Grilhões Eternais
14 Prenúncio de uma expiação
Notas iniciais
– Milo! Algum problema?
Aioria tentava chamar a atenção do amigo, que havia parado de dar os golpes, de repente, durante a simulação de luta entre os dois, e tornara seu olhar na direção das Doze Casas, com uma expressão aparvalhada.
– MILO!
– Ah! Desculpe, Leãozinho.
– O que foi, cara? Aconteceu alguma coisa? Você ficou aéreo, de repente.
– Eu não sei... – respondeu o escorpiano, confuso. Não saberia explicar ao amigo o que sentira. Um estranho pressentimento... um desconforto quase palpável... ainda que nenhuma mensagem chegasse ao seu cosmo.
Foi quando ambos sentiram, ao mesmo tempo, como se rompesse algo dentro deles. Entreolharam-se, pasmados.
– Milo! O cosmo de Camus!...
– Sim! Eu senti...SE FOI!
E saiu em disparada, sendo seguido pelo companheiro.
– Zeus, Milo, calma!!! – apelo inútil. Milo quase voou até seu Templo, de onde rastreara o ponto no qual o cosmo do amante se desprendera do Santuário. Chegou quase que imediatamente e deu de cara com um cenário aterrador.
Em sua sala de estar, móveis revirados, congelados, bem como as paredes, brancas e repletas de gelo, e no meio do amplo recinto, o cadáver de Hélida, sobre um leito de sangue. Horrorizado, gritou seu nome. Nenhuma resposta. Ele se debruçou sobre a mulher, aferindo o ocorrido. Um enorme buraco no tórax... provavelmente a morte não demorara muito para levá-la. Olhou em torno...
Gelo nas paredes… nos móveis... começou a tremer violentamente.
Camus.
Camus estivera LUTANDO ALI.
MAS ONDE ESTAVA ELE?
–Por Athena… – balbuciou Aioria, caminhando pela sala, abismado – O que será que aconteceu aqui?
Sem responder, Milo ergueu-se. Com os olhos vidrados, deu alguns passos, trêmulo.
– Camus? – chamou, receoso.
Mais uma vez, nenhuma resposta.
– CAMUS! CAAAAMUS!!! ONDE VOCÊ ESTÁ? – gritou, virando a cabeça em todas direções.
– Não consigo sentir o cosmo dele, Milo!!! – Aioria juntou-se ao estupor, que em Milo cedeu à genuína aflição.
– CAAAAAMUUUUS!!!!!
– Calma, Milo!
– Como “calma”? Tá na cara que ACONTECEU algo com ele!!!
– Vamos procurá-lo...
–NÃO SINTO O COSMO DELE, AIORIA! – já não conseguia falar, só berrava, apavorado – Ele LUTOU aqui! Hélida tá MORTA! E VEJA COMO! Ele... ele...
Correu pelo Templo, acompanhado pelo leonino, em busca do aquariano. Logo chegaram à Oitava Casa Afrodite e Máscara da Morte, esbaforidos.
– Milo! O que aconteceu aqui? – gritou Afrodite – Sentimos a perturbação do cosmo de Milo...
– ... e o desaparecimento do cosmo de Camus – completou o canceriano, olhando em torno, apreensivo.
Peixes percebeu o corpo de Hélida no chão:
– Oh, Zeus! – levou as mãos à boca, aterrorizado. Trocou olhares preocupados com Máscara da Morte, ambos percebendo que havia um imenso problema ali. Mais alguns Santos chegaram, temendo o pior, sendo, contudo, ainda mais surpreendidos pelo mistério que se instalava, verbalizado por um atônito Milo:
– Camus... – murmurou, caindo de joelhos – Camus sumiu.
*********
Camus foi arrancado de seu confortável estado de inconsciência com a água que abruptamente foi jogada em seu rosto adormecido. Abriu os olhos com dificuldade, e distinguiu a imagem de uma criatura grotesca diante de si: possuía uma bizarra dentição projetada para frente, um imenso nariz todo manchado, pele acinzentada, olhos anormalmente grandes e zombeteiros. Uma espécie de armadura, negra como as trevas, cobria seu corpo pequeno e curvado.
– Acorda, verme! Não temos o dia inteiro! Vocês, Santos de Athena, são tão fracos assim? São piores do que eu imaginava – riu, brincando com o balde de madeira com que molhara o francês.
– Quem... – falou o jovem Cavaleiro, tentando se mover. Foi quando se deu conta de que tinha algemas nas mãos e nos tornozelos. Estava meio suspenso, acorrentado a uma parede de pedra. Foi tomado por um súbito, porém discreto terror. Forçou os grilhões, sem sucesso. Mas POR QUE não conseguia se livrar daquelas correntes? Para um guerreiro como ele, seria como partir papel. O ser à sua frente riu mais ao ver suas tentativas de libertação.
– Vejo que conseguiu acordá-lo, Zeros – uma voz grave e calma se fez ouvir – Não havia mesmo muito tempo para deixá-lo hibernando aí.
Camus encarou o recém-chegado. Também cobria-lhe o corpo uma armadura escura, imponente, com asas nas costas. Um homem muito alto, pele alva, cabelos loiros, sobrancelhas de mesma cor unidas sobre os olhos álgidos e dourados. O aquariano observou o lugar: paredes de pedra, teto alto, chão igualmente de pedra, luzes frias... parecia uma espécie de masmorra de castelo, ainda que com iluminação artificial. Um lugar tenebroso e totalmente desconhecido.
– Onde estou? Quem são vocês? – procurou imprimir firmeza à indagação.
– Você está em um castelo de minha propriedade. É prisioneiro de um importante convidado que aqui se encontra. Sou chamado de Radamanthys de Wyvern, a Estrela Celeste da Fúria.
– E eu sou o grande senhor Zeros de Sapo, da Estrela Terrestre Bizarra – ajuntou o outro, pulando de um lado para o outro, como o anfíbio que o nomeava.
– Você... vocês são cavaleiros?
—Somos espectros de Hades. Eu sou um dos Três Juízes do Inferno.
— Por que atacaram o Santuário? O que pretendem? Por que estou aqui?
— Não seja tão impaciente, Cavaleiro de Aquário... Foi-nos dito que você era um homem calmo e ponderado...será que está com tanto medo assim? – provocou Radamanthys, cínico.
O francês comprimiu os lábios e fuzilou o homem à sua frente com o olhar mais frio que poderia fazer.
– Hum. Agora sim. Essa era a imagem que fazíamos de você...
– O que pretendem, atacando o Santuário?
– Santuário? Não atacamos o Santuário. Nosso objetivo era tão somente VOCÊ... ou melhor... – caminhou até ele, sorrindo sarcasticamente ao concluir – MILO DE ESCORPIÃO.
Ao ouvir o nome do amado, Camus forçou violentamente as algemas, chegando a grunhir no processo.
– Não se esforce, Cavaleiro. Nunca partirá esses grilhões. Além de serem feitos com um material muito especial, VOCÊ NÃO PODE USAR O SEU COSMO... não percebeu ainda?
Parou, de súbito, um pouco ofegante. Por que não conseguia usar o cosmo?
– A coleira que está no seu pescoço suprime o cosmo. É feita de um minério negro e precioso, muito raro, vindo diretamente do inferno, e somente lá encontrado. Foi forjada por artífices magos do Imperador Hades.
Camus mirou o espectro, aturdido. O loiro cravou nele um olhar profundo, e tão gélido como o do aquariano minutos antes:
– Não sairá daqui, Santo de Aquário.
O nome de Milo, contudo, fora pronunciado. Lembrando-se disso, Camus inquiriu:
— ONDE ESTÁ MILO? O QUE FIZERAM COM ELE???
– Seu amante está são e salvo no Santuário. Lamento não poder dizer o mesmo de você, Aquário – a resposta fora dada por outro homem que adentrara a câmara. Seu porte era altivo como poucos: tinha longos cabelos loiros, olhos azuis como safiras, e duros e frios como tais gemas, era alto e forte. No corpo, uma armadura igualmente negra e reluzente. Notou que correntes circundavam-lhe os dois braços.
– Cavaleiro Camus de Aquário. Espero que entenda que nada tenho contra você. Muito pelo contrário. Mostrou-se neutro no passado, e portanto, insubordinado ao Patriarca Maligno. Eu não teria motivo algum para mantê-lo aqui...se não fosse amante do Cavaleiro Milo de Escorpião – anunciou, com voz monocórdia, metálica.
“Amante?”, pensou o aquariano. E perguntou, secamente:
–E você, quem é?
– Não me reconhece?
O francês mirou-o, longamente. De fato, não o reconhecia... visualmente... entretanto...
— Sei que seria prepotência minha esperar que um Santo de Ouro reconhecesse um mero Santo de Prata. Contudo, havemos de ter cruzado pelo Santuário alguma vez, ou seu amante talvez pudesse ter mencionado sobre mim, ao falar de um passado sórdido...
— Parece saber muito da minha vida para insistir que Escorpião é meu amante.
— E você parece não saber nada do homem cuja vida seu amante DESTRUIU.
Ante aquelas palavras, Camus arregalou os olhos. Considerou mais uma vez as correntes que o homem trazia enroladas nos braços, à maneira de Andrômeda quando envergando sua armadura...
— Albiore?... ALBIORE DE CEFEU?
O Cavaleiro de Prata sorriu, ironicamente.
— Ora... sinto-me deveras lisonjeado. Lembrou de meu nome...
— Mas... mas você...
— Sim, eu morri. Ou melhor, fui morto. Como você.
— Como... por que está aqui? E essa armadura negra... não me diga que...
— Sim, da mesma forma que você foi trazido à vida pela misericordiosa Deusa Athena, também eu fui trazido de volta graças ao grande Deus Hades...
— Não acredito! Você, um CAVALEIRO DE PRATA, UM SANTO DE ATHENA!!! Por que teria se rebaixado a isso?
O loiro fitou-o, desafiadoramente.
— Por vingança, meu caro Camus de Aquário... VINGANÇA.
— Vingança?...
Albiore caminhou lentamente até o jovem preso à parede. Pousou o dedo sobre o coração do francês, e pôs-se a dizer, num tom baixo e grave:
— Peixes pode ter destruído meu corpo. Escorpião, porém, destruiu ISSO... arrancou da vida o que me era mais querido, mais amado, e o que de mim permaneceria na Terra protegida por sua Deusa... Peixes matou minha carne; Escorpião matou minha alma. Meu coração. É por isso que VOCÊ, e não Câncer, está aqui. Assim como Milo destruiu o que eu mais amava, eu DESTRUIREI o que Milo mais ama. Parece-lhe justo, não?
–Vendeu sua alma ao Senhor do Submundo, inimigo de Athena, para realizar uma vingança? Milo cumpria ORDENS quando foi para a Ilha de Andrômeda!
– Sim. De fato, conforme fiquei sabendo no pós-morte, o Santo de Gêmeos, Saga, foi quem usurpou o trono do Patriarca, e iniciou um governo de horror. Eu percebi o Mal pairando sobre o Santuário, SABIA que não era Shion lá, de alguma forma, eu sabia... ainda que não tivesse entrado em franca rebelião, pelo menos não até então, ele soube que eu desconfiava. Enviou Escorpião e Peixes para o local onde eu treinava cavaleiros.
– Se quer me matar – disse Camus, querendo findar aquela conversa desagradável – fique à vontade. Mas tenha consciência de que Milo, como qualquer guerreiro do Santuário, TINHA que obedecer as ordens do Papa, o qual acreditava ser a autoridade máxima, abaixo apenas de Athena.
– Compreendo, Aquário, e não o refuto. No entanto... se houve alguém que REALMENTE seguiu as ordens do maléfico Mestre, foi tão somente Afrodite, que me matou com uma de suas rosas mortais. Milo, porém, seguiu apenas sua sede de sangue. Seu sadismo.
Camus retesou o corpo, atônito.
– Sadismo? Sede de sangue? Não estou entendendo...
– Camus, você já ouviu falar de um Cavaleiro de Prata oferecer RESISTÊNCIA a um Cavaleiro de Ouro? Deve ter ficado sabendo que Afrodite enviou a rosa diretamente ao meu coração, graças ao fato de eu estar distraído enquanto eu lutava com teu amante. QUE NÃO CONSEGUIA ME DERROTAR. Você consegue imaginar uma razão para um Cavaleiro de Ouro NÃO CONSEGUIR derrotar um Cavaleiro de Prata?
As palavras, ainda que atordoassem o aquariano, moldaram-lhe o entendimento perturbador.
– ... você devia ter um motivo muito forte para estar lutando tão bravamente... para ter se equiparado a um Santo de Ouro... um motivo além de simplesmente defender a própria vida.
– A fama de sua inteligência e agudeza de espírito não é infundada, pelo que vejo, Mestre Camus – o “Mestre” fora pronunciado com extremo desdém. Chegou mais perto, colou sua boca ao ouvido do prisioneiro, e disse, lentamente:
– Seu nobre amante matou, impiedosamente, a mulher que eu amava... e que carregava no ventre um filho meu...uma aspirante a amazona chamada Agatha.
Camus sufocou uma interjeição, mas não pôde deixar de abrir a boca, chocado. Sim! Tinha ouvido falar, à época, que Milo, com seu poder destrutivo, havia tomado a Ilha de Andrômeda em poucos minutos, não mais que meia hora... derrotara todos oponentes que se puseram em seu caminho. A ordem era essa. Todavia, até executar Albiore, certamente muitos de seus aprendizes tentaram defender o mestre. O banho de sangue teria sido inevitável. O francês abaixou a cabeça, sentido. Não obstante tivesse reprovado o feito de Milo, ordens eram ordens, e a insubordinação punida com a morte! Ele teria tido escolha? Evidentemente que não!
– Ele não tinha escolha... – balbuciou, sinceramente emocionado.
Recebeu um soco no estômago que o fez se curvar para frente.
– É CLARO QUE TINHA. A ordem era para executar A MIM. Não meus pupilos. Não os inocentes servos habitantes da Ilha. Não Agatha.
– E-eles... devem... devem tê-lo enfrentado...
Mais um soco. Desta vez, Camus não conseguiu sufocar um pequeno gemido. Estava sem seu cosmo, e fragilizado pelo ataque em Escorpião.
– Já começamos a brincar? Eu quero também, é minha vez, tô entediado aqui! – exigia Zeros, saltando loucamente.
Radamanthys sinalizou com a mão para a ridícula criatura, numa ordem muda para que se calasse.
– É claro que o enfrentaram – continuou o mestre de Shun – eram homens e mulheres honrados, que dariam suas vidas para impedir que o mestre deles fosse assassinado. Seu namoradinho, no entanto, é reconhecidamente o MAIS RÁPIDO dos Cavaleiros de Ouro, e o que tem o maior poder de ataque à distância. Era muito fácil para ele mirar em mim, usar a maldita Agulha Escarlate, e acabar com tudo logo. No entanto, o que ele fez, você sabe? Quer que eu te conte?
Camus cuspiu um pouco de sangue, e encarou seu interlocutor. Esperou a resposta em silêncio.
– Preferiu se divertir destruindo tudo e todos – Albiore concluiu, com ódio na voz.
De fato, fora dito que Milo fizera uso de um golpe muito raramente utilizado, em que produzia uma violenta corrente de ar, algo como um tornado de incrível poder de destruição. Por que fizera isso... realmente era um mistério. Seria Milo, de fato, um sádico? O entusiasmo do amado no campo de batalha era notório, e havia mesmo relatos de Milo enfrentar os inimigos com um sorriso sarcástico nos lábios. De se divertir. De se comprazer com com a angústia e com a dor de quem ousava se colocar em seu caminho. Mas isso... sede de sangue? Sadismo?
–Agatha pôs-se entre mim e o maldito... depois que ele me acertou com seu primeiro golpe... no afã de me proteger, ela apareceu e... e...ele a matou. Sem hesitar. Sem a menor piedade – a voz de Albiore ganhou tons de pungente tristeza – Levou consigo o meu filho... o nosso filho... em seu ventre...
Passaram-se alguns momentos em que nenhum dos presentes à câmara se pronunciou. Camus ergueu a cabeça, e falou, muito calmamente:
–E porque ele matou quem você amava, você vendeu sua alma a Hades para voltar à vida e poder matar quem Milo ama. Eu compreendo. Cumpra sua vontade. Eu aceito expiar os pecados de Milo no lugar dele.
– Você acha que isso é suficiente?
– Se essa fosse a intenção, você não teria sido trazido até aqui, garotão! – zombou Zeros, saltando, divertido.
O coração de Camus bateu mais forte. Muito mais forte. Intimamente, teve medo do que iria ouvir.
– Eu desejo mais que sua morte, Aquário. Assim como Milo destruiu minha alma, pretendo destruir a dele. Você será supliciado por doze dias. Este é o tempo que o Senhor Hades me deu de vida. E vou utilizar todos para fazer você sofrer diante dos olhos do seu amado – anunciou o Cavaleiro de Prata, sem manifestar qualquer emoção.
Um pesadelo. TINHA que estar num pesadelo. Aquilo NÃO podia ser real. O que acabara de ouvir? Que… que ele seria TORTURADO por doze dias? Para Milo ver?
Num esforço tão intenso que chegava a ser quase doloroso, Camus afetou fria fleuma ao indagar:
– E como Milo vai assistir ao... ao meu suplício? Você não disse que ele ficou no Santuário? Vai filmar e mandar fitas para ele?
–Temos meios mais interessantes e imediatos. Começaremos já.
Camus sentiu um tremor percorrer seu corpo. Suas mãos estavam dormentes, e o brusco fluxo de adrenalina causou-lhe pontadas na cabeça.
Mesmo alguém tão frio não seria capaz de aceitar com tranquilidade a notícia de que vai ser torturado por doze dias.
– Cavaleiro de Aquário, você será minha vingança contra Milo de Escorpião. As almas de Agatha e de meu filho, que nem teve o direito de nascer, assim o exigem. Ao cabo de doze dias, antes de eu retornar ao Mundo dos Mortos, você receberá, enfim, o golpe de misericórdia, cessando assim, o seu sofrimento. Espero que compreenda... e que aceite seu destino.
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