Guardians II - Ethereal Spirits
5 V - The Abandoned House
Notas iniciais
— Não! — Meu grito acabou por assustar a todos que estavam ao meu redor, incluindo Bob, que saiu correndo e latindo.
O suor frio estava presente em minha testa e abaixo de todos os agasalhos que me protegiam daquele vento gelado. E não era só isso que eu havia trazido do mundo dos sonhos, pois meu coração estava tão acelerado quanto, além do meu desespero.
Os olhares rapidamente estavam sobre mim, me deixando ainda mais angustiado, até que eu conseguisse me levantar com a ajuda de Logan.
— Hades? — Perguntou alguém entre eles que na hora eu não consegui reconhecer devido ao desespero, até que vi os olhos de Cleo próximos aos meus.
Ainda conseguia ver a imagem aterrorizante em minha mente, que haviam sido gravados e duvidava muito se algum dia eu conseguiria apaga-la.
— Não... — As palavras que eu queria dizer não saíram de minha boca e sim nas de Luna, que apresentava um olhar vidrado e assustado, provavelmente tanto quanto os meus.
— Como sabe? — Perguntei, ainda tentando me acostumar com a luz do dia e com o vento gelado que, aparentemente, havia se tornado ainda pior conforme se aproximava do natal.
— Porque eu tive o mesmo pesadelo que você... — Disse ela, ainda sem nem olhar para qualquer um, apenas fitando o chão.
— Você também o viu?
Ela assentiu de leve e então olhou para cada um de nós.
— Acho que nossos problemas são piores do que imaginávamos...
Naquele momento não houve nenhum murmúrio, nenhum som, nem mesmo a brisa gélida que batia na copa das poucas árvores emitia algum ruído.
Luna e eu contamos cada detalhe dos pesadelos que tivemos e, assustadoramente, eles eram idênticos, deixando-nos angustiados.
— Por que vocês dois? — Perguntou Kendall assim que terminamos. — Por que nenhum de nós teve o mesmo pesadelo que vocês?
— Porque eles foram os únicos que tiveram contato com os Strigois... — Carl estava distante e intrigado enquanto olhava para nós dois, deixando-me sem saber o que falar. — Além de Cleo, obviamente, mas se estou certo ela nem dormiu essa noite.
Ninguém ousou comentar sobre o fardo da maldição que a garota carregava desde que nasceu, principalmente porque todos estavam confusos demais para aquilo.
— Os Strigois têm a habilidade de drenar a energia num simples toque. — Lembrei-me de quando Carl estava me contando as diferenças entre eles e os vampiros antes de eu adormecer. — Provavelmente vocês ficaram interligados de alguma maneira com eles e estão apenas retribuindo um favor por ter matado Zargron.
Além de tantos problemas que estávamos passando e que tinham tudo para piorar, agora tinha mais esse para me atormentar pelo resto da minha vida.
— Falando nisso... — Luna já estava com sua mochila nas costas, assim como a maioria de nós, prontos para partir rumo à Montana. — O que eles queriam de nós?
— Vingança? — O palpite de Kendall era uma ótima explicação, mas no fundo eu tinha quase certeza que não era aquilo.
— Acho que não... — Resmunguei, fazendo todos olharem para mim. — Qual o motivo para tentarem levar Luna com eles então?
— Do que você está falando? — Minha amiga rapidamente expressou confusão, assim como todos, com exceção de Carl, que havia visto o Strigoi tentar leva-la consigo.
— Quando voltei e vi você e Cleo amarradas e inconscientes não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, até começar a ser atacado pelos dois. — Enquanto contava, minha mente se lembrava dos momentos angustiantes que passei. — E antes de Carl chegar, um deles comentou que precisavam agir rápidos e levar a garota...
— E essa garota era eu? — Luna estava claramente confusa.
— Sim... — Respondi com um aceno breve.
— Mas por quê?
No mesmo instante Logan e eu nos entreolhamos e com uma rápida comunicação mental percebemos o que aquilo significava.
— Acho que Dracfo sabe a resposta... — Falei de repente, fazendo todos me olharem tão confusos quanto Luna.
— Dracfo? — Exclamaram alguns imediatamente.
E foi então que eu contei sobre a conversa que havia tido com o fantasma antes dele partir, falando sobre o espírito que residia em Luna. Ninguém ousou falar uma palavra após ter terminado de relatar, deixando a todos em um momento incerteza e perplexidade.
— Até que faz sentido... — Falou Cleo de repente. — Isso esclarece o porquê de Luna ter chegado durante a batalha contra Dracfo e ter dito todas aquelas coisas.
— Que coisas?
— Você não se lembra?
Luna balançou a cabeça rapidamente, como se não estivesse entendendo absolutamente nada.
— Você chegou durante a batalha, ameaçando Dracfo e o chamando de Michel... — Contou Cleo, fazendo-me lembrar do momento em que fui salvo por minha amiga há uma semana. — Você estava dizendo sobre a história dele e se não fosse por você, muito provavelmente, não teríamos vencido a batalha sem a ajuda dele.
— Eu... — Luna olhava abismada, até cair de joelhos no chão. — Eu não lembro disso...
Logan imediatamente saltou de onde estava, enquanto Luna se descontrolava de forma aterrorizante. Aos poucos ela começava a se transfigurar, com pelos surgindo sobre sua pele e os olhos se afinando, ficando iguais aos de um lobo.
— Luna. — Chamava seu irmão, implorando que ela se controlasse.
Naquele momento, nenhum de nós sabia o que estava acontecendo e acho que nem a própria Luna poderia explicar.
— Pare! Por favor! — Gritou a garota, emitindo um uivo agudo, seguido de um grito agonizante logo em seguida. O mesmo grito que já ouvira antes enquanto procurava pelos anões ou quando fomos salvos por ela, durante a batalha contra o fantasma mercenário.
Em menos de alguns segundos ela havia se transformado em sua forma licantropa, olhando-nos de maneira confusa, até grunhir para seu irmão e saltar para o outro lado, numa tentativa de fugir.
Carl, que estava parado e imóvel ao meu lado, com seus braços cruzados de forma tranquila, suspirou e pegou seu cajado rapidamente, batendo-o no chão e criando uma espécie de mini furacão ao redor de Luna, impedindo-a de fugir.
— Icu... — Com uma única palavra, o Golem de Gelo partiu para cima de Luna, que estava assustada com a ventania ao seu redor.
Assim que o forte vento cessou, o gigante deu um passo a frente, pegando Luna com seus dois braços grotescos e a prendendo com força.
Ela se contorcia de tal forma que chegava a dar dó, mas nada podíamos fazer mediante a tentativa de fuga da garota, até que Cleo surgiu ao lado de Icu, pedindo que ele abaixasse.
— O que você está fazendo? — Por um instante fiquei tentado a impedi-la, assim que a vi pegando um frasco azul do bolso e fazendo com que Luna engolisse.
Não levou nem um segundo para que os espasmos de minha amiga cessassem, dando a impressão de que ela havia morrido.
— Tranquilizante Instantâneo. — Falou Cleo, mostrando o frasco vazio. — Um gole disso aqui e apaga até um Gigante.
Mesmo com Luna inconsciente, o que me tranquilizou, ninguém sabia o que fazer, inclusive o silêncio predominou automaticamente entre nós.
— E agora? — Ousou perguntar Kendall.
— Continuamos nossa viagem. — Murmurou Patrick, pegando seus pertences e ajudando Icu a levar algumas malas, já que o mesmo se encarregava de segurar todo o peso de Luna.
♦
— Estou preocupado. — Falei, quando tive um momento a sós com Logan durante a cansativa viagem até a primeira cidade que encontrássemos no caminho, o que seria em breve de acordo com Carl.
A única coisa que víamos na paisagem era neve e mais neve, que cobriam a estrada por completo, dificultando nosso caminho. Além disso, o frio estava começando a ficar ainda mais violento, causando-me calafrios a cada brisa.
— Eu sei... — Disse ele, dando uma breve olhada no canto de seu olho. — Posso ler sua mente, não se lembra?
— Às vezes me esqueço desse detalhe inconveniente. — Meu murmúrio quase foi abafado por um forte vento que surgiu, mas logo desapareceu. — Você não está?
Logan nem se quer olhava para a estrada a sua frente, permanecendo de cabeça baixa o trajeto inteiro, apenas segurando sua bolsa e fitando o chão.
— Claro que estou, Kevin! — A maneira como meu amigo disse aquilo foi impaciente, deixando-me mal pela pergunta tosca. — Mal sabemos o que estamos enfrentando.
— Foi mal... — Falei, pedindo desculpas pela pergunta, numa tentativa de me afastar e deixa-lo sozinho por um tempo, algo que todos ali precisavam. — Só queria conversar.
Logan se sentiu mal pela maneira que me tratou, mas nada falou, talvez soubesse que eu podia senti-lo em minha mente.
Logo em seguida o silêncio voltou a ser o incômodo maior, além do frio, mas não levou muito tempo para que ele desaparecesse.
— Vejam... — Disse Kendall, apontando para algo além das árvores secas e da neve.
Havia um cercado que se estendia por uma grande área, com alguns animais próximo à uma espécie de estábulo, para se protegerem da neve que começava a cair. Além disso, mais há alguns metros estava uma casa pequena, com uma varanda e aparentemente vazia.
Cada um ali se entreolhou rapidamente e foi somente quando Luna se transformou novamente em seu formato humano nos ombros de Icu que eu ousei falar algo.
— Vocês não estão pensando em ir até lá, né?
Kendall deu alguns passos a frente, na tentativa de enxergar melhor aquele lugar, virando-se logo em seguida.
— Parece seguro para passarmos o dia ou talvez conseguirmos algumas coisas para a viagem.
— Eis um motivo para não irmos... — Tentei argumentar contra, mas todos pareciam me ignorar. — Se parece seguro, tenha certeza que não é.
— Kendall tem razão. — Disse Patrick, voltando a caminhar em direção a casa abandonada.
Olhei para Logan, que não havia dito nenhuma palavra, na esperança de que ele me ajudasse, mas ele apenas seguiu Patrick e os demais.
— Qual é, gente! — O fato de ser ignorado já era normal, mas daquela vez eu fiquei realmente frustrado e irritado. — Eu sou o único que assiste filmes de terror aqui?
Ninguém abriu a boca, seguindo em frente em silêncio e cuidado, inclusive eu, que não podia reclamar e me arriscar a ficar de fora sozinho.
A cada passo que dávamos, o barulho do vento gelado me apavorava cada vez mais e somente o fato de nos aproximarmos daquele lugar me causava calafrios e lembranças desagradáveis, principalmente com o homem que havia invadido meu sonho.
Não levou muito tempo para descobrirmos que aquele lugar estava totalmente vazio, a não ser pelos poucos animais do lugar, como alguns cavalos e vacas.
— Viu, Kevin? — Falou Cleo ao abrir a porta da casa e mostrar um abrigo vazio com poucos móveis na sala e algumas escadas para o segundo andar, que provavelmente levava aos quartos. — Não tem nada aqui.
No mesmo instante um barulho ecoou do canto da sala e um abajur caiu no chão, assustando a todos e nos fazendo recuar, sacando as armas.
— Icu. — Murmurou o gigante, que estava envergonhado ao derrubar as mobílias da prateleira.
Carl se aproximou dele calmamente para que não o assustasse, e após pedir que deixasse Luna no chão com cuidado, o garoto passou a mão na testa dele.
— Vamos descansar um pouco grandão? — Perguntou, pegando seu cajado e o estendendo em direção ao Golem, que fez uma espécie de reverência, até se encolher e virar uma minúscula bola de gelo.
— O que você fez com ele? — Perguntei assim que o vi desaparecer no bolso de Carl.
Com um sorriso, ele passou ao meu lado e olhou pela varanda da casa em busca de algo.
— Habilidade de Contração. — Murmurou, explicando que alguns Golens podiam se encolher, desde que fossem treinados o bastante. — Agora ele não vai mais destruir nada.
Em seguida, após uma rápida inspeção em todos os cômodos para certificarmos que a casa estava completamente abandonada, decidimos passar o dia ali já que com Luna inconsciente a viagem se tornaria ainda mais complicada.
— Esse lugar é sinistro. — Falei, sentando no sofá com cuidado e com medo de que um monstro surgisse de repente e devorasse meu traseiro.
Notei um breve revirar de olhos de Patrick e Logan.
— Larga a mão de ser menininha. — Zombou Kendall, que estava jogado no outro sofá, brincando com algumas fagulhas de fogo.
No mesmo instante uma bola de tênis surgiu, acertando o estômago de Kendall em cheio e fazendo com que o garoto se contorcesse.
— Cuidado com o que fala! — Disse uma vez feminina do outro lado da sala.
— Eu estava brincando, Cleo. — Falou entre os dentes, enquanto se recuperava do golpe.
— Falou alguma coisa? — Perguntou a garota, que havia surgido de repente na porta, do outro lado em que a voz havia soado.
Não levou menos de um segundo para que todos se entreolhassem preocupados e sacassem as armas.
— Quem foi que disse isso?
Todos estavam aflitos e isso estava claro, mas mesmo procurando feitos loucos, não havia nada naquela casa.
— Eu falei que não era uma boa ideia vir aqui... — Minha reclamação foi logo interrompida com um riso abafado e fino semelhante ao de uma criança pequena.
— Cale a boca, Kevin! — Gritou Kendall, indo em minha direção e me dando um soco na cara.
Em alguns segundos eu já estava no chão, tentando tirar Kendall de cima de mim, que não parava de me golpear com socos.
Senti o sangue escorrer de meu nariz e ir em direção a boca, enchendo meu paladar de um gosto horrível de ferro.
— Kendall! — Logan tentou tira-lo de cima de mim, mas Carl foi o primeiro a reagir, chutando o quadril de meu amigo e o jogando para o chão também.
— Deixem brigar!
A gritaria só aumentou quando Cleo e Patrick começaram a brigar entre si por algum motivo desnecessário.
Não estava entendendo nada do que se passava ali, muito menos o motivo de estarem brigando, mas Kendall não me permitia pensar, pois meu cérebro estava focado em tentar fugir de seus golpes.
Barulhos de espadas saindo da bainha ecoou pela sala, aumentando quando as lâminas se chocavam, criando suas faíscas. Enquanto isso, Bob latia desesperado do lado de fora da casa, deixando minha mente ainda mais confusa.
E foi num momento de descuido de Kendall que eu pude chutar suas partes baixas, fazendo-o cair e gemer de dor, enquanto levantava e corria em direção ao corpo inerte de Luna no chão, com a intenção de protegê-la.
Mesmo com o barulho de ofensas, socos e metais se chocando, ainda havia algo que permanecia presente naquele lugar. A risada aguda e irritante vinha de praticamente todos os lugares, o que dificultava ainda mais de achar quem era o responsável por aquilo.
— Pessoal... — Murmurei, tentando chamar a atenção e pedindo que parassem de brigar, mas ninguém ouvia uma palavra que eu dizia. — Pessoal!
Foi somente com meu grito que todos pararam exatamente onde estavam, me olhando logo em seguida e foi então que eu pude ver o que estava acontecendo.
Um vulto negro e minúsculo pairava sobre a cabeça de cada um deles, manipulando suas mentes e fazendo com que se enfrentassem.
Meu grito também serviu para que eles parassem de brigar entre eles e encontrassem um novo alvo...
— Fudeu...
Meu sussurro foi seguido de um barulho forte quando a porta se abriu e de lá surgiu um homem de meia-idade, negro e com alguns cabelos grisalhos.
No mesmo instante os pequenos seres, que possuíam uma forma humana e deformada, saltaram das cabeças de meus amigos e desapareceram em pleno ar.
— Posso saber o que está acontecendo aqui?
Fale com o autor