Notas iniciais
Na verdade era para esse capítulo ter umas 4.000 palavras, mas vou dividi-lo em duas partes para não ficar muito grande.

A escuridão não demorou muito para me engolir por inteiro, tendo os últimos vislumbres de meus amigos sendo deixados para trás.

A sensação era de cair eternamente sem poder ver nada do que estava ao meu redor, nem mesmo a mim ou a minha espada, que na maioria das vezes podia emitir um brilho fraco.

A temperatura permanecia a mesma, mas o fato de eu estar caindo e apavorado com tudo o que estava acontecendo fazia com que fosse ainda mais agonizante a sensação.

“Kevin?”

Ouvir a voz de Logan em minha mente serviu para me reconfortar e lembrar-me do motivo de estar fazendo aquilo, fazendo com que meu foco voltasse a escuridão plena ao redor.

“Estou vivo ainda, não se preocupe.”

E então relatei a ele a sensação e o que eu havia descoberto até então, embora a queda ainda continuasse infinita e a escuridão a me engolir.

De repente eu senti um vento contrário a queda diminuir a minha velocidade, enquanto as paredes ao meu redor começavam a diminuir de tamanho, fazendo com que eu encostasse meu braço nas mesmas. Se não fosse pelas grossas camadas de agasalhos que estava usando eu poderia ter me machucado feio.

“Espera um pouco...”

Naquele momento eu notei a presença de uma luz fraca abaixo de mim, mesmo que eu não pudesse distingui-la ou saber de onde vinha.

Fechei os olhos, esperando pelo que estivesse no fim, mas foi somente quando eu atravessei o portal luminoso que minha queda terminou, caindo em pé e sem ao menos me machucar.

Ao abrir os olhos me encontrei em um lugar luminoso e extremamente sofisticado. Com paredes douradas e detalhes entalhados em cada canto. Mobílias em perfeito estado com diversos apetrechos modernos nos quais nunca havia visto antes. Tudo se parecia com um ambiente mágico vindo de um filme que misturava elementos de ficção cientifica com fantasia.

— Uau! — Foi a única coisa que consegui falar ao ver tanta beleza num só lugar.

Rapidamente me contatei com Logan através da nossa Conexão Psiquê, pedindo que eles pulassem na fenda já que aquele lugar aparentava ser seguro.

— Olá. — A voz surgiu enquanto eu observava alguns itens estranhos sobre a mesa e imediatamente pulei de susto, segurando firme o cabo de minha espada na bainha.

Deparei-me com uma mulher ao virar, com cabelos morenos e uma pele branca como a neve, além de olhos azuis e serenos. Havia uma bondade implícita nela que me fazia sentir uma paz interior nunca vista antes.

— Quem é você? — Perguntei de imediato, soltando a mão da espada sem que eu percebesse.

Ela exibiu um sorriso dócil, fechando os olhos e caminhando em minha direção sem parar. Por um instante pensei que fosse trombar comigo sem nenhum motivo, mas ela simplesmente atravessou meu corpo como se eu não estivesse ali. Somente pelo nosso “contato” pude ter uma sensação boa e revigorante que me tranquilizou.

— Você é um fantasma? — Foi a minha primeira suposição, mas eu tinha quase certeza que estava errado já que não sentia sua alma naquele lugar.

A presença da mulher parecia inexistente e por um momento pensei que estivesse louco e imaginando ela, mas foi logo em seguida que Kendall surgiu desesperado e com uma expressão de terror.

— Kevin! — Gritou o garoto, correndo em minha direção quase sem folego.

Havia um corte profundo em seu ombro e eu tinha certeza que não havia um ferimento daquela profundidade, a não serem os que Carl havia feito, antes de eu saltar pela fenda.

— O que aconteceu?

Levou algum tempo até que ele recuperasse o folego, mas assim que conseguiu a primeira coisa que fez foi olhar para a mulher, que estava distraída mexendo com algumas coisas sobre a mesa.

— Quem é... — Kendall começou a perguntar, mas logo balançou a cabeça, tomando foco. — Não importa. Os Drows invadiram a casa.

No mesmo instante surgiram Luna e Cleo no mesmo lugar em que Kendall e eu havíamos aparecido momentos antes. Cleo estava com a flecha ainda cravada em sua perna e andava com dificuldade enquanto se segurava em Luna.

— Patrick ficou para esperar o homem. — Disseram assim que nos aproximamos delas.

Não levou mais de um minuto para que Logan e Carl surgissem também, ambos com ferimentos tão graves quanto os de Kendall.

— Me ajudem aqui... — Pediu Carl, que precisava segurar meu amigo para que ele não caísse.

Havia muito sangue escorrendo de sua testa e parte de seu abdômen, no qual havia sido cortado, rasgando as roupas e penetrando a pele.

Senti que ele estava completamente sem energia no momento em que nos tocamos e meu desespero logo aumentou.

— Onde está Bob? — Perguntou Logan fraco demais para falar normal, apenas com um sussurro.

— Você está quase morrendo e está mais preocupado com o cachorro do que com você? — Luna estava próxima a nós, ajudando Cleo a se deitar enquanto Kendall examinava a flecha em sua perna.

De repente a mulher surgiu entre nós, atravessando meu corpo mais uma vez, o que me deixava angustiado já que era uma sensação estranha. Todos a olharam sem saber o que fazer exatamente, até que ela se manifestou primeiro.

— São muitos... — Comentou, provavelmente se referindo a nós. — Silver não avisou que teríamos visita.

Ela então se afastou de nós, desaparecendo logo em seguida ao virar e entrar em um corredor quase invisível pelas paredes brancas.

— Patrick... — De repente Kendall e Cleo sussurraram o nome do garoto ao mesmo tempo, entreolhando-se em seguida.

Eu sabia sobre a Conexão Psiquê que ambos tinham separadamente com Patrick e sabia também o quão forte podia ser essa ligação, o que me levou a crer que algo de ruim havia acontecido.

Meu palpite foi rapidamente respondido quando o homem que havia criado a fenda surgiu, segurando o corpo inerte de Patrick em seus braços.

O desespero rapidamente tomou conta de cada um de nós ao ver a cena, principalmente Cleo que tentou se levantar, mas acabou cedendo e caindo devido a forte dor.

— Ele está... — Luna não conseguiu terminar sua pergunta, pois evitava usar aquela palavra que há tanto tempo nos acompanhava.

— Não. — Respondi rapidamente, na intenção de tranquiliza-los.

Podia sentir a energia vital de Patrick se esvaindo lentamente e se não tomássemos uma providência, muito provavelmente ele não resistiria.

— Kenychi! — O grito do homem ecoou por todo o salão, que por sinal era bem grande e alto.

Não levou muito para que a mesma mulher que havia virado no corredor surgisse novamente, trazendo consigo duas macas grandes o suficiente.

Com ajuda colocamos Patrick e Logan, que eram os que mais precisavam de cuidados naquele momento e então a tal Kenychi caminhou rapidamente, levando-os pelo corredor e desaparecendo logo em seguida.

— Não se preocupem. — Assegurou o homem com um olhar sereno sobre nós. — Kenychi é uma exímia curandeira e saberá o que fazer com vossos amigos.

Por mais que ele tentasse nos passar tranquilidade em sua voz, sabia que nenhum de nós conseguiria manter a calma naquele momento.

— Agora peço que me acompanhem. — Pediu o homem, se virando e indo em direção a outro corredor. — Também cuidarei de teus ferimentos.

Com dificuldade, ajudei Luna a levar Cleo, já que Kendall e Carl também estavam feridos, mas nada tão grave que não os permitissem andar.

O corredor, inteiramente branco por sinal, eram bem largo e parecia não ter fim. Poucas portas de madeira surgiam ao meu lado e parecia guardar tantos segredos quanto o homem. Além disso, o lugar era tão limpo que a sujeira que fazíamos era rapidamente absorvida pelo chão.

— Por favor. — Ele parou em frente a porta, estendendo a mão para dentro pedindo que entrássemos.

A sala era tão clara quanto o corredor, com as paredes também brancas, mas com alguns quadros que exibiam uma bela pintura verde da natureza. Havia também algumas mobílias com frascos de vidros, além de duas macas idênticas com as que a mulher havia surgido momentos antes.

Com ajuda, Cleo deitou sobre uma delas, tomando cuidado para não se machucar ainda mais com a flecha em sua perna. Enquanto Carl apenas se sentou, segurando um pedaço de pano que Kendall havia lhe entregado para estancar o sangramento em sua cabeça.

— Devem ter muitas indagações. — Disse o homem distraidamente enquanto colocava algumas luvas plásticas.

Kendall foi o primeiro a se manifestar, enquanto tirava sua jaqueta rasgada já que ali não fazia tanto frio quanto o mundo real.

— Uma delas é por que você fala assim... — O garoto falou em tom baixo na intenção de que ele não ouvisse, mas o homem logo respondeu.

— Sou um Mago de renome, meu jovem. — Ele não aparentou orgulho ou arrogância ao falar aquilo, apenas estava concentrado na flecha de Cleo que pelo visto estava profundamente cravada em sua perna. — E para isso preciso me comportar como tal, mas se isso lhe incomoda tanto posso adequar-me aos seus hábitos infames.

O homem então lançou um olhar em direção a Kendall, que estava um pouco envergonhado.

— Não senhor, não precisa. — Respondeu rapidamente.

— Ótimo.

Ele então voltou a se concentrar na flecha, arrancando-lhe vagarosamente para não causar maiores estragos no músculo da perna de Cleo.

A garota não expressava nenhuma reação de dor, apenas de curiosidade, o que me deixou confuso já que pela profundidade do ferimento ela deveria estar gritando.

— Podem chamar-me de Silver. — Se apresentou sem olhar para nós. — Como já havia dito, sou um Mago de renome, retendo comigo o título de Segundo Mago Mais Poderoso.

— Eu já ouvi falar de você... — Disse Cleo de repente. — Meu pai admirava o senhor.

— Muito gratificante saber minha jovem. — Falou ao retirar a flecha de sua perna por completo, mostrando o projétil ensanguentado e uma ferida aberta no lugar, que escorria o líquido vermelho, sujando a maca. — Sentes?

Ele então pressionou o ferimento com um pano, mas Cleo não expressou nada além de indiferença.

— Não. — Disse, surpresa. — O que você fez?

Silver se afastou, procurando por alguma coisa numa gaveta logo em seguida.

— Retirei tua sensibilidade, mas o efeito não durará por muito tempo. — Avisou, pegando uma gaze com algumas espécies de ervas. — Ingira isto.

Ela pegou a erva que Silver lhe entregou e engoliu sem hesitar, demonstrando algumas caretas ao ingerir.

— Folha de Mandrágora. — Informou o homem com um sorriso. — Vai lhe ajudar a suportar a dor no lugar, mas evite se locomover por hoje.

Silver então se virou e foi em direção a Carl que possuía ferimentos maiores e mais profundos.

— Se você é o segundo mago mais poderoso do mundo, quem é o primeiro? — Não sei se a pergunta de Luna chegou a ser ofensiva, mas Silver olhou de relance para minha amiga como se não tivesse gostado muito.

— Conhecido como Ametista, o Mago Supremo. — Era possível reconhecer um certo desprezo no tom de voz do homem, o que me deixou curioso para saber a história por trás daquilo. — Com o poder da imortalidade, Ametista sabe respostas de perguntas que ninguém ousa fazer.

— Você acha que ele poderia nos ajudar a descobrir quem é que está por trás de tudo isso? — Foi a primeira coisa que pensei quando Silver explicou o quão poderoso o tal Ametista poderia ser.

O ferimento de Carl até então já havia sido limpo e agora ele se encarregava de enrolar a cabeça dele com uma gaze, tapando-lhe o olho direito inclusive.

— Certamente. — Por mais que aquela palavra me deixasse esperançoso tinha certeza de que havia algo a mais por trás disso. — Mas não aconselho a recorrerem a isto.

— Deixa eu adivinhar, ele é do mal. — Por um instante pensei em falar, mas Kendall já havia dito antes que eu pudesse ter a chance.

— A realidade é um pouco mais complexa que isso, mas por ora sim. — Foi tudo o que ele disse, terminando de tratar dos ferimentos de Carl. — Não faças movimentos que exijam forças, pois poderá romper a cicatriz.

Após lavar a mão num silêncio incômodo, Silver se virou e olhou para cada um de nós com curiosidade.

— Sois um grupo diferente de qualquer outro que já tenha visto. — Por mais que parecesse ofensivo, ele tinha razão.

Até então não havia percebido a grande variedade de seres entre nós, o que me levou a crer que, independente da raça, a ajuda poderia vir de qualquer um.

— De qualquer maneira... — Continuou o mago, caminhando até o corredor novamente. — Sigam-me, preciso lhes mostrar algo.

Silver nos levou em silêncio pelo corredor, com exceção de Cleo, que preferiu ficar deitada, mesmo propondo ajuda a ela. E o que eu pensei que não havia fim, na verdade era só uma ilusão de ótica, mesmo que aquele lugar fosse praticamente infinito.

— Parem. — Pediu, colocando a mão na parede do final do corredor, que emitiu um brilho forte e mostrou algumas figuras estranhas sobre ela, até desaparecer por completo e dar lugar a uma vastidão sombria e infinita a nossa frente.

— O que é isso? — Perguntei ao ver aquela cena amedrontadora que me chegava a dar calafrios.

Ele se afastou e olhou para Luna.

— O Plano Etéreo. — Ainda fixando seu olhar em minha amiga deu mais alguns passos, abrindo espaço e permitindo que ela avançasse e se aproximasse da vastidão do escuro.

— Luna...

Mesmo chamando seu nome, ela continuou a caminhar até parar a centímetros de distância. Ela não parecia estar no controle do seu corpo, pois logo que tentei impedi-la, ela simplesmente saltou e desapareceu na escuridão em questão de segundos.

— Luna!

Notas finais
Vish