Grilhões Eternais
35 Não vou desistir de você!
Notas iniciais

Uma batidinha tímida à porta se fez ouvir. Milo foi abrir, achando que era o médico, já que uma enfermeira havia vindo e ficara de chamá-lo. Contudo:
—Ah, oi, Hyoga! — saudou, alegremente.
— Oi, Milo! Vim assim que soube que o mestre saiu da UTI!
— Uma surpresinha pra você, Patinho, olha aquilo ali, ó — passou os braços por trás dos ombros do menino e apontou para Camus, que acenou para eles. A parte de cima da cama fora um pouco erguida.
— ME...MESTRE!!!
— Hyoga, estamos num hospital, não grite! — ralhou o aquariano, sério.
— MESTRE!!!
— Não me ouviu, Hyo... — o adolescente jogou-se ao mais velho, emocionado, abraçando-o efusivamente.
— Cuidado, pato louco, olha os curativos dele!!
— Deixa, Milo... ai!...tudo...ai!...tudo bem...ai...
— Estou machucando o senhor, mestre?
— Não, seu panaca, esses “ais” que ele tá fazendo são um mantra pela paz mundial! — o grego o puxou dali pela camisa — Sai daí...!
A porta abriu-se mais um pouco. Alguns rostos apareceram.
— Ouvimos o grito do loirinho lá do elevador — disse Afrodite.
— Camus! Tá acordado, cara! — alegrou-se Máscara da Morte.
— Vocês! — sorriu o francês — Estão bem? Soube que se feriram no meu resgate. Eu sinto muito.
— Deixa de falar besteira — cortou o italiano, piscando o olho — foram uns arranhõezinhos à toa.
— Estamos bem, amigo, e melhores ainda em saber que enfim acordou — afirmou Peixes, sorridente.
— Eu... obrigado. Muito obrigado a todos vocês. E Shun?
—Está no Templo de Virgem, resolvendo uns assuntos com Shaka. Ficou de vir te visitar mais tarde — o sueco respondeu.
Cisne cruzou os braços, nitidamente descontente.
— Hunf. Não sei que tanto assunto tem com o Shaka. Não sei como Ikki deixa isso.
— “Deixa” porque é mais maduro que você, Patinho — falou o escorpiano, rindo — sabe que é coisa importante. Que é? Com medo de não ser o único “loiro, lindo e nórdico” da vida dele?
— Fica me provocando, Milo, e eu conto pro meu mestre como você anda se referindo a ele pra mim na frente dos outros!
— VOCÊ CALA ESSE BICO DE PATO OU EU...
— QUE HISTÓRIA É ESSA, MILO? — quis saber o paciente, e teve início uma pequena balbúrdia, provocando risos no casal de visitantes.
*************
Dois dias depois Camus recebeu alta hospitalar. Milo levou-o para o 11° Templo, obtendo a permissão de ficar ausente de Escorpião em noites alternadas a fim de prestar assistência ao aquariano, que teria que ficar com a perna imobilizada por mais dez dias, em repouso absoluto. O médico o proibira terminantemente de pôr o pé no chão, sob risco de cirurgia posterior ou, no mínimo, necessidade de uma fisioterapia.
O escorpiano dispensou a cozinheira de Camus, exigindo ser o único reponsável pela alimentação do namorado. Nada daquelas frescuradas francesas elegantes e frugais comuns em Aquário: o amante precisava era de uma boa, forte e honesta dieta mediterrânea, notadamente grega, para se restabelecer. E não houve recusa que o demovesse dessa decisão!
Devido ao teor de alguns dos suplícios de Camus, Milo tentava deixar a atmosfera o mais leve e descontraída possível, sem resvalar para alusões sexuais. Agia de modo carinhoso sim, cuidadoso, porém dando tempo e espaço ao amado. De mais a mais, a convalescência do francês não permitiria muitas “brincadeiras”.
Um dia, não obstante...
— Camus, quer tomar banho agora ou depois do jantar?
— Prefiro agora, se não se importar.
— OK.
Tomou-o nos braços, não resistindo a plantar-lhe um beijo afetuoso na testa. Desceu as escadas rumo à sala de banhos. Despiu o namorado, como sempre impressionando-se com as marcas da violência a mancharem a pele outrora imaculada... ainda assim, tinha que admitir: a aparência estava melhor a cada dia.
— Percebo que já não fica tão chocado ao me ver — comentou o francês, adivinhando-lhe os pensamentos.
— É... os ferimentos estão melhorando! Em breve você estará novinho em folha! — sorriu, entusiasmado.
Camus sorriu também, no entanto Milo percebeu que fora um sorriso levemente triste.
— Mas uma coisa você nunca deixou de ser...
— O quê? — quis saber, piscando de curiosidade.
— Gostoso... sexy... e tentador — e Milo beijou-lhe a pontinha da orelha. O outro sentiu um arrepio e riu.
— Milo!!
— Vou preparar o banho... morna, tá?
— Prefiro frio.
— Morno é melhor pros ferimentos, Camus.
— Morno pra frio, então — murmurou.
— Tudo bem, Senhor Pinguim! — brincou, sem deixar de notar certa indisposição no amante.
Posicionou um tamborete para apoiar a perna engessada e uma cadeira mais alta onde o sentou. Envolveu a tala com um plástico para proteger o gesso, cuidadosamente.
— Quer que lave seu cabelo?
— Hoje não. Amanhã. Estou com sono... devo dormir logo após o jantar.
— Certo.
— Pode ir você também tomar um banho, Milo, agora dá para me virar aqui — disse, de modo neutro, fazendo um coque alto.
O grego considerou-o uns instantes. Tinha dado banho nele (ok, foi difícil, mas conseguiu controlar seus instintos) nos três dias anteriores, e agora...
— Tudo bem — e empurrou para mais perto dele os produtos de higiene — Vou usar a banheira. Qualquer coisa me chama, tá?
—Eu te chamo quando terminar.
— ....OK — concordou, ligando o chuveiro e acionando a mangueirinha, que deu na mão do aquariano. Retirou-se, tentando não dar importância àquela recusa em ser totalmente ajudado.
Cerca de quinze minutos depois, Camus o chamou:
— Milo, acabei.
— Tô indo!
O escorpiano enxugou-se rapidamente, vestiu o roupão e foi ajudá-lo a se levantar. Sentou-o numa bancada de madeira e entregou-lhe uma toalha felpuda. Olhou-o de soslaio, saboreando aquela imagem... um calor intruso foi subindo-lhe pelo corpo: vê-lo assim, se enxugando, a pele molhada, os cabelos presos com algumas mechas molhadas grudadas no peito, as pernas abertas deixando à mostra o sexo úmido... levava água à boca de Milo.
Disfarçou como pôde.
— O que foi? — perguntou Camus.
— Hã?
—Está com uma cara estranha... parece que está sem ar.
Pelo visto, não disfarçou muito bem.
— Ah... hã...ah, deve ter sido o vapor! Hehehe, deixei a água quente demais! Hehehe...
O aquariano fitou-o, inexpressivo, como se não esperasse, realmente, uma resposta. Vestiu o roupão branco que o grego lhe entregara. Milo pegou-o no colo e levou-o até o quarto. Deitou-o na cama, retirou o plástico, verificando se havia molhado o gesso; conseguira preservá-lo seco.
— Vou trazer seu jantar.
— Milo. Sente aqui.
— ......
— Depois você traz a comida. Senta aqui.
O escorpiano obedeceu. De uma só vez, o francês disparou:
— Não precisa ter medo de me tocar.
Milo engoliu em seco.
— Mas... mas eu não estou com...
— Há dias tenho sentido seu desconforto. Você disfarça muito mal, sabia?
Olhando para o chão, o grego assemelhava-se a uma criança pega em falta:
— Eu só quero que você fique bem — alegou.
— Eu estou bem.
— Sabe o que quero dizer.
Um pesado silêncio caiu sobre eles como uma chuva fria num final de tarde.
— Está com medo de me tocar porque fui estuprado, é isso?
— Eu... não! Você... ainda tem machucados! E... eu... olha. Eu achei que fosse importante que você tivesse seu tempo...
— ... porque acha que depois do que passei não suportarei ser tocado, não é?
Constrangido, Milo assentiu. Camus abaixou a cabeça.
— Eu passo uma imagem tão frágil assim?
— NÃO! — e num segundo estava abraçado a ele — Nunca... você é o homem mais forte que conheço, Camus! Me perdoe por ter te dado essa impressão!
O francês acariciou aquele rosto aflito, achando graça daquele desespero.
— Não há o que perdoar. Você pensou assim porque é o meu Milo: bom, justo, emocional, atencioso… não poderia esperar menos que isso.
Tomando-lhe o rosto entre as mãos, Milo cravou seus olhos claros nos olhos escuros ao constatar:
— É a primeira vez em que você fala assim de mim... estou lisonjeado.
— Só não fique convencido.
— Que pessoa não ficaria, tendo você?
— Agora sou eu que estou lisonjeado.
— Só não fique convencido.
— Que pessoa não ficaria, tendo...
Foi impedido de continuar por um beijo roubado, logo aprofundado. Suas línguas digladiaram-se na doce e excitante batalha da qual ambos sempre saíam vitoriosos. O grego abriu o roupão do francês, descendo-o até o abdômen, ansioso por sentir mais daquela carne. Ficou extasiado ao sentir um pequeno gemido lúbrico em sua boca. Agarrou o menor pela nuca e pela cintura, e foi agarrado pelos ombros. A mão do escorpiano foi subindo para as costas e ele sobressaltou-se com o alto relevo das cicatrizes das chibatadas. Parou o que estava fazendo, mirando o aquariano, que o encarou, interrogativo. Não querendo deixar um clima estranho no ar, passou a língua de leve pelo pescoço, desde o lado são até onde começava o curativo da cirurgia. Aquilo causou um frêmito que Camus tencionou em vão disfarçar. Milo beijou-lhe o queixo várias vezes, voltando à boca, que mordiscou provocadoramente antes de lambê-la.
— Milo... — suspirou, e em seguida, tomou os lábios do grego de forma mais incisiva, invasiva: puxou-o pelos quadris para que se deitasse sobre ele. Projetava seu corpo contra o do escorpiano, ávido por contato. O outro ficou receoso:
—Não vai te machucar?
—Sua distância é que está me machucando!...
Aquela frase, dita de um jeito tão lamentoso quanto sensual, dissolveu de vez as amarras de Milo. Atacou os lábios do amante, embriagado com seu gosto, querendo mais e mais... a julgar pelo ardor do aquariano, o desejo era recíproco. Incentivado, cingiu-o pela cintura e deitou-o na cama para melhor sentir-lhe o corpo que tão vivas chamas ateara em si. Agarrou-lhe pelos braços aprofundando o beijo, o fogo em seu baixo ventre acendendo-se quase incomodamente. Ao chupar o lábio inferior de Camus percebeu-lhe certo incômodo. Lembrou-se, no entanto, das palavras do amante: não se deteve. Os roupões de ambos abertos, posicionou uma de suas pernas entre as pernas do aquariano, fazendo com que suas virilhas se tocassem. Milo movimentou-se maliciosamente, ouvindo um suspiro deliciado. Cada vez mais estimulado em sentir-se aceito malgrado a dor que talvez o namorado sentisse, roçou-lhe mais o órgão, ao mesmo tempo em que sua língua intensificava as carícias pelo pescoço do francês, que só fazia arfar, inebriado.
— Eu quero te dar muito prazer... muito mesmo... quero você derretendo em meus braços... — sussurrou-lhe ao ouvido, dando mordidas molhadas em seu lóbulo.
— Milo... aaahnn... m-me faz sentir... — gemeu, languidamente, arqueando-se todo, jogando a cabeça para trás, evidenciando sua entrega.
Depois de ouvir isso, o grego não poderia mais se segurar.
Talvez nem que Athena ordenasse!
Fez a língua percorrer o peito arfante, visitar os mamilos e enroscar-se longamente ali, banhando-os, chupando-os como se fossem doces manjares dos céus. As mãos trêmulas de Camus desciam pelas costas do homem acima de si, numa carícia promissora. Apesar de saboreá-la, Milo desceu os lábios pelo tórax, chegando à barriga esculpida, semeando arrepios na pele marcada. Fechou os olhos para não ver aqueles hematomas. Não por questão estética, NÃO! Ele continuava lindo e atraente, com ou sem máculas, o desejava ardorosamente. Temia, sim, fazer exatamente o que o outro não queria que fizesse: ter medo de machucá-lo. Ter receio de amá-lo.
Ter-lhe... piedade.
— Uhnn... — era um gemido de dor ou de prazer? Ele sugara um ponto ainda bem arroxeado, percebeu-o ao abrir os olhos. Sentiu-o estremecer.
— Aaah!
Dor ou prazer?
“Não devo pensar nisso. Estarei ofendendo ele... ferindo seu orgulho!”
Seus lábios flutuaram por sobre o ventre plano, batizando o umbigo, lambendo-lhe as laterais, já espalmando suas mãos nas coxas formosas.
— Aah! M-Milo...ahh...
Ele parecia estar gostando... agarrando-se a essa ideia, ousou descer o rosto até o meio das pernas do amado, depositando beijos e chupadas na tenra carne do interior das coxas. Camus suspirou longamente, aspirando o ar pela boca entreaberta. A respiração de Milo agora pairava por sobre seu sexo sequioso, os dedos firmes próximos à sua masculinidade... sua expectativa aumentava na mesma proporção que o afluxo sanguíneo às suas partes baixas. Então sentiu algo úmido passear em seu pênis já latejante. Sufocou um grito, arqueando imediatamente o corpo. Milo lambia seu membro demoradamente, sem deixar de massagear a área próxima aos testículos quase doloridos, neles por vezes maliciosamente encostando.
— Aaaahhh! Milo... não... não me provoca a-assim...
Sentiu a glande ser insistentemente socada pela ponta da língua do escorpiano. Abriu mais as pernas, contendo-se para não mover o quadril contra a boca faminta do amante. Esta enfim tomou o órgão dilatado, sugando-o com lascívia e maestria. Camus gemeu alto e acabou envergando a coluna, as pernas completamente amolecidas, o fogo invadindo suas entranhas.
— Mi... Milo! Uunng...
Quis olhar para o amado... mas NÃO foram os longos cabelos azuis-arroxeados que viu.
Viu cabelos loiros, curtos e espetados.
Não foi o belo rosto de seu amante que viu.
Não mais os olhos azuis claros, e sim os dourados.
Não mais a pele lindamente bronzeada, e sim doentiamente pálida.
“Não... NÃO!”, gritou em pensamento.
Súbito, o calor das mãos fechadas em suas coxas foi substituído pela frieza do metal... mãos se tornavam tentáculos... tentáculos de metal...
— Aahn... não... — balbuciou.
Ele era aberto e imobilizado... diante de tantas faces, olhos, sorrisos, bocas, escárnio, bocas, mãos, corpos, dedos, mãos, corpos, bocas... a boca em seu sexo... era de... de... dos...
— N-não...
“É isso que o amor traz, Camus.”
Ele virava a cabeça de um lado para o outro, como que negando aquelas realidades que vinham invadir aquele momento especial.
— Aahh... não... nãão... ah!
Milo estranhou o tom dos gemidos que ouvia: não pareciam ser de excitação. Ergueu o olhar para o amante.
Lágrimas rolavam por sua face contraída de agonia. Soluços presos na garganta faziam-no arfar.
— Camus?... — interrompeu a felação, preocupado com o que via.
Nenhuma resposta. O francês continuou chorando silenciosamente, o rosto virado para o lado. Tremia muito.
— Camus! O que foi? — e tencionou ir até ele; o outro impediu-o:
— Nada! Apenas continue!
— Mas...
— CONTINUE o que está fazendo! — repetiu, ríspido — Já disse que não foi NADA!!
— Se não foi nada, por que está nervoso assim? E por que está chorando?!?
— Você não me quer mais?
— CLARO QUE QUERO! Mas você... desse jeito... o que há de errado?
O aquariano cerrou os dentes, sem conseguir responder. Sentia-se sufocado pelo choro que tentava não deixar alto, a ponto de sentir o peito constringir-se e impedir que falasse.
— Camus... — Milo acercou-se dele, tentando ampará-lo. Acariciou-lhe o rosto banhado em lágrimas. Ele estava em grande sofrimento, não havia dúvida!
— Sinto muito, Camus... eu errei em querer forçá-lo a isto depois de... de tudo que te aconteceu. Não deveria... está muito recente!
Num gesto repentino, o francês fitou-o com ódio. Aquilo estocou o coração de Milo.
— Vá embora.
— O QUÊ? Não... por quê?
— Eu quero ficar sozinho. Vai embora, Milo. Vai! Por favor...
E virou-se de lado, fugindo do olhar estupefato do grego. Que não se deu por vencido:
— Camus! Eu quero ajudar você! Me deixa cuidar de você...
— Vai embora... — rosnou.
— Não faz isso!!
— VAI EMBORA, MILO! — gritou por fim, o autocontrole diluindo-se em meio àquele delírio.
O mais novo ficou estático, olhando Camus, que não mais se voltou para ele. A tensão que emanava do mais velho mostrava que não era o momento de insistir. Ergueu-se da cama, anunciando:
—Eu vou.
Vestiu-se e, antes de sair, deu uma última olhada para o homem nu, encolhido no leito, de costas para ele. Ainda tinha esperanças de que seria impedido de partir.
— Se precisar de mim... me chame, não importa a hora que seja. Eu volto amanhã, tá bom?
Camus não respondeu. Mas Milo sabia o porquê.
Lutava para não desabar ainda mais diante dele.
“Por que, Camus? Por que depois de tanto tempo você ainda mantém essa parede de gelo entre nós?”
Deixou o quarto, desceu as escadas e saiu da 11ª Casa. Quase esbarrou num servo que trazia um envelope grande.
— Perdão, mestre Milo! Eu estava indo entregar isto ao mestre Camus.
— Tudo bem, pode entregar pra mim, ele já se recolheu... e com a perna imobilizada não poderia mesmo vir até aqui pegar.
— Muito obrigado — fez uma reverência, entregando-lhe a correspondência. O grego olhou-a, desconfiado.
— Do que se trata?
— É um convite da Senhora Athena: daqui a duas semanas ela vai dar uma grande festa no Templo do Patriarca, para sagrar o novo Papa e para comemorar o fim da ameaça da Guerra Santa em nossa era — respondeu o rapazinho, sem disfarçar a animação.
— Hum. Realmente, fatos que merecem comemoração.
— O do senhor já deixei no 8° Templo.
— Muito obrigado. E boa noite.
— Boa noite, senhor!
O Cavaleiro pôs-se a descer a escadaria rumo à sua Casa.
“Duas semanas, hein...Camus já terá tirado o gesso...”, pensou distraidamente. A frustração de seu apelo corporal não saciado não era maior que sua preocupação sobre o que ocorrera. Sua cabeça fervilhava de elucubrações.
“Foi uma reação natural. Após tantos horrores... após sofrer estupros e abusos... ele deve estar traumatizado...há de passar. Espero que passe. As dores que seu corpo ainda sente devem fazer com que as lembranças desagradáveis fiquem mais vívidas. É questão de tempo... Camus... não vou desistir de você! Não mesmo!”. Viu uma estrela cadente cortar o firmamento e sorriu, esperançoso. Tinha direito de ter esperança... não tinha?
*************
No dia seguinte, antes de ir para o campo de treinamento, Milo foi até o 11° Templo. Vestira uma calça leve de linho claro e uma regata marrom escuro. Respirou profundamente o ar fresco do início da manhã, sentindo o vento em seus cabelos como uma suave carícia.
Entrou na edificação, decidido a não comentar sobre o ocorrido da noite anterior. Pé ante pé, subiu até os aposentos do namorado, receoso de acordá-lo.
O quarto estava escuro, de forma que não pôde saber se o jovem dormia ou não. Aproximou-se devagar, em completo silêncio. Como que sentindo sua presença, o outro esfregou os olhos e balbuciou:
— Milo?...
—Sou eu, amor. Acordei você?
Sentou-se na beira da cama.
— Não... eu estava acordando nesse exato instante...
Milo achou a coisa mais fofa do mundo aquela voz sonolenta...
— Passou bem a noite?
—Hum… sim… — o francês parecia um tanto desconfortável — ...Milo...
— Enquanto você faz sua higiene matinal, vou fazer seu café da manhã. O que você quer comer? — indagou, fazendo carinho no rosto amassado do aquariano.
— O que você fizer está bom...
— Então vou fazer panquecas de chocolate com chantilly!
— Isso não... — fez uma careta: não gostava muito de doces, ainda mais no desjejum, O escorpiano riu.
— Brincadeira — beijou-o de leve no rosto — já sei do que você gosta: ovos com presunto de Parma, suco de laranja e café bem forte, tudo sem açúcar.
— Está perfeito.
— Queijo? Pão?
—Só um pedaço de queijo.
— OK. Vem, te ajudo — posicionou a muleta com que Camus podia ir até curtas distâncias como até a suíte do quarto. Deixou-o lá e desceu para a cozinha. 15 minutos depois trouxe a refeição do namorado numa enorme bandeja dourada. Viu-o sentado, ainda de roupão branco, à pequena mesa perto de uma janela. Pôs a travessa diante dele.
— Se vai comer aí, pelo menos abre a cortina, né?
— Está muita claridade... — resmungou o francês.
— Para com isso, precisa deixar um pouco de ar neste quarto. Parece um túmulo, caramba — e mesmo sem ter obtido a permissão, abriu as cortinas. O outro pareceu se incomodar além do normal com a luz do sol.
— Que é, virou vampiro? — brincou Milo, seu sorriso subitamente morrendo ao ver o amado tocar de leve o curativo da operação no pescoço.
“Que merda falei...” o grego refletiu, irritado consigo mesmo. Os olhos do aquariano estavam muito vermelhos e inchados. Olheiras pronunciadas...
“Camus... você chorou a noite inteira...”, pensou, com tristeza. Fingiu não perceber e sentou-se, servindo-o e servindo-se animadamente.
— Vê se come direitinho! O Milo aqui fez tudo com muito carinho! Nada de comer como um passarinho!
— Que é, virou poeta? — provocou Camus.
O escorpiano sorriu, satisfeito... pelo menos o namorado ainda conseguia proferir seus sarcasmos...
“Não está tudo perdido, afinal.”
— A omelete está muito boa, Milo — elogiou, comendo com gosto.
— Obrigado! O café não ficou muito forte não?
— Do jeito que eu gosto. Ah... Milo.
— Sim?
Camus ficou sério ao repousar os talheres. Sem olhar diretamente para o grego, falou, nitidamente sem jeito:
— Eu... me desculpe por esta noite... eu...sinto muito. Eu...
— Do que está falando?
—Ora, de… do… ah, não se faça de bobo!
Fazendo uma cara cômica, arregalando inocentemente os olhos, o outro insistiu:
— Mas é sério, senhor Aquário, não me lembro de nada!
Quase que um riso escapa do francês.
— Ah, Milo, você é mesmo um bobo!
— E quem não fica bobo com uma coisa linda como você por perto? — rebateu, sorridente, apoiando o queixo com a mão.
— Hum, pelo visto “Milo, o conquistador” está de volta, senhoras e senhores — zombou, sorrindo também, só que de modo sarcástico.
— Ei... olha o golpe baixo... — reclamou, fingindo estar ofendido.
Camus enfim riu, e Milo mais ainda, ao ver aquilo. De repente lembrou-se:
—Ah, você recebeu isto aqui — retirou o envelope do bolso da calça e entregou-o ao namorado — é um convite pra festa de Athena...
— Festa de Athena?
—Sim… pelo fim da ameaça da Guerra Santa, e para anunciar o novo Patriarca.
Suspirando desanimado, o aquariano encostou-se mais no encosto de couro da cadeira.
— Não posso ir com esta tala na perna.
— É daqui a duas semanas, Camus. Você vai tirar isso em seis dias.
— Não quero ir...
— Conta uma novidade — riu, servindo-se das panquecas que acabou fazendo por pura vontade — você não tem que querer, “mon ami”, tem que IR. Pronto e acabou.
— Hunf...
— E não faz “bico”, senão vou aí e beijo ele.
Camus fez um muxoxo e voltou a tomar o café, calando-se. Milo apoiou de novo o queixo com a mão e encarou-o apaixonadamente.
— Não vejo a hora de ver você de traje esporte fino... vai ficar lindo... bom, até vestindo um saco de batatas você ficaria lindo. Até com aquelas polainas bizarras da Sibéria fica sexy...
— Ora... pare com isso... — murmurou, ruborizado.
Milo sorriu, esperançoso: a normalidade parecia estar pouco a pouco entrando na vida deles… ainda teriam direito? Ainda teriam tempo? Poderia MESMO manter aquela esperança?
E enquanto divagava, viu Camus experimentar uma das panquecas de chocolate, devidamente coberta de chantilly.
— Não costumo gostar de doces... mas devo admitir, isto aqui está ótimo, Milo! — comentou, iluminando a visão do amante com aquela expressão deliciada. Tanto que o grego optou por manter sua esperança...
*************
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