GuCilia - Uma História Diferente
24 Capítulo 23 - Mutirão da Família Lários
Notas iniciais
Passados alguns dias, Gustavo recebeu uma ligação dizendo que poderiam se mudar quando quisessem. Tudo o que sobrara na cobertura já havia sido levado, o que fora comprado também.
— Boas notícias! Já podemos nos mudar! – Gustavo anunciou a toda a família, reunida na casa de Estefânia – Eu vou ligar numa agência e agendar as entrevistas com os candidatos a funcionários, e para empresas especializadas em decoração e limpeza pra eles arrumarem tudo! Estefânia, você pode ajudar?
— Poder eu posso e com o maior prazer, mas e se fizermos uma coisa diferente? – Ela respondeu ao primo
— Como assim?
— Nós estamos em nove pessoas, incluindo a Dulce Maria. Porque não começarmos a nova fase da nossa família arrumando a nossa casa juntos?
— Tem certeza, Estefânia? Nós? Acho que demora muito, a casa é muito grande! – Ele tentou desconversar – Melhor não, e as empresas tem bastante experiência, entregam em pouco tempo, e nós homens não entendemos muito dessas coisas!
— Só você, né Gustavo? Eu sempre arrumei minhas coisas sozinho, você sabe! – Gabriel provocou
— Eu também, quando eu morava na Europa cuidava da casa sozinho! – Vítor também se defendeu
— Eu acho uma ótima ideia! – Cecília concordou, seguida dos demais
— Eu posso ajudar, se vocês quiserem! – Solange se pronunciou
— Olha aí Gustavo: dez pessoas! Acho que juntos, e pouco a pouco, nós conseguimos! Além do mais, economiza dinheiro.
Gustavo não respondeu.
— Algum problema, meu amor? A ideia da Estefânia é muito boa, além de estarmos todos juntos, vai ser divertido!
— Problema? Não, problema nenhum! – Ele respondeu um pouquinho desconcertado – É que eu realmente acho que pelo tamanho da casa e a quantidade de coisas que nós temos, não vamos dar conta!
— Tem certeza que é só isso, Gustavo? – Cecília começava a desconfiar de um motivo
— Tenho! – Ele pensou mais um pouco – Tá bom, vocês venceram, nós mesmos vamos arrumar a nossa casa!
[...]
Mais tarde, de volta ao hotel, Cecília ainda estava curiosa para saber o porquê de o namorado ter relutado em aceitar a ideia de Estefânia. Aproveitou que Dulce estava dormindo e resolveu fazer uma brincadeira com o empresário.
— Gustavo, posso te fazer uma pergunta? – Ela veio da cozinha do hotel com um frasco de produto de limpeza e um rodo para limpeza de janelas que ela própria havia pedido que levassem e entregassem pela porta de serviço
— Claro, meu amor! Pra quê isso aí? Vai limpar alguma coisa?
— Você é quem vai me responder! – A ex-noviça o olhou divertida – O que é isso aqui? Pra quê serve? – Era óbvio que Cecília não julgava o namorado tão ignorante, queria apenas brincar com ele
— Um frasco de produto e um... Um... Ok, esse outro aí é uma mini vassoura misturada com um mini rodo, eu já vi em algum lugar! E serve pra limpeza, óbvio! Eu pareço tão burro assim? – Ele resolveu entrar na brincadeira dela
— Acertou a metade! O frasco de produto você acertou, é um limpa vidros, mas isso aqui é um rodo de limpar janela! Não existem mini vassouras ou mini rodos! – Cecília riu – Bom, só se forem de brinquedo. Nunca tinha visto?
— Pra dizer bem a verdade, não. – Admitiu – Quem compra essas coisas é o Silvestre, pra mim é tudo a mesma coisa! Qual é a diferença de um limpa vidros pra outro produto qualquer?
— Meu amor, quando foi a última vez que você passeou no corredor de utensílios domésticos do supermercado? – Ela gargalhou
— Faz um tempinho. Aliás, faz um tempinho que eu não vou ao mercado. – Ele se deu por vencido e riu, entendeu onde a namorada queria chegar – Porque essa brincadeira, senhora Lários?
— Queria tirar uma dúvida! – Ela deixou as coisas sobre a mesa e sentou ao lado de Gustavo, o abraçando – Desculpa, tá? Não quis fazer você se sentir mal por não ser um dono de casa! Mas foi engraçado.
— Não precisa se desculpar, não me sinto mal! Eu achei engraçado e acho que sei por que você fez isso! Foi por causa da ideia da Estefânia, não foi?
— Foi! Eu estranhei você demorar tanto a aceitar e te conhecendo bem, desconfiei do motivo, por isso fiz essa brincadeira com você. Mas eu também tive outra intenção.
— Qual?
— Antes de explicar, preciso dizer que eu te amo exatamente como você é, e pela pessoa, pelo ser humano que você é. Nunca pensei na fortuna da sua família, se eu tivesse te conhecido em outra situação qualquer, com ou sem dinheiro, te amaria exatamente do mesmo jeito.
— Assim você me deixa sem palavras, meu amor! Você foi a única depois da Teresa que me disse palavras tão bonitas.
Gustavo se aproximou mais de Cecília e a beijou apaixonadamente, se separaram pela falta de ar.
— Meu amor, você, a Estefânia e o Gabriel tiveram a sorte de nascer em uma família com bastante dinheiro, e sempre tiveram empregados pra fazer tudo, não é? – Ele assentiu – Eu não estou dizendo que isso é ruim, afinal quantas pessoas não gostariam de ter tido o mesmo? É perfeitamente compreensível, natural que vocês nunca tenham precisado se preocupar em arrumar a cama, o armário, limpar o quarto, ir ao supermercado, porque tinha quem fizesse isso pra vocês. Eu e a Fátima nunca tivemos esse tipo de privilégios, desde crianças as freiras nos ensinaram a fazer de tudo! No caso da Dulce, ela vai ter tudo o que pudermos oferecer, mas eu quero que ela aprenda a fazer as coisas sozinha.
— Eu concordo com você, e te agradeço!
— O que eu quero dizer é que não precisa se sentir culpado por ser rico, dono de uma empresa famosa no mundo inteiro porque vocês conseguiram isso graças ao trabalho e eu penso que é o trabalho que dignifica o ser humano! Mas você entende que também é bom saber fazer as coisas sozinho, poder ser independente e que não precisamos de empresas e funcionários pra qualquer coisa? Seria fácil entrarmos em casa e estar tudo no lugar, sem cansaço, sem suor, mas a gente vai poder ter o prazer de um momento em família. E eu tenho certeza meu amor, a nossa filha vai nos agradecer por isso no futuro.
Gustavo respirou fundo antes de responder, estava absorvendo as palavras de Cecília. Ela tinha razão, ele vivia desde criança no mundo que qualquer pessoa deseja, nunca tinha conhecido outra realidade e talvez por isso a vida às vezes lhe parecia tão fácil.
— Está tudo bem, Gustavo? – Cecília o olhou preocupada
— Está. – Sorriu terno – Quando eu vou poder te agradecer por tudo isso? Eu nunca parei pra olhar as coisas por esse ângulo, nunca parei pra reparar as dificuldades de quem vive à nossa volta e não tem tudo o que nós temos, daqueles a quem eu pago pra fazerem as coisas pra mim. As suas palavras me fizeram lembrar de coisas que eu vi enquanto estava na Espanha, algumas famílias vivendo em situação de miséria, pedindo dinheiro. Você me fez ver que a vida não é só dar ordens e que se perde muita coisa por isso! Se ganha, como a tranquilidade em saber que nunca vai faltar nada pra Dulce mas também se perde o ensinamento, a experiência de fazer as coisas com as próprias mãos, e muito do convívio familiar. Mais uma vez você está certa, meu amor. Agora eu consigo ver claramente que vai ser muito melhor fazermos tudo juntos, como família, e ensinando a nossa filha a valorizar esses momentos do que simplesmente pagar pessoas e encontrar tudo pronto.
Cecília sorriu para o namorado, um tanto emocionada. Se pudesse mudar a vida daquela família para melhor, o faria sem pensar.
Dois dias depois, os carros da família Lários paravam em frente à mansão e todos desciam de seus carros nas roupas mais confortáveis que tinham, afinal iniciariam um mutirão. Aos poucos tiraram tudo dos porta malas, e quando todas as caixas e todas as malas estavam reunidas e etiquetadas no centro do hall de entrada, se juntaram para começar.
— Agora que já está tudo aqui dentro, a pergunta é: por onde nós começamos? — Gustavo foi o primeiro a perguntar
— Não faço a menor ideia! – Cecília respondeu bem humorada
— Ajudou muito, obrigado! – Ele retrucou, ironicamente
— E se começássemos separando os quartos e os ambientes? Cada um leva suas malas e caixas pro quarto que pretende ocupar, assim livra um pouco o espaço aqui de baixo e fica mais fácil sabermos o que pertence a cada ambiente da casa. – Fátima sugeriu
— Tipo cada caixa no seu ambiente? – Estefânia questionou
— Isso mesmo!
— Pode ser uma boa, separamos tudo e depois decidimos por onde começar! – A ex-noviça concordou com a irmã – Todo mundo concorda? — Ela recebeu afirmativas de todos
— Então agora vamos subir com as malas e caixas pra decidir qual quarto é de quem.
Gustavo, Gabriel, Vítor e Silvestre se encarregaram das coisas mais pesadas, enquanto as mulheres e Dulce subiam com o que era mais leve.
No corredor dos quartos Gustavo explicou que todos tinham o mesmo tamanho e eram suítes, com exceção da suíte máster, que era maior e que seria dele e de Cecília.
— Quantos quartos tem cama de casal? – Perguntou Estefânia
— Todos eles tem! Nós vamos ocupar cinco, vão sobrar dois como quartos de hóspedes
— O meu quarto também tem cama de casal, papi?
— Tem sim, filha! Mas a sua outra cama pode ficar no seu quarto pra quando você quiser receber alguma amiguinha sua!
— Mas eu ainda posso dormir com vocês, né?
— Nã...
— Claro que sim, meu amor! – Cecília foi mais rápida quando viu que Gustavo pretendia dizer que não
— Cecília! – Ele sussurrou para a namorada – Eu ia dizer não!
— Eu sei, por isso me adiantei! – Ela o respondeu na mesma altura – A gente fala sobre isso depois.
— E qual desses quartos é o meu? – A carinha de anjo voltou a perguntar
— Aquele ali, do ladinho do nosso. – Cecília apontou – Assim quando você quiser ir pro seu quarto você pode ir, quando quiser vir pro nosso pode também!
— Bom, então vamos logo deixar essas caixas aqui pra começar a arrumar o andar de baixo!
Em poucos minutos todos estavam reunidos na sala novamente, limpando e organizando as coisas. Cecília ensinava o namorado a limpar os móveis, a varrer e espanar a casa, o que causou risos nos outros e para a sorte deles, a faxina pesada já havia sido feita antes e pelo fato de a casa estar quase vazia, era mais fácil.
Dulce Maria ajudara a limpar e depois, quando os pais e os tios começaram a mexer com cristais e peças pesadas para ela, Cecília deixou a filha sentada na cauda fechada do piano, que estava coberto com um lençol, e pediu a ela que supervisionasse a arrumação e dissesse se alguma coisa estava torta, ou se ficava melhor em outro lugar. Claro que Franciele também opinou, sob os resmungos de Silvestre.
— Franciele, por favor! Para de se meter!
— Qual o problema, careca? Nem o patrão nem a patroa reclamaram! A senhora acha ruim, dona Cecília?
— Não!
— Viu só? Se a patroa não se incomoda, não é você que tem que reclamar!
— Não importa! Nós somos empregados, em-pre-ga-dos!
— Você é! Eu sou cozinheira, co-zi-nhei-ra! – Ela o imitou
— Uma cozinheira metida a sambista, que só faz sambar e se meter na vida dos patrões! Eu não sei onde eu estava com a cabeça quando te contratei! – Eles continuaram a discussão esquecendo-se completamente de que a família toda estava ali, aliás, que a família toda se controlava para não rir
— Eu sei!
— Ah é? Aonde?
— Contando quantos fios de cabelo você ainda tem!
— Franciele... – Ele disse em tom ameaçador
— Silvestre... – Retrucou no mesmo tom
Cecília e Gustavo se olharam, e limparam a garganta para chamar a atenção deles.
— Senhor Gustavo, dona Cecília, mi-mil desculpas. Mil desculpas, isso não vai mais acontecer!
— Eu sei que não. Pelo menos não hoje! – Cecília riu acompanhada dos demais
— Desculpa seu Gustavo, dona Cecília. É que o careca me tira do sério!
— Franciele, vamos pra cozinha!
— Fazer o que lá se só tem caixa?
— Vamos para a cozinha!
— Gente, chega de brigar! – Gustavo disse – Silvestre, não tem problema a Franciele dar a opinião dela! E Fran, você sabe como é o Silvestre, não precisa provocar!
— É, vamos parar de brigar e terminar isso logo! Silvestre, você tem todo o direito de dar a sua opinião também, especialmente sendo um artista, uma pessoa tão sensível! Então vocês dois podem opinar no que quiserem!
— Dentro dos limites! – Gustavo acrescentou
— Obrigado pela confiança, senhora.
Em mais algumas horas terminaram todo o andar inferior da casa, incluindo os quartos de Silvestre e Franciele, e saíram para almoçar. Quando voltassem iriam para o andar superior para arrumarem os quartos e os armários. De fato, trabalhando todos juntos, era mais fácil e mais divertido.
Dulce pediu aos pais que depois que estivesse tudo pronto fossem para a piscina, para aproveitar o verão, e como todos os tios concordaram mesmo que fosse à noite, Gustavo e Cecília não tiveram outra opção a não ser concordar também!
[...]
— Esse foi o último quarto! – Cecília exclamou fechando a porta do último armário a ser arrumado
— Agora a gente pode ir na piscina?
— Sim piririm! Agora são seis da tarde, podemos ficar até as nove, e pedimos alguma coisa pro jantar!
— Iupiiii! – Disseram todos
— Silvestre, Fran, podem vir com a gente se quiserem!
— Não senhora, obrigado!
— Opa, é pra já!
— Vamos Silvestre, vai ser divertido! – Gustavo reforçou o convite
— É Silvestre, por que não? Qual é a graça de ficar olhando enquanto todo mundo se diverte? – Vítor também insistiu
— Está bem, me convenceram!
Depois daquele mutirão, todos se encontraram à beira da piscina da nova casa dos Lários e brindaram, em comemoração. Dedicaram-se apenas a se divertirem e claro, a responderem as muitas perguntas de Dulce Maria. Num dado momento, Gustavo pegou a mão de Cecília e a puxou até um dos cantos da piscina.
— O que foi?
— Nada, só queria namorar um pouco! – A beijou
— Ah é? E a gente tem o nosso quarto pra quê?
— No nosso quarto tem a sua filha! Aliás, quando ela vai voltar pro quarto dela?
— Minha filha? Ela é nossa até onde eu sei, e ela vai voltar pro quarto dela quando se sentir segura pra isso! – Ela disse séria, mas em tom calmo
— Eu entendo Cecília, mas nós precisamos ter a nossa vida a dois! Se a Dulce continuar dormindo com a gente todos os dias isso vai acabar virando costume! Já pensou como vai ser depois do nosso casamento?
— Pra isso ainda falta muito! E você quer ter vida a dois numa casa cheia de gente?
— Todos os quartos dessa casa tem um isolamento reforçado. E quanto ao casamento, se depender de mim, não vai demorar tanto! É sério meu amor, se continuar assim, daqui a um ano ou dois a Dulce nuca mais vai querer dormir sem a gente e é capaz até de querer ir junto pra noite de núpcias e pra lua de mel!
— A noite de núpcias é exagero seu, mas pra lua de mel a gente bem que podia levar ela! – Pôs os braços em volta do pescoço de Gustavo e riu
— Cecília, se ela escuta isso, eu não quero nem ver! E se você estiver mesmo pensando nisso, eu não me caso com você! – Brincou – Eu entendo o trauma que a Dulce teve mas já se passou quase um mês desde que voltamos de Recife, já está na hora de ela voltar pro quarto dela!
— Eu não sei se você lembra, mas há pouco mais de uma semana ela acordou desesperada depois de um pesadelo e se perdeu na mata! Ainda não é hora!
— Ela se perdeu porque saiu atrás de você! – Ele disparou sem que ela esperasse, e Cecília se ofendeu
— Espera aí, você está me culpando pelo sumiço dela? – A ex-noviça se afastou dele
— Não, desculpe. Eu falei sem pensar Cecília!
— Falou sem pensar, mas falou! – Ela ergueu um pouco o tom da voz e acabou chamando a atenção da filha e dos familiares
— Está tudo bem? – Fátima perguntou
— Está! – Se voltou a Gustavo – Vamos conversar lá dentro, é melhor!
— Aonde vocês vão, mamãe? – Dulce perguntou quando viu os pais indo em direção à escada da piscina
— A gente já volta, filha! Comporte-se tá? – A menina assentiu e voltou a brincar com os tios
Gustavo e Cecília se secaram, colocaram os roupões e entraram em casa, subindo as escadas.
— Cecília, por favor! Desculpa, eu...
— Falou sem pensar, eu sei! Mas é “não pensando” que se fala a verdade! – Eles entraram na suíte – Me fala, você me culpa pelo sumiço da Dulce?
— Não! Só comentei um fato, que ela saiu pra te procurar e se perdeu! E é você quem se sente culpada por isso até hoje!
— Obrigada por me lembrar! – Ela rebateu ironicamente
— Meu amor, a gente não precisa discutir por uma coisa que já aconteceu!
— Nós não estamos discutindo, e não é só por isso! A nossa conversa é sobre a Dulce, sobre você querer que ela volte pro quarto dela e durma sozinha, com medo!
— Cecília, não é isso! A Dulce já tem cinco anos, não é um bebê, e tem que aprender a superar os medos dela sozinha! Se não quando for adulta não vai conseguir fazer nada sem a nossa ajuda se estiver com medo! – Gustavo começou a aumentar o tom da voz
— Ela só tem cinco anos, é uma criança! Uma criança que perdeu a mãe, viveu dois anos sem o pai, foi sequestrada, ameaçada e ficou presa numa casa incendiada! Você não acha que é trauma demais pra uma criança? É natural que ela queira dormir com a gente, se sente segura do nosso lado!
— Você não imagina o quanto tudo isso doeu em mim, mas assim como ela precisa do nosso amor, também precisa de educação, disciplina e limites! Educar não é só dizer sim!
— Ela é sua filha! – Rebateu
— Agora ela é sua também, você não vai poder defendê-la de tudo pra sempre! Senão, ela vai ver que o pai dá limites e a mãe não, o que naturalmente nos joga um contra o outro!
— Gustavo, pelo amor de Deus, olha a besteira que você está dizendo! Você dá limites, eu dou e sempre vou dar limites, mas uma criança precisa do amor e do carinho dos pais, principalmente depois de passar por tudo o que ela passou!
— E você acha que eu não dou amor pra ela?
— Não mude as minhas palavras! O que eu quero é que você equilibre os limites e o amor! E nós não estamos falando de limites, estamos falando do carinho e atenção que ela precisa agora! Pelo menos agora! Depois, aos poucos, eu vou tentando colocá-la de volta no quarto dela.
— Do jeito que você é com ela, acho difícil que consiga! A Dulce tem aquele jeitinho que convence qualquer pessoa, e você mais ainda!
— O que você quer dizer com isso? Acha que eu sou mole demais e não sei dizer não pra minha filha? – Ela começou a se irritar
— Desde que nós estamos juntos, não vi você negar nada a ela, só negociar! E não dá pra eu tentar educar e você mimar, de que adiantaria?
— Se eu mimo a Dulce Maria, é porque você é duro demais com ela! E eu posso te dizer com experiência, uma criança que cresce com os pais duros demais como você se fecha a qualquer tipo de amor, e se afasta dos pais quando cresce! É isso que você quer? Que a sua filha se afaste de você? — Esbravejou
— Pode até ser, mas também cresce sabendo o certo e o errado, chega a ser um exemplo de caráter! Cecília, se eu sou duro com ela é porque eu me preocupo!
— Bela preocupação a sua! Fica dois anos fora sem ligar uma única vez, ao ponto da sua filha nem lembrar mais do seu rosto, porque ela me dizia que pensava em você todos os dias, mas não lembrava como era seu rosto! Aí quando você finalmente resolve voltar, traz na mala uma mulher interesseira, que sempre odiou crianças, e deixou você tão cego que insistia em se casar com ela mesmo sabendo do mal que ela causava à sua filha!
— Eu me casei com ela por acaso? Não! Eu percebi a tempo quem ela era! E outra coisa, não posso permitir que você fale assim comigo, que diga que eu não me preocupo com a minha filha! – Gustavo retrucou
— Você percebeu? Você foi a última pessoa se “desiludir” com ela, porque todo mundo tentou te avisar, inclusive eu! E eu não disse que você não se preocupa com ela, o que eu quis dizer é que enquanto existia Nicole você não se preocupava, agora é diferente!
— Cecília, o assunto aqui não é a Nicole! – Ele gritou – Tudo o que eu quero é que você leve a Dulce pro quarto dela!
— Quando ela quiser, eu levo! Enquanto ela se sentir mais segura comigo, é comigo que ela vai dormir!
— Depois não reclame quando ela se acostumar!
— Eu conheço a minha filha talvez até melhor do que você, e sei que quando dissermos que a partir de determinado momento ela precisa voltar a dormir sozinha, ela vai entender! Mas ainda não é o momento!
— Como assim conhece ela melhor do que eu? Eu sou o pai dela!
— Eu cuidei da sua filha por dois anos, enquanto você estava fora! Eu me deitava com ela todas as noites porque ela chorava de saudade de você e da mãe!
— Mesmo assim, ninguém conhece ela melhor do que eu! Ela é minha filha, portanto eu decido a hora em que ela deve voltar pro quarto dela!
— Não decide não. Porque você está pensando em você em vez de pensar no sofrimento dela. Eu repito: enquanto ela quiser dormir comigo, ela vai dormir!
— Não é você quem decide isso!
— E por que não, você pode me dizer?
— Porque você não é mãe dela! – Despejou as palavras
Cecília se sentiu atingida e magoada com aquilo, mas se manteve firme.
— Não é o que diz a lei. Olha Gustavo, pra mim já deu de discussão! Enquanto a Dulce quiser dormir comigo, ela vai dormir e pronto, e se você quiser pode dormir com a gente. Se não, me avisa que eu durmo no quarto dela. – Ela saiu da suíte e voltou para a piscina
— Cadê o papi?
— Ele ficou lá em cima meu amor, está um pouco cansado. – Ela pegou a filha no colo
Passado mais algum tempo, todos subiram para seus quartos para se arrumarem, Cecília já havia pedido a comida. Quando desceram juntos, encontraram Gustavo colocando as coisas sobre a mesa já arrumada, em silêncio.
Apesar da discussão, ele manteve o cavalheirismo e puxou a cadeira para Cecília.
— Obrigada. – Ela respondeu seca
Durante o jantar todos perceberam o clima entre o casal mas não falaram nada, principalmente por estarem perto de Dulce. Quando todos se recolheram, Gustavo e Cecília se encontraram em frente à porta do quarto.
— Cecília, podemos conversar?
— Hoje não, é melhor conversarmos amanhã, de cabeça fresca. Vou dormir com a Dulce no quarto dela, boa noite. – Ela saiu
— Cecília... Não adianta, fiz besteira de novo.
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