Grilhões Eternais
30 Dê-me a sua vida!
Notas iniciais

A firmeza que buscava para efetuar com sucesso o golpe fatal era ameaçada pela instabilidade de suas mãos, trêmulas diante do turbilhão de imagens que invadia sua mente. Sempre achou que nos momentos finais de sua existência vislumbraria os melhores momentos vividos. Todavia, à amada imagem de Milo sobrepunham-se as nefastas cenas de seu cativeiro: semblantes ávidos em lhe causar dor, rostos cobiçosos por sobre seu corpo ora ferido, ora imobilizado por mãos brutas, correntes, tentáculos de metal, mãos que o tocavam, que o invadiam, bocas que gargalhavam, que o sugavam, lambiam, que provocavam-lhe repulsa, vergonha, desonra... ante tais imagens, a certeza do que deveria fazer pouco a pouco oferecia maior firmeza às mãos que seguravam o cabo da espada de gelo; a lâmina direcionada para sua garganta não mais tremia...
— CAMUS!!!
As lágrimas que rolavam abundantes pelas faces magoadas enevoaram as silhuetas recém surgidas. A alguns metros, abaixo do barranco que dava para o rio prateado, surgiram seu pupilo com o namorado, seus companheiros de batalhas, e à frente deles...
— Mi... Milo! — balbuciou, quase em choque.
O escorpiano, paramentado em sua gloriosa armadura dourada, havia praticamente se petrificado diante do que via.
Camus estava prestes a se suicidar.
Percebendo a gravidade da situação, Afrodite sinalizou para que Máscara da Morte, Hyoga e Shun não avançassem um passo sequer. As respirações de todos mantiveram-se suspensas pela tensão no ar.
Milo aproximou-se um pouco; o aquariano, contudo, não abaixou a arma.
— Camus... não faça isso... eu estou aqui. Vim buscar você.
— Milo... — repetiu o francês, como num transe, os olhos arregalados de surpresa.
“Não! Eu não tenho o direito de continuar com ele... eu não tenho como encará-lo depois do que aconteceu, do que FIZ!”, e ao pensar isto, Camus fez menção de finalizar o que pretendia.
— Camus, POR FAVOR, abaixe essa espada.
Nenhuma reposta. Não houve obediência ao pedido, tampouco.
— Sei por tudo o que você passou. Os horrores que viveu. Não é motivo para desistir de sua vida. Eu vou te ajudar a superar, Camus! — lágrimas começaram a verter dos olhos azuis claros — Por favor... não faça isso.
— Milo! E-eu não mereço sequer que você olhe para mim! — retrucou Aquário, com a voz embargada.
— Você mentiu quando disse que me amava?
— N-não... claro que não!...
— Então por que vai se matar? E na minha frente? É ESSA a sua ideia de amor, Camus? Me abandonar assim? — gritou o escorpiano, emocionado. Seus companheiros, a média distância, tremiam, ansiosos.
O francês mirou-o por uns instantes e por fim fez um imenso esforço para falar:
— Milo... você... você não entende! Eu não mereço... não mereço seu amor... e-eu não mereço... co-continuar...
— Não diga isso, Camus! Você só está confuso por tudo que passou! Abaixa essa espada... POR FAVOR... pelo amor que você diz ter por mim!
Uma breve hesitação delineou-se no rosto que, malgrado tão sufocante tormento, conservava a mesmerizante beleza.
— Eu entendo que você não queira mais viver — o grego estabilizou o tom, adquirindo autoridade e não mais súplica — depois de todos os sofrimentos pelos quais passou, isso deve parecer a solução. Você desiste de sua vida? Não a quer mais? Pois bem. DÊ-ME A SUA VIDA! Você não quer viver por você? Então VIVA POR MIM!
Camus entreabriu os lábios ao soluçar.
Não, ele não queria mais sua própria vida.
Mas Milo a queria.
— Eu te amo... e para mim, você continua puro como sempre foi... Camus, nem que TODOS os espectros de Hades tivessem violado seu corpo você deixaria de ser puro para mim... NUNCA! JAMAIS!!!
— Milo... — foi mais um gemido do que um chamado. O escorpiano percebeu a deixa para mirar a espada e, num movimento mais rápido que o piscar de olhos, desferiu nela um golpe certeiro: um raio da Agulha Escarlate centrado unicamente na arma de gelo enfim arrancou-a das mãos do Santo. Os quatro Cavaleiros que a tudo assistiam não se contiveram: pularam, comemorando, ergueram os braços no ar, eufóricos.
Atônito, o aquariano viu-se sem o veículo de sua pretensa libertação... semicerrou os olhos e vacilou diante do amante, que praticamente voou para ampará-lo antes que caísse ao chão: Milo interceptou-lhe a queda, tomando-o firmemente em seus braços. Chorou, apertando o Santo inconsciente junto ao peito.
— Camus! OH, CAMUS!!! Camus!!! — não parava de dizer, sentindo-se num sonho convulso e febril. Finalmente, oh Zeus... oh Athena... seu amor ESTAVA A SALVO... ESTAVA COM ELE! Pegou-o no colo, com tanto cuidado, como se o francês fosse quebrar ao menor toque.
— Mestre!!! — gritou Hyoga, maravilhado, correndo até eles, sendo acompanhado por um animado Shun.
— Camus! — gritaram Afrodite e Máscara da Morte, eufóricos ao ver o amigo finalmente nos braços de Milo.
— Camus! Como ele... como ele está?... — indagou Andrômeda, espantado em ver seu estado.
Milo franziu o cenho.
— Está apenas desmaiado! Mas... por Zeus... está BEM MAIS machucado do que quando o vi na masmorra.
Afrodite tocou de leve o pescoço ferido, reparando com preocupação na atadura amarrada ali.
— Certamente teve que lutar muito em sua fuga. Estou preocupado com todas estas bandagens sujas. Podem infeccionar as feridas. Ele está muito quente... possivelmente já está com febre.
— Precisamos tirá-lo logo daqui. Tem que ser medicado com urgência — ajuntou o canceriano.
— Então vamos contactar Mu e pedir que ele...
Shun não pôde concluir. Um estrondo atrás deles fez com que virassem a tempo de pularem, escapando do poderoso golpe desferido por um dos espectros recém chegados.
Milo pousou no solo, ainda com Camus em seus braços.
— Quem são vocês? — gritou, exasperado.
— Aqueles que vieram buscar algo que vocês estão roubando de nós — respondeu Verônica, com as mãos na cintura. Vestia sua súrplice de Nasu.
— Caralho, isso é um homem? — surpreendeu-se Máscara da Morte, ao ouvir-lhe a voz masculina — Dite, ele consegue ser mais feminino que você!
— E quem disse que eu quero ser feminino, cérebro de kani?!?
— Hã... não quer?
—Grrrr…
—Mas cê usa batom!...
— E daí?!
—Entreguem-nos o Santo de Aquário. Radamanthys e Albiore o querem VIVO — ordenou Aiacos, também com armadura.
— Já vocês não são necessários... por isso... — disse Minos, igualmente trajando súrplice.
Milo estalou a língua de irritação. Foi então que reconheceu as fisionomias dos três.
Haviam participado do estupro grupal que seu amado sofrera!!!
Seu sangue entrou em ebulição.
— Malditos... — rosnou, o ódio já aquecendo seu cosmo. Entregou Camus a Hyoga.
— Escuta, Pato, esses três são barra pesada. Não são como os merdas que enfrentamos há pouco. Deixa eles conosco. Você e Shun, protejam Camus.
— Faremos isso com nossas vidas! — garantiu o loiro.
— Por favor, tomem cuidado! — pediu Andrômeda.
— Sem problemas, verduroso, vamos acabar com isso rápido.
— Sim, Milo, seja breve... Camus não vai aguentar muito se não receber logo socorro médico...
— Eu sei, patinho.
O jovem de cabelos esverdeados prontamente acionou sua famosa defesa: a corrente circular multiplicou misteriosamente sua extensão e distribuiu-se pelo chão em espirais móveis, com os três aos centro.
— Quanta confiança. Vê-se que não sabe com quem vão lidar — riu Verônica — Sou um dos espectros mais fortes do exército do Lorde Hades... estes que me acompanham, no entanto, são dois dos três Juízes do Inferno. Vocês não têm A MENOR chance, Cavaleiros de Athena.
— Isso nós vamos ver, boneco de vodu — rebateu Máscara da Morte, nem um pouco impressionado.
Milo preparou-se para lutar com Aiacos; Afrodite postou-se diante de Verônica, que dardejou-o com desprezo:
— Eu não quero lutar com esse arremedo de boneca... não aprecio homens andróginos... prefiro os bem másculos, como esse bonitão forte e moreno aí — declarou, mirando Máscara da Morte.
— Ei, sai pra lá — resmungou o italiano, fazendo uma careta.
— COMO OUSA?! — o sueco precipitou-se para o loiro, mas Minos surgiu em sua frente.
— Eu me encarrego de você... “mocinha” — anunciou, sarcástico.
— Olha quem fala...você também não é lá muito masculino. E o que aconteceu pra ficar com esse cabelo todo nos olhos? Faltou dinheiro pro salão, é? Hades paga mal assim?
—Vou fazer você calar essa matraca...
E teve início a luta entre os três pares de oponentes. Cisne percebeu que as palavras de Milo foram precisas: os novos inimigos estavam dando trabalho para os Santos de Ouro.
— Zeus.... eles realmente são bem fortes! — comentou, analisando a ferocidade dos combates.
— Hyoga, estou preocupado com Camus... ele parece muito mal! Precisa ir logo para o hospital... não temos como tratá-lo aqui, no estado em que se encontra!
— Eu sei, Shun... mas temos que confiar nos três... meu mestre é forte, ele vai aguentar!
O outro assentiu, em dúvida, contudo...
As rosas de Afrodite foram despetaladas pelos fios translúcidos lançados pela técnica do Juiz com quem se batia. As finas extensões se enroscaram em seu corpo, apertando-o vorazmente e causando a súbita dor que o fez gritar:
— AAAAAAHHH!!
— AFRODITE! — Máscara da Morte tencionou abandonar a luta para ir ajudar o namorado. Verônica, porém, pulou em sua frente, bloqueando-lhe o caminho.
— Nada disso, gatão! Seu compromisso agora é COMIGO! — chasqueou, passando a língua pelos lábios pintados.
— Sai da minha frente, bicha carnavalesca!! — e no mesmo instante, o espectro foi atingido pela poderosa telecinesia do canceriano e alçado do solo, gritando surpreso:
— O QUÊ?! AAAAAAAHHHH!!!
Livre do obstáculo, Câncer continuou a correr até onde estava o parceiro, sendo dominado por Minos. Foi quando um impacto maciço em suas costas lançou-o ao chão com tamanha violência que ele afundou na terra. Era Verônica, que conseguira romper a psicocinese do Cavaleiro, e rodopiando no ar, voltara na direção dele, usando suas longas pernas como um verdadeiro projétil.
— Ca...Carlo!!! — horrorizou-se Afrodite, envolto pelos fios que o sufocavam e o cortavam lentamente.
— Máscara! Dite! — Milo voltou-se para ver os amigos sendo sobrepujados pelos servos de Hades cujo poder mostrava-se mesmo terrível! Foi repentinamente atingido por um forte soco do adversário de cabelos pretos. Voou longe, chocando-se contra um pinheiro, partindo-o ao meio.
— Milooo!!! — gritou Hyoga. Shun, aterrado, não conseguia emitir um som sequer.
— Cuide de sua própria cauda, Escorpião — zombou Aiacos, preparando um novo golpe. Lançou-se numa velocidade indescritível até o Santo e acertou-lhe em cheio o rosto. Milo expeliu sangue pela boca e sentiu a vista embaçar por bater numa grande rocha, que ficou esmigalhada pelo choque.
— MIIILOOO!!!
— Céus, Hyoga! Eles estão levando a pior!...
— Droga... — praguejou o russo. Olhou para seu mestre desacordado — Não podemos ajudá-los...
— Se eles que são Cavaleiros de Ouro estão tendo dificuldades, não seríamos nós que faríamos alguma coisa...
Cisne contraiu os punhos, angustiado. Viram Máscara da Morte se erguer e esquivar do ataque de Verônica.
— Fique quieto para eu me deliciar com a sua morte, bonitão!
— Não sou eu quem vai morrer hoje, ô traveco!
— Hunf... já me chamaram disso antes, sabe... — o loiro fez uma careta de desagrado, conjurando uma imensa centopeia das trevas.
— Aaaaahhhn...aah!! — gemeu Peixes, imobilizado pelos fios que continuavam a morder-lhe o corpo. A armadura começava a se partir em alguns pontos.
— DITE!!! — o italiano tentou ir até ele novamente, porém foi agarrado pela monstruosidade criada por seu oponente — O que é isto???
— Hahahahahaha! Você não pode dar atenção a uma dama de cada vez, gatão? Já que é do tipo insaciável, vou te dar tudo que tenho...
O monstro cingiu o Cavaleiro com suas afiadas patas; ele se debateu, numa tentativa desesperada de se livrar daquele amplexo mortal.
— C-Carlo!! — chamou o pisciano, apavorado.
— Máscara, NÃO!! — bradou Milo, bloqueando uma nova investida de Aiacos. Saltou para trás, mantendo distância até recuperar-se.
— Experimente isto, Escorpião — disse o espectro, elevando seus braços, sorrindo enigmaticamente antes de exclamar — VOO DA GARUDA!!!
E de baixo de um surpreso Milo emergiu uma intensa corrente de ar na vertical, que o ergueu acima do chão.
— Hã? O...o que...
A gravidade em torno de seu corpo foi invertida radicalmente. Em segundos, uma demoníaca pressão propulsionou o Cavaleiro rumo ao céu numa velocidade inacreditável, em meio a um turbilhão púrpura.
— Zeus, MILO!!! — desesperou-se Hyoga.
Não entendeu o movimento do Juiz em traçar um X na terra.
— Maldito, o que está fazendo???
— Uma boa ação — respondeu o espectro, sorridente — marcando o local do túmulo dele. Se você sobreviver, garoto, saberá onde prestar as homenagens, HAHAHAHA!
Como um astro descendente, o escorpiano, ainda envolvido por aquela monstruosa energia reversa, voltou à terra, precipitando-se rumo ao ponto marcado pelo inimigo, e ali chocando-se com violência, causando um grande tremor na terra, sentido por todos.
— NÃO, MILO!!! — Cisne e Andrômeda apavoraram-se... mesmo sendo um Santo de Ouro, poderia ele resistir àquilo? O impacto fez grande estrago ao redor. Árvores foram arrancadas pelas raízes, rochas pareceram folhas voando sob uma ventania .Dentro das correntes nada foi sentido.
Aiacos deu uma gargalhada, satisfeito. Entretanto, ao ver surgir da cratera a mão do Cavaleiro, seu riso morreu, e por um breve segundo, surpreendeu-se. Então o maldito conseguira sobreviver... de fato, a fama dos guerreiros de Athena pertencentes à patente mais alta não era exagerada... ninguém NUNCA sobrevivera ao seu golpe mais poderoso.
— Aaahhn...uh! — gemeu Milo, muito ferido, saindo do buraco formado por seu corpo. Não estivesse com a proteção dourada, não tinha certeza se escaparia com vida daquele ataque avassalador.
— Realmente, aquele homem vale MESMO todo esse esforço de vocês — riu o Juiz — gostoso daquele jeito...
— Seu... seu maldito... — aquelas palavras intensificaram seu ódio, alimentando seu espírito de luta, reanimando-o mesmo após tão dolorosa experiência.
— Vocês, Santos de Athena, brincam com ele como nós brincamos? Se não, não sabem o que estão perdendo...
— AAAAAAHHHH! — o grego, louco de fúria, avançou no inimigo, um brilho rubro cortando o ar. Percebendo a seriedade daquela investida, Aiacos lançou-se para trás num salto mortal, evitando-a. E continuou a horrível provocação:
— Quando fui ao seu Templo para sequestrá-lo, quase não pude conter Verônica, sabia? Quis logo provar o teu belo amante. Depois que eu o comi, entendi perfeitamente.
— Desgraçado... COVARDE!!! — Milo começou a queimar seu cosmo mais intensamente, os olhos lacrimejantes focando maníacamente o moreno.
— Você viu seu lindo namorado gozando na minha boca, não viu? Entendo sua paixão, Escorpião. Foi a coisa mais deliciosa que já saboreei. Tanto quanto aquele buraco apertado que puxou o meu pau para dentro com tanta...
— AGULHA ESCARLATE!!! — exclamou, atingindo Aiacos em diversos pontos na velocidade da luz. O moreno viu, estupefato, seu sangue esguichar em vários jatos.
— O QUÊ? COMO…AAAAAAHH!!
A dor excruciante o levou ao chão, de joelhos.
— Geralmente não lanço tantas... tantas Agulhas Escarlates de uma só vez — enunciou o grego, com certa dificuldade, brandindo a mão cujo indicador possuía agora uma imensa e pontuda unha vermelha, como um ferrão — tanto para não me desgastar sobremaneira quanto para dar chance ao meu adversário de se render.
— Aaahhhn... aaargh!!! — a dor que o moreno experimentava era simplesmente a mais alucinante de toda sua vida. Pôs-se de pé com muito esforço.
— Porém não tenho a menor intenção de te dar essa chance... — disse Milo, rouco de ódio.
— E... e quem disse que... que vou me render... seu lixo de Athena?! — sangrando muito, o Juiz assumiu novamente sua postura ofensiva.
— Por Athena, ele vai usar aquele golpe terrível de novo?? — alarmou-se Andrômeda.
O escorpiano fitou-o concentrado, ainda apontando a unha rubra para ele. Aiacos, assim que se viu estabilizado, ainda que sob grandes hemorragia e dores, alfinetou-o:
— Isso era tudo que tinha a me dar?
— Não. Falta a metade delas.
— O quê? — fez cara de quem não entendeu — Metad...
E no segundo seguinte, as sete agulhas que faltavam vararam o corpo do Juiz, perfurando como as anteriores, saindo por sua armadura de Garuda, desenhando no ar trajetórias vermelhas.
— EAAAAAAAARRRGHHH!!! — gritou, praticamente explodindo de dor, sob uma verdadeira erupção de sangue por todos os lados.
— Esqueci de dizer: também não disponho de tempo para ver um LIXO DE HADES agonizando. Portanto... ANTARES!!!
O golpe fatal cravou-se no já quase morto Aiacos.
— Aaaahh... ackk...urgh... — ganiu, uma cascata escura jorrando de sua boca muito aberta. Tombou sem vida.
Milo sentiu uma intensa vertigem, que levou-o a pôr as mãos na cabeça, sem o elmo desde a queda das alturas. Seu corpo doía bastante, malgrado trajasse a sagrada armadura dourada. Virou-se a tempo de ver seus amigos queimando vivamente seus cosmos e reagindo perante os inimigos. Era como se tivessem se reanimado, reagindo com a vívida manifestação do cosmo de Escorpião.
Tencionou ir até eles; suas pernas, entretanto, vacilaram, e ele caiu, quase perdendo a consciência.
“Maldito Aiacos! Seus golpes me afetaram mais do que eu imaginei...”, pensou com consternação. Afrodite havia de estar tendo problemas também. Quando ia verificar o pisciano, seus olhos foram atraídos para o alto de um penhasco, de onde duas poderosas presenças foram sentidas.
Dentro dele houve uma explosão de ansiedade e ódio.
— A... Albiore! Radamanthys!... — sua voz quase surda, a boca encheu-se de fel. O afluxo de sangue entorpeceu sentidos que deveriam estar mais aguçados do que nunca. Principalmente porque viu o Cavaleiro de Prata lançar suas correntes na direção de Hyoga, Shun e Camus.
— NÃO!!! — berrou, estarrecido.
— Ah!... — fez Shun, igualmente surpreendido por aquele ataque súbito, erguendo uma verdadeira barreira de correntes móveis. As correntes de Albiore ricochetearam, gerando faíscas.
— Mestre... Mestre Albiore!... — balbuciou, arrepiado.
Havia se preparado para o terrível momento em que teria diante de si, como inimigo, como um traidor de Athena... seu amado mestre. Mas era muito, MUITO pior do que havia previsto. Um amálgama de emoções constringiu a garganta do adolescente, que sentiu de imediato o ardor das lágrimas.
— Shun, tenha cuidado!! — advertiu Hyoga, sentindo o embate de emoções no espírito do namorado. Permanecia ajoelhado, amparando o francês.
— C-Carlo! O-os meninos... — falou Afrodite, a luz dourada emanando de seu corpo ferido.
— Eu já vi! Precisamos ajudá-los! — e concentrando seu cosmo, rompeu o asqueroso abraço da centopeia, partindo suas patas, das quais espirrou um líquido abjeto. Verônica gritou de raiva:
—NÃO!! O que você fez com a minha preciosidade, seu insensível?!?
— O mesmo que vou fazer contigo, traveco ridículo — e ao se ver livre, ergueu a mão, liberando através de seu indicador em riste a horrenda energia de seu mais poderoso golpe.
— ONDAS DO INFEEERNO!!! — clamou, fazendo com que não apenas a alma como também os corpos físicos tanto do espectro quanto de seu monstro fossem enviados para o Mundo dos Mortos.
— N-não!! EEAAAARGHHH!!! — gritou Verônica, sendo sugado para um plano que sabia não ser o seu; espíritos sem luz já se acoplavam a ele, agarrando-o e levando-o diretamente para o Sekishiki... nem ele poderia jamais sair de lá...
Nesse meio tempo, Peixes também conclamou:
— Queime... queime, meu cosmo!!! — e rompeu os fios de Minos, que se surpreendeu incrivelmente.
— IMPOSSÍVEL!
— Não para quem usa o poder para proteger seus AMIGOS, seu cretino! ROSAS PIRANHAS!!!
As rosas negras partiram rumo ao Juiz, que com a guarda abaixada devido a ainda segurar seus fios, encontraram caminho para dilacerar parte da armadura, também rasgando a pele e a carne onde puderam alcançar.
— AAAAAHHHH!!! O que é istooo?? Aarrrhhgg!!! — foi jogado contra uma árvore, praticamente sendo crucificado ali pelos caules pontiagudos como facas.
— Apenas um aperitivo para ISTO... ROSA SANGRENTA!!!
E de sua mão uma rosa branca voou, espiralando-se pelo caminho, até Minos, fincando-se bem em seu coração. Ali ele ficou gritando, até calar-se para sempre, antes mesmo que a rosa em seu peito ficasse totalmente vermelha...
— É... é um pecado... u-uma rosa tão bela numa... armadura tão feia... — e caiu de joelhos o Santo de traços femininos cuja aparência ocultava sua bravura e força.
Meio cambaleante, Máscara da Morte foi até ele, sorrindo de alívio e orgulho.
— M-muito bem, Dite...
— N-não vem não, C-Carlo... n-não gostei nada daquela bicha te elogiando daquele jeito...
— Idiota... como se eu tivesse olhos pra alguém além de você...
Os lábios rosados do sueco se abriram num tépido sorriso antes de a queda o levá-lo ao chão. Antes que o atingisse foi envolvido pelos braços do italiano, que acorreu rapidamente em sua direção.
— AFRODITE!!!
O belo cavaleiro perdera totalmente a consciência. O canceriano sacudiu-o, aflito.
— Dite! Dite!!! Fala comigo!!! — enfrentar um Juiz tinha sido claramamente mais difícil do que fora para ele enfrentar Verônica.
— Realmente, aparências enganam, não é, meu anjo? — sussurrou carinhosamente, acariciando o alvo rosto machucado.
Enquanto isso, Milo também sentia os efeitos de ter lutado e derrotado um Juiz do Submundo. Seu corpo parecia desprovido de energia. Assistiu a Albiore confrontar o antigo pupilo:
—Fico feliz em comprovar seu progresso, Shun. Devo dizer que não estou surpreso.
— Pena que não posso dizer o mesmo, Mestre... tampouco estou feliz em vê-lo desta forma!
O adolescente controlava as correntes defensivas com seu cosmo. A seu lado, Hyoga já concentrava também seu cosmo, caso precisasse usar seu poder de gelo.
— Hyoga, não se preocupe comigo. Preocupe-se com Camus!
— Posso fazer as duas coisas, acredite.
— Shun!
Ante a voz imperiosa daquele que fora como um pai, o menino estremeceu.
— Não importam as circunstâncias atuais. Tendo sido EU o seu mestre, você me deve obediência incondicional... está consciente disto, não está?
— Não quando além de trair Athena cometeu tantos atos horríveis! Por que fez isso, Mestre Albiore? Por que vendeu sua alma e sua honra por uma vingança infundada e covarde???
O homem apenas continuou encarando-o do alto, direta e friamente.
— Recolha JÁ suas correntes, Andrômeda — ordenou o Santo de Cefeu.
— Mestre!... — os olhos verdes enevoaram-se mais ante aquele tom amedrontador. As correntes, contudo, continuaram erguidas, formando a parede que protegia os três ali abrigados.
— Você me ouviu. NÃO ME FAÇA REPETIR.
— Por quêêê??? Você era bom! Era justo! Eu acredito que o meu nobre mestre ainda está aí, em algum lugar, dentro dessa casca ressurrecta por Hades!
— Não adianta, Shun, ele não é mais o mestre bondoso que você conheceu. Olhe para o Camus! Olha pra TUDO que está acontecendo! — Hyoga o chamou à razão, preparando seu ataque.
A uns 15 metros dali, Milo considerou as possibilidades. Preferia enfrentar Albiore cara a cara, mas isso significaria ficar ocupado com o Cavaleiro de Prata deixar Radamanthys livre para atacar os meninos e seu amado. Melhor fazê-lo à distância. Levantou-se e concentrou seu cosmo.
— Mestre, por favor, NÃO É TARDE DEMAIS!!! Pare com toda esta loucura! — implorou o Santo de Bronze, chorando copiosamente.
— Shun, pare, não adianta!!— ralhou Cisne, entre agoniado e irado.
— Ouça seu amigo, Shun. Não adianta. Você não entende; é, sim, tarde demais...
Malgrado o que o mestre e o namorado lhe diziam... o virginiano percebeu algo naquela voz metálica... algo que encheu de ar seus pulmões e o fez gritar:
— Deixe esse caminho de trevas enquanto ainda há tempo, Mestre! Estou certo de que Agatha e seu filho irão te aguardar no Paraíso caso o senhor se arrependa de seus pecados e...
— CALE-SE!!! — tomado por um rancor furioso, Albiore lançou novamente as correntes rumo à muralha erguida por seu discípulo.
— Droga! — Hyoga percebeu a superioridade daquela investida em relação ao anterior: ergueu um espelho de gelo à frente delas, a fim de bloquear o terrível ataque, que liberou ondas de energia ao redor dos três.
— Desgraçado! — Milo desferiu suas Agulhas Escarlates no Cavaleiro malévolo; não contava que das correntes ofensivas que saíam de seus braços ramificassem outras mais, funcionando como um poderoso contra aqueles raios vermelhos.
— O quê?!? — murmurou o grego antes de ser atingido pelas costas por uma outra corrente, que nascera das que cercavam os garotos, e que se aproveitara da momentânea e perigosa distração. Ele caiu no chão, mais atordoado do que já estava.
— Milo!!! — chamou, Máscara da Morte, deixando Afrodite e erguendo-se para atacar. Ia usar sua telecinesia ofensiva mas ao erguer-se foi surpreendido pela mesma corrente que agora rumou para ele numa velocidade indefensável.
— Puta que... — a ponta atingiu-o bem na cabeça, também pelas costas. Se não fosse seu elmo poderia ter sido fatal. O impacto, contudo, fez com que perdesse a consciência.
— Aaah... não... C-Carlo... — o grego, de bruços, cuspiu sangue. Forçou os cotovelos, tentando se erguer.
Albiore pulou de cima do penhasco e aterrizou no solo. Caminhou para onde estavam os Santos de Bronze e o seu ex-prisioneiro.
— ALBIORE!!! — enfim Radamanthys se manifestava — Rompa logo a barreira! Mas tome cuidado com o receptáculo de Hades! NÃO O MATE!
— Não sou nenhum tolo — retrucou o Cavaleiro, lançando novamente as correntes, desta vez energizadas — Nunca mataria nosso Senhor. Vou apenas deixá-lo fora de ação.
— Hyoga... de que diabos eles estão falando?
— Não faço a menor ideia, Shun!!...
— Desista, Andrômeda. Entregue Camus a nós e nada vai acontecer a você e a seu amigo, eu prometo — mandou seu mestre, imperturbável.
— NUNCA!!! Nós vamos protegê-lo, custe o que custar!
— Bem... neste caso...
E a um movimento assustadoramente veloz, as correntes de Albiore encontraram uma brecha na defesa circular. Ele proferiu seu golpe mais poderoso:
—RELÂMPAGO DE CEFEU!
A impiedosa eletricidade fluiu para o interior do abrigo erguido por Shun e os Santos ali dentro foram por ela atingidos, seus corpos ressentindo-se do potente choque elétrico.
— AAAAAAAAAAAHHHH!! — gritaram os dois adolescentes, caindo ao solo, os luminosos feixes luminosos ainda circundando-os.
— SHUN! HYOGA! — Milo berrou, erguendo-se por fim. Viu os jovens desacordados no chão. Mesmo com toda perversidade de que Albiore pudera provar ser capaz, tremeu, incrédulo, ante tamanha iniquidade.
— COVARDE! Como teve coragem de fazer isso COM SEU PRÓPRIO DISCÍPULO?!? — vociferou, revoltado.
— É como eu disse a Andrômeda: é tarde demais para voltar atrás — respondeu, inclemente.
— EU VOU ACABAR COM VOCÊ!
Ergueu sua mão, desferindo uma das Agulhas na forma de um raio rubro. Utilizando a defesa circular, Albiore repeliu o súbito ataque. Em seguida, lançou sua arma na direção do Santo de Ouro, que desviou-se, lépido como sua fama apregoava.
— Não pense que porque é um Cavaleiro de Ouro será fácil me derrotar. Tem experiência nisso, pelo que me lembre — provocou.
— Sim. Mas desta vez quem está cego de ódio e espírito de luta SOU EU!!!
Cada um lançou-se contra o outro, rancores aflorando numa necessidade de embate corporal. Queriam provar o sangue um do outro, sentir o punho contra a carne um do outro, ouvir o som de ossos se partindo um do outro; passaram a trocar socos, chutes, golpes sem trégua a uma velocidade impossível de ser acompanhada por olhos normais.
— Então, Milo, agora SABE COMO É A SENSAÇÃO!!!
— De ODIAR, sim. De QUERER VINGANÇA, sim. De ser um COVARDE, NÃO!!! JAMAIS!!!
Ainda de sua posição elevada e distante, Radamanthys observava a intensa luta entre os dois, atentamente. Não perdia também de vista o Santo de Andrômeda, que jazia sobre a relva. Encontrava-se apenas desmaiado, seu Senhor não sofrera maiores danos. Finalmente, seus olhos caíram sobre Aquário, igualmente desacordado. Reparou com curioso orgulho que os curativos que fizera em seu tórax ainda estavam ali. Pelo visto, uma das ataduras fora utilizada para estancar a hemorragia do ferimento causado por Valentine. Tinha-lhe tanta raiva por isso que sequer sentira alguma coisa ao encontrar o cadáver do ex-amante no caminho.
Não importasse quanto fora amado por aquele que agora jazia num buraco no chão daquela terra estranha... o quanto se perdera naquele corpo...
Seu destino seria com Camus.
No Inferno.
Para todo o sempre.
Ele só teria que aguardar um pouco mais agora...
De um lado, dois Santos de Ouro desmaiados. Do outro, dois Santos de bronze.
No meio deles, seus dois rivais digladiavam-se ardente e ininterruptamente.
Seu Camus apenas aguardava que ele o coletasse como uma pedra preciosa na beira de um rio cristalino e selvagem.
Bastava que seu plano funcionasse de acordo com suas previsões.
E um espectro do alto escalão responsável por julgar os mortos, dificilmente se enganava a respeito dos tão previsíveis seres humanos...
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