Grilhões Eternais

5 Noite em Rodório


Notas iniciais
Gostaria de agradecer a quem está lendo, favoritando, comentando, e em especial, às recomendações da Sah Moura e da Perséfone, suas palavras muito me alegraram e me estimularam a continuar postando aqui a história. Espero que todos apreciem, boa leitura! Observação - os pensamentos dos personagens são grafados em itálico.

O relógio centenário, de ouro maciço, no quarto de Aquário marcava agora 17 horas. Muito provavelmente faltava cerca de uma hora para Milo voltar a ter diante de si os olhos mais enigmáticos que já vira em sua turbulenta vida. Ainda pensava na questão das cartas, e em como tanta coisa se explicava... Camus fora CONDICIONADO a não ter emoções, ou a, pelo menos, não lhes dar a devida importância.

Sua mente voltou ao dia em que se reencontraram, após cinco anos de treinamento pelas armaduras de ouro. Na noite do dia da volta de Camus, agora sagrado Cavaleiro de Aquário, retornara ao Santuário, foi oferecido no grande salão de festas do Mestre uma grande homenagem aos novos Cavaleiros de Ouro. Uma suntuosa cerimônia, que reuniu cavaleiros, amazonas, autoridades locais e figuras da alta sociedade europeia, ligadas à política, à nobreza, e às forças armadas. Pois sendo o Santuário de Athena o pilar de sustentação da paz mundial, a nova geração de guerreiros de elite deveria ser saudada. Curiosamente, apesar de a Deusa já estar no meio deles, reencarnada numa menina de agora 5 anos, o Mestre não a apresentou. O Patriarca havia de ter suas razões, sábio representante que era.

Após a solenidade procedeu-se à festa, propriamente dita. Uma competente orquestra levava pares a dançar no centro do salão iluminado, sob imensos lustres de cristais. Alguns, como Aldebaran principalmente, preferiam deliciar-se com as finas iguarias sobre as mesas fartas. Ante as piadas e brincadeiras de seus companheiros, dizia que “estava em idade de crescimento”, e que deveria se alimentar bem. Se ele crescesse mais do que já estava enorme, não caberia em seu próprio Templo, riam. Outros, como Máscara da Morte principalmente, preferiam provar dos finos e variados vinhos oferecidos por garçons impecavelmente vestidos. Apesar de os Cavaleiros de Ouro homenageados terem então média de 13 a 15 anos, ali eram tão adultos quanto os generais ou os príncipes, que protegeriam com suas vidas. Por isso, bebiam à vontade, e eram assediados à vontade por mulheres, ou pelas filhas dos figurões ali presentes. Um dos mais requisitados era Milo, então com 13 anos, cabelos compridos repicados e voluptuosamente cheios, no meio das costas. Os fios azuis escuros, entre roxo e índigo, refletiam as luzes do ambiente e seus grandes olhos da cor do céu seduziam quase tanto quanto sua simpatia, não destituída de certo orgulho, talvez até arrogância. Trajava calça social preta e camisa social vermelho-sangue, no pescoço um colar de ouro branco com um pingente de escorpião. Garotas o cercavam, disputando sua atenção, e ele estava muito à vontade com aquilo. Uma das jovens, uma linda loira de olhos verdes e pele de porcelana entregou-lhe uma taça de champanhe. A atenção delas subitamente voltou-se para um adolescente que apareceu diante deles, afinal, ele também era extremamente atraente.

— Milo.

— Olá, Camus – respondeu, amistosamente.

Após tirar a armadura, que todos usaram apenas no momento da cerimônia realizada pelo Patriarca, Camus vestira uma camisa social chumbo e uma calça preta com risca de giz. Seus cabelos também estavam mais compridos, na altura do peito, com duas mechas menores por sobre as orelhas. Conservara a franja, e seus fios continuavam lisos como ele se lembrava. Mas seu olhar ainda estava mais frio do que se lembrava.

Disfarçando a emoção, Milo disse com voz neutra:

— Você está ótimo, Camus. Mas continua mais baixo do que eu.

— Eu ainda vou te alcançar – disse o francês, tomando um longo gole do vinho que tinha na mão.

— Boa sorte com isso – sorriu o grego – fiquei feliz que conseguiu se tornar um Cavaleiro de Ouro como eu. Veja só, tanto que eu idolatrava Saga que nos tornamos Cavaleiros de Ouro ainda mais novos do que ele quando se tornou Cavaleiro de Gêmeos!

— E por falar em Saga, fiquei surpreso quando soube que ele desapareceu. Que coisa estranha, bem quando a Deusa Athena retorna à Terra.

— Sim, de fato é um mistério. Não sei se ele fugiu por causa da morte de Aioros... eles eram muito ligados. Sabe como é – e frisou bem esta última frase – Deve ser muito difícil perder um amigo.

Esvaziando o copo, Camus deixou o olhar perder-se em seu fundo rubro, ao declarar:

— Eu achei essa história de traição do Aioros muito estranha...

— Shhhh! Fala baixo... como você diz uma coisa dessas? Zeus, mal voltou já quer arrumar problemas?

Virou-se para as suas acompanhantes, há muito quietas, naturalmente alheias ao teor da conversa recém estabelecida ali.

— Meninas, poderiam me dar licença por uns instantes? Eu já volto – disse Milo, com seu mais sedutor sorriso, recebendo em troca muxoxos de frustração.

Pegou o pulso de Camus e praticamente o arrastou até a varanda mais próxima. Resistiu ao anseio de empurrá-lo com violência contra a sacada, que dava para um magnífico jardim. A lua saía por trás das nuvens prateadas. A muito custo controlando a voz, ele foi direto ao ponto:

— Por que nunca respondeu às minhas cartas, seu imbecil?

Camus segurou o pulso, ligeiramente magoado. Milo tornara-se extremamente forte, muito mais do que já era. Mirou-o, impertubável, e respondeu calmamente:

— Eu não tinha tempo para respondê-las.

— Não tinha tempo? – repetiu, incrédulo – Durante CINCO MALDITOS ANOS você não teve tempo para responder UMA carta sequer?

— Não.

Cerrando os punhos, Milo o encarou, zangado e machucado.

— Você é um CRETINO, Camus!!!

— Era só isso que tinha a me dizer, Milo?

O agora Cavaleiro de Escorpião chegou a ranger os dentes de ódio.

— Pensei que fosse meu amigo.

— Eu SOU seu amigo, Milo. Escute...eu realmente não podia responder as...

— Esquece. Deixa pra lá. Foi um bom passatempo nos meus tempos livres durante o treinamento.Aposto que graças a isso, minha letra deve ser mais bonita do que a sua – e riu, disfarçando o mal estar. Girou sobre os calcanhares e saiu da varanda, abandonando o agora Cavaleiro de Aquário.

Voltou ao salão e às jovens que comemoravam, afoitas, o seu regresso. Tomavam-lhe o braço, serviam-lhe bebidas e quitutes. Uma ousou colocar um doce na boca do adolescente. Ele olhou na direção da varanda e viu que Camus o olhava de lá. Sua pele estava mais pálida, devido à permanência no extremo norte do planeta, muito possivelmente. E o luar cuidava de conferir-lhe uma aura ainda mais irreal.

Aproveitando aquele olhar fixo e insistente, Milo satisfez a vontade de uma jovem de seu séquito: beijou-a de surpresa. Ela correspondeu com paixão, quase abraçada a ele. A loira exigiu também e foi prontamente atendida, com mais desenvoltura ainda.

Tornou a olhar na direção de Camus: ele não estava mais lá.

***************************

Dois anos se passaram. A amizade dos dois não esmoreceu com os acontecimentos passados. Milo não sabia guardar rancor e Camus... bom, Camus talvez sequer tivesse sentimentos. E se os tivesse, não lhes dava a menor importância. Portanto, continuaram companheiros de todos momentos. À capacidade de perdoar de Milo aliava-se seu amor secreto. Nunca que poderia ficar de Camus, não importa o que houvesse.

Quando tinham 15 anos, foram surpreendidos com a notícia de que Camus deveria voltar à Sibéria, desta vez para treinar duas crianças. Camus, mestre? Ninguém conseguia imaginar uma pessoa tão fria e tão inexpressiva responsável por duas crianças. E mais uma vez se separaram, por mais cinco anos. Desta vez sem cartas.

Nesse período, a tendência hedonista de Milo intensificou-se, a fim de aplacar a dor do amor não realizado, a dor da saudade. Tornou-se o maior pegador do Santuário...

*************************

Após um extenuante treinamento na arena principal, Milo, Camus, Aioria e Camus sentaram-se na sombra formada por frondosas e centenárias árvores. Um servo levou-lhes água. Eles beberam sofregamente, ainda ofegantes pelo esforço recente. Conversavam animadamente quando uma serva se aproximou deles. Postou-se diante de Milo, que enxugava o rosto com uma toalha. Todos calaram-se e olharam para a menina, de uns dezesseis anos, alta, magra, de longos cabelos vermelhos. Ela estendeu-lhe uma cesta de vime, tremendo levemente.

— Por favor, senhor Cavaleiro de Ouro de Escorpião, aceite este humilde presente desta sua serva. É uma torta de maçã, tradição de minha família, que serve ao Santuário há muitas gerações.

— Oba, eu adoro torta de maçã! Muito obrigado – e pegou a cesta, sem cerimônia alguma, sem nem ao menos perceber o rubor da jovem – Mas... mas meu aniversário é só amanhã...

Ela pareceu se desesperar. O rubor intensificou-se, enquanto falava apressadamente, quase chorosa:

— Oh, meu senhor! Perdoe-me, eu não sabia disso... não trouxe como presente de aniversário, não, por Zeus, seria uma afronta, de jeito nenhum isso seria um presente de aniversário...

— Pois agora é, e eu adorei, viu? Diga, qual seu nome?

— Eneida.

— Eneida...que lindo nome. Lindo como você, e doce como certamente está esta torta – e Milo sorriu encantadoramente. Parecia que a mocinha iria desmaiar a qualquer momento!

— Eu... eu prometo que lhe darei um presente de aniversário à altura, Cavaleiro – falou emocionada, juntando as mãos sobre o peito.

— Não se preocupe. Bom, a gente se vê – e piscou, fazendo a moça retirar-se dali, quase flutuando.

— “Que lindo nome. Lindo como você, e doce como certamente está esta torta” – zombou Máscara da Morte, fazendo uma vozinha fina e estridente – Não tem vergonha de ser tão baboso?

— Ora, é melhor ser cordial do que um bruto como você, Carlo – riu, divertido.

— Se eu fosse diabético, teria morrido só de ouvir isso...

— É impressionante como você tem admiradores, Milo, sempre tem alguém no seu pé, com presentinhos e declarações apaixonada!

— Aioria, você teria a mesma coisa, se não estivesse tão vidrado naquela amazona de prata. Todo mundo sabe de vocês dois? Quem iria querer despertar a ira dela? Soube que ela é bem forte!

Leão colocou a mão atrás da cabeça, encabulado, sorrindo sem graça. Mesmo sendo moreno, enrubesceu com aquelas palavras.

Somente Camus não falava nada. Ajeitava as sandálias, alheio àquela conversa.

— É, mas cuidado pra não engravidar ninguém por aí, ô Don Juan aracnídeo! – alertou Máscara, alongando os braços musculosos – Sabe que pela lei do Santuário, se tu engravida uma mulher, é obrigado a casar com ela.

— E você acha que eu sou tão descuidado assim, ô Caranguejo? Eu me previno, meu caro, sempre, hehe.

— Vamos voltar ao treino? – sugeriu Camus.

— Espera aí, ô Freezer! Acabamos de sentar, caramba. E temos que combinar amanhã, né, Milo – falou Câncer, vivamente.

— Isso mesmo. Obtivemos a permissão do Mestre.

— Isso é ótimo – alegrou-se Aioria – tem tempo que não vamos lá. Mesmo horário?

Camus olhou-os, sem entender. Já estava de pé. Ao ver sua expressão, os três riram. Aioria tratou de esclarecer:

— Já se esqueceu, Camus? Que Milo ia pedir ao Grande Mestre que nos deixasse comemorar o aniversário de 21 anos dele em Rodório? Amanhã à noite?

— Oh, a vila ao pé dos limites do Santuário – refletiu Aquário – Mas por que lá?

— Ora, porque lá tem mais coisa pra gente fazer... tem mais diversão que aqui – respondeu Milo, com certa malícia.

— Imagino que você ache bem divertido. Costuma mesmo ir com certa frequência – comentou Camus, prendendo os cabelos num rabo de cavalo baixo. Haviam crescido muito, começavam a passar da cintura, assim como os de seu amigo escorpiano.

— Sim, meu amigo. Bares, bebida, jogos, mulheres...porra, a gente “é de ouro”, “não é de ferro, não!”

Os três riram, ruidosamente. Camus virou o rosto, vermelho.

— Eu não vou!

— Grande amigo – ironizou Leão – é CLARO que você vai. Vamos todos! Ou melhor, quase todos: Mu está em Jamiel, e Shaka com certeza não vai. Ele não gosta dessas coisas.

— Bem faz ele – retrucou o francês, desinteressado.

— Mas ele não vai porque é quase um monge, seu picolé de limão azedo – replicou Máscara da Morte – e você vai acabar virando um também se continuar assim. Não seja estraga-prazeres, além do mais... você tá precisando MESMO pegar uma mulher... ou...

Mais risos. Desta vez, Milo não os acompanhou. Levantou-se, subitamente irritado, ralhando:

— Para com isso, Máscara. Não vou deixar zoar o Camus desse jeito!

— Xiii...ok, ok. Mas eu não disse nenhuma mentira, disse?

Milo olhou para Camus. Um discreto rubor pincelava o belo rosto enfezado. Pôs a mão no ombro do aquariano e disse, suavemente:

— Camus vai porque é meu AMIGO. E não vai me fazer uma desfeita dessas, né, Camus? Você já se recusou em nos acompanhar antes até Rodório pra curtir, mas amanhã é MEU ANIVERSÁRIO.

— ............

— Vai ser divertido! Sua presença será meu presente de aniversário!

— De onde ele tira essas frases? – O canceriano fez uma careta.

— Eu... eu... certo, Milo. Se o Mestre permitiu, então talvez não haja maiores problemas.

— Assim que se fala. Então combinado! Vai ser demais! – exultou-se o grego – E aí, alguém quer um pedaço de torta?

**********************

Uma brisa suave soprava, espalhando mais ainda o perfume das flores dispostas nas bancas. A temperatura baixara bastante à noite, para sorte de Camus, que invariavelmente achava o clima da Grécia um tanto incompatível para ele. Tanto que ao contrário de seus amigos, que usavam casacos, usava uma camisa fina de botões, de manga comprida dobrada na altura dos cotovelos, de cor cinza claro. Não costumava usar jeans, mas em prol de um visual mais despojado como a ocasião pedia, usava uma calça jeans black, justa, que deixava visível seu corpo agora totalmente esculpido pelos intensos anos de treinamento. Ele contemplava a vida pulsante das ruas abarrotadas de pessoas, os pórticos de pedra muito antigos, iluminados sutilmente, nas varandas enfeitadas com plantas vistosas, na delicada arquitetura das casa humildes. Lindas moças com compridas tranças, em trajes típicos, apregoavam suas mercadorias: doces, pães, adornos variados, artesanato. Uma alegre música ecoava pelos ares frescos, típica daquela região da Grécia.

— Que tal, Camus? Não é legal? Não foi bom ter vindo, afinal? – perguntou Milo, que ia ao seu lado, comendo castanhas quentes.

O francês olhou para o amigo, metido num casaco de couro marrom envelhecido, camisa de gola alta preta, calça jeans rasgada nos joelhos e calçando coturnos.

— Sim, o lugar é bonito e animado. A que horas voltamos?

— Seu chato, você acha que a gente veio só fazer turismo pelas ruas? – provocou Afrodite, rodopiando na frente dele; vestia-se com uma calça bem colante azul clara, casaco de lã lilás e trazia uma echarpe rosa clara no pescoço alvo. Obviamente, atraía muitos olhares.

— Ah, sim, vocês querem beber – suspirou o aquariano, fechando os olhos.

— Anime-se, ou você vai estragar o aniversário do Milo – sugeriu Aioria, piscando um olho.

— Está bem – resignou-se – Não falo mais nada.

— Também não é pra virar uma múmia.

Afrodite parou numa banca de enfeites e adornos.

— Ei, Carlo, veja esses braceletes! Lindos, né? Eu quero!

— Beleza, compra aí...

— Seu idiota, é pra você me dar!

— Eu? Qualé, o aniversário é do Milo, que eu saiba – Máscara da Morte revirou os olhos, acendendo um cigarro.

— Você é um insensível! Ah, não, vai fumar? Sabe que meu olfato delicado não pode com esse cheiro horrível de cigarro?

— E eu com isso?

Camus começou a achar que os rumores fossem verdadeiros; pareciam um casal de namorados discutindo daquele jeito! Aioria tomou o bracelete da mão de Peixes e o levou à vendedora, entregando a ela algumas notas.

— Seu...! Era MEU!

— ERA mesmo. Agora será de Marin – sorriu o rapaz, maroto – Obrigado por dar a dica, Dite, eu não sabia o que comprar pra ela.

— Está apaixonado mesmo, hein, Leãozinho! Nem saindo com os amigos deixa de pensar na amada – riu Milo, dando tapinhas nas costas do amigo, que ficou sem-graça.

— Ah... é que... bem, o dia em que você se apaixonar, Milo, vai saber como é...

“O dia em que eu me apaixonar? Mas eu já...”

— Pena que Aldebaran desistiu em cima da hora. Por que será? – quis saber Afrodite, experimentando colares, enquanto Máscara da Morte abria a carteira, a contragosto.

— Ele achou que poderia chamar muito a atenção. Com o porte dele, certamente saberiam que é um Cavaleiro – explicou Shura.

— E qual o problema? A gente tá em missão secreta e eu não sei? – inquiriu Câncer, fechando um colar no pescoço de Peixes.

— Não é isso – explicou Capricórnio – como é aniversário do Milo, seria melhor termos privacidade para andar por aí e curtirmos a noite. Se souberem que somos Cavaleiros do Santuário, podem vir nos pedir coisas, ou ficar intimidados, ou mesmo nos assediando...

— ... ou ficar tietando o gostosão-mor aqui – o sueco bateu a mão na bunda do aniversariante.

— Afrodite!!!!

— Calma, Carlo, você também é gostoso...

— Ora, seu... não diga uma coisa dessas – como ele queria escapar por um buraco na areia, tal qual o símbolo do seu signo!

Eles riram. Um grupo de mulheres passou confabulando, olhando provocadoramente para os seis jovens. Não passou despercebido a Shura, que sorriu:

— Todos vocês são atraentes, meus amigos.

A Milo, por sua vez, não passou despercebido dois homens que passaram bem perto de Camus, e olhando-o de alto a baixo: um tinha longos cabelos prateados e olhos dourados, e o outro, mais velho e mais alto, cabelos curtos castanhos e olhos verdes.

— Você também é atraente, Shurinha, deixa de modéstia – atalhou Afrodite, piscando um olho – só precisava mudar esse penteado, viu... e o Senhor Geladeira ali, a sobrancelha dele.

— Hã? – fez Camus, confuso.

Ele nem percebeu que aqueles homens estavam devorando-o com os olhos”, pensou Escorpião, bem perturbado, tanto pelo sentimento de posse quanto pela constatação de que a indiferença de Camus em relação ao seu redor era maior do que pensava. De fato, ele nunca saía do Santuário com eles, praticamente não conhecia o mundo.

Gostaria de um dia levar você para conhecer o mundo, Camus”, sonhava, observando o jovem, entretido com a visão de uma catedral.

— Chegamos, pessoal – anunciou Máscara da Morte, quando passaram em frente a uma casa noturna. Pararam.

— Não parece um lugar muito apropriado – disse Aquário, considerando o local: escrito em luzes neon vermelhas “Weird Nite”, o nome da boate. Por uma grande porta preta, ladeada por dois imensos seguranças, entravam pessoas, e algumas eram barradas. A julgar pela fachada, era empreendimento de algum estrangeiro, porque destoava da aura simples e tradicional da cidade, praticamente um vilarejo.

Shura pôs a mão no ombro de Camus, e falou, simpático, ao seu ouvido:

— Também não me parece um lugar muito apropriado, porém, é o que Milo escolheu para comemorar a data...

— Cero, Shura. Se você diz...

É, parece que nada mudou. Você parece sempre considerar mais Mu, Shaka ou Shura do que a mim.”

Entraram sem nenhum problema, ou seja, sem serem barrados. Elegantes como eram, foram facilmente tomados por modelos ou pertencentes à alta sociedade europeia, que por vezes faziam turismo por ali. Atravessaram um corredor espelhado, cuja iluminação provinha do salão à frente. No centro do lugar, a pista de dança, rodeada por mesas de couro negra coladas às paredes, também espelhadas. A luz tremulante que pulsava sobre a pista realmente era a única iluminação relevante, além de algumas poucas lâmpadas frias. Pelas paredes, fotos artísticas em preto e branco. O chão quadriculado em preto e branco estava um pouco escorregadio porque alguém havia derramado bebida ali. Aos fundos, uma porta dava acesso ao espaço de jogos. O cheiro de tabaco e álcool logo recepcionou-os, bem como vários olhares curiosos e provocantes. A chegada de seis rapazes atraentes num lugar daqueles jamais passaria despercebida. Ao som da música alta, um eletrônico pesado, denso, dançavam homens e mulheres, alucinados.

Milo tomou a mão de Camus, guiando-o naquele lugar, ao perceber que ele parecia um tanto atordoado:

— Está tudo bem? Você parece enjoado.

— Não, é só o cheiro...

— Logo você se acostuma. É falta de bebida.

— E também é falta de...

— Carlo!!! – bronqueou Afrodite.

Sentaram-se à mesa. Uma mulher de seios fartos, num provocante corset de vinil preto, veio perguntar o que iriam beber. Todos concordaram em brindar com pints generosos.

O tempo foi passando, o número de canecas na mesa aumentando, e eles conversando animadamente, e cada vez mais alto, tanto pelo volume da música quanto pelo teor alcóolico que ia subindo, subindo.... Máscara da Morte e Shura decidiram arriscar a sorte na sala de jogos, Afrodite dançava na pista – ou melhor, dava um show — Aioria permaneceu na mesa com Milo e Camus, falando incessantemente sobre Marin. Peixes, percebendo que o Leão já estava irritando o aniversariante, tratou de levá-lo à pista de dança para “gastar” um pouco aquele álcool.

Milo e Camus ficaram a sós na mesa. O escorpiano estudou a expressão distante do amigo, enrolando uma mecha de cabelo com o dedo.

— Não está se divertindo, Camus?

— Estou sim... até mais do que eu achei que estaria... – a voz saiu pastosa, lenta.

— Eu acho que você já está bêbado – disse Milo, dando goles em sua cerveja.

— Você não?

— Hum… ainda não... se eu estivesse...

Mirou o jovem à sua frente, apoiando o queixo com uma das mãos, o olhar longe e vago.

Se eu estivesse, teria a coragem te te fazer a confissão AGORA”.

— Milo, por que não foi dançar? Várias mulheres vieram te chamar... bom, homens também...

— Porque o que eu quero está aqui, nesta mesa.

— Ah, você pode levar sua bebida pra lá, ora.

— Não falo de bebida.

Camus não demonstrou reação alguma ante aquela resposta. Virou mais cerveja, e demoradamente. Milo franziu o cenho.

— Vai com calma, você não tá acostumado a beber.

— Não como VOCÊ, não é? Você está sempre acostumado a tudo...

— Hã?

— É o EXPERIENTE! Enquanto... enquanto o idiota aqui não sabe nada da vida...

— Do que você tá falando, Camus? – estranhou aquela amargura. Até porque o francês nunca demonstrava suas emoções. Mas agora, por baixo da franja azulada, o olhar estava impregnado de algo além de amargura...

— Deixa. Eu... deve ser a bebida.

Milo pôs a mão sobre a dele.

— Não tive a intenção de te chatear, meu amigo. Só fiquei preocupado.

— Eu estou bem – cortou contato visual. E virou mais cerveja.

— Certo. Você quem sabe – Milo fez o mesmo. Observou um grupo de rapazes que passaram pela mesa olhando os dois, demorando-se mais em seu companheiro. Aquilo o desagradou.

— Olha, eu só não quero que fique fora de si.

— Não é você que sempre reclama por eu ser “tão controlado”? – Camus sorriu, sarcástico – Por que está querendo me controlar?

A mão de Milo fechou-se com força na mão do outro, que deixou escapar uma expressão de dor e um gemido baixo.

— Não desconfia?

— Desconfio do quê?

— Camus… eu… Camus, você ama alguém?

— Hã? Eu… mas claro…

— Verdade? – Milo controlou-se para não gritar. Não sabia se se animava ou se desesperava – Mas A QUEM?

— Quem o quê? – Camus segurou a cabeça, meio desorientado.

— Quem você ama?

— Ora… você...

O coração de Milo pareceu subir pela garganta. Achou que fosse desmaiar.

— ... você... meus amigos... o Grande Mestre... e, acima de tudo, Athena... AI!!! – a careta de dor se intensificou.

— SEU IDIOTA, não tô falando desse tipo de amor!

— De que... de que amor então... ai, Milo, está me machu...

— De AMOR, de amar alguém... de querer estar com alguém... de corpo e alma, você me entende, seu cabeça de gelo?

O aquariano arrancou a mão da mão do amigo, com violência. Encarou-o de forma inédita... não dava para distinguir o que havia ali: raiva? Desprezo? Ódio?

— — Esse amor de que você fala, caro Cavaleiro de Escorpião... não é para mim.

— Por que não?

— Esse amor é destrutivo. Só traz dor.

Milo fitou-o, aturdido. Viu-o pegar mais um pint trazido pela garçonete. Serviu-se de um também.

— Por que diz isso, Camus?

— Porque… esse amor só destrói, sabe? Meu pai foi morto por esse amor. Minha mãe também. E quando meu mestre percebeu que eu tinha esse amor...

Calou-se, aturdido. Deixou a cabeça pender, os cabelos cobrirem os olhos fechados, como numa fuga. Milo resistiu ao anseio de agarrá-lo e fazê-lo confessar. Zeus! No que estava pensando? Sem saber, Camus CONFESSARA…

Muita calma. Não espante a borboleta, ou ela voa para longe...”. Tomou um longo gole. Sentia-se totalmente sóbrio agora.

— Camus... – sussurrou, aproximando-se dele. E acariciou-lhe o rosto. Como não foi repelido, animou-se em continuar — ... você pode confiar em mim. Eu sou seu amigo. O que houve com seus pais? O que a morte deles tem a ver com o amor?

— Tudo... – balbuciou, perdido.

— Seja mais claro.

— Me deixa, droga!!!

E levantou-se bruscamente da mesa. Procurou se afastar. Milo foi atrás, antes que ele sumisse naquele mar de pessoas que dançavam alucinadamente; quando o alcançou, segurou-o pelo pulso, fazendo-o girar. Camus chegou a gritar.

O grego puxou-o para si, no entanto o outro se debatia, empurrava-o, espalmando a mão no peito, tentando de desvencilhar. Com uma mão segurava o pulso direito de Camus, e com a outra prendia-o pela cintura.

— MILO, ME SOLTA!

— Para, Camus, vamos voltar pra mesa, você tá muito alterado...

— ME... SOLTA! AHH!!!

Milo apavorou-se aos sentir suas mãos esfriando subitamente. Em seguida, ficando geladas, como seus antebraços.

“Zeus, ele vai usar o cosmo aqui?”

— Ei, esse rapaz está incomodando você, garoto? – um jovem de cabelos negros médios e olhos castanhos interpelou os dois.

— Não, eu sou amigo dele e...

— ESTÁ SIM – rosnou o francês.

— Solte ele JÁ. Vamos. Não me faça repetir.

Obviamente com um peteleco, Milo mandaria o intrometido rumo ao teto. Mas não deveriam chamar a atenção, e muito menos usar seus poderes por razões pessoais.

— Certo – Milo soltou Camus. Olhou para seu amigo: aquilo era APENAS efeito da bebida? Não o reconhecia.

— Está tudo bem por aqui? – Afrodite juntou-se a eles, ao perceber a tensão.

— Está sim, Dite – respondeu, cansado. E enquanto falava com o amigo, fuzilou Aquário com um olhar tão frio que talvez nem mesmo os Cavaleiros de Gelo tivessem – fica perto do Camus, ele está meio bêbado. Não quero que ele fique sozinho, mas EU QUERO ME DIVERTIR.

E deixou os três ali, enquanto se dirigia para o bar. Munido de uma garrafinha de uísque, ele foi para a pista de dança. Agora tocava uma música eletrônica bem densa, porém com uma batida sensual, ritmada. O requebrado de Milo, seus cabelos esvoaçantes, o abandono em seu rosto sequioso de prazer, foram suficientes para que ele logo fosse cercado de pessoas.

Viu os dois voltando para a mesa. Ao perceber o olhar de Camus, deixou que uma linda mulher que já se postara provocante e estrategicamente à sua frente, o atacasse.

Como naquela festa no Santuário, hein, Camus? O que acha disso?”

Ele atacou aquela boca anônima com fúria e chegou a passar as mãos por aquele belo corpo, apertado num justíssimo vestido de couro negro. Camus não abaixou, nem desviou o olhar. Ótimo. Ele agarrou outra mulher. Após beijar várias pessoas – mulheres e homens – voltou ao bar, pegar mais bebida. Passou pelo salão de jogos, para ver como iam os demais. Percebeu que o idiota do Máscara da Morte, naturalmente agressivo e agora tocado pela bebida, já estava no meio de uma discussão entre os jogadores do local. Shura parecia ter dificuldade em contornar a situação. Aioria dormia numa mesa, alheio a tudo, provavelmente sonhando com a amazona ruiva.

Merda. Melhor falar com Afrodite e Camus. Buscamos os três e damos o fora daqui, antes que as coisas piorem.” Retornou para o salão principal. Qual não foi sua surpresa ao ver Afrodite na pista, dando aquele show novamente, praticamente sendo aplaudido pelos presentes, por sua performance??

Milo ficou fora de si. Atirou-se sobre o rapaz e agarrou-lhe o braço, furioso:

— Eu falei pra você não sair de perto do Camus!!!

— AAAIIII! Deixa o cara, ele tá acompanhado, caramba...

— Ele O QUÊ? Cadê ele?

— Na mesa lá, olha... ai!

De fato, Camus estava na mesa... com três homens. Sentados, conversando e... bebendo.

— Por que deixou ele sozinho?

— Deixa de ser chato, aaaiiii... só você tem o direito de se divertir?

Deixou Peixes bruscamente e correu até a mesa. Chegando perto, percebeu que ESTAVAM DANDO BEBIDA a seu amigo... e que dois dos homens eram os que ele tinha visto na rua, “secando” seu Camus! E o terceiro, o maldito que os interpelou perto da pista. Prevendo o pior, saiu empurrando quem estivesse na frente.

— O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO, SEUS MISERÁVEIS?

— Ei, calma aí, garoto, estamos só conversando com seu amigo – respondeu o homem mais velho, de cabelos castanhos. Seu olhar, cínico.

Escorpião olhou para Camus. Ele parecia bem, sereno e desperto. Mas aqueles olhos parados... opacos... arrancou o copo da mão do francês e entregou-o a Afrodite.

— Dite! Veja se tem algo nesta bebida!

O rapaz de cabelos prateados foi até ele, querendo tirar satisfação:

— Que afronta é essa, moleque? O que está insinuando?

Afrodite aproximou-se. Armava-se uma confusão atrás de si, iniciada pelas pessoas que Milo havia empurrado. Pegou o copo que estava nas mãos de Camus e cheirou-o. Arregalou os olhos azuis claros, apavorado:

— Céus, Milo... eles... eles drogaram o Camus!!!

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Notas finais
Espero que tenham gostado. Até o próximo capítulo. Beijo grande :x