Grilhões Eternais
36 Para sempre com você
Notas iniciais
Não fosse ter como namorado alguém tão vibrante e cheio de vida como Milo, os dias de Camus até retornar ao hospital para retirar o gesso, os pontos das cirurgias e fazer mais exames teriam sido mergulhados no mais profundo tédio. Durante dez dias, o grego ia até a sua casa preparar o café da manhã, fazer junto com ele a refeição para em seguida partir para os campos de treinamento. Por mais que quisesse ficar o tempo todo com o amado, como Cavaleiro de Athena não poderia descuidar do condicionamento físico.
Após o treino da manhã, voltava a Aquário para almoçarem juntos (o que ele cozinhava) descansava um pouco e retornava à arena. Em sua ausência, Camus lia os jornais trazidos pelos servos, livros – estava lendo três “ao mesmo tempo” – fazia traduções para a sede administrativa do Santuário, já que era poliglota, ou seja, até ocupava sua mente. Milo, porém, estava sempre lá.
Sentia falta de treinar com ele, de passar mais tempo com ele, de trocar golpes com ele, sentir o suor purificar sua pele sob o cálido sol da Grécia... ainda que debaixo dos risos de Milo e de outros ele acabasse correndo com Afrodite para debaixo de alguma árvore quando o sol ficava forte demais. Peixes o fazia por medo de danificar sua delicada cútis, e Aquário porque não gostava do calor mesmo.
Suspirava de quando em quando, erguendo o olhar cansado dos textos. No entanto, suportava aquelas horas arrastadas porque por volta das 16 ou 17 horas seu escorpião ia, enfim, para o 11° Templo. Ajudava o francês a tomar banho, ele mesmo se banhava, ia para a cozinha preparar o jantar. Enquanto cozinhava, tomavam aperitivos conversando animadamente sobre o dia (leia-se Milo contando como foram os treinos, e sobre os acontecimentos gerais pelo Santuário. Camus não tinha muito sobre o que falar, mas alegrava-se em ouvi-lo). Faziam a refeição, e depois conversavam mais, jogavam xadrez — o aquariano estava ensinando o grego a jogar, e o novato não estava se saindo nada mal, aprendia espantosamente rápido, já se tornando adversário razoável. Não raro, namoravam no sofá ou na varanda, nunca chegando a consumar algum ato. A Milo era evidente o desconforto de Camus e este não fez mais menção em querer algo nesse sentido. O escorpiano resolvera esperar passar aquele tempo de convalescência, cercando-o de cuidados e carinhos. A dupla jornada o cansava, ainda que ele não admitisse: algumas vezes acabava por dormir no sofá; então Camus pegava um livro e disso se ocupava. No entanto, seus olhos frequentemente abandonavam as páginas e pousavam na bela face adormecida. Uma ternura tépida o invadia e ele se perdia naquela contemplação amorosa por muito tempo. Descansava o rosto na palma da mão, embevecido com a linda imagem do grego dormindo tal qual um anjo.
“Você é um anjo, Milo. Um anjo que veio me tirar da escuridão que era a minha vida. Por duas vezes. Eu só queria poder... poder...”
Sentiu os olhos arderem por causa das lágrimas que prontamente afluíram ante o pensamento não concluído.
Queria amar Milo com toda a plenitude que ambos mereciam! Queria-o dentro de si! Entretanto, horríveis imagens invadiam sua realidade a cada vez que as carícias se intensificavam. O escorpiano percebia e se afastava sutilmente, tentando a todo custo disfarçar o mal estar que ficava entre ambos. Camus abaixava a cabeça, mas Milo a erguia, segurando-o pelo queixo, com delicadeza, deixando nos lábios um beijo tranquilizador.
Até quando aquilo aconteceria?
Quando Milo dormia em Aquário, o sono de Camus era calmo e renovador, mas se passasse a noite em Escorpião, visto a permissão de pernoitar fora ser em noites alternadas, pesadelos e pavores noturnos de toda espécie atormentavam o francês. Sentia-se tentado a tomar quantidade maior de tranquilizantes... contudo, não o fazia. Ainda tinha seu autocontrole, afinal, e não faria abuso da medicação prescrita.
Assim se passaram os dias até que finalmente se viu livre da tala na perna e dos pontos das cirurgias. Pelos exames, fisicamente não havia mais muito com o que se preocupar, fora o uso de pomadas cicatrizantes, suplementos alimentares e anti-inflamatórios. Felizmente não teria que fazer fisioterapia: disciplinado como era, seguiu à risca à ordem médica de “repouso absoluto”.
“Ah, se fosse o Milo!...duvido que ele iria ficar quieto por tanto tempo! Hunf, teria arrancado o gesso com sua Agulha Escarlate em poucos dias... hah... em poucas horas, isso sim!”, pensou, e riu divertido.
— Tá rindo de quê? — quis saber o namorado, que caminhava a seu lado, de volta às 12 Casas.
— Nada não.
— Eu hein... será que é melhor voltarmos ao hospital pra eles examinarem essa sua cabeça? Rindo assim, e do nada...
Camus riu mais. Milo sorriu, muito satisfeito com aquilo, e pegou sua mão. Por um momento, o aquariano sentiu-se um tanto constrangido em andar pelo Santuário daquele jeito, de mãos dadas com alguém. Nem era por ser homem, uma vez que isso não era tabu no local. Em seguida, relaxou. Ainda que vermelho e de cabeça baixa, não deixaria mais seus bloqueios nortearem sua vida. Claro que não se tornaria espontâneo como Milo! Mas por algum lugar ele tinha que começar. Mirou as nuvens douradas no céu róseo, aves em bando pontilhavam as alturas.
— O que você quer jantar? Massa? Frutos do mar? Carne?
— Não precisa mais cozinhar pra mim, Milo...
O outro pôs a mão na cintura, indignado.
— Está dispensando meu jantar de comemoração por sua recuperação?
— Comemoração por minha recuperação?
— Isso mesmo!
—Opa! Eu ouvi a palavra “comemoração”? — Afrodite apareceu na frente deles,todo desgrenhado, saindo de trás de uma coluna.
— DE ONDE você saiu? — o escorpiano quase gritou.
— Ué, de trás desta coluna, não viu não?
E então de trás da mesma estrutura surgiu o rosto do Santo de Câncer, cheio de marcas de batom rosa.
— Maneiro! Já vou avisar o Aioria!!! — disse, animado.
— NADA DISS...
— Precisa não, Carlo, eu ouvi — falou o leonino, que vinha de outra alameda acompanhado por Marin.
— Que bom que está se recuperando, mestre Camus, fico muito feliz — comentou a amazona, simpática como sempre em seu jeito discreto.
— Muito obrigado, Marin.
— Posso levar antepasto de berinjela, é a minha especialidade!
— UMA de suas especialidades, né? — atalhou o namorado, sorrindo maliciosamente. Levou um tapinha da ruiva, cujo rosto ficou da cor dos cabelos.
— AIORIAAA!
Milo ergueu as mãos para eles:
— Pessoal, vocês entenderam errado, não é uma... — mas Milo foi interrompido por Aldebaran, chegando com dezenas de bolsas de compras:
— Fala, galera, reunião aqui? Camus! Bom te ver bem, rapaz!
— Obrigado, Aldebaran.
— Vamos comemorar a recuperação do Camus mais tarde na casa dele, Debas — anunciou Aioria, sorridente.
— Que coincidência essa comemoração! Estou justamente voltando do mercado de Rodório. Meu servo ficou doente e como eu queria mesmo esticar as pernas um pouco, não pedi a outro, fui lá e adivinhem? Comprei bastante cerveja — riu, ruidosamente.
— Também tenho cerveja em casa — disse Máscara da Morte.
— Tenho vodca, acho... — ajuntou Afrodite.
— Legal, vamos falar com Shura, Mu, e... o Saga já saiu do coma, não? — Aioria indagou.
— EI...
— Saiu, mas ele não deve ir, está no lugar da Saori, que viajou ontem pro Japão. Não vai se ausentar do Templo do Patriarca até ela voltar — respondeu Peixes.
— EI... — repetiu Milo.
— Chamar o Shaka é perda de tempo, mas a etiqueta manda, né... — Afrodite pôs o dedo no queixo, reflexivo.
— EEEEEIII!!! — gritou o escorpiano, atraindo as atenções de todos. Conseguindo isto, começou, irritado:
—QUEM DISSE QUE… — e mais uma vez foi interrompido, desta vez por Camus, que tocou seu braço, e ficando na frente dele, para dizer:
— Será um prazer recebê-los em minha casa, amigos — declarou, sorrindo.
Assombro seria um vocábulo fraco para definir o que se viu nas faces dos jovens que cercavam o casal.
— Por Athena! Acho que vocês dois têm que voltar para o hospital!
— Por quê, Afrodite? — quis saber Milo, preocupado.
— Fizeram um TRANSPLANTE DE CÉREBROS em vocês!
Explodiram em gargalhadas, já entendendo o que o sueco quis dizer.
— É mesmo! — concordou o italiano, em meio aos risos — Camus tá sorrindo e Milo tá todo sério!!!
Riram a não poder mais.
“Seus...! Acabaram com a minha comemoração! Era pra ser só eu e Camus!”, pensou o escorpiano, injuriado. Porém, ao ver seu amado rindo animadamente, sorriu, pensando que somente aquilo merecia, sim, ser comemorado com uma festa.
Daria sua vida para ver Camus sorrir. Rir. Ficar alegre.
Dar uma noite de privacidade seria um preço bem abaixo...
*************
Naquela noite, viu-se no Santuário um evento inédito: uma “social” na casa do Santo de Aquário!
Não que houvesse acontecido festas em todos os templos: em Virgem, Áries e Capricórnio, por exemplo, nunca houve. No entanto, o caráter sisudo do aquariano tornava a ocasião no mínimo inesperada... claro que não partira dele a ideia (e Milo ficou rosnando por isso até tomar a terceira cerveja) mas acabou se tornando um momento agradável.
Reuniram-se no amplo salão contíguo à sala de estar da residência, onde foram dispostos assentos, mesas com comidas preparadas por Milo e por alguns “convidados”, e alguns quitutes encomendados. Providenciou-se iluminação apropriada para improvisarem inclusive uma pista de dança.
O aquariano divertia a todos usando seu cosmo para gelar de uma vez as dezenas de cervejas levadas pelos companheiros. Era algo impensável, vê-lo burlando seu estrito código de honra, que preconizava o uso das habilidades exclusivamente em prol da Deusa.
Tiveram que levar CDs de suas próprias coleções, pois em Aquário só havia música clássica e ópera, opções não muito adequadas para a festinha... estavam muito felizes pelo retorno do francês e também pelo adiamento da Guerra Santa por mais dois séculos. Não que não tivessem mais por que lutar! Viviam na Terra, evidentemente, o que significava eternas demandas... missões de paz, ameaças terroristas, nucleares, guerras por todos cantos, resgates... isso até um outro deus resolver se meter com Athena... a Guerra Santa, contudo, permeava o imaginário como a mais nefasta de todas as ameaças, pois que sempre custava a vida de quase todos Santos de Ouro, além dos de outras patentes, inclusive da própria encarnação da Deusa. Conversavam alegremente, dançavam, comiam e bebiam, enfim, tudo corria muito bem.
— Está se divertindo? — perguntou Milo, levando uma garrafa long neck de cerveja para o namorado.
— Como não estaria? — sorriu, aceitando a bebida. Naquela noite, deixara o vinho de lado para acompanhar os demais. Parado perto de uma grande janela, retirara-se momentaneamente para tomar um ar. Embora estivesse realmente se divertindo, aglomerações não eram com ele, e o grego sabia disso.
— Se não estiver disposto, posso mandar o pessoal ir embora.
— Milo, eu estou bem — retrucou, mantendo o sorriso.
— Está mesmo? — insistiu o grego, desconfiado.
— Se você perguntar de novo, aí vou deixar de ficar bem.
— OK! OK! Não falo mais — e deu um beijo no rosto do amado, que se envergonhou levemente com aquilo. Contudo, todos notaram que ele já não ficava tão constrangido como antes, e isso muito os alegrava.
Alguns Cavaleiros se aproximaram deles.
— Tem alguma preferência por estilo musical ou cantor, banda, Camus? Porque se deixar o som a cargo desse venenoso aí, vamos ouvir heavy metal a noite inteira — disse Aioria, apontando o polegar para Milo, que riu gostosamente.
— Bom... me parece que Aldebaran trouxe uns CDs de bossa nova... — arriscou o francês, desejando mesmo ouvir algo menos agitado.
— Zeus nos livre! — Máscara da Morte fez uma careta — já ouvi esse troço da terra dele, vai fazer todo mundo dormir aqui!
— Eu trouxe uns CDs de “new age”... Enya, Kitaro, conhece? Acho que vai gostar — ofereceu Mu.
— Parece bom — concordou o aquariano.
— Parece, não! É bom... BOM SONÍFERO, isso sim! — zombou Milo.
— Eu trouxe... — começou Afrodite, mas logo foi interrompido pelo parceiro:
— Nem pensar! O Camus não vai querer que a casa dele vire uma boate gay, Dite!
— São dançantes, tá? — o pisciano deu a língua, ultrajado.
— Que tal pop rock britânico? — sugeriu Shura — Stone Roses, Blur, New Order, Suede? Gary Numan…
—Não conheço — confessou Camus, meio sem jeito.
— É. É um bom meio-termo — concordou Aioria, os outros assentindo com a cabeça — Bota lá, Shura!
O espanhol pôs no som uma coletânea da banda New Order, cujos hits vibrantes prontamente levaram alguns presentes a dançar, animando ainda mais o ambiente. Camus viu, achando muita graça, Shun puxando Hyoga para o meio do salão, tentando fazê-lo se juntar aos que dançavam.
— Pena que a festa de Athena não vai ser descontraída como esta, né? Vamos ter que usar roupa de pinguim e tudo — comentou Aldebaran.
— Por falar em Athena, que acham de Ela ter deixado Saga como responsável pelo Santuário em sua ausência? — indagou Milo. Afrodite resolveu deixá-los e ir requebrar...
— Apesar de tudo que houve, é o que está mais familiarizado com as rotinas do lugar. Acredito que tenha sido isso — respondeu Aioria, tomando sua cerveja — embora isso me faça pensar se não será ele o escolhido.
— Não há indícios disso. Eu particularmente preferiria que fosse Shaka ou Mu. Mas... o que a Deusa decidir será a lei — declarou Máscara da Morte.
— Não creio que seja eu o escolhido — afirmou o ariano, neutro — Shaka com certeza será o eleito.
— Você seria um excelente Papa, Mu — opinou Camus.
Milo sentiu uma pontinha de ciúme ao ver aquele gracioso sorriso e aquele elogio serem direcionados ao tibetano.
— Obrigado, Camus. No entanto, devem se lembrar de que até Kiki dominar totalmente as técnicas que venho lhe ensinando, sou o único que conserta armaduras. Isso exige muito de meu tempo e ser Patriarca demanda exclusividade ao cargo.
— Humm, isso é verdade — refletiu Touro — é uma pena. Adoraria ver você com aquelas vestes...
— Ih... pintou um clima — brincou Milo.
O lemuriano ficou vermelho.
— Claro que fica lindo de qualquer jeito.
Ficou ainda mais vermelho.
— O-o-ora... Al-Aldebaran, que... q-que isso...
Eles riram bastante. Só Mu parecia não admitir mas percebia-se ali a promessa de um novo casal. Os dois se olharam, ternamente. Camus apenas sorriu com suavidade, secretamente desejando que o ariano aceitasse seus sentimentos... que não seguisse o trite caminho que ele mesmo trilhara por anos. Mas ao ver o delicado sorriso de Mu para o brasileiro, tranquilizou-se...
Afrodite aproximou-se deles, descabelado de tanto dançar. Trazia um copo na mão.
— Cês vão ficar só nessa reuniãozinha à parte aí, é? — reclamou. Virou-se para Máscara da Morte — Amooooor... olha o que eu trouxe pra você...
— Cerveja, espero.
— Nããããão! O licor de cerejas que fiz! Você nem provou...
— Nem vou provar. Isso não é bebida de homem, caramba.
Eles riram, e riram mais ainda do beicinho do pisciano.
— Que desfeita! Deu muito trabalho pra fazer, tá? E fiz pensando em você...
— Isso me ofende.
— Bebe, vaaai...
— Nunca! Quero cerveja! Bebida de macho é cerveja!
Agora gargalhavam. O que tornava a cena ainda mais cômica era a cara séria do italiano irredutível.
— Ah mas VAI TOMAR SIM SENHOR — e segurou o queixo do namorado, levando a borda do copo à sua boca — só um pouquinho, Carlo, vaaai... abre a boca!
— Eu não quero!
— Vai beber...
A risada deles foi interrompida pelo som de vidro se espatifando no piso. Viraram-se para ver e presenciaram o aquariano com o olhar aterrado, a tensão estampada no rosto paralisado.
Ele deixara a garrafa de cerveja cair no chão.
— Camus? — Milo chamou-o, não obtendo resposta. Eles fitaram o francês, intrigados, percebendo que ele olhava, imóvel na direção do casal que discutia há pouco. Ficara pálido e levemente ofegante.
— Camus? Tá tudo bem? — indagou Aioria.
— O que houve, Camus? — ajuntou Afrodite, perturbado com aquilo.
Jamais imaginaria ter sido seu inocente gesto de levar o copo à boca do namorado, querendo fazê-lo provar do licor à força, que desencadeara aquela reação no Santo. Ao ver tal cena, o francês experimentou como um choque elétrico, tendo subitamente diante de si não mais seus amigos e sim, ele mesmo e Radamanthys!
O espectro levava água aos seus lábios.
Um flash.
O espectro dava-lhe remédios e água na boca.
Um flash.
O espectro o obrigava a beber uísque.
Um flash.
O espectro lambia sua boca, ardendo pelo contato da mucosa ferida com o álcool.
Um flash.
O espectro o tocava... o forçava...
Seu coração... iria explodir!!!
— CAMUS!
— HÃ?! — fez, ao sentir as mãos de Milo em seus ombros trêmulos.
— O que foi? O que você tem? — perguntou, suavemente.
O francês apenas o encarou, com a boca semiaberta, nitidamente aturdido. Foi com dificuldade que articulou:
—Na… nada! Não foi nada... me desculpem... me desculpem...
— Do que está se desculpando?
— Eu... — pôs a mão na testa, tentando controlar uma vertigem que ameaçava dominá-lo.
Milo fez menção de abraçá-lo; o aquariano esquivou-se num gesto brusco e assustado.
— Camus?!
Os demais olhavam-no, espantados. Percebendo, Aquário se recompôs, passando a mão na franja, enquanto dizia:
— Eu... estou bem... mas... hum... com licença, vou para o meu quarto — e retirou-se apressadamente, abrindo caminho entre os presentes.
— O que será que deu nele? — questionou Aldebaran.
— Não sei — admitiu o escorpiano, atônito — Eu não sei!
— Milo, melhor a gente ir embora. Vai falar com ele, não o deixe sozinho — sugeriu Mu.
— Eu vou. Obrigado, pessoal. Peçam pros outros saírem, sim?
— Deixa com a gente — disse Afrodite, com ar preocupado.
*************
Abriu a porta devagar; adentrou o quarto do amado com cautela. Viu-o deitado na cama virado para a parede. Estranhou: ele nunca se deitava com a mesma roupa que estivera usando antes de se recolher. Apenas tirara os sapatos. Continuava de calça preta e camisa de manga e botão branca.
— Camus...
Aproximou-se do leito e sentou-se no colchão. Tocou de leve o ombro do amante.
— O que você tem? Camus…
— Desculpe por ter preocupado você.
— Para de se desculpar.
— A festa acabou por minha causa, né? — murmurou o aquariano, sem se virar.
— Já tava na hora, meu anjo. Não foi por sua causa não. Você não fez nada de mais! — respondeu animadamente, acariciando as costas do homem fechado em si mesmo.
Percebendo que não obteria nada além de silêncio do francês, o grego o puxou delicadamente, sussurrando:
— Vem cá.
Ele obedeceu docilmente, aninhando-se no peito do amado, que o envolveu com braços fortes.
— Me desculpe, Milo...
— Zeus! DO QUE é que você tá se desculpando?!?
— Acabei com a reunião... preocupei nossos amigos...
— Relaxa... você só está cansado, meu amor. Para de ficar se culpando.
— Milo... — murmurou, afundando o rosto no pescoço perfumado do namorado, experimentando supremo langor. Carícias lentas em sua nuca acalmavam-no, e ele se permitiu suspirar com abandono.
— Quando quiser falar sobre o que aconteceu, é só dizer e...
— Milo. Me beija.
O grego teve um breve sobressalto ante aquele pedido. Afastou-se um pouco para poder mirar as profundas águas marinhas.
— Camus... — sussurrou, extasiado com aquela entrega. Pousou seus lábios sobre os dele, pressionando levemente e sentindo aquele dulçor. Camus fechou os olhos, inebriado, e levou a mão ao rosto do outro.
— Hum... — gemeu entre o beijo que se aprofundava pouco a pouco. Ambos estavam muito carentes, muito saudosos, muito ansiosos por contato e amor. Espalmou sua outra mão naquele peito que convertera-se em seu porto seguro. A língua de Milo massageava o interior de sua boca tépida e receptiva. O calor dos dois intensificava-se. Milo deu-lhe mordiscadas excitantes no lábio inferior, sempre acariciando-o a nuca, as costas.Camus abriu mais a boca para sentir mais aquela provocação, para ter mais dele dentro de si. Uma forte excitação apoderou-se do escorpiano, já tocado suficientemente pela ausência e agora pelo álcool.
Conduziu-o para baixo, deitando-o na cama, sem interromper o beijo, agora mais urgente, mais molhado, mais selvagem. Acariciou-lhe o pescoço, encostando na cicatriz da cirurgia. Sentiu-o tremer, não saberia dizer se de dor ou de prazer. Preferiu continuar.
Na verdade, não conseguiria parar.
Não mais.
A saudade de Camus já se fazia insuportável.
Pôs-se a abrir os botões da camisa branca, nunca abandonando a boca deliciosa do amado, que o sugava como se dependesse daquilo para viver. Percorreu o peito liso com sua mão, propositalmente roçando seus dedos nos mamilos enrijecidos.
Camus estava excitado também.
E não era APENAS aquela rigidez que denunciava sua excitação.
Pressionou mais sua virilha contra a do homem abaixo de si, entrelaçando sua perna na dele. Mesmo com o obstáculo dos tecidos, sentia o membro do outro pulsar vivamente.
— Mi... Milo... — balbuciou, ruborizado, angustiado de tanto desejo.
— Camus... você é tão delicioso...
“Delicioso.”
“Você é delicioso, Santo de Aquário.”
— Mi...
A mão de Milo abriu-se sobre o ventre de Camus. Quente... ardente... fremente...
— ...lo...
Seus dedos tracejaram a pele sensível abaixo do umbigo, introduzindo-se no cós da calça. Brincou com o tecido da boxer, circundando sua barra.
— Aaah... Milo...
— Delicioso...
“Delicioso.”
“Você é delicioso, Santo de Aquário.”
Ouviu o barulho do cinto ser aberto. O botão da calça também foi. O zíper desceu.
— Milo... n-não...
“Não.”
“Não.”
— Eu te quero tanto, Camus — disse-lhe, sofregamente, ao ouvido, lambendo de leve o lóbulo da orelha.
— Ahh!
— Te quero tanto...
Dedos invadiam o interior da roupa íntima.
“NÃO ME TOQUE.”
“Não quero que me toque!”
“Não percebe que o que você quer já não faz mais a menor diferença?”
— Pare... — balbuciou, ao sentir a ponta de seu pênis ser estimulada pelo esfregar dos dedos do amante.
— Quer... quer que eu pare?
— Uhn... — gemeu, arqueando-se para melhor senti-lo. Aquilo confundiu o escorpiano. Por que pedira aquilo se parecia estar gostando tanto?
Num ímpeto, ergueu-se e puxou de vez as calças do jovem. Despiu-o totalmente a atirou-se sobre ele, decidido a fazê-lo desmanchar de prazer. Apalpou toda extensão do órgão, percebendo-o dilatado e ansioso como o seu próprio.
Sem perceber, Camus já movia os quadris, projetando sua masculinidade ávida na mão do grego. Este principiou ali uma massagem forte e ritmada, atendo-se às expressões faciais do francês. Estocava-o ora sem parar, ora fazendo breves pausas, segurando-o firmemente para baixo.
— Mi... Milo... aaahhn...
— Camus...
Não conseguiria estender demasiado aquilo: desceu até o falo endurecido e após molhá-lo bastante com saliva, processo que arrancou gemidos altos do aquariano, abocanhou-o, simultaneamente erguendo uma das pernas acima de seu ombro para melhor explorar a área intermediária entre os testículos e o ânus. Sugava-o com pressão mediana porém provocadoramente enlouquecedora, enquanto seus dedos acariciavam-lhe o períneo. Camus achou que iria entrar em combustão espontânea. O fogo em seu baixo ventre exigia que ele ondulasse os quadris rumo àquela boca que o aspirava avidamente. Virava a cabeça de um lado pra o outro, quase incapaz de se conter.
— AAAh! Milooo... ahn!
O escorpiano chupava-o ao mesmo tempo em que passava os dígitos pela mucosa sensível a qual tencionava explorar. Arrepios cobriam a pele do aquariano, coberta de gotículas de suor. Seus gemidos roucos forneceram a confiança necessária para Milo seguir adiante com seu intento.
Lentamente, introduziu a ponta de um dos dedos na ardente entrada do amado, sempre com movimentos suaves que facilitassem sua entrada, e sempre dando extrema atenção ao sexo oral, até para distraí-lo. O francês retesou-se todo, mas abriu-se mais, visivelmente almejando por mais.
— Ohh... ahhhn...
A sucção em seu pênis latejante aumentou a fim de que aquele dedo fosse totalmente inserido na cavidade anal sem demora, e ele foi imediatamente sugado: contrações convenceram-no a iniciar uma massagem estimulante. Em seguida, um segundo dedo juntou-se ao primeiro na saga exploratória. Camus gritou. Milo tentou não se impressionar. Tinha que ir adiante.
— Não... NÃO!
Pedidos usuais.
Tudo estava normal.
Tudo ficaria normal.
Enquanto prosseguia a felação, primorosa e alucinante, massageava seu canal rumo ao ponto que desligaria quaisquer resistências do amado.
“Veja. Quase que não cabe mais na minha boca.”
— NÃO... NÃO ME TOQUE! — falou mais alto.
“Seu cuzinho puxa tanto meus dedos que parece que vai quebrá-los...”
— NÃO! PARA!!!
— Camus?!
“... imagina quando receber meu pau dentro dele...”
— ME SOLTA! — debateu-se, de súbito — NÃO!!!
— Camus, O QUE TÁ ACONTECENDO?
— AAAAAHHH!!! — o grito de desespero trespassou a alma de Milo, sendo preciso que ele o contivesse, antes que fosse golpeado. Segurou-o pelos pulsos e viu, terrificado, o rosto transtornado do namorado.
— Me solta, não encosta em mim!!! TIRA A MÃO DE MIM!
— CAMUS! SOU EU, MILO! POR ZEUS! — clamou, espantado.
— Uhhnn... aaah... — debatia-se, freneticamente, e pôs a morder o lábio inferior com tanta força que Milo viu surgir um ponto de sangue.
— Camus, PARA! Você tá se machucando! PARA! Sou EU que estou aqui com você!
O aquariano agora vertia lágrimas e de repente ficou imóvel. O olhar bestificado encontrava-se longe dali.
— Camus... — Milo não queria, mas teve que apertar mais os pulsos do francês — eu te amo. Eu te amo...
— Uhnng... ahh...
— Fica comigo... eu te amo... olha pra mim — suplicou, lutando para não chorar.
O olhar fixo em lembranças obscuras voltou a focar no semblante amado, modificando-se gradativamente. As lágrimas nublaram a visão acima dele, não obstante, ele já sabia...
— Milo?...
—Sou eu, meu amor. Meu anjo, sou eu… seu Milo.
— Milo!!!
E caiu sobre ele, abraçando-o, trazendo-o para perto de si, como se fosse evaporar diante de suas vistas.
Como se ele fosse desaparecer novamente.
— Shhhh... está tudo bem. Tudo bem, ouviu? Estou aqui com você.
— Milo...
— Me desculpa. Não deveria ter te forçado a...
— Não... não! Você não me forçou a nada! Você não me forçou a...
— Shhh...OK. Mas deveria ter respeitado mais o seu tempo. Tudo bem. Nós vamos ficar bem, OK? Apenas descanse. Pode fazer isso? Por mim?
Soluçando a ponto de sufocar, o aquariano sequer pôde responder. Assentiu com a cabeça, deixando-se abandonar sob o amplexo protetor do maior.
— Estarei sempre com você... eu te amo... para sempre. Eu te amo, meu francês...
— Me... perdoe...Milo...
— Camus! Não diga mais isso! Eu já disse que...
Ouviu-o ressonar levemente.
— Camus?...
Milo não sabia, mas há dois dias que Camus não dormia. E ao se sentir tão protegido por quem mais amava no mundo (oh, que a Deusa não soubesse, mas sim, amava Milo mais do que tudo!) pôde se entregar ao que para ele estava sendo sinônimo de terror.
Milo não sabia.
No entanto, Milo era sagaz.
Percebia-lhe as olheiras. A lentidão dos reflexos. A atenção falha. A voz rouca e fraca.
— Você não tem dormido, não é? — disse Milo, baixinho, mirando-o com ternura, acariciando-lhe o rosto, segurando-o pela cintura.
Um manto de tristeza cobriu-o. Tornou o olhar para a janela, de onde se via o firmamento adquirir a coloração dos olhos do amado.
O que estaria acontecendo com Camus?
*************
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