Grilhões Eternais
18 Lealdade
Notas iniciais

Saori convocou os demais Cavaleiros de Ouro para deixá-los cientes do que havia acontecido com Camus. Todos ficaram chocados. Era difícil de acreditar. E mais ainda para o jovem Cavaleiro de Andrômeda. Este pediu licença em determinado momento e se retirou para o Pátio Central, a fim de chorar. Custava-lhe crer que seu querido mestre, tão justo e bondoso, estivesse à frente de tal perversidade. Hyoga foi atrás dele; encontrou-o sentado perto de uma fonte, de cabeça baixa, as mãos trêmulas no rosto. O russo abraçou-o e chorou muito também. Se a Shun mortificava a revelação da traição e crueldade de seu mestre, a Cisne doía saber que o seu passava por tais martírios, e simultaneamente, testemunhar a decepção de seu namorado. Choraram juntos, por um bom tempo. O mestre de um seviciando o mestre de outro. Nunca que imaginariam tal loucura.
Enquanto isso, na reunião, Aldebaran impacientou-se:
– Não é possível que não haja NADA que possamos fazer!
– É como Athena disse: enquanto Camus estiver tendo seu cosmo suprimido, não temos como encontrá-lo – falou Mu, apertando as mãos sobre a mesa de alabastro.
– Por hora, só posso contar com a rede de informações da Fundação Graad – alegou a Deusa.
Afrodite declarou, tristemente:
–Isso não é justo!... EU matei Albiore... deveria EU ser o punido...
– Não diga isso – Máscara da Morte sussurrou-lhe ao ouvido – se ele se voltasse contra você, era EU quem tava lá agora...
– CARLO!!!
– Máscara da Morte está certo – além do comportamento, Shaka tinha ouvidos de monge – a questão não é se vingar de quem o matou, e sim de quem matou a família dele.
– É inadmissível que um Santo de Athena tenha chegado ao cúmulo de se aliar a Hades para obter vingança! Nunca soube de nada parecido – indignou-se Shura.
– Senhorita Saori, se me permite, acho que deveria avisar Dohko, que se encontra nos Cinco Picos Antigos. É um homem muito vivido e sábio, talvez ele tenha alguma ideia.
– Tem razão, Aioria. Vou encarregá-lo de fazer isso, se não se importar.
– Claro que não, será um prazer – e imediatamente levantou-se, já usando a velocidade da luz para ir até a China.
Saga conservava-se calado, muito perturbado com aquela história. Queria desaparecer. Athena notou seu desconforto. Percebendo o olhar da Deusa sobre si, ele declarou, muito sentido:
– É tudo culpa minha. EU é que deveria estar lá...
– Saga... – murmurou a jovem.
– Isso é injusto! EU dei a ordem para Milo e Afrodite irem para a Ilha de Andrômeda! EU sou o culpado por Camus estar sofrendo! Ele nada teve a ver com isso, muito pelo contrário, manteve-se sempre neutro, aquém de meu domínio, mesmo com um perverso como eu no poder!
Lágrimas de compunção rolaram pelo lindo e atormentado rosto do ex-Patriarca. Shaka retrucou, com firmeza e nada de piedade:
– Não é hora de buscarmos culpados, Saga: é hora de buscarmos soluções. Garanto que seu sofrimento não é maior que o de Camus.
– E nem de Milo – balbuciou Afrodite, cruzando os braços.
– Saga – a garota tocou-lhe o ombro – você foi apenas uma vítima do Mal. Foi usado pelo Mal! Não se martirize.
– É. Deixa isso para o nosso amigo Camus – alfinetou Aldebaran, fuzilando-o com o olhar.
– Aldebaran... – Mu chamou-lhe a atenção.
– Eu darei a minha vida em troca da de Camus – sentenciou o geminiano.
Afrodite riu de leve:
–Seu convencido. Todos nós aqui faríamos o mesmo.
– Com certeza! – reforçou Seiya, revoltado com todo aquele absurdo.
– Não precisamos de mais sacrifícios, Saga – disse a Deusa – precisamos RESGATAR Mestre Camus.
Mu virou-se para ela:
– Athena, como teremos certeza de que Milo não vai escapar dos aposentos do Papa? Quando ele acordar, vai querer prontamente sair mundo afora procurando Aquário.
– Há guardas de vigia. Sei que não são rivais para ele. No entanto, acredito que Milo não vai me desobedecer. É um Santo extremamente leal.
“Estará querendo testá-lo?” Nem Mu entendeu por que pensou isto.
Mas pensou.
*************
—Camus... – Milo balbuciou, virando a cabeça de um lado para o outro. Por baixo dos olhos fortemente cerrados cintilaram lágrimas doridas.
Crispou os punhos nos lençóis azul-celeste. Respirava ofegantemente.
— Camus!... CAMUS!!!
— Milo! Milo, ACORDE!
Ele despertou, de súbito. Arfava, agoniado. Olhou ao redor, sem reconhecer o lugar, e encontrou os olhos claros mais puros de que se lembrava.
– Hyoga?
–Me desculpe. Eu não tinha a intenção de te acordar. Mas não aguentei ver você angustiado daquela maneira... você... você estava vendo o Camus?
Vendo ele ser torturado? Ou… apenas um pesadelo MESMO? Não tinha certeza.
Milo sentou-se, apoiado nas almofadas trabalhadas com fios de ouro. Percebeu enfim que não era mesmo seu quarto, e sim um aposento mais suntuoso. No leito de dossel de veludo caberia pelo menos meia dúzia de pessoas. As paredes possuíam estilo barroco, com pinturas de motivos religiosos e intrincados arabescos dourados, bem como várias partes do luxuoso recinto.
– Onde estou?
–Aqui é o dormitório do Patriarca. Saori te deixou descansando aqui. Você dormiu um dia, Milo.
– UM DIA?! – Maldição! Enquanto isso, Camus poderia...
Não. Ele estivera sob influência da Deusa. Nesse meio tempo não deveria ter ocorrido outra “sessão” de Albiore, ou ele saberia. Havia de fato sido apenas um sonho ruim. Onde Camus submergia nas profundezas da escuridão, e ele, Milo, tentava reter sua imagem com as mãos, porém... nunca conseguia sequer tocá-lo, sentir sua presença física... era apenas uma ilusão que se desfazia, se esvaía, como água por entre seus dedos...
– Athena contou a vocês, não contou?
– Sim.
O escorpiano ficou perturbado. Não sabia muito o que dizer.
– Contou tudo?
–Contou.
–Seu… seu amigo deve estar arrasado, né?
– Está sim. Já chorou muito. Mas agora está mais preocupado com Camus.
Um sorriso triste invadiu o rosto abatido do grego.
– Ele é um bom garoto, né?
– O melhor – murmurou o loirinho, fungando levemente. Dava para perceber que havia chorado enquanto Milo dormia.
– Hyoga... existe alguma... notícia sobre o paradeiro de Camus?
– A Fundação Graad está fazendo conexões pelo mundo e várias pessoas especializadas estão investigando.
– Eu estou preso aqui, não é?
Cisne olhou para ele, com uma imensa dor na alma.
– Acho que podemos dizer isso, Milo.
– Não é porque a Deusa não pode rastrear o cosmo dele que eu não vou tentar achá-lo – falou, controlando a revolta.
Entre a cruz e a espada.
Entre o amor e a fé.
Entre a lealdade e a revolta.
– Milo, se desobedecer Saori estará cometendo um crime herético... desobedecer a Deusa não é opção para alguém do seu posto.
– Mas...
– Ela sabe o que está fazendo! Não é mais a garota bobinha e mimada de dois anos atrás!
“E o QUE É QUE ELA ESTÁ FAZENDO?”, inquiriu em pensamento, afundando as mãos na vasta cabeleira, atormentado.
– Todos estão pensando no que fazer, Milo, você não está só nessa his...
– Como “NÃO ESTOU”? EU O AMO! É O AMOR DA MINHA VIDA QUE ESTÁ lá sofrendo em meu lugar! Sou EU que vejo ele sofrendo! Acha que é fácil ver aquilo e continuar aqui, sem poder ao menos TENTAR algo?!?
Assustado com aquela explosão, Hyoga, sentado numa cadeira perto da cama, apertou os joelhos. Foi então que Milo percebeu que ele estava tremendo.
– Claro que não acho. Eu... eu inclusive... ia te perguntar o que estão fazendo com o meu mestre... mas acho que é melhor eu não saber... melhor pensar num jeito de salvá-lo.
Milo compadeceu-se do menino. Aliviou a expressão carregada e abraçou-o, trazendo-o para perto de si.
– Vem cá.
O adolescente segurou o pranto que ameaçava romper. Abraçou o mais velho, como que querendo se refugiar ali.
– Você está certo, garoto. Camus se orgulharia dessa sua atitude. – sussurrou Escorpião, acalmando-se e acalmando o outro. O menino já travava uma terrível batalha para TAMBÉM não desobedecer Athena. Ele não precisava piorar tudo com seus rompantes.
– Milo. É estranho o que vou te dizer...
– Diga, pato.
– Eu considero Camus como um pai... e... e... e você como...
– Ei! NÃO vai dizer que me considera como a MÃE?
O russo riu baixinho.
– Não, não! Não ofenda a memória da minha mãe... eu ia dizer que é como se fosse... sei lá, um tio... acho que é tipo isso...
O escorpiano sorriu, enternecido, e ao se afastar do jovem, bagunçou-lhe os cabelos dourados.
– Eu te prometi fazer o Camus feliz, lembra?
– Claro! E está fazendo isso! É VISÍVEL... ou melhor... estava – voltou a ficar melancólico – ... antes de...
– Pois vou fazer outra promessa, Hyoga. E você sabe que eu CUMPRO minhas promessas, não sabe? – e segurou o adolescente pelos ombros, encarando-o com firmeza.
– Claro.
– Eu vou trazer o Camus... o NOSSO CAMUS de volta. Ouviu?
Assentindo com a cabeça, Cisne abriu um sorriso franco.
– E eu quero ajudar, Milo. Estou com você pro que der e vier!
– O problema é O QUE fazer... preso aqui, ainda por cima... se ao menos tivéssemos uma pista de onde ele está... parece o interior de um castelo. Uma masmorra... tudo de pedra... mas uma coisa é certa: eu VOU TIRAR ele de lá!!!
– Sim! Nós vamos conseguir! – animou-se Hyoga. E pôs-se de pé – Vou te trazer algo de comer. Você parece abatido.
– Não posso sair nem para fazer uma refeição?
O Santo de Bronze balançou a cabeça numa negativa um tanto constrangida.
– Saori teme que você fuja do Santuário para procurá-lo... ou que se descontrole novamente durante algum... transe. Além do mais, ela só quer que a gente aja após obter as informações da Fundação.
– Compreendo – respondeu Milo, numa resignação apenas aparente.
Se ele DECIDISSE PARTIR... se ele SOUBESSE para onde ir...
Não queria ser blasfemo, mas...
... nem mesmo Athena o impediria.
*************
Lentamente, os olhos azuis índigos abriram-se, encontrando mais uma vez as inóspitas paredes de pedra. Eles percorreram o lugar, tentando ajustar a imagem às lembranças que mesclavam-se no cérebro de Camus. Tinha a impressão de ter sonhado tudo, e tentava confirmar internamente se as cenas vividas haviam, de fato, pertencido à realidade.
A dor que mordia-lhe a carne fez com que entendesse.
Tentou erguer-se: foi presa de uma vertigem que quase o levou a se deitar novamente. Piscou várias vezes, por fim conseguindo se sentar, escorado na fria parede.
Essa sensação há muitos anos encontrava-se ausente.
Frio.
Deveria estar MUITO enfraquecido mesmo para sentir frio. Ele, um Cavaleiro do Gelo.
O famoso Mago da Água e do Gelo.
Agora tiritava e batia os dentes.
Não sabia de onde viera aquela constatação, mas... percebeu que até o momento, não havia decidido se queria viver ou não.
Claro que pela lógica QUERIA VIVER! Queria voltar para seu amado escorpiano, sua Deusa, seu discípulo querido, seus amigos bons e leais... queria lutar e resistir a tudo, acreditar que haveria uma solução!
Entretanto, não podia contar com o cosmo. A maldita coleira impedia-o de usá-lo. E contra tantos espectros, mesmo que se livrasse dos grilhões por algum milagre... sem o cosmo, não teria nem por que alimentar esperança.
E sem esperança, só lhe restava esperar a morte.
E sendo a morte o fim de todos os sofrimentos...
... não seria má ideia esperá-la.
Desejá-la, até.
Um arrepio percorreu-lhe a pele álgida. Conformava-se em NUNCA MAIS ver Milo? Em abandoná-lo para sempre? Justo agora que provara o sabor da felicidade… do amor?
“É isso que o amor causa, Camus.
Sente a dor?
É isso... “
Desistir ou lutar?
E se decidisse por lutar… LUTAR COMO?
Sabia que não poderia fugir. Tampouco poderiam encontrá-lo sem sentir o seu cosmo.
Sequer poderia sonhar com um resgate.
“Milo deve estar desesperado vendo o que está acontecendo comigo... ele já é desesperado com tudo!...”
Lembrou do alvoroço que o namorado fez quando ele, ao cortar pão durante um café da manhã, ainda bem sonolento, havia se cortado com a faca. Milo segurava o local, verificou o pequeno ferimento, assustou-se com o sangue, perguntou mil vezes se doía muito... insistiu em fazer um curativo. O aquariano riu, alegando não ser nada: quem faria curativo num cortezinho daqueles? Mas o outro não quis saber... correu para pegar uma pequena maleta de primeiros socorros. Foi uma das raras gargalhadas que Camus lembrava-se de ter dado. O escorpiano quase caiu, tropeçando nos próprios pés, com sua afobação. Mesmo depois de ter desistido de lutar contra a teimosia do amado, e ter a mão enrolada com algumas gazes, ficou ouvindo o dia todo Milo perguntar se estava doendo...
Acabou sorrindo com essa doce lembrança. Por mais incrível que parecesse, a ideia de que aquele que trouxera luz à sua vida estaria sofrendo sobrepujava a sua própria dor física.
“Milo... Milo, eu te amo! Eu te amo! Ah, queria tanto te dizer isso, face a face! Não importa que tenha sido o amor que tenha me colocado aqui, com você eu fui feliz por uma vida inteira. Se eu não vou mais poder te ver, que venha a morte, gloriosa ou não, dolorosa ou não... só quero me apartar de uma vida onde você não esteja...”
O barulho do ferrolho causou-lhe um estremecimento involuntário. Alguém entrava na cela.
Ergueu o olhar, sem vontade alguma, mais como um reflexo
Albiore.
Não trajava a armadura negra. Vestia uma túnica púrpura por cima de uma calça preta, e usava botas de mesma cor. Braceletes de metal circundavam-lhe os pulsos. Os longos e volumosos cabelos loiros emolduravam-lhe o rosto sereno. Pegou uma cadeira que estava perto da porta e a posicionou perto do prisioneiro acorrentado. Uniu as mãos e perguntou em tom casual:
–Boa noite, Cavaleiro de Aquário. Como está se sentindo?
–Já estive melhor. As instalações e o serviço do hotel não são dos mais satisfatórios – respondeu jocosamente.
– Lamento por isso – sorriu o Cavaleiro de Prata – De verdade. Hum. Vejo que não fez sua refeição: a comida está intocada.
– Digamos que as atrações do seu “resort” não me estimulam o apetite.
– Não deveria fazer isso. Está há mais de 48 horas sem comer – simulou uma branda repreensão. Suspirou – Vai ficar fraco assim...
– Não vejo por que se preocupar: graças ao seu “presente”, estou permanentemente fraco.
– Sim, sim, devo admitir que isso não foi lá muito honrado. Mas Aquário, espero que tenha ficado claro que não fiz isso pensando em honras ou desonras. Eu já abandonei todas e quaisquer ponderações a respeito de tais dilemas.
– Seu discípulo ficaria muito decepcionado se o ouvisse falar assim.
Um leve tremor do raptor não passou despercebido ao aquariano.
– Como está Shun? – indagou, abaixando o olhar.
– Vive no Santuário agora. É um grande guerreiro, muito conhecido por sua bondade e gentileza.
– Ele sempre foi assim – Albiore sorriu novamente, desta vez com genuína ternura – Mesmo antes de passar pelo Sacrifício, eu já sabia que seria ele a conquistar o direito de usar a armadura de Andrômeda.
– Ele é muito amigo do meu discípulo. Na verdade, são mais que amigos...
– Ora, isso que é coincidência, não? Nós dois poderíamos nos considerar praticamente da mesma família!
O francês não soube precisar se havia sarcasmo naquelas palavras ou não. E isso era muito raro de acontecer.
Talvez estivesse mais fraco do que imaginava. Deveria se preocupar? Pediu água, já que Valentine havia deixado a bandeja longe de seu alcance. Albiore atendeu-o. Após beber, inquiriu calmamente:
– Albiore, não me importo que me mate, e na verdade, gostaria sinceramente que o fizesse. Porém, entendi que não fará isso, pelo menos não sem antes empreender sua vingança contra Milo. Só queria saber se o fato de se tornar um proscrito não o atormenta nem um pouco. Afinal, você é um Santo de Athena. Deveria ser fiel à Deusa até depois da morte. Mas aliou-se a Hades e a seus espectros por razões que envolvem ódio e rancor. Não o preocupa o que o espera daqui para a frente? Não o preocupa o que seu pupilo pensará de você?
Os olhos azuis de Albiore ficaram vidrados. Todo ele ficou estático. Podia-se sentir o efeito das palavras de Camus sobre ele, subitamente tenso, emudecido. Respondeu, por fim:
–Eu já disse. Nada mais me importa. Só quero vingar a morte de Agatha e de meu filho. Quero fazer Milo sentir o que senti. O que sinto até hoje.
– Pois eu preferiria morrer a decepcionar Hyoga.
– Mesmo você, nobre Aquário, deve ter prioridades que não seu pupilo.
– Ele certamente está entre elas. Vejo que Shun não está entre as suas.
O loiro levantou-se da cadeira, mais para fugir daquele olhar do que para esticar as pernas. Aquário... estaria tentando vencê-lo pela retórica? Nada naquela expressão, contudo, demonstrava tratar-se de mera estratégia. Ou será que... sem poder usar a força, procurava usar o intelecto? Sim, escutara acerca da inteligência do Santo que guardava a 11ª Casa.
Inútil. Não conseguiria nada com ele.
Caminhou pela cela, tentando pôr ordem nos pensamentos bagunçados por Camus.
– Acha que sua mulher ficaria feliz com o que você está fazendo? – continuou o Santo de Ouro, sem dar-lhe trégua, notando-lhe a confusão mental.
– Cale-se...
– Se é por sua esposa, ela deveria se satisfazer com o fato de você estar empenhado nesta vingança. Sente realmente que Agatha está satisfeita?
–Cale-se… – repetiu a súplica, quase trêmula.
– Está satisfeita por você se aliar ao Deus do Submundo, inimigo de Athena, a quem ELA serviu, para torturar a pessoa amada por aquele de quem você quer se vingar? Agatha era esse tipo de mulher?
– CALE-SE!!! – e desferiu um potente soco no rosto do cativo. Ofegou pelo esforço repentino, e pelo efeito do discurso pertinete, o sabia, em seu coração.
Espessos filetes de sangue escorreram do nariz afilado do francês. Abrindo a boca para gemer, liberou mais sangue. Sentira, e muito, aquele soco. Por estar enfraquecido. Por Albiore estar enfurecido. Por este ser um Santo de Prata e ele, nas atuais circunstâncias, não ser nada mais que um farrapo humano. Desprovido de forças, energia, cosmo, esperança, mobilidade.
Respirando com dificuldade, Albiore o mirou. Falou num tom baixo, a fúria contida:
– Eu nada tenho contra você, Aquário. Pelo contrário. Prezo-o muito. É um Cavaleiro honrado, sábio e justo. Agora vejo que até mais do que eu julgava. Se eu pudesse, não lhe infligiria sofrimento algum. Porém, já estou trilhando este caminho e não posso... NÃO POSSO MAIS VOLTAR ATRÁS.
Limpou a mão suja de sangue na túnica mesmo. Continuou, mais calmo:
–Peço desculpas por este lamentável excesso. Eu havia me comprometido a não machucá-lo fora das “sessões” assistidas por seu amante.
Tomando a caixa de curativos deixada ali por Radamanthys, pôs-se diante de Camus. Embebeu uma gaze em água oxigenada e começou a limpar o sangue do prisioneiro.
– UHHN! – o aquariano não pôde deixar de se contorcer um pouco.
– Shhh. Vamos consertar isso. Quero você intacto. Gosto da ideia de Milo vê-lo sofrendo, sim, mas sempre com esse rostinho bonito.
O francês fechou os olhos com força. Cerrou os dentes de raiva e dor.
– Milo vai me encontrar.
– Isso é impossível. Não alimente esperanças. Não é bom para sua sanidade.
– Você não o conhece – sorriu, surpreendentemente triunfante – ele não desiste de NADA. É capaz de fazer qualquer coisa para me salvar. Porque ME AMA.
Albiore o considerou, entre sério e invejoso. Terminou de limpá-lo. Apenas a vermelhidão intensa permanecia no atraente rosto do cativo.
– Três dias se passaram, Camus. Depois do que seu homem viu, caso ele realmente fosse capaz de “qualquer coisa” para salvá-lo, ele já não estaria aqui? – inquiriu, quase num sussurro.
Camus estremeceu. Mas não se deu por vencido. Persistiu num sorriso, desta vez desafiador:
– É apenas uma questão de tempo. Ele é fiel ao que é. Ao contrário de você.
Resistindo à vontade de socar novamente aquele atrevido, Albiore fuzilou o francês com o olhar sombrio, antes de declarar:
– Prepare-se, Aquário. A hora da terceira sessão chegou. Pedirei ao guarda que o leve ao banheiro, para que se limpe um pouco. Desta vez, Milo apreciará um número diferente dos anteriores. Quero você em perfeitas condições, para que tudo fique mais... empolgante.
*************
Fale com o autor