Guarde seu coração
9 Não vá
Notas iniciais
Cristopher
Estaciono o jipe quase em frente ao colégio de Lisa. Meu antigo colégio. Algumas lembranças vem a minha mente e eu me recosto no muro pichado, buscando alívio para o nervosismo que se agita dentro de mim. O alarme soa e uma marcha de adolescentes caminha para fora com empolgação. Sinto-me velho de repente, apesar dos meus recentes 19 anos. Alguns alunos me encaram, curiosos. Busco Lisa entre a multidão. Observo as pessoas se afastarem um pouco, abrindo caminho para duas garotas. Reconheço a morena, Júlia. A outra está um pouco fora do meu campo de visão. Será Elisa? Como que programado a garota loira se vira de repente, permitindo que nossos olhares se cruzem. Uau.
Observo a nova versão de Lisa parar do nada, me encarando com surpresa. Ela veste a blusa do colégio e uma saia azul. Tenho certeza que jamais a vi de saia antes. Seus cabelos luminosos estão soltos, caindo em ondas por suas costas. Linda, absolutamente linda. Mas a tristeza em seus olhos faz meu coração se apertar em meu peito. Caminho em sua direção, ansioso. Em questão de segundos, sua expressão facial muda de surpresa para indiferente. Tento não me afetar.
— Oi. – Digo feito um idiota. Após duas semanas sendo ignorado eu deveria ter algo mais dramático para dizer.
— O que faz aqui? – Questiona-me num tom rude. Fico irritado.
— Vim conversar com você.
— Pode falar.
— Não faça isso, Elisa. – Peço, sentindo o início de uma dor de cabeça. A garota a minha frente não é Elisa e sim, uma mentira criada por ela. Júlia dá um aceno de reconhecimento para mim e sussurra algo no ouvido de minha namorada. Lisa suspira com irritação, mas ao encarar-me de novo seus olhos não estão mais tão duros.
— Tudo bem. Vamos conversar então.
Uma pequena faísca de esperança queima em meu peito.
— Meu carro está logo ali.
Ela anda ao meu lado e eu tenho que me conter para não abraça-la ou ao menos pegar sua mão. Entramos no jipe e ao fechar a porta, seu perfume toma conta de cada centímetro existente. O desejo se agita em mim, mas me controlo, sentando-me reto no banco.
— Podemos ir ao meu apartamento.
Noto a hesitação em seu olhar e ela abraça a mochila contra o peito.
— Ok.
Abro o vidro para livrar-me de seu cheiro e dirijo com certa pressa até meu bairro. Entramos no prédio de classe média baixa e eu abro a porta do apartamento com dificuldade, trocando as chaves toda hora, nervoso com Elisa atrás de mim quieta demais. Sentamos no meu sofá.
— Eu senti sua falta. – Toco a mão dela, mas Lisa a retira, afastando-se de mim, seus olhos fixos na mochila em seu colo. Sinto como se tivéssemos regredido a meses atrás quando descobri que estudávamos no mesmo colégio. A garota do primeiro ano que andava encolhida, sussurrando no ouvido de Júlia, evitando olhar-me nos olhos. Eu sabia que sua timidez era ainda mais forte comigo. E sabia que tinha a ver com o fato de seu irmão ser ciumento. Não era preciso ser muito inteligente para notar isto, era só ver Estevão esperando-a no estacionamento do colégio, avaliando todos que chegassem perto de sua irmã.
Conheci a família Colden num jantar. Inauguração de algum hotel caríssimo. Meu pai, Fábio, e o pai de Elisa são conhecidos. Fomos apresentados e não consegui tirar meus olhos dela. Não sei se foi o sorriso gentil, as mãos macias ao apertarem as minhas ou a voz doce. Sei apenas que fiquei encantado, mas antes mesmo que pudesse dizer-lhe algumas palavras, Estevão pôs o braço em seus ombros e a arrastou para o outro lado do salão. Ele a olhava de forma opressora, impositiva, mas ninguém parecia notar. A mãe venerava Estevão, todas suas conversas tinha o nome dele, o pai estava ocupado demais com terceiros, Charles parecia viver no mundo das piadas insanas e Pietro era apenas uma criança calada. Mas todos, sem exceção, viviam em torno de Estevão. O filho favorito, sucessor do pai, irmão cheio autoridade...
Tirar Lisa da bolha foi difícil. Encontros secretos a tarde, piscadelas discretas nos corredores do colégio, tudo isso virou rotina. Toda vez que o assunto era apresentar-me a sua família, ela fugia, desconversava. Até o dia que seu irmão viu nossas mensagens e descobriu que estávamos namorando. Recebi ameaças suas, mas que foram silenciadas por seu pai. Se eu decidisse processá-lo, seria uma mancha no nome dos Colden.
Suspiro, afastando as lembranças.
— Não quero que sofra só. Eu estou aqui pra os bons e maus momentos. Você sabe disso.
— Acabou, Cris. Eu não... quero, eu não... consigo. – Vejo a dor em seu rosto, a garotinha negligenciada pelo pai, a Lisa que queria apenas a aprovação do irmão e sei que ela é mais forte que suas dores. E eu amo cada parte do seu ser, cada centímetro de sua alma aflita e juro a mim mesmo que jamais irei abandoná-la.
Aproximo-me dela, nossos narizes se roçam e eu a observo fechar os olhos. Sei que anseia o beijo tanto quanto eu. Nossos lábios se movimentam numa sintonia perfeita e eu a trago para mais perto, desejando que o amor que há em mim possa ser passado por cada toque. Os olhos de Lisa abrem-se de repente e ela empurra meu peito pra longe, ajeitando a saia. Afasto-me no mesmo instante, retirando minhas mãos de seu corpo.
— Darei a você o tempo que precisa. – A dor da rejeição ameaça me tomar, mas eu a afasto, concentrando-me em Lisa já em pé a minha frente – Mas não me peça pra desistir de você, Elisa, porque eu não vou. Não quando sei que o que sentimos pelo outro é amor.
Lisa sai do meu apartamento com pressa após gritar-me para que eu não a siga. Eu permito, deixo o tempo fazer seu trabalho e espero o dia que minha garota entrará correndo pela mesma porta que saiu.
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