Guardians II - Ethereal Spirits
4 IV - Thousand Names
Notas iniciais
— Huracán? — Perguntei, enquanto coçava a cabeça de confusão. — Nunca ouvi falar nele...
Carl estava sentado sobre os destroços da van, ao lado de Icu, que estava distraído com Bob como uma criança fica. Todos ali decidiram se jogar no chão, exaustos da constante tentativa de sobreviver.
— Huracán é o deus do furacão e dos ventos daquele povo louco que previu o fim do mundo. — Respondeu Kendall, logo após a minha pergunta.
— Maias, Kendall, o povo doido se chamava Maias. — Corrigiu Cleo sem muita paciência.
Ele se referia ao espírito dentro da pedra de Carl, o que respondia tantas perguntas a respeito da forte ventania que, há alguns minutos, soprava.
— E como encontrou a gente?
Ele ainda estava sentado, com as pernas cruzadas, na van, com uma expressão um tanto quanto entediada enquanto olhava para nós.
— Eu segui vocês... — Respondeu, como se aquilo não fosse nada. — Eu vi o que fizeram com alguns dos Drows de meu pai.
— Seu pai? — A cada resposta, uma nova pergunta surgia e aquilo estava começando a ficar muito mais confuso.
Carl exibiu um sorriso e saltou da van, pedindo a Icu um mapa detalhado da região de onde estávamos.
— Dieldor, ou meu pai no caso, é o líder dos Drows da Califórnia, os mesmos Drows que vocês prenderam ontem na floresta e ele não está nenhum pouquinho contente. — Então ele fez um círculo grande e extenso por todo o estado, pegando parte de Nevada. — Ele tem domínio por todo esse território, embora a maioria se limite apenas ao centro, portanto estamos em segurança no momento, mas não por muito tempo.
De repente Logan se mexeu inquieto, interrompendo Carl logo em seguida.
— Espera um pouco. Se seu pai é um Drow, você também é um...
— Não. — Corrigiu rapidamente o garoto, guardando o mapa em seu sobretudo. — Minha mãe era uma humana normal, logo eu posso ser considerado um semi-drow ou algo do tipo.
— Mas de qualquer jeito, como podemos confiar em você? — A pergunta de Cleo, para mim, não precisava de resposta, pois eu tinha uma dívida de gratidão com ele.
A única coisa que Carl fez foi rir brevemente e se virando para o leste, onde a estrada seguia.
— Não sei. Posso ser um assassino psicopata esperando vocês dormirem para poder tirar suas tripas fora e vender no mercado negro. — A resposta dele causou alguns entreolhares entre nós. — Agora precisamos nos apressar, pois logo o exército de meu pai está vindo e tenho certeza que eles não serão tão fáceis de derrotar quanto aqueles Strigoi.
♦
O crepúsculo do dia surgiu de uma maneira silenciosa e fria, obrigando-nos a montar acampamento mais uma vez.
Infelizmente não havíamos progredido muito já que a caminhada era muito longa e não tínhamos mais nossa van, o que dificultou ainda mais.
Icu, o Golem de Carl, ficou encarregado de levar nossas armas e as comidas, já que era o único que aguentava o peso sozinho e com facilidade. Enquanto isso cada um levava seus pertences em uma mochila, com exceção de Carl, que não possuía nada a não ser uma roupa fina, uma bota de couro e um sobretudo que o cobria até o joelho, além de seu cajado nas costas.
— Onde conseguiu essa pedra? — Perguntou Luna, assim que a fogueira foi montada e acesa com as chamas de Kendall.
Carl estava sentado, limpando seu cajado, um hábito que ele fazia constantemente pelo visto.
— Meu pai a roubou dos Elfos há algumas semanas e eu a peguei. — A maneira como ele dizia as coisas que fazia era indiferente, mesmo que aparentasse ser algo errado.
— Você sabe onde estão os Elfos? — Kendall pareceu empolgado ao ouvir Carl cita-los.
Um breve olhar do garoto pairou sobre todos e claramente ele percebeu a nossa curiosidade, sem exceções.
— Sim... — Disse sem rodeios, voltando a atenção para seu cajado. — Provavelmente enterrados em algum lugar da floresta.
Naquele momento a minha animação se esvaiu quase que instantaneamente.
— Você está dizendo que eles estão mortos?
— Pelo menos a grande maioria sim. — Tornou a falar, olhando para Icu, que se entretinha brincando com Bob. — Zargron fez um pacto com meu pai e lhe entregou uma parte do exército de Orcs que possuía ao seu lado para dizimar os Elfos que viviam próximos àquela região. A grande maioria nem viu o ataque chegar, mas alguns conseguiram fugir.
— Ok, isso já é o suficiente pelo menos. — Murmurou Patrick de forma aflita como nunca havia visto antes, a não ser pelos momentos durante a batalha contra o Anjo Negro e nossa visível derrota.
— Por que o interesse nos Elfos?
— Estamos procurando por um navio que pertenceu ao líder deles, Frey.
— Ah sim, Skidbladnir. — Os olhos de Carl brilharam ao dizer aquele nome. — Conheço um método mais rápido de vocês encontrarem-no.
Naquele momento todos os olhares se voltar ao garoto, que exibia um sorriso confiante.
— Já ouviram falar em Brokk e Eitri?
Os nomes rapidamente vieram a minha mente, lembrando-me dos anões entregando a espada de meu pai ou da lança cravando no peito de um deles, um presente dos Orcs.
— Sim, foram os construtores do navio. — Lembrou-se Kendall. — Mas eles estão mortos... Nós mesmos os vimos morrerem.
— Isso não vem ao caso. — Murmurou, olhando para o céu estrelado. — Mas o que eu quero dizer é que o pai deles está vivo e muito provavelmente sabe onde os trabalhos que eles fizeram estão escondidos.
— Você se refere a Ivaldi? — Perguntou Cleo.
— O próprio... — Tornou a falar Carl, de forma que sua voz fosse convicta de suas ideias. — A sorte nossa é que ele está aqui nos Estados Unidos para ficar perto de seus filhos.
Ele parou de repente, me dando uma impressão de que havia algo que ele não havia contado.
— Só isso?
Por um instante Carl pareceu hesitar, olhando para baixo.
— Sim. — Falou, olhando para nós com uma expressão aflita. — O único problema é que ele está em Montana, junto com alguns grupos de Gigantes de Gelo.
E ao dizer isso, Kendall se afastou de forma inquieta, resmungando.
— Sempre tem algo para nos atrapalhar.
— Deixa eu adivinhar... — Não precisou de muito para entender o motivo de tanta preocupação. — Esses tais Gigantes de Gelo não são nem um pouco bonzinhos.
Ninguém respondeu, o que me levou a crer que o problema era ainda maior.
— De qualquer jeito, temos muito tempo para pensar no que fazer, já que nossa caminhada é longa. — Falou Patrick.
— É, e também teremos muito tempo para nos conhecermos... — Comentou Carl, se levantando e indo em direção a Icu. — Isso se ninguém morrer antes.
— Acho que se você quiser realmente ir com a gente, poderia primeiramente parar com essas piadinhas. — Pediu Luna. — Muito obrigada.
♦
O cansaço abateu todos quase que ao mesmo tempo e após um momento de descanso, todos ali decidiram revezar o turno de vigia em duplas, incluindo Cleo.
Acabei por pegar o primeiro turno, junto com Carl, que se recusava a dormir, além da própria Cleo, que decidiu se isolar um pouco de nós e ler seus livros de bruxaria e poções.
— Você parece não gostar muito de seu pai, não é? — Comentei, apenas para puxar assunto naquele clima frio e entediante, iluminado somente pela luz da lua e de poucas estrelas no céu.
Carl estava entretido criando pequenos redemoinhos no chão com a poeira acumulada no lugar e a única coisa que ele fez foi exibir um sorriso irônico.
— Na verdade eu gosto dele, não tenho motivos para odiá-lo. — Respondeu sem nem ao menos olhar para mim, como de costume.
O garoto passou a segurar sua Pedra Divina do colar e então eu comecei a sentir o peso da minha própria em meus dedos, já que, graças a Zargron, a pedra agora estava encrostada em um anel dourada e brilhante.
— Então por que está nos ajudando?
— Acho que minha parte humana é responsável por isso. — A voz de Carl soou distante e aborrecida. — Tentei conviver por alguns meses na aldeia de meu pai, após a morte de minha mãe, mas todos me discriminavam por eu não ser um Drow puro, além do fato de que meu pai não tem somente a mim como filho.
— Você tem um irmão?
Carl balançou a cabeça em resposta a minha pergunta.
— Dehing. — Falou, citando o nome do irmão com uma espécie de desprezo pelo mesmo. — O primogênito favorito, o herdeiro do trono, o talentoso guerreiro...
O garoto fez uma expressão de indiferença, seguida de uma careta revirando os olhos.
— Aí está o motivo de você não gostar de seu pai...
Ele riu mais uma vez, olhando para mim e em seguida se distraindo com seu cajado.
— Por um lado é verdade. — Tornou a falar. — Posso não gostar completamente dele, mas tenho minhas próprias razões.
— Entendo seu lado. — Falei, compreendendo o ciúme do garoto, mas evitei usar aquela palavra. — Acho que não te agradeci por ter me salvo daqueles vampiros.
— Strigoi. — Corrigiu rapidamente.
— Tanto faz...
Carl se mexeu inquieto, olhando de relance para mim e para a rodovia, procurando por alguém.
— Tecnicamente não. — Uma breve brisa tornou a soprar, desta vez ainda mais gelada, fazendo-me perguntar se era obra de Carl. — Strigois são mais antigos, basicamente deram origem aos Vampiros. Eles podem sugar sua energia apenas com um toque, mas é somente com uma mordida que eles podem drenar a sua vida por completo.
De repente me lembrei de quando aquela mulher estava sobre mim, tentando me seduzir. Todas as minhas tentativas de me mover eram falhas e foi somente quando Carl apareceu, tirando-a de cima de mim, que pude me mexer novamente.
— Vampiros são mais fortes e rápidos, mas não podem se tornar invisíveis ou sugar a sua energia com um toque.
— Você já viu algum Vampiro?
— Pouquíssimas vezes. — Respondeu, enquanto olhava para seu Golem ao lado. — Alguns deles visitavam meu pai para tratar de alguns assuntos em particular, embora eu não saiba muito bem o que são.
— Acha que podem estar envolvidos com Zargron?
Carl olhou mais uma vez para mim, mas desta vez ele parecia mais sério e aflito.
— Muito provavelmente. — Disse sem rodeios. — A maioria dos vampiros são cruéis e odeiam os humanos, por isso não duvido muito de que se aliariam a ele por troca de algumas refeições.
— Você sabe de alguma coisa que não nos contou? — Carl era muito misterioso às vezes, embora sempre nos respondesse. — A respeito de Zargron...
— A única coisa que sei é que Zargron não trabalhava sozinho e agora que está morto, podemos ter uma noção do quão poderoso pode ser o responsável por tudo isso. — Disse de maneira sombria e temerosa. — Está mais que visível que ele já possui muitos aliados a seu favor, por isso precisamos tomar muito cuidado a partir de agora.
Carl ficou em silêncio logo em seguida e eu decidi fazer o mesmo, tentando entender o que havia acontecido no dia de hoje.
— Acho que já está na hora de trocarmos de turno... — Falou após um bom tempo apenas observando o movimento das árvores e da lua, levantando e indo em direção a Logan e Luna, que seriam os próximos a ficar na vigia.
♦
Não demorou muito para eu pegar no sono devido ao extremo cansaço em que meu corpo se encontrava e não demorou muito também para que as sombras me engolissem, levando-me ao mundo dos sonhos.
— Hades? — Chamei pelo espírito do deus que não se manifestava.
Estranhamente ele ficou em silêncio e nem ao menos apareceu na escuridão como estava acostumado a fazer diariamente.
— Hades? — Desta vez meu grito ecoou pelas sombras, se tornando cada vez mais agudo e tenebroso o lugar.
E foi logo em seguida que um vulto surgiu em meios a escuridão, com olhos vermelhos de sangue e um sorriso demoníaco tão sombrio que o calafrio não se limitou somente à espinha, se estendendo por todo o meu corpo. O medo se apoderou de cada fração de minha mente, assim como o desespero apenas ao ver aquela feição no escuro.
— Quem é você?
A resposta que obtive foi uma risada tão cruel e maligna que fez todas as outras que já havia ouvido em questão de um mês parecer com uma risada de bebê.
— Eu tenho mil nomes... — Respondeu com uma voz fria e sem vida, com o desespero de suas vítimas no olhar. O som retumbou em minha mente, causando ainda mais medo e pavor. — Mas você não é digno de proferir nenhum deles.
E então, com uma risada no canto de sua boca, ele avançou, me devorando com as sombras ao redor.
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