Guardians II - Ethereal Spirits
8 VIII - Ethereal Spirits
A mão de Silver logo surgiu quando tentei me aproximar do abismo a nossa frente no qual Luna havia se jogado.
— Tua amiga retornará em breve. — Prometeu o homem com tamanha tranquilidade que chegava a me irritar.
— Como sabe disso?
De repente ele se virou para a escuridão novamente e apontou para algo além de minha visão. Tentei procurar o que ele me mostrava, mas não havia nada além da vasta negritude a minha frente. Pelo menos até um pequeno ponto brilhante surgir.
— O que é aquilo? — Kendall havia se aproximado ao lado de Carl para tentar enxergar melhor o que havia ali.
Conforme o ponto se aproximava de nós, mais brilhante ele se tornava, mas era impossível distinguir o que ele realmente era, até mesmo quando ele ficou tão próximo de nós que chegou a ofuscar minha visão.
— Dika. — Lembrava perfeitamente de Silver chamando minha amiga por aquele nome enquanto estávamos naquela casa abandonada.
Assim que a claridade diminuiu pude abrir meus olhos e ver o que estava acontecendo.
— Mas...
Na verdade não havia absolutamente nada de estranho diante de mim e a luz que brilhava nada mais era do que a própria Luna, que parecia tão confusa quanto nós.
— O que está acontecendo?
A pergunta de Kendall era o que mais me angustiava mentalmente, pelo menos até Luna responder... Ou quase isso.
— Sinto muito não ter me apresentado antes. — Respondeu uma voz envolvente que emitiu um brilho fraco ao redor de minha amiga, atravessando seu corpo assim como a mulher havia feito comigo quando cheguei a esse lugar. — Eu sou Dika, o Espírito da Justiça.
A mulher era nitidamente visível e quase era impossível perceber que ela era tangível, a não ser por algumas luzes que atravessavam seu corpo com facilidade.
Luna estava com os olhos arregalados de medo ou talvez surpresa enquanto observava Dika.
— Você estava em meu corpo todo esse tempo?
Ela se virou e olhou para minha amiga com seus olhos inteiramente brancos, sem nenhuma pupila no centro. Assim que ela se virou pude ver uma espada em suas costas que estava quase oculta pelos cabelos castanhos da mulher.
— Eu precisava de um hospedeiro para me fortalecer, sinto muito não ter pedido sua autorização, mas meus objetivos precisavam ser cumpridos o quanto antes. — Disse ela livremente. — Você é uma grande guerreira Luna, não poderia ter escolhido hospedeira melhor.
— Obrigada, eu acho. — Minha amiga continuava confusa, assim como eu.
Silver estendeu a mão novamente em direção a escuridão, fazendo com que a parede branca tornasse a surgir.
— Acompanhem-me... — Pediu ele, tornando a caminhar ao lado de Dika. — Posso esclarecer vossas dúvidas.
Fomos levados então pelo mesmo caminho que havíamos feito, porém não entramos pela ala hospitalar onde Cleo se encontrava, continuando a seguir reto até alcançar o lugar em que eu e os demais tínhamos surgidos.
— Kenychi. — Silver chamou pela mulher que estava vindo pelo corredor ao lado de Logan.
Meu amigo estava sem camisa e claramente dava para ver o quanto ele mudou dentro de um mês, passando a ficar ainda mais forte do que antes. Porém, o que mais chamou minha atenção foram suas cicatrizes enroladas por uma faixa grossa que envolvia totalmente seu abdômen, com algumas manchas vermelhas de sangue ao redor. Seu braço direito também estava enrolado, com um apoio ao redor do pescoço para segura-lo.
— Ele se recusou a ficar com o outro garoto, por isso decidi trazê-lo. — A mulher respondeu tranquilamente e com um sorriso de felicidade no rosto que parecia não desaparecer.
— E como está Patrick? — Kendall rapidamente perguntou ao ver a situação de Logan.
— Ele ainda não acordou e está respirando com dificuldades, mas acho que tudo vai dar certo, ele só precisa descansar agora. — Kenychi lançou um olhar a Silver e depois a mulher que estava ao lado de Luna, ambas parecendo familiar. — Dika!
No mesmo instante ela saltou em direção ao espírito, abraçando-a como se já se conhecessem.
— Sinto muito sobre sua irmã... — Kenychi possuía uma felicidade e esperança bastante contagiante, que fez a outra sorrir, mesmo expressando um semblante de tristeza. — Iremos encontra-la, pode ter certeza disso.
Dika somente assentiu, se afastando um pouco de nós, enquanto Silver pedia que o acompanhássemos até uma sala que fosse melhor para conversar.
— Antes de tudo preciso lhes mostrar algo. — Falou o homem assim que entramos em uma sala menor, com cadeiras ao redor de uma mesa dourada e algumas frutas sobre ela, que podíamos comer a vontade.
Silver lançou uma esfera de metal sobre a mesa que rolou até o centro e se fixou misteriosamente, rodando logo em seguida até começar a projetar uma espécie de holograma futurístico a nossa frente.
— Acabou de ocorrer em Buenos Aires, na Argentina. — A projeção mostrava uma cidade inteira tomada pelo caos entre os moradores, com dezenas de mortos pelas ruas da cidade, diversas casas e carros em chamas, enquanto vários cidadãos se espancavam feitos loucos. — E isto em Lisboa, Portugal.
A cena mudou, mostrando uma cena familiar a anterior, a não ser pelo fato do lugar ser diferente. Mortos e mais mortos se espalhavam pelas ruas, com muitas pessoas saindo de suas casas e invadindo os lugares.
— Por Odin! — Exclamou Carl, uma expressão nova que nunca havia ouvido antes. — Eles ficaram loucos?
— Não. — Respondeu Silver, batendo palmas e fazendo a projeção mudar mais uma vez, mostrando várias cenas idênticas em diversos lugares. — Estes incidentes são de cidades menores na Espanha, Brasil e Canadá.
— Mas o que está acontecendo?
— Vingança... — Murmurou o homem, ainda com as cenas em exibição, que faziam Luna evitar olhar para elas.
Aquele era um sentimento que raramente eu possuía, pois nunca fui de guardar rancor e muitos pensam assim, pelo menos era o que eu acreditava até ver as imagens.
— Mas isso é um absurdo. — Tentou protestar Logan. — Como todas as pessoas da mesma cidade decidiram se vingar ao mesmo tempo e a ponto de matar?
— Ainda não lhes mostrei tudo. — Tornou a falar o homem, pondo as duas mãos sobre a mesa e arrastando-a como se quisesse expandir alguma coisa em touchscreen.
De repente a cena foi ampliada de tal modo que não mostrava-nos mais as ruas banhadas de sangue ou a cidade em caos, mas o globo terrestre em si. Uma vastidão azul com menos de um terço de continentes espalhados e com formas que já me eram familiares.
Silver moveu sua mão novamente, reduzindo a visão até algum lugar próximo ao Japão. No entanto, a única coisa que víamos era água e algumas formas de animais marinhos que não conseguia definir com precisão.
— Esta é Kamaishi, uma cidade localizada na costa leste do Japão. — A imagem se transformou rapidamente e mostrou mais uma cena de inundação, desta vez com algumas casas destruídas e não somente uma parte da floresta. — E esta é a Baía de St. Francis, na África do Sul. Ambas atingidas pela água semana passada.
— Felizmente não é uma região muito povoada e com constantes inundações, por isso os humanos estão pensando que foram causas naturais. — Explicou Kenychi.
O simples fato de ela deixar claro que não foram causas naturais me deixou curioso e assustado, pois se alguém poderia fazer aquilo, com certeza estaríamos em grandes riscos.
— E por fim... — Pela última vez o holograma mostrou-nos outras imagens, sendo elas vários vulcões mostrando a fúria e entrando em erupção, causando destruição por onde a lava e a nuvem de fumaças passasse. — Três vulcões considerados inativos entraram em erupção ontem à noite, atingindo cidades dos Estados Unidos e do Equador.
— Está acontecendo o apocalipse e ninguém me avisa? — O tom de Kendall poderia ter soado uma brincadeira, mas no fundo eu sabia que não era, não diante do que vimos.
— Pode não ser o verdadeiro fim do mundo, mas está relativamente próximo de algo similar. — A voz de Silver era a única coisa que se podia ouvir naquele lugar além da respiração profunda de cada um. — E é por isso que lhes trouxe a este lugar.
Mais uma vez o silêncio predominou o ambiente enquanto fitava a pequena esfera a nossa frente que ainda nos mostrava a cena devastadora causada pela lava.
— Mas o que é exatamente este lugar?
A pergunta de Luna ainda martelava em minha cabeça, por mais que Silver tenha respondido quando perguntei.
— O Plano Etéreo. — Respondeu pela segunda vez o homem, deixando-me ainda confuso e sem explicações.
— É o lugar onde os Espíritos Etéreos, como Dika e eu, podemos nos manifestar livremente e recuperar toda nossa energia primordial. — Kenychi parecia ter notado a minha expressão, pois logo tratou de explicar com melhores palavras. — Magos e Feiticeiros costumam utiliza-lo como um refúgio quando necessário, por isso fundem uma parte do Plano Etéreo com o Plano Material.
— É muita informação de uma só vez... — Falei, tentando absorver aquele conhecimento.
Dika se mexeu inquieta no mesmo instante, e por sinal era a única que preferira ficar em pé, apenas observando.
— Quando o Criador deu vida ao universo como é conhecido, cada essência dessa manifestação precisava ser concentrada em um único lugar. — Começou a explicar de maneira mais simples a mulher. — Foi assim que nascemos.
— Exatamente. — Ambos os espíritos explicavam sincronicamente. — Somos manifestações das forças da natureza, da emoção e dos sentimentos.
— Kenychi é o Espírito da Bondade, enquanto eu sou o Espírito da Justiça. — Naquele momento tudo passou a fazer sentido quando interliguei os momentos em que Luna parecia distante e diferente.
— Por causa da dimensão de nossos poderes não podemos nos manifestar livremente no Plano Material, a camada que os seres humanos e outras raças existem, limitando-nos aos Planos que podem abrigar os espíritos como nós.
“Justamente por isso utilizamos hospedeiros para visitar o mundo físico e como consome muita energia nossa, acabamos preferindo ficar por tempo indeterminado em pessoas dignas de nossas manifestações, que possam nos fortalecer.”
— Quantos Planos existem? — Perguntou Logan demonstrando sua típica curiosidade.
— Temos ciência de somente três: o Plano Material, Etéreo e o Espiritual, onde abriga todas as almas. — Quem respondeu foi Silver, puxando para si a esfera e guardando-a. — Mas presume-se que há dezenas de outros Planos e até mesmo camadas internas em cada um deles.
— No momento estamos no Plano Etéreo então?
— Não exatamente. — Respondeu o homem novamente. — Esta é uma camada entre o Plano Material e o Etéreo que eu criei, por isso conseguimos utiliza-la, caso contrário seriamos desintegrados pela energia dos Espíritos.
— Ai meu cérebro... — Reclamou Kendall, se inclinando na cadeira e esfregando os olhos.
— Mas de qualquer jeito. — Retomou Dika. — O que Silver nos mostrou foi uma influência dos Espíritos em seu mundo. Estou certa?
Ele assentiu de leve, tomando para si uma expressão carrancuda e séria.
— Alguns Espíritos estão sendo caçados e capturados pelos Servos das Trevas, seres que denominamos estarem interligados de alguma maneira entre si.
— Como Zargron?
— Sim. — Falou o homem, balançando a cabeça. — Como já disse à Dika antes de sermos atacados pelos Drows, há dois anos sua irmã, Kiuchi, fora raptada por esses seres.
— Minha irmã representa o sentimento de vingança que reside em cada ser vivo. — Não precisou de muito para que eu fizesse a ligação entre o acontecido com as imagens que Silver havia nos mostrado.
— Além dela, Charz e Retw também desapareceram. — Prosseguiu o velho. — O Senhor do Fogo e a Rainha da Água, respectivamente.
Tudo aquilo fazia sentido diante dos acontecimentos mostrados, mas havia algo me incomodando...
— Se eles foram capturados há tanto tempo assim, por que só agora que isso está acontecendo?
— Zargron... — Para minha surpresa, quem sussurrou o nome do Anjo Negro havia sido Luna.
— Exatamente. — Concordou Silver. — Com sua morte, é provável que ele tenha sido substituído por alguém que tenha conhecimentos ainda maiores.
— Por isso precisamos da ajuda de vocês. — Pediu Kenychi com um sorriso simpático e com o olhar brilhando. — Sabemos que foram vocês quem mataram Zargron, sendo assim não há ninguém melhor para confiarmos. O que acham?
Naquele momento todos se entreolharam e eu sabia que não havia motivo para ninguém hesitar ou recusar. Aquele era nosso destino a partir de agora e precisávamos impedir que o mundo fosse destruído.
— O que querem que façamos?
Fale com o autor