Guardians II - Ethereal Spirits
6 VI - The Dark Abyss
Notas iniciais
No exato momento em que o homem havia chegado na casa, todos os meus amigos voltaram ao normal, assustados e confusos com o que estava acontecendo, sendo que Logan e Kendall reclamavam dos golpes que havia tomado e de seus ferimentos próximo a boca.
Os olhos do homem brilhavam uma luz branca, que era refletida pela claridade que entrava pelas janelas da casa. Não havia nada de ameaçador em seu tom ou sua expressão, mas o simples fato dele estar ali, parado, nos observando chegava a me dar calafrios.
— Meus amigos e eu estávamos... — Comecei, ao perceber que ele ainda esperava por uma resposta.
Mas no mesmo instante em que comecei a falar, ele logo me interrompeu, lançando-me um olhar rápido.
— Não estou falando com vocês. — Disse, ao finalmente entrar na casa, fechando a porta atrás dele.
Sua intenção não aparentava ser grosseira, embora tenha sido um tanto. Mas isso não importava, e sim o fato de que algumas risadas infantis surgiram novamente, deixando-me irritado.
— Não me obriguem a usar o Olho de Hórus, pois não estou com paciência para isso. — O senhor retirou seu casaco, pendurando-o em seguida, já que do lado de dentro da casa não estava tão frio quanto o lado de fora.
Mais algumas risadas soaram em silêncio e em todos os lugares, deixando-nos ainda mais confusos, até que o homem se afastou e olhou em nossa direção.
— Vocês poderiam se afastar um pouco?
Nenhum de nós hesitou, fazendo o que ele havia pedido. Assim que nos afastamos, ele posicionou seu indicador e seu polegar à frente, formando um triângulo com a mão e apontando-o onde estávamos há alguns segundos.
— Eru epiku Máti tu Her’ur. — As palavras que foram ditas não faziam o menor significado para mim, mas eu podia sentir o peso delas e a pureza no ar.
E as coisas não pararam por aí, pois logo que ele as disse, uma luz surgiu do espaço entre seus dedos e iluminou a região na qual estava apontando, fazendo com que as risadas cessassem e se transformassem em gritos de dor.
Não levou muito tempo para que as pequenas criaturas se revelassem de forma nítida, não se escondendo mais em vultos de sombras.
Havia em torno de cinco seres extremamente minúsculos, por volta de 10 cm de altura e com uma semelhança incrível. Todos possuíam os narizes e as orelhas desproporcionais a cabeça, assim como seus pés, que chegavam a ser maiores que as próprias pernas, mas que nada atrapalhavam na maneira de se locomoverem. As roupas eram de tom verde, assim como o pequeno chapéu pontudo em suas cabeças.
— Não podemos mais brincar? — Disse uma das criaturas, com uma voz fina e aguda, que parecia riscar uma lousa ao abrir a boca.
O olhar do homem demonstrava firmeza e em nenhum instante ele vacilou enquanto encarava as criaturas, que recuavam de medo.
— Desculpe-nos, senhor. — Disseram em uníssono, enquanto desapareciam, correndo em direção à escadaria.
Estava claro que ninguém estava entendendo nada do que havia acontecido, nem mesmo Patrick ou Carl, que escondiam com frequência suas expressões de surpresa.
— Não se preocupem, eles estão sempre pregando peças e controlando a mente das visitas. — O homem caminhou pela sala, até se aproximar do corpo de Luna e examina-lo rapidamente. — Vaeku.
E foi com mais uma de suas palavras desconhecidas que Luna acordou num sobressalto, olhando para o homem assustada e se afastando.
— Quem é você? — Gritou ela, enquanto se levantava e recuava até a parede.
O homem se afastou, dando as costas à garota e indo em direção a porta da sala, onde a abriu, permitindo que Bob entrasse em silêncio, afagando sua cabeça em seguida. O cachorro se comportou incrivelmente quieto enquanto estava ao lado do homem.
Ninguém ali conseguia dizer uma palavra se quer, fazendo com que o silêncio predominasse e o pânico nos afligisse cada vez mais. Não levou muito tempo para Luna se aproximar de nós e, assim como todos, se preparar caso fosse necessário.
— Não tema Dika, venho lhe procurando há um bom tempo. — As palavras ditas pelo homem foram claramente direcionadas à Luna, que estava tão confusa quanto eu.
— Com quem você está falando? — Perguntou ela em tom alto. — Meu nome é Luna.
— Não estou falando contigo garota, tenham paciência, esclarecerei tudo com o tempo. — Prometeu, indo em direção a minha amiga, que agarrou meu braço com medo e com força.
Logan rapidamente se pôs a frente, mesmo com um grande ferimento em sua cabeça ele ainda estava determinado o bastante.
— Se afaste! — Falou ele, com uma espada em mãos, apontando-a para a garganta do velho.
Sem mudar a expressão, o homem pôs a ponta dos dedos na lâmina da espada, que brilhou intensamente, até Logan soltar, fazendo-a cair no chão e queimar o assoalho sobre o chão, com a temperatura em que se encontrava.
Todos nós recuamos ao ver o que ele podia fazer, mesmo que ele não demonstrasse interesse em nos matar ou algo do tipo.
— Não perca teu tempo meu jovem, não estou aqui para feri-los. — Ele então continuou a caminhar, parando a centímetros de distância de Luna. Seu olhar passou brevemente por mim, franzindo o cenho, mas logo voltando a atenção para minha amiga, que não parava de apertar meu braço com força, deixando a marca de seus dedos no lugar. — Tua irmã foste capturada.
Naquele momento senti a mão de Luna afrouxar de meu braço, não apertando mais com tanta força quanto antes.
— Eu não estou entendendo... — Começou a garota, mas no mesmo instante o homem colocou seu dedo indicador na testa de Luna, fazendo com que uma luz fraca surgisse e transformasse os olhos de minha amiga num branco completo. — Kiuchi foi capturada?
Claramente não era Luna quem estava falando, embora fosse a mesma voz de minha amiga. A maneira como ela falava era diferente, muito mais madura do que o habitual.
— Sinto lhe dizer isso, mas infelizmente é verdade. — Retomou o velho. — Servos das Trevas surgiram durante à noite há dois anos e levaram uma conhecida minha, na qual hospedava tua irmã. Não consegui impedi-los, eram demasiadamente numerosos e fortes.
— E quanto a Charz? — Perguntou minha amiga a respeito de um nome no qual nunca ouvira antes.
— O Senhor do Fogo há anos está desaparecido, assim como sua esposa. — As palavras ditas pelo homem demonstravam medo e receio, embora eu não estivesse entendendo muito ao que ele se referia. — Os acontecimentos recentes estão cada vez mais afligindo o mundo e receio que em breve não haverá como conter o que seja que está por vir, minha senhora.
Luna piscou de forma cautelosa e pensativa, até levantar sua mão direita, tocando o ombro do homem.
— Receio que tenha chegado a hora de interagirmos diretamente no rumo que os acontecimentos estão levando. — Disse a garota com um suspiro, enquanto abaixava sua cabeça até voltar ao normal. — O que está acontecendo?
Por um instante pensei que Luna fosse desmaiar, mas por pouco acabei segurando-a e impedindo que isso acontecesse.
O homem em seguida se afastou alguns metros de nós, se inclinando e apoiando sobre a mesa que se encontrava na sala. Todos o olhavam com curiosidade e medo do que ele fosse fazer.
— Creio ter muitas respostas para lhes dizer... — Falou por fim.
A resposta foi imediata, mas não vinda de nós e sim de Bob, que latia de forma desesperada para a porta, que havia sido fechada pelo homem. Luna também se mexeu inquieta ao meu lado, enquanto inclinava a cabeça.
Logan foi o primeiro a se manifestar, indo em direção a janela, que felizmente estava escondida por uma cortina velha e surrada. A expressão que meu amigo demonstrou ao abrir uma brecha não foi nada animadora, principalmente quando a ponta de uma flecha penetrou a porta.
— Drows. — Disse Logan, se afastando o máximo que pode, assim que uma saraivada de flechas e lanças atingiram a janela, deixando-a em estilhaços de vidro pelo chão.
— É o exército de meu pai. — Falou Carl, parecendo revoltado com a situação. — Acho que posso distrai-los por um tempo...
— Não. — O velho rapidamente o interrompeu, estalando os dedos e fazendo com que uma fenda fosse criada no chão. As sombras no interior daquele buraco eram infinitas e tenebrosas e eu podia senti-las com minhas habilidades. — Adentrem a Fenda Obscura.
No mesmo instante olhamos para o homem como se fosse louco, mas sua expressão demonstrava que ele não estava brincando.
— Você está maluco? — Perguntou Kendall, se recusando a pular, assim como todos ali. — Não conhecemos você e nem se quer sabemos se esse buraco tem fim.
— Vós tendes a possibilidade de escolha jovens, mas creio que o tempo é escasso perante esta situação. — A maneira antiquada e refinada como o homem dizia era estranho naqueles dias, mas combinava perfeitamente com ele. — Posso retardar o batalhão inimigo, porém devem se apressar e decidirem se confiarão em mim ou na sorte.
Todos se entreolharam, sem saber o que responder. Gostaria de confiar plenamente no homem já que o mesmo não havia feito nada de ruim a nós desde que havia chegado. Mas depois de tantas coisas, era difícil confiar por completo em alguém, nem mesmo Carl possuía minha total confiança.
O homem se apressou, pegando seu casaco novamente, saindo da casa, mas não sem antes nos aconselhar que fossemos rápidos em nossa decisão.
— Não vamos conseguir enfrentar tantos Drows. — Falou Logan que até então não largava seu bastão metálico por nada. — São muitos lá fora.
— Ele tem razão. — Concordou Carl, que olhava o precipício sombrio logo abaixo. — Provavelmente meu pai reuniu todo seu exército e acho que nem os Elfos dariam conta de todos eles.
Por mais que aquela discussão estivesse nos levando a uma escolha, sabia que a realidade era ainda mais complicada.
— É muito perigoso. — Tentou argumentar Cleo. — Mas é ainda mais perigoso tentarmos lutar com aqueles Drows.
— E se fugirmos? — Propôs Luna, que procurava uma saída.
— Não dá. — Até então eu já havia procurado essa possibilidade, mas logo que utilizei meus poderes sombrios e estendi as penumbras por toda a região ao redor da casa, notei que estávamos cercados. — Não temos saída.
Naquele momento só havia uma escolha para tomar e estava sendo difícil. Todos os olhares foram de encontro a Patrick, que parecia tão confuso quanto cada um de nós.
— Eu vou... — Falou ele por fim, se aproximando da fenda.
— Você tem certeza sobre isso?
Minha pergunta era ridícula, o que me fez desejar ter ficado quieto.
— Não. — Foi tudo o que respondeu, olhando para nós em seguida.
— Mas como vamos saber se você chegou vivo? — Indagou Kendall.
E mais uma vez as coisas se complicaram quando uma flecha invadiu a casa, passando pela janela e cravando na perna de Cleo, que gritou de dor.
— O que foi isso?
Mais uma flecha voou, acertando a parede próxima a mim, passando a centímetros de distância de meu pescoço e pude até mesmo o som do projétil cruzando o ar.
Ao ver a encruzilhada em que estávamos, além de Cleo estar caída no chão, enquanto Kendall e Luna tentavam cuidar do ferimento profundo dela, eu não tive outra escolha a não ser me manifestar.
— Eu vou. — Falei, tentando ser confiante. — Quando chegar seja lá onde for que essa fenda dê, eu tento me comunicar com vocês de alguma forma.
— Mantenha a comunicação comigo. — Pediu meu amigo, se aproximando de mim e apertando as mãos em meu ombro. — Fique vivo cara.
Ninguém refutou a minha ideia, o que me levava a crer que era nossa melhor escolha.
— Tome cuidado. — Disse Luna, com os olhos preocupados.
A única coisa que fiz foi piscar para minha amiga, tentando convencê-la de que tudo iria ficar bem, mas a verdade era que eu estava tentando convencer mais a mim do que aos outros.
Levou um certo tempo para que eu tomasse coragem, fitando o vazio que se estendia abaixo de mim, mas quando finalmente reuni o que precisava, olhei uma última vez para todos ali.
— É agora ou nunca.
E então saltei...
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