você está bem?
Por mais que já tivesse me recuperado o suficiente, ainda sentia meus peitos queimando por dentro, deixando minha respiração mais difícil.
— Estou. — Menti, procurando uma grande quantidade de oxigênio. — Precisamos ir ajuda-los.
— Certo.
E então, mais uma vez, nos pusemos a correr feitos loucos na direção da batalha, embora parecesse que nunca íamos chegar.
— Ali. — Apontou o garoto numa direção além das árvores, onde havia um corpo inerte no chão.
Assim que nos aproximamos foi fácil distinguir um anão morto, principalmente pelo seu tamanho e pela barba grossa. Não dava pra saber pelo que ele havia sido morto, já que estava virado de barriga para baixo, mas eu não estava muito afim de descobrir.
— Estamos pertos.
De repente ouvimos um uivo, vindo não muito longe de onde estávamos, que fez com que Kendall e eu nos entreolhássemos.
— Luna.
Pela última vez corremos pela floresta, passando pelas árvores e afundando na neve fofa, que diminuía cada vez mais, até chegarmos numa espécie de clareira, onde toda a neve havia desaparecido, dando lugar a uma vila pequena e com casas ainda menores.
Rapidamente imagens de toupeiras surgiram a minha frente, correndo de um lugar ao outro de Drows. Porém, eu sabia que não eram animais, até que lembrei da Visão Mística, tentando-me concentrar no que havia realmente ali. Depois de alguns segundos, as toupeiras se transformaram em anões, muito semelhantes ao que havíamos encontrado momentos antes. Havia uma grande desvantagem numérica em comparação aos Drows, que dizimavam com facilidade os pequenos homens e mulheres.
E, graças a uma visão rápida e panorâmica, pude ver com facilidade algumas cenas, tais como Luna saltando entre um grupo de Elfos Negros e outros, enquanto Logan, ao lado de Carl, tentavam afastar os mesmos do centro da vila, onde várias crianças estavam se escondendo nos braços de suas mães. Mais adiante estava Icu, destruindo tudo o que via pele frente, inclusive árvores e casas desabrigadas.
Porém, o que mais me chamou a atenção foram duas figuras distintas entre todos ali e era a mesma cena que Silver nos mostrara durante a reunião. Duas garotas batalhavam com dezenas de Drows e Guerreiros Jaguares, tornando a luta bastante equilibrada, por mais que estivessem em desvantagem. Uma das garotas possuía longos cabelos loiros e uma beleza inimaginável, com olhos verdes e naturais e com feições puramente élficas, porém sua imagem agradável e bela não deveria ser confundida, pois parecia tão feroz quanto qualquer um ali, batalhando com vários Guerreiros Jaguares ao mesmo tempo e usando técnicas desconhecidas para mim. Já a outra era bastante diferente, porém extremamente bonita também, com uma pele morena e bronzeada, longos cabelos negros e uma expressão dócil, porém ela parecia confusa e se recusava a lutar, por mais que fosse obrigada a sobreviver em meio à batalha.
Não sabia se as duas poderiam ser aliadas nossas, mas diante da situação elas pareciam estar nos ajudando, o que já era um bom sinal para mim.
— Kevin! — Gritou Logan, chamando minha atenção para um ataque repentino de um Drow.
O oponente não me parecia tão forte, pois foi abatido com facilidade pela minha espada quando a brandi num corte horizontal, nocauteando-o. Porém, mesmo sem ser ferido pelo Drow, meu braço se incendiou de dor, como se mil agulhas tivessem penetrado minha pele. Como um instinto, olhei na região onde formigava e vi as marcas das garras que o Guerreiro Jaguar havia feito, totalmente negras e infeccionadas.
Tentei ignorar aquilo, pois sabia que só iria me atrapalhar em meio a batalha, mas estava sendo difícil, pois cada vez que tentava atacar um dos Drows a dor aumentava. A respiração se tornava ainda mais árdua e pesada. O desespero aos poucos já tomava conta de meu corpo e eu não conseguia lutar contra.
Tendo noção de minha incapacidade, decidi ficar imóvel onde estava, utilizando os poderes que a pedra me permitia, mas nem assim a dor diminuía e só conseguia tirar minha energia, até me esgotar e me derrubar de joelhos no chão.
Aquela minha fraqueza acabou sendo um prato cheio para os Drows que estavam próximos, vindo em minha direção para aproveitar o momento e me eliminar da batalha.
O primeiro movimento foi doloroso, acertando-me em cheio na cara e fazendo com que minha boca se enchesse de sangue com um gosto horrível de ferro. Minha cabeça chegou a latejar nos golpes seguintes e eu já não conseguia distinguir quantos estavam sobre mim.
Em um mês, essa já era a milésima vez que deixei a sorte falar por si mesma já que não tinha mais jeito de eu ficar ali, batalhando contra a morte. E não demorou para a sorte surgir, ou no caso a minha salvação.
Uma espécie de serpente fantasma surgiu de repente, engolindo os Drows que me atacavam ferozmente e os levando para longe. Após isso uma mão surgiu em minha testa, uma mão fria e suave, que conseguiu me acalmar no mesmo instante.
— Tudo vai ficar bem, acalme-se. — A voz era doce e harmoniosa e quando abri os olhos vi que a responsável por ela era a garota que havia visto momentos antes que se recusava a batalhar contra os demais.
A última coisa que vi foi um sorriso tranquilo que me fez perder a consciência e apagar por completo.
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