Guardian
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Eu estava embrulhada debaixo das cobertas enquanto assistia meu amado Sherlock Holmes, já estava de noite e a vista das luzes da cidade junto com o pouco de iluminação da sala deixava tudo mais perfeito, eu poderia ficar ali para sempre. Mas como a vida não é perfeita, a campainha tocou, me levantei aos tropeços sem nem se importar com a calça de moletom velha e a blusa suada de academia que usava. Por favor, que seja um cara que de pizza de graça!
– Você definitivamente não é alguém que entrega pizzas de graça. – eu disse ao ver Linda, uma velha amiga de minha pessoa, e quando digo velha, eu digo que nossa amizade tem uns 125 anos.
– Você não mudou nada né desgraça? – disse ela com um sorriso nada acolhedor. O longo cabelo loiro escuro estava preso em um rabo de cavalo alto e uma franjinha de lado cobria os olhos verdes, ela estava vestida excepcionalmente bem pra alguém que havia acabado de voltar de uma viagem do Japão.
– Esse meu jeitinho é o meu charme.
– Belo charme. – disse ela apontando para minhas calças.
– Caguei pra você. – disse me jogando nas cobertas novamente. – Mas eai... Como foi a viagem?
– Eu não quero falar sobre isso.
– Viiiiiiiisheee!! – exclamei me arrumando no sofá. – O que aconteceu tia? – disse tentando soar como uma criança fofa.
– Nada.
Eu a encarei com meu melhor olhar psicótico e disse:
– Conta, ou algo muito ruim vai acontecer na sua vida.
– Tipo o que?
– Já ouviu falar em Guardiões Tenebra?
– Aquela lenda sobre Guardiões que se perderam nas vidas e se converteram em demônios? Claro, só que é uma lenda.
– Não é uma lenda! – disse gesticulando com as mãos. – Aos fins das tardes, no crepúsculo, eles saem de suas tocas para perseguir outros Guardiões que não contam nada pras amigas!
Ela riu de mim e mudou de assunto.
– Mas e a sua vida? Como vai?
– O mesmo de sempre. – disse indo em direção á geladeira.
– Continua agindo como uma putinha?
Eu fechei a porta da geladeira com força.
– Putinha?
– É, você sabe, acordando com um cara a cada manhã.
– Não me chama de putinha. – eu disse empurrando ela e sentando em frente á janela.
Ela deu um suspiro profundo, como se estivesse se preparando para dizer algo.
– Olha pra você Rachel, você age como uma adolescente e você têm 459 anos! Você não pode ficar com um cara á cada noite.
– Falou à mulher que era uma cafetina dona de bordel em 1800!
– Em 1800! A gente está em 2014! Eu não sou mais a mesma daquela época.
– Vai caga Linda! – eu disse levantando bruscamente. – Você veio aqui só pra me criticar?
– O que? Claro que não!
– Mas é o que parece.
– Você acha isso porque sabe que tudo o que eu disse é verdade.
– Sai. Daqui. – eu disse apontando para a porta.
– Não.
– Sai logo daqui sua vaca.
Ela se virou rapidamente e se lançou porta, abriu e saiu, não sem antes se virar e dizer.
– Você é uma idiota. – ela fechou a porta dando uma ênfase cinematográfica á fala.
Tive vontade de enfiar minha cabeça em um poço e gritar até que finalmente eu explodisse. Fui até meu quarto e me vesti com uma camisa regata preta, camisa de flanela verde e shorts jeans. Eu não vou ficar em casa pensando no que ela falou, não mesmo. Ela invade minha casa só pra me criticar. Coloquei os sapatos peguei uma bolsa e me atirei do apartamento ao elevador. Sai pela rua e entrei na primeira fila que vi para entrar em uma balada chamada “Nuntius”. As pessoas na fila tinham todas aquele ar de gentinha metida, mas ignorei e entrei ao chegar minha vez.
O lugar era coberto por uma densa camada de gelo seco que mudava de cor conforme as luzes mudavam de vermelho para vinho constantemente, o lugar era mobiliado em uma mistura de gótico com futurista. Atravessei a pista de dança em direção ao bar, ou melhor, fui empurrada até ele pelas pessoas que dançavam.
– Eu... Quero um copo de água. – disse com um suspiro.
– Que tipo de pessoa pede água em uma balada? – ouvi alguém dizer ao meu lado levantei meu olhar até me deparar com o carinha do empate.
– Ah! Maldição! – exclamei revirando os olhos.
– Olha, é aquela mina de ontem.
– Oi. –disse secamente.
– Tá bem? – ele deu uma risadinha e franziu as sobrancelhas.
– Não.
– É, eu já imaginava. –disse ele abaixando o olhar em direção ao copo de whisky que tomava. – Qual seu nome?
– Rachel.
– Nome legal, o meu é Nate. – por coincidência Nate era o nome do primeiro humano que tive de guardar.
Dei de ombros e deitei minha cabeça sobre o balcão, a música que tocavam naquele lugar não era lá das melhores. Nate me cutucou e eu virei o rosto, dando de cara com a mão dele estendida á minha frente.
– Pra que isso? – perguntei.
– Você tá precisando dançar.
– Não, obrigada. – fechei meus olhos esperando que tudo aquilo acabasse rápido.
Comecei a pensar no que Linda havia dito, sobre eu agir como uma adolescente. Ela estava certa. Meus pensamentos foram interrompidos por um puxão de Nate que me arrancou da cadeira e me levou até a pista de dança, e para meu azar o DJ colocou uma música romântica, com a desculpa de que era dia dos namorados, mas eu não tinha como discordar, eu não sei quando é esse dia. Nate pegou minhas mãos e enlaçou-as em seu pescoço, logo depois pousou as mãos sobre a minha cintura e começamos a dançar.
– Isso é ridículo. – eu disse.
– Por quê? – ele indagou sorrindo.
– Não sei, talvez porque eu mal te conheça?
– Tá, se é assim... Vamos nos conhecer. – ele deu um sorriso lindo. – De onde você é?
Bom, eu tinha que escolher um lugar onde ele acreditaria que eu tenha nascido, porque Danelaw não existe mais.
– Alabama. – Olha! Mais uma mentira!
– Eu sou daqui de Los Angeles mesmo. Tem irmãos?
– Escuta, é muito fofo de a sua parte tentar me conhecer, mas... – fui interrompida quando ele me puxou para fora da pista e me jogou em um sofá ensebado ali perto.
– Eu quero te conhecer. – disse ele.
– Por quê?
– Acho que é meio óbvio. – ele franziu o cenho.
– Ainda não faz sentido pra mim. – eu disse com os olhos arregalados recebendo como resposta mais um sorriso.
– Deixa... Só... Me fala de você.
Eu realmente não entendi o porque dele querer me conhecer, ou eu sou lerda demais, ou... ou nada, eu sou lerda demais mesmo.
– Tá... – eu suspirei. – Eu me mudei pra cá faz uns dois anos, tenho um apartamento aqui por perto... não estudo... não trabalho e... gente, eu sou uma vagabunda. – disse a última parte com surpresa.
Ele riu e disse:
– Não mais do que eu, eu moro de favor com um primo rico meu, eu estudei pra ser engenheiro mecânico mas nunca quis trabalhar, vivo com uma graninha que eu consigo chantageando pessoas.
– Eita... –foi minha única reação, uma reação idiota que fez ele me olhar com cara de bunda. – Desculpa.
– Por?
– Não sei.
– Você é confusa.
– Talvez eu seja, ou talvez não, quem vai saber?
– Você não ta bem, cara. – disse ele rindo. – Ei, quer ver uma coisa?
Fiquei em dúvida sobre o que responder, aquela pergunta poderia me dar problemas mais tarde, e como podia, mas eu não to nem ligando.
– Quero.
Ele segurou minha mãe e me levou até os fundos, coisa de que eu não gostei muito, ele abriu uma porta que levava á uma escadaria e nós subimos até uma salinha com uma porta, ele a abriu e me deparei com o telhado da construção, a vista da cidade era linda, o céu estava mais estrelado que nunca.
– Nossa... – exclamei andando para frente, aquele vista me deixava vidrada. – isso é lindo.
– Achei que você ia gostar.
– Você acertou. – eu disse distraída demais pra dar uma evasiva estratégica do momento romântico.
Eu não conseguia para de andar enquanto olhava o céu, imaginava o quão ridícula eu parecia olhando para o céu boquiaberta com Nate me seguindo, mas não conseguia, aquilo me lembrava dos meus primeiros tempos na terra, quando tudo era novo e lindo, eu simplesmente não conseguia parar de olhar quando senti meu pé se chocando contra a mureta do telhado e me vi caindo e me espatifando no chão, mas antes que isso pudesse se realizar Nate segurou minha mão e me puxou com força contra seu corpo, me abraçando.
– Par um anjo você é muito desastrada. – ele sussurrou em meu ouvido.
Livrei-me rapidamente dos braços dele e disse:
– Anjo? Como assim “anjo”? Porque anjo?
– Porque você é um pra mim... – ele corou mas continuou tentando manter a pose de indignação. – Porque tanto desespero?
– Nada... não é nada... – eu suspirei – Eu só... eu preciso sair daqui... Só isso.
Me dirigi á saída e percebi que Nate estava me seguindo.
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