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1 Capítulo I - Sobre Felicidade


Notas iniciais
Primeiro capítulo, espero que gostem.

Começa devagar, e então você pode me levar pra algum lugar onde a gente possa conversar sem precisar de pausas. É um pensar em você e se reprimir logo em seguida. É algo dentro de mim que diz não ao que eu penso, é algo dentro de mim que acha isso tudo errado.

Então a partir dessa linha a gente tem um segredo. Daí você me promete que levará isto contigo até onde você não puder mais sustentar, e eu farei o mesmo. Vamos dividir este segredo em dois pedaços, e você fica com a minha metade, assim como ficarei com a sua, e desse jeito então me lembrarei de você pra sempre.

E ele gostava de dizer cada letra do nome dele, cada palavra daquela pequena frase sem sentido. Gostava de viver cada segundo, aproveitar aquilo ali, que lhe custou tanto.

De estar flutuando com as nuvens, porém ao mesmo tempo, ter um peso amarrado ao seu pescoço. E isso te arrasta e leva pro chão.

Era um daqueles sonhos que você se recusa a acreditar que é real. Ele deslizou os olhos pelo céu escuro daquela noite, salpicados com pontinhos brilhantes estendidos por todo aquele tapete azul-escuro. Não haviam nuvens no céu, e por alguma razão, as constelações pareciam mais destacadas naquela noite. E ele recebia isso de braços abertos, na verdade, era como se bilhões e bilhões de anjos dissessem: continue.

E encarou-o nos olhos, e encontrou lá dentro a felicidade que há muito tempo ele não sentia com tanta força. Sob seus pés fugiu-lhe o chão e sobre sua cabeça já não havia mais céu. Estavam ali, sós, apenas na companhia deles mesmos. E de modo algum isso o incomodava.

— Eu tava pensando sobre a gente – o loiro começou com o um sorriso hesitante – eu acho que...

— Inácio – e o menor colocou o dedo indicador nos lábios dele – eu sei que você não pode se assumir agora – ele o interrompeu arqueando a sobrancelha.

Ele suspirou e deixou escapar uma gargalhada doce. Passeou com os olhos pelo o rosto do ruivo – que fora iluminado por um lance de luz repentino – e com um os lábios curvados num riso frouxo disse:

— Não era sobre isso, Lu – e continuou, agora um passo mais perto – é que... Eu queria dizer que eu nunca estive tão feliz quanto estive agora.

E abraçou-o forte, bem forte. E o manteve perto, bem perto. Continue a cair, ele vai te segurar.

Abra os seus olhos.

Alguns se orgulhavam de dizer que há dois séculos erguia-se o César II, o prédio havia sido construído por ingleses e havia passado por uma extrema reforma no último ano. A faixada agora era marrom, com detalhes em branco, e por toda a quadra se estendia os prédios do colégio, que seguia os padrões ingleses da época em que foi construído o único colégio de ensino médio da cidade. Na entrada ficava o pátio inicial, onde se podia ver uma estátua de feita de bronze de Lewis Franklin, o fundador da escola. O pátio era enorme, o chão era de uma camada de concreto claro, e nos cantos do pátio oval ficavam pequenos arbustos de hortênsias e rosas, que eram cuidadas rigorosamente pelo zelador do colégio, um senhor muito quieto, que mal era visto pelos prédios dali. À esquerda e à direita ficavam o estacionamento, e a frente estava a entrada principal do César II, um imponente prédio de dois andares, levantava-se acompanhado de uma dezena de janelas. Dele você pode continuar pelo pátio central, ou pelos compridos prédios que se estendem na lateral.

Ele chegou lá com um sorriso que ia de uma orelha a outra, tinha se perdido em sua própria felicidade, e não fazia questão de se reencontrar. É, não fazia.

Então use o seu melhor sorriso, e ande por aí sem se importar.

— E ae! – o cumprimento partiu de trás de seus ombros, era uma voz não muito grave, o garoto era mais alto que Inácio – Faz tempo que eu não te vejo, cara – e fixou o olhar no bilhete que o mais o loiro carregava na mão.

— É... Você começou a andar com aquele pessoalzinho – e procurou com os olhos um grupo de três ou quatro que se aglomerava alguns metros atrás de Davi – e a gente meio que não se vê mais – e deixou escapar um sorriso descontraído.

— Então, eu precisava te mostrar uma coisa muito boa, velho – e pousou uma mão sobre o ombro do garoto, enquanto lhe passou um celular com a outra – Vê aí.

Começa com um calafrio e parte para uma sensação de dispersão. Aquilo não está acontecendo, é um sonho ou uma brincadeira. É algo que eu perdi no meio do caminho, talvez ainda devo estar dormindo. E ele pensou um bilhão de coisas antes de realmente surtar. Ele quis fugir e recomeçar aquele dia. Vai dar certo, né? Isso não aconteceu. E o que lhe restou foi o mal respirar, e tentar trêmulo encarar seu agressor.

— Onde você conseguiu isso? – a sua voz falhava enquanto segurava um celular que passava incessante um vídeo onde ele e Lucas se beijavam. E aquilo tinha um repetir infinito.

— Não interessa – e ele sorriu apreciando a ferida que abrira – Então fica assim, você deixa a vaga de centroavante pra mim e a gente finge que nem se conhece, ou...

E ele se encheu de coragem, e era o certo a fazer, não ceder a isso, a isso que estava sendo submetido. Que não se importa com o que dirão, e não se importa com o que farão, eu não tenho medo de você.

— Ou o quê? – e as mãos haviam parado de tremer, o olhar se fixara – Faz o que você quiser, velho, eu não tô nem aí.

E continuar andando, de cabeça erguida. É só esquecer isso. É só.

Que foi só um momento ruim, um começo de dia ruim. Continua andando. Continua.

E ao chegar ao pátio sentiu um frio maior que o do inverno, um silêncio maior do que o espaço, uma solidão indescritível. Procurou com os olhos todos aqueles que um dia disseram ser seu amigo, mas eles pareciam não estar lá. E fingiu então não saber o porquê.

Estranhamente todos levavam um celular a mão, e todos, sim, todos, disputavam para ver e rir mais um pouco do que acontecia. Os olhares tortos se davam sucessivamente, e viam de todos os lados, e não iria parar, não iria. Podia-se ouvir os cochichos com clareza, podia-se entender as risadinhas.

Com um pouco de dificuldade conseguiu identificar Pedro, do outro lado do palco, de costas. Era um garoto alto e forte, uma barba negra e espessa já estava crescendo, e os olhos verdes se destacavam por debaixo da cabeleira negra. Inácio gostava de destacar secretamente que aquele era o garoto com o sorriso mais bonito do mundo, mas este é um dos segredos que se escondem debaixo da cama.

Haviam se conhecido quando eram muito pequenos, trocavam segredos e confidências. Conheceram o mundo juntos e se aventuravam a cada segundo. Era uma confiança mútua, uma espécie de amizade eterna. Eterna.

— É... – e tentou não pensar naquilo, não chamar atenção, desviar para um local seguro — Você trouxe os testes de história?

E ele se virou ao ouvir a voz do menor, e tentou olhar nos olhos dele e encontrar uma razão. Carregava decepção em seu olhar, e o seu peito apertou ao descobrir isso, e o pior, ele nem foi capaz de confiar nele.

É esse o problema dos segredos. As pessoas faziam vela pra esse momento.

— Inácio – e ele deu um passo em direção ao amigo – me explica essa porra – e jogou um celular no peito dele. O vídeo. É, o vídeo.

— Pedro, eu... – e ele finalmente sentira medo, e finalmente vira que as coisas estavam desandando. Havia fugido de seu controle – A gente precisa conversar – continuou.

E é como se uma avalanche tivesse chegado ao seu fim, como se o furacão houvesse ido embora, é como se o mundo houvesse caído e você estava lá, vivo, para encarar isso tudo. E ninguém vai segurar sua mão.

— Eu não tenho que conversar contigo, cara. Eu não conheço mais você. Eu nem sei se eu conhecia.

E aquela luzinha no fim se apaga, e você se vê sozinho. Que todas as estrelas do mundo caiam, que o mar suba e leve isso tudo. Me leve pra casa, eu quero ir embora.

Notas finais
Para Bia.