Grilhões Eternais
20 Brutalidade
Notas iniciais

Sob os olhares de todos que estavam no quarto do Papa, Shaka de Virgem adentrou, trajando sua túnica indiana de linho claro. Trazia no pescoço inúmeras contas, e na mão direita, um colar vermelho de contas maiores. Saori levantou-se da cama e o saudou com a cabeça. Ele fez uma reverência e olhou para o Santo de Escorpião, deitado no enorme leito, sob um sono agitado de quem tem sonhos perturbadores.
— Pode colocar — disse ela. O virginiano aproximou-se de Milo e, erguendo sua cabeça, pôs o colar de contas vermelhas em seu pescoço. Só então os rapazes perceberam as inscrições em cada uma das bolas, ideogramas arcaicos.
— Quando quiser, Athena — falou o loiro, como sempre mantendo os olhos fechados.
— Conto com você.
E prontamente uma luz dourada começou a fluir do corpo da jovem.
— Athena está ativando seu cosmo... o que será que vai fazer? — sussurrou Afrodite para Máscara da Morte, que ergueu os ombros em dúvida.
Nesse meio tempo, Ikki e Mu chegaram ao local, e o ariano foi cuidar de Hyoga, ferido nas costas e na cabeça pela estátua contra a qual se chocou quando foi lançado para trás por Milo durante o transe.
— Está pronta, minha Senhora? — perguntou Virgem, unindo as mãos.
— Estou sim, Shaka.
— O que vai fazer, Athe... — começou a perguntar Máscara da Morte, mas foi calado por um sinal de “silêncio” de Shura.
As mãos alvas de Saori posicionaram-se uma de cada lado das têmporas de Milo. Ao ser tocado pela Deusa, imediatamente arqueou o corpo e deu um profundo suspiro, como que sugando o ar após ser afogado. Ela fechou os olhos, e o brilho de seu cosmo intensificou-se. As contas começaram a emanar uma misteriosa luminescência nos ideogramas.
No instante em que a garota abriu os olhos, não estava mais nos aposentos santos. Viu-se flutuando na escuridão. Distinguiu ao seu lado a figura de Escorpião, ajoelhado no espaço, sem o menor traço de sanidade no rosto paralisado.
— Milo? — tentou chamar. O Cavaleiro, contudo, apenas fitava o que tinha à sua frente, o que ela constatou ser uma espécie de sala ampla, com paredes e chão de pedra; no centro, uma cadeira de ferro, com uma pessoa nela presa por correias de couro, imobilizadas pelos pés, mãos e tronco.
— Mestre Camus... — balbuciou, chocada com o estado de seu Cavaleiro: a entrega no semblante ferido, a intimidade à mostra, as marcas roxas que se adivinhava nos pulsos restritos. Compadeceu-se dele. Quis tirá-lo dali, ela mesma, mas percebeu que não podia avançar mais. Ninguém a via, nem mesmo Milo, nem mesmo as pessoas perto de Aquário. Uma era Albiore. A Deusa entristeceu-se: sabia que ele havia sido, no passado, leal e justo a Ela. Sua consciência divina sabia-o. A outra pessoa... de cabelos curtos loiros... roupa e capa pretas... as sobrancelhas juntas...
Arregalou os olhos.
CONHECIA aquele homem.
DE ONDE?
DE QUE ÉPOCA?
Uma força começou a puxá-la para trás. Um poder rejeitava-a ali. Não era bom!
“Shaka!”, clamou mentalmente daquele plano obscuro. E no mesmo instante sua consciência estava de volta ao quarto do Patriarca, as mãos ainda sobre o escorpiano de cujo pescoço simultaneamente Virgem retirava o colar. A Deusa vacilou, só não tombando graças ao amparo dos ali presentes.
— ATHENA!!! — assustaram-se, ao vê-la fraquejar. Contudo, logo abriu os olhos negros e ficou ereta, dispensando maiores cuidados.
— Estou bem, meus amigos.
— O que... o que foi isso, Athena? — quis saber Afrodite.
— Shaka possibilitou a Athena que ela fosse até o plano onde se encontra a consciência de Milo — explicou Mu.
— Peraí... quer dizer que foi até onde o Camus está? — indagou Máscara da Morte.
— Em espírito, sim...
Hyoga desvencilhou-se do apoio de Seiya e perguntou, aflito:
— Saori, viu alguma coisa? O que está acontecendo com meu mestre? Onde ele está? Ele está sendo torturado, não está? ME DIZ…
E uma vertigem quase o faz tombar, não fosse o amigo segurá-lo. Ela considerou o loiro, sabendo que não poderia DE FORMA ALGUMA dizer o que ESTEVE acontecendo com o aquariano. Sob os olhares ansiosos de todos, ela declarou:
— Eu vi uma pessoa. Uma pessoa que conheci.
— Albiore? Mas você não chegou a conhecer o...
— Não. OUTRA pessoa.
— Outra pessoa?...
Ela se virou para Fênix.
— Ikki. Entre agora mesmo em contato com o Núcleo de Inteligência da Fundação Graad.
— É pra já, Saori — e o jovem prontamente saiu em disparada.
Peixes sorriu, esperançoso.
— Alguma pista, Athena?
— Acredito que sim, Afrodite. Acredito que SIM.
*************
—Eu não entendi, Albiore. Quer que... que eu POSSUA este... verme de Athena? Por quem você me toma, Cavaleiro de Prata?
Radamanthys parecia não ter recebido aquela ordem estapafúrdia de bom grado. Para piorar, quem entrava na câmara para tirar as amarras do Santo de Ouro era ninguém menos que Valentine.
Aquele desgraçado do Albiore queria mesmo ver o circo pegar fogo!...
— NÃO SE ATREVA a fazer isso!... — bufava Milo, irado.
Valentine aproximou-se deles.
— Quais são as ordens? Se me chamaram dos meus aposentos, espero que seja algo digno de minha presença.
— Quero que tire Aquário da cadeira onde está amarrado. Segure-o bem para que não resista depois de solto.
— Hum, será um prazer — sorriu o espectro. Ele cuidaria muito bem para que o Santo não reagisse... iria cravar naqueles braços suas longas unhas para que descarregasse um pouco suas angústias de mais cedo. Mas ao chegar perto de Camus, surpreendeu-se ao ver a calça aberta, praticamente arrebentada, o pênis para fora e sêmen nele e no couro negro... até no chão...
Estremeceu.
— O que aconteceu aqui??? — inquiriu, irritado.
— Você ouviu a ordem, Valentine. Apenas obedeça.
— Mas...
— NÃO ENCOSTA MAIS NELE, SEU MONSTRO DESGRAÇADO! DEMÔNIO! FILHO DA PUTA! — gritou o escorpiano. Valentine não o ouviu, porém ouviu a resposta do Cavaleiro de Prata.
— Ele fará mais que encostar desta vez, Milo... mais do que simplesmente DAR PRAZER.
O espectro de cabelos róseos olhou para Radamanthys, boquiaberto.
— Não me diga que... você... você...
— Valentine, não me ouviu? SOLTE Aquário.
— O QUE vão fazer com ele?
— Radamanthys irá possuí-lo diante de Escorpião.
Dando um passo para trás, Valentine não pôde se conter:
— O QUÊ?! Por que… POR QUE RADAMANTHYS???
— Foi uma decisão baseada na indicação e na observação de vocês, espectros de Hades — Albiore explicou, didaticamente — Radamanthys me foi indicado como o mais conhecido amante do Submundo. Suas conquistas são famosas dentro e fora do Inferno, e sua performance, notória. A melhor escolha para dobrar o frio Aquário. Deve saber a razão, Valentine.
Ao ouvir aquele calhorda dizer tais coisas e mais uma vez mencionar seu nome, o espectro cerrou os dentes, controlando a muito custo a vontade de avançar naquele rosto impassível.
— Amante vigoroso e fogoso, bem típico do signo de Escorpião... que inclusive é o signo de Radamanthys, pelo que soube. Quanto à observação, bom... pude perceber que o grande Juiz do Inferno não é tão indiferente ao Cavaleiro de Aquário quanto aparenta... ou melhor, quanto pretende ser.
Desta vez foi o inglês que se irritou:
— O que está insinuando?
— Deveria saber que tenho o nosso prisioneiro sob estrita vigilância. Seu companheiro aqui talvez possa atestar o que estou sugerindo — finalizou com um sorriso hediondo.
Valentine tremia de ódio.
— Qual a razão disso? Há DEZENAS de espectros aqui no castelo e você escolhe um JUIZ DO INFERNO para se prestar a tão baixo serviço! É um ultraje! Suas razões são pífias para mim!!! — gritou.
— Valentine — interrompeu o amante — OBEDEÇA. É uma ordem MINHA também.
— Ra...Radamanthys...
Insensível à batalha interna do amante do Juiz, Albiore disse:
— Vamos. Tire-o da cadeira e algeme-o cuidadosamente quando...
— Não — Radamanthys interrompeu — NÃO vai algemá-lo.
— Como? — o mestre de Shun se fez surpreso.
Milo a tudo ouvia e assistia, entre anestesiado e chocado.
— Como você mesmo disse, Albiore, sou o maior amante do Submundo. Não necessito de artifícios como algemas para subjugar este ser inferior.
As expressões de Camus e de Valentine equivaliam-se em estupor.
“Os dois... são aquarianos... eu e Milo, escorpianos”, divagou, momentaneamente.
Albiore deu de ombros.
— Hunf… faça como quiser. Contanto que dê um excelente espetáculo ao Escorpião — e virando-se para o outro espectro, ratificou a ordem.
Este rosnou baixo e foi até onde estava o cativo. Radamanthys observou-o, enquanto ele desafivelava uma a uma as tiras de couro que restringiam o corpo tentador que ele iria provar muito em breve.
Mal podia conter-se de expectativa.
Muito embora pertencesse às Regiões Abissais, nas quais provocar dor e sofrimento e neles se deleitar fosse a regra, o Juiz estava acostumado em ser requisitado por homens, mulheres, divindades, tanto que por vezes recusava. Nunca precisara tomar ninguém à força, e ao contrário de tantos espectros, a ele não interessavam tais procedimentos. Denotava que ELE, e não a outra pessoa, encontrava-se desesperada por alguém, a tal ponto de se prestar ao descontrole e à violência. Não. Apreciava ser desejado, idolatrado, requestado, e sempre o fora. Agora... teria que tomar o corpo de um homem que claramente NÃO o queria.
Se pudesse escolher, não seria assim.
Não que seria romântico ou algo do tipo. Não!
Mas não seria assim.
Contudo... tratavam-se de ordens. E ele sempre fora exímio cumpridor de regras, para julgar tinha que ser reto e leal.
“Então... que assim seja.”
Os pés de Camus estavam livres das correias. O espectro retirou as fivelas das amarras superiores. Enfim, livrou as mãos do prisioneiro das tiras. Reparou as marcas muito escuras na pele do pulso, denotando grande resistência. Sentiu um nó na garganta. Agarrou-lhe o braço, rispidamente, exigindo que levantasse. O Santo obedeceu, sem resistir.
— Zeus... Camus... — balbuciou Milo, a pele ardida de tanto chorar.
Ele ergueu-se docilmente, sem nada dizer. Sua cabeça, que ainda estava baixa, levantou-se, deixando à mostra o rosto cuja expressão era uma incógnita.
Foi quando num inesperado assomo, acertou o delicado rosto do espectro a seu lado com um soco poderoso demais para alguém tão machucado e ferido. Valentine foi projetado para longe dele, dando um pequeno grito, tanto de dor quanto de surpresa.
— O quê? — fez Albiore, assombrado.
— Camus!! — Milo gritou, entre assustado e esperançoso.
— Seu... SEU MALDITO! — praguejou Valentine, pondo-se de pé e exugando com as costas das mãos o sangue que descia em abundância das narinas. Precipitou-se para ele, porém o aquariano girou a perna para o alto, acertando desta vez o maxilar do espectro, imediatamente invadido por uma dor ainda mais devastadora. Caiu após chocar-se violentamente contra a parede de pedra.
Radamanthys prontamente investiu contra o prisioneiro, tencionando socá-lo. Antes que fosse atingido, Camus se esquivou, surgindo de baixo do Juiz com um potente golpe dado na perpendicular, e acertando-lhe em cheio o queixo. Evitando a queda, ainda que tivesse sentido bastante, o loiro tentou atingi-lo com um pontapé, sem sucesso: o francês escapara dando um elegante salto mortal para trás, assumindo posição de luta ao pousar felinamente.
Milo pareceu sair da dolorosa catatonia ante a visão emocionante de seu amante de pé, ofegante, porém desafiante, no centro da câmara:
— CAMUS!!! — gritou, o orgulho explodindo na garganta.
Santos de Athena eram guerreiros que queimavam o cosmo para efetuar milagres inacessíveis aos demais, todavia também eram mestres em lutas marciais das mais diferentes modalidades. Camus não era exceção, muito pelo contrário...não era mestre por acaso. Aliados a essa habilidade, a ira e o seu senso de preservação.
— Você vai MORRER, desgraçado!!! — berrou Valentine, atacando por trás. Uma cotovelada certeira mais uma vez levou-o a nocaute, o sangue já o sufocando nas vias respiratórias.
— Incrível, Aquário — enunciou Albiore, sem sarcasmo algum — mesmo sem se alimentar há três dias, mesmo após os suplícios e com todos esses ferimentos, você, SEM USAR o cosmo, consegue golpear dois espectros...
— Você será o próximo, Albiore! — anunciou Camus, completamente transformado agora. Não obstante, ao investir seu punho sobre o Cavaleiro de Prata, foi interceptado por Radamanthys, que desferiu um violento golpe em seu estômago. Ele caiu, dobrando-se de dor, fazendo Milo gritar:
— CAMUS! NÃO!!!
Mas ao contrário do que se poderia supor, antes que a mão do Juiz o alcançasse, ele deu mais um fantástico salto mortal para trás, fora de seu alcance, e assumindo nova postura de combate.
“Magnífico”, pensou Radamanthys, enxugando o sangue que ainda descia do canto de sua boca, “Pensar que tal espírito de luta manifesta-se em seu corpo sob tão adversas condições...”
Agora queria mais do que nunca possuir aquele homem.
Já não se importava com o fato de ser à força.
De repente, viu-o dobrar o corpo para frente, sob intensa dor desencadeada pela coleira negra.
— AAAAAAAAHHH!!! — caiu de joelhos, uma mão no peito e outra no chão.
Radamanthys franziu o cenho, sem disfarçar seu desagrado ao ver Albiore brandindo a mãos na direção do Santo que sofria os efeitos do artefato de controle. Percebeu um anel de mesmo material e cor no dedo anelar do Cavaleiro de Prata.
— Pare JÁ com isso. Já disse que não preciso de artifícios além de minha força para dominar esse homem.
— E eu já disse que HONRA não está em jogo aqui. O elo psíquico não demora a se desfazer. Vá! POSSUA ELE AGORA! — Albiore respondeu, num modo autoritário que desagradou ambos espectros. Mesmo assim, Radamanthys pôs-se a caminhar na direção do cativo. Ajoelhou-se diante dele, que gemia de dor. Só de estender a mão em sua direção, o aquariano exclamou:
— NÃO! NÃO ME TOQUE!
Ignorando aquilo, arrebentou-lhe a braguilha da calça de couro do prisioneiro. Prendeu-o com mãos fortes. Camus debateu-se, tentando acertá-lo com joelhadas.
— Não pretendo machucá-lo, Cavaleiro. Mas tenho ordens a cumprir. Se dificultar meu serviço, terei que te ferir. E não costumo ter clemência.
— Nem pense em deixá-lo inconsciente — orientou Albiore — Quero que Milo ouça o namoradinho...
— Camus!!! CAMUS!!! SOLTA ELE! ISSO NÃO PODE CONTINUAR, ALBIORE!
— Espere e verá, meu caro.
— NÃO ENCOSTE EM MIM! PARE! — gritou, levando um forte tapa do loiro no rosto. Levou mais um. Não satisfeito, Radamanthys agarrou-lhe pelo pescoço e bateu a cabeça do francês no chão.
— AAAHH! — a brutalidade o deixou atordoado. Ficou subitamente mole.
— SEU ANIMAL! EU VOU MATAR VOCÊ, SEU FILHO DA PUTA! DEMÔNIO MALDITO!! — o grego não queria nem saber se o hediondo espectro ouvia-o ou não.
— Radamanthys! O que foi que eu disse sobre desacordá-lo?
— Não se preocupe, só estou “amaciando a carne” — zombou, muito calmamente.
Ao lado do Cavaleiro de Prata, Valentine tremia de raiva. Seu amado estava prestes a...
Aproveitando a imobilidade de Camus, Radamanthys começou a tirar a única veste do aquariano, que balbuciou debilmente, estonteado:
— Não... não me... não... — o outro segurou-o rudemente pelo queixo, encarando-o ferozmente ao anunciar:
— Permita-me devolver isto — e mordeu com selvageria o lábio inferior do aquariano, arrancando dele além de sangue um grunhido surdo.
— CAAAAMUUS!!!!
Daí em diante, Milo não mais parou de gritar. Albiore sentou-se na cadeira e cruzou as pernas, apoiando o queixo com a mão, muito à vontade enquanto assistia com ardente deleite não àquela brutalidade, e sim à agonia destemperada do escorpiano.
Radamanthys pousou os lábios ensanguentados naquela pele gelada, deixando aqui e ali não só o rastro rubro mas também vermelhidões causados ora por seus dentes ora por chupões profundos. Quando Camus tentou acertá-lo com as mãos, teve os pulsos firmemente seguros acima da cabeça. A outra mão do espectro acariciava-lhe o flanco, enquanto ele beijava lentamente a barriga, que retesou de dor e repugnância. Inseriu a língua no umbigo e fez com ela movimentos circulares ali. Deslizou a palma até as coxas, em supremo júbilo ao constatar que elas ainda eram mais deliciosas do que a justeza do couro havia prometido. Mordeu-lhe os mamilos, arrancando de sua presa um gemido de dor. Uma violenta náusea tomou conta de Camus: a saliva do Juiz banhou-lhe os mamilos mordidos.
Acreditando que ele estivesse sem condições de se mover, Radamanthys soltou-lhe os pulsos: queria usar as duas mãos para explorar aquele corpo fascinante. Aproveitando-se disso, o aquariano tentou dar-lhe um murro, mas foi bloqueado pelo antebraço do espectro, que irritando-se, não se conteve em esbofeteá-lo mais uma vez com toda força. E em seguida, socou seu estômago para para-lo de vez.
Camus achou que fosse desmaiar. Dor, vertigem, névoa em seus olhos, o asco... suas ancas frementes foram apalpadas pelo outro, que tencionava mudá-lo de posição.
— Não... n-não...
“Eu vou fazer o desgraçado SENTIR, nem que fique o resto da semana estocando este rabo”, pensou Radamanthys, virando-o de bruços. Nesse momento, Milo sentiu a vida abandoná-lo. Já nem ouvia seus próprios gritos, apenas sentia a garganta queimar, os pulmões doerem, o coração despedaçando-se no peito. Os olhos pareciam de vidro: não piscavam, não moviam. Estavam mortos.
Mortos como foram a alma e o espírito de Milo ao presenciar aqueles braços envolverem o torso de Camus, prendendo-o totalmente, aquele enorme e pálido corpo por cima do corpo ferido de seu amor, o sexo descomunal repleto de veias penetrar de uma só vez no interior do aquariano, que urrou de dor. Ao mesmo tempo que as suas, lágrimas desceram pelo rosto sofrido de Camus. Radamanthys ergueu a face, inebriado pelo indizível prazer de introduzir-se num lugar tão quente, tão apertado, tão revolto: os músculos se lhe resistiram deliciosamente, e aqueles gemidos só tornavam tudo ainda mais sublime. Permitiu-se um longo gemido de excelsa satisfação, sem deixar de segurar o outro:
— Aaaahh...
Grande Hades, não era à toa que o tal Escorpião encontrava-se tão doido por ele! Para o inferno! Nem os Elíseos ofereceriam semelhante deleitamento. Apertou-o mais em seus braços, mais gemendo do que propriamente falando:
— Uhnng... não tem que... não tem que ser ruim, Aquário...
— Isto é... é só um CORPO, criatura baixa... não vai... contaminar minha alma... não vai destruir meu amor por Milo!
A primeira estocada, dada de forma rude em resposta àquela recusa em efetuar uma trégua, o fez urrar, sentindo-se rasgar por dentro:
— AAAAAAAAAHHHH!!! NÃÃÃÃO!!!!
A segunda estocada o fez gritar novamente, o choro intensificando-se e diluindo a intenção primordial de demonstrar o mínimo possível de dor perante Milo. E foi assim na terceira... na quarta... na quinta...
Impossível. Ele era brutal. NÃO tinha como não gritar. Obviamente ele não racionalizava isso. Apenas acontecia.
Radamanthys afundou suas presas no ombro do francês, lambendo sua nuca em seguida. Valendo-se de sua superioridade física, passou a imobilizá-lo pelo tórax com apenas uma das mãos, e com a outra, pôs-se a masturbá-lo. Cerrava os dentes, concentrando-lhe para não dar descanso tão cedo àquele renitente Cavaleiro.
— Nnngh... por Hades... v-você... é muito gostoso — comentou, enfiando-lhe a língua na orelha, impressionando-se com o perfume daqueles longos cabelos exoticamente azulados: mesmo após três dias de cativeiro, maltratos e torturas, parecia ter saído do banho, tal o frescor de seu cheiro, a maciez de sua pele... jamais, jamais possuíra alguém tão intoxicante. Quis fundir-se com ele eternamente. Beijava-lhe a nuca com lascívia e ardor incontrolados.
— Aaahhnn... nnngh... — gemia Aquário, sofrendo em agonia. Um filete de sangue desceu-lhe pela perna esquerda. A bem dizer, perdera a virgindade com Milo, havia menos de dois meses. Não conhecia aquele jeito animalesco de copular, e para acrescentar, o falo do espectro era, além de enorme, muito grosso. Sentia as entranhas em fogo, agora apenas torcendo para que acabasse logo.
A desgraça se consumava: ele estava sendo horrivelmente humilhado diante de seu amado, estuprado pelo carrasco que o fizera gozar vergonhosamente instantes antes, e agora, gravemente ferido, coria o risco de mais uma vez sucumbir, literalmente, nas mãos daquele demônio.
Trincou os dentes, apenas esperando que acabasse logo.
Depois disso... tentaria morrer.
Não sabia como conseguiria.
A vida, porém, chegara ao fim para ele, que há algumas semanas voltara milagrosamente à ela, e para os braços do amor de toda sua existência.
A pressão em sua masculinidade aumentava num crescente enlouquecedor. O espectro dizia coisas ao seu ouvido que ele não mais escutava.
Não ouvia mais sequer os próprios gritos.
Como uma barra de ferro em brasa, o pênis de Radamanthys não cessava de massacrá-lo por dentro.
Não... AQUELE PONTO NÃO.
— Radamanthys, vai demorar muito? O elo deve estar prestes a ser interrompido — alertou Albiore, olhando a cena com total indiferença.
O Juiz não se deu ao trabalho de responder. Imprimiu maior velocidade e pressão às estocadas, tanto na entrada ferida de Camus quanto no membro inchado e dolorido deste. Gemendo baixo, o francês temeu não aguentar por muito mais tempo. Tivera até ali a esperança de que o efeito do Olho do Destino cessasse antes de sua odiosa queda... contudo, a energia que irradiava de seu ventre para seu sexo exigiu irromper os domínios da carne.
— Aahn!... — oprimiu o gemido mordendo os lábios rubros ao ser sacudido, NOVAMENTE, por um amaldiçoado orgasmo. Desejou a morte mais do que nunca. O intenso clímax provocou-lhe nos músculos internos violentas contrações que aprisionaram ainda mais o órgão de Radamanthys, sugando-o e fazendo-o desejar ser completamente sugado para dentro daquele delicioso homem. Não era do tipo de gozar ruidosamente, porém... pelo que ordenara Albiore, pelo que queria que Milo visse ( e pelo que agora, ele próprio queria o mesmo ), por seu próprio prazer supremo, permitiu-se urrar, sentindo-se arrebatar pelo mais vigoroso, poderoso e inacreditável orgasmo que já experimentara... e ele havia experimentado milhares... agarrou Camus com ambos braços, apertando-o tanto que ao Santo faltou o ar. Tremendo convulsivamente, afundou seu rosto na curva do pescoço do prisioneiro, provando-lhe, mais uma vez, a pele agora nada fria.
Albiore embriagava-se com a expressão... como descrever?
Desolada?
Derrotada?
Devastada?
Dir-se-ia que enfim a vida escapara do Cavaleiro de Escorpião.
Nada mais que uma carcaça havia ali.
Extirpara de seu inimigo o orgulho.
A felicidade. O amor. A vida.
Sentia-se plenamente vingado.
Radamanthys saiu de cima de Camus, cujo corpo estava coberto de feridas, arroxeados e hematomas. As feridas do açoite de Zeros abriram-se, e sangue espesso brilhava-lhe nas costas. Havia também sangue em sua boca, em seu nariz, escorrendo também por entre suas pernas, além de vários arranhões, dentadas e unhadas.
As lágrimas de Milo pareciam ácido em seu rosto desfigurado pela dor. Não mais gritava. Principiou a ver a imagem diante de si desvanecer-se. Pouco a pouco.
Camus permaneceu deitado, imóvel, agora de lado, tentando esconder seu corpo e rosto.
Sabia que ele estava vivo.
Consciente.
“Não se oculte! Olhe para mim, Camus! Não faça isso! A CULPA É MINHA!!!”
— Até uma outra hora, Milo. — disse o Cavaleiro de Prata, com um pérfido meio sorriso.
Antes que a realidade fosse tingida de negro, o escorpiano gritou mais uma vez o nome do amado... e sabia ser a última...
*************
—O elo psíquico foi desfeito — observou Albiore — que bom que desta vez demorou mais.
Tornou o olhar azulado para o Cavaleiro no chão. Um Santo de Athena. Como ele fora em vida. Jazia ali... humilhado, violentado, ferido, sangrando. Demorou-se na contemplação do perfeito protótipo do anjo caído.
Não sabia precisar o que sentia.
Regozijava-se perante a dor de seu inimigo Escorpião. Contudo, perante a dor daquele homem...
Procurou logo afugentar aqueles pensamentos.
Fora longe demais.
Demais.
Não havia como voltar.
Nem que quisesse.
E não queria. Mas...
— Mais alguma ordem sua, Albiore? Eu gostaria de tomar um banho, e um drink — quis saber o Juiz, ajeitando suas roupas após vestir a capa preta que havia tirado antes da primeira etapa da “sessão”.
— Pode se retirar, Radamanthys. Eu... eu me encarregarei de levar Aquário de volta à cela dele. Valentine, acompanhe seu Juiz.
O espectro de cabelos rosados assentiu, fervendo de ódio. Cerrou os punhos presenciando o cativo se erguendo. Com dificuldade, fazendo uma careta de dor, conseguiu ficar em pé, embora não totalmente ereto. Colocou um braço no ventre, sob dores atrozes.
Todos ficaram em silêncio. “Também ele é apenas uma carcaça agora”, refletiu Albiore.
Radamanthys retirou de si a capa preta, e caminhou até o francês. Jogou-lhe por cima do corpo, de forma a cobrir-lhe a nudez.
Segurando a capa com dedos trêmulos, Camus cuspiu na face imota do Juiz.
Revoltado com aquela audácia, Valentine pretendeu avançar no Cavaleiro de Ouro; seu amante, no entanto, se interpôs.
— Vamos, Valentine. Enquanto eu tomo um banho, você me prepara um drink.
Valentine fuzilou o francês com seu mais frio olhar de desdém.
— Sim, Lorde Radamanthys. Precisa mesmo tirar essa imundície de seu corpo... possivelmente terá que demorar muito, MUITO, no banho... — e deu-lhe as costas, seguindo o espectro loiro. Saíram da câmara, deixando Camus e Albiore a sós.
O mestre de Shun viu-se perturbado por algo que não sabia precisar... fez sinal para que Camus o acompanhasse, sem proferir palavra. O aquariano nem bem começou a andar, quase caiu. Teria chegado ao chão de pedra não fosse o reflexo de Albiore em ampará-lo. Ante aquele contato brusco, Camus gemeu alto de dor. O Cavaleiro de Prata entreabriu a boca: o sangue do outro sujava-o.
Maculava-o.
Algo nisso causou viva impressão nele.
Franzindo os olhos, como a reunir forças, o prisioneiro aprumou-se. Ergueu-se e pôs a andar à frente do Mestre de Shun, que o considerou, com algo inédito no semblante...
Depois que o aquariano adentrou a cela, o loiro deu instruções a um guarda:
— Prenda-o como de costume. Ele está muito fraco e ferido, não oferecerá resistência. Traga-lhe água e comida, e... até segunda ordem, não permita que NINGUÉM entre na cela. Nem mesmo Radamanthys.
— Sim, senhor! — o espectro, de tez acinzentada, fez uma reverência.
Retirando-se para seus aposentos, Albiore olhou para o sangue em suas mãos.
“Também eu preciso de um banho”, pensou, subindo as escuras escadas de pedra que o levariam para fora das masmorras.
*************
Fale com o autor