Notas iniciais
Desculpem a demora em atualizar! Continuemos então acompanhando a volta de Camus do mundo dos mortos... e vejamos como lidará com a "calorosa recepção" de Milo :) Agradeço de coração a todos que estão lendo, e também aos saborosos comentários. Estimulam e deixam muito feliz *,* Boa leitura!!!

(CAMUS POV)

No início era o silêncio. E em meio ao silêncio, a penumbra. Não uma total escuridão, pois havia uma névoa... como posso explicar? Ela emanava uma luminiscência hipnótica, e serpenteava pelo ar, envolvendo meu corpo. Eu estava nu. Sabia disso, mas não o sentia. Não sentia o chão em que pisava. Não sentia meus cabelos descendo pelos meus ombros e costas, batendo em minha cintura, não sentia minhas mãos, nada. Eu era um nada? Mas então por que ainda pensava? E me dei conta de que na verdade não pensava... apenas ouvia um eco muito longínquo dentro de mim, que foi se desvanescendo até desaparecer. E assim reinou o nada.

Não havia dor. Calor. Frio. Cansaço. Preocupação. Amor. Ódio. Frustração.

Eu caminhava porque TINHA que caminhar. Tampouco sabia a razão. Apenas... sabia ser necessário. À frente, uma fraca luz, que foi gradativamente aumentando de tamanho à medida que eu avançava.

Por um momento tentei pensar. Estranho... nada. Não era desconfortável, muito pelo contrário. Aquela ausência... sim, se havia algo próximo de uma sensação ali (e ONDE ERA ALI?), poder-se-ia dizer... PAZ.

A luz aumentava, me chamava, mostrava sua real forma: uma espécie de túnel, uma caverna, um vórtice.

Súbito, eu, que até então, não tinha nenhuma sensação física, SENTI algo tocar-me a mão, e em seguida, agarrá-la total e firmemente. Após um leve sobressalto, viro-me para ver o que é. Uma... pequena mão segura a minha. Tento desvendar o que... quem é, em meio àquelas brumas.

É uma criança.

Uma criança segura minha mão.

Ela estaca, obrigando-me a parar. Paro de andar e a observo. A criança puxa mais imperiosamente a minha mão. Agora põe a outra mãozinha, para imprimir maior força na tentativa.

Eu desvendo seu rosto. Grandes olhos azuis, onde vislumbro o mar azul da Grécia, seu céu gentil, olhos tão decisivos que me sinto pequeno. Menor do que ele. O rosto bronzeado contorce numa careta de desagrado, emoldurado por delicados cachos de uma insólita cor de azul, entre o índigo e o roxo. Veste trajes típicos tradicionais das regiões montanhosas gregas, túnica curta e calça de linho cru, com um cinto de couro marrom, o mesmo material de seus calçados, cujas tiras grossas apertam-lhes as pernas, rígidas em me fazer retroceder.

“Milo!”

Milo... criança?

Você era assim quando te conheci! Exatamente assim naquele dia de sol escaldante e esperanças alquebradas.

Bravo. Altivo. Vivaz. Belo. Emanando a vida em sua essência mais poderosa e primitiva.

Eu te amei desde o momento em que te vi.

Você franze o cenho, alheio às minhas lembranças. Puxa-me ainda mais firmemente.

Eu não tenho alternativa a não ser seguir você, Milo. Sempre foi assim. Eu TENHO que ir para onde você está, onde você quer.

Sou a mariposa atraída pelo lume.

Eu devo ir com você, Milo.

E o Milo criança vira-se para mim, como para conferir se não pretendo escapar, já que ele me puxa com decisão, porém eu sou bem maior.

À nossa frente, uma ponte. Uma ponte sobre O QUÊ? Não consigo distinguir... muito escuro... mas SEI que é sobre ALGO.

Milo me conduz até a ponte, que é vermelha como o sangue. Nós subimos juntos, eu me assusto um pouco porque meu pé afundou levemente. Agora as sensações voltaram, e não fico feliz com isso. É viscoso. É escorregadio. É...

É SANGUE.

Como é possível? Uma ponte feita de sangue???

— Athena... – murmura Milo, antes de desaparecer como fumaça do meu lado. Atônito, eu o procuro. Dou mais uns passos pela ponte de sangue, tendo sobre mim um firmamento de antigos e insondáveis nadas. Então sou sugado por uma força descomunal, como se eu fosse mísera poeira sugada por um aspirador de pó.

E agora... a escuridão absoluta.

O silêncio.

Pouco a pouco... eu sinto.

Sinto que estou por sobre uma superfície macia e perfumada. Abro meus olhos e vejo as pinturas antiquíssimas do teto do lugar que um dia foi meu quarto. Estou muito sonolento para tentar entender. Fatigado. Mas quero entender. Por isso, tento me erguer e olhar em volta. É tão difícil... meu corpo parece feito de pedra.

Você grita o meu nome. Milo... é você... mas não mais criança... é você VOCÊ. O que faz aí ajoelhado? Eu só consigo dizer seu nome, em meio ao caos que é minha mente... então você praticamente salta sobre mim. Me envolve com seus braços, é quente, é bom... embora... aperta-me demais... é quente, é bom... estou confuso, Milo. Eu estava sonhando? Ou…

Ou…

Está doendo, Milo. Só que não consigo te dizer. Nenhum som sai de meus lábios, horrivelmente secos. Milo... por que me abraça tão forte?

E… e por que está chorando?

Sinto suas lágrimas quentes no meu pescoço. Eu quero te perguntar por que chora. Eu não quero que chore. Eu quero te perguntar por que chora. Mas não consigo... Milo, não consigo falar... minha garganta... minha cabeça... é com imenso esforço que consigo dizer seu nome outra vez, só que tão baixo, tão baixo, será que você vai me ouvir?

De repente... seus lábios nos meus. Você... VOCÊ ESTÁ ME BEIJANDO, MILO?

Isso é real? É certo?

É difícil respirar. É difícil me mover. Você me prende, me suga, me absorve. É difícil pensar.

Eu abro a boca para buscar o ar, porém é mais de sua boca que recebo. Sua língua invade, me possui, exige, me amolece ainda mais... e mais...

Não há alternativa a não ser seguir você.

Não há alternativa a não ser me entregar a você.

Não sei o que pensar, Milo. Acho que é errado. Acho que é loucura. Acho que é pecado.

Mas acho bom, Milo. Tão bom.

Você parece aspirar o meu ser.

Sempre o fez...

— Milo... – sussurro, assim que ele permite. Sinto-me ofegante. Úmido. Pesado. Milo continua me amparando. Eu me sinto tão seguro... como nunca me senti...

— Camus... por Athena... por Zeus... Camus...

E chora mais. Eu gostaria de dizer “Não chore mais, meu amigo.”, contudo, uma letargia suprema se apossa de mim. Sinto-me um sonâmbulo.

— Camus, você voltou... você entende de onde voltou? – indaga, com voz tão chorosa que apunhala meu peito.

Eu sei.

Agora sei.

Minhas pálpebras pesam toneladas. Minha cabeça... enevoada. Sou obrigado a ceder. Meus olhos já estavam fechados, e eu tateava na escuridão quando ouvi mais uma vez Milo quase gritar:

— CAMUS!!!

(FIM POV CAMUS)

***********************

Milo apavorou-se ao ver que Camus desfalecera em seus braços. Arregalou dolorosamente os olhos, contudo... uma suave respiração ia de encontro ao seu pescoço. Concentrou-se para senti-la.

Camus estava respirando. Estava vivo.

— Camus... está dormindo?

Sentiu que um cosmo poderoso comunicava-se com o seu. Ouviu a voz do mestre Ancião em seu espírito:

— Caros companheiros, o Milagre de Athena se concretizou. Nossos companheiros estão novamente entre nós, tal como Athena no atual momento, exaustos pela longa travessia. Deixemos que todos descansem... e descansemos nós também.

E cessou-se a mensagem. Milo ajeitou o amigo na cama, mirando-o com um sorriso feliz.

“Mal voltou à vida e já vai dormir! Camus, que preguiçoso está me saindo... vou zoar muito você, quando tiver a chance”, pensou, divertido. Acariciou o rosto plácido de seu amor. Não resistira a beijá-lo. O que o outro acharia daquilo depois? Escorpião cedera a impulsos há muito represados. Fora demais vê-lo de volta... etéreo e majestoso, dizendo seu nome.

— Vou fazer como a Scarlet O’hara de “...e o Vento Levou”: pensarei nisso amanhã – disse em voz alta, levantando-se animado.

Dohko dissera que agora todos poderiam descansar... o grego, porém, não tinha vontade alguma de sair de perto do francês adormecido. Sequer tinha vontade de descansar. Velaria seu sono até a manhã possível, se fosse necessário.

Sentiu o cosmo do cisne se aproximar. Esse não perdia tempo mesmo! E entrando assim, sem se anunciar, como sempre. Só porque era a casa do mestre dele não queria dizer que tinha esse direito, caramba.

— É você, pato – sorriu, irônico.

— Como meu mestre está, Milo?

— Boa noite pra você também. Olha aí... dormindo... você deve ter ouvido a mensagem de Libra.

— Sim. Ele disse para os demais irem descansar.

— E você achou que por isso poderia vir aqui para “mudar de turno” comigo? – Escorpião cruzou os braços, desafiador – Esquece, garoto. Eu não vou sair de perto do Camus. Não preciso descansar...

— Eu imaginei que você tomaria essa atitude. Por isso... – foi então que Milo viu que o adolescente trazia uma cesta de vime nas mãos — ... eu trouxe isto.

E entregou-a ao mais velho.

— O que é isto? – pergunta desnecessária, um delicioso aroma desprendia-se dali.

— Já que você não iria arredar o pé daqui...

— Tu me trouxe comida, moleque?

Hyoga assentiu, silenciosamente.

Havia cabrito assado com ervas aromáticas, queijo de cabra fresco, pão preto, tâmaras e damascos secos, e uma garrafa de vinho tinto. O estômago de Milo roncou ruidosamente ante a fragância da refeição e os dois riram.

— Trouxe lá da Casa da Deusa?

Mais uma vez, assentiu sem nada dizer. Não o encarava, tampouco.

— Obrigado, garoto. Se não fosse por isso, eu realmente não iria comer nada, nossos servos e criados não estão aqui esses... dias...eu... eu sei que ele voltou à vida, mas olha aí – e apontou com o queixo – dormindo... não tenho coragem de sair daqui enquanto não vê-lo desperto novamente.

Abriu logo a garrafa de vinho e tomou um gole generoso. Por deuses se ele não precisava daquilo!!!

— Não há de quê, Milo. Eu imaginei que você faria exatamente isso.

— Hum. Você acha que me conhece muito, não é, pato? Bom... devo dizer que você acertou nisso. Onde aprendeu a ser tão perspicaz, Hyoga?

Ante tal pergunta, Hyoga lançou um olhar ao leito de seu mestre.

— Ah... claro, só podia ser – falou Milo, abocanhando as tâmaras.

— Milo, Athena pediu para avisar que amanhã haverá uma grande comemoração pelo retorno dos Cavaleiros de Ouro, no Salão do Grande Templo Principal.

— Uma festa, você diz? – ele animou-se vivamente.

— Isso mesmo. Bom, vejo você lá. Cuide bem do Camus – despediu-se o loiro.

— Não precisava nem pedir – retrucou Milo, tacando uma tâmara na cabeça do russo, acertando em cheio.

Após a refeição, ele cuidou da garrafa de vinho. Postou-se à janela, mirando o céu pontilhado de estrelas, sentindo uma alegria tão imensa invadindo o seu ser, que ele se permitiu, agora, ter esperança no futuro.

Ou melhor, no presente. Num presente com Camus.

Começava uma nova vida... para Camus e para ele mesmo.

*******************

O salão refulgia com as luzes cercadas por cristais centenários. Uma linda melodia gerada por cítaras, harpas e alaúdes reverberava solenemente. Cavaleiros, amazonas e altos funcionários do Santuário reuniam-se na auspiciosa comemoração pelo retorno dos cinco membros da guarda de elite da Deusa, mortos na batalha que a trouxe de volta a seu refúgio terrestre, fato este também comemorado no grande evento. Um suntuoso banquete apresentava-se em profusão considerável. Brindava-se a uma nova era.

Os Cavaleiros de Bronze pareciam extasiados. Nunca haviam visto nada parecido. Em verdade, a vida daqueles meninos sempre fora extremamente austera e desprovida de luxos e prazeres. O único que parecia à vontade era Ikki, sempre ao lado de Shaka, e sendo por este observado de uma maneira inédita aos presentes. Certo, com os olhos fechados...mas sabia-se que não perdia Fênix de vista. Não se desgrudaram por nenhum instante, desde que Mu os resgatara. Sendo Shaka de natureza estoica como Ikki, ambos pareciam desfrutar da ocasião com naturalidade e desprendimento avessos à maioria ali presente. Shun estava maravilhado por ver o irmão tão próximo de alguém que não ele...

Sorvendo um cálice de vinho, Milo olhava em torno, procurando tão somente uma pessoa. Foi cumprimentado por Aldebaran e Mu, e em seguida abraçou vivamente Afrodite e Máscara da Morte. Peixes trajava terno prateado, por dentro uma camisa violeta, e cheirava a rosas brancas. Câncer trajava camisa e calça social igualmente pretas, e mantinha sempre as mãos nos bolsos. Ele sentiu o peso da encarada que Shiryu lhe deu, e apenas sorriu, pegando um cálice de vinho tinto. Devolveu o olhar, não sem certa arrogância, chegando a fazer sinal de brinde no ar. O chinês estremeceu e virou-se para o lado. Por mais que tivesse vencido a luta contra o Cavaleiro, tinha-lhe indizível pavor. Aquela batalha horrível ficaria eternamente em sua mente.

— OUCH!!! Afrodite, seu maluco, por que me beliscou?

— Você tá olhando muito aquele cabeludo, Carlo.

— Ele tava me encarando, só respondi! Qual é a dele?

— Não somos mais inimigos, seu tonto, comporte-se...

— Ele tem razão, Máscara – ajuntou Milo, ainda correndo o olhar pelo salão. À sua frente, pararam Hyoga e Shun.

— Olá, Milo – cumprimentou o loiro.

— Oi, penoso, como está?

— Onde está meu mestre?

— Pelo visto, não chegou ainda – esvaziou o cálice e pegou outro.

— Não foi buscá-lo? – surpreendeu-se o rapaz.

— Shhhhhh – e sussurrou ao ouvido do outro – ele não é uma mocinha de 15 anos a quem tenho que ir buscar em casa para sair. Ele precisa de espaço.

— Ai, Milo... você é MESMO um idiota.

— O QUÊ? Ora, seu…

Foram interrompidos por Afrodite cumprimentando Shun.

— Andrômeda! Zeus, menino, você está muito bonito! – e apertou-lhe as bochechas. Shun não sabia onde enfiar a cara de vergonha.

— O-olá, Afrodite...

— Sem ressentimentos, certo? À uma nova era.. – e bagunçou o cabelo do adolescente, até soltar um “AAAARGH!”

— OUCH!!! Carlo, seu maluco, por que me beliscou?

— Que é isso? Vai ficar assediando esse cabeça de alface na minha frente? – o canceriano bufou de ódio. O outro sorriu como só os anjos deveriam fazer.

— Quem está assediando o garoto, seu crustáceo insolente? Estou presenteando-o com minha magnificente amizade nestes dias de paz!

— Hum. Então talvez eu deva ir até Shiryu fazer o mesmo...

— NÃO OUSE ou...

“Dois malucos”, pensaram Hyoga e Shun, saindo rapidamente dali. Milo riu discretamente, e em seguida, tornou-se melancólico novamente.

Será que ELE não viria?

Até Saga, que havia relutado em comparecer, por razões óbvias, estava no local, num canto reservado, conversando com Mu. O ariano, sempre conciliador, deveria estar dando encorajamento ao geminiano, muito sem graça de estar ali.

Na manhã daquele dia, os servos que haviam se retirado do Santuário por causa da Batalha das 12 Casas retornaram aos seus serviços. Milo havia pedido à serva de Camus que preparasse o desjejum, e nesse meio tempo, o aquariano acordara. Saudou-o, sem tocar muito no assunto, e foram tomar café da manhã juntos. Camus ainda parecia sonolento e fraco, de modo que Milo não se estendeu muito em sua residência, tampouco tocou em qualquer assunto. Despediu-se do amigo, exortando-o a descansar para a noite. Será possível que o francês teria voltado a dormir?

No entanto, todos estavam lá, e aparentemente bem dispostos. Por um segundo pensou em ir até o Templo de Aquário, entretanto, conseguiu se conter. Não queria sufocar o amigo, naturalmente independente, autossuficiente. Fora aquele beijo... ainda não haviam falado sobre aquele beijo. Como teria se sentido Camus? Não podia cerceá-lo, por maior que fosse sua curiosidade... temia que lhe escapulisse pelas mãos como um punhado de areia.

Tomou um longo gole de vinho, acabando com a taça. Aceitou outra, e nesse momento, viu-o chegar à festa.

Como era de esperar, ele estava maravilhoso. Trajava camisa branca de seda, blazer preto e calça preta social. Os cabelos soltos brilhavam sob as insistentes luzes dos lustres de cristal. Caminhava altivo entre os convivas, cumprimentando-os com sua polidez característica. Sentiu-se feliz ao perceber que mesmo sendo interpelado, continuava seu caminho rumo a ele. Camus por sua vez, admirou-se de ver seu amigo tão aprumado: Milo vestira-se tão elegantemente, parecia outra pessoa, ainda que estivesse igualmente lindo, como sempre: camisa social de manga comprida verde-musgo e calça social cáqui. Qualquer um o tomaria por um magnata branco prestes a velejar, dada sua imponência, seus olhos azuis vívidos faiscantes, seu corpo estupidamente esculpido. Foi diretamente até ele.

— Camus! Você demorou.

Ele não respondeu. Serviu-se de uma taça de vinho branco.

— Está incrível, não? – Milo tentou puxar conversa.

— O quê?

— O salão, ora... a festa...

— Hum. Parece um circo.

Milo considerou-o, surpreso. Ouvira direito?

— Perdão... o que disse? Um circo?

— Exatamente. – confirmou, friamente, olhando vagamente o salão vibrante.

O escorpiano não entendeu aquela comparação. Estavam todos felizes, animados, agradecidos.

Por que aquele desdém?

Antes que pudesse perguntar a razão, os holofotes direcionaram-se para o palco decorado. Ao centro, Saori e Seiya preparavam-se para fazer um pronunciamento. A jovem trajava um longo e esvoaçante vestido tomara-que-caia cor salmão, com detalhes em finos cristais, no busto e na barra. Trazia no pescoço um colar duplo de diamantes faiscantes. Nos longos cabelos violetas, uma tiara de mesmo material. Pégaso não parecia muito à vontade com sua camisa social azul-marinho, fechada até o pescoço, e calça social marrom-escura. Nunca usava outra coisa que não fossem jeans surrados e tênis.

— Meus amigos, boa noite – e ante a voz da Deusa, não se ouviu mais nenhum som pelo salão – gostaria de agradecer a presença de todos nesta noite de alegria. Passamos por muitas provações, todos nós, e atudo superamos com fé, luta e esperança. A partir de agora permaneceremos juntos. Conto com os senhores durante esta minha nova estada neste mundo que tanto amo e ao qual jurei proteger desde tempos imemoriais. Espero que aproveitem esta noite de comemoração. Estejam à vontade, por favor.

Todos aplaudiram. Menos uma pessoa.

Camus não aplaudiu.

Milo fitou-o aterrado. Tornou a olhar para o palco e, muito decidido, bradou:

— Athena!

A Deusa olhou-o, curiosa.

— Se me permite, senhora, eu gostaria de pedir uma salva de palmas para o Cavaleiro de Pégaso.

Os globos oculares do adolescente quase saltaram-lhe das órbitas. Abriu a boca, muito surpreso com aquilo. Milo andou mais na direção do palco.

— Seiya, em nome de todos eu gostaria de agradecer pelo que você fez. Ao invés de usar a dádiva de Athena em benefício próprio, pensou naqueles que inclusive haviam sido seus inimigos. Foi o gesto mais honrado que já vi em minha vida.

— Milo de Escorpião!... – e os olhos castanhos do homenageado cintilaram de gratidão.

O som ensurdecedor das palmas encheu o ambiente. Hyoga pensou, abrindo um largo sorriso: “Ora... não é que o Milo não é tão sacana assim, afinal!”. Mais uma vez, Camus foi o único que não aplaudiu. Seiya, muito sem graça, ria com a mão atrás da cabeça.

A descontração voltou a povoar o lugar, bem como a música e os serviços dos garçons. Milo, que não perdia Camus de vista, viu-o distanciar-se do local. Ficou em dúvida se o seguia ou não. Aquário não parecia disposto interagir, e ele não estava disposto a ser tido como insistente.

— Olá, Milo, que cara é essa? – seus pensamentos foram interrompidos por um sorridente Aioria. Ele estava acompanhado por Marin, exuberante em seu longo vermelho-sangue. Estava sem a máscara, graças à permissão de Saori durante a festividade. Nenhuma amazona escondia seu rosto naquela noite. Muita coisa iria mudar agora com os novos tempos. Escorpião percebeu que a namorada de Leão era muito mais bonita do que ele havia imaginado. Afrodite, Máscara da Morte e Shura juntaram-se a eles, a tempo de ouvir:

— Olá, Aioria... não! Não é nada! Eu só... eu só achei o Camus estranho...

— OK, agora conta uma novidade – ironizou Câncer, sorrindo sarcasticamente.

— Dizer que aquele lá é estranho é dizer que o mar é molhado – riu Afrodite, brincando com a cereja de seu drink.

Milo franziu o cenho. Não gostava de ver os outros falando de seu aquariano daquele jeito.

— De fato, ele me pareceu ainda mais distante do que o normal – comentou Shura, do jeito racional de sempre.

— É, não há de ser nada... – murmurou o grego.

Mas aquela expressão de desprezo... aquela recusa em aplaudir Seiya, e pior ainda, o discurso da própria Saori... não, isso ele tinha que sondar. Chegou na sacada e viu-o descer pela escadaria de mármore que levava até os jardins.

“Que se dane!”, pensou, e resolveu ir atrás dele. Atravessou a parte mais iluminada do jardim e chegou até onde estava o amigo, parado perto de uma fonte milenar, um pouco mais afastada do templo. Uma suave brisa soprava, carregando consigo o aroma das flores que desabrochavam nas extensas e antigas alamedas.

— Camus... está tudo bem?

— Por que pergunta isso?

— Não sei, você... você parece aborrecido com alguma coisa.

— Não estou aborrecido. Apenas considero tudo isso desnecessário.

— Desnecessário! – Milo não disfarçou seu estupor – Por quê?

Camus encarou-o de modo indefinido. A luz da lua incidia por trás dele, ocultando-lhe as feições.

— Não há razão para festejar, Milo. Você não entende? O que vocês fizeram foi uma grande insensatez.

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Notas finais
Claro que TODOS estavam se divertindo mas o picolé de limão tinha que estar azedinho... o que será que ele quis dizer com "insensatez"? Obrigada por lerem! Espero vocês no próximo capítulo. Beijo grande, e bom final de semana *,*