Grilhões Eternais

12 E eu ainda nem disse que te amo!


Notas iniciais
Hello! Gostaria de agradecer a quem está acompanhando esta história, e principalmente às queridas que gentilmente deixaram seus comentários, muito obrigada. Este capítulo ficou bem pequeno em relação aos anteriores, mas trata-se de uma transição... lembra da sinopse da fic? Então... :( Lembrando que os pensamentos dos personagens são grafados em itálico. Boa leitura!

O mês de outubro iniciara, trazendo com ele a bênção das temperaturas mais amenas e dos dias mais chuvosos. Trajando uma calça justa preta, uma regata cor de chumbo e calçando botas em couro rústico marrom escuro, o Cavaleiro de Aquário descia as escadas do Santuário naquela fresca manhã nublada rumo ao Templo de Escorpião, para ir junto com seu guardião para os campos de treinamento. Hábito de todos os dias, antes mesmo de iniciarem seu relacionamento amoroso, agora tornara-se obrigação. Uma obrigação que ele cumpria com prazer. Sentia-se leve e disposto, tanto pela dádiva do clima quanto pelo atual momento de sua vida.

Há quase dois meses ele e Milo estavam namorando, e a cada vez que o tempo passava, seus laços há muito estreitos estreitavam-se ainda mais, uma ligação de corpo e alma. Apesar das já notórias diferenças de temperamento e personalidade, completavam-se de forma surpreendentemente harmoniosa. O jeito descontraído e dinâmico de Milo conferia cores à vida outrora cinzenta de Camus. E este percebia avolumar-se em seu peito uma ânsia pelo outro que só poderia ser amor. Amava estar com Milo, amava falar com Milo, sair com Milo, fazer amor com Milo. Milo estava se convertendo em seu ar, seu chão, sua razão. Olhou para o céu; algumas poucas e finas gotinhas de chuva pousaram em seu rosto sereno.

Amava Milo. Tinha que admitir.

Por mais que soubesse disso há anos, a consciência era difusa e instintiva. Agora que consumara este amor, que o sabia real e maravilhosamente correspondido, experimentava a sensação mais sublime de sua vida.

Entretanto... ainda não havia dito a ele.

Por quê?

Milo expressava frequentemente seus sentimentos. Deixava-os explícitos. Camus, porém... ainda não dissera “eu te amo”. Mesmo ouvindo essa doce frase da boca de seu amado muitas e muitas vezes. Por quê? Ele mesmo não sabia. Contudo, amava-o! Muito! As palavras é que não saíam...

“Na certa, ele espera. E sofre, porque ainda não me ouviu dizer.”

Mais uma prova de que a paciência podia constar como um dos atributos do grego, ainda que ele fosse impulsivo e passional. Essa riqueza de sua personalidade só o tornava ainda mais encantador diante do frio e controlado aquariano.

Entretanto, Milo não merecia ouvir essas palavras meramente por dever. Se isso exigia esforço emocional da parte de Camus, que fosse legítimo, não o sentimento que já o era, e sim a ação de poder externar.

Teria que fazer algo a respeito.

Trabalharia sua mente e espírito.

Seria mais forte que seus bloqueios. Ele ERA mais do que isso!

Isso também fazia parte do controle emocional necessário a um guerreiro, não?

Permitiu-se um sorriso ao pensar assim. E seu desejo por ver o amante dobrou. Talvez tivessem tempo de se amarem antes de irem treinar... engraçado como ele, que sempre se considerara sexualmente frio, desinteressado até, descobriu-se entusiasta das delícias do amor, moldado por Milo e sua esfuziante sensualidade e, droga, tinha que admitir (por mais que não gostasse de lembrar disso), da extensa experiência que o outro possuía. Desejava Milo. Muito. Queria-o agora, demais. Sempre... sempre...

“Milo, eu te amo”, pensou, como num ensaio para o pronunciamento, entrando na 8ª Casa. Atravessou o pátio externo, o átrio principal, tencionando ir até o quarto do escorpiano. Com certeza, ainda espreguiçava-se languidamente na imensa cama, esperando por ele... seria perfeito.

Ao chegar na vasta sala de estar, Hélida, a criada de Milo, veio recebê-lo.

– Bom dia, Hélida. Vim buscar o Milo para os treinos, ele já acordou?

– Bom dia, Mestre Camus. O Mestre Milo não se encontra. Ele pediu que avisasse ao senhor que foi chamado à Sala do Patriarca.

– À Sala do Patriarca? – estranhou o francês.

– Sim. A Senhora Athena o convocou em caráter emergencial. Ele saiu já faz um tempo, uma hora, talvez.

“Athena convocou Milo? Do nada? Por quê?”

– Sabe o motivo, Hélida?

–Não sei não, não, senhor. Mas ele pediu que o senhor esperasse por ele aqui.

– Hum...

A criada conduziu-o ao sofá de couro vermelho, onde ele sentou, resignado.

– O senhor aceita um café?

Ele aceitou, tanto pela falta do que fazer, quanto pelo fato de que o café de Hélida era melhor do que o da empregada que o servia. Ela trouxe a bebida numa bandeja de prata. Camus tomou o café lentamente, esvaziando sua mente por ter seus anseios frustrados naquele início de dia.

– Mestre Camus... o Mestre Milo mandou que lhe entregasse isto – e Hélida estendeu-lhe uma pequena caixa de presente. Ele levantou uma sobrancelha.

– Um presente? Por que ele mesmo não me entrega?

– Eu não sei, senhor – a mulher deu de ombros, arregalando os olhos verdes e balançando a cabeça, tudo ao mesmo tempo – ele só me deu a ordem, antes de sair.

– Ordem, é... – e tomou o embrulho das mãos da serva. Levou-o até a altura dos olhos: uma caixinha embrulhada com papel brilhante prateado, com uma vistosa fita vermelha.

– Ah, e... e ele pediu que o senhor colocasse.

– Colocasse o quê?

–O presente… ele me mandou pedir ao senhor que colocasse o presente. Quer que o senhor esteja usando-o quando ele chegar.

Agora Camus ficou realmente intrigado. Mirou o pacotinho, e em seguida, direcionou à serviçal um olhar desconfiado. Ela pareceu perturbada. Riu nervosamente.

– O senhor s-sabe como é o M-Mestre Milo... estou só cumprindo a ordem que ele me deu...

Sim. Sabia como Milo era.

Caprichoso, voluntarioso, imprevisível, surpreendente.

Surpresas eram com ele mesmo.

Ainda assim... não fazia o menor sentido...

Abriu o embrulho. Um cordão de ouro branco, cujo pingente era um pequeno escorpião de rubi. Uma linda jóia, não poderia negar! Contemplou-a, encantado. Por mais que não usasse tais adornos, reconhecia-lhe o bom gosto. E a criatividade; havia uma mensagem ali, claramente traduzível: o possessivo escorpiano queria que o amante fosse para os campos de treino com a “identificação de a quem pertencia”. Nada mais explícito, um escorpião no pescoço. Praticamente uma coleira! Por um momento, sentiu-se um tanto indignado.

Percebendo a hesitação do visitante, a mulher implorou, com o olhar suplicante:

– Por favor, Mestre Camus, se o senhor não estiver usando isso quando ele chegar... Mestre Milo vai achar que não pedi direito...

Ele a considerou por uns instantes. Suspirou, convencido. Por fim, levantou do sofá e, virando-se de costas para ela, pediu:

– Coloque para mim, por favor. Não sei nem pôr essas coisas – e abaixou-se para que ela alcançasse seu pescoço, botando os longos cabelos para frente. Hélida fechou o cordão e afastou-se um pouco dele. Camus voltou a ficar ereto, ajeitando os cabelos.

Súbito, um mal estar apossou-se do francês. Levou a mão aos olhos, sentindo uma estranha tontura. Deu dois passos para trás, o equilíbrio fraquejando. Algo apertava-lhe o pescoço. Não parecia mais ser um simples cordão. A espessura mudara, tornando-se largo e rígido. Tocou e percebeu que sua estrutura modificara. Parecia uma coleira, e de um material duro e liso. Um zunido atordoou-o.

– O quê?... – a desagradável sensação aumentou vertiginosamente. Antes que levasse as mãos aos ouvidos, sentiu correr pelo corpo algo como uma intensa corrente elétrica, ao mesmo tempo em que viu anéis luminosos ao redor dele.

– Aaaaaaaahhh!!! – gritou, e, tomado pela dor repentina, caiu pesadamente no chão.

Seu corpo estava completamente imobilizado. Seus sentidos estavam bagunçados, ouvia um zunido atordoante, só enxergava borrões à sua frente... pessoas? Tentou pensar... ouviu um grito. Alguém gritava seu nome... Hélida? Estaria sendo atacada também?

Tentou se erguer com todas as forças, porém todo o seu corpo latejava dolorosamente, num efeito residual do choque que levara.

O Santuário estava sendo atacado?

Milo estava sendo atacado?

O que estaria acontecendo?

“Milo”, pensou, e agarrou-se a esse nome como para lhe dar forças... para empreender nova tentativa. Seu pescoço queimava horrivelmente, como se houvesse uma chapa de aço aquecida ali. Ouviu uma risada... algo foi falado... não reconheceu a voz. Forçou a vista novamente: tudo embaçado... Hélida gritava de novo. Zeus, precisava ajudar a coitada!

Mesmo sem distinguir as imagens muito bem, TINHA que atacar. Ainda que dores lancinantes mordessem-lhe a carne, aprumou-se e...

– PÓ DE DIAMANTE!!! – mirou no vulto negro que sabia NÃO ser Hélida. Assim que disparou seu golpe, o que Camus experimentou foi como ser atingido por um raio.

– AAAAAHHHH!!!

Foi novamente ao chão, ainda mais afetado pela maldita e desconhecida energia. Não ouvia nem enxergava bem. Aquilo ressoava em seus ouvidos, entorpecendo-o. Novos gritos da criada.

Estranho... não sentia cosmo algum. Quem seria o inimigo? E por que conseguira dominá-lo daquela forma?

E por que NINGUÉM aparecia?

De repente estremeceu. E não foi pelo ataque. Foi de medo.

Medo de que Milo chegasse.

Não.

Ele preferia MORRER a deixar Milo sofrer aquilo!

PRECISAVA continuar lutando. Ouviu novamente uma risada. NÃO. DUAS.

“MAIS UM INIMIGO!”

Cerrou os dentes, resoluto.

Atacaria com tudo. Atacaria com seu melhor golpe.

“Ele está levantando de novo?!”

“Impossível!”

“Ele é mesmo maravilhoso... vê? A escolha não poderia ser mais certeira!”

Desta vez não apenas distinguiu as voz como também as FALAS. Vozes agudas e penetrantes, inchadas de iniquidade.

“Não vou deixar que toquem um só dedo em Milo!”, pensou, aturdido pela dor, esforçando-se por se concentrar.

TINHA QUE SE CONCENTRAR.

Acabaria com aquilo antes de seu amado chegar.

Levantou-se mais uma vez, trôpego, com as ondas de energia ainda a consumi-lo, e afastou bem as pernas uma da outra. Ergueu os dois braços, unindo as mãos e clamando ao seu cosmo que queimasse, que se elevasse ao máximo. Seus cabelos esvoaçaram; ouviu murmúrios de surpresa dos invasores e enfim focalizou os dois. Mirou certeiramente neles e bradou, impávido:

– EXECUÇÃO AURORA!!!

Não conseguiria saber o resultado de seu ataque. No mesmo instante, recebeu mais um violento choque elétrico, agora muito mais devastador que os anteriores. Ondas de energia percorreram impiedosamente seu corpo, enquanto ele gritava uma última vez.

O jovem e audaz Cavaleiro de Aquário só conseguiu ter um pensamento, antes de ser tragado pelas trevas da inconsciência:

“Milo... e eu ainda nem disse que te amo!”

E assim, caiu desmaiado.

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Notas finais
E assim tem início a segunda fase da história... quem serão os inimigos? Por que os ataques de Camus foram ineficazes? E...por que o atacaram? Espero vocês no próximo capítulo. Obrigada por lerem :)