Grilhões Eternais
17 As correntes da vingança
Notas iniciais
– Milo, como pode ter certeza de que o que você viu não foi uma ilusão? Isso pode ter sido provocado pela bola de cristal, pode não ser necessariamente realidade – perguntou Afrodite, querendo muito acreditar no próprio raciocínio.
– Não, não foi uma ilusão – ele balançou energicamente a cabeça – eu VI, vi diante de mim! Minha consciência foi transportada para onde Camus está preso! Puseram uma espécie de coleira no pescoço dele que está impedindo-o de usar o cosmo... por isso Athena não pôde localizá-lo... e... e por isso ele não pode reagir!...
Pôs a mão no rosto, como para tentar se controlar... tinha que explicar tudo...
– E... e não deu pra saber onde é? – o sueco começou a acreditar MESMO naquilo. Afinal, explicava por que Saori não encontrou o cosmo do aquariano, apenas o sentiu existente.
– Não. Só vi o interior de onde ele está... é absurdo, mas parecia... sei lá, uma masmorra, paredes de pedra, chão de pedra, meio escuro... e vi os homens que estavam com o maldito do Albiore...
– Você viu?
–Havia um homem assustador, enorme, com sobrancelhas juntas, loiro… usava uma armadura negra horrenda, com asas e garras, Zeus… uma coisa infernal. E havia um outro, o que açoitou Camus... um monstro, só que pequeno, curvado... também usava armadura negra...
O pisciano sentiu correr um arrepio ao ouvir tais descrições. Coçou o queixo.
– Armaduras negras... melhor irmos falar com Athena – sugeriu.
– Mas tenho que falar com a Deusa a sós. Aqueles cavaleiros de bronze estão sempre grudados nela.
– E qual é o problema? Vai me dizer que ainda os menospreza por serem Santos de Bronze?
– Não é isso – o escorpiano pressionou a fronte com os dedos – Hyoga... Hyoga não pode ficar sabendo disso.
– Por quê?! Milo, TODOS têm que saber! Todos têm que ajudar!
– Não quero que Hyoga saiba. Vai ser muito duro pra ele. E pro namorado dele. Imagine como vai ficar o moleque quando souber que é o mestre dele quem está fazendo essa... essa atrocidade!
Afrodite pôs as mãos na cintura, erguendo a voz:
– Isso não tem a menor importância! Você, de todas as pessoas, deveria estar preocupado em reunir o maior número possível de aliados para salvarmos o Camus!!!
– No que eles podem ajudar? – gritou o grego, perdendo o controle – NEM MESMO A DEUSA sabe onde ele está!!
– NÓS VAMOS DESCOBRIR! – agarrou os ombros do amigo, contendo-o – Não perca a calma. Sei que é difícil. Mas se perdermos a calma, vamos perder Camus também!
Milo mordeu o lábio inferior e cerrou os punhos. Lutando por adquirir novamente seu autodomínio, disse ao amigo, abaixando o tom:
– Vamos pedir uma audiência com Athena. Eu vou salvá-lo, Afrodite, nem que tenha que morrer.
– E você não está sozinho nesta. Vamos.
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Passaram-se apenas algumas horas quando Camus foi arrancado de sua letargia pela assustadora visão da porta se abrindo. Um pavor frio percorreu seu corpo magoado, ainda que ele tivesse sido bem sucedido em ocultá-lo.
Albiore surgiu à sua frente, contra a luz do corredor. Trajava sua armadura, sombria como seus intentos.
– Está preparado, Aquário? Desta vez, serei eu em pessoa a dirigir o espetáculo que Escorpião vai apreciar a seguir... será inesquecível.
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( MILO POV )
Afrodite e eu nos dirigimos ao Salão da Deusa, que fica atrás do Salão do Patriarca, meses atrás ocupado por Saga de Gêmeos. Eu ainda me sentia dividido em relação a Saga, até acontecer essa desgraça com Camus. Se ele estava naquela situação, devia-se ao embuste do qual a maior parte de nós foi vítima. Digo “a maior parte” porque alguns claramente sabiam da verdade; outros apenas desconfiavam de que o homem por trás daquela máscara não fosse o Papa Shion. Vejo agora como fomos cegos em nossa sanha por meramente obedecer: Shion jamais teria cometido vários dos atos que permearam o Santuário nos últimos anos.
Como ter me incumbido de tal missão. A missão que causou todo este pesadelo.
Contudo, culpar Saga não me levaria a nada, visto o excesso que cometi ter partido de MINHA fúria em campo de batalha. Não quero minimizar o que fiz, porém se havia uma ordem do representante de Athena na Terra a ser cumprida, eu não mediria esforços, tampouco teria piedade. Traidores do Patriarca eram traidores da Deusa, e uma vez instituído isso, mereciam a morte.
Ainda assim, NÃO matei a mulher de Albiore de propósito. Claro que ele nunca acreditaria, e estava certo em afirmar que isso não mudava o fato de que sua amada e seu filho não mais pertenciam a este mundo.
Mas isso também NÃO lhe dá o direito de fazer a injustiça que está fazendo.
O Salão do Papa estava vazio. Diziam que uma das atribuições de Saori Kido seria selecionar seu próximo representante. Comentava-se que Mu era uma das possibilidades mais certeiras, bem como Shaka. Creio que qualquer um dos dois seria um excelente Grande Mestre. Ambos são poderosos, sábios, cautelosos e humanos. Perfil crucial para apaziguar o estranho clima deixado no posto pelo ensandecido Saga.
Curiosamente, Saga era o atual conselheiro de Athena, e ficava mais nas imediações do Templo da Deusa do que no Templo de Gêmeos. Eu temia que isso ocasionasse uma predileção de Saori por ele na hora de designar o novo Papa.
Entretanto, no momento, eu tinha assuntos muito mais urgentes com que me preocupar.
Camus.
Por vezes, até para manter minha cabeça no lugar, tentava pensar que tudo que eu vira não passara de uma ilusão. Algum tipo de truque escuso enviado por algum cosmo maligno através daquela bola de cristal negro. Entretanto após ouvir a Deusa perguntar, após eu contar toda a história:
– Milo, você tem certeza de que não foi uma ilusão lançada pelo inimigo?
Minha resposta foi imediata e categórica:
– Sim. Não foi uma ilusão.
– Mas como você pode ter certeza?
– Eu só posso tê-la, Senhora. “Como”, não sei.
– Athena, eu questionei o mesmo – ajuntou Afrodite – Entretanto, temos que ter em vista que uma pessoa foi brutalmente assassinada no Oitavo Templo, Camus foi raptado e seu cosmo não pode ser localizado nem mesmo pela Senhora. Tudo combina com o que Milo viu e nos contou.
– É só que é incrível que um Cavaleiro de Prata outrora tão leal, a ponto de não se subjugar aos desmandos de Saga, esteja no comando de algo tão cruel – explicou-se a jovem.
Nós três estávamos a sós diante do Trono da Deusa. Saori tivera o cuidado de despachar os jovens Santos de Bronze, a pedido meu. E depois do que ouvira, concordou que fora o melhor a se fazer. Hyoga estaria enlouquecido ouvindo isso, e Seiya estaria saltando como uma pulga, eufórico por ajudar a procurar o mestre de seu amigo.
– Sim, isso tudo explica por que não consigo encontrar o cosmo de Mestre Camus. Eu saberia onde ele está! Milo... enquanto ele estiver com essa coleira, não serei capaz de encontrá-lo – desabafou Saori, sem disfarçar um certo constrangimento. Não. Apesar de ser uma divindade, não era onipotente. Como nenhum dos deuses do Olimpo, aliás. Caminhou até uma ampla varanda, de onde se tinha uma vista espetacular da Terra Santa.
– Mas não vamos desistir de Mestre Camus, isso eu prometo! Vou reforçar minhas ordens junto à Fundação Graad. Que procurem no mundo inteiro.
Mordo os lábios. Para segurar minha língua.
Não sei como farão isso. EU mesmo preferia procurá-lo, viraria este planeta de cabeça para baixo até achá-lo!!!
Ela me encara com seus imensos e brilhantes olhos escuros, cheios de genuína piedade, certamente adivinhando o que penso. Estranho...
Estranho.
A imagem da senhorita Kido vai ficando desfocada. Olho para Afrodite, e percebo que o mesmo está acontecendo com ele. Vejo seus lábios se movendo, mas não ouço som algum. Serei eu? Aperto meus olhos, um tanto aflito.
–Athena? – tento focar na garota, mas as imagens… tudo diante de mim… a Deusa, Peixes, o Trono, o Salão, as colunas gregas, o teto de ouro, tudo se funde num negror quase palpável.
Estou desmaiando?
Então do breu surge uma luz. E dentro da luz uma imagem... uma cena... no centro de uma grande câmara de chão e paredes de pedra, tão abjeta quanto antiga...
– Camus!...
Camus está de pé. Não está acorrentado. A roupa que usa não é sua. Apenas uma calça de couro preta e botas pretas que nunca vi. Ele parece abatido, e olha através de mim.
Você... você não me vê mesmo, não é, meu amor?
( FIM DO POV DE MILO )
– Milo?! – Athena e Afrodite veem, com preocupação, o escorpiano paralisar, com o olhar fixo em ponto algum, diante deles. Como num transe, ficou imóvel fitando o nada.
– Milo, o que você tem? – pergunta o pisciano, sacudindo o amigo.
– Afrodite! Veja os olhos dele!!!
– Por Zeus!
Aterrados, percebem que o azul dos mares da Grécia havia sido substituído por um negrume vítreo e nefasto. Seus olhos estavam completamente negros, tanto a íris como as córneas, negros como...
– ... a bola de cristal negro... – balbuciou a Deusa.
– Camus!... – ouviram-no dizer.
– Milo! Você está vendo ele agora? – indagou ela, aflita.
– Está vendo ele? O que está acontecendo, Milo? – quis saber Afrodite, ainda segurando-o pelos braços.
– CAMUS!!! – e o escorpiano gritou, como se os dois não estivessem ali. Fez menção de avançar, e Peixes o segurou com mais firmeza.
– Calma, Milo, o que tá acontecendo???
– O QUE VAI FAZER?!?
– Milo, por Zeus, fala pra gente o que tá...
– NÃÃÃO!!! – Milo gritou de novo, parecendo desesperado. Desta vez o sueco teve que usar de força para conter o outro.
– Athena!... ele deve estar vendo Camus ser...
A jovem pôs a mão na boca, consternada. O rosto de seu Cavaleiro contorcia-se em agonia e fúria.
– NÃÃÃO!!! NÃO FAÇA ISSO! PARE!!! CAAAMUS!!!
– Milo... – murmurou Saori, sua voz embargada. Afrodite segurava-o com dificuldade, pois o controle parecia completamente perdido então.
– CAAAMUS! NÃÃÃO!!! – e enquanto berrava, tentava se desvencilhar dos braços do sueco. Teria conseguido se Shaka não tivesse aparecido e unido forças com Afrodite.
– MILO! O que está acontecendo com você? – indagou o virginiano.
A Deusa apertava as mãos, apavorada. Viu lágrimas se formarem nos olhos enegrecidos e rolarem abundantes pelo rosto transtornado. Ergueu a mão e em um segundo, seus dedos finos e alvos envolviam a haste dourada. “Milo...”
Afrodite e Shaka estavam tendo dificuldades para conter Milo sem machucá-lo: ele se debatia freneticamente, tomado pela ira e desespero provocados por alguma cena terrível que presenciava.
– EU VOU MATAR VOCÊ! MALDITO!!! EU VOU MATAR VOCÊ, SEU FILHO DE UMA PUTA! VOU ENCONTRAR VOCÊ ONDE QUER QUE ESTEJA! – vociferava, tal qual uma fera insana.
– MILO!!! – gritou Hyoga correndo pelo salão e ajuntando-se aos dois santos de Ouro. Seiya e Shun vieram logo atrás, o pavor estampado nas faces juvenis.
– MALDITO!!! EU VOU...
O báculo de Athena inclinou-se na direção do grego. Emanou uma forte luz dourada, e ele imediatamente perdeu os sentidos, sendo amparado pelos dois guerreiros que o seguravam.
– Athena?!
–Ele não sentiu dor. Apenas o fiz perder a consciência por um tempo. Eu não aguentava mais vê-lo assim... e vocês poderiam se ferir... assim como ele... – a Deusa tinha lágrimas nos olhos. Esforçava-se para não deixá-las cair. Afrodite se abaixou para acolher o corpo de Milo, apoiando a cabeça deste em seu peito. O semblante angustiado do Santo desacordado denotava que, malgrado sua medida, ele AINDA via o que estava acontecendo com o aquariano. Olhou para os Cavaleiros de Bronze, sinceramente desgostosa.
– Eu MANDEI que não viessem aqui. Não pensei que precisasse botar guardas para garantir que vocês me obedecessem – declarou com voz dura – e digo o mesmo para você, Shaka de Virgem.
– Perdoe-me, Athena, mas viu que nem mesmo Peixes conseguiria contê-lo, sozinho.
– Nós ouvimos os gritos de Milo, Saori – explicou-se Seiya – e... não pudemos segurar o Hyoga...
O russo ajoelhou-se diante do escorpiano. Debatia-se de leve, como presa de um sonho ruim do qual não se consegue despertar.
– Milo... Ele... ele está sofrendo, Saori! O que está acontecendo?
–Athena – disse Afrodite, muito sério – ao contrário do que Milo decidiu, não acho que devemos manter segredo de nossos companheiros.
– Segredo? – estranhou Shun.
O loiro impacientou-se logo:
– Segredo de quê? Do que está falando?
Após um tenso silêncio durante o qual pareceu refletir sobre o que fazer, a Deusa anunciou, com imensa tristeza estampada no belo rosto:
– Camus está sendo torturado por seu raptor. E apenas Milo pode ver isso.
A vida pareceu escapar dos olhos cerúleos de Hyoga. Seu rosto, subitamente pálido, balançou lentamente em uma negação.
– O quê?...não... não pode ser... torturado? O meu mestre? Onde?!
Saori virou-se para o pisciano.
– Afrodite, leve Milo para os aposentos do Grande Mestre. Estão desocupados mesmo. Ordene que guardas vigiem as portas – e dirigindo-se a Virgem – Por favor, convoque todos os Cavaleiros de Ouro. Explicarei tudo que está acontecendo.
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( MINUTOS ANTES )
– CAMUS!!!
– Bem vindo, Milo. Preparado para o novo espetáculo? – Albiore entrou no centro de seu campo de visão, paramentado como Cavaleiro de Cefeu.
Ainda assim, o grego buscava a imagem do amado, que permanecia imóvel, e alheio à sua “presença”. O Cavaleiro de Prata caminhou até a frente do prisioneiro.
– Como você vê, seu namorado está preparado... – e, a uma certa distância do aquariano, ergueu os braços, como que fazendo as correntes ganharem vida.
– O QUE VAI FAZER?!?
Albiore afastou-se mais. E num segundo, as correntes ergueram-se de seus braços, misteriosamente multiplicando-se no trajeto até o Santo de Ouro. Com velocidade assustadora, enlaçaram os membros e o tórax do aquariano, imobilizando-o completamente.
O Cavaleiro de Prata puxou as correntes com força, fazendo Camus fechar os olhos numa expressão de dor. O movimento intensificou-se.
– NÃÃÃO!!! – gritou Milo, correndo até eles. Como das primeiras vezes, ainda assim não se aproximava um centímetro sequer. Via o enlace apertando o corpo do amante cada vez mais e mais.
– NNNGG... – Camus cerrava os dentes para não gemer alto. Se estava sendo torturado, era porque Milo o observava, e como antes, ele se esforçaria por não vocalizar seu sofrimento.
Que já era bem considerável. Aquelas correntes pareciam afundar na carne como lâminas, ainda que não abrissem feridas.
Cravando seu olhar malicioso em Milo, Albiore sorria, satisfeito.
– Está monótono, Escorpião? Você nem está gritando tanto... – fez as correntes apertarem mais violentamente o francês – nem está chorando...
– NGHH!!
Parecia que as malditas correntes iriam parti-lo em pedaços!
– Já sei... não é o bastante, hã? – ironizou Albiore, num tom insuportavelmente trocista – Pois bem... você já deve ter ouvido falar das Correntes de Andrômeda, não? Deve saber que HÁ OUTRAS COISAS que elas podem fazer...
E riu, sadicamente. Milo entregou-se totalmente ao desespero, erguendo inutilmente o braço no ar.
– NÃO FAÇA ISSO!!!
Albiore virou-se para o homem acorrentado, ergueu mais os braços e desferiu seu golpe:
– RELÂMPAGO DE CEFEU!!!
Brilhantes feixes de luz percorreram as correntes, desde suas mãos até o Cavaleiro de Aquário. Este foi envolvido por uma violenta corrente elétrica, que sacudiu seu corpo para trás.
– Nnnng... AAAAHHHH!! – agora não tinha como Camus não gritar, a eletricidade que corria pelo seu corpo era mais do que o que seu autocontrole poderia administrar. As ondas de energia distribuíam-se pelas correntes que o apertavam.
– PARE!!! CAAAMUS!
Camus queria não gritar. QUERIA MESMO! Contudo...
– AAAHHHNN!!!
– CAAAMUS! NÃÃÃO! – o escorpiano vertia grossas lágrimas pelo rosto convulso pela exasperação.
– Ora, só agora que chorou? Demorou muito, Escorpião. Talvez eu deva aumentar a... intensidade da atração.
– EU VOU MATAR VOCÊ! MALDITO!!!
Albiore ergueu mais a mão, de fato intensificando a corrente elétrica a um nível quase insuportável. Camus debateu-se ainda mais, seu grito varando a alma do escorpiano:
– AAAAAAAAAAHHH!!!
– Não se preocupe, Milo, não será com isso que ele vai morrer. Muito mais aguarda seu grande amor, muito mais... – provocou o Santo de Prata.
Camus agora não parava de gritar. Seria muito melhor MORRER do que ver AQUILO!
– EU VOU MATAR VOCÊ, SEU FILHO DE UMA PUTA! VOU ENCONTRAR VOCÊ ONDE QUER QUE ESTEJA! – berrou Milo, enlouquecido, ainda correndo rumo à cena, sem que nada adiantasse.
– Eu duvido muito, meu caro...
– MALDITO! EU VOU...
E de repente, tudo escureceu.
Fez-se silêncio.
Fora arrebatado da câmara, ou melhor, sua consciência fora arrebatada daquele odioso lugar.
Tampouco viu-se em casa.
Permanecia nas trevas. Planava no ar como uma partícula insignificante.
Exatamente como ele se sentia.
“Camus...”, pensou, sentindo o gosto salobro de seu pranto, antes de ser tragado pela inconsciência absoluta e silenciosa.
*************
–O elo foi rompido – constatou Albiore, fazendo cessar a eletricidade. E imediatamente recolheu suas correntes. Camus caiu, semi-desfalecido. Alguns espasmos ainda faziam-no contorcer-se um pouco, mas ele continuava consciente. Julgou que isso não duraria muito.
O Cavaleiro de Prata aproximou-se dele, que permanecia de bruços, lutando contra a dor residual. Abaixou-se; ergueu seu rosto com os dedos, contemplando a bela face alquebrada. Os olhos semicerrados comprovavam a batalha que travava contra a inconsciência. Albiore ficou um tempo em silêncio, sem estampar expressão alguma. Deixando-o, ergueu-se, e virou-se para os poucos espectros ali presentes:
– Quando ele estiver restabelecido, que alguém vá lhe dar de comer e beber. Está há mais de 24 horas em jejum – ordenou, impassível – e agora levem-no de volta para a cela.
O aquariano recebeu novas algemas em seus pulsos. Foi erguido pelo braço por um guarda. Parecia não possuir mais força alguma, e seus músculos se contraíam de quando em quando sob efeito da eletrocução. Vacilou, e teve que ser praticamente carregado, por fim.
Radamanthys observou aquilo e comentou, distraidamente:
– Não é à toa que você tem a fama de ser um Santo de Prata em pé de igualdade com os Santos de Ouro, Albiore. É uma técnica respeitável.
– Não sou tolo a ponto de achar que conseguiria o mesmo se Aquário não estivesse usando a coleira supressora de cosmo – correu a mão pelos cabelos loiros – Na verdade... sinto-me um pouco mal por isto. No entanto, não é minha honra de Cavaleiro que está em jogo aqui.
– Até porque isso você não possui mais – atalhou o Juiz, erguendo um lado da farta sobrancelha.
Recebeu um olhar duro do outro; no entanto, não lhe deu qualquer importância. Obedecia-o por ser ele protegido de Lorde Hades. Não lhe tinha realmente nenhum temor.
Nenhum.
Respeito não é temor. Os humanos é que confundem, por vezes...
*************
Cerca de três horas se passaram quando a porta da cela de Camus se abriu. Ele sequer se deu ao trabalho de olhar. Não havia mais nada por que ansiar. Um estado quase catatônico apoderou-se do jovem Santo. Pareceu ouvir a voz zombeteira de muito longe.
– Não precisa pular de felicidade, beleza, Lorde Zeros está aqui com o seu jantarzinho!
O aquariano moveu os olhos apenas na linha dos pés da asquerosa figura. Esta abaixou-se para ficar ao mesmo nível dos olhos do Cavaleiro. Que ainda assim não se encontraram, devido à recusa do francês.
– Hum. Vejo que está acordado, Príncipe do Gelo, hehehe, quer segurar sua tigela ou prefere que te dê na boquinha, hã? – e deu uma risada histriônica.
Não recebeu resposta, tampouco qualquer reação do prisioneiro.
– Ei, será que Albiore torrou seu cérebro, gracinha? Bom, tanto faz, contanto que ainda tenha esse corpo delicioso... – e correu a mão verruguenta pela coxa rija do cativo, almejando um ponto mais acima. Um raio de ira e autopreservação cintilou nas íris de profundo índigo: malgrado a restrição das correntes, conseguiu jogar o “sapo” para longe, com um potente chute na cara disforme.
O espectro ergueu-se furioso, segurando o nariz ensanguentado.
– Seu maldito!!! – gritou – É assim que trata quem veio te ajudar? Te alimentar? Pois tome!!! – e tomando da bandeja, virou a água e a refeição sobre Camus. A comida, uma espécie de sopa aguada com pedaços de algo desconhecido, felizmente estava fria. Escorreu pela cabeça, pela testa, fazendo-o cerrar as pálpebras, incomodado. Envergou para a frente por causa do violento soco que recebeu em seu abdômen.
– Desgraçado! Seu verme! Eu vou te ensinar... – e deu outro soco ali, que fez o aquariano expelir um pouco de saliva.
– ZEROS!!! – O chamado imperioso de Radamanthys ressoou como um trovão no recinto. Não trajava armadura, e sim calça e uma blusa de gola alta pretas.
O subordinado prontamente interrompeu a agressão, aparentando grande perturbação pela chegada do superior.
– O que PENSA que está fazendo? Não lembra das ordens que recebemos? Esse homem acabou de ser torturado. Se continuar com isso, VOCÊ vai interferir nos planos de Albiore por matá-lo antes da hora – disse, ríspido.
– Não vou matá-lo não, senhor Radamanthys, não, não! Eu só estava castigando ele um pouquinho – Zeros gesticulava, muito nervoso, um sorriso patético na boca deformada – esse infeliz me deu um chute, está vendo?
E mostrou o sangue que vertia do nariz e dos lábios.
– NA CARA, TÁ? E isso porque fui dar a refeição pra...
– Saia daqui antes que eu esmague sua cabeça, Zeros – disse, friamente. Ante a expressão estupefata do monstrengo, deu-se ao trabalho de explicar:
– Sabe da ligação de Albiore com Lorde Hades. Comprometemo-nos a cumprir suas ordens. O prisioneiro deve ser preservado quando não estiver sendo visto pelo macho dele – e lançou ao Santo uma mirada de lado bem desdenhosa.
— Mas...Senhor Radaman...
— Já que quer assim, prepare-se...
— NÃO, NÃO, eu tô saindo, eu tô saindo!!! – e o grotesco ser apressou-se em sair dali, quase tropeçando em seu estranho coaxar. Nunca que enfrentaria o Juiz. Sabia que um sopro dele, e sua carne seria separada dos ossos.
— Hunf... – considerou o prisioneiro. Em estado lamentável – Guarda. Traga uma toalha e uma bacia com água limpa. E outra refeição.
Em dois minutos, foi atendido. Alimentaria o Santo, fazer o quê... nem isso o imprestável “sapo” fora capaz de fazer sem bagunçar tudo. Antes, porém...
Abaixou-se e molhou o pano na água. O cabelo seria um problema com o qual ele não se meteria, mas pelo menos a pele dava para limpar um pouco. Era melhor não deixar indícios de maiores abusos. Albiore poderia reportar a Hades que não estava sendo atendido conforme combinado. Começou a esfregar a fronte, sob um breve murmúrio de desagrado do aquariano. Ignorou solenemente, esfregando em seguida o rosto e os ombros. Lavou o pano, torceu e voltou a tirar aquela melecada.
— Você é algum tipo de masoquista? – o loiro indagou, neutro – acabou de ser duramente torturado por Albiore e provoca o Zeros, de quem já conhece o prazer em infligir dor.
Um sorriso irônico chamou sua atenção.
— Ele tem prazer infligir dor? Fala como se ele fosse o único aqui com tal particularidade.
— Não julgue todos os espectros por um de categoria baixa. Eu não me satisfaço com o sofrimento alheio porque não preciso disso – passou a toalha úmida pelo peito e tórax do aquariano. Circundou a área do umbigo, detendo-se na perfeição daquele ventre plano – Eu... prefiro outras maneiras de obter prazer.
Sem se dar conta, demorou-se ali mais que o necessário. Retirou a mão, rapidamente, e continuou:
— Tampouco Albiore. Ele não sente prazer em sua dor, e sim na do seu amante, e por pura vingança.
— É a mesma coisa.
O espectro deu de ombros, cansando-se daquela conversa. Passou a toalha por entre as pernas do prisioneiro, onde também havia caído um pouco da sopa. Camus deu uma leve esquivada, maquinalmente. Radamanthys pareceu não dar importância, fitando-o com tédio. O francês envergonhou-se por ter demonstrado temor ante aquele toque.
— Estou com sede.
— Verdade?
Vendo que o Juiz não se movia, entendeu-lhe a rebatida.
— Pode me dar água, por favor?
Radamanthys ia entregar-lhe o copo, todavia, ao perceber-lhe o tremor das mãos, temeu que derramasse o líquido. Se isso acontecesse, teria que limpar tudo de novo. Resmungou algo inaudível e fez menção de dar de beber ele mesmo. Camus pareceu ultrajado, mas o Juiz não quis saber: segurou-lhe o queixo firmemente com uma das mãos, e com a outra, pôs a borda do copo nos lábios do cativo, fazendo-o beber. A princípio tencionou recusar, no entanto, ao sentir o alívio daquele frescor, o Cavaleiro bebeu com sofreguidão. Radamanthys soube pela expressão facial que ele queria mais. Repetiu o processo, permitindo-se analisar o rosto do outro.
De fato... lindo.
Mesmo tão ferido, aviltado, humilhado, conservava uma beleza, uma altivez que suplantava, em muito, as de nobres e deuses. Camus já havia bebido toda a água... ainda assim, o loiro segurava-lhe o rosto, inconscientemente acariciando de leve a pele macia com um dedo curioso.
— Eu interrompo alguma coisa?
Valentine aumentara dramaticamente o tom de voz ao adentrar a cela, o que desagradou o amante.
— Em absoluto – respondeu Radamanthys, sem demonstrar o menor desconforto – Eu cumpria as ordens de servir a refeição ao prisioneiro.
— Me parece que as correntes foram colocadas de forma a permitir que ELE MESMO segure seus utensílios.
O Juiz pôs-se de pé e encarou o recém chegado com nítida irritação.
— Ele foi eletrocutado. Ainda está trêmulo. Apenas evitei que derramasse tudo em si. Ou eu teria que limpá-lo.
— O que você fez há pouco com muita eficiência, não?
Aproximando-se mais, Radamanthys quase colou seu rosto ao de Valentine, que tremeu levemente.
— Eficiente parece VOCÊ na arte de me vigiar, meu caro – retrucou.
— O que você quer? Primeiro limpa as feridas desse aí, depois limpa o corpo dele e agora lhe dá água na boca!! – cuspiu Harpia, mordido pelo ciúme.
— Seu tolo. Ele é um prisioneiro por cuja integridade recebi a obrigação de zelar.
Valentine sufocou um grunhido e lançou ao homem acorrentado, encostado à parede, um olhar sombrio de despeito. Radamanthys suspirou com enfado.
— Neste caso, alimente-o você. Não me importa. Nem ele, nem seus ciúmes ridículos – pôs a tigela na mão do espectro de cabelos róseos e saiu da cela, resoluto.
Não que Camus se sentisse à vontade com o Juiz. Contudo, ficar a sós com este que parecia devotar-lhe verdadeiro ÓDIO do nada... não lhe parecia nada melhor.
— Muito bem, Santo de Athena... espero que não fique tão insatisfeito com a troca – falou, e abaixou-se até ele, mexendo a sopa com a colher – Eu posso te alimentar tão bem como ele. Vamos lá, abra essa linda boca...
O francês não o obedeceu. Fitou-o, inexpressivo. Valentine franziu o cenho.
— Eu não tenho o dia todo, senhor Príncipe do Gelo. Coma esta merda e livre-nos disto, sim?
Nenhuma reação. O espectro tentou forçar o talher com o alimento por entre os lábios contraídos do prisioneiro. Este virou o rosto. Valentine sorriu. Pôs a vasilha no chão e observou-o. Então acertou um forte soco no abdômen de Camus, que gemeu pela ação inesperada. O aquariano tossiu muito, expelindo água pela boca.
— Oh. Me perdoe. Minha mão escorregou – chasqueou o espectro, pondo-se de pé, com um largo sorriso.
E deixou a cela, ordenando aos guardas que trancassem a porta. Deitado no chão, em posição fetal, Camus esforçou-se por não pensar na dor. Tossiu mais algumas vezes.
Tentou deixar que o nada invadisse seus pensamentos mais uma vez. No entanto, à sua frente... emergindo da escuridão... pés metidos em botas de pele, grossas, como as que usava na Sibéria, aproximavam-se dele.
Sentiu frio, muito frio.
Um frêmito de pavor percorreu seus nervos ao ver que os pés pararam diante dele.
Muito frio.
— Eu te avisei, Camus. É ISSO que é o amor.
AQUELA VOZ.
— É a isso que leva o amor.
Temeu apanhar de novo. ELE fora tão severo! Fizera pelo seu bem, sabia-o... mas isso não fazia doer menos.
Nem ser menos aterrorizante.
— A dor que você sente agora é apenas uma pálida amostra dos efeitos destrutivos do amor. Você não deve ter tais sentimentos. É um Cavaleiro do Gelo. Espero que aprenda a lição.
“Não... eu falhei... eu não aprendi...”
E, completamente vencido pelo cansaço, entregou-se ao misericordioso sono que viera arrebatá-lo daquele sofrimento.
*************
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