Grilhões Eternais
15 O suplício dos amantes
Notas iniciais
Templo de Athena. No amplo Salão Principal, envolta por seu imenso cosmo dourado, Saori Kido mantinha os olhos fechados, enquanto segurava com firmeza o báculo; concentrava-se tanto quanto podia para rastrear o cosmo de um de seus principais Santos, desaparecido misteriosamente do Santuário. Milo torcia as mãos ao observá-la, apreensivo. Acompanhavam-nos apenas os Santos de Bronze Hyoga e Seiya, e também o de Ouro Aioria, que havia acompanhado o escorpiano até ali. Embora os demais também quisessem estar presentes, obviamente querendo saber do companheiro sumido, não deveriam deixar muitos Templos desprotegidos, ainda mais depois daquele ataque à Casa de Escorpião. Não sabiam do que se tratavam, e toda precaução se fazia necessária.
A luz que emanava da Deusa foi amainando pouco a pouco, e os semblantes dos jovens mostraram-se ainda mais ansiosos. Ela abriu os grandes olhos escuros: havia uma tristeza neles que imediatamente golpeou as esperanças dos rapazes.
– Sinto muito. Não localizo o cosmo do Mestre Camus de jeito nenhum... ele REALMENTE... desapareceu.
Milo abaixou a cabeça, angustiado. Hyoga pôs a mão no ombro dele. Ainda que estivesse terrivelmente preocupado, tencionou antes de se apavorar apoiar o amante de seu mestre.
– Não tem ideia do que pode ter acontecido, Saori? – perguntou o russo.
– Não. Contudo, uma coisa é certa. Ele NÃO está morto.
– Tem certeza, senhora? – indagou Milo.
– Absoluta. O seu cosmo não se apartou do plano terrestre. Quando eu disse que não “localizava” o cosmo, é exatamente isso que quero dizer: eu SINTO seu cosmo, mas não o localizo.
– Quer dizer que Camus foi de fato... sequestrado? – quis saber Aioria, sem disfarçar uma certa incredulidade.
– É a possibilidade mais plausível – respondeu Athena, franzindo uma sobrancelha.
– Mas com que propósito? – Seiya parecia partilhar da incredulidade de Leão – E como teriam conseguido capturar um Cavaleiro tão forte como ele? Como ninguém soube, ou viu ou ouviu alguma coisa?!
– Além do cadáver da pobre serviçal de Milo, havia sinais de luta no lugar. No entanto... – Cisne parou de falar, como que ponderando alguma ideia surgida no momento.
– O quê, Hyoga? Fala!!! – impacientou-se Pégaso.
– Seiya, não sei explicar. HAVIA sinais de luta lá, sim... mas... NÃO como se meu mestre tivesse lutado A SÉRIO.
– Não entendi.
– Ele não usou todo seu poder. Não havia muito gelo nem muita destruição no salão de Milo, pelo menos não tanto quanto um ataque “sério” do meu mestre causariam.
Agora o amigo pareceu verdadeiramente nervoso. Retrucou, atropeladamente:
–Mas como Camus não teria “lutado a sério”? A criada de Milo foi morta, e provavelmente na frente dele! Com certeza, houve um combate sério no local!
– Há outro elemento estranho nessa história. Hélida me disse que Camus havia vindo para cá, convocado pela senhora – disse Escorpião, olhando fixamente para a jovem.
– Ela mentiu para você. Assim, você deixou a Casa antes que ele chegasse. E Aquário ficou a sós com ela no momento em que tudo aconteceu. – Saori cruzou os braços, pensativa – Isso nos leva a crer em algo bem desagradável: que ela estivesse ENVOLVIDA nessa trama do rapto do Mestre Camus.
O escorpiano crispou as mãos, trêmulo.
– Hélida... por quê? Eu sempre… sempre a tratei tão bem... e ela a mim... era como se fosse uma tia...
Hyoga cortou seu lamento de forma enérgica:
– Seiya levantou outra questão: por que NINGUÉM sentiu o ataque? Nem uma única perturbação no cosmo nem de meu mestre, nem dos invasores! Foi como se NADA estivesse acontecendo!!!
Eles se entreolharam, entre confusos e envergonhados. Tanto pelo fato de um deles ter sido levado sem que nenhum dos poderosos Santos de Ouro ou mesmo Athena percebessem algo de errado, quanto pelo fato de inimigos penetrarem aquele território santo com tanta facilidade!
– Pedi a Shun que revistasse a Casa de Escorpião com suas correntes. Vamos ver se ele encontra alguma pista – disse Saori, considerando cada um de seus Cavaleiros.
Milo cruzou os braços, aflito. Hélida participara de uma armadilha para levar seu amado. Com que propósito ele fora levado? E por quem?
–Athena, peço permissão para deixar o Santuário e ir em busca de Camus – pediu, resoluto.
– E eu vou também – ajuntou Cisne.
– NÃO.
Os dois a olharam, espantados e indignados.
– Se nem eu consigo localizar Mestre Camus, é muito provável que vocês também não o encontrem. Será um desperdício de tempo e energia agir às cegas antes de termos pistas sobre quem o levou.
Em silêncio, todos abaixaram as cabeças. Realmente, a consciência de Athena falava cada vez mais através da jovem: ela parecia mesmo mais sábia e madura.
– Esperemos Andrômeda e maiores notícias. Reforcei as defesas dos limites do Santuário. Shaka e Mu também estão usando seus poderes extrassensoriais na busca de mais evidências.
– Mas Athena... – Milo gesticulou, sem se incomodar se parecia grosseiro ou não – enquanto estamos aqui esperando, Camus pode... ele pode estar... pode estar acontecendo algo de ruim com ele!
Saori mirou-o, com profunda compaixão. Sabia do amor que o Santo à sua frente devotava ao desaparecido, e lamentava que justamente quando ambos haviam estabelecido um lindo relacionamento, que estavam tão felizes, algo sinistro pairasse sobre eles... possivelmente com consequências aterradoras.
– Milo, compreendo sua preocupação. Porém não temos opção no momento. Precisamos mesmo procurar pistas. Tenhamos paciência, a fim de que o resgate seja realmente bem sucedido – ela falou, compassiva – Além do mais, não creio que o Mestre Camus corra um imediato risco de morte.
– Não crê?
–Bom, se quisessem tê-lo matado, não seria somente a criada de Milo a ser encontrada morta na Oitava Casa, não acham? – raciocinou Seiya.
– Então levaram ele pra passear num parque de diversões? – Milo elevou a voz, exasperado.
– Calma, Milo...
– Comer algodão doce? Dar uma volta no carrossel?
– MILO, CALMA!
– Como “calma”, Hyoga? Seu mestre foi RAPTADO! Você acha que ele tá bem?
– Não, mas...
– SHUN! – Seiya gritou, ao ver o amigo adentrar o Salão Principal. Envergava a armadura e uma expressão preocupada. Todas atenções se convergiram para ele. Trazia algo nas mãos.
– Encontrou alguma coisa, posso ver – falou Athena, indo em direção ao adolescente.
– Realmente, vasculhei todo o Templo, e minhas correntes apontaram para estes dois objetos...
Mostrou-os: uma pequena caixa de presente e o mais estranho, uma bola de material escuro, translúcido, como vidro escuro. Esta era grande, de forma que ele a segurava entre as palmas das mãos.
– O que é essa coisa? Eu não reconheço isso... não havia isso na minha casa!
– Não é um tipo de enfeite? Estava na estante da sala...
– Não, nunca vi isso! Que mais você trouxe?
–Esta caixinha… vazia.
–Também nunca vi isso.
– Uma bola de vidro e uma caixinha de presente? Foi para isso que as suas correntes apontaram, Andrômeda?
– Foi sim, Aioria... e acho que esta bola é na verdade de cristal... é meio pesada.
A Deusa tomou nas mãos o que Shun trouxera. A surpresa em seu rosto chamou a atenção dos jovens.
– De fato, não há cosmo algum nestes objetos. Mas... sinto uma energia estranha sim... indefinida. Certamente, foram trazidos pelos intrusos – e mais uma vez franziu o cenho, como que indignada.
– Saori, como assim, “energia indefinida”? – quis saber Hyoga. Milo e Aioria achavam engraçado ele e os demais Santos de Bronze ainda não terem perdido o hábito de chamá-la dessa maneira.
– Tanto na caixinha, quanto na bola... e principalmente nesta bola de cristal negro: em suas partículas reside uma energia diferente DE TUDO QUE HÁ NA TERRA.
– Ok, está nos assustando pra valer – disse Seiya, intrigado.
– Está dizendo que é como se... não fosse deste mundo? – perguntou Aioria.
– E você disse que sabe que Camus está vivo, mas que não consegue localizá-lo – ajuntou Milo.
Longe de esclarecer algo, tudo parecia mais misterioso ainda. O escorpiano continuou:
–Mas com que propósito deixaram isso?
– Presumo que queriam que você achasse, Milo.
Segundos de desconfortável silêncio se seguiram, até que o leonino inquiriu:
– Athena, o que devemos fazer?
– Esperar.
Milo lembrou-se de, há dias, envolver Camus em seus braços, os dois quase cambaleando pelo corredor do Oitavo Templo, enfiar a mão por dentro de sua calça, enquanto beijava-lhe o pescoço, e em seguida resmungar “Esperar, esperar, esperar... detesto essa palavra.”
Detestava, oh, como detestava!
– Vamos continuar procurando pistas. Vou acionar também a Fundação Graad para que mobilizem o Setor de Inteligência. Eu, Shaka e Mu continuaremos a busca pelo cosmo de Mestre Camus. Milo, leve esta bola com você. Não sei a razão, mas sinto que o inimigo realmente queria que você a encontrasse. Ou seja, tem ligação com o rapto. Precisamos de todas pistas e evidências possíveis – respondeu, tentando imprimir à fala sua autoridade, a qual sabia ser dolorosa para os homens ali reunidos, principalmente para o Santo de Escorpião.
Ele tomou o objeto nas mãos, sentindo-se pesado e derrotado. Sua vontade mesmo era evadir-se dali, e com a velocidade da luz vasculhar o planeta inteiro até encontrar seu amado. No entanto, por mais que esse sentimento o devorasse, não podia desobedecer às ordens da Deusa. Mordeu o lábio inferior, fazendo uma profunda reverência diante Dela. Ao se virar, sentiu a delicada mão no ombro, retendo-o.
– Milo... nós vamos encontrá-lo. Estaremos todos empenhados, eu prometo.
– Eu sei, minha senhora – assentiu com a cabeça, que já doía horrivelmente. Quando ia sair pela porta, Hyoga pôs-se à sua frente.
– Quer que eu vá com você?
– Não, obrigado, eu estou bem. Permaneça aqui com seus amigos...
Hyoga queria falar que ele era amigo também, e... na verdade mais do que isso. Entretanto, não era hora de tal revelação. Preferiu respeitar o momento do mais velho, que deixou o lugar sem se despedir propriamente.
*************
Sentado no sofá de couro vermelho de sua sala de estar, ele torcia tanto as mãos que era um milagre não quebrá-las. Mirava a misteriosa bola de cristal diante de si, disposta sobre a nova mesa de mogno (a anterior ele quebrara durante o ataque de fúria após estapear Camus na festa de Athena). Mordia o lábio inferior nervosamente enquanto sua mente fervilhava. Passavam das três da manhã, e apenas um silêncio opressor fazia-lhe companhia.
“Camus, onde você está? Para onde levaram você, meu amor? Ah, eu me sinto tão mal, tão patético aqui parado, sem saber se você está bem... Athena disse que você não está morto... mas com certeza você está em perigo! Os malditos que te levaram... estarão fazendo algo contigo?”
De repente, a bola de cristal começou a emitir uma estranha luz. A princípio mínima; aquilo atraiu sua atenção, fazendo-o levantar de pronto.
– O que é isso? – murmurou, estupefato. A luz aumentou e Milo imediatamente adquiriu posição de luta, após dar um salto para trás. Alguma armadilha do inimigo estava prestes a se revelar. Talvez fosse melhor colocar a armadura...
Antes que pudesse fazê-lo, um feixe de luz partiu do misterioso artefato rumo a ELE. Atingiu-o em cheio na fronte. Tão rápido que nem dera tempo de se esquivar... então tudo ficou como antes. Não houve dor, nada. Mas o que teria sido aquilo? Atingira-o, porém sem efeito algum. Como se nada tivesse acontecido. Mirou suas mãos, seu corpo, como para se certificar de que o pretenso ataque não surtira efeito.
Súbito, o que havia em seu campo de visão converteu-se em um mosaico de cores: a sala, os móveis, os quadros, as paredes, tudo se misturou na espiral que dissolveu a realidade à sua frente.
– Por Athena! O que será que está acontecendo?
Viu-se num lugar escuro, flutuando num outro espaço. Uma ilusão? Forçou os olhos: no meio do breu, surgia uma cena. E abria-se cada vez mais... chão de pedra. Paredes de pedra. Algo como uma câmara muito antiga. Foi quando viu... bem ali... diante dele... malgrado a distância, não havia dúvidas.
Camus.
O coração de Milo quase parou ao vê-lo. Sufocou um grito ao constatar que seu amado estava pendurado com os braços para o alto, preso pelos pulsos a algemas e grossas correntes. Vestia apenas uma calça justa preta, a mesma com que às vezes treinava. Parecia desacordado; a cabeça pendia para frente, de forma que mechas azuladas cobrissem-lhe parte do rosto.
– CAMUS!!! – gritou, e precipitou-se para ele. No entanto, por mais que corresse, a visão continuava EXATAMENTE no mesmo lugar em que estava, ou seja... Camus NÃO ficava mais perto. Nem com toda sua notória velocidade, Milo se aproximava dele! Acelerou ainda mais, obtendo o mesmo resultado insólito: NÃO CONSEGUIA SE APROXIMAR DE CAMUS. Parou de súbito, sem entender.
– O que... o que é isso? – perguntou, a voz tão trêmula quanto o seu corpo – É uma ilusão?
– Não. Para o seu azar, Milo de Escorpião, isto NÃO é uma ilusão.
Olhou na direção da voz e viu...
Impossível.
O homem a quem fora ordenado executar. O “rebelde” a quem Saga, oculto sob a identidade do Grande Mestre, mandara punir. A armadura que usava agora, porém, era negra como as regiões abissais.
– VOCÊ! Mas... o que... você está MORTO! Por que está aparecendo nesta ilusão?
– Eu já te disse. Não é uma ilusão.
Milo tentava com todas as forças colocar a cabeça no lugar. Já não sabia se olhava Camus acorrentado, se olhava o fantasma do homem que fora matar... sentia-se perdido.
“Não é uma ilusão”, ele dissera.
Então Camus...
– Camus!!! – e mais uma vez, correu na direção dele, desesperado. O Cavaleiro de Prata se interpôs.
– Não adianta tentar ir até ele. Você apenas pode VÊ-LO. No entanto, não pode se aproximar dele. Nunca mais o fará.
Uma lança em seu peito não poderia feri-lo mais do que aquela última sentença.
– Foi... foi você que o sequestrou? Mas você está morto!
– Seu amigo também estava, não é? Peixes também... – e riu maldosamente – milagres acontecem... uns mediante a graça de uma deusa, outros mediante as graças de um deus.
– Albiore... Cavaleiro de Prata de Cefeu... mestre da Ilha de Anrômeda! Que deus infame o trouxe de volta à vida?
–Hades, o Senhor do Submundo… do Reino dos Mortos! Me reviveu tão somente para que eu obtivesse a minha vingança – sentenciou o homem, muito sério.
– Sua vingança? Zeus... por isso levou Camus?! Para se vingar de MIM?
– Exatamente.
Por uns instantes, apesar de manter a boca muito aberta, o grego não conseguiu proferir nenhuma palavra. Processava todo aquele pesadelo que, infelizmente, parecia muito real. Enfim, disse, quase aos berros:
—Você é um Cavaleiro de Athena! Rebelou-se para lutar por Ela! Morreu por Ela! E vendeu sua alma ao Deus do Submundo? Como pôde ser tão torpe, tão vil? E todos acharam que fosse um cavaleiro honrado! Todos o têm como um herói!!!
– Do que isso me adiantou? – rebateu, acidamente, de uma forma que chegou a compungir seu interlocutor – Onde estavam a Deusa e a Justiça quando você matou impiedosamente aqueles a quem eu amava?
Milo abaixou os olhos, envergonhado. Crispou as mãos, e abrandou a voz:
– Sei que isso não é o bastante para que considere... mas eu estava cumprindo ORDENS. Todos do Santuário... ou pelo menos a grande maioria, agora sei, acreditavam que quem ocupava a Sala do Patriarca fosse o verdadeiro Papa. E as ordens dele são absolutas, você sabe! ELE me mandou para a Ilha de Andrômeda... e eu TINHA QUE CUMPRIR MEU DEVER...
– Eu entendo, Milo de Escorpião. No entanto, com seu poder supremo, poderia ter executado APENAS o alvo que lhe foi designado, não? Por que acha que o SEU amante é quem está aqui, e não o amante de Peixes, que efetivamente me matou?
O escorpiano calou-se, e voltou ao passado. Quando na Ilha de Andrômeda, arrombou a porta de madeira de uma rústica cabana ao pé de uma das inúmeras montanhas desprovidas de qualquer vegetação. O rebelde Santo de Prata a quem deveria executar morava ali. Obtivera a informação mediante uma simples Agulha Escarlate; sequer chegara à segunda... adentrou o casebre e viu apenas uma mulher, de longos cabelos loiros muito claros e faiscantes olhos verdes. Seu ventre avantajado denunciou sua gestação avançada, e isso fez com que ele baixasse a guarda. Não queria alarmá-la em demasia.
– Mulher, onde está o Cavaleiro Albion de Cefeu?
Inicialmente assustada, ela o encarou desafiadoramente.
– Vejo que é um Santo de Ouro. O que quer com Albiore?
– Recebi ordens expressas para executá-lo por traição contra Athena e o Grande Mestre.
Ela arregalou os olhos, apavorada. Em seguida se recompôs, adquirindo a mesma expressão altiva de minutos antes.
– Albiore NÃO é o traidor. O homem que ocupa o lugar do Patriarca é que é, e está enganando a todos.
– Mulher, somente por essa declaração eu deveria executá-la agora mesmo. No entanto, pouparei a sua vida se me disser onde está Albiore.
– Nunca... pode me matar, “grande” Cavaleiro de Ouro. Jamais entregarei Albiore!
– Neste caso – e Milo lançou-lhe um sorriso tão lindo quanto ameaçador – terei que vasculhar a Ilha inteira. E NÃO farei isso com delicadeza...
– Tão poderoso e tão idiota – zombou a moça, retribuindo o sorriso com um sarcástico.
Milo tornou-se novamente sério. Perguntou, em tom autoritário:
–Vamos, diga-me onde ele está. AGORA!
– Vá para o inferno!!! – e ela lançou-se sobre ele, tencionando acertá-lo com algum golpe, furiosa. O escorpiano apenas esquivou-se do ataque, com a maior facilidade do mundo. Contudo, não poderia feri-la! Por mais que ela fosse uma traidora, e que houvesse blasfemado contra o Grande Mestre... Zeus, estava grávida! Isso ele não conseguiria.
Ela caiu no chão, e ali ficou, fatigada pelo esforço.
– Vou procurá-lo. Diga a ele que enquanto não aparecer, não cessarei minha busca, e não pouparei quem ousar se meter em meu caminho – anunciou Milo, saindo da cabana.
Foi quando tudo aconteceu; o turbilhão, pessoas e mais pessoas, discípulos de Albiore, e até mesmo meros servos deste, vieram enfrentá-lo, e foram sendo rechaçados como moscas. O Escorpião comprazia-se no campo de batalha, orgulhoso de seu poder e de seu senso de justiça, que o levara a imolar aqueles traidores em honra de seu Patriarca.
Enfim, o líder dos rebeldes da Ilha de Andrômeda surgiu na sua frente, a fim de luta e evitar maiores derramamentos de sangue. Milo preparava seu golpe “Agulha Escarlate”, mirando no Santo que girava suas correntes no ar. Tolo ingênuo... antes mesmo de aquela corrente ridícula ser lançada no ar, uma de suas Agulhas o atingiria... torcia para que não morresse de primeira. Não... ele haveria de sofrer MUITO por seus crimes!
Mas eis que na trajetória de seu golpe...
– Estou certo que lembra-se bem do que fez, Cavaleiro de Escorpião... – disse Albiore.
– Sim. Uma jovem atirou-se na sua frente, sendo atingida pelo meu golpe.
– Exatamente. Ela era minha esposa. Havíamos nos casado fazia um ano. Seu nome era Agatha. Você é grego, deve saber o que significa “Agatha”.
– Sei... significa “boa, bondosa”.
– E não poderia haver pessoa mais digna desse nome. Ela era pura e luminosa como o raiar do dia. Ela era o meu dia, a minha luz... e esperava um filho meu.
Milo engoliu em seco.
– Eu não tinha intenção de matá-la. Inclusive eu a havia POUPADO minutos antes, quando cheguei à sua casa.
– Que misericordioso – ironizou o Cavaleiro de Prata, amargo como fel – achou melhor matá-la na frente do “rebelde”. Uma punição deveras adequada para um “traidor do Santuário”.
O escorpiano arregalou os olhos, compreendendo a horrível situação.
– Foi por isso que ressuscitou? Para raptar Camus e assim... se vingar de MIM?
– Finalmente entendeu.
– NÃO tinha como eu deter o golpe àquela distância! Eu não queria matar a moça! – gritou Milo, rendendo-se ao desespero.
– Diga o que quiser, nobre Santo. Nada mudará o fato de que ela... ELES estão mortos.
– Para onde levou Camus? Que lugar é esse?
Albiore postou-se ao lado do homem suspenso por correntes, alisando-lhe as madeixas caídas.
– Não importa. Nem você nem ninguém chegará até aqui. Somente você pode ver este lugar, e é tudo que conseguirá fazer, graças ao Olho do Destino.
– Olho do Destino?
– O feixe de energia que te atingiu há pouco estabeleceu um elo psíquico com este lugar. É o nome da técnica, cujo veículo foi a bola de cristal negro que foi deixada em seu Templo. – agora quem falava era um homem mais alto, também de armadura negra, cabelos curtos e espetados loiros, com sobrancelhas curiosamente unidas.
– Quem é você? – rosnou Milo.
– Digamos que sou o anfitrião de Albiore. Minha missão é cuidar para que meu hóspede, revivido por Lorde Hades, tenha sua vingança consumada.
– Você assistirá ao sofrimento do seu grande amor, Milo de Escorpião – declarou o ex-mestre de Shun, friamente – assim como eu assisti ao sofrimento do meu.
Tremendo da cabeça aos pés, o escorpiano respirava pesadamente, procurando o rosto do amante, com olhar esgazeado.
– Não... não, você não pode fazer isso... eu NÃO queria matar sua mulher! Se eu quisesse, teria feito isso antes, naquela cabana!!! Será que não entende?! – disse, com voz trêmula.
– Ações geram consequências, meu caro... até mesmo para vocês, supremos Santos de Ouro – retrucou, virando-se para Camus – Sabe por que ele está assim, indefeso, totalmente entregue?
Segurou o queixo do aquariano com a mão, erguendo-o para deixar à mostra a coleira negra que o prisioneiro trazia no pescoço.
– O que... O QUE É ISSO? – perguntou, num fio de voz.
– Isto, Escorpião, é o que impede Aquário de utilizar seu poder. Esta coleira feita com matéria-prima do Inferno, forjada por artífices de Hades, tem a capacidade de suprimir o cosmo. Do contrário, jamais teríamos conseguido capturá-lo. Agradeça à sua serviçal, que muito gentilmente, pôs esta maravilha no pescoço dele.
“Hélida! Aquela caixinha de presente... na certa, a coleira estava sob a forma de algo menor... que ela colocou nele...”, pensou, chocado. Viu que o namorado permanecia imóvel. Deveria estar inconsciente.
– Albiore – abaixou a voz, segurando o desespero – é a MIM que você quer. É de mim que quer se vngar. Eu entrego minha vida de bom grado a você. Reconheço meu erro e estou disposto a par por ele. Portanto... liberte Camus... LIBERTE CAMUS, JÁ!
– Eu já disse o porquê de ele, e não você, ou qualquer outro, estar aqui.
– Não... por favor... por favor!
O loiro deu um sorriso pérfido antes de dizer:
– Estamos chegando aonde eu queria...
Os olhos índigos abriram-se lentamente, fazendo Milo gritar:
– Camus!!!
Não houve reação do francês. Seu olhar vago não focou nele.
– Camus! CAMUS!!!
Por que não respondia?
Será que havia perdido os cinco sentidos, ou algo do tipo? Ele NÃO ouvia Milo...
– Zeros – chamou o homem de cabelos curtos. E apareceu uma criatura grotesca, humanóide, porém movendo-se tal qual um sapo. Ria ensandecidamente.
– É agora? É agora? Posso brincar, posso brincar com ele, Senhor Radamanthys?
– Sim, é agora. Mas lembre-se: não queremos matá-lo. E não o estrague muito. ELE TEM QUE DURAR.
As palavras proferidas pelo tal Radamanthys foram um punhal no coração de Milo. O que pretendiam?
Estava num pesadelo, não poderia ser real!
Não era de Camus que falavam, por Zeus, não!...
– Hahahahaha, se é assim, tudo bem, serei bonzinho! – comemorou o horrível ser – Eu estava cansado de esperar!
E aproximou-se do aquariano, acariciando-lhe o rosto. O sangue de Milo ferveu:
– NÃO TOQUE NELE!
– Hihihihihi, acho que nunca torturei alguém tão bonito! Desde que pus os olhos nesta beleza que quero fazê-lo GRITAR – comentou Zeros, considerando o rosto belo e confuso do prisioneiro.
– Quem... – começou o santo, mas não conseguiu continuar. Levou um tapa do espectro que antes o acariciava.
– CAMUS!!! – Milo gritou novamente.
– Eu só quero ouvir você GRITAR belezinha, não precisa dizer nada, hahahahahaha!!! – Zeros falou para Camus, posicionando-se atrás dele.
Submergindo num mar de pânico, o grego percebeu o que Zeros tinha nas mãos...
Um chicote.
– Vamos, grite pra mim, gracinha! – e desferiu nas costas nuas de Aquário a primeira chicotada.
– AAAAHH!!!
– NÃO!!! CAAAMUS!
– Hihehihehehihe! Só isso? Acho que tenho que dar com mais força! – zombou o espectro, dando um impulso maior. Deu-lhe outra sonora chicotada. Camus gritou novamente, cerrando os olhos com força. Veio a terceira, a quarta chicotada. Suas mãos crispavam nas algemas.
Milo correu na direção deles.
– MALDITO! EU VOU MATAR VOCÊ!!! – berrou, alucinado. Entretanto, ocorreu o mesmo que antes: por mais que corresse, era como se não saísse do lugar. Não se aproximava um centímetro sequer!
– AAAAAAHHHH!!! – enquanto isso, ainda ouvia e via o sofrimento do amante, que imobilizado pelos grilhões, balançava no ar.
– Isso! Hahahahahahahaha, isso mesmo! Grite! Grite bem alto pro seu namoradinho ouvir! Faça uma carinha de dor bem linda pra ele se divertir! É um lindo show! – bradava o infame carrasco, sem deixar de chicotear com toda força as costas do francês. Este arregalou os olhos, horrorizado com o que acabara de escutar.
“Milo... ele está me ouvindo? Está vendo ISTO?”
– M-Milo? – chamou, envolto em dores excruciantes.
– Camus!!! – respondeu o escorpiano, emocionado ao vê-lo dizer seu nome.
– Não adianta, Aquário – disse Albiore, fitando apenas o rosto de Milo – Teu amante não está aqui. No entanto, pode te ver e te ouvir. E tão somente isso. Você não pode fazer o mesmo. Achei que seria mais piedoso assim. Afinal, a sua sina já é deveras... considerável.
– HUUMMPF!! – desta vez, Camus comprimiu firmemente os lábios. Em meio a dor que sacudia seu corpo com as insistentes chicotadas, cerrou os dentes, decidido a não mais gritar. Se aquilo era verdade, só machucaria ainda mais seu amado.
“Não posso deixar Milo ouvir meus gritos de dor. Ele vai enlouquecer”, pensou, crispando mais as mãos. Retesou o corpo dolorido tanto quanto podia. Fechou os olhos, e não se ouviu mais nenhum som de sua boca. Zeros percebeu-lhe o silêncio e se enfureceu, imprimindo ainda mais vigor nos golpes.
– Desgraçado! Parou de gritar, é? Pois tome! Tome!!!
– Camus... – o grego caiu de joelhos, a visão já embaçada por suas abundantes lágrimas.
– Eu vou fazer você BERRAR, nem que tenha que te dar mil chicotadas!!!
– Oh, Athena... – incapaz, Milo apenas gemia. Albiore sequer piscava ante seu tormento.
– Tome isso! Tome isso!! Maldito, GRITE! GRITE!! EU QUERO OUVIIIR!!!
– Zeros! – Radamanthys ergueu a mão, detendo-o.
– O que foi? – irritou-se o monstrengo.
– Já chega. Ele já está inconsciente.
O Santo de Aquário estava inerte. Os longos cabelos voltaram a cobrir-lhe parcialmente o rosto.
– Ah, e daí? Garanto que com mais umas vinte chibatadas, ele acorda rapidinho…
– Lembre-se de que não é nosso objetivo matá-lo – ajuntou o Santo de Prata. Foi até o aquariano e, com as mãos, fez seu corpo girar, a fim de que Milo pudesse ver o resultado do suplício. – Temos que preservá-lo para MAIS SESSÕES.
A visão das costas ensanguentadas de Camus enlouqueceu Milo, ainda ajoelhado, tremendo convulsivamente. Inúmeros e profundos cortes abriam-se como bocas na delicada pele de seu amado. Rios de sangue fluíam das feridas, serpenteando pelas as pernas e pingando no chão cinzento.
– Albiore – balbuciou, o pranto ardente banhando seu rosto desfeito pela dor – venha me buscar. Você pode fazer isso comigo... vingue-se em mim... Camus... Camus... liberte ele... ele nunca te fez nada! Nunca fez nada contra você! Pode me torturar eternamente, mas... mas POR FAVOR... POR FAVOR, LIBERTE CAMUS!!!
Gritou tão desesperadamente que sentiu os pulmões queimarem. Albiore fitou-o, inexpressivo. Por fim, respondeu, agora no rosto um sorriso trocista, vitorioso.
– É ISSO que quero. Quero vê-lo sofrer a ponto de querer MORRER, Escorpião. Por mais que deseje continuar vendo sua descida ao inferno, a transmissão psíquica está para ser encerrada... percebe que o que tem diante de seus olhos começa a ficar desfocado?
– Não... não, espere...
– Nosso contato não pode ser feito por muito tempo. Mas não se preocupe. Em breve, ofereceremos a você um novo espetáculo...
E após uma luz quase cegá-lo, Milo viu-se de volta à sua casa. Ainda estava ajoelhado, sem a menor condição de se mover. Sentia-se como se tivesse sido apedrejado. Antes que seu peito pudesse explodir, ele liberou um brado tão dorido quanto os das almas que queimam nos rios de lava infernais:
– CAAAAAAAAAMUUUUUUS!!!!!
***********
Fale com o autor