Gripe
4 Mal-estar (Palpitações)
Notas iniciais
Beijinhos.
Era mais um fim de tarde e Fabinho tinha acabo de sair do trabalho. No caminho de volta para casa, ele avistou Socorro na rua que fez uma enorme cena ao trocar de calçada apenas para não passar ao lado dele.
Fabinho não tinha ilusões que os moradores da Casa Verde simpatizassem com ele. Ele ouvia os cochichos, reparava nos sussurros, como se estivessem esperando o momento que ele falharia.
Ele foi um idiota, um canalha, com a maioria daquelas pessoas e sabia que nem todos tinham a tendência de perdoar. E ele não esperava que o perdoassem. Se Fabinho estivesse no lugar deles também não perdoaria. Mas ele não era um bom exemplo de boas tendências.
Às vezes tinha a sensação de estar cercado e só queria fugir daquelas expectativas. Não, se pudesse voltar no tempo, não cometeria os mesmos erros. Mas isso não o definia como o mocinho da história. Esse papel era do Bento, não dele. Só estava cansado de todo aquele papinho de “mas o mau-caráter do Fabinho” ou “Esse cara é um marginal”, mais irritante era o comentário de “olha como o Fabinho mudou” e blábláblá.
Na cabeça dele, a vida era mais do que mocinhos e vilões. (Menos a Amora é claro. Aquela lá não presta mesmo!) Em algum momento, todo mundo fazia alguma burrada. Ele só queria deixar aquela fase pra trás.
Ao avistar Giane um pouco mais adiante, fotografando um canteiro de flores, ficou em silêncio, tentando não fazer nenhum barulho e bem devagar, por de trás dela falou. “Ei moleque! Tá fazendo o que?”.
Giane quase deixou a câmera cair.
“Cara, que susto. Mania feia essa que você tem!”. Ela virou pra ele e o olhou nos olhos. “Você não tá bem. Tá franzindo a testa. Cê só faz isso quando tem algo te incomodando.” Ela falou encostando a mão que não tinha a câmera na testa dele.
Tum tum tum tum. Fabinho já esperava que o corpo dele reagisse de alguma forma ao toque dela. Mas aquela reação era nova.
Por mais que brigassem, ele tinha criado um carinho por Giane. Gostava de rir com ela, de rir dela, de irrita-la, acabou se afeiçoando ao jeito bruto tão característico. Fabinho não era inocente para não ver que tinha algo acontecendo entre os dois. Mas até então, ele pensou que fosse apenas atração. Só que os olhos dela tão preocupados com o bem estar dele, despertavam nele um sentimento diferente, maior, que ele não sabia bem como chamar.
“Não foi nada. Tava só pensando.” Ele falou enquanto discretamente segurava a mão que ela tinha levado a testa dele. TUM TUM.
“Cuidado para não fritar os últimos neurônios do cérebro!” Ela falou rindo, se aproximando mais.
“Ah, moleque. Vê se não enche. Vai tirar foto de flor, vai” Mas ele não estava com raiva e muito menos tinha soltado a mão dela.
“Palhaço” Ela respondeu, puxando de leve a mão de Fabinho, mas ainda sem soltar.
“Maloqueiro” Ele deu outro passo na direção de Giane.
“Que saco! Cê não sabe perder, né?” Ela tinha um sorriso travesso no rosto. “ E antes que eu me esqueça, meu pai convidou você e a Margot para jantarem lá em casa.”
“Se foi você que cozinhou, eu passo.”
“Engraçadinho, da última vez cê repetiu!”
“Dá última vez eu estava sendo explorado por uma tirana que só me fazia carregar caixas pesadas!” Ele não achava que a comida dela era ruim, ele não tinha culpa se ela ficava tão bonita irritada.
“Mas é um bebê chorão mesmo! Só por isso, cê vai lavar a louça do jantar sozinho.”
Ele reparou em como ambos tinham se aproximado.Estavam a menos de um braço de distância. Era como se não pudessem ficar longe, tinham que ficar o mais perto possível. Ficar longe dela quase... doía.
“E Fabinho, cê já pode soltar a minha mão tá?”
Ele soltou a mão dela e com o rosto quente, viu que ela não estava com raiva ou chateada, ao contrário. O sorriso travesso que ela estampava estava maior, e os olhos dela brilhavam divertidos. Tum tum.
“Espera aí... Cê tá curtindo com a minha cara!” Quando ele terminou de falar, ela não aguentou e riu de verdade.
“Você ganhou dessa vez, moleque. E é melhor que o jantar esteja bom mesmo.”
Talvez ele não estivesse preparado para admitir que sentisse algo além de atração por Giane. Só de pensar que poderia ser algo mais, ele sentia um embrulho, um mal-estar. Mas não tinha como negar que encontra-la tinha aliviado as preocupações dele. E por mais que os moradores da Casa Verde não confiassem nele, ela se importava, ela confiava. E pensar nisso o fazia sentir aquele mal-estar, as palpitações e um sorriso idiota que não queria sair dos lábios dele.
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