Grilhões Eternais
8 Insensatez
Notas iniciais
A música ecoando ao longe, a silhueta do homem à sua frente envolta pelo luar prateado, o rosto duro e sombrio, tudo dava a Milo a impressão de estar em um sonho. Um sonho confuso e angustiante.
— Camus... você está se ouvindo? Insensatez? O que nós fizemos foi insensatez?
— Exatamente – ele respondeu, imperturbável.
— Você está falando do Ritual de Ressurreição? Porque é ISSO que está sendo comemorado esta noite, além do retorno de Athena ao Santuário.
— Milo, você não percebe? – e o escorpiano surpreendeu-se ante a frieza que se instaurou entre eles – Foi um ato irresponsável. Vocês foram atrás do capricho de uma criança egoísta que não entende o real sentido de um campo de batalha. Pessoas morrem em combates. E o fazem pelo dever. Desde tempos imemoriais. É a ordem natural do mundo.
— Camus! Não entendo aonde quer chegar! Está dizendo que você, Afrodite, Shura, Saga e Carlo NÃO deveriam ser revividos?
O francês encarou Milo como se fosse explicar a coisa mais óbvia a uma criança.
— Vocês colocaram muita coisa em risco por causa de um capricho – continuou – Não pensaram que só recentemente Saori Kido tomou consciência de que é a reencarnação de Athena? De que seus poderes ainda estão se desenvolvendo através de seu corpo mortal? Vocês arriscaram a existência terrena de Athena nesta era! E a permanência da Deusa é crucial para a paz mundial! Se Ela está aqui e agora, é porque uma grande ameaça se aproxima do planeta... e vocês puseram Sua permanência aqui em risco. Se Saori Kido não tivesse sobrevivido ao desgaste espiritual ao qual foi submetida?
— Mas ela já havia ressuscitado os Cavaleiros de Bronze! Já havia provado Seu poder, provado que podia fazer isso...
— Não havia provado que poderia fazer isso novamente em TÃO POUCO TEMPO. Seu corpo possivelmente já estava extremamente desgastado. E vocês concordaram com um ato impensado como esse.
— ELA CONCORDOU, Camus! – Milo impacientou-se. Um enorme e doloroso nó em sua garganta começava a se formar.
— Concordou com uma grande insensatez.
O grego encarou-o, muito gravemente. Franziu o cenho ao indagar:
— Você diz que o que fizemos foi insensatez. Se a própria Deusa permitiu e o fez, eu... me parece que você quer dizer... você quer dizer que Saori foi insensata?
— Principalmente ela.
Uma sonora bofetada abateu-se sobre o rosto impassível de Camus. O vento soprou, erguendo alguns fios azulados que cobriam a face aviltada, ainda de lado pelo violento impacto.
A mão de Milo permaneceu erguida, enquanto seus olhos claros faiscavam de ódio e dor. O francês permaneceu com a cabeça de lado, levemente abaixada, a franja a encobrir seus olhos escuros. Um filete de sangue desceu-lhe dos lábios. Ainda assim, permaneceu imóvel. Folhas dançaram no ar noturno e o céu tornou-se mais límpido.
— Eu não sabia que além de insensível você era blasfemo, Camus – pronunciou com voz firme e baixa.
Como nenhuma resposta veio do homem à sua frente, bem como nenhuma outra reação, o grego virou-se para partir, deixando-o ali.
— Esse é o momento em que você arruma alguma pessoa para beijar na minha frente? – perguntou Camus, de forma neutra.
Milo deteve-se. Suas mãos tremiam. Ele as crispou, num esforço hercúleo de se conter. Respondeu, de maneira surpreendentemente fria:
— Não. Eu não iria fazer isso. Ao contrário de certas pessoas, EU sou capaz de mudar.
E afastou-se dele, apressadamente. Antes de chegar à escada que o levaria de volta à varanda anexa ao salão de festas, Hyoga meteu-se na sua frente, saindo de trás de uma árvore.
— Hyoga! O que...
— É assim que você quer fazer o meu mestre feliz? Estapeando ele? – indagou, sem disfarçar sua ira.
— O que é, moleque? Está me seguindo, é? Anda me espionando, por acaso? – Milo cravou no loiro um olhar que era mais de desprezo do que de raiva.
— Pode ser difícil de acreditar, Milo, mas o mundo não gira ao seu redor. Nós estávamos aqui antes de vocês chegarem ao jardim. Vocês é que não nos viram.
— “Nós”?
Foi então que Escorpião percebeu por trás de Cisne, quase que encoberto pelas sombras, meio que encostado à árvore, o Cavaleiro de Andrômeda. Seus cabelos verdes em desalinho, os lábios úmidos e entreabertos. Um violento rubor pintava-lhe as bochechas, e alguns botões de sua camisa branca estavam abertos. Voltando a mirar Hyoga, percebeu nele os mesmos sinais.
— Vocês não são muito novos para fazerem isso não? E ainda mais aqui, um lugar cheio de gente – ralhou Milo, achando-se imediatamente ridículo, hipócrita. Na idade daqueles meninos já tinha feito muito aquilo, e até mesmo coisas “piores”. Envergonhou-se, mas rapidamente se conformou. Sua vontade de atacar encontrava-se mais ativa do que a de conversar.
— Sai da minha frente, Hyoga – ordenou.
— Aonde você vai?
— Isso não é óbvio? Esta festa já acabou para mim.
— Vai embora???
Um violento tremor apossou-se do escorpiano. O russo percebeu.
— Milo...
— Eu sei o que você pediu, Hyoga. Só que o “seu mestre” NÃO QUER ser feliz.
O adolescente ponderou aquelas palavras em triste silêncio. Abaixou a cabeça e deu passagem ao mais velho, não sem antes dizer:
— Não achei que você fosse desistir tão rapidamente.
Milo pareceu considerar aquela fala, olhando os dois mais novos. Viu empatia nos grandes olhos verdes de Shun. Suavizou a expressão e por fim, saiu dali sem nada responder.
— Milo... – balbuciou Shun, ao vê-lo se afastar – O que está acontecendo com ele, Hyoga? Ele parece muito angustiado.
— Sim, mas certamente ele não é o único. Shun, fique aqui um pouco, sim? É só um minuto.
— Você vai falar com Camus? Não acho uma boa ideia. Ele deve estar furioso. Vai congelar você de novo!
— É um risco que vou ter que correr – sorriu antes de dar um leve beijo nos lábios do menor. E foi caminhando até a fonte, onde seu mestre permanecera.
O Santo de Aquário parecia uma das várias estátuas do jardim. Não fossem os fios azul petróleo balançando ao sabor do vento, julgaria tratar-se de uma daquelas esculturas clássicas. Pela inércia. Pela beleza. Pelo ar de tragédia que envolvia aquele ser. Por uns instantes, Hyoga temeu que as palavras de Shun se tornassem realidade. Seu amor, porém, era maior que o medo. Aproximou-se bem de mansinho. Camus estava de frente para ele, de costas para o luar. Exatamente na mesma posição.
— Mestre Camus... está ferido?
Como que despertado de supetão, o francês passou a mão em seu queixo e lábio inferior, aparando o sangue.
— Não é nada, Hyoga.
O loiro dividia-se entre raiva de Milo por ferir seu amado mestre e curiosidade em saber o que levara a tal ato. Escorpião jamais faria aquilo! Haveria de ter uma razão muito forte. Sentia-se confuso em seus sentimentos.
— Ele voltou para casa, Camus.
— Por que está me dizendo isso? – perguntou baixo, erguendo uma sobrancelha.
— Eu... eu não sei. Só... só caso o senhor se questione onde ele está – respondeu, um tanto constrangido.
Aquário o considerou, com carinho. Pôs a mão sobre sua cabeça. Foi o bastante para o menino se atirar sobre ele, envolvendo-o com seus braços, chorando.
— Mestre!!!!
Após deixar-se ser abraçado, Camus ergueu, hesitante, os braços, e correspondeu ao amplexo de seu discípulo. Este chorou ainda mais, afundando seu rosto naquele peito largo que, ao contrário do que muitos poderiam supor, era cálido e acolhedor.
— Mestre! Ah, mestre! Eu... eu queria tanto que o senhor fosse feliz!
E soluçou, dolorosamente. Camus acariciou-lhe os cabelos dourados. Fechou os olhos, sentindo, de repente, uma estranha paz, ao responder:
— Eu sei...
Permaneceram um bom tempo assim, abraçados, sob o luar e as pétalas que a brisa noturna trazia consigo. Hyoga tirou algumas do cabelo de seu mestre. Camus fez o mesmo por ele. Em seguida, segurou-o pelos ombros e disse:
— Você faz um favor para mim, Hyoga?
— Zeus! Qualquer coisa, Mestre!!!
**********************
Mais um vaso de porcelana espatifou-se contra a parede. Vários cacos jaziam no chão, dos mais
variados materiais. Agora foi a vez de um cinzeiro de cristal ser atirado por Milo. Já derrubara vários enfeites e artefatos das mesas, das prateleiras de sua extensa sala de estar. Preferiria extravasar sua frustração despedaçando rochedos inteiros, ou abrindo crateras na terra com seu soco poderoso. Mas então teria a perturbação de seu cosmo rastreado por outros, e acabaria sendo interrogado por aquela atitude, ou pior, repreendido por tal demonstração de desequilíbrio.
“Que GRANDE IDIOTA eu sou!”, pensava, amargurado, mordendo o lábio inferior, “Esperei por ele, me prontifiquei a fazê-lo feliz... e na primeira festa em que estamos juntos, após ele voltar da morte, o que faço? Dou um tapa na cara dele!”. Desta vez, chutou violentamente uma cristaleira, que se despadaçou imediatamente. “UM TAPA NA CARA DELE! Zeus, ele me provocou! E mais, blasfemou! Como pôde falar daquele jeito sobre a nossa Deusa?”. Deu um murro na mesa de mogno, rachando-a como quem quebra um biscoito cream cracker. “Por que ele falou daquele jeito? Preferia ficar morto?” Abaixou-se aos poucos, terminando por ficar ajoelhado no chão. Segurou a cabeça entre as mãos e fechou os olhos com força, sentindo-os ardentemente úmidos.
“Ou quer ficar longe de mim? É isso? Ele queria estar morto para não estar comigo?”
— Milo – o chamado, baixo e suave, arrancou-o de seus pensamentos. O grego pôs-se de pé num salto.
— Camus! O que... o que faz aqui?
O olhar indiferente de Camus correu pela sala devastada pela ira do escorpiano, que agora parecia mais confuso do que irritado. O visitante tinha uma garrafa na mão direita. Declarou, simplesmente:
— Achei que você pudesse estar precisando beber alguma coisa.
— Você... isso é champanhe?
— O melhor. Pedi que Hyoga pegasse na festa para mim.
— Usando seu discípulo para afanar bebida da festa? – e o sorriso característico de Milo acompanhou seu olhar triste.
Camus caminhou até ele. Encarou-o por uns instantes antes de falar:
— Milo, eu quero pedir desculpas. Não deveria ter falado com você daquela maneira.
Isso fora dito de forma direta, seca, impessoal. Sequer parecia alguém pedindo desculpas de maneira sincera. O grego, porém, conhecia-o muito bem. Foi quando percebeu a mancha vermelha na face esquerda de Camus. O centro já ficava roxo. Sua voz tremeu ao responder:
— Isso é um absurdo... eu te dou um tapa na cara e é você quem me pede desculpas?
Grossas e pesadas lágrimas rolaram pelo seu rosto atormentado. O francês abaixou um pouco o olhar.
— Eu mereci.
— NÃO, NUNCA! Eu... Camus, eu é que devo te pedir desculpas... te pedir perdão... – estendeu a mão, como se fosse tocar o rosto ferido do outro. Deteve-se contudo.
“Eu não tenho o direito de tocá-lo”, pensou, tristemente. E rendeu-se àquele pranto. Sem saber o que fazer com a mão que ficou no ar, envolveu o próprio corpo com os braços, até mesmo para controlar seu estremecimento. Arrependimento, dor, tristeza, frustração amorosa: ele era uma bagunça, tal qual sua sala, e não fazia mais a menor questão de disfarçar.
— Me perdoe, Camus... me perdoe por tudo! Eu... não sou digno do seu perdão, eu sei, mas...
O toque de dedos suaves e gélidos em seu rosto calou-o. Ele abriu os olhos e viu o francês muito próximo de si. Lentamente, Camus fazia movimentos para enxugar aquelas lágrimas, quase uma carícia. A respiração de Milo morreu. Pôde mesmo sentir-lhe o hálito quente e perfumado quando o aquariano propôs:
— Que tal trazer logo duas taças? Se é que sobrou alguma coisa inteira nesta casa...
Resistir à tentação de agarrar aquele homem foi uma das coisas mais difíceis da vida do grego. Foi, contudo, um bravo guerreiro. ERA um bravo guerreiro, afinal.
— Eu vou pegar – murmurou, mais calmo – Que tal irmos para o terraço? Como você pode ver, minha sala não está em condições de segurança.
— Nem de estética – Camus, permitiu-se um meio sorriso.
***************
A noite estrelada descortinava-se acima deles. No negro firmamento distantes nuvens escuras partiam-se, revelando mais astros brilhantes. Nem frio, nem calor, apenas uma fresca e deliciosa brisa acariciava as faces agora tranquilas dos dois Santos. O terraço do Templo de Escorpião era guarnecido de mesas, cadeiras, uma pequena piscina e várias plantas. Entretanto, eles estavam simplesmente sentados no chão, como em tempos passados, sentindo o frescor do piso claro. Bebiam a champanhe, da melhor qualidade possível, sentindo explosões frutadas na boca.
— Como foi estar do outro lado, Camus?
— Eu preferiria não falar sobre isso.
— Foi ruim?
— Não.
— Foi bom?
— Não.
— Ora! Então foi o quê? Espera, foi porque você viu anjinhos pelados tocando harpas ou coisa do tipo? Porque eu também não acho que isso teria sido bom.
Camus sorveu um gole da bebida, sem querer admitir que se divertia com a impaciência de Milo.
— Um dia eu conto...
— Um dia você vai ter que me contar várias coisas, “mon ami”.
— Oui, oui...
— Vai mesmo, Camus?
O escorpiano recebeu como resposta um olhar enigmático. Arrepiou-se da cabeça aos pés. Então Camus deitou-se no chão, cruzando os braços sob a cabeça, tendo agora à sua frente apenas o véu de estrelas. O luar iluminava sutilmente o seu rosto. Milo, que permanecera sentado, observou-o. Naquela face irreal, etérea, tão bela... a marca que ELE, MILO, havia imprimido ali, horas antes. Parecia um pouco inchado.
Maldição. Camus era um guerreiro, um Santo de Ouro, e dos mais poderosos! MAS AINDA ERA UM HOMEM. Seu corpo não diferia tanto do de um homem comum, salvo sua maior resistência às baixas temperaturas, bem como demais circunstâncias adversas. E ele, Milo, também era um Santo de Ouro. Não seria de se estranhar que um simples tapa, no rosto delicado do francês, tivesse um efeito severo...
Camus, que se perdia nas estrelas, teve a concentração interrompida pelas lágrimas que caíram-lhe sobre o rosto.
— Milo! Está chorando de novo! – fingiu irritação.
— Eu... eu sempre machuquei você, não é verdade?
Após um breve e significativo silêncio, o aquariano declarou, desviando dele o olhar calmo:
— Eu também machuquei você muitas vezes, Milo. Hoje foi mais uma delas.
O escorpiano passou os dedos muito de leve sobre o lugar magoado, provocando no outro um leve estremecimento.
— Está doendo?
— Não.
— Não minta! Está ficando roxo!
— Não estou mentindo, Milo. E pare de chorar.
— Tem que botar gelo. Vou pegar... ah! O que eu tô dizendo? Você é um freezer ambulante! Basta emanar um pouco do seu ar gelado no local! Mas se você preferir, eu pego gelo na minha...
— MILO. PARE. Nem eu sou tão fraco nem você é tão forte.
— O que... o que isso quer dizer?
Os dedos de Milo ainda repousavam no rosto de Camus. Deslocaram-se um pouco mais para o lado, deslizando pelo contorno perfeito. Camus sentia aquela carícia quase prendendo a respiração. Olhou no fundo dos olhos do amigo, que se sentiu incendiar com aquilo.
— Eu não quero que você chore mais... Milo... – falou, quase num sussurro.
O polegar do grego traçava suaves caminhos na pele suave, enquanto o indicador tocava-lhe os lábios entreabertos, passeando na superfície úmida. O francês pareceu respirar mais rápido. Já não conseguia fechar a boca. Aquilo foi um convite para o escorpiano, que muito lentamente, como quem experimenta a profundidade do mar antes de nele nadar, diminuiu a distância entre seus rostos... entre seus olhos... entre seus lábios...
Primeiramente, apenas roçou seus lábios nos do amigo. Só isso quase o eletrocutou de desejo. Em seguida, permitiu-se provar aquela textura tentadora, chupando de leve o lábio inferior de Camus. Este estremeceu, e por um momento assustou o que estava por cima dele. Isso, contudo, não foi o suficiente para parar Milo. Passou a língua por entre aqueles lábios, que se separaram mais, permitindo uma discreta invasão. E a discreta invasão deu lugar a um movimento mais insistente, invasivo...
Para o horror de Milo, Camus levantou-se num salto. O escorpiano fitou-o, sem entender, seu coração explodindo em seus ouvidos.
— Eu... acho melhor eu ir, Milo.
— Camus, por quê? – e a pergunta foi quase num grito. Arrependeu-se um pouco por se mostrar assim tão desesperado.
Ajeitando os cabelos e a roupa, Camus, ligeiramente ofegante, só conseguiu responder uns trinta segundos depois:
— Estou cansado. E a bebida me deu mais sono. Bom, até amanhã – e virou-se para partir.
— Espera, Camus! Eu tenho um convite pra te fazer – Milo também se ergueu.
— Um convite?
— É... pra um... um... vamos fazer um piquenique amanhã, que tal?
O francês ergueu uma sobrancelha.
— Um piquenique?
— Sim! – um lindo sorriso acompanhou a resposta.
— Ora, Milo, que ideia...
— Sim! Lá onde era nosso “refúgio secreto”! Mesmo hoje, é uma área pouco frequentada.
— Não era nosso “refúgio secreto”, Milo – não conseguiu deixar de revirar os olhos – era um lugar onde na maioria das vezes só a gente treinava e nadava...
— Que seja! LÁ. Não precisa se preocupar com nada, viu? – ele também se ajeitava, arrumando os longos cabelos azulados e as roupa amarfanhada – Eu levo tudo. Deixa comigo.
— Eu não aceitei ainda.
— Se você disse “ainda”, é porque cogita aceitar.
Surgiu o primeiro sorriso de Camus naquela noite... aliás, em muito tempo.
— Depois eu é que sou o gênio... – ironizou o francês.
— Cala a boca! Então tá marcado, Às 15 horas. Pode deixar que vou levar tudo.
— Tudo o quê?
— A comida, ué! Piquenique costuma ter comida, sabia? – e mais uma vez o lindo sorriso... que perturbou um pouco a razão de Camus.
— VOCÊ vai fazer a comida?
— Vou!
— Eu mal voltei do mundo dos mortos e você quer me mandar de volta para lá?
— Depois eu é que sou o sarcástico... – ironizou o grego.
— E quem disse que é sarcasmo?
Virou-se para partir e foi novamente impedido por um chamado de Milo:
— Então, qual é a sua resposta? Piquenique amanhã. Você aceita?
Milo não saberia dizer se sua taquicardia fora causada pelo surpreendentemente doce sorriso de Camus, ou pela resposta que veio sem nenhuma demora:
— E eu tenho como recusar ao convite do meu melhor amigo?
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