Guardians
12 Fora de si - Parte 2
Notas iniciais
O choque pode ter retardado seus movimentos, mas os cinco anos de treinamento físico e psicológico fizeram com que ela jogasse seu corpo para o lado assim que viu o objeto metálico sendo erguido em sua direção.
O Barulho do tiro ecoou pela casa e o rosnado de Agumon pode ser ouvido nitidamente no cômodo onde eles estavam. A bala havia passado direto e acertado uma janela, fazendo o vidro explodir em dezenas cacos. Que calibre era aquilo? Sofi pode ouvir seu coração bater também, sua mente negou o fato mais uma vez enquanto ela se escondia atrás do sofá. Não era o melhor lugar para se esconder, mas era o único disponível.
– Agente Sofia – Weverton chamou. Sua soou calma e divertida.
A arma estava ainda em sua mão, fora feita para Digimons, mas um tiro em um humano o atordoaria por tempo indeterminado. No entanto não queria usa-la. Algo estava errado, só podia estar.
Começou a engatinhar e de repente a correr. – Pra onde está indo? – O garoto perguntou enquanto ela se jogava contra a parede da cozinha. Ajustou a arma em sua mão e moveu a cabeça devagar para poder novamente ter visão do mesmo.
Assim que pôs sua cabeça para fora outro tiro foi desferido. A agente pode jurar que sentiu o ar se dobrar perto de seu rosto. A bala fez um buraco na parede na sua frente. – Weverton, o que esta acontecendo? Você não quer fazer isso.
– Fazer o que? Atirar em você? – Ele perguntou. Sua voz parecia estar mais próxima, ele estava vindo até ela. – Não estava nos meus planos, mas acredite em mim, eu quero sim.
Ela se abaixou devagar e suspirou. Tinha que fazê-lo. Estava pronta para derrubar Weverton quando um relâmpago amarelo passou depressa por ela. Agumon abriu a boca e o brilho quente surgiu, um instante depois indo em direção ao garoto no outro cômodo.
Kenji surgiu logo em seguida, correndo com as pantufas nos pés. Sofia o agarrou pelo braço antes que ele pudesse sair detrás da parede e ficar na mira de Weverton, que estava em sabe-se lá em que estado.
Mais dois tiros ecoaram antes que Weverton começasse a gritar – se afaste de mim, se afaste de mim.
Sofia não se conteve, ergueu-se novamente com a arma deixando-a em posição e se virou ficando de frente para os dois. Agumon estava em cima de Weverton que tentava desesperadamente segurar a mandíbula do réptil. Uma mancha negra, ainda com fagulhas mostrava onde o Digimon havia acertado o chão no fundo da sala.
Kenji gritou algo em sua língua e Agumon saltou para trás, abriu os braços e a boca. A chama se formava novamente pronta para ser jogada e torrar o garoto que se encolheu no chão, mas ao invés disso o Digimon apenas se manteve ali, mostrando quem estava no comando.
Sofia olhou para Kenji que mantinha um olhar sério. As sobrancelhas franzidas e os lábios comprimidos. Hiraga havia contado para ela e Pedro, assim que chegaram, que o pai do garoto havia sido assassinado por um Digimon e que havia uma pessoa com ele. Kenji provavelmente sabia que aquele deveria ser o assassino de seu pai, mas mesmo assim impediu que seu Digimon o matasse.
Ela tocou o ombro do garoto e sorriu da maneira mais meiga que pode. Não se saiu muito bem, mas deu seu melhor para transmitir que ele estava fazendo o correto.
Logo depois ela olhou para Weverton que agora se sentava com as pernas cruzadas no chão. Caminhou até a arma que ele havia deixado cair no chão e a apontou de volta para ele, deixando sua arma RAD presa às costas.
Só então ela realmente parou para analisar o garoto. Não que o conhecesse bem, tinha apenas estado na faculdade junto a ele e os dê mais. Eram claros os sinais de desgaste, seu cabelo que antes aparentava estar molhado agora se revelava sujo e ensebado. Grandes olheiras, quase roxas, pintava a base de seus olhos que tremiam como se ele estivesse drogado.
Seu rosto também havia mudado, a barba estava por fazer, mostrando as falhas na bochecha. Mas isso não havia a incomodado tanto quanto os ossos que se mostravam sob a pele das bochechas. Ele não parecia comer a dias, estava tão magro que ela mal pode entender como aguentava ficar de pé.
Então ela finalmente reconheceu suas roupas. Negou-se mais uma vez, não podia ser verdade. A ultima lembrança que ela guardava dele era da despedida em Belo Horizonte, mas não podiam ser a mesmas peças, estavam rasgadas e sujas, mas não podiam ser as mesmas.
– Você... O que aconteceu com você? – Ela perguntou se aproximando dele devagar.
Ele moveu a cabeça para o lado novamente, o mesmo movimento que havia feito antes de atirar nela, antes de falar – eu finalmente consegui.
– Conseguiu o que? – Sofia perguntou se aproximando mais um pouco dele. Ela podia sentir o calor da pequena chama mantida na boca de Agumon ao seu lado. Estava mais nervosa que o normal com toda a situação. Havia sido treinado para se lembrar de nomes e fisionomias, mas Weverton para ela não era mais que um vulto entre todo o turbilhão. Nem sequer tinha chegado a trocar mais que três palavras casualmente com o mesmo.
Mas a visão dele remetia instantaneamente a Jonas e talvez pensar nele estivesse causando todo aquele reboliço. Ele tinha dado inicio aquilo tudo, ele tinha ido além do que qualquer um até então, e agora estava morto.
Weverton se levantou de súbito, gargalhando. Sofia ergueu a arma como reflexo e por pouco seu dedo não pressionou o gatilho. Agumon fechou a boca com força extinguindo a chama e começando a rosnar.
– Saia dai e eu enfio uma bala no meio da sua testa ou na melhor das hipóteses – ela apontou para Agumon que parecia um crocodilo esperando por um movimento em falso do antílope para dentro do lago – ele te devora.
Weverton sorriu e cruzou os braços. Por um instante toda a insanidade que ele transpirava foi substituída por um olhar sério e talvez, Sofia pudesse dizer, frio. Ela não conseguiu desviar o olhar, havia algo nele não natural. – Você não tem coragem, nunca teve. Por isso deixou o RAD e não porque imaginou estar fazendo a coisa certa.
– Do que você...
– Quando viu Pedro tomando coragem e apontando uma arma para todos lá dentro, fugindo daquela vida. – Ele continuou dizendo por cima dela. – Ele fez o que você nunca teve coragem, até então pelo menos.
Kenji gritou alguma coisa e os olhos de Agumon se comprimiram, o Digimon deu um passo para frente e Weverton deu outra gargalhada. – Eu matei o pai dele. E depois de mata-lo é a vez do avô dele morrer.
– Por que esta fazendo isso? – Ela perguntou tentando se focar no que devia ser feito.
O olhar de Weverton seguiu até atrás de Sofia. A agente olhou para a mesma direção e encontrou Kenji, que parecia assustado com os olhares repentinos do outro. – Por causa de vocês, Guardiões.
***
Hiraga entendia bem o conceito evolucionário e o poder de cada um dos passos evolutivos. Claro, não podiam ser medidos com exatidão, principalmente depois que se chagava na ultima fase. Ser um Kyuukiokutai significava ter poder além de tudo que o ser humano pode criar até hoje. Vulgo é claro, bombas nucleares.
Infelizmente aquela não era uma opção para o momento. Dorulumon saiu em disparada e se lançou novamente contra o pequeno Digimon. Pequeno no tamanho, ele tinha os mostrado que seu poder era muito superior ao de seus Digimons.
Enquanto Shibume tentava desesperadamente correr para o carro tudo o que ele podia fazer era segurar aquele monstro o máximo que pudesse. Se isso valia a pena? Shibume era o único verdadeiro Criador de Criaturas, vivo. Se havia alguém que sabia como parar os Digimons, esse alguém era aquele velhote.
Pinocchimon demorou um pouco para perceber o que estava acontecendo, mas quando seus olhos negros se focaram no pequeno grupo alcançando finalmente o carro, ele ergueu seu martelo e projeteis como misseis foram atirados.
Pedro ergueu sua arma e depois de fechar um dos olhos tentando mirar o melhor possível, conseguiu acertar um dos quatro tiros efetuados, fazendo o projetil explodir a alguns metros deles. Uma onda de energia se formou empurrando-o para trás, criando uma nuvem acinzentada de fumaça e desviando os outros três projeteis, que ganharam altura e explodiram em algum lugar no céu atrás deles.
O Agente tentou focar a visão e viu o estrago da explosão no asfalto. O poder de Kyuukyokutais era surpreendente. – Tirem-no logo daqui – gritou se virando para os agentes que agora abriam as portas do carro.
Kinightmon se atirou em Pinocchimon. Agarrou-o com as duas mãos, rolando em seguida pelo asfalto. Hiraga segurava forte seu D-ark, estava angustiado, sabia que aquela era uma batalha muito difícil e que as chances não estavam boas para ele.
Ouviu os pneus do carro “cantarem” quando o agente deu a partida e se sentiu pior ainda. Agora aquilo era responsabilidade deles. Ergueu a arma que tinha pegado com outro agente enquanto ajudava Shibume e tentou colocar seus pensamentos em ordem. Aquele não era lugar pra ele.
Dorulumon rosnava próximo aos dois enquanto Kingthmon, que agora segurava Pinocchimon pela garganta, dava-lhe socos repetidamente. Pinocchimon gritava como uma criança que perdeu o brinquedo. Debatia-se no chão, balançando com força seus braços e pernas, mas nenhum dado sequer pareceu se soltar.
Kinghtmon emitiu um ruído, algo alto porem agudo e com ecoo, diferente de tudo o que Pedro já tinha ouvido. Hiraga sabia que era sua voz e também o que dizia. O Digimon de metal deu mais um soco e então Pinocchimon ficou imóvel. Suas orbes negras, que tomavam o lugar de olhos, pareceram tinir.
No soco seguinte agarrou a mão enorme do Digimon acima de si, impedindo o próximo golpe que levaria. Hiraga deu um passo à frente e viu sua arma tremer. Pinocchimon aos poucos começou a girar a mão do Digimon, consequentemente fazendo o mesmo com o braço e para surpresa de todos, ele falou – você esta morto, de lata.
– Mas... – Pedro tentou falar, porém o choque de ver o braço do Digimon de mais de dois metros sendo torcido como o de uma criança por um adulto fez com que ele perdesse o fio da meada e não soubesse mais o que tinha a dizer.
Pinocchimon se levantou ainda segurando o braço de Knightmon e gritou – todos vocês estão mortos.
Pedro foi o primeiro a atirar. O tiro acertou o ombro do Digimon de madeira, fazendo-o balançar com o impacto da esfera de energia. Em seguida Hiraga tentou. Errou os dois primeiros tiros, quase acertando Dorulumon no caminho. O terceiro acertou o pé do Digimon o fazendo salta de reflexo, soltando Knightmon.
Dorulumon pulou sobre ele, o agarrando com as mandíbulas e o arremessando em seguida a alguns metros de distancia na rua. O Digimon de armadura pegou a espada em suas costas e começou a correr na direção do pequeno.
– Temos que dar um jeito de para-lo – Hiraga comentou desesperado.
– Mesmo? – Pedro perguntou ironizando o comentário.
Ao tentar acertar Pinocchimon o Digimon de madeira saltou para o lado, ficando em posição de ataque. Deu três passos rápidos e logo em seguida saltou, quase rente ao chão, estendeu o martelo até suas costas e o trouxe de volta acertando em cheio o peito de knightmon.
O Digimon foi lançado em um muro próximo, derrubando o mesmo e caindo sobre os tijolos. Hiraga saiu em disparada em direção a ele. Não sabia como ajudar, mas tinha que estar lá.
Pedro atirou mais uma vez e o tiro dessa vez passou de raspão, quase acertando a cara da marionete demoníaca. Dorulumon ergueu sua calda mais uma vez e o tornado começou, mas desta vez Pinocchimon saltou, ficando acima do vórtice de vento. Alcançou o “X” em suas costas e o arremessou contra ele.
O objeto foi mais rápido que os reflexos de Dorulumon, o atingindo em cheio na lateral do peito. Pedro se sentiu tonto e sua visão vacilou por um instante. Os primeiros efeitos da batalha começavam a surtir efeito.
Dorulumon foi para o chão urrando, dados se desprendiam de uma grande ferida que surgira no seu tórax. Knightmon se levantou com dificuldade, um grande amassado em força circular havia surgido onde recebeu o golpe.
Pegou sua espada no chão e começou a ir em direção ao boneco de madeira, arrastando-a pesadamente pelo chão. Pinocchimon saiu correndo em direção a ele, com seu martelo erguido pronto para mais um golpe. Saltou da mesma forma que havia feito antes e trouxe o martelo até suas costas, buscando espaço para aumentar a força do impacto.
Mas surpreendendo o agente brasileiro, Knightmon moveu sua espada com uma velocidade inumana, acertando o Digimon de madeira da direita para a esquerda. O pequeno foi direto ao chão rodando. O impacto fez lascas de madeira se soltarem e os primeiros dados se desprenderem do corpo do Digimon.
Knightmon voltou a falar, sua voz saiu como da ultima vez, mecânica e com ecoo, mas desta vez Pedro pode ver que eram palavras na língua local. Hiraga sabia o que era, podia até notar a arrogância no tom de voz. – Fique no chão.
Pinocchimon começou a tremer, ainda com o rosto cravado no asfalto. Pedro ajustou a arma no seu ombro pronto para atirar quando percebeu que o Digimon estava gargalhando. Se levantou devagar, se apoiando nos joelhos e depois moveu a cabeça de um lado para o outro. Um estalo se fez ouvir quando o Digimon por fim parou de se mover.
– Shibume – disse por fim, saltando surpreendentemente alto para frente, caindo sobre o telhando de uma casa próxima. Olhou para trás e mostrou o dedo do meio, fazendo os dois agentes arregalarem os olhos de surpresa antes de sair correndo.
***
A porta se escancarou com força, batendo barulhentamente contra a parede. Agumon rosnou como um cão de guarda faria e depois voltou a se sentar quando, antes de Kenji e Sofi, soube de quem se tratava.
Kenji correu para ter visão de quem séria, fazendo Sofia arfar em desaprovação, ainda segurando a arma apontada para o outro garoto ajoelhado no chão. Kenji gritou algo em Japonês e foi respondido quase que instantaneamente por varias outras vozes exaltadas.
De repente a visão de um homem velho, porém conservado fez o estomago de Sofia revirar-se. Tinha, a mais de um ano, arremessado Shibume sobre uma mesa de vidro, logo após seduzi-lo. Apesar de tudo não se arrependia, ele deveria ser menos promiscuo em sua idade.
Os agentes que ela já havia visto antes entraram logo atrás dele. Dois dos quatro muito ofegantes e um deles com a roupa rasgada e uma esfoliação a mostra. Queria desesperadamente perguntar o que aconteceu, mas não sabia como. Kenji estava falando rápido, pareciam perguntas, mas ela não sabia dizer ao certo.
Então Weverton riu, chamando a atenção de todos em volta. Shibume se largou no sofá, tinha uma expressão de quem estava com dor, segurando o peito que subia e descia rapidamente com uma das mãos.
– Do que você esta rindo? – A agente perguntou sendo observada pelos dê mais na sala.
Shibume ergueu a cabeça e franziu o cenho. – Espera, eu me lembro dessa voz – resmungou em inglês.
– Eles disseram que um demônio de madeira os atacou – Weverton disse por cima de Shibume. – Disseram que não tiveram chance e que Yami e Kogiro morreram.
Sofia olhou para os agentes atrás de si e depois voltou a encarar Weverton – desde quando fala japonês?
– Você se surpreenderia – ele respondeu com um ar divertido. Algo nele parecia estar mudando lentamente. Sofia não via mais nele o garoto de meia hora atrás, sujo, magricelo e louco. Havia loucura em seus olhos sim, mas não o tipo de loucura saudável, se é que se poder dizer isso. Parecia algo doentio. Assustador.
Shibume se levantou e apertou os olhos – você – disse nervoso – é você mesma. – Sofia olhou pra ele assustada. Não acreditava que ele pudesse reconhecê-la, ou pelo menos torcia para isso. O velho balbuciava furioso em inglês, a fazendo desejar por um instante não entender a língua. – Eu tenho uma cicatriz nas costas por sua culpa, vadia.
Um dos agentes disse algo a Kenji e ele respondeu falando mais rápido que o habitual. Sofia não tinha como saber, mas o garoto repassou os acontecimentos do quase ataque em instantes, deixando os outros ainda mais apreensivos.
Shibume caminhou até Sofia apontando o dedo para ela, agora falando em Japonês. Ela imaginou que deveria ser algum tipo de praga ou maldição e Kenji confirmaria caso pudesse.
– Temos que sair daqui. Tem algo de errado – Sofia comentou, mais para si mesma. Sabia que ninguém podia entendê-la e aquilo a estava deixando fora do sério. – Levante – gritou para Weverton que comprimiu os olhos. A agente conferiu se o D-ark estava em seu bolso e disse em alto e bom tom – diga a eles que temos que ir – fazendo um movimento típico com a cabeça para indicar a porta.
Weverton revirou os olhos e começou a falar. Todos na sala se silenciaram e encararam Sofia apreensivos. Ela confirmou com a cabeça e eles também responderam positivamente.
Apenas Kenji continuou encarando Weverton, não sabia dizer o que era em seus olhos. Um misto de medo e curiosidade talvez. Sentiu por um momento pena dele, mas não deu margem ao sentimento. Ordenou que Weverton que andasse na frente e praticamente cravou a arma em suas costas, fazendo o mesmo dar alguns passos para frente.
Assim que cruzaram a porta ouviram uma explosão. Um projetil prateado veio na direção deles, acertando o carro do outro lado da rua. Pessoas que estavam na calçada começaram a correr. Gritos e curiosos surgiram de repente. Weverton deu dois passos para trás se aproximando do grupo e um dos agentes agarrou o braço de Kenji, o puxando para trás de si.
Agumon começou a rosnar olhando para o fim da rua e os agentes armados miraram na mesma direção. Um pequeno ponto preto saltou. Ganhando uma altura surpreendente antes de cair no chão sobre um dos joelhos, erguer a cabeça e gargalhar.
– Finalmente – Weverton comentou. Em um movimento rápido se virou e estapeou a mão de Sofia que quase deixou a arma cair, ainda no ato chutou a agente que conseguiu desviar o golpe com a mão e saiu correndo.
Um dos agentes atirou, acertando o garoto nas costas. Weverton caiu com força no chão, mas não parou, continuou se arrastando na direção de Pinocchimon que fazia o mesmo caminho. Sofia arregalou os olhos quando percebeu a situação. Arrancou o D-ark do bolso e acionou o dispositivo o apontando para frente.
O brilho surgiu na boca de Agumon um minuto depois, a bola de fogo foi arremessada com ferocidade, porém Pinocchimon apenas estendeu a mão, recebendo o ataque sem qualquer dano. Levou a mão ás costas e agarrou a peça de madeira, atirando-a na direção do grupo que nesse instante começou a correr tentando desviar.
O objeto foi girando na direção de Sofia que só conseguiu se abaixar para esquivar. A peça de madeira atravessou a parede da casa e em seguida surgiu, estourando uma janela e voltando para a mão do dono.
Os dados começaram a se amontoar praticamente em cima de Sofia que engatinhou de costas tentando sair de perto. A criatura metálica tomou forma aos poucos. Parecia um besouro robô, com um grande chifre azul saindo do meio da testa.
– Ballistamon – Sofi gritou seu nome – detenha-o o quanto puder.
– Sim, senhora – o Digimon respondeu com uma voz falha e robótica. Abriu os braços e o alto falante em seu peito começou a emitir uma onde de som pulsante, que dobrou o ar tornando visível o som.
Weverton recebeu o ataque tal qual Pinocchimon. Porem o garoto começou a se contorcer no chão em dor e angustia, tapando as orelhas com as mãos. Sofi só percebeu o que estava acontecendo quando em meio às ondas de som, escutou o grito assustado de Kenji.
Deu dois passos longos para que pudesse tocar as costas de Ballistamon gritando a todo pulmão para ele parar, segundos antes de Pinocchimon tomar uma atitude e saltar sobre o Digimon robô, que por pouco não foi derrubado em cima de Sofi.
Faíscas foram arrancadas da lataria vermelha e azul enquanto o Digimon se arrastava pelo asfalto com Pinocchimon sobre ele, desferindo golpes sucessivos. A agente girou no chão e buscou sua arma RAD, no entanto falhou quando tentou segura-la, sua cabeça deu uma fisgada que tirou totalmente sua atenção. Levou a mão á testa quando a dor começou a ganhar força, trazendo junto de si o mal-estar conhecido.
Kenji tentou segurar Agumon, infelizmente não teve como. O Digimon saiu em disparada, correndo engraçado com suas pernas curtas até próximo da luta no chão. Encheu seu pulmão de ar e a chama foi em direção à cara do monstrinho de madeira.
Pinocchimon balançou a cabeça quando as chamas o envolveram, dando margem para Ballistamon agarra-lo e joga-lo para o lado. Aquela era a desvantagem de ser pequeno e Pinocchimon odiava quando aquilo acontecia.
Weverton tentou se levantar, mas seu corpo estava tremulo. Assustou-se ao se deparar com Sofia sobre si, puxando seu braço, tentando ajuda-lo a se levantar. Sofia, no entanto estava preocupada, não apenas com o ataque que ele havia recebido, mas também com a possibilidade dele fugir.
Kenji viu os agentes desaparecerem na esquina junto de Shibume, sua maior prioridade era proteger o Criador de Criaturas. O garoto também viu quando Knightmon surgiu correndo, indo em direção a Pinocchimon que se preparava para mais um ataque de misseis. Viu, montados nas costas de um lobo de juba que mancava ferido, Hiraga e Pedro chegando com armas em punho.
E por ultimo se deparou com o garoto de cabelos pretos se engalfinhando com Sofia. Os dois disputavam a arma na mão da agente, não a RAD, esta estava no chão atrás de Sofi, a alguns metros. Aquela era a arma que o garoto de cabelos pretos trouxera. Cada um tentando puxa-la para si, desesperado para que o outro largasse.A força do garoto de cabelos pretos ainda o surpreendeu. Ele parecia tão fraco, como poderia disputar força como uma agente treinada?
Em determinado momento, ao perceber o enorme Digimon de armadura surgindo atrás de si, Sofi perdeu o foco, diminuindo a força. Assim Weverton conseguiu traze-la mais para si. Sofia tentou mais uma vez toma-la e sem perceber acabou puxando o gatinho. Pedro saltou do Digimon quase em cima dos dois, de punho fechado, acertou o rosto de Weverton fazendo o garoto ir ao chão, logo ficando inerte.
Kenji ouviu o barulho, mas só sentiu a ardência quando percebeu a mancha vermelha crescendo em seu peito. Levou a mão e sentiu que era quente. Suas pernas fraquejaram e ele primeiro caiu de joelhos. Viu quando Sofi e Pedro o olharam com expressões assustadas e começaram a correm em sua direção.
Então caiu para o lado. Algo estava errado, não tinha dor, mas podia ouvir seu coração bater e de alguma forma estava sem forças. Agumon chegou antes dos dois, esfregou o rosto nele exaurido. Pedro empurrou o Digimon e virou o garoto para que ficasse deitado de costas.
Kenji viu o desespero de Agumon para tentar chegar até ele, sendo impedido por Sofia que parecia em pânico. Sentiu o arranque quando Pedro rasgou sua camisa e sentiu o pânico de Hiraga quando ele apareceu novamente em seu campo de visão, levando às mãos a cabeça e começando a dizer coisas rápido na língua daquela gente.
Sua visão começou a perder o foco e só então se deu conta, estava morrendo. Os sons da batalha ao lado já não existiam mais, as vozes sobre si pareciam distantes. Por debaixo das pernas de Pedro ele viu Pinocchimon agarrar o corpo do garoto de cabelos pretos e saltar.
Começou a sentir medo, não queria morrer. Então o inevitável aconteceu, as lagrimas começaram a descer. Agumon conseguiu se soltar e começou novamente e esfregar o focinho nele. Era bom tê-lo por perto, queria ter abraçado ele mais quando teve oportunidade.
Hiraga se abaixou em seguida e o tomou em seu colo, ainda no chão. Ele também estava chorando. Tentou dizer a ele para não ficar triste, mas a voz não saiu. E aos poucos foi envolto pela escuridão.
– Não – Hiraga gritou, dando ênfase a cada letra da palavra. Ninava o garoto em seu colo como se pondo um bebe para dormir. As lagrimas desciam como um rio, encharcando o rosto do Japonês.
Sofia teve vontade de correr. Teve vontade de gritar. Teve vontade de matar Weverton. Olhou para trás e viu os três Digimon de pé, lado a lado os observando. A batalha havia terminado depois de mais uma vida ter sido levada.
Desativou o D-ark no mesmo instante. Não achava que o mal-estar posterior à execução seria punição suficiente para sua falha escrota, nada ia compensar sua incompetência, mas ela não sabia mais o que fazer naquele momento. Ela havia matado um inocente.
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