Notas iniciais
Motivo da demora: preguiça, falta de criatividade e preguiça kkkkkkk

Como eu era o último a fazer companhia para Cleo durante os turnos de vigia, o sol não demorou para surgir. A temperatura não levou muito tempo para aumentar também, mesmo que não fosse o suficiente para que pudéssemos tirar os agasalhos.

Patrick foi o primeiro a acordar, com uma expressão séria e de mau humor, e isso queria dizer que ele estava tendo mais um dia normal em sua vida. Seguido dele foi Logan que se levantou rapidamente e se juntou a mim, pegando algumas frutas que estavam na bagagem da van, que serviram bem para o café da manhã.

— Servido? — Perguntou, oferecendo uma maçã um pouco esverdeada por sinal.

Apenas balancei a cabeça enquanto meus pensamentos vagavam aleatoriamente por tantas coisas.

— Noite difícil, não? — Meu amigo deu uma mordida na maçã, levando consigo metade da fruta para o estomago de uma só vez.

Olhei para ele, que ora encarava Cleo, ora encarava a mim. Não levei muito tempo para entender ao que ele se referia, lembrando que nossa Conexão Psiquê permitia-nos ler a mente um do outro.

— Nem me fale... — Disse, levantando-me em seguida e olhando para os dois lados da estrada, ainda na esperança de que algum bom samaritano surgisse num passe de mágica. — E agora? O que faremos?

— Procuramos por ajuda. — Falou Patrick, que passou por nós, carregando uma mochila e a enchendo de pertences.

— Que ajuda? — A pergunta de Logan fez o garoto o encarar de forma séria. — Não sei se percebeu, mas estamos no meio do nada...

— Exatamente, e tudo isso foi sua culpa, por isso virá comigo para procurar alguém. — A mente de meu amigo estava muito agitada, com inúmeras palavras de baixo calão que não se limitava somente a “mongoloide” como sempre dizia. — Temos dois galões vazios para caso achemos gasolina.

No mesmo instante que ele abaixou para pega-lo, aproveitou para jogar também uma pedra pequena na direção de Kendall, que estava praticamente desmaiado. Assim que a pedra lhe atingiu no estomago, não demorou muito para ele levantar assustado, procurando

— Por favor, não me diga que já está na hora de acordar... — O garoto estava praticamente implorando enquanto se virava para tirar outro cochilo.

— Você não vai querer que eu jogue um balde água gelada em você. — Ameaçou Patrick, pondo as duas alças da mochila em suas costas.

Kendall bufou enquanto se levantava mal humorado. O que foi uma cena cômica e habitual, que acontecia praticamente todos os dias.

— Quando partiremos? — Perguntei, caminhando e procurando por alguma coisa útil.

Patrick me fitou, arqueando uma de suas sobrancelhas.

— Você vai ficar aqui com as garotas.

— Por que?

— Porque eu estou mandando. — Ele disse aquelas palavras de tal forma que não permitisse que alguém o refutasse.

— E desde quando você...

— Desde que suas ideias não nos levaram a nada e estamos perdidos no meio do nada sem ter como pedir ajuda. — Respondeu, interrompendo-me. — Ou você aceita o que estou falando por bem ou aguente as consequências depois.

Logan estava me olhando, tentando me acalmar mentalmente, coisa que não estava ajudando muito. E foi somente quando Luna apareceu que consegui manter a calma.

— O que está havendo aqui?

O garoto logo me lançou um olhar ameaçador enquanto esperava por minha resposta.

— Nada... — Falei por fim, não contente com o jeito que ele me tratou. — Eles estão indo procurar por ajuda nesse lugar desértico.

— Pelo menos estão sendo mais útil que você Kevin. — Brincou ela, dando um soco de leve em meu braço e indo em direção a Cleo, que lia distraidamente alguns livros de poções.

Patrick pareceu satisfeito com o comentário de Luna, voltando seu foco as coisas que levariam para a missão, junto com Logan e Kendall.

Não levou muito tempo para eles se aprontarem e partirem, levando Bob junto, já que o cachorro dificilmente se separava de meu amigo.

Apenas Cleo e Luna ficaram junto a mim, cuidando dos nossos pertences e da van, algo que, presumia eu, que não precisava muito cuidado já que não havia absolutamente nada naquele lugar.

— O que está fazendo? — Ouvi Luna perguntar à Cleo, que apenas lia um de seus livros de poções distraidamente.

Evitei ouvir a conversa entre as duas que se seguiu, lembrando-me das palavras de Hades em meu sonho e encarando a carta de minha mãe em minhas mãos.

A vontade de abri-la era enorme, de descobrir o que havia por trás daquele envelope, mas eu não conseguia fazer isso, por mais que fosse meu maior desejo.

Procurei guarda-la em minha mochila, junto com os outros pertences meus, que já havia sido de minha mãe. Havia um livro de bruxaria com uma capa roxa e já gasta com o tempo, uma estatueta de Quíron, um centauro que estaria nos esperando na Grécia e algumas fotos minhas de quando era bebê.

Eu geralmente evitava ficar olhando aquelas coisas, para que lembranças não viessem a tona em minha cabeça, mas já era tarde demais. Memórias que eu havia esquecido desde então e que foram relembradas quando Dracfo esteve em minha mente, momentos de minha vida recentes, mas que pareciam ter acontecido há anos.

Tais memórias só foram afastadas quando o vento mudou de direção, trazendo consigo um odor diferente, semelhante à morte, que tanto havia sentido nestas semanas. E, aparentemente, eu não fui o único a perceber isso, pois Luna logo parou de conversar com Cleo, virando sua cabeça para a direção em que o vento soprava.

— O que é isso? — Perguntei assim que me aproximei de ambas as garotas.

— Isso o que? — Cleo parecia confusa já que ela não possuía os sentidos aguçados tanto quanto nós dois.

— Não pode ser coisa boa... — Murmurou Luna, dando alguns passos a frente e caminhando em direção as colinas.

— Não.

Não levei um segundo para segura-la pelo braço, de forma que eu impedisse dela prosseguir.

— Eu vou. — Falei, seguro de mim mesmo, enquanto pegava a espada Kólasi na van.

O peso daquela arma era muito maior do que as outras, mas eu já não me importava mais com aquilo, até mesmo porque eu havia me acostumado com isso. E, independente da dificuldade em utiliza-la, eu me sentia confiante quando estava com ela. Um presente de meu pai, entregue pelos anões e sem nenhuma resposta de como e porque ele havia deixado com eles.

Conforme eu caminhava em direção ao vento, mais difícil se tornava andar. Praticamente eu estava sendo levado para trás a cada passo que tentava dar, me obrigando a escalar a colina, ficando a espada e me segurando.

No entanto, assim que alcancei o topo daquele vale, o vento cessou misteriosamente, deixando-me angustiado. Mas o meu alívio foi imediato ao ver que não havia nenhum perigo, permitindo que eu virasse e lançasse um olhar para as duas. Porém elas não estavam mais onde haviam ficado, simplesmente desapareceram, não deixando nenhum rastro.

Meu coração naquela hora disparou e, sem saber o que fazer, saí correndo em direção a van, que felizmente ainda estava no mesmo lugar. Porém a minha corrida não levou nem mesmo alguns segundos, pois logo que dei alguns passos algo me atingiu pelas costas, levando-me colina a baixo, enquanto rolava e me machucava a cada impacto.

A dor não foi tanta, pois já havia passado por ferimentos ainda piores. Mas o susto não me permitia me concentrar no que estava acontecendo, ou melhor, eu não fazia a menor ideia do que estava acontecendo...

— Quem está aí? — Meu grito ecoou pelas colinas, mas a única resposta que obtive foram os ventos fortes que voltaram a surgir.

Minha espada continuava em minhas mãos, na qual eu segurava tão firme que chegava a machucar meus dedos.

E foi num único movimento surpresa que algo me levou ao chão, acertando-me na cara com algo semelhante a um soco.

Tentei me levantar e revidar, mas fui logo atacado novamente.

— Pare! — Mais uma vez tornei a gritar, mas o vento apenas aumentou, vindo acompanhado de uma risada fria e seca.

Felizmente consegui me levantar, correndo em direção a van, para pelo menos tentar me proteger. Mas ao fazer isso tive uma surpresa...

— Luna? Cleo?

Ambas estavam presas e inconscientes, com mordaças ao redor de suas bocas e cordas firmes em volta dos punhos e pernas.

— O que diabos está acontecendo aqui?

Minha pergunta foi respondida quase que imediatamente, embora preferisse ficar sem a resposta, já que ela me levou ao chão, tirando uma grande quantidade de sangue da boca.

— Ora, ora... — Disse uma voz feminina, fria e áspera, a minha frente. — Estes são os tais Guardiões que mataram Zargron?

Eu já estava em pé, tentando encontrar o ser que zombava de nós, mas ela simplesmente estava invisível. Tentei usar os poderes da pedra, mas eu estava tão nervoso que mal conseguia me concentrar.

— Eles são uma piada! — Desta vez foi uma voz masculina quem se pronunciou, tão fria quanto a outra. — Vamos levar a garota em vez de perder tempo com eles.

— Você tem razão. — Respondeu a mulher, mas algo me dizia que ela não estava contente, pois logo me levou ao chão mais uma vez. — Mas acho que eu ainda posso me divertir com esse aqui...

De repente eu senti algo em minha bochecha, cortando-a profundamente. Eu queria reagir, mas não conseguia reunir forças para revidar. Estava a mercê do destino.

— Faça o que quiser, eu não vou ficar aqui perdendo tempo com isso. — Retomou a fala o homem.

Meu coração estava acelerado, enquanto sentia uma brisa leve ao meu redor, diferente do forte vento que antes soprava.

— Está com medo, queridinho? — A voz continuava a me provocar, mas desta vez ela estava muito próxima de meu ouvido, fazendo-me ter calafrios a cada vez que ela sussurrava.

Mais uma vez um corte foi feito, porém na minha camisa, rasgando-a e permitindo que o ar gélido penetrasse e atingisse meu tórax, fazendo com que o frio tomasse conta de mim.

— Não vou te matar, meu amor... — A maneira como a mulher dizia era tão aterrorizante que me deixava ainda mais nervoso. — Um jovem tão bonito quanto você não merece a morte tão cedo.

Senti o toque de algo em meu pescoço, mais parecido com os lábios da mulher, me beijando e lambendo logo em seguida, fazendo com que eu me arrepiasse mais uma vez.

Tentei de toda maneira me acalmar, mas estava difícil, ainda mais quando ela já estava em cima de meu corpo, me prendendo com suas mãos e me deixando apavorado.

Fechei meus olhos assim que senti seus lábios tocarem os meus, num beijo suave, frio e molhado. Diferente do beijo de Cleo, aquele foi horrível e assustador, mas serviu para que eu conseguisse me acalmar, pois logo que eu abri os olhos, pude enxergar o vulto da mulher a minha frente ao utilizar meus poderes.

Ela era extremamente bela, embora não pudesse a distinguir de forma perfeita. Seus cabelos eram lisos e compridos, que pendiam em seus peitos. Os olhos da mulher eram negros por inteiro e possuía uma pele pálida como a neve. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi sua boca, com um lábio vermelho sangue e caninos afiados, semelhantes a de um vampiro.

— Quem é você? — Consegui perguntar ao me manter calmo.

Notei que seus lábios se moveram num sorriso e ela estava apenas há alguns centímetros de mim.

— Posso ser seu maior pesadelo, seu fim. — Respondeu, se aproximando ainda mais e beijando meu pescoço, enquanto sussurrava de forma sensual em meu ouvido. — Mas posso ser o seu passaporte para uma vida nova.

E foi então que ela se afastou, exibindo um sorriso e mostrando suas mandíbulas. Não foi preciso muita coisa para perceber o que ela faria logo em seguida e não havia nada que eu pudesse fazer, já que não conseguia nem ao menos me mover.

A mulher se preparou para cravar seus dentes afiados em meu pescoço, mas no mesmo instante o vento forte voltou a soprar, fazendo-a parar onde estava.

— Sai daqui, sua vadiazinha do inferno. — Outra voz surgiu há alguns metros do meu lado, fazendo com que o vento aumentasse tanto que acabou tirando a mulher de cima de mim, arrastando-a pelo chão.

Assim que ela voou, pude sentir minha energia voltar e então obtive forças para me mover novamente, levantando-me logo em seguida, ainda assustado com o que estava por acontecer.

A voz pertencia a um garoto, por volta dos 18 anos de idade. Ele tinha a minha altura aproximadamente, mas apesar das nossas semelhanças, ele era muito diferente de qualquer um de nós. Sua pele possuía uma coloração acinzentada e pálida, enquanto suas pupilas mudavam de cor dependendo da posição em que eu o via, de negro a branco. As orelhas do garoto eram pontiagudas e chamativas, mesmo que ele tentasse cobri-las com seus cabelos prateados. Não precisou de muito para associa-lo a um Drow, embora ele não fosse totalmente parecido com um.

— Espero não ter estragado o clima entre vocês dois. — Falou o garoto, assim que se aproximou de mim. — Pegue o babaca ali, Icu.

Ao falar aquilo, uma coisa bizarra passou por mim. Ele possuía pernas e braços como qualquer pessoa normal, a não ser o fato de possuir um pouco mais de 2 metros de altura e ser feito inteiramente por pedras de gelo.

— Icu! — Gritou o gigante indo em direção a Luna, que estava sendo levada por um homem invisível, mas que eu podia ver graças aos poderes de Hades.

A semelhança entre ele e a mulher era evidente, desde as mandíbulas vampirescas até a pele pálida. A única coisa que diferenciava os dois era a fúria, pois assim que ele viu Icu, ele imediatamente largou Luna e esperou pela chegada do gigante, girando seu corpo e lançando o mesmo contra a van, amassando-a por completo.

— Merda... — O garoto ao meu lado correu no mesmo instante em direção ao vampiro invisível, pegando de suas costas um cajado inteiramente reto de madeira.

Eu queria ajuda-lo, mas, mesmo lutando contra dois vampiros invisíveis ele , ele não precisava de mim. A cada movimento que ele fazia com seu bastão, a metros de distância, uma rajada de vento era criada, lançando os dois há uma boa distância.

A única coisa que fui fazer, quando me recuperei do transe ao vê-lo batalhar contra os dois, foi socorrer Cleo e Luna, que haviam acordado e tentavam se libertar das amarras.

— O que está acontecendo? — Perguntou Cleo, assim que a soltei.

Não respondi absolutamente nada, pois eu ainda estava tentando tudo aquilo.

Felizmente o garoto foi rápido durante a batalha, humilhando cada um dos vampiros de forma que ele não levasse um arranhão se quer.

— Você irá pagar por isso! — Gritou a mulher, assim que o garoto conseguiu expulsar ambos, mas ela não partiu sem antes olhar para mim e dizer suas últimas palavras. — Nós não terminamos aqui, meu amorzinho.

Ela deu uma piscadela, se transformando em uma águia majestosa, mas desta vez visível, junto com seu irmão, voando e desaparecendo rapidamente.

— Só um conselho, cara... — Comentou o garoto, passando do meu lado e se ajoelhando para ajudar o gigante de gelo. — Por mais que ela seja bem gata, ela pode ser bem perigosa.

Eu ainda estava muito atônito para fazer alguma pergunta ou responde-lo. Ainda tentava entender o que havia acontecido ali e minha ficha só foi cair quando Patrick e os outros chegaram alguns minutos depois.

Cada um deles olhou para a cena da mesma maneira que eu fiquei. Mas não durou muito para que eles logo me encarassem.

— Puta que pariu, Kevin! — Gritou Kendall ao ver a van toda destruída. — Você só tinha uma obrigação, que era cuidar dessa merda aqui, e você consegue falhar nisso?

— Hey! — Luna surgiu, empurrando-o e mostrando uma cara de irritação. — Kevin não teve nada a ver com isso, muito menos nós.

O garoto, que até então havia conseguido ajudar o gigante de gelo, emitiu uma risada baixa.

— Tecnicamente vocês têm uma parcela de culpa. — Murmurou ele, enquanto limpava seu bastão, sem ao menos olhar para nós.

— E quem é você? — Perguntou Patrick, de braços cruzados e com uma expressão de fúria nos olhos.

Ele guardou seu cajado nas costas e olhou para ele.

— Eu sou Carl Waloo, mas, por favor, me chame apenas de Carl. — Disse, se apresentando e fazendo uma reverência logo em seguida. — Waloo me lembra uma marca de privada.

Ninguém respondeu nada, apenas ficamos observando o garoto, que exibia um sorriso maroto.

— Já que ninguém vai agradecer por eu ter salvo a vida de vocês, acho melhor arrumarmos nossas coisas e partir o mais rápido possível, a não ser que queiram enfrentar aqueles Strigoi novamente.

— O que? — A voz de Logan surgiu no meio da confusão que cada um estava. — Espera um pouco, e quem disse que você vai com a gente?

Carl levantou uma de suas sobrancelhas, abrindo um pouco da gola de sua camisa e pegando uma pedra presa ao seu colar.

— Pelo simples fato de que, assim como vocês, eu tenho isso... — Disse, mostrando uma pedra perfeitamente esférica e acinzentada, idêntica a que cada um de nós portava nos anéis ou no próprio bolso.

— Isso é...

— Uma Pedra Divina? Sim...

Notas finais
Loucura, loucura, loucura