Notas iniciais
Bom galera, desculpem-me pela demora, fiquei doente essa semana e estava difícil sair do banheiro kkkkkkkkk Mas finalmente consegui superar e estou aqui, com um lindo (ou não) capítulo. Espero que gostem.

As palavras ditas pelo homem abalaram cada região da minha mente e minhas memórias. Milhares de dúvidas e questionamentos me atingiram de uma só vez, fazendo com que ficasse atordoado em questão de segundos.

O ser gesticulou brevemente suas mãos, fazendo com que a carta flutuasse e viesse em minha direção, obrigando-me a esticar os braços para pegar.

— Quem é você? — Minha pergunta soou temerosa, demonstrando a confusão causada em minha cabeça. — E o que está fazendo com uma carta de minha mãe?

Os olhos de meus amigos se voltaram a mim, mas naquele momento nada mais importava a não ser as respostas para as perguntas.

Por um breve instante pensei que ele iria me responder, mas ele apenas se virou, dando passos lentos e firmes enquanto se camuflava entre as sombras que criava ao seu redor.

— Onde está indo? — Desta vez minha voz saiu firme e num tom alto e claro, que acabou ecoando sobre as colinas mais distantes. — Você não respondeu minhas perguntas!

De repente as sombras o cobriram por completo, fazendo com que desaparecesse no meio da estrada, sem deixar nenhum rastro e algum sinal de vida de que algum dia esteve ali. Enquanto isso eu ainda sentia o peso da carta em minhas mãos, como se cada pergunta que eu ainda tinha sobre minha mãe estivesse ali.

— Sinistro... — Murmurou Kendall seguido de um assovio tranquilizador.

Meus olhos ainda pairavam sobre o lugar onde o ser havia desaparecido e só fui acordar de meu transe quando Logan se aproximou de mim.

— Tudo bem? — Estava claro que ele estava preocupado comigo, o que conseguiu me reconfortar, mesmo quando ele colocou sua mão pesada em meu ombro e apertando-o com força sem saber.

— Sim. — Falei entre os dentes mesmo não estando completamente bem.

Fiquei olhando alguns instantes aquela carta como se fosse uma bomba e estivesse prestes a explodir na minha cara, até que decidi guarda-la em meu bolso, deixando a todos confusos.

— Você não vai ler o que está escrito aí? — Perguntou Luna de forma curiosa.

— Não. — Respondi sem hesitar. — Até alguns minutos eu nunca havia recebido nada de minha mãe ou se quer sabia que ela poderia estar viva. Além disso você viu aquele homem e como ele simplesmente desapareceu sem responder nenhuma de minhas perguntas. E se ele trabalhar para Zargron ou algo do tipo? Acho que ainda não estou pronto para isso...

— Kevin tem razão. — Concordou Cleo, dando um passo a frente e me lançando um olhar de compreensão. — Abra quando se sentir bem e seguro.

Exibi um sorriso breve em resposta, olhando para Luna logo em seguida, que aparentemente não gostou muito do que Cleo havia dito, embora não soubesse o motivo.

— Tudo isso é bem sinistro, eu sei, mas temos algumas coisinhas para resolver gente. — Kendall havia aberto a porta de trás da van, que tinha se fechado num baque por causa dos fortes ventos causados pela tempestade. — Onde iremos passar a noite? Já que não cabe todo mundo aqui na van.

Ele então retirou de lá uma mochila grande de acampamento, na qual levávamos as barracas caso precisássemos utiliza-las por precaução. Sabendo disso, todos os olhares se dirigiram a Patrick, que havia se encarregado de procurar algum abrigo para nós.

— Acho que aquela cidade fantasma não é um bom um lugar para passarmos a noite. — Disse ele, mostrando alguns poucos ferimentos em seu braço. — Acho que o jeito é ficarmos aqui mesmo e montar barraca, revezando o horário de vigia.

Embora eu não gostasse de dormir nas barracas, assim como nenhum de nós, ninguém decidiu se manifestar contra, já que não possuíamos outra escolha a não ser aquela.

— Vamos precisar de muita madeira, porque essa noite vai fazer muito frio.

♦

Infelizmente, como previra Kendall, a temperatura diminuiu drasticamente em questão de minutos ao cair da noite, acompanhado de um vento calmo e de sons de alguns animais noturnos como as corujas e alguns grilos. Porém já havíamos nos preparado, pegando vários pedaços de galhos secos de algumas árvores distantes, reunindo-os em um lugar próximo a van, que nos protegia do vento e nos aquecia com o fogo criado pela Pedra de Vulcano.

O estoque de comida ainda estava cheio desde que compramos dezenas de alimentos que pudessem ser estocados na van, o que não nos obrigava a comer esquilos assados, algo bem nojento pra ser sincero.

A noite passou de forma tranquila e silenciosa, embora meus pensamentos ainda estivessem concentrados na carta que estava em meu bolso.

Kendall decidiu abrir um baú de memórias em sua mente, tentando se lembrar de cada coisa que passaram quando ainda estavam com Teseu. Felizmente, todos ali já haviam, de certa forma, superado aquela dor da morte, restando apenas a saudade de um homem que ajudou e fez tanto por cada um ali.

O mais estranho de tudo foi ver Patrick, em algum momento da noite, interagir conosco e contar algumas de suas histórias também. A princípio ele contava com emoção, até se tornar frio e distante quando começou a se lembrar dos momentos em que envolviam Zargron. Mas eu não podia culpar o garoto ou a ninguém ali, pois aquele nome ainda era uma ferida aberta e dolorosa entre nós.

Zargron surgiu literalmente da noite para o dia na vida de cada um, mas abalou a todos de tal forma que foi difícil se acostumar. Primeiro matando os pais de Patrick por vingança, depois matando Ariadne, o amor de Teseu e quase uma mãe para Cleo e Kendall, matando também a tia do segundo, sem esquecer das vezes que mandou outros fazerem o trabalho sujo para ele, como matar meus avós e os pais de meus amigos.

Apesar disso, cada um de nós sabia o que poderia nos acontecer desde então. Zargron nos preparou para o mundo verdadeiro e o quão cruel o destino pode ser, independente do que você seja. Um mortal ou um lobisomem. Uma fada ou um anão. Ninguém escapa dos perigos que a morte e as tragédias escondem.

— Lei de Murphy. — Foi o que Logan me disse uma vez durante a nossa viagem, fazendo uma referência, talvez não totalmente literal, mas similar ao que estava acontecendo. — Tudo de ruim que pode acontecer, vai acontecer.

Há mais de um mês eu era um simples humano, no segundo ano do ensino médio, irresponsável e preguiçoso, além de lerdo. Agora me pegava pensando e questionando inúmeras coisas e acontecimentos. Esse era o novo eu e, embora as maldições que aquela vida possa me trazer, eu estava gostando daquilo.

♦

— Uma carta? — A voz de Hades retumbou no mundo monocromático de sombras e escuridão, algo que eu já estava me cansando e me acostumando, embora quisesse ter sonhos normais em vez de conversas sem sentido com o espírito de um deus preso no interior de uma pedra. — Da sua mãe?

— Sim...

Havia relatado o estranho dia no momento em que peguei no sono após decidir quem ficaria de vigia em primeiro lugar, ajudando Cleo.

— Descreva melhor o tal mensageiro. — Pediu o deus, passando sua mão no queixo, como um movimento intrigante.

Retratei cada aspecto e característica daquele ser, desde seu lado mais assustador e sombrio, até o som da sua voz, que ainda ecoava em minha mente como em uma caverna.

— Gilamon. — Hades disse aquele nome com simplicidade e como se já o conhecesse.

— Quem?

Ele se virou, sentando em seu trono de sombras, com formas de caveiras e expressões assustadas de morte em cada uma. Seus olhos estavam enigmáticos como sempre, mas eu senti uma leve alteração em seu humor, como se estivesse preocupado com algo.

— Pelo que você descreveu, esse só pode ser Gilamon, o Exu que acompanhava sua mãe nos rituais de magia negra.

— Espera um pouco. — Naquele momento mais perguntas surgiram em minha mente e eu sabia que muitas delas só podiam ser respondidas quando abrisse aquela carta. — Magia negra?

— Exatamente. — Ele se inclinou um pouco em seu trono, enquanto me olhava diretamente. — Sua mãe não gostava muito de utilizar este tipo de magia, mas era obrigada a recorrer a ela nos momentos de dificuldade.

— Mas...

— Sim, eu sei. É muita coisa para você entender, mas sabe que algum dia terá que ceder e abrir esta carta, não sabe?

Assenti levemente, mas Hades conseguiu perceber, voltando a encostar em seu trono.

— Mas tem algo me incomodando além disso... — Disse ele, fitando o vazio da escuridão. — Por que agora? Por que ela não mandou essa carta há anos?

— Você acha que ela pode estar viva?

Aquela pergunta era a única chama de esperança que ainda tinha, e só foi acesa algumas horas atrás, no momento em que vi o nome de minha mãe escrito com sua própria caligrafia.

— Acho que não. — Disse ele, fazendo com que a chama fosse quase apagada e minhas esperanças extinguidas. — Muito improvável.

— Mas então como essa carta chegou até mim?

— Gilamon, claramente. — Respondeu com certeza o deus. — Por mais que sua mãe evitasse usar a magia negra, o Exu sempre a acompanhava. É bem provável que ela tenha pedido que entregasse a você em algum momento de sua vida...

Ao dizer isso, suas sobrancelhas se juntaram, evidenciando algum pensamento que passou pela cabeça do espírito a minha frente. Logo ele passou seu olhar sobre mim e me exibiu um sorriso.

— A Mão Mágica... — Falou, deixando-me ainda mais confuso.

A única coisa que fiz foi abaixar os olhos e fita-las. Mas não havia nada demais com minhas mãos, nada mágico.

— Não entendi.

Ele sorriu mais uma vez.

— Você terá tempo para entender, em breve. — Hades se levantou e gesticulou com as mãos. — Agora você precisa acordar...

♦

— Kevin? — A voz de Kendall me despertou do sono profundo em que estava, fazendo com que abrisse meus olhos e visse a escuridão da noite e a pouca luz que a fogueira, agora minúscula, emitia. — Sua vez de vigiar a Cleo.

Levei alguns instantes para conseguir acordar por completo e quando o fiz fui de encontro à garota, que estava do outro lado da van, segurando algumas adagas enquanto olhava para as estrelas.

Seus olhos se direcionaram até mim quando passei por ela, sentando ao seu lado. Ela rapidamente exibiu um sorriso, como sempre fazia para qualquer coisa.

Cleo era uma garota dócil e gentil, que sempre estava feliz com a vida, embora ela tivesse centenas de motivos para não estar. Seus cabelos eram loiros cor de mel e seus olhos azuis faziam uma combinação perfeita.

— Conseguiu dormir? — Perguntou ela, voltando a olhar os dois lados daquela estrada, em busca de alguma coisa suspeita.

— Sim.

Dormir havia se tornado algo raro desde a morte de Teseu e a batalha contra o Anjo Negro, mas dormir bem era algo completamente impossível para todo mundo ali, pois sempre havia o peso da preocupação desde então. Mesmo que soubéssemos que teria alguma pessoa nos vigiando, aquilo não era o bastante muitas vezes.

— Embora já tenha tido noites melhores...

Ela tornou a me olhar, com uma expressão diferente, o que me fazia lembrar de que Cleo possuía uma maldição que não a permitia dormir ou nem mesmo morrer.

— Hades mais uma vez? — A garota sabia quando eu tinha algum sonho com o deus, aliás, qualquer um de nós conversava com os espíritos dentro de suas pedras, mas evitávamos falar a respeito.

Apenas assenti de leve com a cabeça, relatando algumas partes de nossa conversa, inclusive a explicação do deus sobre o ser que apareceu.

— Um Exu? — Cleo parecia surpresa, mas logo prosseguiu. — Agora faz sentido...

— O que?

— Meu pai também possuía um Exu. — Comentou a garota, apertando suas mãos de frio. — Todos os bruxos, independente do caminho que sigam, devem ter o auxílio desses seres. Hoje em dia eles estão praticamente extintos e nunca mais ouvi falar de um, a não ser o que apareceu hoje.

A cada dia que se passava, mais e mais criaturas surgiam em meu dicionário. Era insuportável ter que ficar se lembrando o que é o que. Anjos-Negros, Licantropos, Elfos, Drows... Era uma infinidade de seres de diversas culturas e mitologias que eu muitas vezes ficava perdido. Mas eu tinha a sorte de ter uma memória extremamente boa, graças ao sangue de bruxo que corria em minhas veias.

Desde que eu iniciei minha nova vida, as manifestações ao redor da minha família começaram a surgir. A Pedra Divina e o Livro de Bruxaria, começando por minha mãe, que me manteve vivo até então. A Espada Kólasi de meu pai, entregue pelos anões enquanto procurávamos por algumas armas. E agora a carta enviada por minha mãe. O que me fazia perguntar qual seria a próxima surpresa.

— E onde está o Exu de seu pai? — A minha pergunta poderia parecer tosca, mas mediante a situação era uma curiosidade.

— Morto... — Disse ela como se não fosse nada demais. — Morreu quando eu ainda era criança, não tenho muitas lembranças dele, a não ser que me dava muito medo.

— Acho que isso é uma característica em comum entre eles.

Um breve sorriso surgiu no canto da boca de Cleo, seguido de um calafrio que a fez tremer e se encolher. E, ao perceber o frio que ela estava sentindo, ofereci meu abraço para poder esquenta-la. Com relutâncias ela finalmente se entregou, se aninhando em torno de meu braço.

A temperatura do corpo de Cleo estava baixa, assim como a minha, mas no momento em que senti o cheiro de seu cabelo próximo ao meu rosto, uma forte carga de adrenalina percorreu minhas veias, deixando-me com calor em instantes.

— Acho que não tivemos um momento depois de... bom, você sabe. — Lembrei-me do toque de seu beijo quando estávamos na biblioteca na pousada de Cleo. Era uma sensação ótima e nostálgica, mesmo que tenha acontecida há apenas duas semanas.

Ela se mexeu inquieta em meus braços, desconfortável com meu comentário.

— Do que você está falando? — A garota parecia não ter entendido a minha referência, mas algo em sua voz me fez perceber que ela apenas estava se fazendo de esquecida.

— Não se faça de boba... — Falei rindo, mas ela simplesmente permaneceu em silêncio, enquanto tentava se esquentar ainda. — Estou falando do que aconteceu na biblioteca.

Mais uma vez o silêncio predominou, permitindo-me ouvir o vento bater em meus ouvidos. Um vento gelado que trazia uma mensagem de medo e perigo, embora não houvesse nada a que temer, pelo menor por ora.

— Ah... — E esta foi a única resposta que obtive, depois de lembra-la. Uma resposta que não era o que eu esperava e que me deixou mal por ouvir aquele simples sussurro.

— O que foi?

— Kevin...

Ao dizer meu nome, Cleo se afastou, desvencilhando-se de meus braços e lançando um olhar tímido e sem jeito, enquanto sua pele corava.

— Aquilo não devia ter acontecido. — Disse ela. Foram apenas algumas palavras, mas que foi o suficiente para me derrubar. — Eu não... eu não queria ter feito aquilo.

— Mas...

— Foi tudo culpa minha. — Tornou a falar, pondo a mão na sua cara, envergonhada. — Kevin, eu não posso morrer, sabia disso?

— Sim, mas o que isso tem haver?

— Tudo! — Ela inclinou-se mais uma vez, fitando a lua, tão distante e ao mesmo tempo tão próxima. — Meu pai viveu por anos, se apaixonou por tantas mulheres e viu cada uma delas morrer em seus braços. Eu não quero isso... Eu não quero ver as pessoas que eu gosto morrerem e eu continuar viva pela eternidade, me apegando ainda mais às pessoas, que tornarão a morrer algum dia.

— Cleo... — Havia lágrimas em seu rosto e eu me aproximei para tentar limpa-las, mas ela se afastou de minha mão.

— Por favor, entenda isso. — Ela se levantou, limpando as lágrimas. — E me perdoe. Eu juro que não era a minha intenção magoar você.

De repente ela se virou, balançando seus loiros cabelos ao vento gélido da noite.

— Onde você vai?

— Eu preciso de um tempo sozinha... — Falou Cleo sem olhar para trás. — Não se preocupe, eu ficarei bem.

E então a garota partiu, me deixando sozinho na escuridão e no frio, tentando entender as palavras que ela havia soltado ao vento...

Notas finais
E aíí??? O que acharam seus lindos???