Grilhões Eternais
13 O rapto de Aquário
Notas iniciais
O dia amanheceu nublado, ainda que não ameaçasse chuva. Um daqueles dias brancos, em que um véu de nuvens parece imóvel, apenas bloqueando qualquer brecha do firmamento azul. Milo espreguiçou-se, animado. Deu um salto e foi até a suíte fazer a higiene. Planejava tomar o desjejum com Camus antes de irem para os campos de treinamento; tinha até pedido à Hélida que preparasse uma “Quiche Lorraine”, uma famosa quiche de queijo francesa, ainda que de origem alemã, segundo ficou sabendo... o namorado não apreciava doces, muito menos pela manhã, por isso a ideia. Com sorte, o francês concordaria em uma “rapidinha”... isso se ele conseguisse arrastar aquele gelo escorregadio até o quarto para algo mais... completo.
“Aquele ali é frio em qualquer lugar, menos na cama”, pensou, divertido, vestindo uma túnica curta azul clara. Pôs uma calça justa azul escura e calçou sandálias estilo gladiador marrom escuro. Ia prender os longos e volumosos cabelos mas desistiu. Queria provocar o amante ao máximo... tinha que estar irresistível.
Desceu as escadas rumo à copa. Percebeu que a mesa estava posta conforme ele pedira. Cumprimentou a criada, que após responder, anunciou:
–Mestre Milo, o Mestre Camus passou por aqui há cerca de uma hora e deixou um recado...
– Ele já passou aqui? Por que não mandou alguém me acordar?
– O Mestre Camus disse que não poderia ir treinar com o senhor hoje. Falou que foi convocado com urgência por Athena, teve que ir até a Sala do Patriarca para ter uma audiência com a Deusa.
– Athena convocou Camus? – o escorpiano estranhou. Céus... será possível que... que queriam que o Cavaleiro de Gelo partisse mais uma vez do Santuário para ir treinar fedelhos em algum outro rincão do mundo?
“Não pode ser... não acredito que justo agora que estamos juntos, seremos separados novamente...”
Um opressivo pesar tomou conta dele. Sentou-se maquinalmente à mesa farta, sem nada focar à frente.
– Mestre Milo, nem coloquei tudo na mesa ainda. Vou buscar aquele bolo de chocolate de que o senhor gosta e...
– Não é necessário, Hélida – interrompeu-a, muito desanimado – Me sirva apenas um café puro. Bem forte, tá?
–Sim, senhor.
Minutos depois, dirigiu-se à arena. Contemplando a vista que se tinha do alto das altas escadarias do Santuário, refletia, intrigado. Ao desânimo de ter de ir treinar sem a companhia do amado, juntava-se a preocupação sobre o motivo que levara Saori a chamar Camus com tanta urgência.
“Boa coisa NÃO é.”
*************
Cerca de meia hora depois, Camus chegava à Oitava Casa. Esperava encontrar o namorado, com ele tomar café da manhã e, quem sabe, fazer um inspirador amor matinal, antes de partirem para os treinos.
Não necessariamente nesta ordem.
Entretanto, a notícia dada por Hélida assassinara seus anseios para aquela manhã. Milo fora repentinamente convocado para uma reunião com Athena. Envergonhou-se pela revolta que o invadira internamente. Que absurdo, eram Santos Guerreiros. Não podia colocar suas vontades luxuriosas acima do dever. Se a Deusa chamara Milo era porque tratava-se de algo extremamente importante. Não tinha o direito de ficar aborrecido.
O problema é que Milo o contaminara... contaminara com seu amor, seu desejo, seu fulgor, sua luxúria. Permitia-se ter vontades agora. Já sentia falta de seu corpo, de seu cheiro, de seus toques... certa vez, Milo dissera que o corpo do francês fora feito para o amor... nunca iria imaginar isso.
A criada, porém, disse a ele que esperasse pelo outro. Assim tinha sido a orientação de seu amo. Então Camus sentou-se no sofá vermelho da sala de estar e aceitou o café que a mulher oferecera. Tomou a bebida, aquecendo um pouco seu coração e esvaziando sua mente. Afastou de si a irritação inicial, raciocinando que não tardaria muito para reencontrar o amado. Deixasse de ser infantil e mimado.
E pensar que antes ele achava que Milo é quem detinha esses defeitos!
Foi quando Hélida trouxe o pequeno embrulho, alegando ser presente de Milo. E que este queria que o aquariano estivesse usando-o, quando chegasse da audiência com a Deusa.
Claro que estranhou! Claro que achou suspeito! Entretanto, o amante era REALMENTE imprevisível, cheio de ideias, cheio de surpresas. Não demorou muito a ser convencido... pediu à fiel Hélida, que servia a Milo há sete longos anos, que lhe colocasse a jóia no pescoço. Foi então que o lindo cordão emitiu um sinistro brilho negro, convertendo-se numa coleira de igual coloração, como se fosse um tipo de obsidiana, brilhante, lisa e rígida.
No mesmo instante, sentiu um grande mal estar, mistura de vertigem, formigamento dos membros, dor de cabeça... e o zunido nos ouvidos piorou tudo. Deu dois passos para trás, no afã de se equilibrar, e veio a violenta corrente elétrica que levou-o a cair no chão, pesadamente. O zumbido atordoava-o terrivelmente. Sua visão ficou embaçada, a tal ponto que ele só viu o vulto do invasor, que na verdade parecia uma bela mulher, envergando uma sinistra armadura escura.
— MESTRE CAMUS!!! – gritou Hélida, fazendo menção de correr até ele. “A invasora” pôs-se em sua frente.
— O que pensa que vai fazer? – e eis que a voz da “intrusa” NÃO era de mulher, e sim de homem. Tratava-se, em verdade, de um homem com aparência feminina. Não meramente andrógino: era totalmente como uma mulher. Possuía longos e anelados cabelos dourados como o ouro e sua face seria sutil e delicada não fosse o sarcasmo desdenhoso que luzia em seus olhos violetas.
–M-mestre Camus...Vocês... vocês não disseram que iam machucar ele!!!
– Isso não lhe diz mais respeito. Você foi bem recompensada por seus valorosos préstimos. Agora vá. Saia daqui.
– Não!!! Eu... e-eu não sabia que vocês queriam machucar ele!
Ele nem encostou em Hélida: apenas mirou-a com o mais profundo desprezo, e a mulher foi atirada contra a parede, literalmente voando pelos ares. O seu grito fez com que Camus se apressasse em reagir. Ele não entendia o que os outros diziam, devido a algum funesto efeito daquela coleira sobre ele. Mas ouvira o grito da criada e isso bastava-lhe: ela corria perigo, sabia-o. Pois bem, atacaria com o Pó de Diamante. Não sabia o que estava acontecendo ao certo, e sequer sentia qualquer tipo de cosmo. Contudo, sabia do que realmente interessava.
Estavam sendo atacados.
Inimigos invadiram o Santuário.
Um segundo homem materializou-se ali. Trajava igualmente uma imponente e reluzente armadura negra, com asas nas costas e grandes chifres curvos no capacete. Seus olhos eram misteriosamente ocultos por uma franja preta. Juntou-se ao primeiro, sorridente.
– Eu sabia que você iria ficar brincando com ele, Verônica de Nasu.
– Huhuhuh, vejo que me conhece bem, Aiacos de Garuda...
– Seu caráter é tão conhecido quanto sua beleza, meu caro.
– Ora, fico lisonjeado... e por falar em beleza, veja esse aí... ora, está se levantando!
– Coitado, vai tentar atacar...
– PÓ DE DIAMANTE!!!! – o golpe foi lançado, porém logo neutralizado, desaparecendo no ar. Ao fazer isso, Camus sentiu a infame corrente elétrica mais uma vez invadir seu corpo, numa intensidade maior que da primeira vez. Foi ao chão, quase sem consciência. Continuava sem sentir cosmo algum! Como estavam fazendo aquilo?
–Mestre Camus!... – Hélida gritou: arrastava-se, chorando, na direção do amante do patrão.
Aiacos a observou, por baixo dos fios negros e lisos.
– Mulher, foste muito bem recompensada pelos teus serviços de espionagem e informação. Por que não sai daqui? Podes começar vida nova... não queiras morrer.
– Não... não vou deixar machucarem mais o senhor Camus! Ele sempre foi bom pra mim, assim como o mestre Milo – falou, erguendo-se com dificuldade, caminhando tropegamente até o guerreiro caído. Colocou-se na frente dele – Eu não... não sabia que queriam machucar ele!
– Continua insistindo nessa mentira? – riu Verônica, zombeteiro.
– Tola hipócrita – disse Aiacos, gravemente – achou que pessoas de fora do Santuário que encomendassem tal missão a ti realmente teriam intenções benignas para com teus senhores? Sabias EXATAMENTE que queríamos a pessoa amada por Escorpião... e não seria para um bom propósito.
E gargalharam, ruidosamente. E então viram que o Santo de Athena novamente se erguia, decidido a arriscar mais um ataque. Os dois intrusos olharam-no, surpresos.
– Ele está se levantando de novo?! – assombrou-se o loiro.
– Impossível – Aiacos não imaginaria tamanha resistência, mesmo vindo de um Cavaleiro de Ouro. Afinal, aquela coleira...
– Ele é mesmo maravilhoso... vê? A escolha não poderia ser mais certeira! – admirou-se Verônica, mirando-o com pura lascívia.
O aquariano afastou bem as pernas, uniu suas mãos acima da cabeça... seus longos cabelos azuis esverdeados serpentearam no ar...
– EXECUÇÃO AURORA!!!
Mais uma vez, pouco de seu poder foi efetivamente lançado: os anéis de energia circundaram-no, enquanto ele era seguidamente eletrocutado, desta vez de forma ainda mais violenta que da segunda e muito mais do que a primeira vez. Camus gritou antes de cair, finalmente inconsciente.
– NÃO!!! MESTRE CAMUS!!! POR ZEUS!
– Acho que desta vez ele não se levanta mais... – ironizou Verônica, sorrindo.
– O-os outros cavaleiros... l-logo chegarão aqui... seus malditoooos!!! – e tentou correr dali.
– Tenciona nos trair como traiu seu senhor? – e no mesmo segundo, Aiacos estava de frente para a mulher em fuga. Agarrou seu pescoço e ergueu-a do chão. Ela balançou desesperadamente as pernas e os braços, buscando o ar que lhe foi suprimido.
– Aaahhhkkk!!
– Humana desprezível, somos espectros de Hades, o Grande Senhor do Submundo. Erguer uma barreira mística em volta do Templo de Escorpião para que ninguém perceba nossa presença para nós é tão fácil como é para você piscar seus olhos...
– M-mestre... C-Camus...M-mestre Mi-Milo... me perdoem... – e foi a última coisa proferida por Hélida, antes de seu peito ser perfurado pelo punho do espectro.
Uma cascata de sangue vivo desceu. E o rio que dela se formou foi o leito daquele corpo já sem vida que ali tombou.
– Humanos mesquinhos – murmurou ele, olhando-a com desdém – enganou seu mestre, nos entregou a presa que há tanto buscávamos, e no último momento, se arrependeu...
E virando-se, ergueu do chão, com sua força psíquica, o Cavaleiro de Aquário, agora completamente desmaiado. Seu corpo, estendido no ar, completamente reto na horizontal, chamou a atenção do outro espectro, pela beleza de suas formas, bem delineadas nas roupas de treinamento: na regata apertada que denunciava a perfeição de seu torso, na calça justa escura que modelava suas coxas firmes e um tanto grossas... sem contar o tentador volume que se pronunciava entre elas...
Verônica não resistiu a pousar, maliciosamente, a mão ali, apalpando e deslizando sobre o sexo do homem inconsciente.
– Veja como ele é gostoso... realmente maravilhoso. O mais belo espécime humano que vejo em muito, muito tempo... – e não parava de alisar aquele ponto – Será que eu não teria o direito de me DIVERTIR nem um pouquinho com ele? Eu realizei bem o meu trabalho, não? Acho que mereço uma recompensa...
– Afaste-se dele, Verônica, temos ordens expressas de levá-lo sem maiores ferimentos.
– Humm, e quem disse que eu iria feri-lo? Aposto que ele iria gostar... – e passou a língua sobre o membro do aquariano.
– Você SABE com que propósitos Aquário está sendo levado. Obedeça às ordens – Aiacos volveu, desta vez com mais severidade.
– Claro, claro – resmungou o loiro, afastando-se daquela “tentação”. Mirou o rosto do homem desacordado, suavizando a expressão.
– Ele realmente é maravilhoso... estou me repetindo, mas não consigo pensar em outro adjetivo.. O tal de Escorpião prima pelo bom gosto.
– Vamos voltar.
– Vamos – e ele depositou numa estante da imensa sala uma espécie de bola de cristal de negro que haviam trazido – Acho que aqui está bom. Com ISTO, Escorpião poderá VER TUDO...
E levando Camus com eles, desapareceram em meio a uma luz avermelhada.
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