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2 Capítulo II - Sobre Tempo
Então se passaram oito luas e oito sóis, e os olhos do garoto de dezesseis anos e cento e setenta e seis centímetros se secaram. Inácio não havia chorado tanto nos últimos três longos meses de frio, pelo contrário, encarou este abismo sobriamente, era difícil quando derramava uma lágrima, e quando o fazia, uma gota vinha tão carregada que já era o suficiente.
Não era tarefa fácil colocar na cabeça que seguir em frente sem a ajuda de seu melhor amigo não lhe traria muitos prejuízos. Já nem preciso dizer que excluir uma porcentagem enorme de sua vida e simplesmente fingir que nada aconteceu é absurdamente impraticável.
Nadar num oceano de lembranças imóveis, trespassar por caminhos perigosos, cair e rolar por um desfiladeiro e então levantar, agradecendo a si mesmo por continuar andando.
Era um dia a esmo de outono, preenchido por um sol radiante que figurava nos céus acompanhado de longas e sinuosas nuvens. O cheiro de grama molhada, o barulho de pessoas rindo ao fundo. O Carvalhos & Macieiras ficava num canto que variava entre o “aqui” e o “ali” de muitos moradores locais – estes nem ao menos conheciam o nome do lugar. Era um espaço grande, haviam árvores espalhadas por qualquer lugar que lançasse seus olhos, e entre umas e outras haviam bancos de madeira envelhecida, muitos destes assinados com juras de amor eterna e piadas rimadas.
No centro-esquerdo do parque situava-se um lago, onde cisnes e patos dividiam espaço com barquinhos geralmente ocupados por casais que ainda desfrutavam daquela palavra de quatro letras. Ao redor deste, outros se divertiam fazendo piqueniques à sombra dos carvalhos e das macieiras, que batizaram o lote.
Não uma lembrança de muito lá atrás, não. Fora buscada ainda fresca, e ele ainda se recordava do cheiro das maçãs bem próximas a eles. Os dois estavam sentados na copa da árvore, armados com apenas um binóculo dourado, espiando qualquer um que passeasse por ali.
— Eu ainda não entendi porque vocês terminaram – ele disse franzindo o cenho, passando o binóculo para o amigo – A Alice era...
— Gostosa demais? – Inácio interrompeu com um sorriso ao ver tirara as palavras da boca de Pedro – Eu sei, cara, mas foi algo – e buscou na sua mente algum motivo plausível – maior que só achar ela atraente – e agora se distraia observando uma velhinha engraçada dando grãos para um grupo de pombos. Era estranho que não a reconhecesse, já que todos os velhos da cidade eram conhecidos por nome e sobrenome – ela estava gostando de mim de verdade, e eu não estou afim de ficar enganando ela – concluiu.
Pedro suspirou descontente enquanto Inácio continuava a procurar pessoas com o binóculo.
— Velho, você devia dar um chance a ela – e deu um tapinha em seu ombro – talvez com um pouco mais de esforço da sua parte, você acabe gostando dela.
O extraordinário de Pedro de Alcântra era que por mais que se sobressaísse a imagem machista e antiquada do moreno, ele ainda mantinha dentro de si um garoto compreensivo e nobre. Coisa difícil de se achar.
— Não consigo – e sorriu em agradecimento – Não vai dar certo – terminou devolvendo o binóculo.
— Tem alguma coisa que você queira me contar? – e pode-se ouvir o acelerar de coração, o piscar de olhos mais rápidos, a sensação de ser flagrado. Ele sabe, é a sua deixa. O outro engoliu em seco. Talvez fosse a hora de dizer, talvez.
— Que tipo de coisa? – e ele acrescentou fingindo confusão – É só isso cara, ela me atrai, mas eu não consigo gostar dela.
E terminou por isso.
Logo após uma ventania repentina chegara ao parque. As árvores balançaram, é.
— Inácio? – Roberta era uma mulher alta, seus cabelos loiros ondulavam até o ombro e seus olhos acinzentados brilhavam em sua pele pálida como o gelo. Ela abriu a porta lentamente e logo em seguida fixou as orbes no filho, que se encontrava sentado num tapete de veludo do outro lado do quarto – Eu fiz sanduíches e suco de manga – e desenhou um sorriso em seu rosto ao ver que o garoto a fitou por cima dos ombros – seu preferido.
— Obrigado, mãe – e virou-se totalmente, a luz que vinha do abajur de cerâmica iluminava seu rosto, ele enfim afrouxou a expressão – pela paciência – acrescentou enquanto convidava a mulher para se sentar ao seu lado na cama.
Na última semana o garoto não havia ido à escola. Após experimentar a sensação esfuziante de se estar feliz plenamente e em seguida despencar à frustração, medo e desespero, ele sequer mencionou querer voltar ao colégio.
Suas manhãs eram eficientemente interrompidas por pedidos de falta. No começo dizia que não se sentia bem, e depois passou à simples falta de vontade. Felizmente, ele podia contar com a compreensão de sua mãe, que sempre aceitava às súplicas com uma palavra de carinho. Havia sempre um “amanhã você melhora” ou um “eu não queria que você fosse hoje mesmo”. Mas ele sabia que ela tinha em mente o que estava acontecendo. Ele sentia. Ela era mãe, e toda mãe sabe.
Deixara a bandeja em cima da escrivaninha e sentara-se ao lado dele. Olharam as estrelas pela janela e permitiram que apenas o silêncio se sobressaísse. Era como se os dois soubessem que era preciso que tivessem aquele momento. Que dali tirariam algo bom mesmo que calados.
— Eu me esqueci de dizer – e acariciou a testa gelada do filho – tem um amigo seu aí embaixo – e se levantou indo em direção à porta.
Seu coração disparou, quis descer num rompante de vontade. Se havia uma chance daquilo ter se recuperado, ela estava ali.
— O Pedro? – ele perguntou torcendo pra que a resposta fosse positiva.
— Não – e continuou – ele me disse que se chamava Lucas. Ele veio te entregar umas coisas da escola, eu acho – e fechou a porta deixando lá dentro apenas o loiro e a luz acesa.
Porque às vezes me encontro entre a espada e a parede. Eu não tenho saída, não. Queria muito que isto desse certo, que fosse bom. Mas não dá pra prosseguir com isso, e simplesmente fingir que não haverá consequências. Eu sei, a sensação é perfeita, mas pra mim não vale o resultado. Não agora.
— Você não devia ter vindo – ele evitou encará-lo nos olhos. Incomodava o fato de que havia uma pessoa gostando dele de verdade, e ele sendo recíproco, porém era impossível que se concretizasse, que se tornasse sólido. Que por razões sem sentido, inteligíveis hoje em dia, os dois não poderiam ficar juntos, é – é sério, Lucas.
— Eu vim porque eu não aguentava mais ficar sem saber como você estava – e adicionou, parando hora ou outra para verificar se a mulher continuava na cozinha – eu ainda esperei uma semana, pra ninguém ficar sabendo, ou eu arranjar mais problemas pra você, ou...
Então todos os exércitos caem. Todas as defesas se põem ao chão. Todos os homens param pra escutar.
— Lucas, está tudo bem, é sério. Não precisava que você vie...
— Eu quero ficar contigo – ele jogou sem avisar.
Inácio ficou imóvel, por segundos, observando os lábios que acabou de pronunciar tais palavras, talvez esperando que ele dissesse logo após que era brincadeira. Que, sério, não me ponha nesta situação. É difícil demais. Demais.
— A gente não pode – ele falou pausadamente.
— Mas, Inác... – ele tentou interpelar, dando um passo a frente, puxando-o pelo o braço.
— Lucas – e olhou-o nos olhos pela primeira vez naquele dia – a gente não pode.
E era como voltar de uma batalha, onde, inevitavelmente você matara um inocente. Ele caminhava com um leão morto nas costas, um de quinhentos.
O quarto de Inácio ficava no segundo andar, ao lado do de Júlia, sua irmã mais nova. Era um retângulo espaçoso, tinha uma janela para a lateral da casa, o chão era de madeira e as paredes pintadas de verde. Em muitas delas haviam pôsteres de times de futebol europeus e filmes de ficção científica. No pé da parede ficava uma organizadíssima pilha de livros, que íam de sagas de aventura até pequenos manuais de auto-ajuda, os quais Inácio julgava “interessantemente complexos”.
Era ali o seu refúgio.
E deixou-se afogar em pensamentos inconclusivos, em questões confusas, em ventos coloridos de cinza. Até que ouviu uma batida na janela.
De cima de uma escada, como um Romeu em busca de sua Julieta, erguia-se Lucas, insistindo, resistindo, não, não era uma coisa que ele iria abrir mão tão fácil.
— A gente tem que conversar, Inácio – e ele pôs as mãos na janela recém-aberta – eu não vou ir embora enquanto a gente não conversar direito.
— Lucas, não insiste – ele tentava refutar enquanto sentia todas as suas defesas cair em desuso.
— Eu não vou desistir de você – e ele olhou mais perto – Você sabe disso.
— Por que você tá insistindo tanto? A gente...
— Porque eu me lembro de você ter dito que estava feliz quando a gente esteve junto – interrompeu – e eu quero que você fique feliz de novo. Que fique feliz de novo comigo.
E ele subiu mais um degrau, e chegou mais perto, e sentiu sua respiração e seu coração bater, teve aquela sensação que lhe abraçava como uma velha amiga. E dali partiu um beijo doce, que começou devagar, acompanhando uma melodia simples. Que seus lábios se tocaram sem muito alarme, que deixaram se conhecer um pouco mais, e que aquele era um presente recebido de bom grado, em sinal de trégua, enfim. E lhe tocou um pouco mais, e deixou que aquilo partisse para um momento eterno. De certo ele precisava de uma lembrança boa para distraí-lo de seus últimos dias. Mas isto não era só uma distração, não.
— Eu – e tentou procurar palavras enquanto o afastava de mansinho – Obrigado, Lucas – agradeceu para o ruivo que já estava sentado no parapeito.
— Você não precisa me agradecer – e arrancou-lhe outro selinho – só me promete que você vai pra escola amanhã, ok? – ele entregou as palavras perto de seu ouvido.
— Tudo bem – ele deixou escapar um sorriso frouxo, e repetiu – Tudo bem.
E é como derramar um balde de ânimo em si mesmo, ter acordado com o pé direito todos os dias de sua vida, encontrado um milhão de trevos de quatro folha. É sentir-se revigorado sem saber ao certo o significado da palavra – e muito menos se importar com isso.
Ao passar pelos portões do Caesar II sentiu-se como havia se sentido no primeiro dia de aula. As pessoas olhavam para ele com os mesmos olhares, algumas nem o percebiam, e isso de alguma maneira era confortante. O garoto não caminhava acompanhado do medo, não que alguma vez este o fizesse companhia. Mas, encare, é algo previsível.
Não havia sinal de Davi ou de Pedro nos corredores. Certamente eles haviam faltado, e por Davi ele torcia.
Mas é como pisar num lado de gelo. Você nunca sabe quando ele irá se partir.
Os banheiros ficavam no andar debaixo, no fim de um longo corredor. Cujas as salas ao lado só eram usadas pelo próximo turno. Era perfeito para alguns. Como naquele dia, sim.
E como se o vilão voltasse das cinzas. Como se acordasse de um transe esquisito e simplesmente brotasse ao seu lado, lá estava ele, sem cerimônia, com os olhos fixos na sua vítima recorrente. E você não vai fugir.
A água fria abraçava as mãos de Inácio, que se esfregavam uma contra a outra. O garoto observava-se com um sorriso no rosto no espelho, até que em um lance de visão percebeu quem lhe viera receber. Não, não era um prazer ter a presença dele. Não, não era.
— O banheiro das meninas fica do outro lado – Davi carregava consigo um sorriso sinistro. Apesar de mais alto que Inácio, era mais gordo e tinha os cabelos ralos e escuros. Desde que Inácio começou a faltar, ele tomou a liderança de um grupo que atormentava a esmo a vida de quem era aparentemente mais fraco do que eles. Ninguém ousou enfrentá-lo, porque, não iriam vencer ao final.
Inácio fez por ignorar o garoto, achou melhor que se fingisse que não aconteceu este episódio simplesmente não iria se desenrolar. Só que o destino pôs as cartas de modo diferente. Talvez o destino tivesse feito um castelo de cartas com ela.
— Você não ouviu o que eu falei? – ele continuou, da porta do banheiro.
Inácio virou-se devagar, e não o encarou, evitar contato visual talvez fosse crucial, porque, ele não estava o enfrentando, é.
— Você não vai passar daqui – ele assoviou, debochante.
— Eu não quero confusão, Davi – ele disse de cabeça baixa.
— Não é o que você quer, mocinha – e levantou o queixo dele pelo indicador, e enfatizou – É o que eu quero.
E como se buscasse forças de trás do mundo, como se trouxesse de lá debaixo a vontade que lhe faltava. Quebrou protocolos e princípios, jogou tudo para o alto. Acertou-o com um soco que levou-lhe cambaleante contra a parede. Davi deslizou a mão pelo seu próprio rosto, procurando tatear onde acabara de ser ferido.
— SEU MERDA! – e como houvesse acabado de mexer numa colmeia de marimbondos, seis garotos subiram das cabines do banheiro e caíram sobre o loiro menor. Os chutes, socos e pontapés vinham de todas as direções. E não paravam, não. E não iam parar de maneira alguma. E cada deles vinha com mais raiva, e cada deles vinha com mais ira. Mas motivo para cada um deles? Não, esses não eram justificados. O garoto já não gritava, na verdade, ele não expressou dor. Ele apenas apanhou calado. Esperando que uma hora ele pudesse se levantar humilhado.
E quando pode quis ir embora, e quando o fez passou pela experiência mais terrível que se poderia imaginar.
De cada lado do corredor punham-se crianças, e todas elas olhavam para ele. Ninguém se prestou a ajudar, muito menos tentaram curar suas feridas. E se ao menos o ignorassem, não. Faziam questão de observar com afinco e cochichar cada passo, e comentar cada hematoma.
Lucas apareceu na ponta do corredor, correu em sua direção.
— O que aconteceu contigo? – disse ofegante, seus olhos corriam do rosto ferido de Inácio para o grupo orgulhoso de Davi, ao fundo – Eles...
E como se não fosse grande a tragédia, quando Lucas se aproximou para tentar ajudá-lo, a gargalhada aumentou em crescendo.
— A culpa foi sua – ele disse seco até a alma.
— Quê? – ele disse franzindo o cenho, tentou não acreditar naquilo. Fingir que era tudo mentira. Porém o trovão veio rápido, e atingiu-lhe no peito.
— A CULPA FOI SUA – ele gritou. E ecoou tão alto que por um momento todos se calaram. E dali ele partiu em passos largos. E não se sabe para onde foi.
Por ir pra casa, por encontrar sua casa, por procurar sua casa.
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