Grilhões Eternais
10 Grilhões Eternais
Notas iniciais
Um mês havia se passado desde o dia do piquenique. Milo e Camus estavam finalmente juntos, ainda que não “oficialmente”, à maneira de Afrodite e Máscara da Morte, Aioria e Marin, e recentemente... Shaka e Ikki! O relacionamento destes dois últimos não consistia, exatamente, em uma grande surpresa: no dia da festa de Athena, nenhum deles se preocupou em disfarçar o que estava acontecendo, chegando ao escândalo de Virgem aparecer no treino dois dias depois cheio de marcas de chupões no pescoço... e ainda trocar olhares sugestivos com o sempre presente Fênix, a média distância da arena, sorrindo-lhe de forma tão sacana que constrangia alguns cavaleiros ali presentes.
Por mais que julgassem o contrário, a paciência poderia ser listada como uma das virtudes de Milo. E o respeito também. E tudo por seu adorado francês, a quem tinha nos braços naquele momento, imerso na grande piscina do Templo de Aquário. De fato, era uma das menores das Doze Casas, porém possuía em seu interior uma bela piscina cuja profundidade máxima chegava a seis metros. Acima havia uma cúpula ricamente trabalhada em arabescos dourados, e ao redor níveas colunas de mármore.
Os dois amantes encontravam-se abraçados, apoiados em degraus dentro da piscina, com metade dos corpos fora da água. Por Milo, Camus não deixara a temperatura baixa como gostava. O grego odiava água fria!
– Por Zeus, Camus... – desmanchava-se Milo, beijando-lhe o pescoço por trás. os longos cabelos de Aquário, jogados para frente, serpenteavam pelas águas cristalinas, mesclando-se às mechas flutuantes de seu amante – ... assim você acaba comigo... como pode ser tão frio por fora e tão incrivelmente quente na hora de fazermos amor? Você está me saindo um deus do sexo... daqui a pouco perde a fama de “cubo de gelo”...
– Eu tenho um professor muito, muito experiente...
A resposta pretendeu ter um tom jocoso. Contudo, não agradou muito ao seu interlocutor. O grego parou de passar os lábios pelos ombros molhados do aquariano e pousou ali o queixo, como que subitamente desanimado.
– Você vai ficar sempre trazendo isso à tona?
– Sim. É a sua penitência por ter sido tão promíscuo. – rebateu, neutro.
– Eu tinha razões para ter agido assim por todos esses anos. Quem eu queria não me queria.
– Não me lembro de você empreender alguma tentativa mais incisiva do que tentar me provocar ciúmes.
Não havia ressentimento, tampouco mágoa ou rancor naquela voz. E isso intrigava ainda mais o escorpiano. Afinal, a mensagem o outro queria passar...
– E como poderia? – agora Milo se afastou um pouco dele – Havia quase que literalmente uma parede de gelo entre mim e a TAL pessoa, entende?
E dando vigorosas braçadas, nadou para a parte mais funda. Precisava se distrair para não se aborrecer com mais uma das inúmeras vezes em que o francês lhe jogava na cara seu passado de “garanhão”. Certo, nem era um passado tão distante assim... mas será que o aquariano não entendia que agora que ele tinha tudo o que sempre quis... NUNCA mais seria daquele jeito? Olhou para trás. Camus boiava, muito relaxado, apenas o belo rosto na superfície. Ouviu sua voz ecoando no recinto:
– Havia uma razão para a existência da parede de gelo entre você e a TAL pessoa.
– Sim, eu sei... o grande cavaleiro de gelo não poderia ter sentimentos, até mesmo em prol da manutenção do seu cosmo gelado – retrucou, nadando de volta para onde o namorado estava. Reparou seu semblante distante, perdido no alto da abóbada. Alcançou-o e encarou-o por cima dele.
– Camus. O que seu mestre fez com você quando te viu lendo a carta que enviei?
Treinara aquela pergunta dias e noites, e ela sempre vinha cercada de rodeios em seus treinos. Não foi bem assim que saiu, no final das contas.
Arregalando os olhos cobalto, Camus saiu de sua posição relaxada; ficou de pé e franziu fortemente as sobrancelhas.
– Hyoga... como se atreveu? – falou, a voz baixa de raiva.
– Não culpe o garoto...
– Ele não tinha o direito!!! – vociferou. Milo engoliu em seco. Percebeu que pisava em um território perigoso.
– Camus, calma... Eu toquei no assunto de cartas... sei lá por que... quando você... você... – nem gostava de lembrar daquele dia.
O francês ficou de costas para ele. Sentia-se a tensão emanando dele. Com muito cuidado, Escorpião aproximou-se dele, fazendo menção de tocar seu ombro. Achou melhor não fazê-lo. Firmou a voz, e muito sério, continuou:
— Não fique com raiva dele. Se soubesse como ele te ama, você não ficaria assim. Ele não contou por mal.
– Eu sei – murmurou, virando o rosto.
– Eu te fiz uma pergunta. Você não quer responder. OK. Assunto encerrado! Só fiquei pensando que isso poderia ser a razão de muitas de suas maneiras de agir, e que pudesse enfim se abrir para mim sobre o que houve...
– Se não gosta de minhas “maneiras de agir”, por que quer ficar comigo?
O grego mirou-o, surpreso.
– Droga, Camus... não é nada disso! Você... você acha que eu NÃO gosto de como você é? – passou a mão pela testa, já cansado daquela peleja verbal – Olha... beleza. Não responde. Desculpa. Desculpa, tá? Não pergunto mais.
Dirigiu-se para a escada de saída da piscina, deixando o amante ali, fechado, de costas para ele. Antes de subir, virou-se para vê-lo. Milo já tinha o semblante tranquilo ao ponderar “Ele tem o tempo dele” . Respeitaria isso. Deixaria as coisas mais leves para seu amigo, que já tinha tanto peso em sua existência.
– Vamos! Vou fazer um drink pra gente! De abacaxi, bem refrescante! – anunciou o grego, sorrindo animadamente – E prometo que desta vez não vou colocar muita...
– Grilhões Eternais.
Milo calou-se, sem entender. Então disse:
— O quê?
Lentamente, Camus voltou seu rosto para ele. Havia uma sombra inédita ali.
Não. Inédita não. Milo já havia visto aquela sombra no semblante gélido do amado.
Há dois anos. Numa noite. Numa boate.
– Quando suas cartas chegavam, meu mestre as atirava ao fogo. Dizia que um cavaleiro do gelo só deveria ter vínculo com o dever de lutar pela justiça e pela paz no mundo. O amor de um Santo deveria pertencer somente à humanidade e à Deusa. E pelo bem do cosmo gelado, um Santo do Gelo tinha a obrigação de ser ainda mais desapegado do que os demais.
“Até essa parte, Hyoga me contou”, pensou o escorpiano, aflito. Ele previa que alguma revelação estava prestes a ferir seu coração. Muito. Camus continuou, sem encará-lo demais.
– Das primeiras vezes, como era uma criança ainda, revoltava-me. Tentava impedi-lo. Então ele me esmurrava com violência. Ou atirava-me com força contra a parede.
O grego entreabriu os lábios. Seus punhos crisparam-se debaixo d’água. Foi-lhe penoso resistir a falar algo. Mas deixou o outro prosseguir:
– Em pouco tempo, eu não mais tentava impedi-lo. Era obrigado a vê-lo queimar minhas cartas. Contudo... ele ainda via raiva e revolta no meu olhar. Mesmo quieto, meu olhar FALAVA... e se REBELAVA... era o que ele dizia. Assim, passou a simplesmente me esbofetear. Após algumas vezes, eu... já conseguia ver aquela cena sem demonstrar ódio... e as agressões cessaram. Tempos depois... não era mais questão de não demonstrar: eu REALMENTE não sentia mais ódio.
Calou-se por uns instantes, incerto de seguir em frente naquela revelação. O silêncio e o olhar cúmplice de Milo incentivaram-no.
– Muitas cartas chegaram e eu... nem mesmo as queria mais. Meu mestre continuou jogando-as na lareira, muito satisfeito por ver que eu superara aquele... sentimento. Eu olhava aquela cena como quem vê alguém jogar um inseto morto pela janela.
– Camus... – o escorpiano sentiu os olhos se enchendo de lágrimas. Num esforço sobre-humano, conseguiu segurá-las. Não desceriam... não o permitiria. – sim, continue...
– Porém, certo dia, uma carta chegou. E meu mestre não estava em casa. Eu a deixei sobre a mesa, para que ele a queimasse, e se orgulhasse de mim, por eu mesmo entregá-la para isso. Muitas horas se passaram, tinha havido uma terrível tempestade... eu julguei que por causa disso, ele não conseguiria chegar naquele dia – sorriu, sombriamente – pensamento de criança, não é? Uma tempestade de neve deter um Cavaleiro de Prata...
Inconscientemente, o grego mordeu os lábios, ansioso, tenso.
– Quando ele me viu lendo a carta... bom... ele me espancou até que eu perdesse a consciência. Quando voltei a mim, estava numa caverna... preso por algemas e correntes de gelo ligadas à rocha, mas não era gelo comum... era o “gelo eternal”, o mesmo de que é feito o meu Esquife de Gelo. Tratava-se de uma técnica única de meu mestre, chamada Grilhões Eternais. Dizem que puniu incontáveis pessoas daquela maneira.
Milo sentiu as pernas amolecerem debaixo da água. A respiração faltou-lhe por uns segundos.
– Eu estava muito ferido... aos 10 anos já controlava o ar gelado mas... mas não a ponto de não sentir nada. Controlava o suficiente para não morrer. Mas ainda sentia frio. Muito frio... e muita dor. Precisava concentrar meu cosmo o tempo todo para não sucumbir ao frio glacial...e para não deixar os Grilhões Eternais queimarem meus pulsos e tornozelos. Bom, com certeza, nem mesmo o mestre fez isso para que tal acontecesse... o fez apenas para me punir...
“Escuro... o frio... o medo... a dor... a solidão... as algemas eram como mandíbulas famintas de uma fera selvagem... eu queria chorar?
Eu chorei?
Eu não me lembro.
Eu tinha medo de chorar... e de os olhos perscrutadores na escuridão me punirem por sentir...”
– Punir? Você chama isso de “punir”? – vociferou Milo – Eu chamo de TORTURA! Os mestres têm direito de punir, castigar até, não de torturar, Camus!!!
O francês o olhou, espantado.
– Por Athena, Camus. Por quanto tempo você ficou nessa caverna... sentindo frio... dor... sem comer.... sem dormir...?
— Três dias.
— Três... três dias?!
Ficou horrorizado pela história, e mais ainda por ver que Camus assentia com naturalidade, até... até com um meio sorriso!
– O mais desagradável era urinar nas calças. Tive que desenvolver uma técnica para, ao contrário, não deixar congelar a...
– PORRA, CAMUS! VOCÊ TINHA 10 ANOS! 10 ANOS! ERA SÓ UMA CRIANÇA!!!
Sem perceber, Milo gritava. Camus voltou a ficar sério.
– Nós, Cavaleiros, não somos mais crianças aos 10 anos.
– Que maldito!!! E... e ele já morreu, não é? Uma vez você me disse isso. Foi até no funeral do filho da puta.
– Sim.
– Se ele estivesse vivo – Escorpião cerrou os olhos com força, sem se importar mais com a libertação do pranto – eu teria ido atrás do maldito em qualquer lugar do mundo para fazê-lo pagar!!!
Socou a superfície da água, fazendo erguer uma verdadeira muralha de água.
– Maldito... maldito seja... onde estiver... espero que seja no inferno... – deixava agora as lágrimas caírem livremente. Seu peito iria explodir se não o fizesse.
Camus sentiu-se dolorosamente enternecido. Disse, num tom baixo e suave:
– Milo... isso é passado.
– É passado. Mas você sofreu. Fez você se fechar pra mim.
– FEZ. Não faz mais. Acalme-se...
Milo soluçava como uma criança. O aquariano entristecia-se de vê-lo daquela maneira. Uma lembrança desagradável, porém apenas um dos pilares da fortaleza gelada dentro da qual ele se refugiara por anos. Não tinha sido tão traumático, tinha? Quantos aspirantes a cavaleiro não haviam passado por situações semelhantes, ou até piores? Afinal, alguns até morriam! Claro, havia a questão de que tudo aquilo fora causado por seu amor...
“SIM, SEU AMOR.
NAQUELA CAVERNA...
Havia amor, Camus? Ou havia a força? O cosmo? A resistência?
Diga, Camus? O que o salvou dos três dias naquela caverna escura, gélida, silenciosa como um túmulo, inóspita como o inferno?
Foi o amor?
O que o salvou foi sua FORÇA. Sua resistência. Seu cosmo.
ONDE ESTAVA O AMOR?”
– Camus?
O chamado de Milo trouxe-o de volta. Sua mente vagara junto com aquela voz rascante, profunda como pesadelos sem imagens. Encarou o belo rosto moreno ainda banhado de lágrimas. Ergueu a mão para ele, enxugando-lhe as cascatas.
– Você chora demais, Milo.
– E você de menos...
– Só de prazer, você bem sabe... – provocou, querendo arrancar o outro daquela dor intrusa que viera nublar seus momentos deliciosos, aliviar a atmosfera – ... prazer que você me dá.
O grego sorriu, fracamente. Abraçou-o carinhosamente e beijou aquela boca cativante. Sentiu um dedo gelado sobre seus lábios, após ter o beijo subitamente interrompido pelo francês.
– Me faz chorar de prazer... e sem precisar me amordaçar ou me amarrar para isso... – sussurrou bem perto da boca de Milo. Este arregalou os olhos, muito surpreso.
– QUÊ?! SEU…VOCÊ...VOCÊ SE LEMBRA?
Afetando indiferença, Camus afastou-se dele, sorrindo sarcasticamente. Jogou a cabeça para trás, mergulhando o couro cabeludo.
– CAMUS! Você... você NÃO esqueceu o que aconteceu naquela noite em Rodório?...
– Não. Nunca esqueci – e voltou a boiar, como se não tivesse dito nada de mais.
– Por que FINGIU que não lembrava?
– Eu não podia admitir... era vergonhoso demais... e desonroso para um cavaleiro.
– Ora, seu... – Milo avançou no aquariano, que até tentou escapar, mas não teve chance contra o ataque de um escorpião em fúria, que o agarrou dentro d’água. Camus se debateu, rindo. O grego o agarrou, posicionando firmemente uma das mãos debaixo dos joelhos e passando a outra por baixo das costas, apoiando-se nas axilas. Num salto, saiu da piscina ainda com o francês no colo. Ambos nus. Caminhou para fora da área de lazer, apavorando um pouco o Santo carregado como uma noiva em lua-de-mel.
– Milo! Me põe no chão!
– O CARALHO.
– O que vai fazer?
– Eu vou te castigar por essa farsa, Senhor Mago da Água e do Gelo.
– Para com isso! Me põe no chão!
– Não, Camus. Sério, você VAI TER que pagar.
Com agilidade esperada apenas de um Santo de Ouro, o escorpiano subiu pelas escadas de mármore, sem escorregar um milímetro. Adentrou os suntuosos aposentos do amigo e o atirou sem a menor cerimônia no imenso leito com dossel.
– Já chega, Milo, isso é um...
– RESTRIÇÃO!
E num milésimo de segundo, o corpo do Cavaleiro de Gelo fora paralisado pela técnica do escorpiano. Doeu um pouco, mas a estupefação foi maior do que a dor.
– Milo! Não pode usar seus poderes sem necessidade assim!
– A vingança será igualitária, “mon amour”. Naquela noite você tentou usar seus poderes contra mim também, lembra? Oh, sim. Você SE LEMBRA de tudo – retrucou, com seu típico sorriso sarcástico, arrancando as cordas que prendiam as cortinas do dossel.
– Sabe que posso me libertar.
– Sei, mas não vai – e continuou arrancando o que queria, ajoelhado por cima do aquariano, as pernas abertas, uma de cada lado do corpo do outro, que sufocou um gemido ao sentir suas virilhas molhadas se encostando.
– Droga, Camus, por que insiste em ter a cama de uma princesa de contos de fadas? – indagou, se atrapalhando um pouco com a última corda.
– Ao contrário de você, EU prezo as tradições.
– Não vai ter a mesma opinião depois de eu te foder de um jeito pouco tradicional.
– Milo! Que vulgaridade – fez uma expressão de desprezo que só arrancou risos do escorpiano, ocupado agora em amarrar os pulsos de Camus, bem como seus tornozelos, em cada uma das colunas nas extremidades da cama, de modo que ele ficasse bem aberto, à disposição do amante.
– Meu francês, você é muito culto e fino, mas certamente vai aprender que tem um corpo feito para o prazer... – e concluiu em um de seus ouvidos, bem sensualmente – mesmo que eu lhe diga as palavras mais vulgares...
O Santo de Aquário virou o rosto, incomodado. Não lhe agradava aquele tipo de coisa, não mesmo! Ele nem ao menos xingava.
– Quer ver a prova? – Milo sussurrou, novamente ao ouvido, enviando-lhe intenso calor – Quando você vai gozar mais forte pra mim? Quando eu chupar seu pau até você ficar rouco de tanto gemer , ou quando eu enfiar este meu pau duro de tesão nesse seu anelzinho quente e apertado?
A respiração de Camus tornou-se instantaneamente rápida. Ao olhar para o meio daquelas pernas rijas e bem torneadas, Milo viu a comprovação de sua teoria: o sexo do aquariano já ficava ereto... a este só restava ficar com vergonha, e fechar os olhos. Corou violentamente. O grego achou a coisa mais deliciosamente encantadora do universo.
– Desta vez não vou te amordaçar, caro amigo – anunciou Milo, pegando uma echarpe de seda negra pendurada no armário do quarto – Não. Eu quero ouvir cada um de seus gemidos, dos gritos que certamente farei você dar.
– O quê?...
Escorpião rapidamente vendou sua presa, que engoliu em seco, quase em temor genuíno.
– Milo...
– Camus... você vai me pagar.
Colou seus lábios aos lábios frementes do outro, enquanto acariciava-lhe o torso, os braços estendidos, que prontamente se arrepiaram, o abdômen definido. Chegou a arranhar-lhe o peito arfante de aflição e desejo. Explorou cada canto daquela boca cujo sabor em muito superava o mais doce fruto da Terra. Terminou por mordiscar os lábios macios como pétalas de rosa. Camus suspirava, alucinado e alucinando Milo com aquele deleite. O grego debruçou-se mais sobre ele, passando a língua de leve pelo pescoço, pelas omoplatas, e descendo até os mamilos enrijecidos do francês, que se esforçava em sufocar seus gemidos. Milo riu daquela atitude orgulhosa. Passou a aspirar os mamilos, alternando com lambidas lascivas. Sentiu o corpo abaixo do seu se contorcer levemente. Chupou-os com mais ânsia, ao mesmo tempo em que sua mão deslizava, rumo ao ventre do aquariano, que subia e descia convulsivamente. A expectativa aumentou o tremor que se abateu sobre o subjugado. A mão, porém, cuidou apenas de passear pelo interior daquelas coxas firmes, acariciando as carnes rijas e desprezando o membro latejante. Aquilo potencializou a agonia de Camus, que desta vez deixou escapar um sonoro gemido.
– Aaaahh...
Milo controlava-se com bravura; sua vontade era entrar logo naquele corpo ardente , uma vez que seu próprio corpo clamava por alívio, tal era o desejo que o consumia. A vontade de torturar o amado, no entanto, suplantava tudo. Abandonou os mamilos intumescidos e voltou aos lábios sequiosos do amante, beijando-o demorada e apaixonadamente, deliciando-se em ouvi-lo gemer baixinho durante aquela batalha por dominância. Mirou o belo rosto, cujos olhos por trás da venda negra certamente estariam úmidos. Os cabelos que pareciam mais escuros por estarem molhados contrastando com alvura dos travesseiros e lençóis. Notou-lhe a respiração entrecortada. Uma linda e excitante imagem.
– Camus... você é meu – murmurou, passando as mãos pelos braços estendidos, cujos pulsos permaneciam firmemente imobilizados pelas cordas. Percebeu que ele crispara fortemente os punhos. Mais um pouco, machucaria as palmas com as unhas. Ergueu-se, foi até o pé da cama e posicionou-se entre as pernas muito abertas do francês, igualmente imobilizadas. Só esse movimento fez Camus tremer mais. Este sentiu as mãos firmes agarrando-lhe as coxas, e a respiração quente sobre o seu sexo. Não pôde evitar um murmúrio ansioso:
— Mi-Milo… – não ver a cena triplicava-lhe a ansiedade e o desejo, por mais que quisesse ver o lindo rosto do namorado. Deveria estar extremamente sedutor neste momento.
Os polegares do escorpiano traçavam círculos no interior das coxas, subindo até muito próximos do pênis suplicante. Milo aproximou dali sua boca sequiosa. Primeiro, um toque úmido, muito leve, quase sem encostar.
– Uhnnn... – ouviu o amante já começando a delirar. Em seguida, sua língua pôs-se a explorar aquela extensão fervente, ereta e pulsante. Provocou-o fazendo movimentos circulares com a ponta da língua na glande, recebendo em troca gemidos mais aflitos. O grego segurava nas mãos o falo túrgido do amigo pela base, fazendo lentos movimentos como estocadas suaves. Camus ergueu um pouco os quadris, buscando mais contato com aquela cavidade úmida, que agora o engolia e aspirava, e aumentava gradativamente a pressão da sucção. Milo espalmou as mãos no ventre do amado, silenciosamente ordenando que parasse. Isso provocou um grunhido impaciente. Chupando-o com extrema maestria, o grego temeu fazê-lo gozar logo, tamanha a excitação que os sons e a linguagem corporal do francês denunciavam. Sua boca subia e descia, engolia e abandonava, para em seguida tomá-lo com ainda mais fome lasciva, deliciando-se com o pré-gozo que o sexo ardente de Camus vertia.
– Milo!!! Aaaahh... não... eu... vou... AHH!! – derramou-se na boca do grego, seu corpo presa de espasmos provocados pela violenta corrente elétrica de prazer que trespassou suas entranhas.
Ofegava muito quando sentiu um certo peso sobre seu peito. Milo ajeitava-se sobre ele, ajoelhava-se sobre o seu rosto para... sentiu o grande membro do escorpiano forçando sua boca trêmula. Como queria tocar aquelas coxas, aquelas nádegas abertas sobre si! Podia sentir o calor daquele interior... Forçando em vão as mãos presas, só lhe restava...
– Camus... – suspirou Milo, ante a delícia de ter seu sexo lambido, chupado, sugado por aquele homem subjugado, imobilizado sobre o seu corpo – ...aaaaaaahhh...
Enlouquecido, Escorpião jogava a cabeça para trás, os longos cabelos azuis a acariciar a pele nua do outro. O francês demonstrava, de fato, ser exímio aprendiz: controlava habilmente a respiração e os movimentos fortes de sucção, intercalando com lambidas profundas e provocantes. Inconscientemente, Milo balançava sua virilha para frente e para trás, entregue àquela situação inebriante. Sentia-se queimar, prestes a explodir, um prazer tão intenso que era quase palpável. Espirais de energia moviam-se em seu interior, conduzindo-o ao momento do clímax. Camus imprimiu mais força na sucção, maliciosamente conduzindo através de sua boca um pouco de ar gelado. Isso foi o bastante para que Milo desse um grito, e simultaneamente, fosse levado a um orgasmo monumental, despejando seu gozo na boca ávida abaixo de si. Sentiu que ele lambia tudo que ali ficava, tudo que não conseguira engolir.
– Zeus... Camus... NOSSA – murmurou, atordoado pelo êxtase. Chegava a ouvir um zumbido na cabeça. Beijou a boca do aquariano, provando um pouco de seu próprio gosto.
Desamarrou-lhe os pulsos e em seguida, os tornozelos. Virou-o de bruços, puxando-lhe os braços acima da cabeça, enquanto o beijava pelas costas, pelos ombros. Camus sentiu que Milo amarrava seus pulsos novamente. Fez um ruído de dúvida e protesto, ao que o amante respondeu:
– Shhh. Seu castigo ainda não acabou.
Com as mãos firmes, afastou as nádegas de Camus, que tremeu vivamente.
– O quê? Não, Milo...!
Sentiu os polegares inserindo-se no interior das carnes, afastando-as da entrada almejada. Gemeu baixinho, mas em seguida gemeu alto ao sentir a língua quente de Milo a passear pela frestinha.
–Meu Zeus, Milo!!! – e gemeu mais, pois a língua do amado fazia movimentos frenéticos na membrana sensível, para cima, para baixo, para os lados, circulares, perpendiculares... uma verdadeira tortura. Enfim, ousou introduzir-se mais, conquistando aquele interior cálido e apertado. O grego ensinando o que era um beijo grego, pois sim.
– MILO! Pare! O que... o que está fazen... aaaaahhhn!! – a sensação devastava sua sanidade, seu equilíbrio. Parecia que iria explodir a qualquer momento. Arrebitou-se mais, tentando ainda mais o outro, que se aproveitou daquilo para tomar-lhe o sexo ainda duro pelas sensações inebriantes. A língua do escorpiano estocava-o a tal ponto que Camus quase gritou. Só havia uma coisa a fazer:
— Milo! Eu… eu quero você... agora!!!! – suplicou, enlouquecido.
Isso foi demais para o grego, que já experimentava uma certa dor no baixo ventre de tanto se controlar. Nem seria necessário o uso de lubrificante desta vez: gozo e saliva cuidaram de facilitar a preparação necessária. Os dígitos de Milo invadiram o ânus, sob baixos gemidos de dor: um, dois dedos… movimentos circulares… movimentos de tesoura… três dedos, um suspiro entrecortado, dentes cerrados suportando tudo pelo que viria a seguir... aquele ponto... gemidos ensandecidos de Camus... a partida dos dedos, o gemido choroso... o francês foi abraçado firmemente por Milo, que começou a penetrá-lo, bem devagar, dando tempo de o amante se acostumar. Moveu-se de forma a encontrar a próstata com seu membro duro como pedra, e quando o fez, Camus gemeu:
– Aaaahhhnnn... Milo... uhng...Milo...
– Camus... oooh... como... como eu te amo! Isto é o céu! – e agarrou-o com mais força por trás, unindo mais seus corpos, lambendo e mordendo seu ombro e pescoço. Moveu cadenciamente os quadris, estocando-o deliciosamente. Notou que o outro passou a se mover mais, chegou mesmo a rebolar, e aquilo o deixou em chamas. Aumentou a velocidade das estocadas, agarrando-se mais e gemendo em seu ouvido. Tomou-lhe o pênis abandonado, bombeando no mesmo ritmo frenético, estimulando-o ao mesmo tempo em que esmagava a próstata de Camus com seu sexo.
– Milo!!! Eu vou gozar!
– Eu também, meu amor, vamos juntos... goza pra mim... goza...
Os músculos de Camus contraíram-se fortemente ao redor do pênis de Milo, que nem se importou em conter o grito exultante. O corpo de Camus mais uma vez foi tomado de espasmos, e ele gozou com força ainda mais surpreendente, juntamente com Milo, sentindo assim seu interior se inundar do sêmen do amante, o seu própria a se derramar naquela mão hábil, num jatos fervente e abundante.
O escorpiano tombou sobre o amante, completamente exausto, ambos ofegantes.
– Por Zeus, Camus... assim você acaba comigo...
– É a segunda vez hoje que... que você diz isso...
– Não é a terceira? – beijou-o no ombro, carinhosamente. Camus tentava recuperar o ritmo normal da respiração, não sem dificuldade. Teve os pulsos desamarrados, e em seguida beijados pelo grego. Foi puxado para junto do peito moreno deste, que o enlaçou prontamente.
– Eu te amo muito, sabia? Eu te amo, Camus...
Este tão somente pressionou seus lábios sobre os lábios do namorado, que pensou:
“Você não consegue mesmo dizer, não é, Camus?”, e imprimiu mais paixão ao beijo. Seria paciente. Ainda que aquilo não lhe fosse... um tanto doloroso. Mas não se deixaria abalar por mera ausência de palavras! ELE estava ali. Era dele. E claramente o queria também. Por hora... bastava.
Ficaram um bom tempo sem nada enunciar, Milo acariciando-lhe os cabelos e os ombros, e Camus alisando-lhe o peitoral.
– Camus – ao cabo de longos minutos, começou – naquela noite... em Rodório... além de falar brevemente de seu mestre... você... hum... você mencionou algo sobre seus pais. Sabe... que a morte deles teria a ver com o amor... algo do tipo...
Sentiu o corpo do amante retesar um pouco. Um silêncio perturbador se instaurou. Milo esperou que ele continuasse. Suas intenções foram, contudo, frustradas. Sim, lidar com Camus era como pisar em ovos... 16 anos de amizade, um mês de tórrido e intenso relacionamento amoroso – admitia-se que fosse um namoro, sim! – e ainda assim... pisava em ovos.
Em ovos congelados.
Não teve opção a não ser prosseguir:
– Vai... me falar sobre eles um dia também?
O aquariano apartou-se dele, sentando-se na cama, sobre as pernas, meio ajoelhado. Ao ver o semblante subitamente sério, Milo arrependeu-se por uns segundos. Não obstante... tarde demais. Iniciara, agora iria até o fim.
– É claro que se você não quiser falar agora, tudo bem. Não precisa. Eu só queria que você soubesse que se quiser se...
– Pra quê? Pra você chorar de novo? – inquiriu, secamente.
– Hã? Não, eu...
– Eu não quero mais ver você chorar, Milo. E do jeito que é emocional, com certeza se te contar, vai chorar.
– Olha – ajoelhou-se diante dele, sobre o colchão macio. Tomou-lhe as mãos geladas e animou a voz e a expressão – NÃO VOU CHORAR. Não se preocupe.
Camus considerou-o um pouco. A dúvida fazia-se nítida no olhar impassível, na gravidade de seu rosto. Nem parecia o mesmo de há alguns minutos. Suspirou, e por fim, disse neutramente, como quem fala sobre a previsão do tempo:
– Vou falar rapidamente e sem entrar em detalhes... quando eu te disse aquilo, provavelmente ao você mencionar sobre amor, associei esse sentimento ao fim de meus pais, pois meu pai, ao descobrir que minha mãe o traía, a matou. E após o assassinato, cometeu suicídio. Eu tinha 5 anos. Fui deixado num abrigo, pois não tínhamos parentes próximos. Dois anos depois, um enviado do Santuário me trouxe para cá. É isso.
Contou sem pausas nem qualquer inflexão na voz. Um relato frio, inexpressivo. Dir-se-ia que dava instruções. Milo olhou-o, tentando disfarçar o estupor. Parecia que uma faca cravava-lhe o coração. Doía muito. A garganta seca, queimava...
Por que, Zeus?
O que determinava a trágica trajetória de Camus?
Sua alma era tão elevada. Tão pura. Tão justa.
POR QUÊ?
Tinha vontade de socar a parede até pulverizá-la. Ao invés disso, sorriu, levemente. Acariciou com delicadeza o rosto do aquariano com os dedos.
“NÃO VOU CHORAR, CAMUS.”
Camus o estudava, franzindo um pouco o cenho. Como se esperasse uma repentina torrente de lágrimas de seu amante tão passional.
– Uma festa. Amanhã. Na minha casa.
– Hã? – o aquariano arqueou uma sobrancelha, sem entender.
– Vou dar uma festa para comemorar nosso... hã... namoro.
– Milo, não...
– Por quê?
— Eu não... não quero fazer disso um espetáculo para o Santuário.
— É assim que você vê o fato de eu querer te assumir publicamente? De assumir nosso relacionamento? De festejar, de comemorar? É algo que me deixa feliz, de que sou orgulhoso!
– Milo...
– Me diz, Camus, tem vergonha de mim?
– Quê? – e olhou o belo e vigoroso grego, tão forte quanto bom, tão bom quanto sedutor, tão livre e cheio de vida, uma companhia sempre maravilhosamente agradável e de quem não queria mais se separar – Claro que não!
– Então é medo de “queimar o seu filme”?
– De quê? – o francês não conhecia aquela expressão.
– De queimar seu filme! De deixar a entender pra todo mundo que você é MEU, comprometido comigo, que não está disponível pra mais ninguém, e assim, frustrar seus admiradores.
Estava realmente emburrado agora. O aquariano achou-o uma graça.
– Milo... isso seria uma atitude mais própria de você do que de mim, dado o seu passado – retrucou, amigavelmente.
– Vai sempre jogar isso na minha cara, não é? – resmungou, mal-humorado, deitando de lado e apoiando a cabeça sobre o cotovelo – De qualquer maneira, tarde demais. Já estava preparando tudo mesmo.
– E eu seria o último a saber, suponho.
– É, ia ser surpresa, mas falei demais – Escorpião fez um bico hilário – Foi até bom. Lembrei de que você odeia surpresas.
– Sim, odeio surpresas – Aquário controlou-se para não rir.
– Viu como te conheço bem? – erguendo-se, plantou um beijo no nariz do aquariano.
Camus suspirou, apreensivo. A cara do amado estava engraçada, a situação não; surpresas realmente o desagradavam, e festas mais ainda.
– Milo, não sei se é adequado. Eu prefiro manter discrição sobre nosso... relacionamento. Isso não quer dizer que não o aceito. Só não me sinto à vontade em expor minha intimidade, ainda mais como Santo de Athena.
– Grande coisa! Olhaí o Aioria e a Marin, Dite e Masquito, Shaka e Ikki, Seiya e Shaina, Hyoga e Shun...
– Hyoga e Shun? – o francês pareceu surpreso. O namorado riu, ruidosamente, caindo para trás na cama perfumada.
– Ah não! Vai dizer que não sabia? Mas aquilo tá tão na cara como a pinta do Afrodite! – gargalhou gostosamente.
O outro, sem graça, coçou o queixo.
– Bom, eu... desconfiava... mas Hyoga nunca me contou...
– Não é pra menos, né? Conhecendo sua filosofia sobre “demonstrar sentimentos”, o patinho deve ter ficado sem jeito de te contar. Mas já é de conhecimento comum no Santuário, desde que os moleques de bronze vieram morar aqui...
Parecendo ponderar aquelas palavras, o aquariano permaneceu quieto. Milo o abraçou com ternura infinita. Prometera a si mesmo tornar aquela vida tão cheia de conjecturas e atribulações morais mais leve, e sentia que o estava fazendo. Tinham passado um mês delicioso, e com certeza viriam muitos mais pela frente.
– É melhor eu ir. Está ficando tarde, e já fiquei muito tempo longe da Oitava Casa . Se bem que, por mim, ficaria aqui com meu geladinho preferido – anunciou, erguendo-se e pegando suas roupas.
– Seu geladinho “preferido”? Por que, tem outro “geladinho” por aí? – ironizou Camus.
Recebeu como resposta uma chuva de beijos que o derrubou na cama. Quando conseguiu se desvencilhar, foi se vestir também, para acompanhar o grego até a porta. Despediram-se carinhosamente, trocando um último beijo. Fitaram-se, apaixonados. Então Milo ganhou o ar fresco da noite, descendo a escadaria rumo ao Templo de Escorpião. Quando estava a uma certa distância do Templo de Aquário, libertou as lágrimas que havia reprimido tão heroicamente.
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