Grilhões Eternais
16 Lágrimas cativas
Notas iniciais
— Milo? Milo!!! MILO!!!
As sacudidas insistentes de Afrodite, bem como seus gritos estridentes, conseguiram, por fim, arrancar o escorpiano de seu transe. Fora encontrado em sua sala de estar, de joelhos, tremendo muito, e com o olhar vítreo, fitando o nada. A perturbação de seu cosmo alertara o Santo de Peixes, que, sem avisar a ninguém, mantivera-se nos arredores do Templo de Escorpião, a fim de oferecer pronta assistência caso fosse necessário. Algo em seu íntimo assim o instruíra a fazer.
— A... Afrodite?
— Sou eu! O que aconteceu? Zeus, você parecia enfeitiçado! Estou há um tempão te chamando!
– Afrodite... Afrodite... – balbuciou, debilmente – ... eu sei... sei o que aconteceu com o Camus...
– Sabe? Recebeu algum contato dos calhordas que o raptaram? – perguntou Peixes, ansioso.
Os lábios de Milo tremiam; sua respiração era falha. Parecia ter dificuldade em falar.
– Fala, Milo! Tá me assustando!!
O pisciano amparou-o e o ergueu do chão, fazendo-o sentar no sofá vermelho. O amigo parecia estar em estado de choque. Afrodite correu até a cozinha e voltou trazendo um copo de água. Após beber o líquido, que por várias vezes quase caiu de suas mãos, Milo conseguiu dizer, com voz entrecortada:
– Afrodite!... Camus... Camus está... ESTÁ SENDO TORTURADO... e a culpa é toda MINHA!
E rompeu em doloroso pranto. Chocado, Afrodite questionou:
— O QUÊ?! Milo, como ficou sabendo disso? Eles te contaram? Como falou com eles? Tenha calma, pode ser um blefe!
– EU VI!!!
– Você VIU? Que quer dizer, viu COMO?
Tremendo muito, a mão estendida do Santo da Oitava Casa apontou para a bola de cristal negro em cima da mesa.
– A-aquilo... aquilo...
– Calma, Milo! Respira... vou buscar mais água, e então você me conta tudo!
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Albiore caminhou até o prisioneiro suspenso por algemas e correntes. Ainda inconsciente. O espectro fora excessivo... franziu um pouco o cenho ao estudar as costas do Santo de Athena. Aquele açoite de metal fizera mesmo um estrago considerável ali.
– Criaturinha bárbara... – murmurou, insatisfeito. E virou-se para Radamanthys, o único que permanecera naquela masmorra com ele – limpe os ferimentos de Aquário.
– Por que não manda que Zeros faça isso? – o Juiz ergueu a espessa sobrancelha, estupefato com tal ordem.
– Ele é claramente um sadista. Vai se aproveitar do momento e judiar do Cavaleiro. Eu não tenho interesse no sofrimento gratuito deste homem. Se Milo não está presenciando, não há por que machucá-lo. De mais a mais – e passou os dedos num ponto, aparando o sangue vivo e abundante – se não tratar isso, as feridas podem infeccionar. Quero ele perfeito para as próximas sessões.
– Eu compreendo. – concordou Radamanthys, pedindo a um carcereiro que trouxesse material para os curativos.
– Vou me retirar para os meus aposentos. Depois pode tirá-lo daí e acorrentá-lo à parede da cela dele.
– Perfeitamente – assentiu, simulando neutralidade.
Assim que lhe foi entregue o que pedira, ele se pôs a cumprir seu papel. De pé, com as costas terrivelmente açoitadas do jovem à sua frente, embebeu com antisséptico um grande pedaço de gaze.
“Eu, um dos Três Juízes do Inferno, limpando feridas de um reles humano, e pior ainda, um Santo de Athena! Hunf... mas não posso refutar as ordens de um protegido do Lorde Hades, do homem que...”
Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de uma puxada de ar, como um suspiro profundo. Bem no momento em que ele começara a pressionar a gaze numa das chagas.
A horrível dor acordara o supliciado, que tentava com todas as forças não emitir nenhum ruído. Respirava rapidamente, bufava, e podia-se sentir seu corpo retesando-se em agonia. Sossegou um momento. Ao sentir premir a gaze em outra ferida, espasmos o sacudiram novamente, mas logo ele se controlou.
Radamanthys quis ver-lhe o rosto: o Santo mordia os lábios a ponto de feri-los, e fechava os olhos com força, mantendo a cabeça estrategicamente baixa. O Juiz apertou mais firmemente outra gaze, e ao esfregá-la, pôde distinguir um gemido entredentes.
– Seu amante não pode mais nos ver nem ouvir. Não precisa mais se segurar assim – comentou Radamanthys, num tom inexpressivo.
Isso aliviou grandemente Camus, que, ainda assim, tentava reprimir seus gemidos de dor. Prosseguiu em seu esforço, provocando um meio sorriso no espectro.
– Faça como quiser – falou o loiro, continuando seu trabalho. Se fosse Zeros, estaria fazendo com a maior rispidez possível, de propósito, só para fazer o prisioneiro sofrer mais. Radamanthys, porém, era frio e indiferente de tal forma a tudo que não se importava nem em amenizar nem em intensificar o sofrimento de outrem.
– NNNNNNG!!! – grunhiu o francês, que num reflexo de dor, jogou a cabeça para trás. Os longos cabelos atrapalharam Radamanthys, que teve que tirá-los dali para continuar o que fazia. Juntou-os em suas mãos. Não deixou de perceber como eram sedosos, macios ao toque. Curioso, um guerreiro com cabelos de princesa. Vergonhoso, na verdade! Pôs aquelas mechas azuis-petróleo para a frente do corpo de Camus, e mirou-o com desdém.
– Não jogue mais esses cabelos para trás, isso atrapalha.
Por ele, raspava aquela cabeleira toda, isso sim.
– Por que... não me... não me matam de uma vez? – perguntou o aquariano, em voz baixa.
– Hunf. Você ouviu o Cavaleiro de Prata. O açoite de Zeros te fez esquecer?
– Não deixem mais... Milo ver... podem fazer o que quiserem comigo... mas não deixem mais ele ver...
– ELE VER é a parte principal do “show”. Por que acha que estou aqui me rebaixando em limpar seus ferimentos?
E para completar, dirigiu ao outro um olhar sarcástico:
– Para você DURAR mais... assim como o “show” de Albiore.
Camus sufocou um gemido de dor. Fechou os olhos com força. Aquilo era quase tão ruim quanto ser açoitado.
– Vocês, Santos de Athena, sempre orgulhosos de sua função de arautos do “equilíbrio mundial”... se arvoram defensores da paz e da justiça, e agora veja sua situação: a “justiça” de um deles te colocou aqui – alfinetou Radamanthys, só para se distrair.
– Milo cumpria ordens... ele foi excessivo, talvez, mas... acreditava que o Papa era a justiça...
– Vejo que mesmo depois de tudo, não o odeia.
– Eu NUNCA vou odiar Milo – declarou Camus, com uma firmeza que surpreendeu Radamanthys. Até então ainda não demonstrara aquela tenacidade, tampouco a ira gélida nos olhos índigos. O Juiz encarou-o por uns segundos e riu:
—Vamos ver se continuará a dizer isso depois das próximas “sessões”...
— Vocês podem esmigalhar meus ossos, pulverizar minha alma... eu NUNCA odiarei o Milo.
— Você apenas passou pela primeira – retrucou calmamente o espectro, retirando-o das correntes – deve imaginar que a tendência é que fiquem mais severas daqui por diante.
— ....
O loiro segurou o cativo, percebendo que não poderia levá-lo no colo, senão estragaria tudo que fizera.
— Vai ter que andar. Consegue?
Camus não respondeu. Pôs-se a caminhar atrás do Juiz, que o conduziu à sua cela. Este fechou novamente em seus pés e mãos as grossas algemas, ligadas a correntes presas à parede de rocha. Reparou que o prisioneiro não aparentava o menor temor, pelo menos não em relação a si mesmo. A única coisa com a qual parecia se preocupar realmente era o fato do namorado assistir às torturas. Não pôde deixar de se impressionar com isso. E dando-lhe as costas, saiu da escura e úmida câmara.
O carcereiro fechou a pesada porta de madeira maciça, que continha apenas uma pequena abertura gradeada. Fez uma mesura diante de Radamanthys, que tomou seu caminho.
— Nunca pensei que fosse viver para saber de um Juiz do Inferno limpando ferimentos de um prisioneiro – declarou de forma jocosa alguém que vinha atrás dele pelo corredor estreito. Virou-se, muito tranquilo, como a demonstrar que aquele comentário não o atingira nem um pouco.
— Valentine...
Um espectro muito pálido, de cabelos espetados rosados, com algumas mechas mais compridas atrás, sem trajar armadura, e sim uma túnica roxa e uma calça preta, aproximou-se dele, a irritação visível em seus olhos violetas.
— Como pôde aceitar isso, Radamanthys? É um acinte! Esse Albiore tem que ser colocado em seu lugar! Te dando ordens como se fosse um mero lacaio!...
— Você sabe quem ele é, e quais foram as ordens de nosso Senhor Hades. Não é prudente desobedecer o Cavaleiro de Prata – respondeu o loiro, de maneira indiferente.
— Ainda acho isso uma afronta sem tamanho – insistiu o outro. Encarou o Juiz com um olhar desconfiado e tornou-o para a cela que ficava longe à medida que se afastavam. Disse, mais controlado:
— É bem bonito o desgraçado, não?
— Você achou? Não reparei.
— Como não reparou? Você estava tocando nele, pegando naqueles ridículos cabelos de mulher... não é possível que não tenha reparado.
— Estava tão desocupado assim que ficou me espionando? – indagou Radamanthys, subindo os degraus de pedra da escada que levaria para fora das masmorras.
Valentine mordeu o lábio inferior, ultrajado.
— Ele é bem bonito. Acho que é a pessoa mais bonita que eu já vi – murmurou.
— Você também é bonito, Valentine, não entendo seu desconforto. Ao contrário de você, não fico reparando em vermes prisioneiros, quanto mais patéticos Santos de Athena. Ele é menos que uma coisa, é apenas um instrumento de vingança do protegido de nosso Senhor.
Ao alcançarem o primeiro pavimento do castelo, Valentine adiantou-se e posicionou-se diante do inglês. Este foi obrigado a parar diante do obstáculo.
— O que é? – indagou, na verdade desinteressado.
Teve a boca subitamente invadida pela boca do menor. Correspondeu ao beijo, inicialmente de forma mecânica, mas em seguida imprimiu mais ardor ao contato. Separou-se e sentenciou, com voz macia:
–Venha para o meu quarto. Vou tirar esse incômodo sem sentido de você.
*****
Finalmente a sós com a solidão e sua dor, Camus contemplou o vazio, sentindo-se preenchido por ele. Tentava entender como sua nova e promissora vida havia sido interrompida por circunstâncias tão absurdas que não pareciam ser reais. Perguntou-se se não estava em sua cama, à noite, sonhando... ou melhor, tendo um pesadelo... e se a qualquer momento, não seria acordado por um Milo preocupado com seu semblante atormentado durante o sono. E então seria aninhado no peito do grego, seus cabelos seriam gentilmente acariciados, e ele ouviria bem baixinho “shhhh... foi apenas um sonho... está tudo bem... meu amor...”
Inconscientemente cruzou os braços, abraçando a si mesmo, tentando reter aquelas imagens. O frio do metal o fez olhar para seus pulsos... para as grossas algemas... mexeu as mãos para ouvir tilintar as correntes, e comprovar se aquela era a realidade.
Sim, era.
– Milo... – chamou, como a tentar materializar a presença do amado mediante a pronúncia de seu nome. Nome doce e suave como a fruta que representava. Pensou mais uma vez que fora abruptamente separado de seu impulsivo escorpiano, bem quando ele se preparava para dizer que o amava.
Amaldiçoou seu retraimento, seu exagerado senso de honra, seu orgulho, seus bloqueios. Ele iria morrer em alguns dias... talvez antes... o que garantia que, de fato, resistiria a doze dias de torturas? E que, de acordo com o que dissera o tal Radamanthys, tendiam a ficar ainda mais brutais do que a que acabara de sofrer?
Ele iria morrer... e Milo jamais ouviria a frase há tanto desejada...
Isso dilacerava seu coração mais do que a expectativa dos sofrimentos pelos quais iria passar.
Não que não ficasse tenso ao pensar neles, claro. Porém, partir, e deixar aquilo não resolvido... ah, como se culpava agora...
Malgrado tivesse prometido a si mesmo não chorar, sentia as pálpebras pesadas, a visão nublar-se pouco a pouco... Camus recostou a cabeça na parede gelada. Sim, agora ele sentia frio. Por fora, por dentro, no corpo e na alma.
– Eu te amo, Milo... – pronunciou, em meio à solidão e à escuridão que o acolhiam, e que foram as únicas testemunhas da fuga das silenciosas lágrimas que ele não mais conseguiu manter cativas.
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