Guarde seu coração
8 Bipolaridade. Esquizofrenia. Depressão.
Notas iniciais

Suicídio é surreal.
É o tipo de coisa que você vê na TV, mas jamais imagina que acontecerá com alguém próximo. Como um irmão. Como um pai.
Observo Estevão deitado no caixão.
É ridiculamente irônico o fato dele ter morrido por algo deveria tê-lo sarado. Meu irmão trancou-se em seu apartamento e ingeriu uma enorme quantidade de anti-depressivos, causando-lhe mortais paradas cardíacas.
Quando meu pai deu a notícia da internação, meu irmão correu para o seu carro e foi embora. Olavo decidiu dar-lhe um tempo, mas depois do almoço a espera se tornou preocupante, levando em conta o estágio de Estevão. Ele não podia ficar sozinho por muitas horas. Sua mente era uma bomba relógio. Charles e meu pai tocaram sua campainha, mas ninguém atendeu. Em contrapartida, uma vizinha afirmou tê-lo visto entrar em casa. Os dois decidiram, então, arrombar a porta, o que gerou um tumulto entre os vizinhos e síndicos, fazendo com que chamassem a polícia. Isso gerou confusão e perda de tempo, mas meu pai sentia que Estevão estava lá. Não tinha uma explicação racional. Após comover os oficias com a história depressiva e o risco de morte de meu irmão, eles decidiram colaborar e ajudaram a arrombar a pesada porta de madeira, encontrando Estevão morto em sua cama, com remédios e cartas a sua volta.
Cara, como eu odeio a depressão. Ver alguém que você ama entrar cada vez mais em seu próprio mundo é terrivelmente doloroso. Destói relações. Destrói famílias. Destróis futuros.
Aquela indisposição que sentimos pela manhã ou aquela decepção por uma nota ruim não é depressão. Depressão não te faz levantar pela manhã e muito menos ir fazer uma prova. Ela mata silenciosamente, deixando seus vestígios pelos inocentes.
Sinto vontade de sacudir os ombros do meu irmão porque ele não parece estar morto, e sim, embarcado num doce e profundo sono. Não quero deixa-lo. Não quero confiar em minha falha memória que daqui a alguns anos se esquecerá da maciez de seu cabelos, da perfeição de suas sobrancelhas, da marca de nascença em seu braço. Parece tão dolorosamente errado enterrá-lo e permitir que sirva de alimento para minhocas e bactérias. Jogar terra sobre o seu corpo tão lindo parece um pecado. Ele merecia mais.
Percebo que alguém está alisando meus ombros. Charles. Ele diz um monte de coisas que eu não dou a mínima. Preciso gravar a curva exata do nariz de Estevão. Eu simplesmente preciso. Outras mãos tocam meus ombros e sinto alguém puxar-me para um abraço. Não olho seu rosto, mas reconheço seu cheiro. Cristopher. Lágrimas se acumulam sob meus olhos e eu sinto uma opressiva vontade de chorar, mas não posso. Não vou. Afasto-me do meu namorado e lhe digo com a voz trêmula:
— Vá embora daqui.
Cris me encara como se eu houvesse acabado de lhe desferir um soco e suas mãos passam a a acariciar meus cabelos.
— Sinto muito, Lisa. — Ele diz num sussurro e posso sentir a veracidade de suas palavras. Meu coração é apunhalado e eu me lembro da carta de Estevão.
— Eu mandei você ir embora. Acabou, Cristopher.
Ele fica boquiaberto e quando parece querer dizer mais alguma coisa, Charles o conduz, tocando seu braço e guiando-o até a porta.
Encaro meu irmão novamente, buscando ver algum sinal de aprovação em seu rosto mortificado. Dizer aquelas palavras me fez sentir como se estivesse enfiando uma estaca em meu próprio peito, mas foi melhor assim. Não posso continuar com Cris, sabendo o quanto meu irmão detestava meu relacionamento. Seria como pular em sua cova. Além do mais, eu não consigo mais doar-me a uma pessoa. Não vou conseguir fazer alguém feliz. Meu destino é viver só. Eu e as memórias de meu irmão. Eu devo isso a ele.
Minha mãe está do outro lado do caixão, completamente desnorteada. Já ouvi tanto seu gritos que agora é como se meu cérebro os ignorasse.
Bipolaridade. Esquizofrenia. Depressão. Bipolaridade. Esquizofrenia. Depressão.
Estas palavras parecem estar gravadas em mim.
Bipolaridade. Esquizofrenia. Depressão. Bipolaridade. Esquizofrenia. Depressão.
Meu pai aperta a mão gelada de meu imão e começa a sussurrar pedidos de desculpa que jamais serão ouvidos.
Bipolaridade. Esquizofrenia. Depressão. Bipolaridade. Esquizofrenia. Depressão.
Charles chora como uma criança e chuta um vaso da sala.
Bipolaridade. Esquizofrenia. Depressão. Bipolaridade. Esquizofrenia. Depressão.
Está na hora de enterrá-lo, alguém diz. O velório de Estevão foi em nossa casa. Muito íntimo e simples. É preciso levá-lo ao cemitério agora. Não quero ir. Não quero deixá-lo.
Um homem segura uma das alças do caixão.
— Agora não. — Digo, decidida. É cedo demais. Eu preciso olhar o rosto do meu irmão mais um pouco.
— Eu sinto muito, mas já faz horas, moça. Daqui a pouco começa a escurecer e o cemitério vira um breu.
Encaro a covinha no queixo de meu irmão. Preciso gravá-la tabém. Apenas me dê um tempo a mais. Só alguns segundos.
Outros homens começam a segurar as alças, são meu tios e primos. Eu bato neles sem o menor pudor, repleta de raiva e impaciência.
— Eu preciso de mais tempo! Deixem-o aí!
Alguém me segura por trás, mas eu me debato com força. Não é a primeira vez que isso acontece. Não é a primeira que eu imploro mais tempo com meu irmão. Olavo faz um sinal com a cabeça e os homens começam a carregar o caixão. Genevive desmaia em seus braços.
— Não! Por favor! Não!
Eles fecham o caixão e começam a carregá-lo até um carro. Debato-me com mais força, mas os braços de Charles são fortes demais. Nossos corpos sacodem em sintonia, num mesmo choro. Paro de me mecher imediatamente. Não posso aumentar o sofrimento de meu irmão. Ele compreende e me vira de frente, abraçando-me. Encho seu ombro de lágrimas e ele afunda o rosto em meu cabelo. Nós dois caímos de joelhos juntos. Puxo sua camisa com força, permitindo-me um último momento de histeria. Uma última lágrima. Um último choro.
Olho ao redor. A maioria já foi ao enterro.
Limpo meu rosto e Charles fica de pé, pigarreando. Ele diz algumas coisas, mas eu não ouço. Alguém me pega no colo e me deita em minha cama. Sinto um cansaço estranho e armotecedor inundar-me, mas antes de ceder ao sono, tateio meus bolsos e tiro o papel amassado de dentro.
"A vida é como uma tempestade em alto mar. Bravia, impetuosa, cruel. Ela não hesitará em empurrá-la para as profundezas, onde ninguém mais poderá escutá-la. Pessoas prometerão ajudá-la, clamando seu nome, e você, tão inocente, aceitará suas desculpas e o que mais houver, tomada por um profundo desespero, temendo a solidão. Você pensará: Finalmente serei feliz e livre e se agarrará aos braços dos seus amados, mas então as ondas da vida os levarão para longe e você verá que sempre esteve e sempre estará sozinha. A solidão é tudo que nos resta.
Guarde seu coração, Lisa.
ESTEVÃO."
Fecho meus olhos e permito que enterrem meu coração.
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