Guardian

2 Capítulo 1


Abri os olhos de repente, sentindo o leve calor de pele humana em meu tronco. Olhei para os lados e me assustei ao perceber um homem ruivo adormecido em minha cama. O que eu fiz dessa vez?

Tentei me livrar da perna dele que se estendia por cima de meu tronco com a maior leveza o possível, tentando evitar que acordasse. Ele deu um gemido e se virou para o lado, eu suspirei profundamente e me sentei sobre as minhas pernas. Olhei em volta do meu quarto, as cortinas marrons estavam fechadas o que deixava o tom vinho das paredes ainda mais escuro, algumas roupas estavam jogadas pelo chão de madeira escura e só então eu percebi que estava apenas com as roupas íntimas, dei um tapa em meu rosto e soltei um longo suspiro novamente... eu não consigo parar de cagar na minha vida...
Toquei o chão frio com meus pés descalços e me levantei, peguei uma camisa social preta jogada no chão que provavelmente pertencia ao... ao... Eu esqueci o nome desse cara e me dirigi até a cozinha, peguei uma garrafa de suco na geladeira. Fui até a sala de estar e me sentei na poltrona vermelha virada para a grande janela que cobria toda a parede. Escutei um barulho vindo do quarto, provavelmente o carinha estava acordando, e ele vai aparecer em 1... 2... 3...

– Bom dia, olhos azuis. – disse ele entrando na sala, eu sou mesmo um gênio.

– Bom dia. – respondi com um sorriso. Ele se aproximou de mim e beijou meu pescoço, a boca dele era áspera e o cheiro de bebida que ele exalava era quase insuportável, tive vontade de correr até o banheiro e vomitar até morrer, mas no fim só fiquei com uma cara de tacho ridícula enquanto ele deslizava aquela boca no meu lindo pescoço. – Então, dormiu bem? – disse tentando faze-lo parar.

– Claro... – ele disse sorridente. – Afinal, eu estava do seu lado. – ele sussurrou a última parte em meu ouvido e me forcei para não dar um tapa na cara dele pela cantada ridícula.

– Eu queria poder ficar mais um pouco com você aqui... – menti com uma cara de pau inigualável. – Mas eu tenho que estudar. – e mais uma mentira, para um anjo caído, eu minto muito.

– Em que universidade você estuda? – ele perguntou. Droga, porque você tinha que perguntar isso, sua maldição!

– Universidade da Califórnia.

– É no caminho da minha casa, quer uma carona?

– Claro. – respondi com um sorriso, afinal se eu recusasse ele questionaria, e eu não estou a fim de responder mais perguntas idiotas. – Eu vou me arrumar.


Levantei-me e fui em direção ao banheiro, fechei a porta rapidamente e me recostei nela, deslizando até me ver sentada no chão de linóleo do banheiro, eu tinha que me lembrar pelo menos do nome dele... Vince? Não. James? Não... Alex? Não... pera é Alex! Isso, pelo menos eu não vou pagar de idiota insensível. Levantei-me e me olhei no espelho, como aquele cara conseguiu olhar pra minha cara e ainda assim me beijar? Olheiras enormes rodeavam meus olhos, meu cabelo castanho escuro parecia um bicho tentando engolir minha cabeça, o meu rosto inteiro parece um guaxinim que passou a noite numa lixeira. Despi-me e entrei no boxe, a água do chuveiro estava fria, o que pra mim é o mesmo que perfeita, deixei a água cair em minhas costas e tirar toda aquela sujeira que encrustava não só minha pele, mas a minha alma. Demorei um bom tempo, afinal, eu não queria sair de casa hoje. Sai e percebi que eu, a mina mais inteligente do mundo tinha esquecido a roupa... me vesti novamente com a camisa social e sai correndo do banheiro pro quarto, torcendo para que Alex não tenho me visto.

Vesti uma camisa cinza que havia achado uma vez na seção masculina que deixava meu ombro á mostra por ser enorme para mim, uma calça jeans e meus coturnos do coração, pelos quais sempre fui apaixonada. Revirei meu quarto atrás de uma mochila e enchi-a com romances adolescentes para fazer peso e sai do quarto.

– Pronto... – disse um pouco ofegante e sentido o cabelo molhado grudando no rosto. – Vamos? Eu não quero me atrasar.

– Ok, eu só tenho que pegar minha camisa.

– O que? – indaguei.

– Minha camisa, aquela que você estava vestindo quando eu acordei. – disse ele me fitando com um olhar estranho.

– Ah, claro, eu me esqueci.

Esperei encostada em na parede ao lado da porta até que ele voltasse, eu estava nervosa, e se ele perguntasse qual o meu curso? E se ele estranhasse que ninguém ali me reconhecesse ao entrar no campus? Eu teria de me virar. Quando ele apareceu no arco que dividia a sala do pequeno corredor que levava ao meu quarto e o banheiro eu estremeci, abri a porta e esperei que ele saísse então fui atrás dele. Minha tensão aumentava a cada segundo que se passava, quase hesitei em entrar no elevador, mas então, minha profecia foi cumprida.

– Então... Qual seu curso? – disse ele com um leve sorriso – Sabe, na faculdade.

– Artes Cénicas. – eu disse com um pingo de nervosismo na voz.

– Então será uma atriz! – disse ele com entusiasmo.

– Isso. – respondi secamente, recebendo como resposta um olhar confuso de Alex.

Saímos do elevador e nos dirigimos á caminhonete dele, pelo menos ele tem bom gosto para carros, eu amo caminhonetes desde que as vi quando cheguei nesse mundo. Sentei-me ao lado dele e tentei conter uma cara idiota que eu sempre faço ao ficar nervosa, mas ele percebeu que eu estava tensa.

– Ta tudo bem, Rach? – disse ele, ninguém nunca me chamara de Rach em anos, eu gosto do apelido.

– Sim, está tudo bem... – Eu menti, novamente. – É que... eu tenho uma prova na primeira aula e não sei se estou pronta... Você sabe... Para subir no palco e recitar o monólogo sem desmaiar.

Ele riu, e pude perceber que o sorriso dele era lindo. Na verdade, ele era lindo, os cabelos curtos eram de um vermelho vivo, os olhos tinham um castanho profundo, a boca dele tinha um formato fino e perfeito, mas não me sentia bem com o fato de que eu mal o conhecia.

– Fique calma, tente se convencer de que você é a personagem, sinta a dor dela... e outras coisas que eu vi alguém falar num filme.

Eu abri um sorriso, mas dessa vez, um sorriso sincero.

– Obrigada.

Ele ligou o rádio e mudou para uma estação que só tocava músicas românticas, acho que ele percebeu minha careta e então mudou para um que tocava rock clássico, bem melhor. O resto da viagem foi bom, acabei descobrindo que Alex é um cara bem legal. Viramos uma avenida desviando do viaduto e paramos em frente á Universidade.

– Tchau, Alex. – disse abrindo aporta do carro.

– Espera... – disse ele e puxou meu braço e no momento em que me virei ele selou meus lábios. – Até logo.

– Até... – disse com certa surpresa.

Fiquei parada na calçada esperando até que a caminhonete dele desaparecesse ao longo da avenida, eu gostei dele. Por sorte a Universidade ficava perto de um barzinho dedicado especialmente á nerds e pessoas que não tem nada pra fazer da vida onde eu costumo participar de competições de videogames e que para minha sorte, era hoje. Claro que eu me inscrevi, dediquei uma grande parte da minha imortalidade aos videogames e honro meu título de campeã. Mas eu to mesmo é com vontade de bancar a noob hoje.

– Vai competir hoje, Rachel? – disse Simon, um dos organizadores da competição e o carinha que anuncia os competidores.

– Vou, mas meu nome não é Rachel, é Carly.

– Vai bancar a nubona e depois fazer os caras chorarem? – disse ele com um ar de “isso é tão típico.”

Eu ri sarcasticamente.

– É... eu vou sim.

Simon deu de ombros e subiu no pequeno palco iluminado por luzes roxas e azuis, havia dois pequenos estandes onde os jogadores de posicionavam em frente ao telão.

– Oooolá!! – disse Simon se posicionando entre os dois estandes. – Bem, hoje nós teremos uma competição entre ele, o pentacampeão da cidade de Las Vegas: Andy Green! – ele entrou no palco sendo ovacionado pelos ali presentes. – e uma nova jogadora: Carly Parker! – eu subi não recebendo mais do que alguns aplausos perdidos no meio da multidão.

– Belo disfarce no sobrenome. – sussurrei ao passar por Simon.

Subimos nos estandes e a contagem começou.

– Como eu seguro isso? – disse tentando parecer o mais idiota o possível ao segurar a arma.

Andy deu uma gargalhada e disse:

– Não vai chorar viu.

– Pode deixar. – eu disse com um sorriso de canto.

O jogo começou e fiz minha personagem rodar em círculos pole campo de batalha enquanto dava uns gritinhos de “me ajuda!”, tudo o que eu ouvia eram risos vindos de todo o barzinho, parei de rodar e fiz ela andar em linha reta enquanto eu fingia observar a arma e me perguntava: “onde atira?”, acho que Andy estava com pena porque ficou correndo atrás de mim por alguns minutos até que se cansou e atirou em mim pelas costas.

– Muito legal isso de atirar pelas costas né! – choraminguei recebendo como resposta uma risada de deboche insuportável que me deixou com uma raiva dos infernos. – Quer saber de uma coisa... – eu disse com um sorriso de canto enquanto posicionava direito a arma. – O meu nome... não é “Carly”.

– Hm... – ele gemeu sem muito interesse. – E o que tem?

– Meu nome é Rachel... Rachel Collins – ou pelo menos esse é um dos meus nomes.

– Uau! – disse ele sarcasticamente. Ele olhou em volta para ver a reação das pessoas e desviou os olhos para o quadro de campeões do ano anterior. – Parece que você foi a campeã no ano passado... Não sei como.

Eu sorri e apertei Start, agora era pra valer, corri abaixada por detrás de algumas caixas no cenário, subi uma escada e entrei em um prédio com Andy me seguindo, lancei uma granada de fumaça e pulei para algum lugar, Andy acabou ficando desnorteado.

– Vai fugir mesmo? – disse ele me encarando.

– Olha pra tela. – ele o fez e no mesmo instante: Headshot. Eu venci novamente.

Andy ficou fitando a tela parecendo um pouco indignado, nós jogamos mais e no final o placar ficou 3 x 5 para mim. Posso dizer que aquilo foi... Satisfatório.

– Alguém mais quer levar um pau? – eu gritei.

Silencio, eu já ia colocar a arma no estande novamente quando:

– Ei! Eu quero. – um garoto falou enquanto subia no palco, ele tinha cabelos castanhos claros pele branca e olhos azuis, se vestia num estilo que misturava bad boy pegador de menininha com um geek, o carinha era lindo, se me permite dizer: eu pegava.

Ele se posicionou e me olhou de cima a baixo, o que me fez estremecer. Eu o encarei com um sorriso sarcástico e disse:

– Ok, se deseja, então vamos jogar, bonitinho.

Ele sorriu e começamos á jogar, o garoto era bom, muito bom, quase no meu nível, mas não ultrapassa, isso ninguém faz. Eu matava ele e ele me matava, ficou nisso até o final do tempo que tínhamos e acabou ficando por empate. Cansada eu desci do palco e me atirei porta afora, não sei quanto tempo eu fiquei lá dentro porque já estava de noite, resolvi cortar caminho por um beco estreito com cheiro de comida podre, aquele lugar não era muito acolhedor, era molhado e sujo e... eita porra, tem alguém tocando no meu pulso, a mão misteriosa do além me puxou para trás e a luz da lua revelou o carinha do empate.

– O que você tá fazendo? – perguntei com um pouco de raiva.

– Oi. – ele disse com uma cara de pau maravilhosa.

– Oi?

– É, oi, uma expressão pra cumprimentar pessoas.

– Eu sei o que é oi seu idiota. – inalei profundamente aquele ar fétido e me arrependi. – O que você quer?

– Você joga bem, pra uma garota.

Eu encarei ele com minha melhor expressão de “ Tu é retardado ou oque?” . Ele riu da minha expressão e eu me recostei na parede, ele apoiou um dos braços na parede, bem ao lado da minha cabeça, eu podia sentir o hálito de menta que vinha de sua boca.

– Ta querendo me pegar garotinho?

– Não sei. – ele disse com um sorriso. – E você?

– Escuta, eu acho melhor você sair daqui... até porque... seria um prazer deformar essa sua boquinha linda. – sussurrei a última parte.

– Minha boquinha linda? – ele também sussurrou, bem perto da minha orelha, o que me estremeceu novamente.

Eu empurrei ele e sai andando, em certo ponto eu olhei pra trás e vi o garoto encostado bem aonde eu estava me olhando desaparecer, ah... humanos.

Notas finais
Até a próxima!!