Grilhões Eternais
9 O piquenique
Notas iniciais
– Mas Mestre Milo, pelo amor de Zeus! Como é que eu vou ficar vendo o senhor fazendo isso tudo sem ajudar?
A serva de Milo, Hélida, torcia as mãos, muito injuriada; seu patrão se metera na cozinha e estava preparando vários pratos ao mesmo tempo, com rapidez e eficiência, ainda que não fosse lá muito organizado. Mesmo assim, era um acinte deixar o Grande Cavaleiro de Escorpião, a quem servia há sete anos, fazer serviços domésticos!
– Hélida, não se preocupe, está TUDO sob controle... – e deixou cair um ovo no chão – ai... bom, se quer me ajudar, limpa isso, por favor, sim? Senão vou me atrasar aqui...
A mulher prontamente atendeu ao pedido do amo. Tinha 35 anos, embora aparentasse muito mais, por ter vivido até os 28 da pesca com a família; o trabalho extenuante sob o inclemente sol da Grécia fez com que muitas rugas amarrotassem precocemente o rosto moreno, que ainda assim não era desprovido de beleza. Os olhos verdes muito vivos brilharam ante as iguarias já prontas. Como cheiravam bem!
– O senhor está inspirado! Já o vi cozinhar, mas nunca tantas coisas, e com tanto entusiasmo... vai chamar alguém para jantar? Devo providenciar mais alguma coisa?
— Não, obrigado, é para um piquenique – riu o jovem – hoje à tarde.
— Mas o senhor deveria ter falado comigo! Já teria preparado tudo desde cedo! Era só dizer o que iria querer...
Ele balançou o dedo negativamente, e respondeu, com um sorriso simpático:
— Nada disso. É necessário que EU faça tudo! Quero que minha companhia prove da comida que EU fiz.
— Ahn...?
— Por falar em provar, por que você não prova um pouco de cada coisa, Hélida? Me faz esse favor?
Ela pôs a mão no peito, surpresa.
— Eu? Mestre Milo, eu não me atreveria…
— Medo da minha comida?
— Não, não!!! É que seria uma audácia eu tocar no que o Mestre preparou para sua companhia e...
— Ah, deixa de formalidades, vai! Vamos lá, diga “aaaaahhh” – e com seu jeito brincalhão, ele pegou um pedaço de faisão assado ao molho de mel e alecrim e enfiou na boca da criada.
– Que tal? – perguntou, sem nem ao menos esperar que ela engolisse para responder.
– Mestre Milo... ESTÁ DIVINO! A carne desmancha... delicioso! Muito melhor do que o meu!
– Tá, não exagera. Vai, prova o resto – e voltou a quebrar os ovos para a massa da torta de maçã.
A serva olhou-o de soslaio: nunca o vira tão animado! Seu amo era um homem cordial e expansivo, tratava de forma excelente a todos os criados. Contudo, havia uma alegria inédita emanando do jovem Santo. Nunca o vira... EUFÓRICO daquela maneira. Depois de fazer o que lhe fora pedido, disse:
– Está tudo ótimo, Mestre Milo, com certeza sua companhia vai adorar.
– Ah, eu espero mesmo, Hélida. Ele é bem exigente... e enjoado.
– Oh, é um rapaz? – perguntou de forma neutra – Bom, não há a menor possibilidade de ele não aprovar essas delícias.
– Zeus te ouça, Hélida... Zeus te ouça! – falou, ocupando-se de montar a torta.
“Parece até que voltou a ser um adolescente! Está DIFERENTE DAS OUTRAS VEZES...”, pensou a criada, deixando a cozinha, olhando para trás, como a esperar que ele pedisse ajuda a qualquer momento.
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Esperou ardentemente que não fizesse calor naquele dia, pelo menos NÃO NAQUELE dia... não era dado a programas ao ar livre devido à sua intolerância ao sol, às altas temperaturas. Só encarava para treinar, mesmo, e ainda assim, sentia-se bem incomodado. Malgrado fizessem módicos 24°C, para ele já estava bem desconfortável. Por isso, escolhera uma roupa que fosse a mais fresca possível, ainda que não se considerasse bem vestido como queria: uma regata azul-escura, um pouco justa, mas de tecido leve, uma calça clara de algodão, sandálias de tiras, de couro marrom escuro. Achou graça de sua preocupação em não estar “bem vestido”; ora, tratava-se de um piquenique! Num piquenique as pessoas têm que estar despojadas mesmo, certo? Bem informais. E seria um piquenique com seu melhor amigo... para que a preocupação?
Não era como se fosse um encontro amoroso.
Mas... por que seu coração disparava?
Haveria de ser o calor... sim, o calor... era isso.
Esses pensamentos revoavam dentro da cabeça de Camus enquanto ele ia se aproximando do local marcado. Algumas nuvens povoavam o céu, mas ele não se permitiu ter esperança. Certamente o sol continuaria a castigá-lo. Das copas das árvores desprenderam-se folhas que dançaram no ar. Ao longe, montanhas formavam curiosas esculturas no horizonte. Chegou aos rochedos os quais deveria escalar para chegar ao outro lado, onde ficava o “refúgio”. Refúgio, pois sim... Não era tão alto agora para ele, mas quando criança, parecia uma cordilheira! Atravessou as rochas em poucos saltos e pousou os pés na verdejante grama macia. Em volta, o bosque que se abria para o rio bem à sua frente, cuja superfície corredia assemelhava-se ao céu estrelado, devido aos reflexos do astro-rei. Olhou ao redor: nada de Milo. Teria chegado muito cedo?
Algo atingiu-lhe o ombro. Algo pequeno, como uma bolinha. Em seguida, outra coisa acertou-lhe a cabeça. Olhou no chão para ver o que era. Coquinhos?...
E eis que Camus é atingido por uma saraivada de coquinhos, e quase pula de surpresa. A risada de Milo ecoa no ar.
– Milo! – diz o francês, mirando na direção dos risos.
– Como sei que você deve ter vindo pelo caminho desejando chuva e não este sol maravilhoso, providenciei uma chuva pra você – no alto da árvore, sentado em um dos galhos, com as penas pendentes balançando, ria o Cavaleiro de Escorpião, maroto como um menino travesso.
Camus fez cara de desagrado, mas por dentro fogos de artifício estouravam. Perdeu-se naquela imagem de Milo, tão esfuziante e atraente... magnético.
O grego desceu da árvore num salto, pousando graciosamente na relva. Vestia uma camisa verde-água um pouco aberta por amarrações e ilhoses no peito, calça de tecido leve marrom-claro, e sapatilhas gregas de couro escuro. Sorriu tão lindamente para Camus, enquanto ajeitava os longos cabelos azuis em desalinho, que o aquariano não conseguiu articular palavra. Inconscientemente ficou ali, fitando-o em êxtase.
– Que foi? Será que os coquinhos acertaram sua cabeça com tanta força assim? – brincou, ao ver a expressão do outro.
– Que brincadeira sem-graça, Milo – resmungou, mais com raiva de si mesmo por se deixar divagar daquela forma na frente do amigo, do que pela brincadeira de que fora “vítima”.
– Sem-graça nada, eu ri – e riu de novo, divertido.
Suspirando fundo, Camus ajeitou os cabelos e passou entre eles os dedos, para verificar se não havia ficado nenhum coquinho preso ali.
– Certo! Que tal comermos logo alguma coisa? Eu tô morrendo de fome! Você não almoçou não, né?
— Não – murmurou o Santo de Aquário. Em verdade, sequer havia tomado café da manhã. Não sentira apetite o dia todo, e tentava não pensar num porquê.
Milo caminhou até uma frondosa oliveira, sob cuja fresca sombra estava estendida uma grande toalha vermelha, e sobre ela, uma cesta enorme.
– O que é isso? – Camus assustou-se com o tamanho – Você trouxe um caixão? Caso não tenha percebido, eu ressuscitei.
– Não faça piadas, ou vai acabar chovendo.
O grego ajoelhou-se perante a cesta e dela foi retirando potes e embrulhos.
– Trouxe sanduíche de pão preto com anchovas, moussaka de cordeiro(*), keftedes(*), presunto cru, pão pita(*), pasta de grão-de-bico, caviar, faisão assado ao molho de mel e alecrim, torta de maçã, baklavás(*), queijo de cabra defumado, esfihas de...
– Quantas pessoas você chamou para este piquenique???
– Ué! Só você! Por quê?
– Você está louco? Para que tudo isso??? – Camus chegava a gesticular, algo que ele NUNCA fazia.
– Eu disse que cuidaria de tudo – retrucou Milo, orgulhoso. Foi quando percebeu uma bolsa de couro na mão do outro – O que é isso? Eu te disse pra não se preocupar com nada!
– Hã? Ah… isto… eu… só uns vinhos para acompanhar... como eu não sabia que tipo de comida você traria, eu...
– Trouxe vários tipos de vinho, né? – arrancou a bolsa da mão do aquariano, confirmando sua suspeita – Sauvignon Blanc, Chardonnay, Merlot, Cabernet Sauvignon... nossa,Camus, você pretende me embebedar?
– Não seja ridículo. Para que eu faria isso?
– Ora... para se aproveitar de mim – e cravou nele, de forma bem provocante, seus olhos azuis claros.
Logo desatou a rir. O aquariano fez um “bico” daqueles.
Milo estendeu outra toalha vermelha, perto dos tentadores manjares, e fez sinal para que sentassem ali. Fizeram a refeição, escolhendo abrir um Merlot. Camus deixou Milo muito feliz ao elogiar sinceramente a comida. Sabia que Milo cozinhava bem, era algo pelo qual ele se interessava desde criança, porém desta vez, havia se superado, e com louvor.
– Que bom que gostou! Quer torta de maçã? Ou baklavás(*)?
— Não, obrigado. Você sabe, não gosto de doces...
— Verdade! Eu adoro! – e abocanhou um bom pedaço.
Sem perceber, era observado de maneira enigmática pelo francês, que ao cabo de alguns segundos, perguntou:
— Você fez TUDO sozinho? Hélida não fez nada?
— A coitada até se ofereceu! Mas hoje eu queria brilhar sozinho – respondeu, tapando a boca cheia com uma das mãos.
– Você sempre quer ser o centro das atenções – sorriu Camus, servindo-se de mais vinho.
– Sim, mas apenas de UMA pessoa.
O francês fingiu não ter percebido aquela “indireta”. E foi logo mudando de assunto:
– Apesar de estar um pouco quente, está um lindo dia.
– Eu hein, não está nada quente... você é mesmo um ser glacial, meu caro. Não vai comer mais nada? Você comeu pouco.
– Você sabe que eu não como muito.
– Verdade! Eu como! – e abocanhou uma esfiha de carne – Mas agora chega...bom, pelo menos tenho o jantar garantido hoje.
– Jantar? Você tem jantar, ceia, e o almoço e o jantar de amanhã!
– Que exagero, Camus, por isso que você é magro assim.
O outro emudeceu. Uma sombra passou por seu coração. Sentiu-se envergonhado diante do corpo hercúleo de Milo.
– Estou... estou tão magro assim? – e, encostado na árvore, mirou as próprias pernas estendidas no solo.
– Nah, estou brincando com você. É que temos quase a mesma altura, diferença de um centímetro, e eu tenho 10 kg a mais que você.
– Oito.
– Você lembra?
Aquário depositou o copo na toalha e abraçou as próprias pernas. O amigo percebeu o súbito mal-estar. Quis morder a própria língua.
– Escuta, você não é excessivamente magro, não...
– Você que é excessivamente forte – completou Camus, meio azedo.
“Reparando no meu corpo, é?”, pensou Milo, deliciado. “Pois bem, repare à vontade... e pra mim, você é extremamente gostoso... magro sim, mas com uma bunda e umas coxas que...” OK, AGORA sentia calor.
Tinha nada que ficar pensando nessas coisas tomando vinho. Entraria em combustão espontânea.
– Você está ótimo, Camus. Foi só uma brincadeira. Você tem o corpo mais bonito que já vi. Sem excessos... nem de mais, nem de menos.
– Quer parar com essa conversa? – retrucou o francês, virando o rosto na direção do rio, pois percebera que estava enrubescendo.
Milo ficou olhando para aquele belo perfil, tão sisudo, tão austero, tão altivo, tão... tão...
– Camus. Que tal treinarmos um pouco?
– O quê?
— Faz tempo que não treinamos aqui, hã? Nunca deixamos as arenas do Santuário.
— Eu não acho uma boa ideia, Milo.
— Por que não? Pelos velhos tempos…
— Além do mais, estamos tomando vinho e...
— E daí? A menos que esteja enferrujado… e com medo de perder para mim.
— Esse jogo não funciona comigo, Milo.
— Não?
Camus desviou do soco com facilidade. Ainda assim, ficou aturdido. O tronco da oliveira foi quase partido ao meio.
– Milo!?
Este girou magnificamente e tentou atingi-lo com um chute. Camus esquivou-se, agora um pouco assustado.
– Pare com isso, Milo, eu disse que... – e teve que dar um salto para trás antes que fosse golpeado, e desta vez ainda com mais seriedade. O escorpiano investiu com tudo contra ele, mas o punho mais uma vez não alcançou o alvo; Camus saltara sobre ele, aterrizando às suas costas. Ofegava um pouco; só se defender era bem cansativo, ainda mais de um oponente tão rápido quanto Milo.
– MILO!!
– Vamos, Camus... vai ficar fugindo pra sempre?
– Eu não estou ... – abaixou-se com presteza, antes que aquele poderoso soco explodisse em seu rosto. Mas desta vez, deu uma rasteira no amigo, que foi ao chão, pesadamente. Camus prendeu-o pelo tórax, imobilizando-o com o braço.
– Já chega, Milo!!! Será possível que você já esteja bêbado? Eu duvido.
Sua resposta foi um sorriso amplo e faiscante. O braço de Camus foi agarrado rapidamente, e ele perdeu estabilidade. Foi a deixa para Milo tentar ficar por cima, jogando-o ao chão. Conseguiu, mas o aquariano não desistiu e ambos ficaram rolando pela grama, lutando pela posição dominante.
– Eu... eu quero saber... – bufou o grego – VAI FICAR FUGINDO PARA SEMPRE?
– EU NÃO ESTOU...
Não pôde evitar que terminasse por baixo de Milo, e com este prendendo-o pelos pulsos. Suas forças quase se equivaliam, e não permitiram um fácil desfecho da luta. Milo acabou se valendo de sua maior agilidade, tida inclusive como a maior dentre os Cavaleiros de Ouro. As vigorosas pernas de Milo, muito abertas por ele estar totalmente sentado sobre seu ventre, cuidavam de imobilizar as suas pernas, e impedir novas tentativas de libertação.
Só se ouvia o som de suas respirações entrecortadas, e do canto das cigarras. O olhar azul-escuro fundiu-se com o olhar azul-claro. As algemas de carne nos pulsos delgados de Camus não afrouxaram, muito pelo contrário. Ambos mantinham entreabertos os lábios enquanto ofegavam, tanto pelo esforço quanto pela reação da fricção entre suas virilhas, extremamente sentida por eles trajarem calças de tecidos tão leves. Camus deixou escapar um pequeno gemido por ter seu pênis pressionado pela posição de Milo sobre ele, que permitia o encontro entre os dois membros. O escorpiano também teve dificuldades em não suspirar... poder sentir o corpo do outro daquela maneira... e tê-lo subjugado, desfeito, com os longos cabelos espalhados pela relva, a boca tentadoramente aberta... aquela visão impedia-o até mesmo de piscar os olhos.
Camus percebeu que Milo tinha plena consciência de sua situação constrangedora. O centro de sua masculinidade fora vivamente despertado pelo peso do mais robusto, do homem que para ele era o mais poderoso símbolo sensualidade e vigor. O desejo estampado no belo rosto do escorpiano fez seu coração disparar ainda mais. Consciente do que estava provocando no francês, Milo provocou-o mais, mexendo levemente os quadris, roçando sensivelmente entre as pernas de Camus. Pareceu-lhe ouvir a respiração acelerada de Aquário, cujos olhos entreabertos não mais transmitiam qualquer vontade de lutar. Mas... tampouco havia entrega neles.
Apertou mais firmemente os pulsos de sua presa, diminuiu a distância entre seus rostos. Camus inconscientemente fechou seus olhos, nitidamente aflito, ansioso.
– Camus... abra os olhos – sussurrou Milo, sensualmente.
– Não... – murmurou o aquariano, num doloroso conflito.
– Certo, então fique com eles fechados...
– NÃO! – respondeu o francês, vivamente, abrindo muito os olhos – Eu NÃO confio em você.
– Que tal se decidir pela primeira vez na vida... “mon ami”?
Os lábios de Milo roçaram levemente sobre os lábios entreabertos de Camus, que permaneceu estático. Pousaram lentamente sobre eles, e por fim, Milo umedeceu-os suavemente com sua língua. Camus fechou os olhos, extasiado, e sem querer, abriu mais a boca, permitindo assim, uma suave chupada em seu lábio inferior, tão devagar quanto provocante. Ele se sentiu queimar, e estremeceu, ouvindo a explosão de seu coração em seus ouvidos. Milo enfim invadiu aquele tão desejado domínio, tomando-o ao seu bel prazer. O aquariano resistiu até onde pôde, mas a pressão em sua virilha, aquela língua em sua boca, aquele corpo sobre o seu, os cabelos sobre sua pele... tudo enfraquecia-o por demais. Já se sentia perdido, seu corpo derretia... entregou-se ao beijo, respondendo com inédita paixão. Quase sem acreditar, Milo recebeu aquela resposta que o incendiou por completo. Aprofundou o beijo, agora entre doce e feroz. A batalha por dominância durou alguns longos minutos, os melhores das vidas de ambos, sabiam disso. Entregue àquele supremo deleite de senti-lo gemer em sua boca durante o beijo ao qual correspondia com tanta ânsia, Milo diminuiu a pressão de suas mãos nos pulsos de Camus. A ereção do outro chocava-se contra a sua própria, e ele queria fazer algo a mais sobre isso. Súbito, o francês fez um movimento inesperado, desvencilhando-se dele. Ergueu-se num salto e, muito vermelho, fez menção de partir.
– Por que está fugindo, Camus? Por que SEMPRE foge?
Camus tentava, em vão, se recompor. Encarou Milo, e respondeu, ofegante:
– Não estou fugindo. Só não... só não deve ser assim. Não está certo...
– Como “não está certo”? VOCÊ QUER! A sua boca diz uma coisa, mas o seu corpo me disse outra coisa!
– Ao contrário de você, eu NÃO sou escravo do meu corpo – rebateu, secamente – O que ele “quer” não necessariamente é o que deve ser feito.
– Merda, Camus – Milo levantou-se, chamas ardendo em seu olhar furioso ao gritar – EU TE AMO! EU TE AMO, MALDIÇÃO!!! Você me ouviu??? Eu AMO VOCÊ, Camus de Aquário!!!!
Os olhos escuros de Camus arregalaram-se por um breve momento. Recuperou a frieza habitual em suas feições durante os segundos que se encararam em silêncio.
– É essa a sua “tática infalível”, Milo? Dizer que ama a pessoa que quer levar para cama? – e um sarcástico sorriso moveu seus lábios trêmulos – a julgar por sua bem sucedida trajetória, sempre achei que usasse de algum método mais original...
– SEU IDIOTA, É A PRIMEIRA VEZ QUE TÔ DIZENDO ISSO PRA ALGUÉM! – gritou Milo, abandonando de vez seu controle, até agora heroicamente mantido. Não podia mais. Chegara a seu limite.
Tendo diante de si o francês emudecido, recobrou o controle de si e de sua voz, enquanto respirava com dificuldade:
– Porque a única pessoa que sempre amei, desde a infância, sempre amei, sempre... a única pessoa que amo... e a única que quero amar... hoje e até o final dos tempos... é você. Camus de Aquário, eu te amo mais do que tudo, mais do que a minha vida... eu...
– Pare, Milo – interrompeu o outro, crispando as mãos e abaixando a cabeça – eu não quero mais ouvir isso.
– Por quê? Por que, eu sou assim tão repulsivo pra você? Não é o que o seu corpo me disse!
– Corpo, corpo, corpo, CORPO! Pra você tudo é corpo, Milo?
– Por que tem medo de mim?
– Eu não tenho medo de você – retrucou, com desdém.
– Pois eu acho que tem.
– Deixe seus jogos para suas “presas”, Escorpião. Até mais. – e virou-se para partir.
Caminhou alguns passos, escoltado pelo silêncio que ali se instalou. Não se deu ao trabalho de pegar nada que trouxera. Só queria ir para longe daquela armadilha na qual quase caíra, daquela infâmia, daquele erro.
– Camus. Eu VOU TER você. Mesmo que tenha que te violentar. – declarou Milo, num tom sombrio.
O aquariano voltou-se para ele, boquiaberto.
– O que você disse?
— O que você ouviu.
O francês encarou-o, de modo desafiador.
— Milo. Você só pode estar brincando.
O olhar de Milo, duro, frio, obsessivo, não aparentava isso. De repente, ele suavizou a expressão e recobrou o sorriso doce e pueril de quando se encontraram.
– É claro que foi uma brincadeira!
Após suspirar aliviado, Camus comentou:
– Sabia que era tudo brincadeira... claro que você jamais faria isso.
– Ei. Eu disse que foi UMA brincadeira. Não que foi TUDO brincadeira.
– Hã?
– A parte de te violentar é brincadeira. A parte de ter, não.
– Zeus. Não imaginaria que ouvir o primeiro “não” de sua vida o deixaria tão insano.
– Insano vai ficar VOCÊ, meu amigo... – e pôs-se a caminhar na direção dele – ... tanto que não precisarei te violentar; porque vai implorar por mim dentro de você...
Dando um passo para trás, Camus tentou ignorar o sinal que aquelas palavras enviaram ao seu baixo ventre. Estava incrivelmente excitado, e o tecido leve de suas calças não escondia nada o fato. Sentia-se envergonhado, e inconscientemente, só conseguia retroceder.
– ... porque eu, Camus de Aquário, vou fazer você sentir tanto prazer que sentirá todas as amarras que prendem esse seu lindo e gostoso corpo caírem por terra, enquanto você estremece com meu toque, se abrindo mais e mais para mim...
– Pare com isso, Milo – balbuciou, sentindo seu baixo ventre formigar. Sem perceber, encostou-se num antigo carvalho. Encurralado.
Não era o Santo mais veloz à toa: Milo segurou-o pelos braços, erguendo-os acima da cabeça. Desta vez sua mão não afrouxaria naqueles pulsos nem que o mundo viesse abaixo. Beijou-o à força, violentamente, enfiando sua perna entre as dele, apertando-lhe o sexo clamante. Um som de protesto foi emitido por Camus, embora sua boca estivesse quente e ávida. Quando sentiu o francês render-se por completo ao beijo, Milo ousou enfiar a mão livre por baixo da camiseta, acariciando-lhe a pele ardente. Passeou pelo tórax, pelas costas, parando na cintura. Um gemido baixo incentivou-o a atacar os mamilos com a boca sequiosa e eficiente. Envolveu-os com a língua, enquanto continuava a acariciar aquele corpo que era o seu Eldorado.
– Milo... – era mais uma súplica do que um chamado, e o grego sabia-o bem. Forçou a barra da calça do outro para baixo, enfiando a mão por dentro da roupa íntima e tomando o membro muito ereto em sua mão direita. Começou a estimulá-lo com maestria, sentindo as defesas de Camus ruírem pouco a pouco. Cuidou para que a estimulação fosse tão lenta e insistente que pudesse incendiar aos poucos aquele homem tão resistente aos seus próprios desejos.
– Camus... ah, Camus... – sussurrou com volúpia no ouvido deste, que parecia já se derreter. Erguia o rosto em busca de ar, os olhos fechados de prazer, prazer advindo de seu pênis massageado pela mão forte e experiente de Milo, prazer advindo da voz quente e macia em sua orelha, prazer advindo da proximidade daquele corpo másculo e perfeito que ele sempre desejou em doloroso segredo. Camus achou que poderia morrer só com aquilo. Suas barreiras foram se desmantelando ante a delícia do momento. Sua boca recebeu mais uma vez a boca de Milo, e ele percebeu que fora o outro, e não ele, que desta vez interrompia o beijo... mas por quê?
Então entendeu... Milo desamarrava a cordinha que prendia a calça de algodão no corpo do francês. Este teve a cueca rasgada na unha! Engoliu em seco ao ver o escorpiano se abaixando, posicionado entre suas pernas ligeiramente afastadas.
– Milo, NÃO! O que...
– Shhhhh... você vai ver que minha profecia vai se cumprir...
Segurou o membro extremamente enrijecido de Camus e pousou ali a língua, fazendo-a deslizar preguiçosamente e enviando quentes ondas de energia à espinha de Aquário, que abriu mais as pernas.
“Nem precisei pedir...”, pensou Milo, embevecido. Circundou a glande com a língua, e em seguida as bolas, chupando-as devagarinho, deliciando-se com os gemidos chorosos e exigentes do outro. Enfim, abocanhou o pênis do francês com fome reprimida de anos, fazendo movimentos de vai e vem, premindo muito levemente os lábios na extensão túrgida e pulsante. Enviava ar quente com sua respiração controlada.
– Aaaahh... Milo... – gemeu Camus, as pernas fraquejando pelo imenso prazer.
O grego sugou-o com urgência, fazendo-o morder os lábios com força para não gritar. Os dedos de Milo que passeavam pelas rijas coxas agora traçaram um caminho até o meio de suas nádegas, posicionando-se entre elas. Apenas ficaram ali, estacionados, proporcionando ao aquariano uma sensação inédita, que o fazia arquear as costas para a frente. O grego roçou um dedo na entrada, e enfim arriscou uma invasão. Camus retesou um pouco, mas o intenso prazer proporcionado ao seu falo ocupou-o mais e ele permitiu aquele desconforto, em troca do sublime estímulo frontal. Poderia até aguentar mais um dedo... como agora...
– Aaaahh! Mi-Milo... o que... d-dói...
Milo não lhe deu ouvidos. Sabia que uma sucção mais forte, quente e inspirada seriam a recompensa que o faria resistir.
Por sua vez, Camus temia desmaiar. As sensações eram muito intensas, ele sentia todo seu interior sendo tomado por uma espiral de energia que ia se avolumando e se concentrando nas regiões periféricas de seu corpo prestes a sofrer um colapso: no pênis, onde residia a boca faminta de Milo, a aspirar sua sanidade, e em seu ânus, que recebia os dedos do escorpiano, bailarinos circulares, desbravadores daquela terra virgem... e que então tocaram um determinado ponto que fez com que um raio de prazer o trespassasse. Nunca sentira nada igual. Tremia convulsivamente. Agora queria explodir. Agora queria morrer. Se morrer era assim, despedia-se da vida de bom grado, novamente.
– AAAHHH! MILO! O que é... oh, Zeus!!!
O clímax batia à sua porta. Ele se abriu mais, se jogou mais, se contorceu mais, gemeu mais, agarrou mais os cabelos arroxeados, os pulsos já libertos, mas sem vontade de fugir, apenas de se agarrar, de se segurar... naquele que, subitamente, abandonou seu membro, seu corpo. Sentiu também os dedos perscrutadores abandonarem seu interior palpitante e ansioso. Quase gritou de frustração. Fitou Milo com ódio surdo, respirando muito forte. Milo cingiu-o pela cintura, com o sorriso mais sarcástico que já vira, os lábios brilhantes pela presença de seus fluidos ali.
– Diga, Camus.
– ...
– Você sabe o que tem de dizer – murmurou em sua boca.
– O que... o que tenho que dizer?
– Você sabe.
Ele estava à beira de um colapso. Tremia muito, e fluidos de prazer interrompido aqueciam-lhe a pele, entre as pernas, descendo-lhe pelas pernas trêmulas. As ondas de energia ainda ferviam-lhe no interior de seu baixo ventre, represadas, bloqueadas, exigentes em seguir seu curso. Era quase uma dor.
– Eu... e-eu não posso, Milo – pousou a cabeça no ombro do grego, angustiado.
– Por que não?
— Você sabe... e-eu... eu nunca... nunca...
Foi calado por um ardoroso porém carinhoso beijo. Milo olhou fundo em seus olhos úmidos de desespero e paixão.
– Eu sei, meu anjo. Confie em mim. Apenas... DIGA.
– Eu... eu quero você, Milo. Dentro de mim. Sempre quis!
Ouvir aquilo foi a maior das glórias de uma vida de guerreiro do Escorpião. Milo tratou de fazê-lo gozar antes de sua maior empreitada já efetuada. Após um beijo apaixonado, retornou à posição anterior, e tomou aquele pênis latejante que clamava por alívio, ao mesmo que voltou a massageá-lo por dentro com seus dedos. Não demorou muito, Camus depositou seu farto gozo quente na boca de Milo, chegando a bater a cabeça na árvore ao jogá-la nervosamente para trás.
Milo jogou-o no chão e pôs aquelas pernas trêmulas acima dos ombros, posicionando seu falo duro como pedra na entrada já ansiosa de Camus. Abraçou ternamente e disse:
— Não digo que não vai doer… mas não será por muito tempo – e beijou o amigo, delicadamente.
— Não temo a dor, Milo – respondeu o aquariano, fracamente, porém a Milo soou tão sensual que
Sua primeira estocada foi mais enérgica do que planejara. Percebeu a expressão de dor de Camus.
– Está doendo muito?
— N-não importa... continue...
— Claro que importa! Eu… – e foi a vez de Camus calá-lo com um beijo profundo, imperioso.
Cumpria-se a profecia do escorpiano: ele implorava… e Milo atenderia.
As estocadas cadenciadas acabaram por tocar aquele ponto inebriante que fazia o francês agarrá-lo mais firmemente, que deixava sua boca mais mole, seus gemidos mais lânguidos. O grego amou-o com desejo temeroso a princípio... um sonho que se realiza por vezes é quase tão assustador quanto a falta de expectativa de realizá-lo... embora de maneira diferente.
– Camus... eu te amo... – balbuciou com dificuldade, antes de aumentar a velocidade das estocadas. Voltou a masturbar o amigo, no afã de potencializar aquele deleite.
– Milo!!!
– Camus... uuhhnn... – cerrou os dentes ao sentir os músculos contrairem-se com força ao redor de seu vigorosos pênis, sentindo-se sugado para aqueles domínios há tanto almejados. Sentiu-se explodir dentro do corpo do amado, abraçando-o fortemente durante o violento orgasmo. O maior, o mais mágico, o mais incrível de toda, toda sua vida. Ao ver o escorpiano com o rosto contorcido de inefável prazer, ao ouvir seu grito exultante, Camus não resistiu e gozou mais uma vez, batizando o corpo dourado do outro e do seu mesmo com espessos jatos de sêmen.
Escorregaram, exaustos, largando-se na relva macia, e ali ficaram, abraçados sob o manto do crepúsculo. As respirações entrecortadas, as mãos entrelaçadas, os olhares trocados... Milo tinha os olhos úmidos de felicidade. Puxou o amigo para si, amorosamente, apoiando-o em seu peito largo e forte.
– Tudo bem?
— Sim…
Ficaram um longo tempo em silêncio. A noite caía rapidamente.
– Melhor voltarmos – propôs o aquariano.
– Camus.
– O que é?
— Fique comigo.
— Esta noite?...
— Para sempre.
Camus encarou-o na penumbra daquele fim de dia. Sentia-se exausto. Quente. Confuso. Tenso.
— Milo...
— Eu já disse que te amo! Não quero mais viver sem você, Camus, não me obrigue a isso, não depois do que aconteceu! Resisti todos esses anos, mas agora que soube o que é ter você... o que é estar em você... eu prefiro morrer a ter que viver sem ter isso de novo.
Camus sorriu, um sorriso entre fraco e doce.
– Milo... sempre tão efusivo....
– Como não ser, em relação a você? Sempre foi meu maior sonho.
O francês mirou-o, por baixo de suas pálpebras quase cerradas. Murmurou, um pouco sem-graça:
– Acho que quero um pouco de vinho.
– Vou pegar! – num instante Milo trouxe uma garrafa e dois copos.
– Vamos brindar, Camus.
– A quê? – quis saber, sentando-se ereto.
– À nossa nova vida – sentenciou o grego, encarando-o com adoração. Camus estremeceu. Uma imensa ternura invadiu-o, mas ele não demonstrou. Antes suspirou com enfado e disse:
— Não vamos nos casar…
— Quem pode garantir?
— Por favor…
— Quem sabe não seria uma boa, hein?
— Ir devagar não está em seus planos? – suspirou Camus, genuinamente fatigado.
— Não peça a alguém que esperou 16 anos para ir devagar! – e tocou suavemente sua taça na taça do francês. Camus achou que aquele sorriso ofuscou totalmente a lua e as estrelas que vieram recepcioná-los.
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